Sunday, July 15, 2012

Os sentidos da política

O que nos oferece a política? Talvez, uma tentativa de mitigação das penas de um sistema de dominação, ou seja, um modo de amortizar a dívida histórica da dor e do sofrimento produzidos pelo Estado de medo em que foram lançados os dominados, medo da violência atávica, fundante, que se inscreve, com marcas de crueldade, na corporalidade daqueles segmentos, coletivos, categorias, classes e pessoas que foram subalternizados. Uma tentativa de inviabilizar o risco da assunção de espaços de simetrização e, portanto, de problematização das distâncias relativas estabelecidas entre corpos superiores de chefes e corpos inferiorizados de subalternos, e nesse sentido os agentes interessados, pois o interesse é se colocar no entre das coisas, exerce o papel da mediação política segundo a qual os dominados abrem mão da vingança mortal contra a violência fundante da opressão, fazendo com que os critérios de autoridade e de poder do sistema de dominação possam ser lidos como o sistema de delimitação legítimo de um debate acerca do sentido das condições de existência da própria dominação social. Com a política, abre-se a negociação em torno do sentido da vida social questionando o fato histórico da desigualdade, reivindicando-se igualdade na ordem desigual, a fim de desnaturalizá-la. Todavia, novas hierarquizações reagem às demandas por igualdade, de modo que uma guerra política entre dois princípios passa a ser uma operação de confronto e de acomodações entre hierarquias e igualdades em cada situação particular onde este dilema se apresente como organizador das atividades políticas. Num sentido bem diverso do espírito que estou imprimindo na reflexão acima, não podemos esquecer, para fins de debate, a caracterização de Bourdieu para a ação política no seguinte trecho: "A ação propriamente política é possível porque os agentes, por fazerem parte do mundo social, têm um conhecimento (mais ou menos adequado) desse mundo, podendo-se então agir sobre o mundo social agindo-se sobre o conhecimento que os agentes têm dele. Esta ação tem como objetivo produzir e impor representações (mentais, verbais, gráficas ou teatrais) do mundo social capazes de agir sobre esse mundo, agindo sobre as representações dos agentes a seu respeito. Ou melhor, tal ação visa fazer ou desfazer os grupos - e ao mesmo tempo, as ações coletivas que esses grupos podem encetar para transformar o mundo social conforme seus interesses - produzindo, reproduzindo ou destruindo as representações que tornam visíveis esses grupos perante eles mesmos e perante os demais" (Bourdieu, linguagem e poder simbólico, parte dois de Ce que parler veut dire, p.117, 1996).

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