Tuesday, December 25, 2012
Urgências! (reescritas).
Tinha pavor de quem rotulava as coisas de urgente, mas naqueles tempos, obsessivo, ele precisava de uma mulher urgente. Mas a urgência na mulher não fazia nenhum sentido. Não era uma atributo provável. A urgência dele não era de tipo sexual, não estava a fim de descarregar seus infortúnios no corpo copo de alguém. Um pouco de honestidade ainda havia no deserto por que passava há anos, desde tempos perdidos na memória, não havia nem imagem da origem nem da natureza da desgraça em que se metera, ou que se tornara ele próprio, um filho da puta desgraçado. A precisão era da ordem da fantasia. Uma fantasia de alienado. Remetia ao mundo do desmundo, onde essa dor da desrealização quase total não era mais capaz de inquietá-lo como quando se tornou uma figura soturna, mas ainda com alguma alegria pré-estimulantes. Imaginar uma mulher urgente era a maior precisão. Fazia-o com afinco, uma atitude de doidivanas, desenhando perfis nos guardanapos de papel, enquanto se afogava no décimo segundo uísque da noite. Sentava sempre nos balcões. Quando entrava em qualquer bar sentia que o corpo dele já estava grudado desde sempre na ponta de um balcão, o drinque já servido e a noite em aberto com mais uma conta impossível de pagar. Os colegas de balcão por vezes querendo puxar assunto, uma tremenda chateação ter de se livrar dos caras. Quando os insistentes, já para lá de Bagdá, se viravam um segundo para pedir algo ao barman, ele voava para o banheiro e voltava depois de uns minutos fazendo expressão de nove horas como se tivesse acabado de chegar, não tivesse reconhecendo o ex-colega de balcão de agorinha a pouco, se fazendo de desentendido e surpreso na maior cara de madeira. Isso gerava uma brutal desconfiança do colega de copo. Dava para medir a descarga da adrenalina aliviando o efeito do álcool e, nesse momento, alguma consciência fazia-se presente, o que tornava possível uma comunicação rápida, do tipo: "vá para casa, camarada!". Quase sempre dava certo. Houve uma vez que ele resolveu virar as costas, no tempo em que o companheiro de balcão foi e voltou do banheiro. Mirou uma mesa com dois belos par de pernas e se fez de rogado. O sujeito não gostou da traição. Agiu de modo explosivo, aplicando-lhe um soco de punho fechado nas costas, na altura do rim direito. Uma dor aguda fez-lhe o corpo retesar e depois se curvar sobre si. O sujeito saiu rapidamente do bar, trôpego, batendo aqui e acolá nas quinas das mesas, os garçons e os fregueses atônitos. Ele seguiu o sujeito e numa rua escura travaram uma luta corporal que não parecia mais ter fim. Por isso ele tinha certo receio em sentar no balcão quando os sujeitos já estavam truviscados. Era arriscado. A peia podia comer em algum momento. Ele pensava nisso, sobre esses casos de outrora, enquanto conseguia se livrar de mais um colega indesejado, atrapalhando seu exercício de escrita no guardanapo, o que fez obtendo sucesso e assim pode retornar ao profundo devaneio sobre o perfil da mulher urgente. Dedicação de mausoléu de mármore para vencer a hora avançada e fria, ele foi se segurando no uísque e na pouca imaginação bêbada que lhe restava. Ferramenta do contexto em punho, a caneta que fora afiada nas melhores escolas (as mais fajutas), a escrita era o único hábito que o salvava em meio ao torpor e ao barulho que atordoava a mente naquele local e àquela hora confusa de noite-claro, mesmo nos mais dedicados regimes de exceção, em bares para lá de sujos, musicalmente sujos e humanamente podres, essa escrita ainda o salvava, escrita em papéis de guardanapo, ele os colecionava aos montes desde décadas. Ou seriam guardanapos de papéis? Para pensá-la, não mais na própria escrita, mas na mulher urgente dos sonhos, ele havia madrugado anos a fio, era algo que requeria um caráter persistente, invariavelmente duro. Para querê-la, o intervalo bastava, mas os intervalos infindos eram tão numerosos quanto as baganas transbordando cinzeiros em situação de penúria. Essa mulher urgente, ele a concebera mil vezes no desenho do guardanapo e no redesenho do redemoinho em que se encontrava sua vida. No afogueamento da água de briga, as possibilidades iam ficando cada vez mais limitadas. Imaginava-a linda e recorrendo a contornos generosos. Quereria-a sempre e jamais, estava ficando confuso de novo. Nem murmúrio de um cio lhe faria desistir e se desapegar da tarefa imaginativa. Aliás, as gatas de balcão há muito tinham abandonado qualquer cio no sentido carnal, entupiam os narizes de mármore, enquanto iam retocar (borrar) a maquiagem, mulher pó de rato, era como ele as chamava, as queridas companheiras de balcão, e depois afundavam mais ainda no uísque e na depressão feminina que é um poço profundo duro de encarar. Mulher de balcão de bar, mulher bomba relógio. Em geral, é claro, ele não era um sujeito preconceituoso. Há prazerosas exceções nos caminhos da vida. O dia já estava a amanhecer, ele estava mais sério que o habitual. Exausto. Era ele mesmo que via caminhando trôpego pela calçada, ele se projetava e se antevia na imagem móvel do último colega de balcão que se antecipara e saíra, ele ainda restava imóvel, grudado na ponta do balcão. Lá pelas tantas, quando despregou, dirigia o carro em chamas, sem rumo certo. Carro explosivo. Direção muito menos perigosa do que o estado em que a mente dele turvada se encontrava. À beira-mar, caminhavam rostos convidativos de impecáveis mulheres, lindas nos saltos para o alvorecer, mas muito pouco precisas e absolutamente disponíveis, mediante a prata, mas sem nenhuma urgência, salvo o dinheiro do táxi ou uma carona para fechar o caixa com uma margem ligeiramente melhor do que a habitual. Elas não o interessavam. Ele teimava em desejar a mulher urgente do guardanapo de papel.
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