Sunday, July 22, 2007

as tragédias não são em vão!

nada melhor do que a sombra ilhada do guarda-sol, um pedaço do mundo parece abrir-se a partir da terra, da areia molhada e fria, sob o calor escaldante da praia, do verão inventado na solidão do ciclo natural. os corpos atentos, direcionados, acesos. Outras pessoas passavam. Dirigiam-se aos círculos, propensas à embriaguez, dilatadas pela devassidão do caminho interrompido, malhado de tão estrito. Ao mesmo tempo circunscrito e aberto. Escalado para o nada, para o brilho da mente natural, das algas-marinhas, filhas da imensidão, e do alimento disperso. Cambiam os corpos deitados com o caminho possível. O picolé derretia na praia-balneário da Itália de Calvino. Amores ternos, fluidos, capazes de se amalgamarem aos cacos de tijolo pisados sob a maré baixa das pequenas vagas. Os olhares entrecruzam-se aflitos, ou melhor, sôfregos, em busca do adorno perfeito, do puro valor estético que faz a coisa ser mais funcional na sua apreciação e consistência. Ao sairem do mundo das vagas, encontram em si os fluxos de um trânsito de praia sul-africana na década de sessenta. Poucos carros, muitas vidas perdidas fora das estradas. Os apartamentos que margeiam as vias de acesso à praia estão bloqueados por quadros baratos comprados no supermercado mais original da cidade. Mesmo assim, os corpos antes deitados seguem firmes, e sentados. Guiados pela potência mortífera do automóvel. Dobram seitas, rejeitam esquinas, embrulham-se como pão feito na hora. Quentes e macios. Voltam do ninho à rua. Incrementam as mesas dos bares, e fazem a calefação dos olhares alheios e inquietos. Capazes de tudo, menos da ousadia de abraçar fios de alta tensão descapados escorrendo e serpenteando nos corredores das mesas como cobras. as letras fazem-se em guardanapos de papel. não ambicionam ir além disso, da pele tatuada e da alma estriada. São as estrias da alma que fazem o real ter espessura e sensatez. a querela maior é robusta, se comparada com as ninharias que os prisioneiros são obrigados a amamentar na rotina da selva de pedra, no mergulho no vazio dos átomos, sem comunicação, sem diferença. o que se há de evitar, espelha-se e reluz como medéia em apuros. o que se há de abraçar, dormita breve e quente na palma inteira da mão.

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