Tuesday, August 20, 2019
Um dificuldade
Alguns pensadores euroamericanos, defrontados por uma intensa competição de mercado no campo acadêmico, adotaram como estratégia de poder gerar um novo mercado de ideias. Começaram a se classificar como pensamento latino-americano. Ou seja, em alguns casos, como dos homens brancos ricos que falam várias línguas e trabalham em centros de poder global, universidades dos EUA, da França, da Alemanha, da Inglaterra, esses homens brancos hegemônicos passam a se nomear representantes do chamado giro decolonial. Pessoalmente, gosto muito desse giro, mas não vou esquecer que virou um think tank euroamericano. Bourdieu que me ensinou a ter esse desconfiômetro ligado. Atenção, estou me referindo apenas aos homens brancos. Não generalizo. E outro detalhe: América latina, latino-americano, foram ferramentas políticas da diplomacia francesa para fazer frente ao crescente imperialismo dos EUA nas Américas central e do sul. Pensamento latino-americano pode até ter sido ressignificado, mas é uma arma francesa numa luta imperial.
Paradoxos do alto e do baixo
Reflexão sobre poder no campo acadêmico. Vocês sabiam que pesquisadores que ocupam posições dominantes, de alto capital, nas áreas de física, medicina, direito, engenharia, estatística, nos procuram (nas ciências sociais), dizendo que admiram nossa capacidade de pesquisa e análise e que a gente sabe fazer muito bem o que eles não sabem. E que precisam de parcerias. Mas aí os que lá nessas áreas são dominados, de baixo capital, vivem nos esculhambando, dizendo que não temos rigor etc. Deu para entender?
O LUGAR DE FALA DE UM PROFESSOR BRANCO
Os estudantes de ciências sociais mais jovens, que estão cursando a graduação, lançaram-me desafios de pensamento e reflexão crítica nos últimos tempos que me tiraram da minha zona de conforto. Estou super empolgado com isso, estou escrevendo um texto com elas e eles sobre isso, e vou relatar para vocês algumas coisas provocadoras sobre isso. Na verdade, fiquei inicialmente super incomodado, aí transformei meu incômodo em empolgação, o que é uma atitude de branco que não aceita ficar fora de uma disputa pelo poder, o que eu mascaro com motivos pedagógicos para melhor passar. Mas eu juro que não queria que fosse assim. É um imbróglio. E também uma ironia. O lugar de fala do branco é o racismo. Mesmo quando se faz algum esforço para ser antirracista, não há como escapar dessa questão. Vejam o tamanho do abacaxi. Eu sou branco, meus pais são brancos, meus avós maternos e paternos, meus bisavós maternos e paternos também. Não me acho mestiço, não reivindico que tenha alguém na minha família que me faça ser miscigenado. Minha esposa é branca e meus dois filhos são brancos. Os discursos do racismo estão incrustados nessa minha longa experiência de pertencimento familiar. Como brasileiro, me sinto herdeiro da tradição cultural euroamericana, ocidental. Me identifico mais com a Europa do que com a América Latina (esse produto do pensamento europeu). Minha biblioteca é quase toda ocidental, 90% certamente. Ademais, venho dessa classe média assalariada, não proprietária, sem posses, mas que investe tudo em saúde, educação e cultura para empoderar os filhos a fim de que possam ser competitivos em carreiras que exigem nível superior e pós-graduação. Minhas duas irmãs são brancas e possuem pós-graduação como eu. Meu pai e minha mãe possuem nível superior, estudaram na UFC, na mesma instituição onde sou professor. Ou seja, tudo na minha trajetória conspira para que eu tivesse me tornado um demônio louro. Mas será que eu não sou? Não sei. Em parte sim, em parte não. Mas certamente não sou um ideólogo do racismo, já que assumo com baixo sucesso social e política retóricas antirracistas. Na minha primeira juventude, minha militância era junto com amigos do movimento negro. Com eles e elas, aprendi muitas coisas interessantes. Hoje, esses meus amigos negros são velhos ou quase velhos como eu. São professores também. E estão também se sentindo interpelado pelos novos tempos e discussões. Mas como são negros e eu branco, a gente vivencia assim de modo bem diferente. Eles estimulam a ruptura com a hegemonia euroamericana no ensino e eu tenho minha prática pedagógica toda centrada no estudo sistemático dessa hegemonia, mesmo que usando autores euroamericanos contra-hegemônicos, como Foucault. Como tenho um acesso privilegiado ao pensamento de brancos euroamericanos, minha principal contribuição seria em torno de tais autores, da recepção crítica de tais autores, mas ao fazer isso, estou validando quer queira ou não a própria hegemonia desse pensamento. Pode o professor branco dominante, colonizador, falar sobre temas decoloniais? Meu principal alvo de críticas tem sido os brancos na tentativa de se apropriar da reflexão decolonial. Talvez seja a única maneira de eu contribuir para o debate, desconstruindo a pretensão do professor branco de ser portador do lugar de fala do subalterno, incluindo aí os professores de pele negra e máscaras brancas. Quem está na fogueira é para se queimar. Vou escrever um ensaio sobre isso para explicitar essas questões. Vou fazer umas postagens aqui que serão o início do ensaio, como esta que agora publico.
Thursday, August 08, 2019
PRIMEIRO DIA LETIVO DE 2019.2 - AUTOAJUDA
O grande desafio do momento no ambiente de trabalho é não se deixar contagiar pelas transferências de ansiedade e angústia, que são muitas, especialmente nesse momento do país. Tentar começar com boa respiração, sem taquicardia, com boa alimentação, leituras, estudos, caminhadas, concentrado, buscando fazer o melhor, sabendo distinguir as atividades mais essenciais das menos ou não essenciais. Buscar fazer o melhor possível, intensidade na qualidade das construções humanas de saber e conhecimento. Com respeito mútuo, ajuda mútua e solidariedade. Enfim, muito trabalho, mas sem adoecer desde o início, pois já há muitas pessoas começando o semestre já adoecidas, infelizmente.
Uma reflexão de início de semestre letivo
Se os consumidores de serviços educacionais, como clientes da empresa, escolhessem por maioria que se estudasse Olavo de Carvalho em vez de Weber na disciplina de Sociologia compreensiva, o democrático seria acatar a escolha que expressa o desejo da maioria? Acordei pensando nisso. Certa vez, na disciplina de sociologia clássica, um pequeno grupo de estudantes demandou que eu retirasse o Marx do plano de ensino, disseram que não o consideravam um autor digno de estar no plano. Outra vez, na disciplina de sociologia contemporânea, um pequeno outro grupo solicitou que eu retirasse Norbert Elias do plano de ensino e colocasse um sociólogo marxista no lugar dele. Fiz as devidas problematizações sobre como essas demandas não faziam sentido e segui com o plano de ensino incluindo Marx e Elias. Mas caso os consumidores de serviços educacionais fossem maiorias, tivessem decidido por maioria que Marx e Elias deveriam sair, por razões diametralmente opostas? Se eu não acatasse a decisão e insistisse em manter Marx para o desagradado dos liberais e Elias para o desagrado dos marxistas, minha decisão seria legítima? Seria democrática?
Tuesday, June 11, 2019
Botar banca
145 bancas depois (mono, dissertação, tese, qualificação)...Adoro participar de bancas. Bourdieu dizia que era uma maneira de se tornar um orientador melhor, pois pela prática da banca se amplia a capacidade de imaginar modos possíveis de construção de objetos de pesquisa. Não boto banca para botar uma banca para frente. É um trabalho meio invisível da gente, tão importante e tão invisibilizado. Sigamos.
Monday, May 20, 2019
Com sangue no olho
O ódio há de vencer. Não o ódio ao outro, mas ao existente que massacra o direito a existir dos outros. Lutar contra o amor ao existente é a tarefa por excelência. Nada de alegrias, afetos e gratidões adaptativas ao existente. Nada de beijos e abraços ao existente. Ser contra o existente com todas as forças. Destruir aquilo que é. Bom domingo aos amigos que ainda sabem rir do existente, deslocando-se em direção ao nada, ao mais profundo abismo, onde se salta para cair para o alto. Sem abraços, afetos, nem gratidão, apenas com sangue no olho.
Saturday, May 18, 2019
Apenas seguir adiante...
Não há sujeitos, não laços aqui, apenas um seguir adiante. Sem buscas, sem saber. Nada a compreender, nada a sentir, nada a mudar. Apenas seguir. Uma tagarelice função do silêncio faz seguir, apenas seguir. Nada olhar, nada ler. O que o mestre quer ouvir? A cada resposta, sua interpelação retorna, indiferente. Por que simplesmente não nos calamos no sofrimento estável? Por que abrir mais uma vez o sofrimento que se sofre desde sempre sem esperança? Por que não permanecer no silêncio, na função, no estabelecido, no separado? Desejar ser julgado para se tornar uma pessoa séria, é isso? Afinal, devemos usar nossa energia para nos salvar ou nos condenar? Que desperdício, essa tagarelice sem fim, que nada gera de útil para a comunidade. Sinto vergonha. Uma vergonha de não poder ser, de não poder continuar sendo. O atraso, o erro, o fracasso, minha mania. Estúpida mania. Vou ser útil, prometo. Mas não posso. Não consigo. Terminei meu parecer. Vou iniciar a outra tarefa. Mas é a ordem do mestre, diz para continuar, continuem, falem de si como se fosse um "sou eu quem fala", com a fala deles atravessada na garganta, qual espinha de peixe, distinguindo qual voz, qual timbre, no tosse-tosse, qual corpo merece ser sentido como merecido, acolhido, iluminado no direito a existir.
O problema do rosto humano
O que pode um rosto? E onde não há rosto? O rosto inexpressivo é ainda um rosto? O simiesco do rosto é apenas um traço? O que se traça no rosto? O rosto é especular? Além de buracos, o que há no rosto? Um rosto existe na solidão? Para que serve um rosto? O rosto seria além de um esgar? As rugas de um rosto são suas fateixas? Por que se escolhe o rosto para cuspir? São muitos os rostos dos outros no próprio rosto? Há um rosto próprio e singular? Os olhos cansados de um rosto podem ainda enganar? O sorriso de um rosto é independente de sua dor? Há rosto que não seja uma deformação do rosto? Há algum sujeito no rosto? Haveria outro rosto no lado detrás do rosto? Um rosto funciona como uma costura?
Não buscar o sentido e explodir a significação
Herdeiros da mais brutal vulgaridade, tentamos deslocar para além a energia boçal de nossa ignorância, mas ela não despega de nós, somos o que somos, pois não somos onde acreditávamos estar. Filhos das armas, da guerra, da maldade, da perversidade, cavávamos numa peleja sem fim para expurgar de nós o que havia de chulo, estúpido, contudo, a estultície não sai de nós, mesmo quando somos beletristas. Estou falando dos homens, dos homens de merda que não nos deixam esquecer que somos parte de uma experiência de colonialidade e escravidão permanente. É o avô, o pai, o tio, o primo, o irmão, um bando de escrotos apoiando um governo de imbecis. Os imbecis somos todos, pois uma mesma rede de parentesco mergulhada na mais triste vileza. Não houve arte, cultura e ciência que dobrasse essa coisa brutalizadora que somos como experiência histórica de autodestruição e disseminação do nada. O preço a ser pago é alto e o prejuízo é compartilhado por todos, de modo compulsório. Estou apenas falando a partir do meu lugar de fala, que é o de uma insana selvageria. A selvageria do bacharel brasileiro. Mas vai que a gente se mata, como sempre o fizemos, pois de morte, de matar e de morrer, a gente é tudo doutor. O nosso êxito é o fracasso do espírito. Minha intencionalidade é o fracasso. Eliminar o sentido, parar de buscá-lo.
Monday, May 13, 2019
Dia das mães 2019
Mãe é apenas uma função. Uma função e tanto para quem dela usufrui como usuário, beneficiário. Mas minha mãe não é apenas a minha mãe. Quando me dei conta disso, passei a respeitá-la fora da função mãe. Ou seja, se tornou um enigma. O enigma de minha ex-mãe. Meu presente de dia das mães é me tornar um ex-filho para minha ex-mãe. Celebrar essa ex-humanidade que nos aproxima na distância inominável do desejo. Um desejo pós-familiar. É como então tento pensar na categoria impossível da mulher, uma categoria fadada a não poder existir. Ameaçada pelas diversas funções impostas pela ordem masculinista: filha, namorada, esposa, mãe, avó. Foi com Lydia que aprendi a questionar essas imposições que nos engessam a vida. Nunca vou esquecer o dia em que ela nos disse que se pudesse não teria sido mãe. Nos fez pensar. Obrigado, Lydia, minha amada ex-mãe. Ex-mãe, eu disse. Continua sendo minha mamãe.
Friday, May 10, 2019
Afasta esse cálice...
Cada um aplica seu desejozinho onde quer, né? Somos livres para voar. Uma coisa que aprendi na vida foi tentar não ser mero seguidor da agenda alheia. Sair de perto da agenda imposta pelo empreendedor acumulador. Ousar ter agenda própria. Somos todos neoliberais ou não?
Friday, May 03, 2019
2020 está chegando
Vendedor de caipirinha, de cachorro-quente, de cerveja em lata no isopor, de espetinho de gato, de podrão, de livros velhos, aulas particulares de catecismo, enfim, estou já me preparando para próximo ano me tornar empreendedor, dar um basta nessa balbúrdia de vida e empreender. Acho que uma igrejinha para congregar pode ajudar, não é? Afinal, é com fé que iremos superar as dificuldades. Sem fé, não somos nada. Empreendedores ungidos, venceremos! Desculpe-me tanta patifaria, mas é a depressão, sei mais nem mais o que fazer. Está ou não está propício para a queda na depressividade clínica?
Monday, April 22, 2019
Essa velha desgraçada!
Quando vejo pessoas muito jovens, sem posição e sem garantias, entrando em competições acirradíssimas alimentadas pela ideia de serem percebidas como o jogador mais agressivo num jogo de vida ou morte que não leva a lugar nenhum, que apenas aplaca a sensação de não ter direito a existir, me entristeço bastante. E o pior é quando tais jogos neoliberais são incitados por pessoas não tão jovens, mas que se excitam em ver jovens competindo desesperadamente entre si. Esse lance se generalizou de tal modo que uma multidão se aferra a eles, mesmo sabendo que são jogos sem futuro, que só levam ao adoecimento e à morte. Mas nada os faz parar. Seguem intrépidos e maldosos. Do nada em que estão ao nada que continuarão sendo. Apenas a ilusão de poder, essa velha desgraçada.
Esboço de autoanálise em pedaços
De 1979 a 1992, estudei em escolas que já eram organizadas segundo o novo modelo da escola-empresa, da escola neoliberal. Agora que estou me dando conta de que o neoliberalismo é um habitus, não é apenas uma ideologia, é um campo de práticas e de estilos de vida. Eram escolas utilitaristas, voltadas para "a vida", aprender para a vida. Habilidades e competências para o mundo prático da concorrência econômica. Os motivos da cidadania e da emancipação também estava presentes, afinal, não há modelo puro. Não tenho notícia de nenhum ex-colega que esteja desempregado ou que tenha sido assassinado no mundo do crime ou pela polícia. Quase todos os meus ex-colegas, dessas escolas particulares das elites, são alguém na vida: médicos, engenheiros, advogados, juízes, empresários, grandes comerciantes, diplomatas, promotores, são pessoas que falam várias línguas e viajam pelo mundo todo. Não tenho memória de colegas perdidos, acabados, destruídos. Um ou outro que se matou, no máximo. Um ou outro que vive em depressão profunda, no máximo. Um ou outro que pirou ou saiu fora dos eixos do comportamento adaptado. O restante é tudo competitivo, operacional, liberal, integrado, adaptado, com acessos de mercado a bens e serviços de classe média alta. Lembro que eu estava entre os pobres da turma, os que precisavam rebolar muito para estar lá. Pagar a mensalidade era o maior sacrifício dos meus pais. As mensalidades eram caríssimas. Meus dois filhos estudam no mesmo tipo de escola que eu estudei. Não há notícia de mortos e feridos a bala. Os ferimentos e os mortos são pelo apagamento psíquico. São indivíduos que entram em parafuso diante da demanda enlouquecedora da escola-empresa. Brasil, um país de profundas desigualdades que se mantêm ao longo do tempo. Parece que nada muda.
Monday, April 15, 2019
sociologia e neoliberalismo
Recebi um comunicado da escola do meu filho, sugerindo uma conversa com pais sobre "neurofelicidade", sobre o poder do indivíduo biológico de criar o bem-estar, sobre a felicidade como uma escolha adaptativa. Isso do filho mais velho, já do mais novo, recebi uma mensagem sobre estratégias para fazer o enfrentamento da impermanência infantil. Como favorecer processos adaptativos à realidade da organização. Adaptação ao trabalho de equipe e aos quadros normativos, cognitivos e emocionais da escola-empresa. Interessante como tema de pesquisa, né? Já vou usar isso na disciplina sobre teoria sociológica e neoliberalismo.
Sunday, April 14, 2019
A integração perversa e marginal
Alimentar a ilusão de que se é integrado, adaptado, classe média e uma pessoa de sucesso. Uma tragédia sem fim. A integração é perversa. A exclusão é marginalmente relacional. A recusa ativa da adaptação comportanental ao imperativo do gozo normalizado infinito é um ato político. Recusar o que todos desejam ao mesmo tempo. Recusar o existente. Isso não é teoria pela teoria, é condição de liberdade.
O tempo da dor
Chega um tempo que a gente aprende alguma coisa, não muito, mas alguma coisa. Por exemplo, a tentar fazer o deslocamento da dor, pois a dor não pode ser simplesmente apagada ou superada, precisa ser deslocada, criar um novo contexto para uma velha dor. E as novas dores? São tão velhas quanto todas as outras. A dor é um lance primário. Ela é primária, matricial. As imagens mais antigas de dor são as mais recentes na ordem do dia. Um retorno à dor é uma condição de seu deslocamento.
1973 - o livro
Homens da minha idade ou quase estão cada vez mais se aproximando no dia a dia para alguma conversa. Eles me olham e se reconhecem em mim. Os homens de 1973, por exemplo, como o Carlos Augusto ou Sergio Veleiro. Esses homens anônimos que me abordam nas ruas, nos bares, por onde estou passando, fazedor de pesquisa de campo que sou, me contam suas histórias, suas vidas despedaçadas, seus recomeços, seus dilemas. Falam usando as mesmas referências que eu, mesmo quando de estilos outros, e aí falam mais e mais. Estou gostando de fazer essa pesquisa existencialmente significativa. Penso em um dia escrever um livro sobre isso. Mas não agora.
Memórias musicais
Uma pesquisa que tenho vontade de fazer é sobre o processo de envelhecimento do músico profissional. Esse pessoal que trabalha de um modo incessante, pulando de uma apresentação para outra, por vezes, três ou quatro num dia, o modo como eles se percebem e percebem seu meio. Há um sofrimento social muito específico do músico envelhecido, um sujeito que já tocou muito, já se dedicou demais e muitas vezes fica ali refém de um show para uma plateia indiferente. Às vezes, o cara é fodão, já tocou com grandes nomes, mas ninguém sabe, está ali invisível. Quando eles notam que você está prestando atenção, eles se comunicam com você, mostram que são virtuoses, coisas interessantes. Ainda vou fazer essa pesquisa com pessoal que trabalha nos bares e restaurantes. Vida de músico não é fácil. É muito trabalhosa, incerta, com baixos ganhos, fragmentada. Históricos de separação, de uso abusivo de drogas, de não ter onde morar, de ficar vivendo de favor. Memórias de alegrias passadas. Saudosismo. Coisas interessantes de ouvir.
Sunday, March 31, 2019
Problemas políticos do país em 2019
Quando pessoas da sua própria família apoiam a tortura e dizem desejar que você seja um próximo desaparecido, a gente entende que família não é uma coisa natural, que família é quem nos ama e a quem amamos. Quando eu tinha 16 anos, começando minha vida como educador popular, meu pai me disse que era uma imbecilidade querer conscientizar quem estava satisfeito em ser subalterno. Ele disse que eu deveria era reforçar que os pobres aceitassem ser pobres, que querer conscientizar os outros era perturbar a vida de quem estava se sentindo adequado, adaptado, que eu não tinha o direito de perturbar as pessoas. Hoje, meu pai não fala mais comigo, ele rompeu comigo de modo unilateral, disse que não sou uma pessoa de bem para os padrões bolsonaristas de ser. Ele me deserdou, disse que eu não usasse mais o sobrenome dele, não fala mais com os netos, disse que ninguém seria mais bem-vindo na casa da minha avó e do meu avô lá no sertão. Se meu avô e se minha avó estivessem vivos, ele não diria isso. Meus avós não permitiriam tamanha burrice. A guerra é na família. Não sou mais aceito entre primos, tios e parentes paternos, que são bolsonaristas, fui excluído, nem posso mais ir no lugar que eu adorava ir, na casa da minha avó, que já se foi, lugar que era recebido com carinho por ela e por meu avô. Tenho fotos do meu avô comigo no braço, super feliz, contente, mas meu pai me proibiu de ter essa memória. Me deu ordem de sair de lá. Nunca imaginei que isso fosse acontecer na minha vida. Nunca imaginei que seria rejeitado pelo meu pai em nome da família Bolsonaro. Isso é ou não é uma grande merda? Meu filho caçula tem um avô vivo que não quer vê-lo mais. Como vou explicar para meu filho que o avô dele é um bolsonarista que se recusa a aceitá-lo como neto, pois não me aceita como filho? Meu filho mais velho sabe lidar já com isso, tem 16 anos, está por dentro, mas e o meninozinho? Como vou explicar isso, que ele não tem avô? Que ele foi rejeitado juntamente comigo pelo fato de eu ser contra o bolsonarismo? É em nome de Jesus que nos rejeitam e nos maltratam, nos torturam e nos matam. Usam armas com as mãos que apontam contra nossos corpos, dizendo que estamos condenados a morrer, a desaparecer, e fazem isso em nome de Jesus. Nunca odiei tanto Jesus. Esse filho da puta que aponta armas para nós. Quando escuto o nome de Jesus, lembro das armas na mão. Não dá para tergiversar. Foram atuantes em eleger o cara e agora ficam escutando música gospel cuidando da espiritualidade como se não tivessem nada a ver com nada. Que escrotice! São uns escrotos. Falou em nome de Jesus para mim, é inimigo. Nunca mais perdoarei esses imbecis das igrejas. A maioria, alguns se salvam, mas a minoria que é diferente confirma a regra. Jesus é o inimigo com a arma na mão. Jesus é meu inimigo. É satã! Deu pra entender ou quer que eu desenhe? Uma vez meu pai me disse quando eu era criança: "se você estiver no fundo de um poço e eu não tiver como te tirar de lá, eu pulo e lá ficarei contigo, ao teu lado". Era mentira. Que mentiroso filho da puta. Preferiu ficar com a família Bolsonaro. Nem ao enterro dele, irei. Nem que ele venha ao meu. Velho babaca! Vou tentar não ser um pai tão idiota.
Não faz bem para a saúde
As pessoas que chegam muito arrogantes num ambiente novo, onde elas são as recém-chegadas, sofrem muito, mas muito mesmo. Ficam isoladas, sem acesso às informações fundamentais que fazem funcionar as coisas. Cometem erro atrás de erro, mas ninguém ajuda, pois dispensaram desde o início ajudar e ser ajudado como uma prática de cooperação. Não recomendo cometer esse erro mais de uma vez. Não faz bem para a saúde.
Fotografia na biblioteca
Sou o tipo de pessoa que adora tirar fotografias na biblioteca, mostrando livros. Quando vejo as pessoas criticando quem tira foto de si com a biblioteca ao fundo, eu me desespero. Começo a delirar, afinal, se tiram isso de mim, não sou nada. Meu direito a existir está centrado numa foto pessoal com uma biblioteca ao fundo, é minha boia salva-vidas num mar tempestuoso, sem o que, afogaria em dois segundos, perderia meu direito a existir, que é isso, mínimo e reduzido. Nada mais do que isso, uma foto de mim com uma biblioteca ao fundo. Não quero mais mais nada, eu juro! Je vous en prie!
A borboletinha
Estou ensinando para meu filho de dois anos o que é a morte. Conversamos sobre a borboletinha que apareceu morta no chão da cozinha da nossa casa. Ele já está aprendendo que existem duas expressões diante da morte, uma mais objetiva, "ela está morta", mais científica, e outra, "a bichinha morreu". Também a gente examina junto se ela morreu de morte natural (velhice) ou morte acidental (o calor da lâmpada da cozinha). Mas ele já sabe o que é a morte. Ainda bem, pois saber disso é condição para amar a vida.
Friday, March 22, 2019
14 horas por dia
Por que eu trabalho 14 horas por dia? Porque 4 é obrigatoriamente de leitura, de estudo. Me recuso a expulsar do meu cotidiano profissional aquilo que é a razão da gente existir. O professor e o pesquisador estão na condição de estudante profissional permanente. Nunca aceitei aquele lance: não tenho mais tempo para estudar. Para evitar então choque com outras demandas profissionais, que são muitas e variadas, estabeleci minhas 4 horas sagradas, que ninguém mexe, pois afinal estou deixando 10 horas para o restante das atividades. Nosso regime é de 40 horas semanais, mas meus colegas e eu trabalhamos todos os sábados e alguns domingos. Fiz um levantamento e pude observar que a carga horária da gente efetiva fica em torno de 60 horas semanais. No meu caso, fica em 84 horas semanais. E de vários colegas que conheço também. Apenas uma minoria adota a postura "menos trabalho possível", "menos que o mínimo". Inclusive, ninguém gosta dessas pessoas, ninguém as respeita, pelo menos, as que trabalham muito, que são a maioria. Então, não procede o preconceito de que o professor da universidade trabalha pouco. Não corresponde à realidade dos fatos. Agora, se trabalham bem, com qualidade, aí é outro debate. Faço um apelo que não façam circular nesse momento que a universidade está sendo atacada a ideia de que a gente é "privilegiado" que "não trabalha" etc. Isso é um tiro no pé, pois a condição de trabalho do professor da universidade funciona historicamente como referência para a luta. Se a referência cai de padrão, o patronato adora, pois em vez de dizermos que a categoria precisa ser elevada às condições mínimas das universidades, a gente diz que quem está na condição mínima tem de cair para se igualar por baixo, ficar na situação intolerável de precariedade e vulnerabilidade da maioria dos professores. É uma discussão complexa, mas exige de nós uma reflexão, pois alianças são mais bem-vindas nesse momento de desrealização social geral.
Sunday, March 17, 2019
O show de horrores
Acompanhar as explicações e as justificativas dos indivíduos sobre qualquer assunto é observar uma fragmentação muito forte cujas parcelas mais idiossincráticas são correntes muito amplas de opinião de massa. O comentário individual parece ser de cada um, mas não o é, é uma variação de correntes massivas. O massivo capturou a nova mídia? Não pesquiso isso, foi só uma impressão mesmo.
Monday, February 25, 2019
Um drama terrível
O trabalho no campo acadêmico é de formiguinha. Devagar e sempre. Não combina com apoteoses do eu. O trabalho é em rede, é coletivo, cooperativo. São muitos anos exigidos para obter uma formação mínima aceitável pelo campo. Depois, mais anos ainda para dar início a um trabalho que tenha um plano de consistência e alguma relevância. As ansiedades de status apenas atrapalham. Em geral, são demandas de reconhecimento que as pessoas trazem de outras dimensões existenciais para o campo, um lance transferencial. O importante é permanecer durante 40 ou 50 anos de trabalho, sendo reconhecido como um interlocutor válido pelo campo. As subidas bruscas são quedas bruscas, pois assentadas em projeções imaginárias. Não há lugar para show do eu. Mas, infelizmente, é só o que tem. Quando lembro a rapidez com que pesquisadores que eram superpoderosos e impávidos nesse show do eu foram esquecidos após a morte, mesmo tendo obra relevante, fico mais convencido de que é preciso ter calma e não perder tempo com as projeções de sucesso e poder que são as tolices básicas do eu que se pensa como isolado e no centro da vida social. Pessoas que foram submetidas a condições sociais existenciais de muita humilhação e estão tentando romper com isso, sair de uma posição de vergonha socialmente imposta para uma de orgulho de si, acabam tendo muitos problemas com os contextos de trabalho que exigem cooperação e "humildade". Esta palavra ambivalente faz com que qualquer posição de humildade seja remetida às condições de humilhações já sofridas, de modo que as pessoas ficam reativas e não aceitam entrar num jogo que consideram que não foi feito para elas, mas para excluí-las. Começam a agir de um modo que passa a ser interpretado pelo coletivo como arrogante, pois para compensar os déficits de reconhecimento social as pessoas usam fantasias de realização que estão pouco ancoradas na realidade do campo. Começam a viver epifanias, celebrações de si, tudo com tom fortemente motivacional e, portanto, comovente, celebrações imaginárias de uma vitória que foi sair da invisibilidade a que estavam relegadas. Mas aí acabam se excluindo, pois não admitem qualquer prática de trabalho que as coloque em posição de ter que trabalhar fazendo coisas miudinhas que toda profissão exige, aquele sacrifício de si que todo ofício exige, pois os fantasmas estão lá para assustar, que assumir posições que não são apoteóticas é se submeter ao regime de opressão do qual se foge. E aí vão ficando pelo caminho, sendo efetivamente excluídas. Os que vão sendo assim excluídos vão se identificando nessa exclusão e se tornam profundamente ressentidos com qualquer coisa que esteja funcionando no campo que os excluiu. É um drama terrível.
Sunday, February 24, 2019
Compulsória compulsória
A ideia da aposentadoria compulsória aos 75 anos, se a saúde me permitisse, já estava em meus planos. Mas perder, na prática, o direito a uma aposentadoria voluntária não estava em nossos planos como categoria. De fato, nossa compulsória poderia até ser maior, poderia ser 80 anos, pois há cientistas e professores muito capazes nesta idade, em geral, são os melhores, dependendo da área. Estou lendo as coisas para tentar entender. Mas é um lance muito complexo. Precisamos estudar essas propostas.
Saturday, February 23, 2019
Trabalhadores
Ontem, conversei com trabalhadores (três homens), 1 a 2 salários, terceirizados da universidade, uma roda de conversa em pé, quando terminei minha aula às 21h40, me chamaram para um papo, eles estavam assustados. Muito temerosos. Relatando as perdas que sofreriam e como isso afetaria suas vidas. Insatisfeitos com o governo. Queriam saber minha opinião. Fui dormir um pouco melhor. Quando um trabalhador assalariado hoje expressa insatisfação com os governos e as empresas, fico tão alegre. É tão raro. A maioria dos que possuem o perfil deles se expressa como se fosse membro da classe rentista e da cúpula de altos executivos globais, mesmo não tendo nada, falam com uma linguagem que não é a deles. Quando o trabalhador usa linguagem de trabalhador, chega me dá um arrepio na espinha. Alguma esperança há. Eu tinha dado aulas de 14h até 21h40 sem intervalo. Fiquei conversando com eles de 21h40 até 22h10. Foi a melhor aula do dia, inesperada. Mesmo eles sabendo que ganho muito melhor do que eles três, que a minha perda com a reforma é a metade do salário deles, eles conversaram comigo de igual para igual. Foi massa. Mas se a gente entrasse em outras pautas, as identitárias, direitos humanos, provavelmente, seria um desastre. Esqueci de dizer que eles sabiam muito mais detalhes técnicos e precisos sobre a reforma da previdência do que eu, não era isso que eles queriam de mim, eles queriam que fizesse uma interpretação da conjuntura para saber se batia com a deles.
Capital agradece
Multidão de pessoas muito excluídas tendendo a apoiar a perda de direitos dos poucos, muito poucos, precariamente incluídos, estou falando da base. O capitalismo toma seu uisquinho vendo o circo pegar fogo. Vendo que dá para arregimentar ressentimentos para nivelar por baixo a estrutura do trabalho escravo assalariado. O capital agradece pelas concorrências mutuamente destrutivas dos segmentos infraclasse dos assalariados. Só que miséria não faz revolução. Quem com ferro fere com ferro será ferido. Serão muitos os ferreiros autoferidos sem o saber. O trabalhador hoje se odeia tanto que aceita o argumento ultraliberal de que aposentadoria é um assunto estritamente privado. Tem quem capitalizou e ponto final. Esse entendimento é um suicídio coletivo. Os bancos e as grandes empresas não costumam agir assim. Estão sempre desejando a garantia do Estado que só pode ser para eles o provedor para o sistema do capital em detrimento do trabalho vivo. Parte considerável da classe trabalhadora está se identificando com a reforma da previdência. Isso é bem assustador. Dizem que a reforma é contra os ricos. Mas ser contra os ricos não é coisa de socialista? Estou entendendo mais porra nenhuma. Qual ataque robusto aos gastos públicos o governo vai fazer quando o assunto é dívida de grandes empresas? É isso que querem silenciar. Que os gastos públicos para grandes empresas vai aumentar. Mas geram empregos, não é? É assim que a massa responde. Tudo cada vez mais na mais perfeita harmonia. O governo com apoio do povo anula qualquer contradição. Pagando para ver.
Wednesday, February 20, 2019
As estrelas antes da hora
Indivíduos que começaram a agir como estrelas antes de terminar a formação sofrem com ansiedades agudas de status. Em geral, desaparecem do mapa. Ninguém sabe, ninguém viu. Tão comum isso. Entram imaginariamente e portanto não saem, pois não entraram. Não foram sequer admitidos mas gozavam ilimitadamente num lugar inexistente. Muito triste isso. Se autonomear estrela é não entender que o sujeito é o campo.
Tuesday, February 19, 2019
Ninguém sabe, ninguém viu.
Indivíduos que começaram a agir como estrelas antes de terminar a formação sofrem com ansiedades agudas de status. Em geral, desaparecem do mapa. Ninguém sabe, ninguém viu. Tão comum isso. Entram imaginariamente e portanto não saem, pois não entraram. Não foram sequer admitidos mas gozavam ilimitadamente num lugar inexistente. Muito triste isso. Se autonomear estrela é não entender que o sujeito é o campo.
Monday, February 18, 2019
Os outros são os outros
Escondem a verdade do que aconteceu e depois se vitimizam. Não deixam ninguém saber que foram irresponsáveis e sem compromisso. Que não valorizaram a oportunidade de realização. Mas quando se vitimizam, comovem a todos. E ainda conseguem demonizar os outros. São perversos. Encontrar com gente assim é sempre uma lástima. E há uma multidão a dar guarida. São falsos e oportunistas. Possuem duas faces ou mais. Sorriem para você e te detonam onde e como puderem. Se aproximam quando precisam de algum suporte ou apoio. Se distanciam quando chamados a assumir responsabilidades. Fazem um leva e trás de fofocas e informações para atiçar relações de guerra e inimizade. Sem comprazem em ver o circo pegar fogo. São traiçoeiros. Sentem ódio e são ressentidos, mas vestem a máscara de abraços e simpatias quando encontram por aí quem detestam. Aprontam escrotices, mentem, se esmeram em prejudicar o que quer que vejam funcionando bem. Boicotam, envenenam relações, atuam como agentes de discórdia. Fazem o mal e fingem que não sabiam de nada. Montam estratagemas de exclusão de possíveis concorrentes. Escondem informações. Fogem do trabalho sério. Vivem se escorando nos outros. Pegam carona no resultado de quem trabalha, como se tivessem contribuído, quando nada fizeram. Vivem costurando redes de apoio às suas atitudes sacanas, se pintam como santos perseguidos. Mas quando percebem que vão ser punidos pois desmascarados ficam apavorados. Começam a chorar se fazendo de pobres coitados, o que no fundo são.
Elogiar o esforço mínimo?
Faz um mal enorme elogiar alguém que a gente sabe que não está à altura do elogio. Saber que a pessoa não fez o que tinha de fazer com cuidado, esmero, atenção e esforço requeridos, saber que a pessoa está apresentando um resultado medíocre e assim mesmo elogiar, para dar uma força, porque a pessoa precisa de algum reconhecimento, enfim, elogiar o pouco esforço e a baixa criatividade tem sido um jogo que tem feito muito mal a muita gente. Todo mundo que ser simpático e amigo, acabam alimentando o ego de quem não fez lá grande coisa. Vira uma coisa ridícula. O ego lá numa trip se achando. Achando que é um arraso no show da vida. Se passando como o ridículo e ninguém diz nada. Fazem é continuar a elogiar. Que merda, hein?
Sonho de astralidade
Meu sonho era levar uma vida astral, numa casinha de praia, bem simples, tudo artesanal, pescando um peixe fresco, tomando água de coco, pesquisando o folclore da região, sentindo aquela brisa fresca batendo no rosto todas as manhãs. E sabendo que o papai iria depositar minha mesada todo mês e pagar meu cartão de crédito quando fosse para NY passear, além de estar incluído no testamento do velho, agraciado com alguns imóveis caros que me dariam sombra e água fresca durante um boa vida de astralidade, dando bom dia para o sol e boa noite para a lua. Teria sido tão bom! Mas não foi o meu destino subjetivo ser uma pessoal astral e amiga da natureza.
Segura a mão do outro?
De vez em quando, e com mais frequência, estão chegando as notícias de pessoas conhecidas que adoeceram e morreram à míngua. Pessoas amigas, que estavam entre nós e ninguém suspeitava que pudessem morrer devido à pobreza material que não aparentavam ter. Isto é o fenômeno que mais me tem chamado a atenção nos novos tempos. E é tabu. Ninguém discute abertamente. Muita gente prestes a papocar. O coletivo expressa por redes sociais virtuais o seu pesar. Ou seja, segurar na mão do outro, ninguém solta a mão do outro, é a nova hipocrisia.
função mãe e função pai e a negação do show de eu
Estar na função materna e paterna com responsabilidade sistemática entra em contradição frontal com a ideia de estar no centro das atenções, sendo o objeto primordial do cuidado e do amor. Não dá certo estar na Babilônia, no narcismo, no sou mais eu, no show do eu, sendo o destaque de sucesso, a celebridade, se você efetivamente se tornou pai ou mãe responsáveis. Nesse ponto, o discurso conservador tem razão, apesar do seu moralismo, tem razão em criticar quem não assume o lugar do adulto. Na família, a gente é 24h resolvendo questões da vida dos filhos. É uma loucura. Se vc se ama muito em demasia do tipo espelho espelho meu, não tenha filhos. Não meta as crianças numa enrascada chamada seu show de eu.
Sunday, February 10, 2019
Cuidar das crianças é prioridade
Ter filhos envolve passar noites e noites acordado cuidando deles quando adoecem. Aquelas madrugadas de cansaço e preocupação. Só sabe quem já passou. Caçula por aqui com febre alta. A gente, pai e mãe, suspendendo tudo para cuidar dele. O difícil é lidar com um sistema que não aceita isso. Não aceita que a prioridade seja a criança. Em geral, no mundo do trabalho, a crueldade impera. Por isso que tento não ser o sacana quando isso acontece com pessoas que estudam ou trabalham comigo. Vamos lá. Cuidar das crianças é a maior prioridade sempre.
Wednesday, February 06, 2019
Barbárie cearense
Uma mulher ajoelhada na rua sendo açoitada por um agente da lei com um chicote de dar em cavalo. Isso é a segurança pública no CE. É importante não esquecer que a PM que faz isso é a PM que protege os "bairros nobres" e o governo das oligarquias. O Ceará é uma barbárie. Não adianta pagar especialista para elogiar o governo. Essa bajulação tem de acabar. Essa subserviência tem de parar por aqui. Vejam as imagens, vejam o vídeo. É uma mensagem terrível. De puro terrorismo de Estado. Ou vão querer patologizar o policial, dizendo que ele é uma exceção que passou pelo crivo do rigoroso recrutamento do Estado? É intolerável que a sociedade civil fique em silêncio diante de tamanha barbárie.
Elogio da loucura
Não sabia que havia uma história complexa e entrecruzada que envolvia Henrique VIII, Erasmo de Rotterdam, Thomas Morus e Lutero. Estou embasbacado. Erasmo e Lutero fizeram uma disputa teológica, política e intelectual. Que contexto histórico rico! A gente descobre cada coisa na vida. Aprendendo muito com as querelas dos anos 1490-1530. Ou seja, estou lavando louça na cozinha da minha casa.
Monday, February 04, 2019
Pensando com Erasmo
Construir uma relação com o espaço vazio. Manter uma relação com o nada. Para não cair no vazio e nem ser engolido pelo nada, elaborar um modo de negação do não ser. Será que isso continua sendo a tarefa da humanidade ou isso já ruiu e só restam ruínas destituídas de quaisquer modelos civilizacionais? "Tudo o que fazem os homens está cheio de loucura. São loucos tratando com loucos" (Erasmo). Uma vida aprisionada entre a vergonha e o medo. Em algum lugar. Ignorância, irreflexão, esquecimento e as esperanças mais tolas.
O sacrifício como tema para reflexão
O sacrifício pelo bem de si mesmo, de outrem ou do grupo? Ou é possível uma vida social humana sem sacrifícios? O tema do sacrifício se tornou um tabu. Ou seja, o tema da relações sociais recíprocas com suas obrigações mútuas virou tabu. Temos que criar uma nova linguagem para lidar com isso. Novas práticas e nova linguagem. Não dá para fazer revolução com promessa de consumo competente para todos. Foi isso o que ocorreu no BR. Os governos que abriram acesso ao consumo competente (virtualmente ou efetivamente) para todos foram rechaçados por pautas conservadoras, que, afora suas distorções ideológicas histéricas, partem de uma demanda por algo mais do que seja também um consumidor. O liberalismo social virou sinônimo de "indecência". Os estilos de vida defendidos passaram a ser lidos socialmente como individualistas, hedonistas, narcisistas e atomistas. Será que tais percepções que passam pelas formas do pensamento conservador a respeito das exigências de cidadania do consumo livre de quaisquer amarras não prepararam a queda do pensamento da esquerda oficial? Uma esquerda que prometia posição de consumidor de bens e serviços, com feitios a-morais, foi rechaçada pela demanda de integração moral dos laços sociais. Quando se tentou recuperar o terreno com a tal da "nova classe média", foi um desastre, pois se quis tratar uma demanda moral com ferramentas economicistas. Repetiu-se o erro. Os neoliberais também erram por incorrerem nesse economicismo da esquerda oficial. Já as igrejas, essas continuam muito antenadas com as demandas que envolvem projeções de fantasias coletivas na ordem social imaginária. O governo das igrejas é o mediador universal nesse contexto de uma vida definida pelo dinheiro e pela dívida.
A família como tema para reflexão
Todo dia acordar 5 da manhã para dar tempo das crianças estarem na escola às 7 em ponto e a gente no trabalho às 8h em ponto. De domingo a domingo, manter necessariamente a vida em bando. A vida familiar com suas rotinas exigentes e esfalfantes. Ninguém do bando pode ficar de lado, todo mundo tem de ser incluído. Esse lance de família não é brinquedo, não. São anos e anos, repetindo os mesmos movimentos. Praticando os mesmos cuidados. Função pai, função mãe, função responsável, isso exige uma disciplina espartana. Uma vida repleta de obrigações, deveres. Exigências de sacrifício do desejo individual. Conformidade às necessidades do grupo familiar. Enfim, é verdadeiramente aprisionamento numa rede de obrigações mútuas. Muito sacrifício. Ser responsável num sistema de responsabilidades tão exigente é uma questão de vida ou morte. Crianças e adolescentes são os que sofrem com as barbeiragens, omissões, irresponsabilidades, fugas, covardias. Entendo perfeitamente por que os conservadores transformaram o tema da família no tema central de suas elucubrações. A família é um compromisso que só pode existir como compromisso prioritário. O desafio para quem não é conservador é manter as noções de liberdade individual e de hedonismo narcisista à salvo de tantas obrigações, uma missão quase impossível. Não dá para ser um hedonista competente, quando se é arrimo de família, quando se é presente e responsável. A minha família e o meu trabalho salvam minha vida. Vamos tirar esse motivo da mão dos conservadores? Sim, mas para isso, é arregaçar as mangas e mandar ver na efetividade das práticas cotidianas. Uma loucura! Tenho muito respeito por quem não escolheu esse caminho da família. Muito mesmo. Acho coerente. O problema é escolher e não assumir o lugar, aí é que os problemas começam.
Monday, January 28, 2019
Ódio à distância
Apenas quando te encontro num abraço entre seres sensíveis, anulam-se as antipatias que sinto por ti. Descubro que, longe de ti, tua imagem é meu mero e mesmo fantasma, aquela que me atormenta.
Monday, January 21, 2019
Os entusiastas bolsonaristas do capitalismo
Está ficando cansativo ter de lidar com indivíduos que defendem o capitalismo com unhas e dentes mas que possuem baixíssima capacidade concorrencial, quase nenhuma, baixíssimo acúmulo de capital informacional, não atuam subjetivamente na forma-empresa, não fazem investimentos de rentabilidade crescente em praticamente nada e sequer entendem o que seja a lógica de mercado. Enfim, vivem na merda, felizes pois estão superando o "socialismo" no Brasil. Cansa muito esse pessoal. E são muitos. São milhões. Santa paciência. Como lidar com esses autoexcluídos felizes e boçais que não representam porra nenhuma no regime do capital? Esqueci de dizer que esse pessoal não tem plano privado de saúde, não tem acesso a escolas privadas, não tem seguro de vida privado, não possuem praticamente nada dos títulos de capital do capitalismo. São excluídos mesmos. Mas não param de falar que estão felizes em superar o socialismo no Brasil, que agora é capitalismo para valer.
Saturday, January 19, 2019
Os sorrisos
Nessa vida cheia de sofrimentos, talvez, um dos piores seja o de ter de se sentir obrigado a expressar felicidade, beleza, sucesso, poder e riqueza para a apreciação e o julgamento dos outros, mesmo quando o sentimento íntimo é de que tudo desmorona. As mascaradas com seus sorrisos que, nas entrelinhas, pedem socorro, nos levam cada vez mais para o fundo do poço sem que saibamos disso, um fundo do poço de onde os amigos mais calorosos, os mais amigos, não irão jamais nos tirar, pois é tóxico se aproximar de quem está no fundo do poço, simples assim. A amizade, como dizia Beckett, a propósito de Proust, é uma grande covardia. Somente os covardes procuram a companhia dos amigos, como muletas. Nada de sorrisos, nada de estados de felicidade expressos pelos sorrisos do adeus, da falta de comiseração. Prefiro viver afundado na falta de misericórdia e no desespero humano mitigado pela arte do abandono de si. O resto é o teatro do mundo, o que soçobra de modo jovial. Como detesto tudo o que é jovial e espontâneo. Somente o velho, o decrépito, o sem sentido, deveria ter direito a existir. O velho e sua morte iminente. O declínio do sorriso é a aurora. Meu teatro é feito de caretas, de máscaras ruinosas, de faces derretidas, sem substância e sem essência. Desbragadamente afirmadas na alegria, essa negação de toda felicidade humana.
Thursday, January 17, 2019
Pensando alto
Se houvesse engenheiros, químicos e físicos nas facções, hein? Mas as facções com seus ataques, entre outras coisas, mostram como são formadas por indivíduos de baixíssimo capital informacional. Esse mundo do crime precisa se modernizar. Precisa estudar para aprender a explodir uma ponte com cálculo, como os especialistas do Estado e das empresas privadas sabem fazer. Se assim fosse, aí iam dar um trabalho danado. Tenho cada ideia, né? Desculpem-me. Não quero ferir sentimentos de A ou B. Foi só uma coisa que me veio à cabeça.
Wednesday, January 16, 2019
Arma de tolo
A facilidade de acesso às armas mascara o movimento de gerar dificuldade de acesso à educação de qualidade. A arma é um cortina de fumaça para elitizar o acesso à educação, restringindo o desejo de escola, compensando-o com o de arma. Só que a escola é mais rentável. Por exemplo, no CE, o salário médio de quem cursou nível superior é de 4 mil e 300 reais. É mais negócio investir no estudo no que na arma. Mas se muita gente investe no estudo, há um efeito de desvalorização dos diplomas, que afeta também negativamente os salários médios de quem estudou. O encanto pela arma por parte da população de baixa renda ou da classe média baixa é excelente para quem está investindo tudo nos estudos, diminui bastante a concorrência. Forte expectativa com arma, baixa expectativa com estudo. Para quem fica no estudo, gera aumento relativo do lucro do diploma pela restrição ou corte da expectativa daqueles que não estarão mais com o foco no estudo, mas na arma. Dirigir os filhos para as armas ajuda a quem os dirige para os estudos. Aumenta as chances destes últimos de monopolizarem as oportunidades de realização. Mais armas, menos estudo, mais violência no lugares de concentração de armas. As elites em geral preferem comprar serviços de segurança privados. Só alguns se dedicam diretamente à aquisição de armas. As elites fazem aquisições de planos de saúde, de serviços de telefonia e internet, de escolas privadas, de pacotes de viagens de estudos para seus filhos no exterior, de cursos de línguas estrangeiras, de escolas de esporte, enfim, investem naquilo que realmente dá lucro. Arma dá lucro só para quem a vende. Ademais, ter arma em casa é virar alvo. Não há como ter arma em casa e levar uma vida tranquila, espontânea. Tem de virar um soldado, tem de dedicar muito tempo e atenção à arma. Ou seja, tempo de não estudo. Os já excluídos tendem a abraçar o reforço da sua tendência de maior exclusão. A arma é um fator de desigualdade. Quem tem arma em casa, com raras exceções, tem menos segurança ontológica, mas tem uma sensação compensatória para mascarar a privação de base. Ouro de tolo. Ocorre que lucros à parte, todo mundo perde numa sociedade toda armada. Mas as perdas são distribuídas desigualmente, assim como os lucros. Se o homem morador da periferia não poderá circular em bairros ricos com sua arma, pois ele não possui o porte, apenas a posse em sua residência ou comércio, isso significa que o homem pobre da periferia armado não poderá ameaçar pessoas nos bairros ricos, pois a posse é ilegal. Se houver quem morra ou quem mate, será no bairro de moradia desse homem pobre armado. No bairro dos ricos, há empresas privadas de segurança armada cuidando dos condomínios, além dos policiais fazendo bico, e das patrulhas constantes para não permitir circulação de homens armados das periferias nos bairros "nobres". A facilitação da posse demarca territorialmente o lugar dos efeitos de violência letal armada, em tese. Outra hipótese: as invasões policiais nas periferias poderão "naturalmente" ser mais "enérgicas", mais violentas, pois está "naturalmente" justificado que cada residência é potencialmente proprietária de armas, como fato normal e geral. Se as casas das periferias são potencialmente e legalmente proprietárias de armas, não há razão para entradas cuidadosas. A entrada da polícia na periferia ou na casa da periferia será de modo generalizado justificado como enérgica. Regulariza um monte de problema que já existe. O governo do Bolsonaro é muito inteligente.
Thursday, December 27, 2018
Coisas que não se diz
Quando a gente cria os próprios filhos, a gente os obriga a se esforçar, cobra muito dos filhos que façam seus exercícios da melhor maneira. Um cuidado para que a transmissão de capital educacional seja eficiente, eficaz e resulte em impactos positivos para a reprodução dos quadros familiares como agentes empoderados. Isto é uma violência. Fundamentado numa violência simbólica. Mas quando recebo um educando que não vem da pequena burguesia, lá na universidade, que vem de um contexto que não funciona desse modo neoliberal, cobrar vira uma dupla violência simbólica e não cobrar, apesar de virar amigo, vira uma tripla violência simbólica. O sorriso, o abraço, o acolhimento, isso tudo vira uma grande violência escondida. A violência da exclusão simbólica. Acho que cobrar é mais honesto. É ainda violento, mas tratar com condescendência é mais violento ainda. Cobrar de quem não teve condição de estar no processo de reprodução da pequena burguesia é impor um modelo violento, mas não cobrar, deixar rolar, viver feliz na irmandade, é mais violento ainda. Aprendi isso com Florestan Fernandes e Pierre Bourdieu.
Tuesday, December 25, 2018
Sem vestir a fantasia, não dá!
Descobri que você pode fazer as coisas da vida de acordo com a "normalidade" mais aceita, mas se você não reconhece a ordem dominante no plano público, ideológico, simbólico, você é banido mesmo assim. Você não é aceito pela normalidade aceita, mesmo seguindo-a, se você não a reconhece como digna de ser aceita sem contestação. A normalidade, portanto, é uma fantasia de ordem, só é respeitado quem veste a fantasia da ordem, mesmo que, na prática, alguém esteja muito mais distante das regularidades da ordem do que você, quem veste a fantasia é mais respeitado do que quem mantém regularidades no funcionamento concreto da ordem dominante. A efetividade de uma conduta em conformidade com a lei não garante um reconhecimento social de acordo com a Lei. A força do simbólico na estruturação dos grupos é tamanha que parecer em conformidade é mais importante do que estar em conformidade real, pois, sem reconhecer o padrão como universal, o real dessa conformidade não tem eficácia. Os que são reconhecidos como dominantes podem estar bem longe do padrão efetivo que apregoam, se não vier a público esse desnivelamento, essa defasagem, do que quem mantem maior nivelamento na prática efetiva mas em público contesta o padrão simbólico dominante, negando-lhe eficácia simbólica.
Paz de espírito
Como ter paz de espírito se a decisão da maioria é pelo reforço das desigualdades? Como ter paz de espírito se as forças políticas de esquerda e de direita "lutam" pela manutenção do separado? Não há paz de espírito no separado. Lutar contra o poder de separação é condição para uma existência na qual se possa tentar alguma experiência que se aproxime da paz de espírito. Mas com desigualdade, exploração, brutalidade e milhões na miséria e na pobreza, não há como ter paz de espírito. Há como ter má-fé em se afirmar como alguém com paz de espírito. A paz de espírito é a força do comum contra o separado.
Os endinheirados sofrem de outro modo
Indivíduos com chances objetivas de viver a figura do consumidor bem-sucedido vivem de celebrar suas pequenas felicidades, apoiados num processo de farmaceuticalização de sua dor. Os bem-sucedidos consumidores são antes de tudo consumidores das estratégicas de medicalização do humor e psiquiatrização bioquiímica das ansiedades, da "depressão", ou seja, de toda a estrutura bioquímica para fazer o indivíduo de sucesso funcionar sem o desafio de se pensar na impossibilidade do sujeito, essa atividade inervante que é a de trabalhar o seu próprio desejo. Mas é claro que o sofrimento desta privação de trabalho de desejo, quando endinheirado, se suicida afogado no mundo das compras e do consumo de mercadorias que pouco importam, pois o que importa é aquilo que escapa rapidamente, a sensação de consumir a mercadoria gozada precocemente apenas ao se pensar na possibilidade de consumir a mercadoria desejada. E sofrem muito dispendendo rios de dinheiro com sensações fugazes que geram um aprofundamento do desamparo e do vazio.
Thursday, December 13, 2018
Nem abraços, nem afetos!
Não gosto de tentar transformar universos organizacionais de trabalho em lugares de abraços e afetos. Acho inadequado. Organizações são lugares de disciplina, produtividade e construção de redes de poder e conhecimento. O abraço e o afeto se tornam coisas espúrias nesse ambiente. Não penso que o abraço e o afeto possam ser libertários, na verdade, se tornam elementos de controle da personalidade para fins de capitalização de posições de poder. Prefiro seriedade, formalidade e distanciamentos calculados. Não é o abraço e o afeto como performance de personalidade que irá superar o separado. A performance dos afetos é mais cruel e excludente do que os padrões de trabalho no sentido mais clássico. Os abraços e os afetos na organização são elementos de dispositivos neoliberais. Se pensar na organização como uma família, como um lugar de amigos, isso tudo me cheira a heteronomia e alienação. Prefiro minha inadequação permanente como sujeito não conformado a essas novas tendências de controle.
Wednesday, December 05, 2018
Autoritarismo na instituição é naturalizado
A instituição, e suas práticas oficiais, é tão autoritária que quando você adota práticas menos autoritárias, quando, pelo menos, tenta questioná-las de algum modo, o efeito é bastante dúbio. Gera um efeito pedagógico construtivo de longo ou médio prazo para alguns, mas no contexto imediato resulta em não ser levado a sério. O tempo, e o investimento das pessoas, irá priorizar dar resposta àquela instância institucional, e seus agentes, que está agindo de modo esperado, ou seja, autoritário. Ficam de prontidão para responder à interpelação autoritária e desinvestem aqueles projetos que tentaram fugir do padrão autoritário. Não é fácil ser educador no contexto que se pede "o professor" como figura de mando, como patrão, que ameaça e pune.
Coisas que tenho percebido
Tenho percebido uma dificuldade generalizada das pessoas sustentarem com regularidade seus projetos individuais num contexto de incerteza sobre o futuro. A regularidade, que é a disposição mais visível da integração à ordem, se tornou um traço raro. Quase ninguém consegue se manter na regularidade dos padrões de trabalho e estudo. A irregularidade passou a ser o traço definidor da situação de crise. As pessoas começam as coisas e não terminam. Desistem no meio do processo. Inflacionam aspirações e denegam realizações, que são tidas como fonte insuportável de sofrimento psíquico. Enfim, manter a ordem no sistema das desigualdades, gera muito adoecimento e também muita morte social e simbólica. As exclusões se tornam cada vez mais autoexclusões. Outra coisa que tenho percebido. Pessoas que provêm de famílias com altíssimo capital econômico e social que não conseguem adquirir o capital cultural e escolar requerido pela origem. Uma crise de transmissão do capital educacional em famílias de classe média alta. E como a herança deixou de ser a principal forma de garantia de pertencimento ao campo do poder, exceto em alguns casos, os dos muito ricos, o pessoal de classe média alta não está conseguindo se reproduzir socialmente a contento, pois o investimento escolar é financeiramente alto com baixo resultado em muitos casos. Filhos da classe média alta que vivem de mesada e atividades fora dos padrões institucionais ("alternativos", por exemplo, com dinheiro para consumo cultural constante mas que são inconstantes na aquisição do capital cultural oficial) estão onerando os pais e pondo em risco a reprodução dominante da família. Recorrem então à política e ao mercado matrimonial para resolver o problema.
Wednesday, November 21, 2018
Cerveja ruim
Falta de realismo é você acompanhar a busca pelo preço baixo forçado pela queda da renda, mas protestando contra a queda da qualidade de vida que isso acarreta. O não realista é um consumidor inconformado. É um pragmatista crítico. O realismo ingênuo é você adequar o seu gosto à queda da renda refletida nessa busca do preço baixo daquilo que é imitação da imitação e de baixa qualidade, mas que você elogia para se sentir validado na sua opção de mercado, pelo simples fato de ainda ter alguma opção, estou falando da cerveja, é claro. A gente bebe mijo à força. Não vou ficar inventando gosto por esse mijo que nos empurram com preço "baixo", de fato, elevadíssimo, se pesado na balança das qualidades. Ter de tomar droga ruim, de baixa qualidade, é uma tremenda opressão. Vamos pelo menos aderir ao realismo crítico.
10%
Os economistas do sistema preconizam que as organizações em geral tenham apenas 10% de quadros de especialistas no sentido moderno (alta performance, alta qualificação, altos salários - estes últimos não tão altos assim, se comparados com o passado). Essa tendência anti-intelectualista propagada por intelectuais neoconservadores cai como uma luva, quando vira uma força de crença generalizada de que realmente o estudo não vale a pena. Que a maioria pare de almejar o que vai ficar raro é uma medida de proteção de mercado para quem almeja ficar entre os 10%. Que a maioria das famílias pare de desejar o universo do especialista, que os jovens parem dessa "mania" de ensino superior. Quais jovens? Não há opinião inocente. Muita atenção é pouca. O pior é que muitos dos que propagam a corrente anti-intelectualista são os que se quer excluir. A concordância do indivíduo não desejável com sua própria exclusão é a razão de ser da política atual e da aliança entre família, governo e igreja. Fechar as portas, reserva de mercado, proteção dos nichos. E o ataque à universidade pública passa por aí, pois, virtualmente, ela democratiza acessos, e, efetivamente, desvaloriza diplomas de especialistas no mercado dos diplomas. Os liberais ricos e brancos são protecionistas, quando se trata de política de cotas raciais para seus filhos (pelo racismo de Estado disfarçado de espírito de competição ou por este alimentado). Garantir os 10% com relativa exclusividade. Plausível, não, essa hipótese? Quaisquer erros informacionais aí, me deem o toque. Desconfio que não seja tão simples assim.
16 anos
Hoje, é o aniversário do meu filho mais velho: 16 anos. Daqui a 17 dias será do meu caçula: 2 anos. Minhas rotinas na função pai são precisas. Envolvem muita disciplina. Autodisciplina de minha parte. Pessoal que me acha loucão por causa de postagens de FB, não sabe quase nada de mim, exceto que sou o loucão do FB. Na real, sou paizão desses meus amores que são esses filhotes que me fazem rir do sacrifício que é criar filho do jeito que deve ser, com presença e muito diálogo de 5 da matina até sempre, a vida toda. Alegria de ser reconhecido como pai é fora de série.
Wednesday, October 31, 2018
Orgulho ou vergonha? O problema de ser professor em tempos de ódio ao professor
Fiquei com vergonha de ser professor. Me sentindo acuado, culpado. É como se eu tivesse feito a escolha errada. Tivesse escolhido ser educador. O professor está sendo tratado como um criminoso. Até quem antes dizia ter admiração pela gente, deixou de expressar isso. Onde erramos? Por que querem que fiquemos cabisbaixos? Que punição é essa? O professor gasta parte do salário com livros. É uma alegria imensa quando o livro chega. A gente sabe que vai estudar e isso vai ser transformador na sala de aula. Hoje, chegou um livro que comprei. Fiquei triste. Indiferente. Me deu vontade de chorar. O livro parecia não ter mais lugar. Parecia uma coisa errada. Está difícil.
Monday, October 29, 2018
Cuidar das crianças
Cuidar, sistematicamente, todos os dias, sempre, prioritariamente, das crianças. Manter a regularidade desse cuidado. Buscar também fazer isso com qualidade. Sem stress. Sem transferência de sentimentos e atitudes negativos para as crianças. Tentar, pelo menos. Escutar muito a criança. Aprender a escutá-la. Ensinar as crianças no dia a dia a cuidarem de si mesmas. A ter noção de si e do outro. Fazer isso de domingo a domingo, sempre, a vida toda, sem faltas. Desafio de ser pai. Desafio de ser mãe. Uma trilha de obrigações para com as crianças. Tornar-se criança com a criança. Não ser impositivo em demasia. Dizer mais "cuidado" e menos "não". Dizer o "não" na hora certa, para demarcar o poder do "não" em certas circunstâncias (enfiar o dedo na tomada, por exemplo). Dialogar muito, conversar muito. Não bater. Nunca bater. Nem palmada. Não há necessidade, quando se é um pai-educador ou mãe-educadora, a força do amor, dos afetos, da palavra, do abraço, do acolhimento, da autoridade também, enfim, isso tudo basta e ainda não é suficiente para dar conta da aventura do humano. A violência física é sinal de falência da educação. Alimenta o medo e a desinteligência. Dedicação total. Não é fácil, mas é muito gratificante. Mas exige vários sacrifícios dos desejos individuais. Estar a serviço do cuidado do outro não é brinquedo. Mas ensina algo sobre ética, porque de amor já se trata.
Thursday, August 16, 2018
A vida acadêmica
Quando fazia graduação, assistia aula de 7h às 12h, almoçava de 12h às 12h30, entrava na biblioteca às 13h e ficava até 19h, ia para as casas de cultura estudar inglês, francês, grego, latim, tudo gratuito, terminava às 21 horas, aí o bar estava lotado, ia para lá beber cerveja e bater papo com a galera. Chegava em casa às 24h. Ia digitar trabalhos e transcrever fitas até às 2h, para ganhar uma parte do aluguel de uma quitinete que dividia com um amigo no centro da cidade. Tinha a bolsa e essa grana dos bicos. Era estudante profissional. Conhecia um monte de amigos e amigas que faziam isso também. E não vinham de família rica, nenhum de nós. Sábado era o dia todo lendo, a gente fazia era grupo de estudo no sábado lá na UFC, domingo, depois da ressaca recuperada, pois sábado à noite era balada na certa, lá pelas 15h de domingo, começava leitura e finalizava no Cais Bar, dando uma esticadinha até a manhã de segunda, indo direto para a aula, sem se atrasar. A aula começava às 7. Isso lá pelos idos de 1993. Universidade era puro tesão. Estudar muito, na liseira, namorar e dançar e deixar o corpo transcender o mundinho de merda dos arredores. Contracultura. Universidade para mim não é mercado "livre". É corpo livre. É um estilo de vida de recusa ativa do adoecimento. Universidade adoece quem? Para mim, é fonte de saúde. Por isso, quis continuar nela como professor. Pelo tesão.
Adoecimento acadêmico
Se as exigências hoje estão bem baixas, por que se fala tanto em adoecimento acadêmico? Ninguém mais é obrigado a ler mil páginas por semana. Esses tempos estão fora da regra do jogo atual. A universidade virou mercado "livre". Todo mundo é "livre" para não aceitar ser exigido por uma instância de assujeitamento, que está na base da formação do sujeito acadêmico. A atividade cobradora é percebida como opressora. Para não ser opressor, a gente cobra da gente mesmo, então. E não sou elitista, não defendo uma universidade elitista, ao contrário, penso que a democratização da universidade é disseminar práticas formativas e de produção de saber orientadas politicamente para a ruptura com as imposições do sistema de mérito, que é uma hierarquização baseada na desigualdade de capital. O deixa-rolar como for, como os indivíduos desejarem, de acordo com as "escolhas" de cada indivíduo que se serve na universidade como se estivesse consultando um "menu", buscando o "combo" que lhe interessa, é aliado do neoliberalismo. A subjetividade neoliberal do atual consumidor de serviços educacionais na universidade é pouca discutida. Discute-se mais o neoliberalismo do produtivismo. Penso que é uma questão a se pensar. Rejeita-se produtividade sob a etiqueta da contraposição da ideologia do produtivismo. E a relação entre Universidade e Democracia vai para o ralo, ou seja, vai para o buraco do mercado "livre". A luta por democracia é árdua. Envolve uma recusa do trabalho alienado.
O problema da leitura na universidade hoje
Do ponto de vista da lei do meu desejo, esse lance de que ter de ler muito na universidade é fonte de adoecimento é papo-furadíssimo. Para mim, para o meu desejo, ler muito é o que me mantém vivo, alegre, com desejo de ser, de persistir, de continuar, de dançar, conversar, namorar, ler muito é minha melhor terapia, depois do namorar. Salva minha vida mais do que qualquer outro bem de salvação que se possa ofertar no mercado. Ler muito não me adoece, me dá tesão. Me deixa querendo ler mais. É o desejo do desejo sendo acionado. O desejo de persistir sendo mobilizado. Estou falando somente de mim. Se existem pessoas que acham que ter de ler muito na universidade é fonte de adoecimento, eu me dou o direito de subjetivamente desconfiar de que isso é uma cortina de fumaça, que esconde outro tipo de problema existencial. Mas sobre o desejo do outros, que falem os outros. Falo sobre o meu.
Wednesday, August 15, 2018
Coisas da vida
Um ano e meio sem dormir? Duas vezes já. Dois filhos. Não é brinquedo. Depois que passa, vira história. Histórias de amor. Mas não é fácil. O corpo é testado no limite. O pior são três ou quatro noites em claro, menino doente, febre 40 graus, vai e vem de hospital. Quero nem lembrar. É compromisso forte. Dá pra vacilar não. Enfim. Ter filhos é uma loucura. Coisa de doido , quando não se é irresponsável, é claro. A responsabilidade efetiva é coisa de doido. Tem de renunciar a muitas coisas. Muitos sacrifícios. Criar gente como deve ser é uma tarefa extenuante. Mais para as mulheres. E para os homens, vai depender. Pra muitos, é só ausência. Não foi o meu caso. Os filhos me chamam de pai, isso é uma conquista emocionante. Quase compensa a loucura.
Férias do professor em 16 de julho de 2018
Dia 16, no meio das férias, e eu tendo que me policiar para não começar a trabalhar logo. Pense num autocontrole difícil. A gente é de tal modo condicionado a ser robô que não sabe tirar férias. Há também colegas que se aposentam e ficam em depressão. No meu caso, fico estudando sem parar, pois estudar é uma forma de trabalhar que não entra nos meandros burocráticos da organização com suas mil e uma demandas a todo vapor durante as férias. As férias do professor é lendo livros e escrevendo artigos acadêmicos. Uma mistura de prazer e sacrifício. Não estou elogiando nada, estou só relatando a loucura que é. Mas não entro nessa de dizer que estou em adoecimento. Não estou. Estou só louco mesmo.
Tuesday, August 14, 2018
Nomadismo?
Quando intelectuais cosmopolitas, sedentários, burgueses, bem integrados e adaptados, pesados de tanto capital que carregam, escrevem textos de elogio do nomadismo, do movimento, da predação e do saque, fico com uma pulga atrás da orelha.
Ameaça de corte de bolsas
Minha análise sobre o corte das bolsas é a seguinte: a Universidade pública está empresariada, seja para o setor público, seja para o privado. A pós-graduação não vai acabar. Vai ficar mais competitiva. Mais elitista. Governos e empresas vão criar bolsas para remunerar mão de obra de alunos de professores consultores de empresas e governos. Essas bolsas vão ser distribuídas apenas para quadros restritos. A Universidade vai enxugar custos, diminuindo a quantidade de matrículas. Os cursinhos vão ficar mais fortes. Critérios de desigualdade de capital informacional serão mais reforçados, bem como o racismo institucional que predomina nesse contexto. O resultado vai ser uma pós-graduação mais enxuta, mais conectada com as corporações e com os governos, mais voltada para o mercado, selecionando de modo extremamente rigoroso (segundo critérios do sistema de hierarquização de capital educacional) os quadros em formação. A Universidade vai seguir sua vocação histórica de ser formadora de elites para a modernização autoritária, só que agora numa versão mais utilitarista, tecnicista e voltada para a integração e adaptação no contexto de arranjos produtivos globais. A maioria silenciosa está comemorando que haverá enxugamento de bolsas, pois assim os mecanismos de seleção e treinamento ficarão mais marcados pela forte competição entre os estudantes e os professores. Quem vai defender a perda das bolsas? Quase ninguém. Apenas os segmentos marginais à própria pós-graduação. O resto é cortina de fumaça, a fim de se mostrar politicamente sensível. O cenário é mais duro do que a gente pensava. (não defendo essa merda, estou apenas relatando).
Dois pesos e duas medidas para os protestos
Quando a Dilma cortou 12 bilhões das federais , houve silêncio quase total, quase ninguém protestou. Foi estarrecedor. Agora, vem os cortes menores, que dão continuidade ao corte maior, e gera um escarcéu. Dois pesos e duas medidas. Quando blindavam Dilma, autorizavam cortes que estavam planejados por ela. Ela falou isso abertamente, que ia fazer, mas o impedimento não permitiu. Temer está cumprindo um cronograma de cortes planejado pela Dilma. Continuidade. Só houve um golpe interno. Um golpe no golpe. Tanto é que PT e PMDB são os melhores aliados de sempre. PT golpista. Em janeiro de 2015, o governo Dilma deu um golpe, cortando 80 bilhões da área social. Do sistema federal de ensino, o corte foi de 12 bilhões. Desfez todo o investimento anterior de 8 bilhões e cortou mais 4 bilhões. Fez a universidade recuar para um padrão FHC. Em tal contexto, estudantes e professores em sua maioria dilmistas fizeram absoluto silêncio. Não houve protestos. Agora, o PT se alia no país inteiro com o PMDB. Quem são os golpistas?
Eleição que alivia?
Pessoal que eu conheço tudo com sensação de alívio, pois PT e PSDB voltaram a polarizar e dominar o cenário eleitoral. Um tipo de normalização emocional para muita gente. Um tranquilizante de que a ordem será mantida, excluindo os outros fascismos. Afinal, o fascismo do outro nos olhos alheios é refresco. Pois há fascismos de direita e de esquerda e por toda a parte, infelizmente.
Tempo perdido
Por que falta amor? Porque é cansativo amar. E desejar ser amado é uma pretensão ridícula. Não é bem o amor que falta, mas sim a própria ausência fútil de um ser amado. O amor acarreta um tempo perdido.
Virou game divertido
Gente, a política virou um game nas redes sociais. Na falta de política transformadora, a gente se contenta em brincar com os signos vazios. Ou seja, fica tudo como está, mas a gente faz ironia e se diverte. Acho super legal. Estou só pontuando. Adoro games. Mas para jogar, é preciso estar relativamente bem postado e respaldado no sofá, tem de ter um sofá relativamente confortável. E ter acesso à internet, é claro. Acesso ao mundo do trabalho e do salário, entre outros acessos que tornam a brincadeira bem legal e inofensiva.
Livros como objetos táteis
Os livros são objetos táteis antes de serem objetos visuais. Colecionar livros é uma forma de lhes arrancar o valor de exibição. É o valor de uso do livro que é afirmado por sua posse pública.
Juventude e universidade no capitalismo
Estudos sobre jovens da classe trabalhadora na Grã-Bretanha mostraram que certas práticas de resistência desenvolvidas nas escolas e universidades podem ser bastante prazerosas e, ao mesmo tempo, conectadas a uma não capacidade de ver que seus interesses podem estar sendo ameaçados no longo prazo. Entre outras coisas, isto mostra que a Universidade como organização é bem menos opressiva do que outras empresas. Por exemplo, jovens que foram muito resistentes na Universidade e depois dela se tornaram fortemente "integrados", "adaptados", "subservientes", em outros contextos organizacionais, isso é bem comum. Tenho percebido isso. A Universidade ainda não atua totalmente como uma empresa. Se assim fosse, não haveria quase nenhum prazer na resistência cotidiana que nela é possível. Ela apenas simula outros ambientes de coercitividades, mas continua um espaço de muita liberdade, se comparado com outros ambientes com que os egressos da Universidade, principalmente, das camadas populares e médias, irão se defrontar, como trabalhadores assalariados ou como desempregados clássicos ou estruturais. Quando encontro ex-alunos/as, em geral, escuto: "que saudade da universidade, professor!". Mas ninguém pode saber disso antes de ter sentido na pele. Ou pode? Já os estudantes das camadas populares e médias baixas que vieram de contextos muito brutais de trabalho, submetidos a condições muito fortes de exploração desde muito jovens, esses costumam dar um grande valor à Universidade. Não param de dizer que estão podendo experimentar algo que antes não tinham tido chance antes, quando estavam escravizados em lugares de altíssima insalubridade e precariedade. A realidade é bem contraditória. Pois o fenômeno envolve indivíduos provindos de uma mesma classe, raça, gênero, etnia, com trajetórias diferentes e sentimentos distintos sobre o estar na Universidade.
Jogo de poder, jogo eleitoral
É possível, no atual contexto, jogar o jogo eleitoral transformando o jogo? Uma política transformadora exige a criação de novas regras. Estamos fazendo isso?
Manter coerência na incoerência crescente
Manter alguma coerência nesses tempos de incoerência crescente virou um lance da mais alta complexidade. Narrativas que deem coerência às coisas estão se tornando quase impossíveis. Então, o sofrimento social também perde muito de sua dimensão social. É como se fossem tempos de sofrimento pós-social.
A iniciação científica como desafio hoje
Existem tarefas no mundo da pesquisa científica que parecem ser extremamente simples e, até mesmo, da ordem do trabalho manual, como, por exemplo, organizar uma lista de artigos acadêmicos em ordem alfabética, segundo o autor, fazendo corresponder de modo físico ou digital os textos com a ordem da lista. São tarefas que fazem parte da aprendizagem de qualquer cientista. Há uma crise séria de percepção na universidade hoje, pois uma parte dos estudantes enxerga como humilhação, opressão, exploração, fazer uma tarefa desse tipo. Como se o professor estivesse se aproveitando deles e delas. Na verdade, nós jamais deixaríamos de fazer essa tarefa. Hoje, eu a faço só, retirei-a do contexto de ensino-aprendizagem, pois a percepção é de que compartilhar tarefas "simples" é humilhante. Só que a tarefa não é simples. Há toda a lógica da descoberta científica, atuando em uma simples lista de referências. Está difícil manter programas de iniciação científica, pois falta o entendimento de que fazer ciência envolve milhões de tarefinhas e rotinas básicas, o que dá muito trabalho, muito mesmo. Exige muita disciplina e autodisciplina. Mas estou aqui fazendo, sozinho, quando o certo era estar ensinando outras pessoas a fazer, mas isso virou tabu. A percepção que domina a cena hoje é de que ensinar as tarefas e rotinas mais básicas significa que o professor está querendo se livrar do trabalho "chato" e "manual". Erro de percepção grave! Pois, na verdade, transferir para educandos, pesquisadores em formação, essas tarefas, dá mais trabalho, pois requer supervisionar e revisar tudo de novo, pois vamos encontrar muitas falhas. Deu para entender o paradoxo? Complexo demais. Todos nós já estivemos na iniciação científica. O professor não deixa de ser um bolsista de iniciação científica. É onde se aprende, é onde se adquire valores profissionais muito significativos. Nenhuma bolsa a menos! A bolsa de iniciação científica é a base de muito trabalho e dedicação à ciência.
Viver como pobre
Com exceção dos miseráveis e dos indivíduos do 1% do topo de muito ricos, o restante da população precisa aprender a viver como pobre. Quem quiser ainda viver como classe média, vai entrar pelo cano. Não estou defendendo que as coisas sejam assim, apenas, fazendo um comentário realista. A pobreza relativa precisa viver como pobre. Estar na pobreza relativa e ter ambição de classe média é um tiro no pé. A real classe média não ostenta. A falsa classe média ostenta e vive escondendo a desgraça em que se meteu. O neoliberalismo é um dispositivo moral. Ou dança, ou roda. É implacável. Esses comentários, volto a repetir, não são válidos para quem é excluído de quase tudo (a grande maioria). É voltado apenas para as camadas médias letradas e suas não tão doces ilusões.
Rotina e liberdade
Todo santo dia, aqui em casa a gente acorda às 4h para as crianças estarem às 7h na escola. A regra é não atrasar. Às 13h, todo mundo almoça. Todo santo dia. Rotina de anos que é para a vida toda. A rotina é condição da liberdade. A falta de rotina leva à pior servidão. Mas não é fácil. Não é fácil mesmo. A liberdade é uma conquista. Quem vive apenas de salário é assim. Vive de sua própria condição, de sua força de trabalho e de combate. E tem de agradecer, pois muita gente não tem direito ao trabalho e ao salário. Há uma desigualdade tremenda quanto a isso. Trabalho vivo contra o trabalho morto. A imposição de uma dívida infinita exige resistência.
Tuesday, June 26, 2018
Aprender com ou sem alguém?
Como toda relação envolve dependência e negociação, é preciso abdicar da autonomia (soberania) para construir algum tipo de interação humana, o que não quer dizer aceitar a submissão com resignação, mas elaborar algo a partir e contra a submissão. Está cada vez mais difícil interagir, pois as pessoas estão atacadas pelo sentimento de soberania e qualquer interação vira uma invasão. Se a universidade continuar do jeito que está, cada educador será seu próprio educando e ponto final. Para que então haver instituições de ensino? A atitude das pessoas já é neoliberal. Quando os governos atacam de modo neoliberal, eles já estão apoiados numa ampla maioria efetiva que já desempenha o papel do neoliberalismo e suas ilusões de cada um se serve à vontade do que está ofertado no mercado "livre" da informação. Onde é que alguém vai aprender algo que não seja com alguém?
Governo das finanças
Detêm o título de propriedade sobre o trabalho futuro e assim nos subjugam. Daqui a cinco anos, BR mais pobre e desigual, infelizmente. Se não houver recusa. A desigualdade é o propósito do governo das finanças.
A crise da crise
Já notei que pessoas mais novas estão passando por crise braba no país pela primeira vez na vida. Percebo a falta de referência para enfrentar uma crise. Houve uma quebra intergeracional, pois ensinar a viver na crise era o que havia de mais importante para quem vivia nos anos 1970-80 no BR. Há um pessoal que aprendeu a vida "liberada", mas não aprendeu a "regrada". É importante saber das duas. Saber viver nos dois regimes dietéticos. A dieta é uma forma de política. Mas o que há de indigno e revoltante nessa conjuntura é a volta da fome. Isso é inaceitável.
Renunciar à renúncia
Toda demanda de identificação está destinada ao fracasso. Mas o fracasso pode ser o lugar por excelência do sujeito. Como pensar alternativas à resignação como desejo de ordem e normalidade? Num contexto incongruente, o desejo de ordem se torna um imperativo de mercado. Obediência, sofrimento e resignação como atual oferta produtora de demanda. A vida de uma pessoa é um rosário de amores perdidos. Toda escolha está ancorada no abandono.Como se tornar um renunciador quando o gozo ilimitado é o imperativo incontornável?
Wednesday, June 20, 2018
8 anos de UFC
Ter voltado para a vida acadêmica foi uma sorte. Fiquei 6 anos de molho, fora do jogo. Conheço muita gente que não voltou. Sei o sofrimento que isso provoca. 6 anos sem estar no jogo é um buraco considerável. Até hoje pago por isso. A literatura produzida entre 2002 e 2008 acumulou. Nos últimos dez anos, tive que rebolar para me atualizar. Mas deu certo. Lá se vão 8 anos de UFC. O trabalho é uma forma de desejo, como dizia Hegel. Envolve sacrifício e prazer . E muitos desafios. Quando alguém me diz: "você estuda tanto", como um elogio, eu respondo: "porque eu preciso, se não ralar, não acompanho, sei dos meus limites, estudo muito para não sair dando coice e relinchando, que é minha tendência de todas as manhãs ".
Sair fora!
O desejo de quase metade dos brasileiros (43%) de deixar o país é a ponta do iceberg. Entre os com diploma superior, salta para mais da metade (56%) e, entre os jovens, dispara (62%). Famílias de alto poder aquisitivo já praticamente moram fora do país, se não os pais, os filhos, certamente. Mas vivem de renda, do patrimônio, são ricos. As empresas continuam no Brasil gerando o excedente apropriado. Ocorre que os EUA (suas classes médias, notadamente) estão empobrecendo. E a Europa virou o Brasil, com raras exceções. Fugir para onde, se a precariedade é global? Sair do mais precário para o menos precário? É um jogo arriscado. Pessoalmente, não fugiria para o exterior, mas para o interior. Voltaria a plantar. Mas para isso, é preciso terra para todos, não é? Por onde anda a reforma agrária? E o direito à soberania alimentar?
Instrumentalizar quem mesmo?
As pessoas acham mesmo que podem instrumentalizar as outras sem ter consequências? Sem ter danos de retorno indesejáveis? Instrumentalizou virou alvo. Alvo de ataque ou de indiferença. O melhor é a gente evitar instrumentalizar o outro. O preço pode sair muito caro. Gentiliza gera gentileza. E ajuda mútua é a base da superação das hierarquias. É preciso saber onde se pisa. O terreno está minado. A qualquer momento, as coisas que parecem sólidas podem se desmanchar. É uma loucura total basear a interação com o outro na instrumentalização para autointeresse. O pau pode quebrar.
Monday, June 11, 2018
Thursday, May 24, 2018
Ser pai e masculinidade
Ser um pai presente, cuidar dos filhos, realizar tarefas domésticas, é incompatível com assumir posições de mando e de brilho de hipermacho acumulador no espaço público político e profissional. Não estou comparando com as mulheres, pois não há comparação. O ser mãe é bem mais complexo e absorvente . Estou falando comparando com o homem que é ausente, e que brilha no mando por isso, por ser ausente e não assumir corresponsabilidades cotidianas na domesticidade. O sucesso público do homem é baseado na estrutura de dominação masculina. Para mim, cuidar dos filhos e da casa é mais importante do que bater com o pau na mesa, para dizer quem é que manda no espaço público. Conheço homens que fazem sucesso e são intimamente devastados, levam uma vida de merda. São "os caras" no trabalho e na política, mas uns fodidos na vida relacional.
Friday, May 04, 2018
Filhos de boa
Quando nossos filhos estão com saúde, estão bem, descobrindo a vida, aprendendo a fazer o trabalho do desejo, o restante a gente desenrola. Não existe sentimento mais agradável do que seus filhos de boa, aprendendo a viver e a apreciar o amor, a amizade, a arte, a ciência, a solidariedade humana. E o mais importante é ampliar a noção de humanidade. Entender que não podemos ser felizes sozinhos, isolados, independentemente do destino dos outros, sejam outros próximos ou distantes. Expandir a solidariedade humana é o grande desafio da humanidade. Solidariedade, espiritualidade, amizade, arte, amor, alegria, vida boa para todos e todas. Nenhuma a menos. Ninguém de fora da vida boa. E a vida boa passa bem longe de sucesso, dinheiro e poder. A vida boa é a abertura para novas experiências de amor e compromisso com a vida livre, igualitária, justa e plural.
Sunday, April 22, 2018
Criar as crianças
Ter e criar os meninos é a missão mais complexa de todas. Educar os filhos é muito absorvente. Exige uma responsabilidade enorme, tempo de dedicação, escuta, muita conversa, aprender junto, rotinas e muitas rotinas, algumas quebras de rotina para celebrar a vida, muito amor na imaginação não basta, tem de ter coragem de sair do papo de um amor que não se efetiva na prática para um amor que está ali no dia a dia, pensando nelas e fazendo primeiro para elas, as crianças. As crianças têm de ter a prioridade na prática. Não adianta papo furado de afetos e amores, quando isso deixa as crianças na mão. Amor é o que protege e educa permanentemente. Dia após dia. Semana após semana. É uma loucura. Exige um espírito de sacrifício sem tamanho por parte do adulto responsável. Muito cansativo. Amor sem assumir as obrigações cuidadoras e educadoras tem meu desprezo. O amor de pai é o amor baseado numa força que não sei de onde vem. Uma força de permanência.
Engole tudo...
O núcleo forte da realidade é a própria confusão. Aquilo que não para quieto, que escapa e vaza por todos os lados. Diante da realidade , as expectativas são frustradas. Tornam-se frágeis e inatingíveis. O real é puro fluxo que tudo engole. Inclusive, crenças e desejos.
Saturday, April 14, 2018
Por ser branco
Por ser branco, é frequente que brancos abertamente e intencionalmente racistas venham espontaneamente fazer confissões no dia a dia para mim, sem nem saberem quem eu sou e que tento não aderir subjetivamente a essas estruturas, que recuso o racismo que me/nos habita, eles me procuram apenas pela preposição preconceitual de que também devo ser um racista como eles, o que de algum modo me implica no racismo deles, pois me reconhecem, apesar de eu não me reconhecer como eles me reconhecem. Ao longo dos anos, como pesquisador, tenho coletado esse material. Já fiz um relato dele para integrantes do movimento negro da Bahia. O material apenas confirmava empiricamente o que elas e eles já sabiam. Mais recentemente, eleitores brancos de Bolsonaro têm dito cada coisa para mim no dia a dia que fiquei estarrecido, está difícil segurar as pontas de pesquisador e ficar apenas na escuta, mas estou fazendo isso, e mantendo o diário de campo sobre o assunto. O racismo de Estado é o problema central que não se quer discutir. Gênero, raça e classe. As leituras americanas (de colegas dos EUA) ajudam, mas as do BR podem ser independentes, dialogar, e serem até mais contundentes. Existe Estado mais racista do que o brasileiro? Sim, deve existir. Mas este não fica atrás de nenhum outro.
Bombardeios ignóbeis
EUA, Inglaterra e França a bombardear a Síria. Depois, ninguém sabe, ninguém viu. Inglaterra e França ficam explodindo bomba na cidade alheia, depois se fazem de vítimas quando a bomba explode na deles. Eu não defendo bomba de um nem de outro. Nem contra um, nem contra outro. Apenas, lembrando a contradição.
Meu corpo beatnik
Existe uma relação íntima que passa pela corporalidade, pela distância expressiva do corpo diante da "normalidade" social. Tenho muito mais proximidade com a geração Beat da década de 1950, por exemplo. É contemporâneo para mim não ceder ao regime de vestuário de de status corporal dominantes em situações que exigem formalidade. E não é fácil fazer isso. Gera consequências várias.
Nova classe média: a armadilha histórica.
Do mesmo modo que os membros da oligarquia protegem os filhos uns dos outros, num sistema de transferência hereditária de altas posições, os membros das classes médias recorrem à proteção das oligarquias, colocando-se em posição de subalternidade perante elas, a fim de reforçar mecanismos que impeçam processos de ascensão de novas classes médias, que, por sua vez, possam entrar em processos de luta concorrencial com os já estabelecidos, rebaixando o preço dos diplomas e credenciais da condição subalterna. O desejo de ampliação da classe média num momento de declínio da classe média no plano global, puxado pelos EUA, disparou processos políticos de restrição às condições de acesso às classes médias, notadamente, o acesso a bens informacionais. De modo cínico, as classes médias estabelecidas há mais tempo, ameaçadas pelo declínio geral, estão usando contra o desejo de classe média dos segmentos da classe trabalhadora o recurso do "prenda-me se for capaz", "siga-me se for capaz". O sistema da meritocracia não é apenas uma ideologia, é também um dispositivo de hierarquização das condições subalternas intermediárias face à estrutura oligárquica do mando. As classes trabalhadoras, pelo menos aqueles segmentos que puderam sonhar com desejos de classe média, caíram numa armadilha. Só descobriram agora que o processo era de integração perversa no sistema de meritocracia. E a maioria ainda nem descobriu, continua pensando como classe média enquanto é massacrado justamente por isso. O choque de ordem do liberalismo do capitalismo de Estado contra o liberalismo social do capitalismo de Estado é a ordem do dia. Quem vai ser empregado de quem? Esta é a questão. Faço parte de uma categoria de famílias que no BR ascendeu para a classe média urbana letrada entre 1960 e 1980 (pai e mãe como estudantes universitários etc); se consolidou como classe média urbana letrada entre 1980 e 1990 (filhos estudantes universitários). Hoje, vivo melhor do que meus avós (que eram camponeses com exceção do meu avô materno que era das classes médias urbanas baixas) e pior do que meus pais. Foram quase 50 anos de processo de inserção para isso. Para estar na precariedade semelhante ao que estava pai e mãe na metade da trajetória (em 1980). Já escrevi várias vezes sobre isso. Foi de uma irresponsabilidade política sem tamanho esse lance de decretar "novas classes médias". Não há como fazer isso por decreto presidencial. São processos históricos altamente instáveis. E com o declínio geral das classes médias globais, puxadas pela perda de qualidade de vida da classe média norte-americana, o mito da classe média dá as mãos com o mito do mercado livre e cria o maior engodo que governos de "esquerda" (da França de 1980 ao Brasil de 2010) puderam promover. Governos que foram máquinas ideológicas do capital. Máquinas de gestão "social" de RH para o processo de flexibilização neoliberal.
Minha baixíssima espiritualidade grita e chafurda no desespero
Estão se tornando mais frequentes as postagens de amigos que seguem a linha "Deus em minha vida". Tenho nada contra Deus, estou apenas percebendo o avanço do sentimento de vazio. Deus é Tudo. Desejar Tudo é uma função da criatura em sua vacuidade. Em sua ânsia de superar o desespero. A crise é política, espiritual e material ao mesmo tempo. Na minha linha, tento me manter numa relação duradoura com o desespero. Não me acho superior nisso. Ao contrário, tenho consciência aguda da minha baixíssima espiritualidade.
Thursday, April 12, 2018
Crise da solidariedade no BR
A situação no BR degringolou. As incertezas que eram muitas se tornaram horríveis. A crise é uma crise da solidariedade. Quando existe, é uma solidariedade parcial.
Pensamentos do dia
Existe nada pior do que alguém querer te dar um presente que você não quer receber. Talvez, apenas, seja pior, querer dar o presente e ser recusado no ato da troca. Um amigo que não faz a menor ideia da complexidade da tua situação de vida é um estranho perfeito. Mas é sempre bom mantê-lo à distância, na ficção da amizade perfeita. Tentar diminuir ao máximo demandas desejantes dirigidas aos outros menos relevantes para concentrar a energia nos outros mais relevantes. Um problema ético seríssimo. Expressar sentimentos no contramovimento do pensamento. O sentimento sem pensamento é uma roubada. Sentimentos, emoções e afetos sem pensamento contra o existente são funções de ordem e dominação. Não os deixem controlar sua agenda e muito menos sua imaginação. Pensamento independente é uma conquista coletiva. Não é um eu sozinho e isolado atuando. A autoajuda sem ajuda mútua é uma balela. É uma manipulação grosseira do individualismo possessivo. Aqueles que buscam poder, dinheiro e sucesso abrem mão de novas experiências.
Embarreirar a vida alheia
Quando duas pessoas se aproximam espontaneamente por razões profissionais ou políticas, há os especialistas em estorvar a aproximação, interferindo com seus preconceitos e interesses, a fim de evitar o enfraquecimento de alguma posição de poder que ficaria ameaçada pela aproximação inusitada entre pessoas que juntas poderiam fazer coisas novas e diferentes.
Os velozes e sem conteúdo
Ceder à velocidade como eixo de atuação profissional é mais fácil, seguir correntes. Vejo como rapidamente muitos indivíduos cederem a isso. Velozes, apenas velozes. Como automóveis possantes em vias de 40km por hora. Zero espírito de artífice. O artífice é aquele que busca fazer o melhor que puder. Exige tempo, dedicação, muito exercício e calma.
Práticas autoritárias do cotidiano na universidade
Receber e-mails da instituição onde se trabalha com caráter abertamente ameaçador do tipo "faça, pois podemos puni-lo assim e assado e complicar sua vida e muito", em vez de e-mails de motivação para adesão subjetiva à tarefa coletiva do trabalhar juntos, é sinal de quê? Sinal de que o desejo de autoritarismo converge com a impaciência daqueles que exercem o desejo de mando face a problemas políticos de coordenação de esforços conjuntos. Se até as universidades cederam no cotidiano ao caminho fácil do "faça ou seja punido", imaginem em outras organizações, que não lidam com "educação" como missão principal. E os indivíduos que enviam e-mails sem corpo de texto, com algo em anexo, subentendendo uma transferência automática de responsabilidade, um e-mail que manda fazer algo sem usar uma palavra escrita para solicitar ou pedir ou justificar ou exortar, seja o que for. Simplesmente, o e-mail vazio, sem palavras, sem pronomes de tratamento, sem nomes, sem texto, só o e-mail com um anexo. É um sintoma grave da loucura nas organizações. Espaço de vazios. De impossibilidade de nomear o processo de transferência da responsabilidade. Sei lá mais o quê. Vazio que multiplica vazio. Nem respondo e-mail desse tipo. Aí param de me enviar por uns tempos. Depois voltam a enviar de novo. São os automatismos, as compulsões, as forças do "produtivismo". É o smartphone com desejo de mando automático, sem negociação de papéis. Sem política, sem aquilo que "atrapalha", sem subjetividade, sem recusa ativa.
Subscribe to:
Posts (Atom)