Violência não é nem termo. Violência é o fim do uso dos termos. Acontecimento de suspensão da contextualização de práticas de sentido, práticas humanas por excelência, suspensão do conhecer, da arte, da ciência, da filosofia e da religião. Violência é a brutal instrumentalização do outro, de modo a torná-lo coisa, indefinível, apagado da memória cultural, violência é o extermínio da inteligência coletiva que guia o universo das relações de sentido. As sociedades e as culturas humanas não são precisas quanto ao seu uso, mas o campo da violência seria um quase-campo se não fosse o fato de que as experiências de violência não são narráveis, ou melhor, são inenarráveis, ou não-narráveis, e isso gera trauma, medo, amargura e frustração, que são sentimentos sociais com os quais se orientam os códigos culturais e sociais quando estão depreciados, humilhados e afundados em seu rancor. O problema do termo violência é que ele esconde o ódio, o ódio social, coletivo, de um modelo de funcionamento de sociedade que faliu na possibilidade de alçar o humano a um projeto de significado que possa agraciar a sua própria diferença e seu modo singular de tornar-se humano, sujeito, sujeito de direitos, de multiplicidades de práticas e segmentação das posições nas conjunturas onde se pisa no território dos outros sem lá ser bem-vindo. A violência é um ato de ingratidão nas relações sociais de parentesco que embasam o mundo do humano.
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