Tuesday, November 20, 2012

Estado de Suicídio (variação livre a partir de ideia de Virilio): primeira parte.

Existe um tipo de conforto, de prosperidade e de segurança que se faz às expensas do Outro, uma segurança que funciona como mecanismo de neutralização das capacidades agentivas do Outro. Os novos processos de normalização da vida social despontam como um modo de produção social do inimigo, é à administração do medo em relação ao inimigo interno a que se dirige tal processo, medo que se erige a partir de práticas policiais comezinhas, como aquelas desenvolvidas no cotidiano do espaço urbano em torno das abordagens policiais de suspeitos. Trata-se de meter o terror. A polícia como forma de ação sobre os corpos dos suspeitos que é classificada pelos suspeitos como um ato de meter o terror e pelos policiais como uma forma de amaciar o vagabundo, essa figura genérica de destituição do Outro e de sua neutralização como suspeito. As situações de exceção precipitam o exercício permanente de um poder policial que provoca um efeito mais geral de insegurança, pois faz do suspeito, do vagabundo, um dado, algo dado na vida social da cidade, o que, por sua vez, naturaliza a presença da polícia. A neutralização é um modo de desrealização do Outro, nadificar o Outro, fazê-lo um ex-habitante de um espaço, e para que esse espaço possa produzir esse efeito de aniquilamento, o espaço aniquilado precisou antes funcionar como o espaço do medo que é corolário do medo do espaço. Trata-se de fazer brotar um anti-mundo. Um sistema arruinado, apenas onde angústia, obsessão e, principalmente, paranoia possam subjugar pela sujeição o espírito do evento. Perseguir noções dinâmicas do espaço social, como as formas nômades de socialidade, e realizar a repressão policial às práticas etiquetadas de selvagens são os atos daquilo que torna possível a neutralização do Outro indesejado no espaço urbano. Estruturas de repressão, como cordões sanitários policiados produzindo fronteiras de "violência" e a concentração para fora dessas fronteiras de outras estruturas de serviço que não sejam as policiais, tornam-se abundantes, enquanto a economia do medo catapulta o Outro para fora das fronteiras do humano, fazendo de diversas categorias de pessoas, representantes de ex-humanos. É própria ideia de Estado, como Estado de serviço, que dá lugar a um outro tipo de mecanismo de poder que é o Estado como Estado de assistência, que conduz o tratamento terapêutico da exclusão relacional produzida pelas estruturas de repressão policial que lhe são correlatas e co-extensivas. A geografia administrativa estatal torna-se uma administração do medo. As zonas bombardeadas pelo ataques de desrealização dos outros, tornando-os ex-humanos, funcionam do ponto de vista da assistência, como zonas de abandono e de desprezo.

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