Saturday, December 08, 2012

A Copa do Mundo é nossa? Revista Radis, julho de 2011.

A Copa do Mundo é nossa? Na cidade de Fortaleza, os segmentos endinheirados já se comportam como seus pares de Bogotá, na Colômbia, pois também dirigem carros blindados importados, caríssimos, sob escolta de batedores armados em motocicletas possantes. Os seguranças são policiais militares, fora de serviço, fazendo bicos, a fim de ganhar um extra diante de salários baixíssimos. Aliás, o Ceará dispõe do pior salário médio do país e possui mais do que o dobro da média nacional de população em situação de pobreza extrema. Os poucos que vivem de modo suntuoso e exercem em restaurantes e lojas um padrão de consumo perdulário típico de camadas médias altas e altas globalizadas surpreendem até seus pares do Sudeste. As famílias ricas moram em bairros que se autonomeiam nobres, estão rodeadas por um terço da população que vive em favelas, onde o IDH-M não passa de 0,4 — quando muito —, em oposição ao de 0,97 da minoria nobre. Há décadas, a produção social do espaço urbano é conduzida pela lógica da segregação socioespacial, da higienização com segregação racial, que gera hierarquizações entre os segmentos populares, afro-ameríndios descendentes, e os segmentos brancos e morenos dominantes. O lugar de moradia é decisivo para a experiência social de um indivíduo, principalmente, no que tange ao acesso aos equipamentos urbanos de arte, cultura, lazer e àqueles que respondem pelos direitos básicos do cidadão, como escolas, hospitais, postos de saúde etc. O termo nativo dos ricos para classificar as distinções entre esses lugares, os nobres e os pobres, é revelador. Atribuir ao lugar o qualificativo de misturado, na perspectiva do discurso dominante, isso atualiza um simbolismo segundo o qual o lugar misturado é algo que deve ser evitado pelos membros da elite, como se autonomeiam os ricos e os poderosos cearenses, como forma de agrado a sua autoimagem, baseados em sentimentos de grandeza e práticas cotidianas autoritárias, com baixíssimo grau de civilidade burguesa. A burguesia cearense é composta por machos e suas mulheres em situação de subalternidade intensiva. Bons modos da civilidade burguesa típica ideal são rejeitados como coisa de baitola (termo homofóbico corrente). Nesse contexto cultural, evitar a mistura, não se misturar, não andar em ambientes misturados, desprezar e tornar invisível quem mora em periferia, favela, bairro pobre, lugares de mundiça (corruptela de imundície cujo uso nativo produz uma referenciação ao povão), são recomendações que as redes familiares da elite fazem aos seus rebentos para que aprendam a navegar na cidade como senhores, doutores, empresários, donos da situação, entre outros signos de distinção e poder agenciados nesse processo de subjetivação dos ricos em busca de mais sucesso, poder e dinheiro. Não é então que segmentos das camadas populares recebem de supetão o aviso, em tom de ameaça, de que serão removidos mais uma vez, entre as tantas remoções que marcam a memória social e histórica de suas redes familiares, a fim de que a feiura de suas vidas de pobres não prejudique a maquiagem da cidade para a Copa do Mundo? Estarrecidos, os segmentos populares tentam mobilizar suas bases de resistência e luta políticas. As vinhas da ira sem as vinhas movimentam os sentimentos de milhares. Mas os governos socialistas de Fortaleza e do Ceará reproduzem uma das mais lancinantes ironias da história do capitalismo contemporâneo. Conduzem, como um balcão de negócios, um processo que deveria estar pautado pelo direito democrático à cidade, para dizer o mínimo. Isto lhes valeu até uma repreensão da ONU, recentemente. Todavia, a ironia sem graça, já mundializada, está se repetindo no Ceará, governos autonomeados socialistas são os agentes de realização do caráter excludente da Copa do Mundo, como na África do Sul e alhures. Os discursos requentados, do século 19, sobre progresso a qualquer custo com o devido verniz ideológico da geração de empregos e renda, sempre para o bem da população, tornaram-se apanágios das “preparações” para que a Fortaleza “nobre” e “bela” possa se preparar para receber, com hospitalidade decantada, os representantes comerciais das firmas estrangeiras e nacionais, antes dos turistas, enquanto os segmentos hegemônicos destilam um velho ódio de classe àqueles que resistem contra as remoções cosméticas que reforçam injustiças e desigualdades há quase três séculos praticadas em nossa cidade. A articulação política de socialistas no poder em conluio com os megaempresários que os financiam para garantir a paz sem voz e o medo que quebra a resistência das camadas populares para os investidores dessa grande empresa chamada Copa do Mundo, qual gerentes corporativos, funciona como um sintoma de como a política está sendo esvaziada pelas bandas do Nordeste, como no restante do país, nesses tempos de salve-se quem puder e de dinheiro a qualquer preço. A Copa do Mundo é nossa? Nossa, de quem? Autor: Leonardo Sá* * Sociólogo, pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência e professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará.

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