Saturday, January 19, 2019

Os sorrisos

Nessa vida cheia de sofrimentos, talvez, um dos piores seja o de ter de se sentir obrigado a expressar felicidade, beleza, sucesso, poder e riqueza para a apreciação e o julgamento dos outros, mesmo quando o sentimento íntimo é de que tudo desmorona. As mascaradas com seus sorrisos que, nas entrelinhas, pedem socorro, nos levam cada vez mais para o fundo do poço sem que saibamos disso, um fundo do poço de onde os amigos mais calorosos, os mais amigos, não irão jamais nos tirar, pois é tóxico se aproximar de quem está no fundo do poço, simples assim. A amizade, como dizia Beckett, a propósito de Proust, é uma grande covardia. Somente os covardes procuram a companhia dos amigos, como muletas. Nada de sorrisos, nada de estados de felicidade expressos pelos sorrisos do adeus, da falta de comiseração. Prefiro viver afundado na falta de misericórdia e no desespero humano mitigado pela arte do abandono de si. O resto é o teatro do mundo, o que soçobra de modo jovial. Como detesto tudo o que é jovial e espontâneo. Somente o velho, o decrépito, o sem sentido, deveria ter direito a existir. O velho e sua morte iminente. O declínio do sorriso é a aurora. Meu teatro é feito de caretas, de máscaras ruinosas, de faces derretidas, sem substância e sem essência. Desbragadamente afirmadas na alegria, essa negação de toda felicidade humana.

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