Monday, December 24, 2012

Natais surrealistas.

"Ai, meu Deus!", ela suspirou resignada. Queria de algum modo constrangê-lo, pois ela achava um absurdo que ele falasse tanto de Deus, mal ou bem, "você não tem outra coisa na vida para atentar, não, cara?", fez uma última tentativa, quase chorosa, em desespero. Ele e ela estavam tentando evitar o sinal vermelho, cruzamento perigoso, lugar de assaltos, o caminhão lento enorme tomava toda a pista, na traseira dele, esses caminhões de caçamba usados na construção civil, havia escrito: "Sem Deus, nem tente". Foi o sinal derradeiro para desencadear uma crise nervosa nela, um disrupção completa. Quando ele parou o carro no meio da rua, do lado de fora do prédio onde moravam, pois não havia estacionamento possível, a gorda louca da vizinha tinha posto o carro novo dela no meio do pilotis, atrapalhando todo mundo, sinal de que estava dopada, enfim, eles foram subindo, cansados, sem energia para estarem sequer irritados, mas ela estava com uma faca de cozinha na mão, ele se surpreendeu, essas de serrinha de mesa de cortar pão, ele não a havia notado, foi apenas na subida das escadas, quando ele e ela subindo, ao se depararem com um vizinho, descendo as escadas, que se assustou com a cena da mulher com a faca na mão o que o obrigou a um esclarecimento educado, diante da face horrorizada do vizinho, lívido, fitando com indecisão a faquinha na mão dela, e ele dizia que ele, o vizinho, não se preocupasse, porque estava tudo sob controle e desejou feliz natal, ele pensou consigo mesmo depois que o vizinho desceu as escadas pressuroso que ela havia, afinal, tomado o remédio do dia, mas isso ele não disse para ela, podia desencadear o corte do efeito do remédio, a raiva e o ódio são danados para tornarem as coisas um simples placebo, então, ele apenas sinalizou, tomando-lhe a faquinha da mão, enquanto ela, trôpega, avançando passo a passo pelos degraus, subindo como se houvesse sido empurrada por alguém ia tropeçando em si mesma. E o pior era que ela continuava a imprecar contra o jeito dele que foi desde sempre o tipo do esconjurado de durante o natal ficar falando mal de Deus. Ocorre que ele também não estava num dos melhores dias. Natais sempre despertavam nele sentimentos agonísticos. Era uma luta permanente contra si mesmo. Ficava lembrando da primeira comunhão, da decepção que fora encontrar um padre burocrático que não quisera escutar as angústias existenciais de um garoto de 11 anos. Ele havia se tornado ateu naquele dia, diante da indiferença, da recusa e da incompetência do padre. Chegaram ao corredor do apartamento onde moravam, e ela, a boca mole, dopada de tanta tarja preta que a irmã da amiga que é médica tinha passado para toda a turma, continuava murmurando, a língua enrolada, "se você escrever mal sobre Deus nesse Natal, você vai ver...". Era uma ameaça. Ele não a levou muito a sério. Não era a primeira vez que ela o ameaçava e de outras vezes os motivos tinham sido muito piores. A confusão girava em torno da lista que ele tinha prometido publicar no Facebook, publicizar seria melhor dizer. Um lista que dizia mais ou menos assim: 1. O Absoluto é uma moela. Deus é uma moela. 2. O papa é um tremendo papacu. O papacu não é uma lenda pedófila. 3. A rapsódia não é de agosto. O sertão vai virar mar. 4. O executivo da sadia tinha uma linha torta no fundo da calça. Era empreendedor. 5. A Penélope Charmosa não é a Wanderléa. 6. Ele é o instrumento do meu Saber e da minha Paz. Ele, o inominável. 7. A fortuna é o acaso. Não há dialética possível. Enfim, era esse tipo de coisa que ele vociferava quando estava desconfigurado, transtornado, e era esse tipo de coisa que ela detestava. Ele prometeu que nada iria dizer, que iria respeitar a família, a tradição e os bons costumes das pessoas de bem. Ela não conseguia acreditar nisso. Sentia que ele estava prestes a embolar o meio de campo e fazer um novo escândalo, semelhante ao que tinha feito no outro Natal, quando, assolado pela melancolia e pela desrazão, tivera dois dentes quebrados numa briga com um morador de rua que entoava cânticos religiosos enquanto fazia discursos condenatórios de todo e qualquer cristão que não se compadecesse de tanto sofrimento. A comiseração lhe afetou de tal modo que resolveu peitar o morador de rua, pura compaixão, os dois embolaram-se no asfalto aos tapas e aos gritos, cada qual mais esbaforido do que o outro. Quebravam garrafas bêbadas um contra o outro depois que se apartaram. Alguém da janela, gritou em alto e bom som: "Seus merdas, vão brigar na casa do caralho!". E as rolhas, e os assados de peru, e a farofa, e as árvores decepadas, imprecisas, de plástico, com luzinhas ambivalentes, iam se fechando e se abrindo, gerando paz e harmonia para todos e assim nasceu o menino Jesus, ele sentiu no profundo do seu ser. Sujo, no meio da rua, compartilhando com a comunidade o conhecimento sobre as pedras, sobre o caminho das pedras, o caminho da sabedoria, o menino Jesus estava bem ali, jogado na penumbra da calçada, assustado, faminto, esperando os porteiros dos prédios descerem com as sobras dos banquetes. Ele passou pelo menino e disse "Amém". O menino sorriu.

No comments: