Saturday, October 20, 2012
Paixão por Monsieur Le Fouchs.
Ontem pela manhã, no curso de Ciências Sociais, iniciamos um debate instigante com o nome de Foucault. No ano passado, comemorei em silêncio os 50 anos de Folie et déraison. Um silêncio preparatório, propiciatório, para a retomada incansável de uma obra que funciona como uma granada de mão que por descuido, inépcia mesmo, deixamos o pino cair, pois não tínhamos a menor intenção de lança-la. Na disciplina Tópico Especial em Sociologia IV, Introdução ao pensamento de Michel Foucault, pusemos Foucault novamente deitado, de peito cortado a navalhadas, no centro da sala de aula. E amamos Foucault, nos deliciamos com seu corpo bruto, agressivo, impertinente, clandestino envergonhado e genial. De 8h às 12h, Foucault emergiu não como fantasma de grupo, mas como um santo, tal qual Saint Genet, de Sartre, e nos pusemos a burilar o pensamento dessa transgressão reversa que fez nascer a História da loucura. Estamos ainda tateando. Esperando as cicatrizes do corpo de fuchs sararem. De 14h às 18h, agora em Teoria Sociológica II, depois da exposição maravilhosa da Andréa Leão sobre Norbert Elias, retomamos em nossas mãos as chagas abertas do santo Foucault, vamos reler História da loucura, fazendo a arqueologia de um texto que é um corpo, que não cabe no próprio texto, um anti-Derrida, certamente. Impregnado das aulas de ontem, escrevi uma notinha rápida aí para alimentar o debate com a galera massa da graduação e da pós-graduação que está ligada no início dessas aulas que são mais queridas pelo bem querer caloroso desses pequenos bandos de anormais que somos nós.
A experiência é palavra solta no vento. A linha tensa, retesada, que suporta o objeto da experiência é um elemento cortante. Não basta sentir a possibilidade de uma quebra, a chance de que o objeto da experiência despenque do alto onde a firmeza é quase um evento incrível. Um certo peso recobre a mão. Uma certa leveza dirigível parece preconizar que tudo não passa de uma brincadeira. As lufadas se lançam contra tudo isso, indiferentes à existência do objeto, movendo-se por si mesmas, cumprindo suas próprias rotações, mas é como se tudo fosse cosmológica e intencionalmente posto para nossa experiência do objeto flutuante. O que esvoaça em nós nesse objeto frágil que paira, por vezes inerte, outrora deitado no abraço, como ferramenta de trabalho, depois de tudo, como ação livre, desprendido das mãos que o manipularam como mãos de artesão, e que, por vezes, da inércia absoluta, com seu peso e sua tensão, explode, joga-se no abismo e mergulha de testa, precipitando a frágil estrutura do objeto da experiência na mais dura dinâmica da coisa em si, na pedra, no asfalto, no chão duro, na terra batida ou simplesmente nas areias das dunas que de tão móveis semelham cortar a estrutura ao meio. E nesse ir e vir do objeto lançado ao vento, tal qual palavra de profecia, quem é ponta e quem é linha? O limite deixa de ser a ligação entre dois pontos. Nem o sujeito da experiência, nem o objeto que teima em lhe negar a precedência podem nos dizer algo sobre a tensão, quase musical, e sempre cortante, da experiência enquanto gesto de auto-posição do próprio limite. E o que desponta no limite, portando em si mesmo, causando a própria potência desse limite? Ou não haveria nada a causar, a causer, talvez, mas sem princípio, sem axioma, o único a priori, portanto, sendo o próprio limite cortante, e o acontecer do limite que se elabora pelo seu gesto. Seja o gesto do limite que explode nossa consciência, ou do gesto do limite que jamais consegue preceder a Lei, mas foge dela, acossado, em desespero de língua, de fuga de código, ou o gesto dos limites da nossa inescapável linguagem. O que faz do riso um elemento do sacrifício do eu, ou do êxtase um elemento de dispersão do sujeito, ou da comunicação um modo de aparência que nada manifesta, que não esconde, que não oculta nenhum conteúdo, mas apenas os mecanismos de ocultamento, enfim, o que seria desse riso quando se nos dirige, como um grito, como uma voz de recusa, um apelo de morte contra o absoluto, contra aquilo que nos precederia desde o sempre? Apenas contestação, sem escândalo, nem subversão? "La transgression est un geste qui concerne la limite; c'est là, en cette minceur de la ligne, que se manifeste l'éclair de son passage, mais peut-être aussi sa trajectoire en sa totalité, son origine même. Le trai qu'elle croise pourrait bien être tout son espace" (Michel Foucault).
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