Tuesday, December 25, 2012

Iminências (reescritas).

Era quase redondo o peso do sentimento. Uma coluna extraída do campo das coisas graves parecia ter sido recortada exclusivamente para mim, meu talhe encurtado. O ato de nomeá-la como exclusiva, como sendo a coluna talhada para o meu corpo, sob medida, deixava-a mais pesada do que de costume, uma vez que eu intui naquele instante que lá ela sempre esteve, invisível. A dispersividade das forças em vez de me ameaçar operava a meu favor, era esse o meu credo. Essa coluna era o fim do início de algo que eu não saberia precisar nem com mil palavras. Uma espécie de sofrimento avizinhava-se de mim, rodeando-me, salteando em torno de mim com um sorriso de canto de boca acintosamente maldoso, mirando o meu íntimo, imiscuindo-se no meu mais íntimo que era o pouco de alegria que o meu corpo de pilha de rádio estourada não deixava entrever. Irônica coluna, pensei e não tive força para amaldiçoá-la. Das uma às duas da tarde, quedei-me enquanto minha querida e antiga dispersividade esvaía-se de mim, jorrava como um jato involuntário de uma substância vital que é expulsa do lugar onde, por nascimento, tivera seu pouso certo e funcional e correto. Nem cansativo, nem apelativo. A vida àquela altura me parecia uma mixórdia escarlate de percepções distorcidas, e minhas distorções pareciam não mais quererem ser minhas companheiras, havia um ar de revolta contra mim mesmo, uma revolta de si que não levava em consideração minha alteza e dignidade reais como centro do poder e da sedução que dantes eu buscava com convicção descrever para quem estivesse no meu entorno, com palavras e gestos soberanos, arrogantes. Eu ia e voltava naquele redondo da coluna como se volteasse com as mexicanas, minhas inimigas que eram as únicas a romper o invólucro e me atingir, picantes, a pele do rosto, entrando furiosas pelos buracos da minha cabeça, uma delas deixou-me surdo para sempre do ouvido do lado esquerdo. Senti-me como Prometeu acorrentado. Um Prometeu distante, fajuto, do terceiro mundo, colonizado, um abestado. Deixei-me abater pelo sono, acho que fui picado pelas mexicanas, e esqueci-me da ressonância odiosa daquela ociosa vida, vida que me fazia abandonar involuntariamente o campo de minhas mais queridas possibilidades, até aquele momento, pelo menos. A coluna se apoderou de mim em plena quinta-feira! Tornei-me um estúpido e bem-comportado trabalhador. Acreditei que havia algo do amor universal naquilo tudo, um trapézio sem rede embaixo tinha sido para mim preparado, eu embelezava com crenças idiotas a minha própria queda no vazio, os ossos chocando-se contra o mais duro mármore, som de osso batendo no chão foi a única memória que meu corpo guardou antes de ser esmagado, destroçado e feito em picadinhos que foram lançados como pérolas aos porcos.

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