Wednesday, April 21, 2010

saber escrever para mulheres

naquele dia, havia caminhado durante quarteirões a fio. a cada passo, a amarradura do tênis ameaçava se soltar novamente. os dedos estavam doendo horrores. quando já havia desistido de volver os olhos para o entorno de mim, deparei-me com os volumosos cabelos dela, vencendo a barreira do vento quente. era um final de tarde. nos entreolhamos e de lá podemos passar de um ao outro como na busca desejosa, era um enleio pelo olhar que se apresentava, um afã nascido de uma rotina frouxa, ao ponto de escapulir de todo e qualquer prazo. era um instante apenas. meu passo diminuiu como se as pernas carregassem nuvens, em seus movimentos de quadril, a aproximação era leve, muito leve. seria ela séria ao ponto de me negar um canto de olho que fosse? pensei em respirar como os corredores de longas maratonas e expulsar dos cantos internos do diafragma os restinhos de ar comprimido que me roubavam a voz. ela olhou para o chão. deu para sentir que não era o que ela queria, foi um lampejo de busca por proteção. um olhar tosco de arrependimento. parecia dizer "Putz, que vacilo!". mas nada me desviou da total imprecisão que a expressão dela remetia nesse movimento de recontro. a calçada ficou curta e estreita. um sorriso escapuliu. não sabia se era meu ou dela. tudo estava tão próximo.

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