Saturday, April 14, 2018

Nova classe média: a armadilha histórica.

Do mesmo modo que os membros da oligarquia protegem os filhos uns dos outros, num sistema de transferência hereditária de altas posições, os membros das classes médias recorrem à proteção das oligarquias, colocando-se em posição de subalternidade perante elas, a fim de reforçar mecanismos que impeçam processos de ascensão de novas classes médias, que, por sua vez, possam entrar em processos de luta concorrencial com os já estabelecidos, rebaixando o preço dos diplomas e credenciais da condição subalterna. O desejo de ampliação da classe média num momento de declínio da classe média no plano global, puxado pelos EUA, disparou processos políticos de restrição às condições de acesso às classes médias, notadamente, o acesso a bens informacionais. De modo cínico, as classes médias estabelecidas há mais tempo, ameaçadas pelo declínio geral, estão usando contra o desejo de classe média dos segmentos da classe trabalhadora o recurso do "prenda-me se for capaz", "siga-me se for capaz". O sistema da meritocracia não é apenas uma ideologia, é também um dispositivo de hierarquização das condições subalternas intermediárias face à estrutura oligárquica do mando. As classes trabalhadoras, pelo menos aqueles segmentos que puderam sonhar com desejos de classe média, caíram numa armadilha. Só descobriram agora que o processo era de integração perversa no sistema de meritocracia. E a maioria ainda nem descobriu, continua pensando como classe média enquanto é massacrado justamente por isso. O choque de ordem do liberalismo do capitalismo de Estado contra o liberalismo social do capitalismo de Estado é a ordem do dia. Quem vai ser empregado de quem? Esta é a questão. Faço parte de uma categoria de famílias que no BR ascendeu para a classe média urbana letrada entre 1960 e 1980 (pai e mãe como estudantes universitários etc); se consolidou como classe média urbana letrada entre 1980 e 1990 (filhos estudantes universitários). Hoje, vivo melhor do que meus avós (que eram camponeses com exceção do meu avô materno que era das classes médias urbanas baixas) e pior do que meus pais. Foram quase 50 anos de processo de inserção para isso. Para estar na precariedade semelhante ao que estava pai e mãe na metade da trajetória (em 1980). Já escrevi várias vezes sobre isso. Foi de uma irresponsabilidade política sem tamanho esse lance de decretar "novas classes médias". Não há como fazer isso por decreto presidencial. São processos históricos altamente instáveis. E com o declínio geral das classes médias globais, puxadas pela perda de qualidade de vida da classe média norte-americana, o mito da classe média dá as mãos com o mito do mercado livre e cria o maior engodo que governos de "esquerda" (da França de 1980 ao Brasil de 2010) puderam promover. Governos que foram máquinas ideológicas do capital. Máquinas de gestão "social" de RH para o processo de flexibilização neoliberal.

No comments: