Saturday, October 20, 2012
Uma carta aberta aos servidores públicos de segurança.
Emoções são portadoras de julgamentos movidos por ódio, raiva, medo...Quando forças policiais se tornam emocionais diante da absurda violência dos criminosos, corre-se o risco de elas agirem de modo criminoso. Legalidade democrática, autocontrole e consciência da missão de paz, e não de guerra, precisam sobressair, mesmo nos momentos difíceis de perda, dor e sofrimento. Se policiais se sentirem impotentes, desassistidos e desprezados pela sociedade e pelo Estado, diante da guerra suja que se instaurou entre o crime e a polícia no Brasil, este evento poderá ser catalisador da pior desrealização do Estado Democrático de Direito no nosso país. A expressão de raiva, de ódio, a vontade de vingança, de extravasar o lugar humilhante que a sociedade e o Estado vem reservando para o policial, negando-lhe direitos de cidadania plena, isso tudo é um barril de pólvora que pode resultar numa tragédia ainda mais grave do que já está a ocorrer. Nossa solidariedade diante do assassinato de policiais é decisiva, mas também é decisiva nossa adesão à concepção da missão cidadã da polícia, como um dos instrumentos de controle democrático do crime. Ocorre que sem política de segurança pública, a polícia fica isolada, agindo sob demanda, "enxugando gelo", como já me confidenciaram alguns policiais a respeito de seu sentimento diante do atual quadro de violência.
A violência armada criminal de grupos criminosos contra a sociedade e contra forças policiais é inadmissível e intolerável, mas, o autocontrole precisa ser mantido em nome da Lei, pois o desencadeamento da violência policial extralegal de cunho punitivo e vingativo, alimentando por práticas de tortura e de extermínio, contra criminosos violentos fará da polícia um grupo de criminosos violentos ainda mais perigoso pois detentor da função pública legal de promover a paz social, a missão não é a guerra de todos contra todos, a missão é a paz democrática. Com solidariedade aos policiais que tombaram no cumprimento legal, profissional e democrático da missão de policiamento de uma sociedade absurdamente injusta, desigual e individualista, lançamos o apelo para que policiais parem de nas redes sociais, e entre si, incitar população à violência extra-jurídica, extra-legal, portanto criminosa, de tipo vingativo contra os "inimigos". Não será a lógica da guerra "suja" contra o "inimigo interno" que irá trazer a dignidade esperada por todos nós para a condição de vida dos policiais e das policiais que arriscam suas vidas no dia a dia da sociedade brasileira.
Com respeito e apreço,
De servidor público para servidor público,
Leonardo Sá
Laboratório de Estudos da Violência.
Departamento de Ciências Sociais
Universidade Federal do Ceará
INCT Violência, Democracia e Segurança Cidadã.
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