Thursday, November 01, 2012

O imbróglio da compra de votos nas eleições em Fortaleza: uma reflexão antropológica.

Não concordo muito com as análises segundo as quais os votos de uma eleição foram comprados, pois não há ato humano que não seja expressão de uma convicção, nem que esta seja a de uma crença no esvaziamento do próprio sentido de qualquer convicção. Atos de compra engajam atos de consumo que, por sua vez, expressam sentidos. Um tipo de convicção negativa sobre o sentido total da experiência humana que é uma marca forte das formas conservantistas de pensar funciona desse modo. Portanto, o pessimismo é uma forma de convicção, do mesmo jeito que a valorização da moeda também o é. Inclusive, há perspectivas que veem no uso do dinheiro um fator de liberdade humana, apesar de eu não concordar com isso, do ponto de vista pessoal, mas é digno de nota, do ponto de vista analítico. Não se trata de defender uma relativismo moral, nem um relativismo niilista, minha ponderação vai no sentido de questionar que o significado das práticas do que chamamos de "compra de votos" não é exato, mas sim polissêmico, circunstancial e contingencial. O significado do voto não é anulado, suprimido, por que houve alguma transação monetária de tipo ilegal dando suporte à adesão pelo voto a um projeto de poder político. Por exemplo, o ato de "compra de votos" quando praticado com convicção pela militância A, causando horror na militância B, não é visto por A como compra de votos, mas quando a militância B pratica algo semelhante com a mesma convicção e, em vez de se aliar com as forças de A, faz oposição a elas, como adversário, a militância A passa a nomear de compra de votos aquilo que ela própria realizou sob essa imprecação por parte de C ou D, quando A e B estavam aliados fazendo o que estão fazendo separados num momento posterior. Isso quer dizer que é tudo igual e indiferente? Claro que não, mas, certamente, podemos observar que práticas de uso de moedas para remunerar eleitores são classificadas como compra de voto quando são as práticas ilegais dos Outros. As "nossas" práticas ilegais de remuneração de eleitores, realizadas com moedas diversas, não são classificadas assim, pois isso geraria uma auto-depreciação de nós mesmos. Nas eleições em Fortaleza, houve abuso do poder econômico e práticas ilegais de compra de votos? Sim, parece que sim, há muitas evidências sendo alardeadas. Mas, nas duas últimas eleições, quando PT e PSB estavam aliados, as eleições foram marcadas pela ausência disso? Não, parece que não, há muitas evidências que já foram alardeadas. Todo ato humano por mais sórdido e avacalhado que possa aparecer aos olhos de adversários é um ato humano de convicção, nem que seja a força de uma convicção que afirma o humano como algo essencialmente sórdido e avacalhado.

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