Monday, August 06, 2012

Uma reflexão sobre a segurança pública no Ceará.

Amigos e amigas, precisamos falar sobre o descalabro na segurança pública, se não, vejamos: Até quando nós iremos enquanto sociedade civil silenciar diante da terra de ninguém que toma conta das terras alencarinas quando o assunto é segurança pública, segurança cidadã, segurança humana? Ou não seria melhor fazermos o tema da segurança ser precedido pelos temas da liberdade, da justiça e da igualdade? As evidências apontam para a falência do campo governamental cearense diante dos desafios do controle social democrático da segurança pública, da criminalidade e da violência no Estado do Ceará: tempo presente, tempos sombrios, tempos para pensarmos juntos sobre nosso destino social histórico enquanto coletividade de direitos e deveres. O Ceará voltará a funcionar apenas como faroeste, sem contraponto do esforço coletivo da administração democrática dos conflitos gerados por tantas desigualdades de poder, de oportunidades e de capital que estão sendo reinscritas pelas políticas de governo sob a retórica vazia do "progresso"? Tempos de pistolagem, de jagunços, de "bandidos de farda", como dizem os muitos policiais honestos, a maioria trabalhadora da segurança pública, que também sofre com esse descalabro de direção, com condições de vida e trabalho embrutecedoras, irão grassar novamente entre nós, saindo das sombras produzidas por discursos falaciosos? E, infelizmente, o Estado do Ceará parece estar mergulhando, ainda mais, na militarização da segurança pública, na falência de projetos de governo para a área de segurança cidadã, rompendo com desejos coletivos por democracia e respeito aos direitos humanos. As bases de trabalhadores e trabalhadoras da segurança pública no Ceará detêm hoje os recursos de inteligência humana e social, uma vez que alertaram para toda a sociedade sobre a necessidade de uma só polícia, eminentemente civil, fardada, mas civil, com profissionais bem pagos e, principalmente, bem formados para o exercício do policiamento a favor da sociedade, superando os antigos e obsoletos parâmetros de policiamento repressivo, militarizado, em defesa do Estado, das razões de Estado que as mentes e os corações da sociedade civil e da paz civil desconhecem. A tecnocracia policialesca da abordagem gerencial autoritária, centrada em resultados ilusórios, em pirotecnias, com baixíssima confiabilidade na informação produzida e divulgada pelo governo, ao se tornar eixo de definição de "política pública" lança qualquer discurso sobre o "processo civilizatório" num fundo e obscuro abismo. Como legar às novas gerações um espaço social pacífico que seja resultado não da repressão total, da paz sem voz, que é a falsa paz das soluções autoritárias do Estado policial? Práticas de extermínio, de aniquilamento do outro, de tortura e de muita violência institucional, baseando no sistema do medo, da delação e da vigilância total e irrestrita de toda e qualquer prática considera "suspeita", direitos e liberdades individuais suprimidos na prática, explosão da criminalidade violenta, acúmulo de homicídios não investigados e não resolvidos, impunidade, atuação de grupos de extermínio, pistolagem com participação de agentes do Estado, beneficiando grupos empresariais legais e ilegais, enfim, a história da violência cearense, com a elevação de taxas de criminalidade de todos os tipos, com o mascaramento dessas mesmas estatísticas pelos interesses "reservados", "secretos", de governo, a tomada do poder policial pelo poder militar, sim, infelizmente, são tempos sombrios, tempos onde todos e todas precisamos aprender a nos proteger. A sociedade cearense precisa, em momento delicado de sua história, tentar mais uma vez construir políticas afirmativas de paz sem desigualdade, de segurança humana com liberdade, de construção de um espaço social democrático, justo e livre. Valores e ideais que não são fáceis de serem concretizados, mas sem os quais, sem as interpelações e desafios por eles gerados, não nos tornaremos dignos historicamente com a transformação da nossa própria história. A imensidão do desafio não é capaz de amedrontar o espírito sertanejo que orienta a busca por paz, civilidade, honestidade, democracia, legalidade, direitos humanos, igualdade, bem viver e respeito mútuo do povo cearense. Ceará Terra da Luz. Terra abolicionista diante da qual nenhuma escravidão perdurará. Saudações libertárias!

A palavra de um velha camponesa

A coisa mais sensata que eu ouvi nos últimos vinte anos da minha vida foi dita pela boca da minha avó Josefa: - Meu filho, mantenha a capacidade de trabalho! O importante para o homem é manter a capacidade de trabalho.

Monday, July 16, 2012

Produção estatal do crime de pistolagem

O funcionamento do sistema da justiça criminal no Ceará, o sistema da pistolagem e a produção socioestatal do crime. Bom para pensar.

Sunday, July 15, 2012

Releitura de Émily

Em 2006, puxando pela memória, refiz a imagem de uma linda menina de 12 anos, que era minha paquera na escola (eu tinha 13 anos). É uma forma ficcional, portanto, cheia de inverdades, os eventos foram bem mais simples e singelos, depois, no futuro, quem sabe, encontrarei palavras mais sábias para em vez de narração do mundo adentrar nas justaposições, para usar de empréstimo uma reflexão de Houellebecq sobre a qual ainda desconheço o sentido. Mas Émily foi uma doce menina, o coração batia forte ao vê-la, isso lá pelos idos de 1986, quando estudávamos juntos na mesma sala. Punk sou eu, escrevendo em 2006. À época dos eventos que inspiraram a história era tudo singelo e inocente, como deve ser nessa flor da idade. (o texto ao qual estou me referindo está nos arquivos de 2006).

Nota a partir de nota no meu diário de campo de 2001.

A conversão de agentes policiais em agentes profissionais da política implica em um processo de redefinição das propriedades sociais distintas dos agentes que se deslocam de um campo a outro. Compreender, a partir da análise de formas concretas de inserção de policiais no campo da política, sob a perspectiva de um corpo de agentes profissionais que vivem da e para a política (Weber) implica igualmente em conhecer as posições sociais dos agentes policiais no campo de disputa interior ao espaço institucional de suas corporações, bem como apreender as lutas classificatórias nesse campo quanto à definição legítima do grupo na sociedade, e, em especial, de suas posições e perspectivas diante do campo da política. O desafio maior é fazer com que a descrição etnográfica faça aparecer, faça ver os limites, as teses gerais, ou hipóteses de campo, umas em confronto com as outras, envolvendo os mecanismos de conversão. Não se trata de explicar in vitro as condições mais gerais da conversão, mas, ao contrário, de elaborar a partir da observação detalhada e intensiva dos casos concretos de conversão e fazer ver a lógica do processo, seus problemas e dilemas, e aí remetê-la às suas condições sociais específicas. Fazer a sociologia da conversão a partir dos limites específicos do universo etnográfico onde estamos acompanhando a inserção de policiais no campo político local, no sertão do Ceará, é pensar a prioridade de um descrição informada pela circunscrição dos elementos diferenciais, pelos detalhes, pelo microscópico das relações sociais em jogo. Fazer, por conseguinte, uma descrição bem informada teoricamente não é fazer a descrição se subordinar ao poder de teorização, mas sim fabricar um modelo descritivo pelo qual o poder de conceituar e teorizar se exerça a partir do campo, de modo detalhado. A construção de uma leitura dos conflitos sociais que estão investidos em torno dos limites reconhecidos entre os dois campos, o da ação policial e o da ação política, passa pela elaboração de modelo de compreensão acerca do modo como trajetórias de policiais na política estão em função de lutas classificatórias mais amplas onde o ser policial se liga ao contexto de transição para a democracia no país.

Trabalho de campo: novos eventos para a pesquisa.

Meu atual projeto de pesquisa, intitulado As vítimas e seus matadores: análise etnográfica de relações de poder e práticas de extermínio, já vinha se deparando com o tipo de situação descrita por essa reportagem do jornal O Povo de hoje (domingo, 15 de julho de 2012). Teremos que buscar problematizar estratégia de inserção para acompanhar este caso. As questões principais que me interessam estão aí postas: 1. sistema de crueldade. 2. Incorporação do inimigo. 3. Matadores como vítimas de matadores. 4. Concepções do humano e do não-humano. 5. Economia da alteridade e violência. Vila Velha fica no lado oposto da costa de Fortaleza onde realizo meu trabalho de campo. Moradores da fronteira do Cristo Redentor com Pirambu me relataram que muitas famílias foram obrigadas a sair da beira de praia no Pirambu, por conta das remoções e também por causa do aumento dos aluguéis, e se deslocaram para Vila Velha. Foi no Vila Velha que a viatura do Ronda do Quarteirão foi assaltada, na pracinha, e os policiais militares tiveram suas pistolas roubadas. O que está se passando na Vila Velha? Favelas à beira-mar e lutas armadas faccionais: campo.

Os sentidos da política

O que nos oferece a política? Talvez, uma tentativa de mitigação das penas de um sistema de dominação, ou seja, um modo de amortizar a dívida histórica da dor e do sofrimento produzidos pelo Estado de medo em que foram lançados os dominados, medo da violência atávica, fundante, que se inscreve, com marcas de crueldade, na corporalidade daqueles segmentos, coletivos, categorias, classes e pessoas que foram subalternizados. Uma tentativa de inviabilizar o risco da assunção de espaços de simetrização e, portanto, de problematização das distâncias relativas estabelecidas entre corpos superiores de chefes e corpos inferiorizados de subalternos, e nesse sentido os agentes interessados, pois o interesse é se colocar no entre das coisas, exerce o papel da mediação política segundo a qual os dominados abrem mão da vingança mortal contra a violência fundante da opressão, fazendo com que os critérios de autoridade e de poder do sistema de dominação possam ser lidos como o sistema de delimitação legítimo de um debate acerca do sentido das condições de existência da própria dominação social. Com a política, abre-se a negociação em torno do sentido da vida social questionando o fato histórico da desigualdade, reivindicando-se igualdade na ordem desigual, a fim de desnaturalizá-la. Todavia, novas hierarquizações reagem às demandas por igualdade, de modo que uma guerra política entre dois princípios passa a ser uma operação de confronto e de acomodações entre hierarquias e igualdades em cada situação particular onde este dilema se apresente como organizador das atividades políticas. Num sentido bem diverso do espírito que estou imprimindo na reflexão acima, não podemos esquecer, para fins de debate, a caracterização de Bourdieu para a ação política no seguinte trecho: "A ação propriamente política é possível porque os agentes, por fazerem parte do mundo social, têm um conhecimento (mais ou menos adequado) desse mundo, podendo-se então agir sobre o mundo social agindo-se sobre o conhecimento que os agentes têm dele. Esta ação tem como objetivo produzir e impor representações (mentais, verbais, gráficas ou teatrais) do mundo social capazes de agir sobre esse mundo, agindo sobre as representações dos agentes a seu respeito. Ou melhor, tal ação visa fazer ou desfazer os grupos - e ao mesmo tempo, as ações coletivas que esses grupos podem encetar para transformar o mundo social conforme seus interesses - produzindo, reproduzindo ou destruindo as representações que tornam visíveis esses grupos perante eles mesmos e perante os demais" (Bourdieu, linguagem e poder simbólico, parte dois de Ce que parler veut dire, p.117, 1996).

Ainda sobre a noção de centro

As categorizações simbólicas que operam com oposições complementares de tipo segmentar linear e não apenas de tipo concêntrico, representado este último graficamente pelo modelo durkheimiano de círculo concêntrico para indicar o sentido nucleado do processo de socialização (primária, secundária, terciária, etc) passam pela dissemia centro e periferia que pode ser observada articulando a produção de espacialidade em variados contextos socioculturais. Ocorre que metodologicamente a ideia de centro não pode ser reduzida à ideia de Estado, tudo se passa como se processos de unificação e processos de centralização não pudessem ser ditos sociologicamente como coincidentes, apesar de adotarem entre si conexões de sentido e de causalidade circular em planos empíricos concretos da vida social. Mas não reduzir a ideia de centro à ideia de Estado parece ser uma recomendação metodológica que possa gerar algum interesse no encaminhamento do debate teórico sobre o tema. Unificação ou centralização? Como poderemos categorizar analiticamente essas problemáticas a partir do nosso campo de pesquisa? Voltarei sobre este ponto em breve. Processos de centralização são objetos de lutas, assim como os fluxos e os refluxos desses processos não são unidimensionais nem lineares, apesar de compostos por linhas em fuga para todos os lados, se é que há lados nesse objeto. Talvez teríamos que superar a perspectiva do geometral, como fala Veyne.

Os sonhos do Estado são os nossos piores pesadelos

O que iria acontecer se, de repente, nós, pessoas e coletivos, que nos definimos como insurgentes, a partir de práticas de resistência, oposição e de luta por democracia real, simplesmente, respondendo ao "sonho" neoconservador de vários segmentos do poder, parássemos de protestar, de denunciar, de questionar, de fazer oposição? Qual seria o efeito disso para a vida social? Vocês conseguem imaginar uma greve geral invertida? Seria mais ou menos assim: ninguém diria uma palavra sequer de contraposição a nenhuma ordem do sistema de dominação, ninguém faria nenhum questionamento, nenhuma problematização, sempre que houvesse alguma dúvida, perguntaríamos ao chefe e ao chefe do chefe e assim por diante sobre como fazer e como encaminhar, anularíamos completamente o campo de autonomia das pessoas e dos coletivos, faríamos adesão total a qualquer ordem recebida da polícia, da justiça, dos governos, se nos dissessem para calar, calaríamos, se nos dissessem para andar, andaríamos, se nos dissessem para morrer, morreríamos, não questionaríamos nada, nenhuma ordem, faríamos a obediência total e irrestrita aos preceitos emanados das autoridades, qualquer instância que se apresentasse como instância de autoridade seria imediatamente reconhecida e geraria nossa obediência cega, independente de avaliações de conteúdos e méritos, avaliar seria um atributo exclusivo da instância de autoridade social, iríamos assim todos colaborar com a polícia denunciando toda e qualquer pessoa e coletivo que estivesse realizando algo que parecesse fugir ou colocar em xeque a manutenção da ordem social, não permitiríamos no cotidiano qualquer fala ou qualquer gesto que não correspondesse aos tutoriais divulgados amplamente pelas autoridades sociais sobre como se comportar, se vestir, caminhar e buscaríamos cumprir nos detalhes mais ínfimos a adesão total aos tutoriais disponibilizados pelo Estado e seus representantes sociais, faríamos um silêncio total em relação a qualquer tema de contestação, aboliríamos os vocabulários de contestação, apagaríamos da memória social qualquer elemento que veiculasse alguma lembrança em torno de formas de contestação da ordem, faríamos a hierarquização das posições sociais de acordo com os ditames, sem nenhum questionamento quanto aos critérios e à fonte da legitimidade destes critérios. Pergunto então a vocês: como seria viver assim? quais seriam os efeitos para a nossa existência se realizássemos com rigor absoluto o ideal de "paz total" da ordem social, excluindo qualquer possibilidade de desordem? Vocês conseguem imaginar que tipo de vida teríamos, se assim agíssemos?

Friday, July 13, 2012

Centros de poder

Espaços sociais são recortados por diversas formas e múltiplos processos de investimento sociocultural. As hierarquias, ou melhor, os processos de hierarquização produzem espaços sociais cujo sistema de delimitação instaura divisões, distinções, distanciamentos e operações de separação de toda natureza. Para isso, os pontos de referência que são mobilizados num verdadeiro processo de construção de referenciação giram em torno de um trabalho de enquadramento da memória social (Pollak) pelos centros, os lugares de fala enquanto lugares de instauração de domínio (Barthes) e os lugares de poder, enquanto lugares de posicionamento do sujeito da fala autorizada (Bourdieu), o lugar do sujeito, enfim, que pelo tudo indica na leitura que Deleuze faz dessa questão em Foucault trata-se de uma função derivada. A expansão e a difusão de modelos de centros realiza no espaço social interno, no meio interno, no dentro, um tipo de colonização para dentro do espaço social (Virilio). O centro de poder enquanto centro de poder irradiador opera com seus agentes sociais concretos, com seus complexos institucionais, com a fluidificação do sistema de valor concorrente e a coisificação de escalas hegemônicas de valor e tudo aquilo que afeta a questão do exercício do poder simbólico, para usar essa expressão um tanto já gasta, mas que se retomada em sentido não puramente teórico, mas como ferramenta, ainda nos serve na pesquisa, para observar como que o centro não existe antes de ser reconhecido, daí os signos de autoridade, os signos de poder, os signos de centralização, por que não dizermos assim, que vão apontando para o olhar heteróclito a heteronomia do centro e a perda da autonomia de si enquanto centro das relações sociais. São as questões da dominação, da autoridade e da construção do território que parecem se sobrepor umas às outras nesse jogo de verdade e nesse jogo de linguagem que busca obter pela unificação de uma comunidade de valores "artificial" a lógica de funcionamento do centro, que é uma lógica paraestatal e, portanto, contra a socialidade.

Thursday, July 12, 2012

Jogos de verdade

Como escreveu Lévi-Bruhl em algum lugar: "L'ignorance s'ignore elle-même". Ademais: "A vida...é como um festival, assim como alguns vêm ao festival para competir, e alguns para exercer os seus negócios, mas os melhores vêm como espectadores [theatai]; assim também na vida os homens servis saem à caça de fama [doxa] ou do lucro, e os filósofos à caça da verdade" (Atribuída por Diógenes Laércio esta parábola a Pitágoras apud Arendt). No mesma direção: "é preciso escolher pagar pela verdade um preço mais elevado, em troca de um lucro menor de distinção" (Bourdieu). Quantos jogos de verdade nos são compossíveis para sairmos dessa invisibilidade absoluta em que nos colocaram?

Análise de concepções rivais no espaço social

Concepções rivais, em situação de rivalidade, convidam a usos estratégicos da linguagem. A própria opinião pública é um exemplo claro de como a fonte de legitimidade está literalmente em jogo, devido ao caráter disjuntivo que há no ato de jogar, diferentemente dos rituais, onde atos conjuntivos parecem se sobressair. Com quais vocabulários, léxicos, essas rivalidades se realizam? O uso da palavra, lembrando que a palavra está imersa na situação da disputa, nos permite falar de uma significação disputada. Espaços públicos emergem nesses processos de espacialização da disputa pela opinião, ou em torno da opinião, o que faz do público não um atributo de um sujeito, mas um atributo de relação que gera a própria noção de que o espaço social é um espaço entre outros. Ainda não estamos a falar da esfera pública, e eu, pessoalmente, não tenho muito interesse nessa tematização. Prefiro concentrar meus esforços na elaboração de modelizações das micro-constituições de espaços públicos. Até mesmo dando também preferência para os micro-espaços, onde a relação entre dimensão concreta e dimensão abstrata das conexões e relações sociais podem ser observadas detalhadamente. Claro que é possível situar o estudo de um mundo social específico, bem localizável, em um processo mais amplo de formação de espaços sociais, como os espaços nacionais e transnacionais. Este esforço de contextualização está em função da força de contexto como instrumento analítico, a fim de situar os marcos do sistema de delimitação, diante da profusão infinita do real, que irá por sua vez atuar heuristicamente como mapa ordenador do próprio esforço realizado pela força de contexto da pesquisa.

Simbolismos de poder

Quais são as modalidades de exercício ordinário do poder com as quais se conectam as formas ostentatórias (ostentação, ritualização, cerimonialismo, etc) de certo excesso de sentido que se produz pelo trabalho da forma? Como as modalidades ordinárias podem nos fazer pensar (a ver algo como algo) a respeito da natureza desse simbolismo ostentatório e vice-versa? Estou lembrando de um texto pouco debatido até de Clifford Geertz: Centros, reis e carisma, além de Negara, é claro. Vou dar uma olhada de novo.

Álcool e drogas

Muito interessante este trecho de reflexão de Gregory Bateson a respeito das distorções provocadas em nós pelo uso de álcool ou drogas: "Intoxication by alcohol or drugs may help us to see a distorted world, and these distortions may be fascinating in that we recognize the distortions as ours".

Anotações sobre anotações na aula do Diatahy em 3 de abril de 2008.

No dia 3 de abril de 2008, Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes começou a aula com uma preleção fílmica, lembrando-nos das relações entre o Farenheit 345, 1984, Admirável mundo novo e Colossus 90. Revendo minhas notas de aula, me veio à lembrança que eu fiquei curiosíssimo para saber o que diabo seria Colossus 90, mas não queria interromper a fala do meu professor e deixei passar adiante com dúvida mesmo. Aliás, eu ainda não tinha assistido Farenheit 345 na íntegra, o que o fiz com grande prazer na semana seguinte a da aula. Enquanto Diatahy desenrolava indícios para nós para aquilo que gostaria de nos fazer ver, fiquei remoendo a seguinte questão: "Diante do excesso de códigos, como reconhecer a verdade da experiência humana?". Essa anotação revelava várias coisas. Primeiro, que eu tinha acabado de ler Michel Serres, Os cinco sentidos, e os meus estavam justamente enebriado por essa inquietante experiência. Segundo, que eu já estava na lida com essa questão do conceito de experiência. Muito por influência do Marcio Goldman, com quem eu tinha feito Teoria Antropológica I e vinha deslindando vários textos sobre a relação entre experiência e alteridade. Enquanto eu pensava na questão, Diatahy começou a falar de Merleau-Ponty e de Baudrillard. Discorrer sobre sistemas de objetos. Então, pimba! escrevi outra pergunta: "Onde está a experiência?". Foi quando o professor começou a contar de uma experiência que o filho do Portinari, que é físico e matemático, tinha feito na PUC. Ele havia escaneado um quadro do pai, gerando uma massa de informação digitalizada considerável. Parece que isso está em um documentário sobre Portinari que o Diatahy indicou em sala de aula. A relação estava portanto posta, ou melhor, explicitada: fluxos sensíveis, experiências e linguagens/traduções. A semiótica, a retórica e a filosofia da linguagem. E foi daí que comecei a me questionar mais a fundo sobre a relação entre o conceito de discurso e o conceito de experiência. 1960 - Althusser, Gramsci, Lévi-Strauss e o retorno de Bachelard. Máquinas e palavras. 1) AFETOS - nosso material. o que torna esse material narrável? Arte/Literatura/Psicologia Social/Psicanálise Mobilização das energias criativas da comunidade [catedrais góticas] Modelo do texto Linguagem e construção social da realidade social. Diferenças entre: Inteligência operatória e Horizonte mental. Ver o Pensamento selvagem. Linguagem como instrumento e linguagem como construção do real. a] função da estrutura (arquitetura). b] execução da estrutura (engenharia). c] investimento da estrutura (economia). d] ambiente de experiências (pedagogia). e] reprodução social (sociologia). [ESCOLA] Lógica medieval (objeto material e objeto formal). Ponto de vista, ângulo e mudanças de linguagens. Final da aula

Wednesday, July 11, 2012

Imagine ela

Imagina ela. Imagem nela. Imaginou? Opus barra ponto três, exercício nº 357/1949 [fortuitamente]. Para quem vai fazer tese: a prancha noventa e três, na prateleira 87, irá ajudar no processo de identificação, uma vez que sem o reconhecimento dos signos, não há signos. Isso não quer dizer que tudo se trata no propósito do reconhecimento e da negação, ok? Nem mesmo a fenomenologia do espírito poderia nos desorientar neste ponto, pois a tradução em português do alemão... [...} Alemão, o quê?...Sim, no sentido euroasiático, querido! N'est-ce pas? Chucrutizinho de deus, de meus deus todo poderoso, depois da coisa, a gente conversa, tá?;;; Voltando entonces ao ponto a partir do qual havia narrativa no nosso amor, no nosso lindo e caloroso encontro, poderíamos, na tragada mortal dessa malícia que não nos quer largar a mão como a maresia não larga a areia na parafina de uma prancha no Titan, se liga?, então...é como si, como se, como si..la viande aurait mentit. sem nem se isso é possível, mas as vírgula,s , essas jamais ficarei a devê-las, a espargilas, espargir, c'est comme ça?, espargir, epargaint lamour detre voté a la fois com si...pardon. Enquanto digitava essa parte, estava a me servir de uma dose de cachaça. [pense num bicho mentiroso! ele está a beber black label com água de coco e fica com essa história da cachaça apenas para impressionar não sei quem}, mas passemos adiante levantando a seguinte estória, se é que há história nessa semântica subalternamente americanizada na qual tento me esconder. enfim... Falar dele, sem que ele pudesse falar, por métier, causa-me profunda vontade de auto-anulação. Nem quereria me imaginar sem ele? Não!...Deixe de mentira! Não se trata de entregar todos os pontos assim de antemão. A barafúndia é perfeita. Como uma onda. Como um tubo no Titanzinho. De pé? Jamais! Jamé. Não sereis já mais como o rapaz que fede enquanto espanta por um segundo sua pobreza demente? Havia poetas realmente, na real, na mente, a viver de achocalatado? Sem nenhuma cachaça a corroer seus cérebros? Miríades possíveis quando se foge de casa, nem que seja para cagar, carregando com a mão direita o saquinho indefectível...sabe, o saquinho?...a fim de fazer o serviço completo funcionar. {...} pena pode ser de galinha, pode ser de fourcuzão! Pena de quem? Do pó? Do Poe? Os delitos e as penas! - pay per view2. Isso mesmo! dois, o um foi suprimido por falta de pagagmento (valha) ia dizer pa-gamento, afe! parece que estou andando no padre cícero da zé de alencar, no becão longo e comprimido, sem nenhuma ramificação que nos valha, mas isso é outra história, do tempo que morei lá naquele prédio vizinho ao teatro, e olhe lá que eu morava com uma atriz. louca! lôcôna. loucãozona! bicha doida que só se virava no pó de mármore, corroendo as pilastras do teatro latrino americano. Repetindo, para que vocês, os desavisados, os que beberam demais da conta, possam acompanhar. Havia poetas, ok? Havia cachaça, ok? Havia miríades possíveis, ok? Quando se fugia para cagar, carregando com a mão o saquinho indefectível, a fim de fazer o serviço completo funcionar...Qual serviço? O das luzes da ribalta, se liga? Ela o havia alcançado. Ela o havia realizado num sentido completo. Se o dormir não fosse tão inseguro e impróprio, esse dormir nos braços dela, num quarto alugado por hora nas vias de fato do zé de alencar, bem pertinho, subindo do primeiro para o segundo andar pela escadaria de pedra fria, acompanhando o chão, e nós, o homi e a muié, nós dois subindo como se não houvesse álcool em Alagoas, em Pernambuco, na Bahia, e em todo o resto, pois apenas em Teresina do Piauí havia de estar nessa parada, mesmo depois dos comerciantes terem sido produndamente lesados pelos vagabundos locais com quem fazia, inadvertidamente, negócios em torno da embriaguez alheia. Mas ela havia alcançado o segundo andar. Havia sim. Gração aos céus. Nem saberia imaginar como o sexo iria se realizar naquelas circunstâncias esdrúxulas, inaparentes, e inviáveis. Teria sido muito melhor ir prum cabaré na beira da praça para dormir em cima da mesa aos cuidados de Dona Maria, ou então pegar um táxi para o aeroporto indo encontrar em Botafogo, cidade do Rio de Janeiro, minha última herança, minha última memória. E assim se foi...Ela havia finalmente me alcançado.

Tuesday, July 10, 2012

O retorno inaugura o sujeito? Que balela, Butler!

passei horrores antes de voltar a escrever neste espaço vazio. tempos interessantes, como dizem os chineses, são tempos de guerra. nem por isso tive minha sanidade transida. a insânia permanece, qualquer coisa de indefectível nesse avatar de louco varrido. mas já é chegada a hora. um milenarismo de antanho tomou conta de mim, agora que sou criador de pássaros silvestres, um tanto incompetente, uma vez que não me obedecem os desgraçados. aninham-se no conforto do meu jardim para me abandonar em seguida sem nenhuma comiseração. uns pulhas, esses passarinhos da rua.

Sunday, October 02, 2011

Pérolas a cinco reais

Encontrei um lugar onde estou a adquirir pérolas a cinco reais, uma cada. Entretanto, não consigo guardar na memória os caminhos que me levam até lá - por mais que me esforce, termino desperdiçando mais do que disponho nessa labuta contra o esquecimento do caminho já trilhado. É como se houvesse em algum lugar um rio do esquecimento ou algo parecido. Sobre isso já devem ter escrito. Ocorre que, a voltar, sempre trago em mim um colar inteiro levemente repousado entre meus braços. Nem mesmo as sacudidelas da lotação fazem-me largá-lo.

Sunday, May 15, 2011

Drácia e Esther

Morava no décimo terceiro andar. Na cidade baixa. Uma esquina entre duas estreitas ruas do que outrora fora o centro de intensa movimentação de pessoas, carros e firmas. Nas últimas duas décadas, o manancial havia secado e a praça pública que o continha tinha se tornado um esgoto a céu aberto, como nas três favelas do entorno. Ao lado da portaria, um açougue semi-clandestino, impregnava a aproximação pela faixa de calçada da entrada do prédio com um odor duvidoso de carne e sangue misturado ao detergente com naftalina com que os funcionários da loja lavavam a calçada para disfarçar a sujeira do estabelecimento e amenizar a noitada de mijo das gentes que passam. O porteiro não me cumprimentava mais. Franzia o cenho, lançava um olhar furtivo para o espelho do corredor que o permitia enxergar além do portão de entrada sem precisar fazer nenhum esforço com as pernas. O elevador semelhava ao de um hospital. Um guarda roupa entrava fácil. A fumaça de cigarro nele era inescapável. A plaqueta de plástico duro com o aviso de não fumar estava quebrada ao meio. Nos cinco primeiros andares, com exceção de um velho pescador pedófilo, com quem quase ninguém travava relações, moravam travestis velhas e novas, misturadas e formando, na medida das suas forças de autodefesa, uma comunidade de ataque muito acolhedora para seus amigos. Duas ou três vezes, eu parava no terceiro andar para compartilhar da comensalidade de uma mais velha, quase líder, quase avó, que fazia uma deliciosa sopa, dispota em uma mesa estreita de maderia no meio do corredor. Nessas ocasiões, as portas dos pequenos apartamentos permaneciam todas abertas. Ao me apromixar da porta do quarto e sala que eu alugara com metade de uma bolsa de iniciação científica que não passava de 240 reais há tempos, percebi a porta entreaberta. Uma injeção de adrenalina deixou-me com o corpo menos trôpego por um instante. Empurrei a porta com o pé esquerdo para não perder a base de apoio. A sala estava vazia. Apenas o colchão descoberto sobre o chão. As mesmas garrafas de sempre. Os cinzeiros. Os discos. Os livros. Restava o quarto, o banheiro e a pequena cozinha para averiguação. Na cozinha, a geladeira velha disparou-me um pequeno susto, mas estava ok. O quarto, nada. A porta do banheiro estava fechada. Nenhuma luz. Abri-a com cuidado. Sentada no vaso sanitário, eu a encontrei semi-despida com um rosto já talhado de sangue, quando acendi a luz.

Ela era uma romena doida. Perdida na cidade. Não queria dar para mim. Bastava-lhe ser minha amiga. Virei anjo da guarda da gringa. Um amigo cuidador. Não tinha perdido a esperança de ir um pouco mais além, mas só lembrava disso de tempos em tempos. Ela respirava. Dieu merci! O corte aberto na testa tinha beiços largos, a carne rasgada como guelras de peixe fresco, vermelha e brilhante. Consegui acordá-la da semi-consciência. Dei-lhe um banho e tratei do corte provisoriamente com esparadrapo, fazendo pontos falsos. Ela ainda não tinha condição de andar e carregá-la nos braços para o hospital mais próximo estava fora de questão, assim como a falta de dinheiro para um táxi. Eram quatro da manhã. A preguiça de quem ingeriu álcool além da conta deixou-me inamovível de atitude. Mas dizia para mim mesmo que iria dar um jeito, mais cedou ou mais tarde. Ela então pôs-se a balbuciar alguns trocados de palavras, enganando-se de quando em vez de língua. Tentava me explicar o que tinha acontecido, mas sua memória não bastava. Foi quando percebi um vulto movendo-se por minhas costas. Virei-me rapidamente e me deparei com a face lívida de uma boneca amiguinha. Era a namorada brasileira de Dácia. Ela estava muda. De um mutismo histérico. O corpo enroscava-se em si mesmo como uma trepadeira que perdesse sua base de sustentação. Nada pude adivinhar de sua falta de gestos. "Preciso fazer xixi", quebrou o silêncio de modo estúpido com dois passos ligeiros entrou no banheiro, batendo a porta com força atrás de si. O circo estava montado, pensei com meus botões. Vamos ver aonde a palhaçada nos leva, resmunguei, acendendo um cigarro, enquanto procurava uma garrafa para um trago. Mas, desta feita, tranquei a porta do apartamento como precaução contra mais intrusos em minha vida de enclausurado. Adoraria estar só em minha cela. O dia já raiava.

Esther saiu do banheiro. Sorriso histérico refeito, como maquiagem velha que emerge das rugas das minhas amigas travestis, já aposentadas, do quinto andar. Não pude adivinhar-lhe qualquer intenção pelo seu olhar. Esgazeada, parecia como um jabuti, buscando encurtar o pescoço para dentro da carapaça.

Wednesday, April 21, 2010

saber escrever para mulheres

naquele dia, havia caminhado durante quarteirões a fio. a cada passo, a amarradura do tênis ameaçava se soltar novamente. os dedos estavam doendo horrores. quando já havia desistido de volver os olhos para o entorno de mim, deparei-me com os volumosos cabelos dela, vencendo a barreira do vento quente. era um final de tarde. nos entreolhamos e de lá podemos passar de um ao outro como na busca desejosa, era um enleio pelo olhar que se apresentava, um afã nascido de uma rotina frouxa, ao ponto de escapulir de todo e qualquer prazo. era um instante apenas. meu passo diminuiu como se as pernas carregassem nuvens, em seus movimentos de quadril, a aproximação era leve, muito leve. seria ela séria ao ponto de me negar um canto de olho que fosse? pensei em respirar como os corredores de longas maratonas e expulsar dos cantos internos do diafragma os restinhos de ar comprimido que me roubavam a voz. ela olhou para o chão. deu para sentir que não era o que ela queria, foi um lampejo de busca por proteção. um olhar tosco de arrependimento. parecia dizer "Putz, que vacilo!". mas nada me desviou da total imprecisão que a expressão dela remetia nesse movimento de recontro. a calçada ficou curta e estreita. um sorriso escapuliu. não sabia se era meu ou dela. tudo estava tão próximo.

Wednesday, April 07, 2010

não remunerar a perturbação

estou pensando em fazer escolhas produtivas sem produtivismo barato. quem perturba o juízo da gente não merece ser remunerado com nossa audiência. ouvindo jazz sempre.

esse é o meu não objetivo do dia a dia.

Perfis do orkut que vão e vem

Educador freiriano e pesquisador, não tenho interesse em me adaptar às exigências do mercado "livre".

O mercado é reativo, reacionário, está em função da ordem social mais absurda, desigual e injusta. Quem planta mercados liberais em sua vida, colhe tempestades subjetivas de autodestruição e destruição do Outrem.

Não tenho interesse no Estado e nos seus esquemas de filiação e antagonismo, nem nos micro-fascismos que lhe dão sustentação e base social velada.

Anarco-comunista da gema. Campo democrático popular na veia. Espartaquista na alma.

Frátria, Autogestão, Autonomia e Arte.

Projeto Popular campo-cidade em torno do direito à segurança alimentar.

Diferenças sem desigualdades.
Diferenças sem distinções.
Diferenças sem purismos.
Diferenças sem planificação.

O que me interessa são pessoas em coletivos e coletivos em pessoas de modo democrático, livre e igual. Multiplicidades de redistribuição de riqueza, conhecimento e afetividades.

A desconstrução não é uma questão teórica, mas prática. A desconstrução é uma tese contra Feuerbach em versão libertária.

O princípio redistributivo é o que interessa a todos e a todas.

As ações capitalizáveis estão com nada. São mesquinhas, medíocres e cafonas. Esteticamente estéreis.

Arte, cultura e criatividade estão onde nenhum lugar se encontra. Estão fora dos centros de poder, sejam amplos ou restritos.

zona autônoma temporária
socialização dos meios de desconstrução
regulamentação dos processos aquisitivos
desregulamentação dos processos criativos
autoposição da perspectiva diante de quaisquer contextos reducionistas.

as relações sociais são relações de transformação social

Leitura do dia

Etnografia como cenografia? Esse George Marcus se sai com cada uma. Gostei.

Saturday, April 03, 2010

Titanzinho lá vou eu

Estou me arrumando para encontrar com prof. Bebeto. Alongamento, caminhada e relaxamento no Titanzinho.

A condição humana

Ontem, fomos a um evento muito importante para um de nossos amigos. Há 9 anos que ele não usa uma gota de álcool, nenhuma sequer. Acumula fichas por isso. Fichas que tem uma valor simbólico imenso no grupo do qual faz parte. Merecia uma celebração. Agendamos com antecedência. Não pretendíamos faltar em hipótese alguma.

A esposa dele estava exultante. Colocou um vestido de gala. Vermelho. O contraste com a cor da pele indígena estava marcante. Fomos buscá-la numa das muitas fronteiras da zona oeste. Da última vez que tínhamos ido lá, para a ceia de natal, o rabo da cobra de uma guerra infinita mostrou-se de modo exuberante, pois até mesmo na violência o povo ameríndio é exuberante. Apesar da miséria do crack e da falta generalizada de dinheiro.

Thursday, April 01, 2010

comensalidade revisitada

Os rituais de comensalidade são do tempo do mármore. Imprimem sobre as pessoas moldes duradouros a partir do calor das mãos sobre a mesa - e das palavras do tempo em que não se via obstáculo entre elas. E da singularidade nasce a troca sem obrigação, a gratuidade a que se pode chamar de paz sob os auspícios do brinde e da aguardente a que hão de se abandonar sem risco e ao riso solto ao menos de uma vez.

de tempos misturados

azeite, cebola, alho, pimenta e manteiga. cervejas. cachaças. filet bleu au poivre. batatas. salada. filet de badejo na manteiga ao molho de alcaparras. Strogonoff de filet mignon ao vinho. Peixe pargo frito inteiro com baião, tomate e farofa. Tagliatele ao molho de vodka com camarão. Salmão grelhado. Moules marinières avec frites. Ostras. Ova de peixe. vinhos cabernet sauvignon, carmenère e merlot. brancos maduros misturados com champanhe. pudim de leite. sorvete de sapoti e doce de leite. café forte e amargo com cognac. água mineral.

a regra e a corrida

Duas crianças estavam brincando de apostar corrida no pátio da escola. Eram dois meninos. Um deles era deficiente físico, usava um suporte na perna direita para caminhar; mas sua vontade de correr era tão forte que ele de fato corria e com muito afinco. O outro menino não a mesma deficiência física, suas deficiências eram menos visíveis. Quando os dois se alinham lado a lado para começar a apostar a corrida, um deles propõe: eu vou correr como você, tá? Um, dois, três e já! Eles começaram a correr, uma disputa acirrada, e lá ia o menino sem deficiência física na perna, fazendo um esforço fenomenal para correr como se fosse o seu amigo. Houve uma verdadeira competição e eu pude aprender muito em observar esses dois garotos, aprendendo a ser gente.

das antigas

Entre o melodrama e a dimensão trágica, ocorre-me o escorrego na cova rasa da vida; mas sou ligeiro, escapo com granada na mão sem pino. E não largo a granada até atingir o alvo com o meu próprio corpo. Vi isso num filme, ou terá sido num game? De qualquer modo, pulo de modulação e saio do eu estúpido da guerra e abraço o amor da vida boa e da petite joie!

"a vida só se organiza se desmentindo, o que é bom para uns é muitas vezes a morte para outros, sendo que só os tolos, entre os que foram atirados com displicência ao fundo, tomam de empréstimo aos que estão por cima a régua que estes usam pra medir o mundo; como vítimas da ordem, insisto em que não temos outra escolha, se quisermos escapar ao fogo deste conflito: forjarmos tranqüilamente nossas máscaras, desenhando uma ponta de escárnio na borra rubra que faz a boca; e, como resposta à divisão em anverso e reverso, apelemos inclusive para o deboche, passando o dedo untado na brecha do universo; se as flores vicejam nos charcos, dispensemos nós também o assentimento dos que não alcançam a geometria barroca do destino; não podemos nos permitir a pureza dos espíritos exigentes que, em nome do rigor, trocam uma situação precária por uma situação inexistente" (Raduan Nassar).

Fui

Vida de boa-aventurança!

sei nem se é repetição

um dos meus maiores prazeres é trocar o grafite da lapiseira. saciá-la, abastecê-la, mimá-la. nutro um amor profundo pela minha leal e histriônica lapiseira amarela zero ponto nove.

eau-de-vie

gosto das relações humanas quando são cálidas como o efeito de um trago de cognac.

eau-de-vie.

modo de acordar

espírito livre, acordei noturno para violino e piano de Chopin.

não faço a menor idéia de por que escrevi isso

no momento deciso em que esperava ser outro,
o julgamento ultrapassou a leveza do fluxo,
o destempero do porvir
e o espaço de ação
- antes desprezados -
fizeram-se nomes de todas as coisas.
E o espaço de ação - antes aviltado - fez-se qualidade do pensamento, e do improviso da razão!

em primícias de desventura,
criei o despropósito de morredouro,
a lipoaspiração do ente
disparatado, no prato de camarão.

antes dele - alvo do arco verde.
antes dele - marcado de carvão.
antes dele - tutoria do agora.
antes dela - incúria.

mais uma citação antiga

"Mediocribus esse poetis non di, non homines, non concessere columnae", diz Horácio em sua Ars Poetica ('A mediocridade dos poetas não é permitida, nem pelos deuses, nem pelos homens, nem pelos pilares que sustentam as lojas dos livreiros')." (CASSIRER, E. Ensaio sobre o homem. São Paulo: Martins Fontes, 2005: 368-69).

uma anotação antiga que encontrei por esses dias

Valentina me explicou que as escadas estão de cabeça para baixo. Enquanto nós subimos, pisamos primeiro na cabeça da escada e depois no corpo até chegar aos pés. E quando nós descemos? Vou perguntar para ela. Pronto, ela me disse que quando nós descemos as escadas sobem. É o contrário, é simples!

outra da mesma cepa

"Tudo o que ele conseguira refrear por meio da sua responsabilidade fora ele mesmo" (Roth sobre Seymour Levov).

citação que encontrei no hd de 40

"Sim, estamos sós, profundamente sós, e para sempre, uma reserva guardada para nós, uma camada de solidão cada vez mais espessa. Não há nada que possamos fazer para nos livrar disso. Não, a solidão não devia nos surpreender, por mais espantosa que seja essa experiência. A gente pode tentar se virar pelo avesso, mas tudo o que a gente consegue então é ficar do lado avesso e solitário, em vez de do lado direito e solitário" (Roth).

Inventando as coisas

Houve tempo para briga. Agora é só relaxar, distender e começar a elaborar os próximos passos de uma nova e intrigante trajetória.

Sunday, March 14, 2010

Idéias

Não tenho interesse em me adaptar às exigências do mercado. O mercado é reativo, reacionário, está em função da ordem social mais absurda e injusta. Quem planta mercados em sua vida, colhe tempestades subjetivas de autodestruição. Os ressentidos e mal-amados são os chefes das lógicas de mercado. E cada chefe expressa a forma mortuária de ser das empresas falidas do capitalismo contemporâneo.

Sou proletário da educação superior (privatizada) faz dez anos. 16 horas de trampo por dia. Não me chame de intelectual como se eu fosse avoado que te mando às favas. Nesse ponto parto para o emocional mesmo. Tenho orgulho de ser educador para a prática da liberdade, seja nas faculdades, seja nas comunidades.

Nem Pátria, nem Patrão. Nem Família, nem Religião.

Anarco-comunista da gema.

Frátria, Autogestão, Autonomia e Arte.

O que me interessa são pessoas em coletivos e coletivos em pessoas de modo democrático, livre e igual. Multiplicidades de redistribuição de riqueza, conhecimento e afetividades.

A desconstrução não é uma questão teórica, mas prática. A desconstrução é uma tese contra Feuerbach em versão libertária.

O princípio redistributivo é o que interessa a todos e a todas.

As ações capitalizáveis estão com nada. São mesquinhas, medíocres e cafonas. Esteticamente estéreis.

Arte, cultura e criatividade estão onde nenhum lugar se encontra. Estão fora dos centros de poder, sejam amplos ou restritos.

zona autônoma temporária
socialização dos meios de desconstrução
regulamentação dos processos aquisitivos
desregulamentação dos processos criativos
autoposição da perspectiva diante de quaisquer contextos reducionistas.

as relações sociais são relações de transformação social.

Sunday, March 07, 2010

letras ou garranchos?

Estou com um problema terrível. Desaprendi a escrever a mão. Minha letra cursiva nunca prestou, mas agora parece um destroço garranchal. Horrível. Ainda existe esse negócio de caligrafia ou isso é coisa do passado?

Contra a publicidade infantil

Sou contrário ao uso de apelo direto às crianças feito pela publicidade infantil para qualquer tipo de promoção comercial, principalmente, as vinculadas a alimentos a base de açucar, gordura e outros produtos que afetam a vida saudável. Mas também usar o público infantil para forçar vendas junto aos seus pais. A sociedade precisa regulamentar esse problema. Consumo consciente, ecosustentável, socialmente responsável e moderado já!!!!

Malditas escolhas

Estive deitado a tarde inteira. Postado sob a sombra abrasiva de uma mangueira estava corrosivo como seu entorno. Nada germinava sem aviso prévio. Os pensamentos estagnavam como ostras mal digeridas. Cada idéia era uma bolha de um verão interminável. A digestão modelava a experiência como uma espécie de gaseoduto obstruído. O congestionamento era a fatalidade daquela modorra. E ainda por cima, teria que desbulhar contradições, conflitos e integrações entre as teorias de um século já enterrado, apenas revirado pelos escombros dos tremores que afligiam a cidade por aqueles dias. Da sacada, podia observar duas mulheres seminuas tomando banho de sol com óleos que da pele refulgiam como espelhos d'água. Era um golpe de vista desagradável como mirar a pele escamosa de algum réptil repugnante mas cuja carne é uma delícia depois de assada. Sem pândega, voltei para o fundo da rede. Só uma água de coco podia me salvar. O resto servia à bancarrota devido às ostras com cerveja no café da manhã do dia anterior. A lavagem não me fez bem.

Loteria perversa

Depois de meses, percebi que recebo religiosamente o e-mail da Caixa Econômica Federal com o resultado da loteria. Eu mesmo me inscrevi no site da Caixa tempos atrás. O problema é que eu não jogo na loteria. Que bobeira maluca essa, então? Talvez fosse o esculacho de receber um resultado que não me interessa ou a má-fé da minha inconsciência bestial, querendo sair do apartamentozinho de esquina de padaria para uma ampla vista para o mar? Acho que eu estava era bêbado quando fiz essa maldita inscrição no site da Caixa. O pior é que não estou conseguindo descadastrar o recebimento do e-mail. Terei que conviver com o fato. Amore fati. E voilà!

Thursday, February 18, 2010

Paganismo e vida saudável

A calmaria de um desjejum a base de água natural, aos goles, seria uma retidão de caráter, não fosse pelo vinho que corre pelas minhas veias como um elemento de anti-estoicismo.

Wednesday, February 17, 2010

novo ciclo

Quem, eu? Quem, você? Nestas paragens, os sítios são cultivados pelo prazer das práticas. E os textos são ou dilações sobre si mesmos ou anotações de estudos. Gosto da mistura de gêneros: antropologia com gastronomia, etnografia com literatura, filosofia com ciências cognitivas e cinema com narrativas expressionistas. Se pudermos trocar idéias, é um bom ponto de partida! Onde, eu? Onde, você?

Tuesday, October 20, 2009

anti-urgências total

pobres dos incautos que se comunicam e, aí daqueles, que se comunicam etiquetando suas mensagens como urgentes. o que sabem eles sobre a urgência? Mensagens urgentes, eu as relanço aos deus dará empacotadas como chegaram. O desprezo pelo que é travestido de urgente é um arroubo, é um gozo. Urgente, quem? Urgente, eu? Urgente, você? De anti-urgência em anti-urgência, a vida vai seguindo, sem que a ansiedade do adoradores de urgência se aplaque. Portanto, urgente só amanhã, vai indo que eu já fui.

Thursday, July 30, 2009

atropelamentos

primeiramente faríamos a avaliação de todas aquelas aves de rapina que nos querem fazer muito bem ao sangue de dois centímetros de espessura coalhados no asfalto mentiroso das minhas manhãs.

poder de quem?

e quem poderia dizer que o ler o mundo é uma tarefa objetiva?

a margem escorrega

e eu nem poderia imaginar que se um dia eu pudesse ter razão, a margem deixaria de estremecer sobre mim. quase como se o sujeito fosse nem dois nem três de si mesmo. uma espécie de tragédia com múltiplos divisores em comum traria de mim aquilo que eu gostaria de ter quando dançasse um música lenta contigo.

sinais

e se a fruta é para ser repartida entre os vários saleiros que a salgam, pereceria minha estranheza em não buscar na fonte de ouro do meu estrabismo o labirinto que medeia a estrela de absinto? e quem poderia assim me satisfazer o olfato e os outros tantos sentidos de procurar a ação que se propõe em signo estabelecer a pauta do teu marcador corporal?

jogando videogame eu me encontro

e quereria a pulga que me deixou te falar como seria se você fosse inconveniente e me propusesse algo mais do aquilo menos que posso te dizer quando insisto em minha palavra solta feito maestro de querer abrir o fôlego para aquele senhor histrião que me bipartia a vida para abraça-lo em duas partes diferidas pelo público fiel mas nem tanto do meu azar.

fugindo pelo beco errado?

e mesmo sem entender a desventura de exuberância que a ela eu proporcionava na minha possível aptidão de a ver inteira através do véu malogrado que faz da transparência um quase furto da alma, queria fazer disso a instância dessa incumbência de tratar o malogro como se altivo fosse. e além disso, apenas o terraço frio, deserto, das pessoas em vão a trazer a caminhada fatal, o trejeito dissoluto de uma partida menos eufórica do que a chegada pelo beco da praia.

sei mais não

e a caminhada seria ao menos esdrúxula se ao finito pudesse reportar minha trajetória em mixórdias celestiais. a quem desses caberia decidir sobre meus pesadelos? sobre minha vontade de não precisar meus passos pelo jardim alheio? e talvez assim pudéssemos atravessar o noturno em riste que há em nós quando volvemos feito loucos banidos pelo ministério de molar preciso e salvo como estridente entre nós.

lodaçal em blues

saudades de ver a mala cheia de festejos, embebida no dígito misturado do jardim anfíbio do coração. esverdeados conseguimos vencer o bosque dos riachos preteridos.

os capazes de quê?

capazes são aqueles que nos ouvem quando batemos à porta do estabelecimento achando que em vão poderemos entrar, ser ouvidos, e dormir numa cama aconchegante, mesmo que com doze pessoas perdidas ao derredor.

Sunday, July 19, 2009

pedintes como eu

Adoraria ter um dia na vida podido degustar de pelo menos um desses instantes de que falam os felizes convictos. Por vezes, uso toda minha força de imaginação para criar uma ambiência plausível para isso, elaborar um cenário onde pudesse ao menos simular a sensação dos relatos dos recalcitrantes felizes. Ah, quem me dera poder saborear da brisa de um vento cálido e marinho, como a respiração fumegante das narinas da sereia, quem me dera abraçar a amante apaixonada que soubesse brindar com o vinho trácio de seus olhos a origem da diáspora de algumas pontas de metal em bronze que amalgamam os meus sentimentos tristes. E colocados aos lábios dela, os meus se fundiriam no mais amargo dos chocolates, beijos entre fendas entreabertas e resfolegantes. Apenas John Coltrane por testemunha estaria presente nesse idílio dos corpos misturados. E em extremos ancorados pela angústia de jamais possuir o melhor dos desejos, nem a melhor das vidas em fúria, quem me daria a mais intensa alegria seria aquela que me faria abandonar essa noite deprimente que me faz viver apenas pelo saque marmóreo do alheio. Um saqueador do outro imaginado, mergulhado na soturna devassidão, com as mãos nuas de seio.

venezuela

ela me fitava com olhar de lástima. parecia que tudo tinha deixado de nos obsequiar. o derrisório tornava-se fastidioso. e as penas pesavam mais do que o vento salobre do final da tarde. quase tropecei no batente quebrado de mármore italiano. a casa em ruínas me convidava a mergulhar fundo no avesso da memória e esquecer que as curvas do meu corpo tinham sido delineadas por suas mãos. o último sorriso que ela me salvaguardara, como se o carinho soprasse um vento da manhã ainda fresco, foi meio desenxabido e saltou com um muxoxo, era uma fina ironia que se desgraçava em mim.

Friday, July 17, 2009

bula de remédio

qual solução era possível? aquelas com teores fraudulentos de álcool estavam há muito descartadas. pelo menos por enquanto, eu havia conseguido me livrar delas. resolvi então seguir o conselho de um amigo que me adicionara no twitter com uma rapidez de gavião leopardo. mal pudera estabelecer a conexão, um monte de mensagens se dispunham ao meu alcance de modo milagroso. dá pra entender? pois, então, bem estive quando descobri a solução tópica de meus problemas, ou seria um só? agora nem tanta esperteza tenho para mirar essa questão. o que me vem a mente, de certo, é que, não se deve usar esse tipo de formulação. um lance que meu professor de redação me ensinou faz é tempo. Mas sem querer tergiversar demais, vou contar logo minha história. é sobre algo como uma bula de remédio que as pessoas por vezes têm pesadelos? dá para entender? de qualquer modo, encontrei a solução tópica dos meus problemas. foi algo sugerido. fiquei super feliz. imagina. além do frio desmesurado que sofri, da sede absurda que me impuseram durante tempos a fio, precisaria eu encontrar a solução mais específica de todas? pois era a ela com quem eu me avistava. fazia de conta que era daquelas caipirinhas que a gente mente de tanto fingir que tomou? se liga? pois então era isso próprio. a menina chega estava com cabelos frígidos de tanto pensar nessa aproximação que quase eu falava como sendo um passagem pelo arpoador do nosso sangue. mas estou começando a tentar ser obscuro, não é? pois não! pois intentarei reverter essa sanguínea força de distúrbios brandos que me fazem quase um ganha pão de mim mesmo. um esfrega cu de judas. mas aí já seria partir para a ignorância. de fato, foram o cloridato de lidocaína com cloreto de benzetônio quem me salvaram a vida. parecia coisa de tomar chope com amigo a tarde toda! se liga? pois bem, fui adentrando o âmago da questão, pois o filho da puta do meu professor de português que eu quis esquecer o nome do desgraçado vivia a falar assim sobre sentir algo no âmago, o frustrado se virava para conseguir alguma vida, não levava nada, nada além de vírgulas e travessões. eu levei um zero do amigo do tal que ensinava matemática. mas isso foi um caso a parte que merecia texto mais elaborado do que este que eu falo. uso adulto ou pediátrico? sei lá! estou mais para operações intravenosas de colocação no mercado de trabalho. tomara que estejam menos repelentes aos que enganam algo além de que podem ser.

Tuesday, May 26, 2009

a flor da pele

ser a flor da pele sempre foi ao mesmo tempo minha glória e minha perdição. mas ela preferia a idéia da glória e assim eu me fiz carne para atendê-la. não havia como fazer isso de modo imediato. tinha de fato horror à imediaticidade das relações. se é para ser imediato, eu fujo. torno-me assim o imediato mais autêntico. todavia, não poderia negar. quando ela me conheceu, eu estava em ruínas. era um eu arruinado, atribulado, quase malfeitor. duas décadas foram perdidas em 20 dias de aflição pelos quais os ofendidos se feriam, e os humilhados se retiravam. o meu melhor seria você, mas as bandeiras ainda estavam desfraldadas e a atenção moída pelo corropio do desejo cortado pela pedrada do orgulho. quem poderia imaginar-se em situação tão deplorável? a imaginação sofria de arritimia e o coração batia certo, sem falhas, portanto de modo artificial. eu era quase como o andróide do filme. você apaixonada por mim, inflava-se de seu próprio desejo, e assim tornava-me um competidor descartado, atrasado, incapaz de levar a frente a possibilidade da conquista. apenas quando você parava de se lamber, de escrevinhar tuas próprias falas em teu corpo, eu me via com a chance de crescer e arrebatar-te para toda a vida. Enquanto eu me virava para melhor fitá-la sem derramamento de lágrimas, ela retrucou: "seria ainda capaz de saltar e fazer as curvas com os toques de um sabio olho verde que curva-se ao desejo e curva da melhor maneira as palmas do desejo imaginativo acossado", então, eu me calei e a abracei profundamente.

Wednesday, May 13, 2009

é mesmo?

pelas beiradas, vamos escrevendo o real.

Ilhas Cayman

o que é perigoso na vida? as ilhas cayman com certeza o são. nem sei se é assim que se escreve. eu apenas identifiquei, enquanto escutava Francisco Buarque, que existem pessoas que assim se identificam. fiquei curioso de não saber se a distância é pequena a esse entorno. as escolhas são as melhores, pois são nossas. não há necessidade de dúvida nesse processo. Sacas?

Saturday, May 02, 2009

escrevendo tese

o céu desabou em fortaleza, lavou das esquinas os olhares circunspectos, pilhou das casas a desfaçatez com que se guarda banha em pó, limpou o olhar de quem vê de trás para frente. em comemoração ao torrencial a que não me opus por mérito de ser sensível aos limites do organismo humano diante das vontades de uma senhora e sua filha irascível, causei em minha pele um quê de memória escorregadia do tempo em que morava no barracão de meu pai, sem telhado, nem fissura que me aquecesse os ossos. foi assim, conquanto, que tive coragem, levantei-me e assolei duas torradas desengasgadas com suco de maracujá. escutando algo In a Landscape, livrei-me de Cage, em fuga e no café da manhã comi desejo como devir com manteiga e pimenta vermelha. quem poderia me sustentar nesse afã de escrita? nem idéia faço de mais não querer adiar a tarefa. passo a ela o turbilhão. deixo aos meus, o aviso.

Wednesday, April 29, 2009

copyleft for night

os melhores textos são os xerocados. o prazer de fotocopiar Platão e encadernar é único. A Metafísica de Aristóteles, por exemplo, chegou até mim pela xerox encadernada de um amigo. Nunca a li, mas os diálogos, eu os li todos. mesmo que a organização mundial da saúde proíba o uso indeterminado de suas informações, ainda me proponho a me assustar com a gripe aviária. Esse gripe aviária está mostrando que a China continua despreocupada com suas ervas daninhas. em seis dígitos ainda será possível captar recursos para a contrapartida dessa pandemia planetária provocada pelas galinhas do livro vermelho na mão. portanto, eis que usuário meritório dos marcadores da enunciação, gostaria de propor um x-tudo ali na esquina. bem ali embaixo, pertinho do solo onde se perde a noção das hierarquias e divergências absolutas. quereria ser carlos, quereria ser gauche para enunciar essa mixórdia de vamos lá e vamos cá que fazem de linhas, corações. e enquanto me aproprio do possível, vou enganando esse pessoal esdrúxulo que me aporrinha sem nem saber voltar para casa.

Saturday, March 14, 2009

noites insones

mais uma noite de insônia. seria a insônia uma qualidade da noite? será possível eu ter me enganado durante tanto tempo sobre isso? há dez anos, eu estaria dançando em algum lugar. então é isso? estou ficando velho. por isso que esse sentimento de acúmulo de vivências impregnou-se em mim. eu deitado na rede, na sala de casa, e as luzes do prédio alheio invadindo minha sala, projetando-se sem minha permissão sobre as paredes que, agora percebo, nunca me pertenceram por uma razão muito simples, a casa é minha mas as paredes não são minhas, são alugadas. por esses dias, precisarei ir ao dentista. meus dentes pela manhã balançam na boca e, à tarde, quando já os sinto suficentemente endurecidos para uma refeição mais ousada de picanha com salada de batata, eles se ressentem de não terem sido avisados. estou com saudade do meu dentista. ele é um cara muito legal. engraçado e prestativo, faz da situação imobilizante da cadeira de dentista uma cena de filme antigo, desses em que as imagens giram na nossa cabeça, como se o mundo fosse delirante. de qualquer modo, é melhor do que ficar acompanhando a intromissão de mãos e ferramentas, brocando dentro da boca aberta, escancarada, atemporal.

houve tempos em que minha subjetividade se percebia meio mandona, dona do mundo, no centro de tudo. nem sei mais se perdi alguma coisa em perder essa experiência para todo o sempre. algum leitor pode me objetar. mas esse cara não está escrevendo em primeira pessoa? mas é aí que está. é a facilidade do escrever em primeira pessoa que hoje me denega. é o que sinto. meu eu não está mais aqui. está em outro lugar. e não faço mais a menor idéia de onde seja esse outro lugar. talvez tenhamos que pedir ao poder público e aos estabelecimentos privados com responsabilidade social para criarem departamentos de eus achados e perdidos. pelo menos seria divertido correr o risco de entrar no shopping para comprar uma camiseta e sair com um eu completamente estranho e sinistro, falando por nossa boca como se fôssemos um títere de sujeito. o eu lá, todo intromisso, macaqueando em nosso corpo pelas ruas da cidade. íamos dar trabalho à polícia, aos médicos e todos os senhores de anéis que se esmeram em cuidar de nós.

eu não devia ter comido tanta picanha. o bolo de carne está parado dentro de mim, espreitando pela chance de se movimentar. as menininas adotaram o procedimento medicalizante da anorexia. um dia desses uma equipe de alunos e alunas fizeram um trabalho sobre isso para uma de minhas aulas. foi horripilante saber que os menininhos também cederam a isso. a anorexia agora é andrógina. não que eu seja um desses moralistas débeis mentais que ficam alardeando pelos quatro cantos o fim de deus por causa da androginia. tenho lá minhas babaquices, não muitas, é claro, ainda me resta um sentido próprio de amor ao outro, mas o que me assusta é onde a androginia está sendo aplicada. talvez fosse mais interessante termos mais arte andrógina com menos bulimia. mas acho que estou precisando ir pegar uma coca-cola zero, antes de continuar, para não descambar para um texto chulo de jornaleco, tipo desses que saem na folha lá do povo que acredita mandar na gente.

pronto, estou de volta, peguei o copão de plástico amarelo e enxi de pedras de gelo com coca cola zero. será que eles pagam algum bônus, se a gente cita o produto num texto assim da blogsfera? sei lá, está tudo tão mudado que é bem capaz de eu receber um telefonema amanhã da mega-empresa sobre isso. vixe, outro problema, esse hífen aí atrás ainda existe? não, não vou me preocupar com isso agora. são três horas da manhã e meu sono está passeando longe lá fora. mas pensando bem vou verificar ali de novo se eu desliguei mesmo o celular. não só por causa da coca cola. estou de saco cheio de celular. virou uma espécie de consultório ambulante. e como eu tenho apenas um ouvido bom, o outro é bichado, ninguém consegue falar direito comigo ao vivo se eu estiver falando ao celular. é uma coisa ou outra, sou mono. ainda bem que eu não digitei mona, pois aí o povo podia maldar. pesquisei aqui no google, mona is a free operating system com code free. legal, olha aí eu fazendo outro merchandizing pra galera do capital. enfim, o capital se subjetivou, como dizem os professores de hoje em dia lá nos estados unidos. o capital por lá se subjetivou de tal modo que perdeu inclusive a morada. foi expulso de casa. antes, a figura por excelência do capital subjetivado, era o desemprego, agora é o desemprego homeless. só falta o capital subjetivar o desejo da falta, pois o desejo da culpa já virou moeda corrente da fluidez das novas relações capitalistas.

pense numa insônia braba, fui nos estados unidos e voltei ainda com ela nos braços. mas venhamos e convenhamos, não se fazem mais churros como antigamente. apesar de que no google temos mais de 1.900.000 referências para as receitas de churros. enfim, estamos comendo os códigos. esse lance dos churros foi mais uma lembrança reprimida da infância. ou seja, outra vez me lembrando que estou ficando velho. acho que preciso ligar amanhã para minha mãe. conversar com ela sobre a velhice. mas terei de ser bem sorrateiro para ela não ficar com raiva e passar duas semanas se escondendo de mim. principalmente agora que ela praticamente virou budista tibetana, eu ir falar de velhice, não ia pegar bem. mas se eu falar da minha avó, a conversa rende 93 anos. já estou me sentindo mais novo, só de pensar. mas assim também já é manipulação demais das idéias.

acho que vou parar por aqui compartilhando a notícia boa de que o barulho das teclas acabou acordando minha mulher. ela perguntou o que havia, eu disse que estava com insônia. ela então me chamou para conversar. a voz era macia e acolhedora. vou nesssa, meu tempo de vida é promissor por esses instantes e amanhã não sei se vou caminhar na praia ou tomar uma cerveja comendo um pargo frito. que vida distante essa nossa.

Friday, November 07, 2008

1988

esses bostinhas, infelizmente, eu os conheço faz tempos. desde os tempos de escola. os babacas ficavam lá irritados por não aprenderem nada, naquela porra, que era a escola da gente, que não se tocavam, de jeito nenhum, que aquela porra do colégio da gente, era só para aprender como funciona a sociedade brasileira e como um todo fraturado e rasgado contra a parede que é o peito de ter assinado a constituição federal de 1988 e exigir que ela seja efetivamente cumprida, pois eu assinei e quero minha vontade respeitada, e os babacas do colégio que só pensavam em dinheiro, sucesso e poder, viraram esses gerentes restritos que temos que engolir por aí.

Monday, October 06, 2008

A favor de Fortaleza de tod@s!!!!

A cidade é nossa!!!!!!!! A cidade não pertence aos carros importados dessa elite estúpida e sua arrogância histórica. A cidade é nossa!!!!!!!! Não aceitamos mais que esses segmentos elitistas que só pensam em dinheiro, sucesso e poder continuem destruindo o meio-ambiente, avançando na especulação imobiliária, oprimindo os jovens da periferia e instaurando uma situação de desequiíbrio social e cultural insustentável. Queremos reverter a riqueza das pessoas dessa cidade em elemento cultural, político, social e econômico que amplifique e potencialize um processo de desenvolvimento sustentável, orientado para justiça social, igualdade de direito e de fato, qualidade de vida, respeito aos direitos humanos, à diversidade sexual, enfim, uma cidade para tod@s. Uma cidade de tod@s. Que as elites fiquem nos seus shoppings centers, empaturrando-se de gordura. E que os seus filhos venham jogar capoeira, dançar quadrilha, surfar e mudar de mentalidade nas comunidades criativas do nosso povo.

Thursday, May 22, 2008

Corpo e pessoa

1. Como a pessoa se torna uma pessoa?
2. Qual o modo de pensamento da pessoa como pessoa?
3. Quais as formas de organizacao das pessoas?
4. Como funcionam as modalidades de interacao das pessoas?
5. Como o corpo faz a pessoa?

Tuesday, April 08, 2008

vital

só uma forma de vida muito forte conseguiria ser tão ambiciosa quanta a planta. já girara o mundo em múltiplas direções, avizinhando-se sempre das companhias incautas dos seus homens de terra perdida. foram necessárias duas ou três gerações para difusão geral entre os coletivos livres. o entre sustentando o próprio edifício da vida. na negociação permanente sobre o sentido da vida social ou nos tornarmos como essa forma de vida que diferencia nos seu fazimentos ou viraríamos presas escapatórias dos homens sem pele em miríades em cujas trocas a moeda corrente era uma moeda falsa. e os falsos moedeiros perdidos estariam se não houvesse a dita distorção de percepção. dar dobras no sensível, partilhá-lo com quem se ama. então essa força de diferenciação intensiva em que se desloca a carruagem do tempo nos faria em algum momento titubear só para perceber a conexão que conecta algum tipo de relação que possamos presumir dos universos múltiplos onde vivemos. Onde é a questão central. Onde? nossa forma de nos localizarmos no planeta é específica, volátil e misturada, como se um estudo filosófico do ser não pudesse mas contar, em sua regionalidade, com a ausência de perspectiva sobre o fundamento de zeus. o corpo marinheiro. a vida passageira. e a aterradora vontade de viver, de iludir qual viver, de fazer rapsódias do viver, enquanto pedregulhos acinzentados de manhãs adjetivadas ao extremo poderiam obstar a caminhada nua sobre os próprios trilhos e carnes. Carrapatos não morderiam nossas belas lapelas se apaziguados estivéssemos com a sorte, ou qualquer outra destinação que não fosse a melhor de todas. quereríamos então sofrer a fim de não isalar toda a sensatez de uma base mínima de compartilhamento, se os meios disso são falsamente profusos, e até mesmo, escassos. e é nessa escassez, nessa fome, alimentada pelos textos que nos moldam o caráter agonístico de toda e qualquer relação em cujo núcleo se produz a própria possibilidade do social, esperneia-se a três por quarto para manter estável alguma característica do social, esse lugar de fabricação perpétua. e assim começam os dias...

Monday, March 24, 2008

Heinrich Füssli

o homem gordo, em marcha a ré, perdeu o equilíbrio ao bater o calcanhar contra a dobra de tapete e despencou de si mesmo. provocou seu próprio mergulho depois dos três passos hesitantes que antecederam o vexame. de costas, os calcanhares entrechocaram-se ao se despedir do solo. a dobra de tapete tinha força vulcânica, não parecia mero obstáculo. sem falar que aquele tapete, ele comprara de presente, um presente caríssimo, para suas anfitriãs, que acompanhavam com viva surpresa, quase aclamando o desfiladeiro que se abriu sob suas costas. estrondoso e obsceno, ele despencou, felizmente, na cadeira de vime preferida do marido de Kézia. acompanhada do riso aberto de Clara, sua amiga íntima e confidente, ninguém, nem mesmo Kézia, parecia reprovar a cena. aliás, o sorriso sem quase sons, de ruídos abafados de Kézia, soava mais aterrador do que a gargalhada desbragada da outra. se visto a partir do seu reflexo no espelho, a gargalhada pura e simples de Clara era brincadeira de criança diante do escancarado desse sorriso refletido que, como tudo que ousa refletir, ganha parecença com a desmesura, com o excesso e o o espírito malsão da ironia pura.

a queda para o homem gordo era uma espécie de mergulho em si mesmo. não chegava a ser um de seus piores vexames, mas os simbolizava a todos como numa telemaquia às avessas.

Thursday, March 20, 2008

O intervalo

passei o dia limando pensamentos.

Sunday, March 09, 2008

9 march, 2008.

eu me vestia mal e lia Thomas Mann com devoção. estraguei duas obturações mastigando páginas de madeira sob a sombra de laranjeiras devoradas pela peste, carcomidas de doenças arrojadas pela concorrência californiana. que saudades de Berkeley eu não sentia ao escorregar pela minha camisa puída os dedos que viravam pálpebras. desde então não me visto tão mal, pois perdi o parâmetro, mas continuo à procura de José e seus irmãos, sem achá-los em lugar algum dessa terra queimada, e assim sobram-me ao menos as vontades da montanha mágica que quando criança parecia uma cena de filme onde o carro voava pelo penhasco de montanhas rochosas quase-canadenses, creio eu. se não fosse tudo fantasia, já estaria com saudades de mim num tempo em que nada desmerecia esse afeto.

Wednesday, February 06, 2008

Rubino, o forte.

Ele lia Freud como um código penal. Apegava-se, como prisioneiro, à letra da lei, em busca de refúgio e proteção contra as intempéries dos processos nos quais estava irremediavelmente enredado, e com espírito assolado e fustigado de criminoso, reclamava mitigação como quem foge dos rigores da pena inescapável.

Monday, January 14, 2008

14 de janeiro de 2008.

"Minha disposição é a mais pacífica. Os meus desejos são: uma humilde cabana com um teto de palha, mas boa cama, boa comida, o leite e a manteiga mais frescos, flores em minha janela e algumas belas árvores em frente de minha porta; e, se Deus quiser tornar completa a minha felicidade, me concederá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos enforcados nessas árvores. Antes da morte deles, tocado em meu coração, lhes perdoarei todo o mal que em vida me fizeram. Deve-se, é verdade, perdoar os inimigos - mas não antes de terem sido enforcados" (Heine).

"O que chamamos de felicidade no sentido mais restrito provém da satisfação (de preferência, repentina) de necessidades represadas em alto grau, sendo, por sua natureza, possível apenas como uma manifestação episódica" (Freud).

"Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?" (Drummond).

e quem nos impede de escrever? o mar agitado, quebrando em caixões desde minha infância? certamente que não. seria a areia da praia em que com meus camaradas tantas vezes pisei em troca do afago, da poesia e da imprecisão da manhã? certamente que não. conversar com os amigos até perder os limites da injunção entre cores pintalgadas de cemitério? certamente que não. angariar fundos para uma partida de ping-pong e uma garrafa de cachaça? certamente que não. uma crise de estabelecer o transitório na vida como se fosse regra? certamente que não. incríveis impropérios sobre o viver, instruídos pela falta de acalanto? certamente que não. martini seco e cubos de gelo, derretidos pela manhã no copo impróprio do beijo de quem mal se sabe amar? certamente que não. singapura no café da manhã? certamente que não. libido de sexo de areia sob a mira do mergulo de olho trôpego, inquisto, do outro? certamente que não. mar de informações, credores pregueados de efetividade e arrogantes pela necessidade do beijo, jasmin? certamente que não. anarco-punk indissoluto, laboriante da vida e na teia do desequilíbrio? certamente...

espírito livre

allegro
andante
presto
allegro assai

acordei noturno para piano e violino de Chopin...e dormi sonatas para piano de Mozart.

Ou muito distante das aparências do mundo;
ou no centro simbólico delas.

Thursday, January 03, 2008

Rastros de estalactite

Há dias em que aproveito a vida como um prisioneiro. As pontas de cigarro no cinzeiro são como salva-vidas da esperança. Será que acordei sentimental demais? Em que parte do trajeto teria perdido a sensatez e espoliado minhas próprias possibilidades de consolo? De qualquer modo, dias revirados como se fossem latas de lixo não me aprazem menos do que o volume de boa literatura com o qual ainda posso me narcotizar. Esperei trezentos anos pela fúria do mar, enredado em meras palavras, resolvi não mais discursar nos seminários, palestras e fóruns a que eu me achegava com certo rubor de felicidade, parecia um néscio, caminhando de quatro patas, obtuso como o lago do monstro Ness. Criaturas nefandas como amigos, saltei do quarto, emendei dois pontos na cartela, e pus-me a rir da triste memória dos dias em que de tanto estupor não conseguia deixar de passar as velas quebradas sobre a cabeça. Macaqueei mil faces de estanho, antes de perder a Voz múltipla do vale de sombras douradas. Vida esfuziante, sem temor, sem impróbrio? Nada de doce perpetua essa rigidez ao se debater contra as fronhas do amanhã. Petrificado por quem? Talvez pela incúria dos dias flácidos. Da barriga desmesurada de cerveja ruim ao estilo dessa vida americana do passar sem amor pelas bisnagas quentes de pão. Pão de centeio, pão da vida!

Monday, December 31, 2007

31 de dezembro de 2007.

Seria ainda capaz de fechar o livro sem esquecer da página onde abandonara a leitura? Conseguiria mover-me no exercício da exatidão a que tinha me habituado em tempos de escola, retomar a aptidão de ler alguns livros ao mesmo tempo sem perder o fio condutor de cada seqüência narrativa? Haveria de encontrar as modulações do meu eu nessa multiplicidade cambiante do não-linear? Em quais caminhos desvairados a literatura me enredou? Qual o peso desse palácio, além da pálida função de me fazer competente para vender miolos de pão para as empresas de bens de perdição?

Levantei-me aos trovejos. O banheiro estava sendo limpo. Não pude deixar de pensar, e nisso afetei certo contetamento, quão indigno seria interromper o trabalho de quem limpa meu banheiro. Salvo pela réstia desse lampejo, acometi em direção ao outro banheiro. Nele o papel de ursinhos serviria como ótimo marcador. Decidi, ao contrário, pelo exercício de memória. Decorei a página 261 do livro para que a pudesse retomar no frescor da leitura que desde a manhã chuvosa fazia pendurado pelas paredes da minha sala. Um prédio de muitas escadas era minha paisagem corriqueira. Ele brandia sua novidade em minhas ventas. O mar entrecortado era o que me salvava a visão. Da janela, em cujo parapeito minha adorada havia mandado fazer um jardim japonês, eu via muito pouco. Levantei de novo, desta feita a fim de colocar minhas lentes de contato.

E a página do livro? Antes eu reconhecia a seqüência da leitura interropida pelos trechos frescos que pairavam na zona incorpórea aonde lançava dadejos de idéias, impressões e visões em cacos de telha.

Sunday, December 23, 2007

Congé

o corpo busca esquecer das suas modelagens habituais. dirige-se ao encontro da melíflua pele do outono que se foi. Busca o poder da palavra escrita. Refúgio secreto e intermitente de amantes subaquáticos.

Sunday, October 28, 2007

Alice é morta?

ruas soturnas
na sombra fria
enleado em desejo
fremia febril, com fome
em desespero.

alardeados os viventes
da minha face infeliz
saltavam prementes
nas trilhas encrespadas
das noites imberbes.

caloroso me estirava
nos teus aposentos,
queima-me o teu seio,
incutia-lhe tento.

inquebrantável miríade
de mais planetas longes
enlevados

rugia triste em rostos mornos
pintalgados.

Thursday, October 18, 2007

a menina

"Pai, está fazendo muito frio!", diz a menina fugindo mais uma vez do cinto de segurança do carro. O pai apenas olha pelo retrovisor, procura fazer as curvas da melhor maneira. A menina em alvoroço repete: "Pai, estou gelada como uma Bohemia". O pai quase bateu o carro de não acreditar. A menina sabia já como chamar a atenção. Está começando a entender de algumas coisas ou a ensinar? Nem ela sabe, a bichinha!!!! coitada!!! Qual referência tem do pai? Ou será que o significado não tem mais nada a ver com referência?

Monday, October 08, 2007

que não!

e quem nos impede de escrever? o mar agitado, quebrando em caixões desde minha infância? certamente que não. seria a areia da praia em que com meus camaradas tantas vezes pisei em troca do afago, da poesia e da imprecisão da manhã? certamente que não. conversar com os amigos até perder os limites da injunção entre cores pintalgadas de cemitério? certamente que não. angariar fundos para uma partida de ping-pong e uma garrafa de cachaça? certamente que não. uma crise de estabelecer o transitório na vida como se fosse regra? certamente que não. incríveis impropérios sobre o viver, instruídos pela falta de acalanto? certamente que não. martini seco e cubos de gelo, derretidos pela manhã no copo impróprio do beijo de quem mal se sabe amar? certamente que não. singapura no café da manhã? certamente que não. libido de sexo de areia sob a mira do mergulo de olho trôpego, inquisto, do outro? certamente que não. mar de informações, credores pregueados de efetividade e arrogantes pela necessidade do beijo, jasmin? certamente que não. anarco-punk indissoluto, laboriante da vida e na teia do desequilíbrio? certamente...

Saturday, September 15, 2007

livros-objetos

foram os livros que viraram outros objetos ou nós que perdemos a condição de lê-los?

No plenário

“Imagina um guerreiro. Ele não quer sobreviver, ele quer viver. Ele não quer piedade, ele quer a vitória. Ele quer o vinho depois da batalha. Ele não quer a lágrima de suas mulheres na platéia. Ele tem a espada. E a arena tem a multidão gritando pela luta. Agora imagina a arena. O gueto, o tráfico nos becos, as armas e sirenes da polícia. Prostituição. Violência. Tudo bem próximo aos arranha-céus milionários, pontos turísticos, boates e night clubs da classe A. Entre o mar e a favela, onde se encontram os extremos do apartheid social, entre a compra e a venda de sexo, drogas e diversão. Imagina que o guerreiro é poeta. Ou cronista. Ele precisa trabalhar no limite, precisa alcançar a poesia sem perder o realismo da crônica. Ele precisa converter as decepções e injustiças em energia e força pra seguir lutando.

Precisa transformar o negativo em positivo. Então imagina um marginal com o porte de um rei. Ou melhor, imagina um rei que foi transformado num escravo, que se transformou num marginal, pra voltar a se transformar num rei um dia. Imagina a trilha sonora de guerreiros e guerreiras. Um som capaz de tirar eles do poço pra voltarem a ser o que são na verdade: reis e rainhas. Esse é o som do Costa a Costa”.

http://www.costaacostaonline.com/site.php

  1. “É impossível fugir à impressão de que as pessoas comumente empregam falsos padrões de avaliação – isto é, de que buscam poder, sucesso e riqueza para elas mesmas e os admiram nos outros, subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida” (Freud).
  2. A população de Fortaleza é de aproximadamente duas milhões de pessoas. Existem 636.435 jovens com idade de 15 a 29 anos.
  3. 67% desses jovens vivem em famílias cuja renda não alcança mais que dois salários mínimos.
  4. 71,4% desses jovens percebem-se como não brancos, ou seja, reconhecem-se como mestiços, afro descendentes e indígenas. 14,4% desses jovens declaram que sua ascendência etnica ou cor pode ser definida como “só branca”.
  5. Esses jovens, em sua esmagadora maioria (91%), acreditam que podem mudar o mundo. E que a solidariedade, o temor a Deus, a igualdade de oportunidades, o respeito às diferenças, a dedicação ao trabalho e o respeito ao meio ambiente, são os valores mais importantes para uma sociedade ideal.
  6. 81,3% desses jovens consideram como muito importante o desenvolvimento de políticas de cultura, esporte e lazer em áreas públicas.
  7. Quando se trata de cultura e lazer,50,9% nunca foram ao teatro, seguidos de 22,4% que foram apenas uma vez. Isto significa que 73,3% dos jovens fortalezenses estão culturalmente excluídos da prática cultural ligada à linguagem teatral.
  8. 43,9% desses jovens nunca foram a um museu de arte, seguidos de 33% que foram apenas uma vez. Isto significa que 76,9% dos jovens fortalezenses estão excluídos da prática cultural ligada à linguagem das exposições de arte.
  9. 40,6% desses jovens nunca foram a uma biblioteca pública, seguidos de 28,6% que foram apenas uma vez. Isto significa que 69,2% dos jovens fortalezenses estão excluídos da prática cultural ligada ao uso de bibliotecas públicas.

  1. 24,8% desses jovens nunca foram ao cinema, seguidos de 15,8% que foram apenas uma vez. Isto significa que 40,6% dos jovens fortalezenses estão excluídos da prática cultural ligada ao circuito das salas de exibição cinematográficas.
  2. 57,6% desses jovens já perderam pessoas próximas em mortes violentas. Sendo que 59,3% desse universo a causa mote dessas pessoas próximas foi assassinato.
  3. 26,7% desses jovens declaram ter sofrido violência policial.
  4. 48,3% já tiveram contato com arma de fogo.
  5. Apenas 12,4% dos jovens fortalezenses estão cursando nível superior, completaram nível superior ou pós graduação.

Fonte: Pesquisa retratos da Fortaleza jovem. http://www.fortaleza.ce.gov.br/default.asp

Reflexões

  1. Violência é produzida pela falta de reconhecimento público.
  2. Violência é produzida pela invisibilidade e falta de oportunidades de expressão e comunicação.
  3. Violência é produzida pela negação de canais de constituição dos sujeitos sociais e culturais.
  4. Violência é sintoma de uma crise de projetos coletivos envolvendo democracia e participação.
  5. Violência é sintoma da falência de projetos políticos centrados em arte, ciência e cultura.
  6. Violência é sintoma da impossibilidade de se encontrar oportunidades de viver uma vida que possa ser considerada digna e significativa do ponto de vista dos sujeitos sociais e culturais.
  7. Violência é a ausência de geração de emprego e renda em conexão com os valores da sociedade da informação, do conhecimento e das novas tecnologias.
  8. Violência é a negação do outro como sujeito de desejos, de direitos e de deveres para com a coletividade.
  9. Violência é a frustração derivada das negações sistemáticas de realização pessoal, familiar e da cidadania pelo reforço perverso das práticas de autoritarismo que restringem de modo criminoso as liberdades e a criatividade das pessoas.
  10. A violência não é inevitável, não é uma fatalidade, não é algo inescapável, pois a solução do problema está em nossas mãos, depende da nossa decisão em envidar esforços para a circulação livre e democrática da riqueza socialmente produzida. E as fontes da riqueza hoje são conhecimento, informação e participação democrática em decisões que afetam o macrocosmo e o microcosmo das nossas relações interpessoais.

Leonardo Damasceno de Sá

Fortaleza, 15 de setembro de 2007.

entre-lugares

naquele tempo, nós respondíamos com a palavra absurdo como contraponto a qualquer tentativa chula de nos ludibriarem. era o corolário da dúvida com a qual nos instávamos a viver, em que nos misturávamos e assim abrangíamos o campo do possível. descobríamos suas conexões mais íntimas e descapadas; em alta dosagem. tudo girava em torno daquilo que possibilitava algo. Exauríamos como atletas infatigáveis os diversos percursos do pensamento de si, e nem sequer nos dávamos conta da mixórdia fantástica em que nos metíamos para prover de força o natural da nossa resistência. não era atitude chã, mas megalomania . mas era puro exercício. o modo como podia ter ocasião para afiar o pensamento e destilar meus pêsames aos exauridos de espírito. não queríamos a ninguém parabenizar, como de fato não o queremos até hoje.

Saturday, September 01, 2007

Um homem com um glossário

Sempre gostei de formular glossários. Fazer o mapeamento semântico da faticidade do viver em função da transfiguração das realidades adquiridas. É uma brincadeira da minha infância. Aprendi a fazer isso no Canarinho, onde estudei. Os mapas não são os territórios, mas sem mapas autônomos de orientação a vida perde a graça, o arrojamento e a espiritualidade. Minha vanguarda é da ficção conceitual que apenas descreve os processos de conhecimento, sem reivindicar a virtude dos justos no ato do saber. Justeza, apenas no campo dos valores. Nesse ponto, não há tergiversação, só afirmação do campo de luta que nos favorece o aflorar do desejo de si. A mim, e aos meus. A todos, enfim, impregnados pelos sentidos imaginários da civilidade e da humanidade. Fora disso, não há ideias, só entre-lugares e fugas. Dinamismo fátuo e impreciso. Palavras que voam como o livro dos ventos, como diz o poeta francês a respeito das bíblias que são de humanos a humanos lançadas, provocando tempestades e calmarias, alternadamente.

Violência

Violência não é nem termo. Violência é o fim do uso dos termos. Acontecimento de suspensão da contextualização de práticas de sentido, práticas humanas por excelência, suspensão do conhecer, da arte, da ciência, da filosofia e da religião. Violência é a brutal instrumentalização do outro, de modo a torná-lo coisa, indefinível, apagado da memória cultural, violência é o extermínio da inteligência coletiva que guia o universo das relações de sentido. As sociedades e as culturas humanas não são precisas quanto ao seu uso, mas o campo da violência seria um quase-campo se não fosse o fato de que as experiências de violência não são narráveis, ou melhor, são inenarráveis, ou não-narráveis, e isso gera trauma, medo, amargura e frustração, que são sentimentos sociais com os quais se orientam os códigos culturais e sociais quando estão depreciados, humilhados e afundados em seu rancor. O problema do termo violência é que ele esconde o ódio, o ódio social, coletivo, de um modelo de funcionamento de sociedade que faliu na possibilidade de alçar o humano a um projeto de significado que possa agraciar a sua própria diferença e seu modo singular de tornar-se humano, sujeito, sujeito de direitos, de multiplicidades de práticas e segmentação das posições nas conjunturas onde se pisa no território dos outros sem lá ser bem-vindo. A violência é um ato de ingratidão nas relações sociais de parentesco que embasam o mundo do humano.

Subjetividade

A subjetividade, não é termo, é sempre meio-termo. Pois quando se trata de subjetividade, o que nos resta é torcer pela vitória do nosso time. Subjetivo é o inapreensível com o qual se faz possibilidade de comunicação se houver narrativas sobre e outro, do outro sobre nós mesmos e de nós sobre alguém. E esse alguém é um sujeito que vaga nas várias modulações do eu. A subjetividade é um conceito com o qual se designa a instância de formação do sujeito, daquilo que se busca ser de si mesmo, a busca de si, a superação que isso exige, e as frustrações inúmeras que alimentam medo e violência nas metrópoles contemporâneas. O problema da violência é um problema de falência dos modos de subjetivação humana e cultural. Sujeito é o que está em devir. Constituindo-se. Perfazendo-se. É a fuga dos processos de identificação e classificação dos sujeitos para produzi-los indivíduos, pessoas, cidadãos, quiçá, um dia, e atores. Mas a questão da subjetividade vai além, pensa-se nessas conexões que conectam várias outras, acaba articulando-se com a própria necessidade dos seres vivos se diferenciarem. Pois a diferença amplia o campo da comunicação intersubjetiva.

Cultura

O termo cultura é tão multifacetado que existem centenas de definições para ele. Pelo que temos escutado, ultimamente, houve uma quebra na correspondência que antes se fazia entre cultura, povo e território. Como se a cultura obedecesse aos limites territoriais estabelecidos por outras instâncias do saber humano, como aquelas que compõem as formas de poder, ou seja, de constante ação sobre ações, de modo que no teatro das ações humanas interpõem-se várias perguntas a respeito da legitimidade das coisas. E como em toda troca os signos se interpõem para alcançar o real, gera-se uma configuração de valores e sentimentos que, ao serem compartilhados, e acionados em contextos de interação prática, são os signos que se trocam. Com os quais fazemos aliados e derrocamos os inimigos. A cultura é um dinâmico modo de se localizar. Imprecisos como os labirintos da vida. Processo em metáfora. Moldura em transição. Mapas que orientam o sentido da existência. A cultura é o mapa, mas o mapa não é o território.

Monday, August 20, 2007

o desejo e os dias

quarta-feira
fingi nove horas
novas horas
com aurora
de viração.

desci a ladeira
perdi a caneta
as palavras errantes
sós na imaginação.

saí do cinema depois de seis cervas
meti pela testa copo e meio de maçadas

no devaneio da batida,
escrevi empolgado
na lembrança da filosofia
nos guardanapos de papel.

espreitei o terreiro
limpei a garganta
e desatei a cantar na minha quadrilha


fora da minha cosmogonia
os desejos e os dias
só me fazem chorar.

E, de promessa em promessa,
eu me perco a fantasiar
o que seria de mim?

Saturday, August 18, 2007

Valentina

quando você nasceu para a vida, eu me fiz fluxos. Desapareceu do meu campo semântico qualquer suporte de imprecação. Vesti-me orgulho e altaneiro para exprimir a permanência como condição do olhar e da compreensão. Era em plena difusão a consistência das relações sobre as formas e conteúdos. Nos meus braços te recebi como tesouro arcaico! Ria-me sem fim da ousadia, pois quão ousados são aqueles, quando se lançam em fazer conhecimento do possível.

em tal momento!

o manejo do texto sofrível é minha especialidade. duas ou três vezes, começo! Sem mesuras, o arrebatamento do velocímetro fragmenta a intenção. Especialidade ou antecipação? Ainda preciso descortinar o véu da mixórdia de jogos com os quais me comprometo na feitura do pensamento. O espírito de sistema enraizou-se como matriz das práticas de sentido, todavia nem todo efeito é recursivo. O não-linear faz-se nas modulações do eu. Na escrita proustiana da verdade, eu me refestelo. Seria lamentável abandonar a perseverança, o tirocínio e o gosto pela invenção. O que sobra? O que me sobra? Não entendo nada de sobras, nem de sobejo, vivo exclusivamente da degustação do porvir.

Wednesday, August 01, 2007

veja o filme Amor à flor da pele, de Wong Kar-Wai

eu já vou ler para ti, meu amor! vou ler a história do presente. estou aqui, com esta brochura na mão que eu ganhei do meu melhor amigo, quando eu tinha dezesseis anos de idade. só o tempo, o tanto de bebida, bebida, e o tanto de cigarro, fumado, dá notícia como essa que quero te passar e da qual me aprazo em te contar, como se conta a fuligem dos edifícios em construção.

as ruínas são o desespero da morte. morte desprovida de conforto. essas ruínas, tão velhas, perderam até mesmo a amargura que lhes era incrustada como um diamante na pele ruim, desgastada de tanta má alimentação. as ruínas são a desembocadura da morte. e só de quem provou da seiva grudada nas rochas, ela testemunha, só esses podem localizar-se em relação a elas e apesar delas.

nunca fui um sujeito muito compassivo...talvez...eu tenha até agora conseguido ser educado. polido e educado no sentido próprio ao da civilidade. motivos não faltam jamais com a imprecisão toda de suas certezas. sempre iremos à Bagdá, mas prefiro Praga, pelo menos no momento...Bagdá me faz lembrar do luxo e da pecaminosa desgraça impingida aos incautos. e de precauções estou tão cheio que sou capaz de montar um plano de expansão baseado em pequenas variâncias da vida cotidiana, inimigas das rotinas.

...tudo se passa como se a vida não refulgisse sem ti. contar-te-ei todas as minhas práticas e nisso te darei essência, ou nada poderia valer se estivesse apenas à altura de minhas memórias.

Thursday, July 26, 2007

Pasquim

houve tempo em que a inteligência expandia-se como em ondas, hoje é explosão de partículas. eu estava lendo o site do Millor e fiquei tão entusiasmado com as tiradas da figura que resolvi perguntar para minha filha o que ela achava. De certo modo, é como se eu passasse um legado para ela, resultado de todos os domingos em que, no centro cultural banco do brasil, eu li o arquivo completo do Pasquim desde o primeiro número. Para minha surpresa, ela me disse que eu colocassa a estante dela na biblioteca da nossa casa bem no alto, pois ela não gostava de ler, mas de interpretar os signos da ação, enquanto eram produzidos pelos diversos jogos de linguagem da desalmada modernidade. Tomei um susto de deixar cair o cigarro do beiço. Afinal, que conversa estranha era essa, minha filha é só um pequeno bebê humano, e já quer discutir a incomensurabilidade das taxonomias humanas? Fiquei pasmo. Andei a noite toda sem dormir, de um lado para outro, cigarro após outro, cerveja inteirando a outra, e nada de resposta para o enigma. Finalmente, lá pelas três da matina, deitei movido pelo cansaço, pela embriaguez e pela certeza de que ela estava dormindo, linda e maravilhosa, na casa da mãe dela. Não se fazem mais filhos como antigamente, eu, ao menos, era leitor assíduo do Pasquim. Aliás, sou!

Sunday, July 22, 2007

as tragédias não são em vão!

nada melhor do que a sombra ilhada do guarda-sol, um pedaço do mundo parece abrir-se a partir da terra, da areia molhada e fria, sob o calor escaldante da praia, do verão inventado na solidão do ciclo natural. os corpos atentos, direcionados, acesos. Outras pessoas passavam. Dirigiam-se aos círculos, propensas à embriaguez, dilatadas pela devassidão do caminho interrompido, malhado de tão estrito. Ao mesmo tempo circunscrito e aberto. Escalado para o nada, para o brilho da mente natural, das algas-marinhas, filhas da imensidão, e do alimento disperso. Cambiam os corpos deitados com o caminho possível. O picolé derretia na praia-balneário da Itália de Calvino. Amores ternos, fluidos, capazes de se amalgamarem aos cacos de tijolo pisados sob a maré baixa das pequenas vagas. Os olhares entrecruzam-se aflitos, ou melhor, sôfregos, em busca do adorno perfeito, do puro valor estético que faz a coisa ser mais funcional na sua apreciação e consistência. Ao sairem do mundo das vagas, encontram em si os fluxos de um trânsito de praia sul-africana na década de sessenta. Poucos carros, muitas vidas perdidas fora das estradas. Os apartamentos que margeiam as vias de acesso à praia estão bloqueados por quadros baratos comprados no supermercado mais original da cidade. Mesmo assim, os corpos antes deitados seguem firmes, e sentados. Guiados pela potência mortífera do automóvel. Dobram seitas, rejeitam esquinas, embrulham-se como pão feito na hora. Quentes e macios. Voltam do ninho à rua. Incrementam as mesas dos bares, e fazem a calefação dos olhares alheios e inquietos. Capazes de tudo, menos da ousadia de abraçar fios de alta tensão descapados escorrendo e serpenteando nos corredores das mesas como cobras. as letras fazem-se em guardanapos de papel. não ambicionam ir além disso, da pele tatuada e da alma estriada. São as estrias da alma que fazem o real ter espessura e sensatez. a querela maior é robusta, se comparada com as ninharias que os prisioneiros são obrigados a amamentar na rotina da selva de pedra, no mergulho no vazio dos átomos, sem comunicação, sem diferença. o que se há de evitar, espelha-se e reluz como medéia em apuros. o que se há de abraçar, dormita breve e quente na palma inteira da mão.