Thursday, January 03, 2008
Rastros de estalactite
Há dias em que aproveito a vida como um prisioneiro. As pontas de cigarro no cinzeiro são como salva-vidas da esperança. Será que acordei sentimental demais? Em que parte do trajeto teria perdido a sensatez e espoliado minhas próprias possibilidades de consolo? De qualquer modo, dias revirados como se fossem latas de lixo não me aprazem menos do que o volume de boa literatura com o qual ainda posso me narcotizar. Esperei trezentos anos pela fúria do mar, enredado em meras palavras, resolvi não mais discursar nos seminários, palestras e fóruns a que eu me achegava com certo rubor de felicidade, parecia um néscio, caminhando de quatro patas, obtuso como o lago do monstro Ness. Criaturas nefandas como amigos, saltei do quarto, emendei dois pontos na cartela, e pus-me a rir da triste memória dos dias em que de tanto estupor não conseguia deixar de passar as velas quebradas sobre a cabeça. Macaqueei mil faces de estanho, antes de perder a Voz múltipla do vale de sombras douradas. Vida esfuziante, sem temor, sem impróbrio? Nada de doce perpetua essa rigidez ao se debater contra as fronhas do amanhã. Petrificado por quem? Talvez pela incúria dos dias flácidos. Da barriga desmesurada de cerveja ruim ao estilo dessa vida americana do passar sem amor pelas bisnagas quentes de pão. Pão de centeio, pão da vida!
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