Monday, January 14, 2013

TURN ON, TUNE IN, DROP OUT

As instâncias de controle pretendem mediar na totalidade as experiências das pessoas na relação com o fora, com o exterior, com os mundos possíveis que se atualizam nos mundos dos outros. O exercício livre da inteligência e do pensamento crítico e reflexivo exige das pessoas uma atitude de recusa ativa dessas instâncias mediadoras absorventes, totalizantes e anestesiantes, pois tais agências de poder (o Partido, a Igreja, a Família, a Universidade, a Escola, a Mídia, a Droga, etc.) são agências de controle das dispersividades e das ações livres das pessoas enquanto criadora de relações relativamente autônomas com os outros sem a mediação da política da identidade. É na recusa ativa do Estado onde reside a base histórica concreta e local de constituição da liberdade. E o modus operandi das agências reguladoras é sempre incitar as pessoas a se expressarem livremente no interior delas, a fim de produzir contexto de observação controlada do que há de livre nas pessoas tendo em vista a imposição de um padrão de comportamento que restringe o potencial criativo e põe sob tutela o exercício das capacidades agentivas, por isso é sempre bom lembrar que expressar a liberdade sob demanda das ditas agências é favorecer o próprio processo de destituição e captura que estas pretendem realizar, não necessariamente anulando a liberdade das pessoas, mas fazendo dessa liberdade apenas um sentimento fugidio da liberdade, uma dose de veneno para mortificar o corpo e fustigá-lo de tal maneira que o abandono das supostas veleidades daquelas pessoas que agem livremente será promovido ao cargo de auto-censor e estabelecerá as condições de assujeitamento de seu próprio descenso pelo auto-flagelo de uma adesão feliz às razões do Estado e das agências de poder que lhes são concorrentes, portanto, solidárias no crime que inaugura sua pretensão de monopólio pelas linguagens heterônomas que impõem a todos os adeptos.

Saturday, January 12, 2013

Loucura real ou presumida?

Quando estou a escrever os fragmentos de textos por aqui ou alhures, frequentemente as pessoas acham que eu estou doido, maluco, surtado ou bêbado. Mas, quando eu estou dando entrevistas para a mídia, participando de audiências públicas e exercendo outros rituais de poder, onde "os melhores no centro usam libré e estão a soldo da classe dominante" (Benjamin), as pessoas me elogiam, me acham com cara de responsável, de cidadão que está contribuindo com os avanços da vida pública, entre outros delírios. Quando estou mais lúcido, as pessoas acham que estou doido, quando estou inserido em rituais que expressam fantasias de grupo, paranoias, busca desenfreada pelo poder, pelo dinheiro, entre os engravatados, todo mundo me acha elegante e digno de um professor da Universidade. A loucura real é escrever textos, buscando exercitar imaginação livre, ou é reproduzir discursos de autoridade entre aqueles que monopolizam os meios intelectuais de expressão e pensamento a serviço das classes dominantes? A minha loucura é sempre presumida, e enquanto tal é irredutível à presunção do outro em anunciá-la ou denunciá-la. Resistir é preciso, viver não é preciso.

Mensagem para ser feliz

Recebi uma mensagem por e-mail dizendo assim: "Preocupe-se com o que é importante para você!". O e-mail oferece empréstimos e diz que com empréstimos "você resolve seus problemas e tem mais tempo para ser feliz!". Havia uma fotografia de uma família branca, de olhos azuis, sorridente. Eu fiquei tão emocionado que não estou conseguindo segurar o choro da mais pura emoção que eu senti no meu coração. Gostaria de agradecer do fundo da minha alma por este e-mail ter me mostrado a verdade, o caminho da verdade: fé, vida e redenção. Eu estava vazio e triste, prisioneiro de livros que ainda estou por pagar, agora tenho certeza de que me tornei uma pessoa melhor. Sim, eu me tornei uma pessoa melhor!

O amor por ela

Fuçando no sebo, encontrei um exemplar da Nova Aguilar da poesia completa de Cecília Meireles. Parecia que havia sido chutado. Todo amarrotado. Volume pisado. Roto. Sujo. A capa havia sido perversamente quase arrancada. Dependurada, mantinha-se por uma peia. E que peia o volume haveria de ter levado, céus? Negociei com o dono do sebo, comprei o volume por um preço camarada, enviei-o com a ajuda dele para um restaurador e hoje, nesse sábado de dezembro, recebo a notícia de que Cecília Meireles está me esperando. Já tomei banho, coloquei uma roupa faceira, e estou indo agora, correndo, com o coração na mão, mãos frias, nervoso, encontrá-la.

Um pesadelo antes do ano acabar

Eu tive um pesadelo e acordei de sobressalto. Um estudante, meu aluno, um rapaz negro, militante do movimento negro, estava sentado pacificamente no chão de um ambiente público, algo parecido com um Centro de Negócios, um estádio, um shopping, não consigo me lembrar direito, mas a arquitetura do lugar remetia a todos esses espaços ao mesmo tempo. O rapaz fazia uma fala, um discurso, pessoas paradas ao redor a escutá-lo, ele dizia palavras que me lembraram falas de vários intelectuais negros que eu admiro. Eu estava um pouco distante. Eu vi então quando um segurança negro, depois de receber a ordem de um gerente branco do lugar, se deslocou e sem fazer nenhum tipo de abordagem, algemou o rapaz, diante dos protestos do rapaz, o segurança começou a espancá-lo em público. Resolvi então intervir. O rapaz negro estava algemado ao braço do segurança negro. Os dois algemados um no outro, enquanto o último espancava o primeiro usando um cassetete. O segurança negro gritava impropérios racistas contra o rapaz negro. Eu não sabia o que fazer. Me aproximei e num impulso olhei para o segurança e disse: o Senhor está preso, enquanto cidadão, estou lhe dando ordem de prisão por racismo. O segurança parou de bater, olhou para mim atônito, o rapaz também ficou parado, ainda se recuperando dos golpes que havia recebido. Depois de uns cinco segundos, eternos cinco segundos, eu acordei de supetão. Não sei ao certo o que aconteceu. Mas acho que eu recebi um cassetete que partiu meu nariz de branco metido a besta. Fiquei me sentindo péssimo. Acordei bem cedinho e fui reler Franz Fanon e ouvir jazz na minha confortável vida de branco que, em geral, tem o nariz quebrado apenas no mundo onírico.

Alerta geral

Senhoras e senhores! Venho por meio desta mensagem alertá-los, neste dia de meu deus, que o sistema de dominação continua em pleno funcionamento e cada vez mais brutalmente sofisticado em algumas de suas partes e sofisticadamente brutal para a maioria. De qualquer modo, o sistema de crueldades continua operando em condições ótimas sob a direção de nossos governantes com as mais avançadas tecnologias de poder disponíveis no mercado mundial. Sabemos que a escolha do Estado de servidão voluntária em que se quer viver é uma decisão do cidadão. Pela atenção, obrigado.

Tuesday, January 01, 2013

DICAS PARA UM FELIZ ANO NOVO.

Tenho algumas dicas infalíveis para quem quer estudar mais e melhor em 2013, além de incrementar com qualidade a produção acadêmica. Primeiramente, livre-se do celular (isso eu já fiz) e se livre também do automóvel individual (isso também já fiz). Em segundo lugar, divulgue pelas redes sociais digitais posições politicamente cada vez mais radicias, faça as pessoas pensarem que você é o radical do radical para quem PSTU, PSOL e PCB são partidos do Estado burguês. O resultado desta segunda dica é que os convites da imprensa para entrevistas, dos órgãos públicos para palestras e das empresas em geral vão começar a rarear. Quando o repórter de TV ligar para você, solicitando matéria onde você deve se comportar com informações de utilidade pública e apenas, você pede uns minutos e diz que vai só se despedir de uma reunião com o Renato Roseno e liga já de volta depois. É batata, não será mais atendido, nem procurado. A melhor maneira de se excluir das agitações do mercado e das festas da cidade é dizer que é amigo do Renato Roseno. Eu digo logo é assim: estamos na equipe para a eleição de Renato para deputado. É muito útil ser radical para ter sossego. Mas só faça isso se você tiver passado no concurso para servidor público federal ou outro que lhe garanta estabilidade, pois caso contrário ficará a ver navios, amargando anos e anos de exclusão. E já que toquei nesse assunto, um sujeito veio me admoestar, dizendo: "depois que você, Leonardo, se tornou professor da universidade, estável e tal, virou o bocão!", ao que lhe retruquei, "mas querido, não faz parte da missão? professor da universidade é pra ficar calado, em silêncio, trabalhando pro governo, ganhando um por fora, ou se empresariando para o setor privado e dando o salário de mesada para os filhos?". Aí ele aplacou a raiva que estava sentindo de mim, mas isso é outra história. A terceira dica é falar coisas disparatadas, fazer longas citações e exercer um tipo de pedantismo acadêmico nos momentos em que as demandas exigirem total pragmatismo e pé no chão. Vão começar a dizer: "não procurem aquele louco, ele começa a falar da teoria das multiplicidades, quando queríamos apenas uma frase pra colocar no jornal como especialista". Enfim, essas são as minhas estratégias para ter tempo para ser produtivo, eficiente, e buscar a excelência, nas missões ligadas a minha atividade-fim. Bolem as suas próprias. Feliz ano novo.

Uma observação direta

A família num confortável automóvel importado de 335 mil reais. Pai, mãe e filhos. Brancos, bem arrumados e endinheirados. Enquanto estacionam para ir ao supermercado, provavelmente para comprar alguma sobremesa para as crianças, depois de ter almoçado em restaurantes cujas contas variam entre 500 e 1.500 reais, a variação dependendo se o casal vai tomar ou não a garrafa preferida de champanha, a fim de comemorar mais um ano de sucesso e novas aquisições de poder e de patrimônio, enquanto portanto o homem bem vestido, cordão de ouro e Rolex de pulso no braço esquerdo, manobra com contentamento expresso na face o seu imponente carro, o policial militar "moreno", fazendo bico como batedor, protegendo a família, arriscando a própria vida, para compensar salários baixos, deixa a qualquer olhar entrever na cintura o grosso volume de uma pistola, enquanto cuidadoso olha para todos os lados, ao mesmo tempo agora, e se comunica pelo olhar com o colega que está também fazendo bico para o supermercado, cuidando da segurança do estacionamento. Ambos estão distantes de suas respectivas famílias. Ambos estão correndo sério risco de morte. Os profissionais de segurança sabem que um homem sozinho não é capaz de barrar uma equipe profissional e bem armada de sequestradores. A função daquele policial batedor é ser a primeira vítima, caso ocorra uma séria tentativa de sequestro. É uma vítima sacrificial, exposto à morte em caso de ataque, de modo a dificultar em algum grau o serviço dos possíveis sequestradores. Os endinheirados possuem seguranças assim para tombarem em seu lugar nos casos de ataques efetivos, sérios e graves. No dia a dia, ele, o segurança, consegue manter afastado pequenos assaltantes e amadores e principalmente os descuidistas, mas jamais conseguiria sair vivos de um ataque de uma quadrilha de profissionais. O policial sabe disso. E está lá, a cabeça derretendo dentro do capacete, o sol do Ceará a pino, acelerando seu processo de envelhecimento precoce, a família almoçando diante da cadeira vazia do pai.

Algum acidente

às 22 horas de ontem, três pessoas, ferragens retorcidas, vieram a falecer, nas estradas da vida. sobre elas, sabe-se pouco, o automóvel é o protagonista. batida de frente. a morte as abraçou como em um instantâneo. a máquina apenas piscou o olho, e o fio da vida escapuliu, objetivamente, tendo sido cortado em mil pedaços. a atenção se dissolveu. um nada abriu-se sob as rodas reviradas. ninguém chorou. apenas gemidos de dor de dois sobreviventes.

DE MARX A BALZAC PARA VOLTAR A MARX.

A última edição da versão brasileira de A comédia humana está completando duas décadas e as livrarias estão aí a comemorar o relançamento da coleção. O Paulo Rónai que fez o serviço junto com enorme equipe (vejam o trecho abaixo ao final desta postagem que copiei e colei do site da Livraria Cultura que está doida pra vender a nova edição). Ocorre que acabei de adquirir um e-book por três reais de uma editora francesa que reuniu as obras completas. Fiquei me perguntando que disparidade é essa, afinal, o e-book apenas do volume 1 da versão brasileira está saindo por 52 reais e 90 centavos. Que margem, hein? Mas não era sobre isso que eu pretendia falar. É que ontem eu reli o "Avant-propos" de A comédia humana. Fiquei extasiado. Há exatos vinte anos, por influência do Marx, que dizia que se aprendia mais sobre o funcionamento da sociedade burguesa lendo Balzac do que livros de economia política, eu me aventurei nisso e entrei de cabeça, dos 17 volumes da coleção brasileira, li os 13 primeiros. Por pura disciplina. Agora vou terminar de ler os que ficaram faltando. Balzac é o bicho, pois os bichos também são metáforas do estado social. "Vinte anos depois da última edição, A comédia humana com orientação, introdução e notas de Paulo Rónai, volta às livrarias trazendo ao público brasileiro um dos mais importantes monumentos literários em 88 romances distribuídos em 17 volumes.Disperso, prolífico, ambicioso, genial: Honoré de Balzac (1799-1850) foi, como ele mesmo dizia, mais que um romancista, um cronista de costumes. Seu maior projeto literário, A comédia humana, tomou vinte e um anos de sua vida e foi interrompido apenas com a morte prematura do autor, aos 51 anos. Na imensa obra, Balzac pretendeu fazer um verdadeiro inventário da França no século XIX: costumes, negócios, casamentos, ciências, modismos, política, profissões, tudo entrava nesse imenso painel, costurado com maestria narrativa e exibido aos poucos em folhetins.Com tudo isso em mente, Balzac passou a dar a seus romances o caráter vivo de uma época. Assim, um personagem que é protagonista em um livro aparece em outro como coadjuvante; se há um personagem já ancião em um romance, é possível conhecer sua juventude em outro; personagens reais entram nas histórias, e os imaginários frequentam teatros, restaurantes e passeios que todos franceses conheciam. E assim Balzac foi construindo todo o universo de A comédia humana, que a Biblioteca Azul passa a reeditar em 2012 com a publicação dos primeiros quatro volumes que compõem as Cenas da vida privada.A imensa obra veio a público no Brasil duas vezes, editada pela Globo de Porto Alegre e depois pela Globo Livros. A primeira, a partir de 1947 e a segunda, de 1992. Em ambas teve orientação, introduções de todos os romances e notas de Paulo Rónai, um dos maiores críticos literários do Brasil. Rónai dedicou 15 anos à organização de todo aparato de A comédia humana, que contou com 20 tradutores, 12 mil notas e prefácio para cada um dos 89 romances. Dada a dimensão da edição de Rónai, considerada uma das mais importantes fora da França, é compreensível que nenhuma outra editora tenha dado conta de refazê-la e a obra permaneceu por anos encontrada apenas em sebos ou recortada de seu contexto.Obras que compõem A comédia humana volume 1 Estudos de costumes Cenas da vida privada: Ao Chat-qui-pelote, O baile de Sceaux, Memórias de duas jovens esposas, A bolsa, Modesta Mignon". (site da Livraria Cultura).

A UNIVERSIDADE CONTRA O MERCADO.

Agências de classificação de risco das instituições do mercado que funcionam como entidades de mercado classificando outras entidades de mercado classificam como seguras empresas que estavam à beira do colapso. O mercado classificando o mercado segundo critérios de mercado. Conhecimentos práticos de mercado que do ponto de vista da objetividade científica do conhecimento produzem distorções, falsificações e erros graves de avaliação. Conhecimento e interesses de mercado produzindo cotações que favorecem com classificações declarativas de "entidade segura" entes profundamente inseguros, que logo após as avaliações quebram em avalanche. E ainda há colegas na Universidade e fora dela que defendem que nós devemos nos pautar pelo modelo de conhecimento do Mercado. Há quem defenda que o modelo do conhecimento do mercado deva pautar os critérios cognitivos, de pesquisa, de ensino e aprendizagem da Universidade. Que esta deve estar atrelada à política de conhecimento do mercado. Universidade é lugar de formação do pensamento crítico e reflexivo sem o qual não há produção científica do conhecimento. Sem autonomia relativa da Universidade diante das forças de mercado, a Universidade será colonizada pelo lógica prática do conhecimento de mercado que, cega para o saber, alimenta os circuitos de poder das empresas privadas e da sociedade de mercado. Ciência não pode ser pautada pelo mercado. Ciência é contra o mercado. É contra as certezas de conhecimento que valorizam o poder, estejam onde estiverem essas certezas, seja no mercado ou na própria universidade que capitula à lógica empobrecedora e anti-científica dos mercados.

REBOLAR O IPHONE (uma ficção sentimental).

Minha filha esteve em São Paulo e foi para um parque verde onde várias crianças tinham ido para brincar ao ar livre. Quando pais e mães se sentaram para usufruir o ar puro da natureza, as crianças gritaram ao mesmo tempo: vamos brincar! Cada uma delas então correu e tomou de assalto o Iphone dos responsáveis, sentaram-se e começaram a jogar no Iphone. Minha filha ficou intrigada. Aproximou-se das crianças e disse para elas de modo bastante e incisivamente propositivo: vocês querem brincar de rebolar o Iphone? Foi um destroço. Causou altos prejuízos. Tenho que domesticar essa menina para ir para São Paulo. Sair do Ceará para São Paulo em estado ainda selvagem é um perigo.

Conceito de hábito

CONCEITO MÓVEL DE HÁBITOS IMPERFEITOS (Deixa Bourdieu a ver navios). "As leis da memória estão sujeitas às leis mais abrangentes do hábito. O hábito é o acordo efetuado entre o indivíduo e seu meio, ou entre o indivíduo e suas próprias excentricidades orgânicas, a garantia de uma fosca inviolabilidade, o pára-raios de sua existência. O hábito é o lastro que acorrenta o cão a seu vômito. Respirar é um hábito. A vida é um hábito. Ou melhor, a vida é uma sucessão de hábitos, posto que o indivíduo é uma sucessão de indivíduos (uma objetivação da vontade do indivíduo, diria Schopenhauer), o pacto deve ser continuamente renovado, a carta de salvo-conduto atualizada. A criação do mundo não foi um evento único e primordial, é um acontecimento que se repete a cada dia. O hábito, então, é um tormento genérico para os incontáveis compromissos travados entre os incontáveis sujeitos que constituem o indivíduo e seus incontáveis objetos correspondentes". (Samuel Beckett).

12 de dezembro pelo FB.

A SOCIAL-DEMOCRACIA NO BRASIL E A CRISE POLÍTICA ATUAL. Há uma continuidade profunda entre os governos FHC e os governos Lula. Continuidade da desigualdade e diminuição da pobreza, sendo que Lula foi mais eficiente em obter isso em escala ampliada. A Ditadura Militar era mais corrupta do que os dois, pois não havia liberdade de imprensa nenhuma. A estagnação econômica com hiper inflação do governo Sarney foi rescaldo negativo do famigerado Milagre brasileiro. Entre FHC e Lula, há continuidade e convergência de propósitos. Ambos são militantes da social democracia que enquanto governos se tornaram arautos do neoliberalismo, como aconteceu no mundo todo, não apenas aqui. FHC assumiu que apenas políticas compensatórias eram possíveis, Lula não mudou a assertiva, apenas mostrou que os gerentes do sistema, por estarem mais próximos da realidade do povo, tinham como explorar melhor a margem de manobra para tais políticas. PSDB e PT entraram numa luta que, se levarmos em consideração o que uma militância diz da outra, parecem duas quadrilhas muito perigosas praticando assaltos pelo poder a qualquer custo. Uma cegueira tomou conta dos dois partidos nessa luta. O PT é muito coerente. Desde 1989 que o projeto atual foi estabelecido. As esquerdas em sua maioria nunca gostaram da "democracia", pois a democracia seria supostamente um elemento burguês. Desde do governo Franco Montoro, de quem FHC foi aliado, que esquerdas fizeram desvio de recursos públicos em nome da revolução. Desde 1980 que sabemos que militantes petistas desviam dinheiro de entidades estudantis e de outras entidades, alegando estarem fazendo o desvio a serviço da revolução, isso não é novidade nenhuma. Houve ampliação de escala. Desvios do PSDB sempre foram o cadinho que fez a classe média e a classe alta se aproximar do partido. A transferência de renda dos cofres públicos para segmentos privados foi a tônica do PSDB. O Lula peitou a classe média. Foi muito corajoso politicamente falando, pois lembro como se fosse hoje, ele dizendo em público que não queria disputar o voto da classe média do PSDB. Nesse ponto, apesar das militâncias petistas atuais estarem muito delirantes, o Lula manteve alguma coerência. Aliás, ele sempre foi muito coerente. Não há nada que ele faça hoje que já não tenha feito sempre. As militâncias petistas atuais estão em sua maioria muito, mas muito aquém do que as militâncias petistas já foram, e olhem que antes não eram lá essas coisas (com todo o respeito a camaradas que mesmo equivocados estavam no PT). Eu pessoalmente faço oposição de esquerda ao PT, inserido com muitos outros coletivos, desde 1988. As críticas que o PSOL começou a fazer ao PT um dia desses, outros segmentos das frentes de esquerda fazem desde a década de 1980, por isso o PSOL é tão atrelado ao PT, basta lembrar do Ivan Valente na presidência. PSB se tornou um novo nicho do PSDB, com traições e fissuras, é certo, mas um lugar de reorganização de segmentos que visualizaram que o PSDB tinha se tornado inviável. As militâncias atuais, se continuarem recalcitrantes em escutar outras versões, irão ficar tão delirantes quanto a Veja que tanto criticam. De versão em versão, ninguém está discutindo que o modelo se esgotou e que se não houver transformações, podemos nos tornar uma nova república de Weimar. A chapa está quente.

Onde estou agora?

Onde estou agora, uma vez que o Eu não passa de uma frágil membrana que serve apenas à comunicação do que há de mais trivial e descartável?

Devaneio no dia 31 de dezembro de 2012.

Estou com saudade de um lugar onde jamais pus os pés: Biblioteca Pública de Nova York. Como é possível sentir saudades assim de um lugar desconhecido? Será algum presságio de que se tornará cada vez menos respirável o ar, em 2013, sem a proximidade com os 20.402.004 livros do acervo público do lugar? Neste 31 de dezembro de 2012, fico a pensar no que está escrito no site da biblioteca: "Education and literacy keep America's democracy strong" (Vered M.). Os governantes "socialistas" do Ceará e de Fortaleza estão se inspirando nisso para realizar um dos mais importantes e relevantes investimentos na vida cultural de Fortaleza, como os eventos de arte e cultura que estão sendo realizados neste Réveillon? A Biblioteca Pública de Fortaleza em 2013 será a prioridade máxima dos socialistas? 20 milhões, quatrocentos e dois mil e quatro livros! Que maravilha! Vou passar uns tempos de homeless em New York!

As leituras do novo ano.

Hoje, estou terminando de ler dois livros. Sunset Park, do Paul Auster e fechando uma instigante segunda leitura de O Castelo, de Franz Kafka, duas décadas após a primeira leitura, quando eu tinha 19 anos. Até meia-noite, consigo finalizá-los, faltam poucas páginas de cada. Por esses dias também finalizei uma releitura depois de exatas duas décadas, o volume II das obras escolhidas de Walter Benjamin. Também reli Capitalismo e esquizofrenia (volume 1 - Anti-édipo e volume 2 - Mil platôs), livros que eu havia lido pela primeira vez em 2001. Todos os anos gosto de escolher um livro especial para bater o centro e começar com uma leitura de primeira. Em janeiro de 2012, o primeiro livro que li foi Le maître ignorant, de Jacques Rancière (uma sugestão do querido colega Gabriel Feltran), amei, me serviu como norte ao longo do ano inteiro. Amanhã, às 8h da manhã, como de hábito, irei dedicar as minhas 6 horas de leitura diária solitária a um escritor maravilhoso que muito me emociona. Quando li De amor e trevas, fiquei exultante. Por isso, desejando que em 2013 a guerra cesse, vou começar o ano com a leitura de Uma certa paz, de Amós Oz. Espero que dê sorte e que o conflito por lá se resolva da melhor maneira, pois do jeito que está não pode ficar.

31 de dezembro de 2012 às 19h30

SÃO SETE E TRINTA E FALTAM QUATRO HORAS E MEIA PARA COMEÇAR OUTRO ANO... "São sete e meia, faltam quatro horas e meia para começar outro ano, o desgastado ritual de fogos de artifício e buzinas, a explosão de vozes embriagadas que vai ecoar por toda a região à meia-noite, sempre a mesma erupção nessa meia-noite em particular, mas ele agora está bem longe de tudo aquilo, sozinho com seu uísque e seus pensamentos, e se puder penetrar bem fundo naqueles pensamentos, não vai nem ouvir as vozes e o clamor quando chegar a hora" (Paul Auster, Sunset Park).

Feliz 2013

A solidão é condição da liberdade, escreveu Hannah, a filósofa, não tem nada a ver com ser solitário, solidão é diferente de ser solitário, os mais solitários estão inseridos no ruído dos rebanhos, a solidão é sair do rebanho, é se desgarrar para ser capaz de pensar. Isolation não é desolation. Isolation is not desolation. Que haja algo de lindo no novo!

Saturday, December 29, 2012

Não sou dono da minha cabeça, apenas do juízo. (reescrita).

Tudo se passa como se uma história muito antiga pudesse ser contada. Uma história imemorial. Mítica. Uma narrativa seria melhor dizer. Narrativa sobre pessoas que viviam nas ondulações, intangíveis, entre forças e impactos, desrevestidas, no máximo delineando em formas inseguras e passageiras que se desfaziam no mesmo momento em que eram acionadas, moviam-se pelos atos de olhar, fascinadas pelo encanto e pela impossibilidade do aprisionamento do corpo difuso do outro. Dar o nome ao nome, regra ao torto, acabamento ao direito. Nesse ponto eram duras quase figuras, essas pessoas narradas. Não se mostravam acanhadas nas matanças nem nas danças ininterruptas que a ela se interpunham. Iam a se apropriar do real, interagindo no firme propósito de impedir qualquer estabilidade hierárquica entre os viventes. Para elas, a maior riqueza era saber compartilhar as diferenças, distribuindo-as de um modo natural que não era uma reificação da entidade Natureza, mas sim, ao contrário, uma ode aos fluxos. Tudo de origem coletiva era de ficar sob vigilância deles. Passavam-se séculos em instantes, não havia o início, o meio e o fim como modelo de fazer. Pessoas de coração generoso, sorriso largo e capazes de amar o próprio destino. Povos raros, ligado na qualidade das conexões, das alianças, dedicando a maior das atenções para os tratos, os pactos e as imprecações entre viventes e moribundos. Gente de impecabilidade. Fazer o caminho desse povo é uma aproximação que faísca. Com o peito ao chão, deitada a honra, com a cabeça servida na bandeja das mãos, ofertada a inteligência. O nascimento é uma ação livre, prenha de potencialidades livres.

O tempo e o vício. (reescritos).

Com o tempo, os vícios de caráter, os principais, se cristalizam. É o que se chama amadurecer, como em algum lugar escreveu Proust. Quando li essa ideia pela primeira vez, no tempo em que ainda se acentuava a palavra ideia, eu não parei mais de recorrer a ela nos mais diversos contextos de reflexão, de usá-la em várias ocasiões e situações de conversa, não apenas para parecer sabido ou melhor ou fatalista ou qualquer outra atribuição negativa de valor que os que me antipatizam como uma alma gêmea do cão, enfim, a força dessa ideia não remete ao querer viver uma vida alcunhada, vida nomeada, vivida presumidamente como significativa, mas isso seria outra história. Depois de anos, percebi que a ironia da história: o tempo decorrido é uma baita de desculpa esfarrapada para quem quer justificar algo pelos vícios cristalizados que possui. Não antes dos meu próprios vícios, nem após tê-los emoldurados, dei-me conta de que o tempo não corre. Que maluquice é essa de por o tempo para correr? De qualquer modo, não se pode depor contra a eficácia simbólica da motivação da própria malvadez, falta de esperança, ruindade, mesmo, naquilo que seria um simples fato abstrato da vida universal e etcetara. O tempo é um fato? Desde quando? Em que tempo ele assim se fez? Fazer o tempo correr, porque o tempo corre é o motivo de um quase parricídio, não fosse o Tempo apenas filho da Terra; trata-se da cristalização da própria personalidade. Era uma vez o tempo cristalizando os vícios numa personalidade cristã ou numa personalidade rapace. E lá vou eu de novo em busca do tempo perdido. O tempo corre ou o tempo escorre? Cristalizam-se os vícios e Deus se faz mundo. E chega, porquanto, o tempo de empunhar as ferramentas próprias para inventar o tempo, arborizar o Nome Dele, chamar para si todos os artifícios da nomeação. Modo de não esgotar o que se guarda em segredo. Manejo de vitalidade. Queria saber inventar mundos como minha amiga que há anos o tempo levou pela brutalidade e ignorância de um tiro desferido contra o corpo dela, corpo que tecia o mundo, desfazendo-o dos vícios que o paralisam.

Thursday, December 27, 2012

Passeios ao léu (uma etnografia transfigurada).

As cabeças recostadas na parede. Um ao lado do outro. Sem divisórias, as cabeças na gamela, desfazendo-se como bichos, liquefeitos, não é como no aeroporto internacional do Ceará, onde ninguém pode olhar para o pau do outro nem que queira pois é tudo bem dividido, um pau para cada divisória, os mecanismos ocultos do desejo superados, diferente do boteco que dominado pela vitrola nas alturas convidava a moçada para voltar ao salão onde as meninas esperavam. As caixas de som eram meio estouradas, certamente, mas no banheiro reinava a paz de Deus, não havia discórdia, cada repartição tinha sua representação, o mármore, a cruz e o infinito, nem mesmo no balcão de bebidas as coisas funcionavam assim tremendamente fora da ordem. O banheiro, ao lado da mesa de sinuca, não tinha desse tipo de prerrogativa, de privilégio, que costuma separar a vida dos senhores da dos servos, o banheiro era uma metafísica da ordem social, os bairros nobres separados dos bairros pobres, cada qual no seu cada qual, e, nem por isso, os homens perdiam a concentração no ato de urinar, mãos ao alto, pensativos, amortecidos pelas bebidas fortes, embriagados de chá mate. A cabine, reservada para outras necessidades, estava devidamente trancafiada, cadeado e corrente bem passados, e apenas sob demanda solícita ao dono barbudo se poderia acessá-la, um senhor desconfiado, olhar esperto, tentando adivinhar a posição de cada cabra que circulava no entorno do balcão, girando em vários graus sobre as lentes da armação os olhinhos especialistas, enquanto tomava café com leite, feito na hora, despreocupadamente, calmamente, e, em cima dele, escondida nos caibros do telhado, embainhada, uma peixeira enorme, quase uma espada, amolada só de ver por fora. Era uma maneira de delimitar quem era de dentro e quem era de fora, a peixeira no Ceará é um sistema cosmológico de delimitação do real, tanto do ponto de vista da noitada e dos negócios, como das relações laterais. No balcão, uma longa e envernizada tora de madeira, artesanalmente trabalhada, sobre a qual as cervejas, os drinques e os petiscos estavam dispostos em proximidade aos respectivos fregueses que falavam italiano, inglês, francês, espanhol e romeno. As meninas rareavam, escassas e fugidias, as poucas que por lá cruzavam estavam meio depressivas ou muito eufóricas querendo ir embora. Muito raras, brandiam olhares perpétuos de um segundo, sabidos em átimos, de quem cheira a ponta do metal e direciona o rumo a ser tomado. O esquema da noite era uma falha só. Prejuízo estava estampado na cara de todos. De todos e de todas. Todos (dono do bar, garçons, cozinheiros e seus assistentes, mototaxistas, traficantes e policiais) e todas (putas, namoradas das putas, parentes vendedores ambulantes das putas e amigos e amigas em geral que tinham ido para aproveitar alguma boquinha e fazer um programa sem se comprometer com a condição), todos tinham um cara de tacho, de frustração, de noves fora que somente uma noitada de sereno, de chuva no nordeste seco, podia oferecer. Lá para as bandas dos cabarés as coisas deviam estar mais animadas, era o pensamento geral que flutuava sobre a cabeça das pessoas, afinal, salão é salão e a Jukebox é atemporal, não tem hora ruim. O motociclista ao lado do bar queria de qualquer maneira um boquete da menina. Ele também estava trabalhando. Ela, profissionalmente, hesitava sem nenhum pudor, apenas por valorização do seu modo de estar de pé e para evitar transtornos com as autoridades, os colegas, uma vez que estava trabalhando também. Um das poucas que fora trabalhar naquele horário soturno e lamentável de vazio e falta de circulação de dinheiro. Tinha ido hoje por precisão pura, talvez estivesse bodada, pois puta bodada toma um remedinho pra disfarçar e engabelar os otários. A luz do poste, expondo o evento vexatório, facilitou uma negociação mais favorável para ela, saiu na garupa do motoqueiro que desistiu de insistir que a puta o chupasse ali mesmo no meio da rua e no claro. O italiano, de Roma, tomando uma cerveja no balcão de bebidas, olhão aberto para a puta em questão, estava em desespero, parecia que tinha acabado de chegar na cidade. Não era aquilo que tinham prometido da Fortaleza proibida. Era mais festiva, não? parecia expressar sobranceiro. Bateu em desespero atrás de uma travesti, toc toc toc rápidos na calçada, que passou ligeira para as bandas do calçadão perto da igreja de Nossa Senhora do Mar, caminhava para negócios ,certamente, ou certamente fugindo dos mal negócios. O italiano ia ter que correr e ele foi atrás. Pagou a conta com um nota de 50 reais, o dono do bar verificou sob as barbas a autenticidade do papel antes de lhe passar o troco. Os italianos agora que estão sem primeiro ministro, às turras com a austeridade fiscal, parecem ter perdido algum valor de face no mercado local da cidade, mas não de todo, as meninas são apaixonadas por eles, pagam até as contas, se preciso for. Na esquina, bem próximo do bar, os rapazes do beco, olhares mais acesos do que as ventas, de boné-bermuda-laço-bobo, caras de bandido, ofereciam o caminho das pedras para os clientes. Tinha do branco, do preto e da pedra. O caminho do beco era proustiano em sua avidez por luz e sombra e flores.

Tuesday, December 25, 2012

Urgências! (reescritas).

Tinha pavor de quem rotulava as coisas de urgente, mas naqueles tempos, obsessivo, ele precisava de uma mulher urgente. Mas a urgência na mulher não fazia nenhum sentido. Não era uma atributo provável. A urgência dele não era de tipo sexual, não estava a fim de descarregar seus infortúnios no corpo copo de alguém. Um pouco de honestidade ainda havia no deserto por que passava há anos, desde tempos perdidos na memória, não havia nem imagem da origem nem da natureza da desgraça em que se metera, ou que se tornara ele próprio, um filho da puta desgraçado. A precisão era da ordem da fantasia. Uma fantasia de alienado. Remetia ao mundo do desmundo, onde essa dor da desrealização quase total não era mais capaz de inquietá-lo como quando se tornou uma figura soturna, mas ainda com alguma alegria pré-estimulantes. Imaginar uma mulher urgente era a maior precisão. Fazia-o com afinco, uma atitude de doidivanas, desenhando perfis nos guardanapos de papel, enquanto se afogava no décimo segundo uísque da noite. Sentava sempre nos balcões. Quando entrava em qualquer bar sentia que o corpo dele já estava grudado desde sempre na ponta de um balcão, o drinque já servido e a noite em aberto com mais uma conta impossível de pagar. Os colegas de balcão por vezes querendo puxar assunto, uma tremenda chateação ter de se livrar dos caras. Quando os insistentes, já para lá de Bagdá, se viravam um segundo para pedir algo ao barman, ele voava para o banheiro e voltava depois de uns minutos fazendo expressão de nove horas como se tivesse acabado de chegar, não tivesse reconhecendo o ex-colega de balcão de agorinha a pouco, se fazendo de desentendido e surpreso na maior cara de madeira. Isso gerava uma brutal desconfiança do colega de copo. Dava para medir a descarga da adrenalina aliviando o efeito do álcool e, nesse momento, alguma consciência fazia-se presente, o que tornava possível uma comunicação rápida, do tipo: "vá para casa, camarada!". Quase sempre dava certo. Houve uma vez que ele resolveu virar as costas, no tempo em que o companheiro de balcão foi e voltou do banheiro. Mirou uma mesa com dois belos par de pernas e se fez de rogado. O sujeito não gostou da traição. Agiu de modo explosivo, aplicando-lhe um soco de punho fechado nas costas, na altura do rim direito. Uma dor aguda fez-lhe o corpo retesar e depois se curvar sobre si. O sujeito saiu rapidamente do bar, trôpego, batendo aqui e acolá nas quinas das mesas, os garçons e os fregueses atônitos. Ele seguiu o sujeito e numa rua escura travaram uma luta corporal que não parecia mais ter fim. Por isso ele tinha certo receio em sentar no balcão quando os sujeitos já estavam truviscados. Era arriscado. A peia podia comer em algum momento. Ele pensava nisso, sobre esses casos de outrora, enquanto conseguia se livrar de mais um colega indesejado, atrapalhando seu exercício de escrita no guardanapo, o que fez obtendo sucesso e assim pode retornar ao profundo devaneio sobre o perfil da mulher urgente. Dedicação de mausoléu de mármore para vencer a hora avançada e fria, ele foi se segurando no uísque e na pouca imaginação bêbada que lhe restava. Ferramenta do contexto em punho, a caneta que fora afiada nas melhores escolas (as mais fajutas), a escrita era o único hábito que o salvava em meio ao torpor e ao barulho que atordoava a mente naquele local e àquela hora confusa de noite-claro, mesmo nos mais dedicados regimes de exceção, em bares para lá de sujos, musicalmente sujos e humanamente podres, essa escrita ainda o salvava, escrita em papéis de guardanapo, ele os colecionava aos montes desde décadas. Ou seriam guardanapos de papéis? Para pensá-la, não mais na própria escrita, mas na mulher urgente dos sonhos, ele havia madrugado anos a fio, era algo que requeria um caráter persistente, invariavelmente duro. Para querê-la, o intervalo bastava, mas os intervalos infindos eram tão numerosos quanto as baganas transbordando cinzeiros em situação de penúria. Essa mulher urgente, ele a concebera mil vezes no desenho do guardanapo e no redesenho do redemoinho em que se encontrava sua vida. No afogueamento da água de briga, as possibilidades iam ficando cada vez mais limitadas. Imaginava-a linda e recorrendo a contornos generosos. Quereria-a sempre e jamais, estava ficando confuso de novo. Nem murmúrio de um cio lhe faria desistir e se desapegar da tarefa imaginativa. Aliás, as gatas de balcão há muito tinham abandonado qualquer cio no sentido carnal, entupiam os narizes de mármore, enquanto iam retocar (borrar) a maquiagem, mulher pó de rato, era como ele as chamava, as queridas companheiras de balcão, e depois afundavam mais ainda no uísque e na depressão feminina que é um poço profundo duro de encarar. Mulher de balcão de bar, mulher bomba relógio. Em geral, é claro, ele não era um sujeito preconceituoso. Há prazerosas exceções nos caminhos da vida. O dia já estava a amanhecer, ele estava mais sério que o habitual. Exausto. Era ele mesmo que via caminhando trôpego pela calçada, ele se projetava e se antevia na imagem móvel do último colega de balcão que se antecipara e saíra, ele ainda restava imóvel, grudado na ponta do balcão. Lá pelas tantas, quando despregou, dirigia o carro em chamas, sem rumo certo. Carro explosivo. Direção muito menos perigosa do que o estado em que a mente dele turvada se encontrava. À beira-mar, caminhavam rostos convidativos de impecáveis mulheres, lindas nos saltos para o alvorecer, mas muito pouco precisas e absolutamente disponíveis, mediante a prata, mas sem nenhuma urgência, salvo o dinheiro do táxi ou uma carona para fechar o caixa com uma margem ligeiramente melhor do que a habitual. Elas não o interessavam. Ele teimava em desejar a mulher urgente do guardanapo de papel.

Qual puta velha! (reescrita)

Houve tempo em que me considerava alguém sem compaixão. Detestava, nas minhas primeiras e frágeis leituras de Nietzsche, qualquer sensibilidade que se dispusesse nesse termo. Eu fazia um joguinho de cena em torno disso, um charme. Girava nos próprios calcanhares e lançava um olha de esguelha, um teatro, uma péssima encenação, coisa de bêbado, era uma afetação só, e o único e besta intuito dessa manobra era mostrar-me incapaz de aderir ao fácil e falso sentido humano da comiseração. A quem ousasse abrir um pouquinho que fosse de seu espaço desconhecido, e carente, baixasse a guarda, clamando por piedade, era este o momento triunfal do ato de sacrifício e perda do outro. Não havia vez para os fracos. Éramos todos boçais. Eu me sentia quase implacável, distribuía moralidade pérfida de um modo tão exemplar que os amigos titubeavam em me pedir para ficar ou sair da mesa de bar onde estávamos abancados a fios de horas sem contas nos banhando desbragadamente de todo tipo de bebericagem. Alguém pedir minha conta era um motivo de quase ruptura da amizade, virava um trovão. "Quer ir embora, poeta? Vá em boa hora, desgraçado! Vai perturbar o cão! Faça o favor!", eu defendia minha cerveja gelada até a alvorada sem nenhuma peia de aflição, era todo interjeições. Quem se interpusesse entre mim e o mar, no Cais Bar, no Gets da Sandra Gentil, no Estoril, na G2 ou na Cabumba, na Cafua, corria sério risco de morte, de perder pelo menos um dedo ou a ponta de uma orelha mordida. Afinal, uma traição só poderia ser punida com a morte ou desterro. A pena capital era a invisibilidade. Ostracismo para os chatos. Eu queria ser cruel, quando tinha 19 anos. Como eu era tolo! Hoje, depois de ter me esmerado no ato de cuidar de quem precisa de tudo, cuidar de quem vive nas zonas do abandono, eu próprio, faltam-me forças para manter-me indiscernível nessas intermediárias da vida onde as garças dançam. Prefiro passar a bola e assumir um sentido mais senil da existência, mais derrotado, mais alheio, acompanhando um ou outro passarinho pousar na janela do escritório onde escrevo o dia inteiro, tomando sucos especialmente preparados para adocicar sem açúcar artificial os meus dias, apenas o açúcar das frutas (destilado). Expectativas tenho muitas, é claro, venho a ser pós-estrutural após tamanha desfaçatez e embriaguez juvenil, procuro ainda uma casa, procuro ainda uma família, procuro ainda um amor, afinal, quem para de procurar se torna desinteressante para a casa, a família e o amor que lhe sustém os vícios de caráter e lhe traz algum pejo de superar a desesperança. Adoro aquele livrinho do Steinbeck, chamado O inverno da nossa desesperança, e, como preconizava Heinrich Heine, citado numa magnífica nota de rodapé por Freud, a nota de número 17 de Mal-estar na civilização: "Tenho a mais pacífica disposição. Meus desejos são: uma modesta cabana com teto de palha, mas uma boa cama, boa comida, leite e manteiga bem frescos, flores diante da janela, em frente à porta algumas belas árvores e, se o bom Deus quiser me tornar inteiramente feliz, me concederá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos serem enforcados nessas árvores. De coração tocado eu lhes perdoarei, em sua morte, todo o mal que na vida me fizeram — pois devemos perdoar nossos inimigos, mas não antes de serem executados". Quem são meus inimigos? Ninguém mais do que eu mesmo, o destruidor de meus próprios sonhos, pisando na própria capacidade de sonhar como se estivesse pisando na cabeça de uma barata que não tenha morrido da primeira lapada. Sequer me importo que me atrapalhem a cerveja gelada, como fazem muitas vezes me enviando para o pijama. Estou que nem puta velha. Vendo cafezinho para os antigos clientes, talvez em troca de uma palavra amiga, de uma saudação calorosa, um aceno, talvez, mesmo que distante. Acreditem! Como é bom sentir o peso da idade e não sentir saudade nenhuma de quem se foi. A proximidade com a morte faz bem aos sentidos, deixa-nos mais alertas e atentos. E quem precisa de outra coisa na vida, como dizia Goethe, do que estar alerta e atento contra os hábitos? Os móveis cruéis de outrora não me alegram mais. A vitalidade é um péssimo princípio de existência. Existir é um péssimo negócio, aliás.

Iminências (reescritas).

Era quase redondo o peso do sentimento. Uma coluna extraída do campo das coisas graves parecia ter sido recortada exclusivamente para mim, meu talhe encurtado. O ato de nomeá-la como exclusiva, como sendo a coluna talhada para o meu corpo, sob medida, deixava-a mais pesada do que de costume, uma vez que eu intui naquele instante que lá ela sempre esteve, invisível. A dispersividade das forças em vez de me ameaçar operava a meu favor, era esse o meu credo. Essa coluna era o fim do início de algo que eu não saberia precisar nem com mil palavras. Uma espécie de sofrimento avizinhava-se de mim, rodeando-me, salteando em torno de mim com um sorriso de canto de boca acintosamente maldoso, mirando o meu íntimo, imiscuindo-se no meu mais íntimo que era o pouco de alegria que o meu corpo de pilha de rádio estourada não deixava entrever. Irônica coluna, pensei e não tive força para amaldiçoá-la. Das uma às duas da tarde, quedei-me enquanto minha querida e antiga dispersividade esvaía-se de mim, jorrava como um jato involuntário de uma substância vital que é expulsa do lugar onde, por nascimento, tivera seu pouso certo e funcional e correto. Nem cansativo, nem apelativo. A vida àquela altura me parecia uma mixórdia escarlate de percepções distorcidas, e minhas distorções pareciam não mais quererem ser minhas companheiras, havia um ar de revolta contra mim mesmo, uma revolta de si que não levava em consideração minha alteza e dignidade reais como centro do poder e da sedução que dantes eu buscava com convicção descrever para quem estivesse no meu entorno, com palavras e gestos soberanos, arrogantes. Eu ia e voltava naquele redondo da coluna como se volteasse com as mexicanas, minhas inimigas que eram as únicas a romper o invólucro e me atingir, picantes, a pele do rosto, entrando furiosas pelos buracos da minha cabeça, uma delas deixou-me surdo para sempre do ouvido do lado esquerdo. Senti-me como Prometeu acorrentado. Um Prometeu distante, fajuto, do terceiro mundo, colonizado, um abestado. Deixei-me abater pelo sono, acho que fui picado pelas mexicanas, e esqueci-me da ressonância odiosa daquela ociosa vida, vida que me fazia abandonar involuntariamente o campo de minhas mais queridas possibilidades, até aquele momento, pelo menos. A coluna se apoderou de mim em plena quinta-feira! Tornei-me um estúpido e bem-comportado trabalhador. Acreditei que havia algo do amor universal naquilo tudo, um trapézio sem rede embaixo tinha sido para mim preparado, eu embelezava com crenças idiotas a minha própria queda no vazio, os ossos chocando-se contra o mais duro mármore, som de osso batendo no chão foi a única memória que meu corpo guardou antes de ser esmagado, destroçado e feito em picadinhos que foram lançados como pérolas aos porcos.

Monday, December 24, 2012

A morte dos inocentes.

A morte dos inocentes. Meninos e meninas do povo morrendo, sendo mortos, e algumas vezes matando por já estarem mortos, fugindo da morte. E aqueles e aquelas que, por vezes, se dizem cristãos e cristãs, simplesmente por frequentarem templos, clamam por mais morte de inocentes, dizendo com ódio no coração que os meninos e as meninas não são inocentes. Que não há inocentes! Mentira! Digo enfaticamente que é mentira. Não são as crianças e os adolescentes os culpados. Somos nós os adultos. Acusam os inocentes de não os serem para ocultar os próprios pecados, maldades e incompetências, enquanto cidadãos, pois sobre a culpa dos poderosos, esses que destilam ódio contra crianças e adolescentes do povo, nada falam, pois aos poderosos são subservientes, capachos. E esses destruidores da fé, soldados de Herodes, tentam dizimar a menina Jesuana e o menino Jesus. Tentaram impedir que ele e ela nascessem e tentam impedir que ele e ela cresçam fortes, felizes, bem nutridos, criativos e livres. Tentam dizimá-los por serem do povo de Deus, por nascerem sem teto, na manjedoura, sem educação, sem saúde, sem direito a ser feliz, por viverem em condições deploráveis e desumanas que foram impostas pelo reino mundano dos poderosos, poderosos de quem esses falsos cristãos adoradores de tempos, como fariseus bajuladores, lambem as botas. Porque sobrevivem do reino mundano que os que nutre de ódio pelos seus, pelos irmãozinhos e pelas irmãzinhas que eles e elas são, pois nascem na mesma condição de abandono, suprema covardia desses que se viram como leões contra os pequenos e limpam o chão dos grandes, encobrindo-lhes os crimes, principalmente, pela omissão, pois jamais pedem penas rigorosas e jamais dirigem ódio aos grandes corruptos da vida social, sempre buscando punir mais e mais os mais fracos, a ponta mais vulnerável. Esses lobos vestidos em pele de cordeiro que ainda ousam se autonomearem cidadão de bem, detratando assim a categoria silente de quem assim age, odeiam no coração os inocentes e amam os donos do poder, esses hipócritas que também frequentam igrejas de ricos, enquanto os capachos frequentam igrejas que querem se parecer com as dos ricos, querendo se confundir com os bons e os justos, que estão entre aqueles e aquelas que Jesus e Jesuana lavaram os pés, ajoelhados e humildes, pois esses fariseus do ódio que querem prender e matar as crianças de Deus amam o Poder, os Senhores, os Grandes, o Dinheiro, a Dominação e seu ódio, acima de tudo, e desprezam os pequenos e as pequenas, são falsos cristãos esses matadores de cristãos que semeiam o ódio e a indiferença, e que pedem mais morte e mais punição para os meninos e as meninas do povo. Que Paulo, o ex-soldado furioso, matador de cristãos, lhes toque a cabeça. São falsos e irão queimar no inferno de seus próprios pecados e omissões aqueles que permanecerem nas igrejas, disfarçados de filhos de Deus, mas adoradores do Diabo, do Dinheiro e do Poder, e defendendo a morte dos inocentes e fazendo sucesso na comunidade por estarem sendo ridículos, mas sabemos que ridículos são quando diante dos poderosos apenas se calam, apenas dizem sim, submissos, subalternos e covardes. "Então, Herodes, vendo que tinha sido enganado pelos magos, irou-se em extremo, e mandou matar todos os meninos, que havia em Belém e em todos os seus arredores, da idade de dois anos para baixo, segundo a data que tinha averiguado dos magos." O pranto e a lamentação pela morte dos meninos e das meninas fazem o dia de hoje e é a todo e a cada dia dos meninos e das meninas vivos que restam ainda a quem devemos nos remeter com a força de nossa fé. Esse pranto brota do coração e da boca de quem? Os que destilam ódio contra meninos e meninas do povo, e que exigem que eles e elas sejam presos, punidos, torturados, aniquilados e mortos - por que querem esconder que nós, enquanto coletividade não garantimos o nosso dever, a nossa obrigação, que é oferecer as condições para que os direitos desses meninos e dessas meninas sejam realizados de modo integral e pleno -, esses que agem com a língua ferina e cortada do demônio, pregando morte e não nascimentos para a vida, esses são os que mais merecem nosso acolhimento e nossas preces para que, por Deus, sejam perdoados de suas próprias maldições. Para eles e elas, os pecadores que se dizem cristãos e defendem a morte de meninos e meninas do povo, nós dedicamos nossa oração. Perdoai-lhes, Senhora, Senhor, eles e elas não sabem o que fazem.

Nota de estudo sobre o campo do poder.

Existe uma distância enorme entre conhecer algo como algo, ver algo como algo e reconhecer algo em que se acredita. Conhecer algo como algo é da ordem do incognoscível (Kant). Ver algo como algo é da ordem do inominável (Wittgenstein). Reconhecer algo em que se acredita é da ordem do poder (Weber). Neste último caso, a imagem mutável das figuras da autoridade que alimentam a crença nelas próprias, como se elas se formassem com imagens imutáveis (o efeito propriamente da autoridade), faz do delírio do referente a condição mesma das figuras de autoridade, de modo que não há como se decidir entre ver e acreditar ver (Kafka).

Devir-mulher e busca pela liberdade.

"Quem só conhece as mulheres através do homem as conhece mal" (Henry Adams). Por conseguinte, sugiro às pessoas interessadas em serem interessantes que desejam conhecer as mulheres a partir do tornar-se mulher que se afastem dos padres, dos pastores, dos sacerdotes em geral, dos professores, dos pais, dos tios, dos amigos e de todo e qualquer círculo de homens seja ele qual for (existe algo mais boboca, imbecil e desinteligente do que um círculo de homens?), principalmente, daqueles círculos de homens que se esmeram em celebrar a dominação masculina de homens sobre as mulheres, apressem-se em se distanciar destes e dos demais trogloditas que com suas ignorâncias machistas e astúcias de poder querem reduzir as relações humanas a relações de dominância em torno de machos gorilas dominantes. "Écrasez l'infâme" (Voltaire) e tenhamos cuidado com as mulheres que trabalham para os homens desses círculos fazendo crer que machos dominantes são necessários, enfim, a libertação é uma tarefa do múltiplo. Sejamos todos e todas feministas pois sem devir-mulher não há busca pela liberdade.

Natais surrealistas.

"Ai, meu Deus!", ela suspirou resignada. Queria de algum modo constrangê-lo, pois ela achava um absurdo que ele falasse tanto de Deus, mal ou bem, "você não tem outra coisa na vida para atentar, não, cara?", fez uma última tentativa, quase chorosa, em desespero. Ele e ela estavam tentando evitar o sinal vermelho, cruzamento perigoso, lugar de assaltos, o caminhão lento enorme tomava toda a pista, na traseira dele, esses caminhões de caçamba usados na construção civil, havia escrito: "Sem Deus, nem tente". Foi o sinal derradeiro para desencadear uma crise nervosa nela, um disrupção completa. Quando ele parou o carro no meio da rua, do lado de fora do prédio onde moravam, pois não havia estacionamento possível, a gorda louca da vizinha tinha posto o carro novo dela no meio do pilotis, atrapalhando todo mundo, sinal de que estava dopada, enfim, eles foram subindo, cansados, sem energia para estarem sequer irritados, mas ela estava com uma faca de cozinha na mão, ele se surpreendeu, essas de serrinha de mesa de cortar pão, ele não a havia notado, foi apenas na subida das escadas, quando ele e ela subindo, ao se depararem com um vizinho, descendo as escadas, que se assustou com a cena da mulher com a faca na mão o que o obrigou a um esclarecimento educado, diante da face horrorizada do vizinho, lívido, fitando com indecisão a faquinha na mão dela, e ele dizia que ele, o vizinho, não se preocupasse, porque estava tudo sob controle e desejou feliz natal, ele pensou consigo mesmo depois que o vizinho desceu as escadas pressuroso que ela havia, afinal, tomado o remédio do dia, mas isso ele não disse para ela, podia desencadear o corte do efeito do remédio, a raiva e o ódio são danados para tornarem as coisas um simples placebo, então, ele apenas sinalizou, tomando-lhe a faquinha da mão, enquanto ela, trôpega, avançando passo a passo pelos degraus, subindo como se houvesse sido empurrada por alguém ia tropeçando em si mesma. E o pior era que ela continuava a imprecar contra o jeito dele que foi desde sempre o tipo do esconjurado de durante o natal ficar falando mal de Deus. Ocorre que ele também não estava num dos melhores dias. Natais sempre despertavam nele sentimentos agonísticos. Era uma luta permanente contra si mesmo. Ficava lembrando da primeira comunhão, da decepção que fora encontrar um padre burocrático que não quisera escutar as angústias existenciais de um garoto de 11 anos. Ele havia se tornado ateu naquele dia, diante da indiferença, da recusa e da incompetência do padre. Chegaram ao corredor do apartamento onde moravam, e ela, a boca mole, dopada de tanta tarja preta que a irmã da amiga que é médica tinha passado para toda a turma, continuava murmurando, a língua enrolada, "se você escrever mal sobre Deus nesse Natal, você vai ver...". Era uma ameaça. Ele não a levou muito a sério. Não era a primeira vez que ela o ameaçava e de outras vezes os motivos tinham sido muito piores. A confusão girava em torno da lista que ele tinha prometido publicar no Facebook, publicizar seria melhor dizer. Um lista que dizia mais ou menos assim: 1. O Absoluto é uma moela. Deus é uma moela. 2. O papa é um tremendo papacu. O papacu não é uma lenda pedófila. 3. A rapsódia não é de agosto. O sertão vai virar mar. 4. O executivo da sadia tinha uma linha torta no fundo da calça. Era empreendedor. 5. A Penélope Charmosa não é a Wanderléa. 6. Ele é o instrumento do meu Saber e da minha Paz. Ele, o inominável. 7. A fortuna é o acaso. Não há dialética possível. Enfim, era esse tipo de coisa que ele vociferava quando estava desconfigurado, transtornado, e era esse tipo de coisa que ela detestava. Ele prometeu que nada iria dizer, que iria respeitar a família, a tradição e os bons costumes das pessoas de bem. Ela não conseguia acreditar nisso. Sentia que ele estava prestes a embolar o meio de campo e fazer um novo escândalo, semelhante ao que tinha feito no outro Natal, quando, assolado pela melancolia e pela desrazão, tivera dois dentes quebrados numa briga com um morador de rua que entoava cânticos religiosos enquanto fazia discursos condenatórios de todo e qualquer cristão que não se compadecesse de tanto sofrimento. A comiseração lhe afetou de tal modo que resolveu peitar o morador de rua, pura compaixão, os dois embolaram-se no asfalto aos tapas e aos gritos, cada qual mais esbaforido do que o outro. Quebravam garrafas bêbadas um contra o outro depois que se apartaram. Alguém da janela, gritou em alto e bom som: "Seus merdas, vão brigar na casa do caralho!". E as rolhas, e os assados de peru, e a farofa, e as árvores decepadas, imprecisas, de plástico, com luzinhas ambivalentes, iam se fechando e se abrindo, gerando paz e harmonia para todos e assim nasceu o menino Jesus, ele sentiu no profundo do seu ser. Sujo, no meio da rua, compartilhando com a comunidade o conhecimento sobre as pedras, sobre o caminho das pedras, o caminho da sabedoria, o menino Jesus estava bem ali, jogado na penumbra da calçada, assustado, faminto, esperando os porteiros dos prédios descerem com as sobras dos banquetes. Ele passou pelo menino e disse "Amém". O menino sorriu.

Tuesday, December 18, 2012

Solidariedade à luta dos profissionais da segurança pública no Ceará.

PRESTO MINHA SOLIDARIEDADE AO CAPITÃO WAGNER SOUSA E REPUDIO ESSAS AFIRMAÇÕES DIFAMATÓRIAS QUE BUSCAM DESQUALIFICAR A PESSOA DELE. EXISTE UMA DISTÂNCIA ENORME ENTRE QUEM É LIDERANÇA E CONQUISTA O EXERCÍCIO DA AUTORIDADE PELO RESPEITO E QUEM, COMO CHEFE, AMPLIFICA A CRISE DA AUTORIDADE PELA FALTA DE EXERCÍCIO DE LIDERANÇA. Secretário de Segurança Pública do Ceará afirma que liderança política das tropas da PM, Capitão Wagner Sousa, "nunca trabalhou na Corporação e, muitas vezes, convidado para ocupar uma função, sempre pedia licença". Dizer que um oficial da PM "nunca trabalhou na Corporação" é dizer que é possível ser da PM e não trabalhar? Num caso hipotético, seria possível, por exemplo, ser oficial da PM e trabalhar como segurança particular de uma família durante anos, prestando serviço particular para poderosos sendo servidor público? Isso é possível? Creio que não, né? Nunca ouvi falar de nenhum caso desse tipo. Penso que todos que estão na PM são valorosos trabalhadores. Seria possível admitir que há membros da PM que não trabalham de fato na Corporação? E dizer que o capitão pedia licença para não assumir funções é dizer que o capitão estava agindo de modo ilícito. Ou seja, trocando em miúdos, fiquei me perguntando se o coronel da PM, secretário de segurança do Estado, chamou quase que explicitamente o líder inconteste dos movimentos reivindicatórios das polícias e vereador eleito de Fortaleza com maior votação do pleito de "vagabundo" (quem foge do trabalho e de suas funções) e "marginal" (que usa recursos ilícitos para driblar a lei e as regras, fugindo de suas funções). Será que chamou de covarde, também? Muito arriscado da parte do governo, durante uma negociação onde o governo finge que não está entendendo a pauta de reivindicação, e diz para a sociedade que a pauta está sendo cumprida, e diz também na reunião com lideranças que não tem possibilidade de cumprir a pauta, e tenta jogar a população contra as bases que compõem a segurança pública, e começa a promover uma espécie de ação de guerra em plena vigência da democracia no país. A sociedade está muito atenta a essa orquestração. Não estamos dispostos a sustentar incompetências do campo governamental, apesar delas se repetirem em ritmo cada vez mais frenético. Sabemos que os talentos, as competências e a vontade de mudar a realidade da segurança pública no Ceará não estão tendo vez de atuar e isso nos decepciona a todos, cada vez mais. Saudações ao Wagner Sousa e ao conjunto de "guerreiros" da sociedade cearense. Qualidade de vida, cidadania e condições de trabalho dignas é tudo aquilo que nós que somos muito críticos da atuação tradicional das polícias, como eu, podemos desejar coletivamente para não compactuarmos com a hipocrisia que exige dos policiais atitudes de polícia democrática e cidadã e os trata como escravos na chibata. Queremos policiais e professores bem pagos, de bem com a vida, e buscando juntos a democracia real para o país. Saudações libertárias!

Sunday, December 16, 2012

Inauguração do Centro de Eventos do Ceará (postagem do FB em 16 de agosto de 2012).

Cidadãos e cidadãs cearenses, caríssimos contribuintes, após o show de Plácido Domingos para a "sociedade cearense", também foi servido um belo jantar com direito a peixes e frutos do mar, espumante rosé, vinho tinto, uísque 12 anos, sucos variados, refrigerantes, foram oito bufês fartamente montados para todos e todas comemorarmos os avanços do progresso sob a batuta do governador Cid Gomes e de seu candidato à prefeitura de Fortaleza, o Sr. Roberto Cláudio. Sinceramente, ironias à parte, estou me sentindo muito mal. Para um educador como eu que acompanha a vida cotidiana de algumas das 900 mil pessoas que habitam em favelas na cidade de Fortaleza, ficar sabendo de tamanha fartura de comida, oferecida para evento fechado, para convidados poderosos, financiado com dinheiro público. Isso me deixa com vontade de ficar em silêncio, tamanha é a vergonha que sinto de nós mesmos, os cearenses. Estou com muita vergonha mesmo! Perdão, mas vou dar um tempo para me recuperar. Isso é demais. É uma humilhação coletiva intolerável essa que estamos sofrendo.

Saturday, December 15, 2012

Enquanto o governo se refestela, o povo se estatela.

Os discursos do governo do Ceará, nos últimos anos, têm girado em torno da afirmação cega de que o "progresso" dos empreendimentos econômicos é capaz de gerar "felicidade", "melhoria de vida", etc. Gerar empregos precários, instáveis, temporários com um dos salários médios mais baixos do Brasil só pode ser comemorado pelo governo, quando há ou má-fé ou inanição de pensamento político (ou as duas coisas juntas). Servidores públicos estaduais civis e militares à beira de uma greve, pois o governo de cunho tecnocrata e autoritário não admite negociar, ou seja, exercer a própria finalidade precípua do governo que é ser instância de negociação. Há segmentos populares que comemoram festas de arromba com o governador do Ceará? Sim, com certeza, os há, e se revertem em votos. Mas não devemos jamais esquecer que baixíssimas expectativas acabam gerando inflacionamento da avaliação positiva do governo. As condições de vida no Ceará vão de mal a pior. A desigualdade é uma das mais graves do mundo todo. As melhorias? As melhorias deixemos para os retóricos profissionais do governo transformarem em publicidade massivamente fantasiosa. A pior seca do Ceará é a seca de lideranças políticas compromissadas com a democracia real. Festança para os ricos e festanças para os de baixo, elas vão fazer do atual governo algo que oscila entre Nero e a Babilônia. O desmantelo está no poder.

Tuesday, December 11, 2012

Turn on, Tune in, Drop out

As instâncias de controle pretendem mediar na totalidade as experiências das pessoas na relação com o fora, com o exterior, com os mundos possíveis que se atualizam nos mundos dos outros. O exercício livre da inteligência e do pensamento crítico e reflexivo exige das pessoas uma atitude de recusa ativa dessas instâncias mediadoras absorventes, totalizantes e anestesiantes, pois tais agências de poder (o Partido, a Igreja, a Família, a Universidade, a Escola, a Mídia, a Droga etc.) são agências de controle da dispersão, ou seja, das ações livres das pessoas enquanto criadora de relações relativamente autônomas com os outros sem a mediação de uma política da identidade. É na recusa ativa do Estado onde reside a base histórica concreta e local de constituição da liberdade. E o modus operandi das agências reguladoras estatais é sempre incitar as pessoas a se expressarem "livremente" no interior delas, a fim de produzir contexto de observação controlada do que há de livre nas pessoas, tendo em vista a imposição de um padrão de comportamento que restringe o potencial criativo real e põe sob tutela o exercício das capacidades agentivas dos sujeitos, por isso é sempre bom lembrar que expressar a liberdade sob a demanda das ditas agências reguladoras estatais é favorecer o próprio processo de destituição e captura que estas pretendem realizar, não necessariamente anulando a liberdade das pessoas, mas fazendo dessa liberdade apenas um sentimento fugidio da liberdade potencial, uma dose de veneno para mortificar o corpo e fustigá-lo de tal maneira que o abandono das supostas veleidades daquelas pessoas que agem livremente será promovido ao cargo de censor de si mesmo e estabelecerá as condições do assujeitamento de seu próprio descenso pelo flagelo de si, de uma adesão feliz às razões do Estado e das agências de poder que lhes são concorrentes e convergentes, portanto, solidárias no crime que inaugura sua pretensão ao monopólio, viabilizado pelas linguagens heterônomas que impõem a todos os adeptos da morte.

Monday, December 10, 2012

Ela e Ele

Ela na sonolência da manhã de descanso, distendida, uma alegoria de si mesma, o friozinho do ar e o calorzinho do colchão, incrementando a sensação de abandono de si, levanta a cabeça, levemente e num ângulo quase colado ao do travesseiro e pergunta: "Amor, como está o mundo?". Ao passo que o marido dela, desde horas com a xícara de café na mão, lendo os sete jornais de continentes espalhados, retruca: "Medíocre!". Então, ela volta a dormir, tranquila e apaziguada com os próprios sonhos.

Saturday, December 08, 2012

Drogas? De quem?

A mãe e o pai ficaram horrorizados quando descobriram que o filho estava usando drogas. O psiquiatra, conversando com os três, descobre que o pai é acoolista, fazendo uso diário de uísque ao voltar do trabalho até a hora de dormir, e que a mãe usa remédios tarja preta, psicotrópicos, para dormir, fazendo automedicação, com receitas que conseguiu com um amigo médico. O pai e a mãe ficaram horrorizados em descobrir o filho usando drogas. Ele e ela não se viam como usuários de drogas. A família toda em terapia. (Já ouviram falar numa história assim?) Eu inventei uma geral a partir da escuta de muitas parecidas. Uso abusivo de drogas não é uma questão de polícia, é uma questão de saúde mental.

A Grécia virou a cara do mundo.

A Grécia virou a cara do mundo. Sistema de dominação está sendo mantido pela força bruta. Governos abdicaram de governar e entregaram tudo nas mãos da polícia. Polícia versus população nas ruas e governantes encastelados em posições de conforto, poder e segurança cerrada.

Um toque para amigos e amigas.

Aqui em casa faz um ano que a gente começou a se preparar para a crise que se avizinha. Não há possibilidade do Brasil passar imune. Modelo do desenvolvimento pelo consumo está se exaurindo. Não há receita de bolo, cada família, cada pessoa, percebe de seu jeito. As medidas relativas são. Vamos entregar o apartamento alugado e vamos morar num terreno perdido lá dentro dos matos. Sistema fossa, sistema cacimba. Muitas fruteiras para fazer suco diário. Comprar arroz de saca lá de Maranguape, direto da mão do produtor e feijão de corda, mulatinho ou verde direto do produtor. Juntar com outra família ou outras famílias para fazer as compras. Descartar produtos industrializados das compras. Fazer uma reserva de dinheiro para emergências médicas. Os planos já estão todos quebrados. Os hospitais dos planos já não funcionam mais, viraram lugares de morte. Se for usar automóvel, fazer isso como um utilitário. Abrir mão de expressar poder com posse de automóvel. No nosso caso, só vamos ficar como estamos com um utilitário com caçamba para transportar material de trabalho. Vamos montar uma escola comunitária no bairro distante onde vamos morar. Abandonar totalmente qualquer veleidade ligada à noção de classe média. Fazer estoque de livros, bibliotecas atualizadas de livros, músicas, filmes, conexão em rede, sem TV (isso a gente já faz). Andar de ônibus para ir e voltar do trabalho (isso já faço). Comer arroz integral, feijão e jerimum, com saladas plantadas na nossa própria roça orgânica. Cortar a carne vermelha do cardápio. Como sou doente por carne vermelha (só pode ser uma doença), uma vez ou outro faço uma filé au poivre para matar a saudade desse absurdo. Comer peixe comprado da mão do pescador (isso a gente já faz com economia de mais de 100%). Zerar dívidas. Usar cartões de crédito sem parcelar despesas do dia a dia. Parcelar somente compras de maior valor para facilitar aquisição de algum produto importante. Preparem-se também. Podem achar que estamos loucos. Mas será por pouco tempo que alguns de vocês acharão isso. A crise está chegando e é braba. Se tiverem dicas para compartilhar, estamos aceitando. saudações libertárias!

Onde há seres humanos há violência e submissão?

Onde há processos de submissão e de violência há produção social de violência e submissão. A violência e a submissão não são atributos de uma suposta natureza humana que promove violência e submissão. Dizer isso seria uma metafísica da violência e da submissão. Uma coisa é falar de natureza humana, outra muito diferente de condições humanas ou condições do humano. Por outro lado, a constatação empírica de que há violência e submissão onde há humanos só se torna possível se há uma positividade da violência e da submissão, se há a produção, pelas práticas de violência e de submissão, de entidades, que são efeitos de processos de objetivação histórica, de modo que são reificações, são substancializações e essencializações que mascaram o caráter histórico e, portanto, constituinte das relações de violência e de submissão, e que gera um efeito de teoria, que passa a também reificar o que já está reificado, a constatar o que já está naturalizado pelo processo de dominação histórico. Ou seja: onde há devires-humanos há práticas de sentido que escapam a qualquer possibilidade de se instaurar invariantes estruturais de uma suposta natureza humana.

A ironia das desigualdades efetivas (26 de novembro pelo FB).

Ontem, domingo, surgiu um pequeno vazamento de água, emergindo a partir do asfalto na esquina da Av. Virgílio Távora com R. Ana Bilhar, no Meireles. Hoje, bem cedo, uma aparato de três carros e mais de dez trabalhadores da CAGECE começou a trabalhar com determinação para resolver o problema. Já foi resolvido. O vazamento foi corrigido antes que provocasse o afundamento do asfalto. Os moradores e as moradoras do Meireles dão um show de mobilização e organização comunitária do bairro. Pressionam o poder público com uma eficiência política impressionante. O bairro, além de possuir o IDH-Municipal mais elevado da cidade, padrão primeiro mundo, e de ocorrer muito raramente, mas muito raramente mesmo, algum homicídio no bairro, ele possui o melhor Posto de Saúde da cidade, mantido pela Prefeitura de Fortaleza, e o pronto atendimento da CAGECE que ocorre de um domingo para uma segunda com velocidade, eficiência e pontualidade, o que demonstra a alta atenção do poder público estadual para com o bairro. Ademais, os aparatos de segurança pública estão bem articulados, com policiamento constante e ininterrupto, e a coleta de lixo é feita regularmente, de modo pontual e eficiente. Sem falar nos equipamentos culturais, de lazer, que abundam. Eu tinha pensado em fundar a Associação de Moradores e Moradoras do Meireles para lutar por políticas públicas e garantia de direitos para cá, mas os poderes públicos municipais e estaduais já são tão eficientes em nos atender prontamente que vou desistir da ideia. Esse lembrete é só para a gente não começar a segunda-feira, achando que o poder público não pode trabalhar bem e com eficiência, se não trabalha para todos, aí é que a porca torce o rabo. Será que nos estão faltando governos "socialistas" no Ceará? Deve ser isso! Se tivesse havido uma aliança política dos socialistas para governar Fortaleza e o Ceará juntos e unidos, não seria apenas o Meireles que estaria se banhando nas ondas da qualidade de vida social-democrata. De qualquer modo, que os "socialistas" perdurem no poder, vibram grande parte dos moradores do Meireles, pois eles fazem um bem danado para os bem nascidos. P.S.: Para os desinformados, não faço parte dos segmentos bem nascidos e endinheirados, moro numa das várias favelinhas que ainda há nos interstícios. Mas já estarei me retirando em breve. Boa semana e saudações libertárias!

O Theatro, o circo e a morte da cultura.

Mas o teatro, o circo e o palhaço sobrevivem se houver investimento coletivo no desejo de alegria. Lamentável o falecimento de Seu Trepinha, principalmente, num momento de desinvestimento governamental no desejo de cultura. Tempos sombrios no Ceará. Até mesmo a imagem eurocêntrica de elites cultas que segmentos poderosos quiseram passar no passado, encontra-se desgastada e obsoleta. As novas elites governantes e empresariais do Ceará não têm mais nenhuma timidez, nenhuma vergonha, em serem incultas, em celebrarem sucesso, dinheiro e poder de modo grotescamente explícito, sem mediações e vernizes "civilizatórios", quando a mesma e talvez pior em muitos aspectos, elites ainda iam ao Theatro. Entre a civilização e a barbárie, as elites cearenses se tornaram "socialistas" e adotaram a barbárie como idioma básico, algo em torno de 2.500 palavras, no máximo. Seu Trepinha sabia, certamente, desse descalabro. Deve estar fazendo piadas conosco, os que ficamos, em algum lugar. Os palhaços, afinal, são lutadores e lutadoras da cultura contra a "civilização" dos coronéis ou a barbárie dos "socialistas". Saudações libertárias! E aos amigos, familiares e companheiros próximos do Seu Trepinha, meus pêsames. Desculpem-me por transformar um momento de dor em oportunidade de reflexão. Mas Seu Trepinha foi inspirador nesse ponto, até onde conheço de suas histórias e conheço muito pouco. Nós conhecemos muito pouco!

Não se pode mudar nada, sendo governo?

Nós que somos todos e todas uns governados e umas governadas consideramos intolerável e inaceitável que diante de quadros negativos que expressam resultados negativos de gestões públicas os governantes que lutaram pelo poder para se tornarem governantes culpem a nós ou a Deus ou à natureza das coisas. Se se tornou governo, e governo é para investir na transformação das realidades negativas e não produzi-las, não tem o direito de usar argumentos pessimistas e fatalistas. É melhor deixar de ser governo. PARA QUE GOVERNO SE FOR PARA NÃO MUDAR NADA E AINDA PRODUZIR RESULTADOS SOCIALMENTE NEGATIVOS?

O bairro nobre aos cacos.

Um senhor de uns 50 anos. Cabeça branca. Negro. Vestido de farda azul. De chinela japonesa. Usando as mãos sem nenhuma proteção, nem proteção para os olhos. Funcionário de condomínio de luxo do Meireles. Jogando pedaços enormes de vidro, folhas de vidro quebradas, pontiagudas, que escapam da mão dele, quebrando-se na calçada, machucando-o nos pés, cortando-o também nas mãos e deixando cacos de vidro espalhados pelo asfalto e pela calçada do prédio onde ele trabalha, de onde saem automóveis importados super sofisticados com seus donos nem tão sofisticados, exceto pela Apple, mas bem arrumados, ou melhor, enfeitados de desejos por poder, sucesso e dinheiro, com roupas e adereços caros, endinheirados, indiferentes aos cacos de vidro que produziram como lixo de luxo do condomínio cortando o senhor que os serve, e onde dão buzinaços diários para os funcionários abrirem e fecharem os portões de entrada das garagens. De vez em quando, um dos "decentes cidadãos de bem", incomodado com a demora, depois de buzinar de modo ininterrupto de modo estridente, com buzinas ensurdecedoras de carros importados, lança, de quando em vez, repito, o carro por cima do portão. Um de quando em vez que me deixa perplexo. Já presenciei algumas vezes o portão quase sendo posto abaixo. Ninguém chama a polícia. O condomínio cobra a fatura do senhor nervosinho, ele paga, quando paga, e fica por isso, a vida social no Meireles, onde o poder público se adianta e não deixa os moradores fazerem reclamações, executando tudo como deve ser, está aos cacos.

Dilemas éticos e a pesquisa de campo sobre violência.

Amigos e amigas, vocês sabem que nós das ciências sociais estamos sempre fazendo trabalho de campo, não é? É a nossa forma de pesquisar e produzir conhecimento, sempre a partir do campo. Antropologia e sociologia são ciências de campo. Pelo menos como eu as entendo. Pois, vou relatar para vocês duas conversas e uma conversa observada: 1. Peguei um táxi na rua. Conversa vai, conversa vem, em determinado momento da conversa, o taxista me pergunta: o Sr. tem interesse em comprar uma arma? Tenho uma nova em folha, na caixa, etc. (Lembrem-se, não vamos generalizar e sair dizendo agora que os taxistas são traficantes de armas, ok?). 2. Conversando com um policial militar, ele me disse que ele teria medo de ligar para a polícia para denunciar um traficante de drogas. Vai que ele liga para algum policial que "trabalha" junto com o traficante, ou que algum policial bandido entregue a informação mediante alguma troca de vantagens com o traficante. Como policial militar, ele não recomenda a população a denunciar, pois é muito perigoso. (Lembre-se, não vamos generalizar e sair dizendo agora que os policiais são bandidos, ok?). 3. Os moradores de um prédio prenderam um ladrão dentro do condomínio. Fizeram a prisão, o ladrão estava com um outro, e este que estava com a arma de fogo conseguiu fugir, pela ameaça da arma, o outro que foi preso estava acompanhando e foi preso pelos moradores pois estava sem arma. Os moradores chamaram a PM. O carro da PM estacionou do lado de fora do condomínio, o PM disse para o morador que estava liderando a prisão: Matem o vagabundo aí dentro e joguem o corpo dele na rua, que a gente passa recolhendo depois, vira acerto de contas entre eles. Façam o serviço certo da próxima vez. E eu escutando tudo. Vida de pesquisador é assim. (Detalhe, não denuncio ninguém, se eu fosse fazer isso, tinha que deixar de ser pesquisador e virar promotor de justiça ou outra coisa parecida). Não guardo nomes, nem placas, etc. justamente para não saber de nada. Pois não é "investigação policial" que fazemos, é pesquisa sociocultural. Esse é o dilema ético que vivemos! Algo a ser discutido em algum momento. Compartilho com vocês.

Não vai trabalhar, não, meu filho?

Quando eu ainda era estudante de mestrado, a minha querida avó Josefa me fez uma visita, dessas visitas que iluminam a nossa casa pela presença de quem criou a gente que aparece de repente. Ela ficou olhando para mim e depois de um tempo me perguntou: meu filho, você vai passar o dia nessa biblioteca aí lendo livros, escrevendo nesse computador e sentado aí no birô? Num vai trabalhar hoje não? (para ela trabalhar era eu ir dar aulas). Ao que lhe respondi: vovó, eu estou trabalhando!

Homofobia e fascismo andam de mãos dadas

Alguém pode apoiar publicamente que um indivíduo aborde uma pessoa na rua, dizendo: "Está olhando o que seu viado? Segue seu rumo sua bicha". E depois dessa abordagem, quando o outro não aceita que "não consigo me conformar de que minha obrigação quanto gay é ouvir ofensas e seguir meu caminho" e após cometer tentativa de homicídio, o agressor justifica o crime, dizendo: "Apanhou de besta porque se tivesse seguido o caminho dele, não teria apanhado." Enfim, quando isso se passa e quando há pessoas que em público defendem esse tipo de atitude e mentalidade, estimulando práticas de violência homofóbica, o que podemos dizer dos incitadores? Daqueles e daquelas que se excitam incitando a tais práticas de aniquilamento dos outros? Só há um nome: fascistas.

Volta da Jurema: banho de mar de madrugada.

Vou ali tomar um banho de mar na Volta da Jurema, depois eu volto. Pessoal doido acha que eu não vou né? Mas é isso aí, a gente concebe e vai sendo concebido, é um ciclo, como dizem nossas avós, enquanto tomo banho de mar no pico de surfe da galera da Varjota, onde me banho nas ondas de janaína desde os 11 anos, fiquem aí, contentes e anestesiados, rapaces e disruptivos, membros da família, com Blue Train. Inté. Sejam felizes!

Comentário ao artigo de Plínio Bortolotti do O Povo do dia 6 de dezembro.

Eu estava esperando demais por este artigo do Plínio Bortolotti. A alienação da realidade das autoridades da segurança pública teve um ápice na informação que o comandante da PM deu para o secretário e que esse repassou para o governador que estava tudo sob controle na passagem do ano de 2011 para 2012. E não estava. Ambos passaram informação errada e continuaram no poder. O dia do medo, no dia 3 de janeiro, foi produzido pela alienação da realidade das autoridades e o governador Cid Gomes não fez nenhuma alteração na pasta. Nenhuma. Passou a mão na cabeça e acatou os erros de seus subordinados. Ou seja, assumiu perante todos que o erro é do governador. Depois disso, logo depois do dia do medo, a secretaria de segurança divulgou um mapa de estatística de baixíssima confiabilidade, ou seja, com informações estatísticas incorretas, distorcidas e com várias evidências de erro, sem falar em omissões graves, como dados de latrocínio. Fui juntamente com colegas à TV, programa Grande Debate, com Ruy Lima, fizemos ao vivo a checagem dos dados, mostramos documento oficial do governo que evidenciava a distorção dos dados apresentados e tudo o mais. Resultado: a secretaria de segurança pública, por meio de sua assessoria de comunicação, ligou para o programa, afirmando que não iria discutir com minha presença e fui qualificado de "pessoa irresponsável". Ninguém desmentiu o governo. O governo mentiu para a sociedade, apresentando dados irreais. Dois pesquisadores professores de duas universidades públicas (Glaucíria e eu) e um doutorando da UFC que é também um dos mais competentes jornalistas dessa área de apuração de dados da segurança pública, o Ricardo Moura, fomos todos desqualificados pelo governo, pela secretaria de segurança pública, e o silêncio da sociedade diante disso foi total. Segmentos dirigentes da Universidade Federal do Ceará, por exemplo, deram um show de cidismo e ficaram calados, sem nada dizer, diante de um professor da casa, sendo chamado de "pessoa irresponsável" por estar apresentando provas de que o governo Cid estava mentindo para a sociedade. O que foi que mudou na segurança pública? Nada. Sem falar na exoneração do César Barreira que estava fazendo um esforço hercúleo de superação de velhos e atrasados paradigmas que prevalecem na mentalidade de certos segmentos do oficialato da PM. Ademais, a presença de um coronel da PM, como secretário, fez da segurança pública um grande quartel. Reduziu o que era para ser complexo. Os homicídios explodiram. Foi exatamente o que eu disse lá no programa do Ruy Lima. Falei que em vez da redução que o governo Cid estava anunciando, tínhamos que falar de aumento. A imprensa local não repercutiu. Depois de semanas um jornalista me envia uma mensagem pedindo para eu enviar dados. Depois de semanas que a imprensa veio querer pautar. A essa altura eu já havia sido completamente limado e desqualificado pelo silêncio geral diante da denúncia. Ficamos totalmente isolados. Ações pelos bastidores do poder queriam até mesmo promover ingerência na instituição federal onde trabalho. Foi grave. Muito grave. Agora que os homicídios explodiram, que a tendência que tínhamos apontado lá em janeiro de 2012, depois do fim da aliança política da Luizianne com Cid é que o "consenso" geral que se exercia como, no mínimo, omissão (deixa ele falar sozinho contra o governo), pois não havia interesse de quase ninguém que críticas bem fundamentadas em dados fossem feitas ao cidismo-petismo no poder. A Ceará vive um retrocesso sem precedentes na pasta da segurança pública. A base de profissionais formada por policiais civis e militares está insatisfeita, sendo destratada, humilhada e sofrendo as mais diversas agressões morais e perseguições pela greve que realizaram, que fez do Capitão Wagner um líder político da cidade. Há indícios de que nesse final de ano as coisas vão piorar, que a violência difusa vai aumentar e há risco de paralisação de policiais pois o governo Cid não vem cumprindo os acordos. Diz que está cumprindo, mas colocou tudo no banho-maria. Uma manobra que faz a sociedade perder. E o que mudou nos quadros dirigentes, nas cúpulas da segurança pública, na pasta da Segurança Pública no Ceará? Nada mudou. Aliás, mudou para pior, pois a alienação da realidade, somada à sujeição política dos comandantes às estruturas de governo fez o Ceará voltar no tempo. Voltar aos tempos da polícia palaciana dos coronéis. E o bem comum da sociedade que tem direito à segurança pública de qualidade, governador Cid Gomes? É isso que se chama de competência e eficiência em seu governo? Os tempos exigem mudanças, começando pelo fim da alienação dos dirigentes.

O amor, o desejo e a liberdade entre moças e rapazes.

O rapaz pode gostar da moça. A moça pode gostar do rapaz. A moça pode gostar da moça. O rapaz pode gostar do rapaz. A moça pode gostar do rapaz e da moça. O rapaz pode gostar do rapaz e do rapaz. Os rapazes podem gostar da moça. As moças podem gostar do rapaz. O rapaz pode gostar de se tornar moça para gostar da moça ou do rapaz. A moça pode gostar de se tornar rapaz ou se tornar moça por gostar da moça do rapaz. O rapaz pode gostar tanto da moça que faz em si o corpo da moça por gostar de si, das moças e dos rapazes. A moça pode gostar tanto do rapaz que faz em si o corpo do rapaz por gostar de si, das moças e dos rapazes. A moça pode gostar de deixar de ser moça e de ser rapaz. O rapaz igualmente pode gostar de não ser dividido entre moças e rapazes. O rapaz e a moça podem habitar o rapaz ou a moça. A moça do rapaz pode gostar do rapaz da moça e vice-versa. O rapaz pode gostar do rapaz de outra espécie. A moça pode gostar da moça de outra espécie. O rapaz pode gostar do ex-rapaz ou da ex-moça. A moça pode gostar da pós-humanidade no rapaz ou na moça ou na pós-moça e no pós-rapaz. A moça ou o rapaz podem gostar de ser trans-moças ou trans-rapazes ou trans-trans. A moça e o rapaz podem não gostarem de estarem entre ser moça ou ser rapaz, a moça e o rapaz podem gostar de serem estranhos. A moça pode gostar do estranho que não gosta de ser moça ou rapaz. O rapaz igualmente. O rapaz pode gostar da moça. A moça pode gostar do rapaz. O que o rapaz e a moçam não podem deixar de cultivar é a força desejante de se imaginar Outrem. Somos todos e todas estranhos e estranhas. Da estranheza nasce a experimentação como a arte de viver morais possíveis que habitam matrizes de práticas múltiplas dos sentidos que fazem da imagem do feminino e da imagem do masculino os elementos sedutores de uma brincadeira de colar e montar. Somos todos colados e montados, coladas e montadas, descolados e descoladas, desmontáveis, alegorias de desejos. Experimente você também. A imaginação é poderosamente transformadora. Imaginação com senso de possibilidade. As virtualidades no devir-outro são o fogo das paixões. Saudações libertárias! Leonardo Sá

"ALTO CLERO" versus "BAIXO CLERO": uma questão de poder irresolvida (e a UFC sangra por dentro).

Só lamento muito que professores associados e titulares ligados ao PROIFES e à ADUFC tenham rachado a categoria ao meio, abandonando os colegas classificados como "baixo clero" a uma posição de absurda subalternização, enquanto o auto-denominado "alto clero" festeja amizades com o campo do poder, tendo fechado acordo que nos excluiu, a nós, da base. Será que trabalhamos menos? A Universidade Federal do Ceará está sangrando internamente. Crise de confiança generalizada entre professores/as. O pós-greve é um grande cemitério. Quem se arvora em alto clero tem que produzir o dobro da gente, no mínimo, se não a brincadeira fica muito desigual. Trabalhar com carga de trabalho equivalente ao de associado, ganhando a metade, não é legal, né? Claro que uma caça às bruxas, mapeando membros do alto clero que produzem menos do que adjuntos seria completamente contra-producentes, seria uma loucura, mas que dá vontade, dá! Claro que não podemos generalizar, pois entre associados e titulares temos uma maioria de colegas super produtivos, muito mais do nós, os de baixo. A crítica é endereçada ao fato de terem nos jogado na arena dos leões e dos gladiadores. Ou fomos nós que nos jogamos juntos? Saudações acadêmicas! Para os de baixo (os subalternizados) e para o andar de cima (os amigos da Dilma). Espírito natalino super presente na Universidade. Feliz natal!

Eu não sou feliz entre vocês no Facebook! Sinto muito!

Já que o Facebook tornou-se uma ferramenta terapêutica de extravasamento do vazio que nos assola, gostaria de fazer desse vazio o quinhão para a expressão do meu mal-estar profundo diante do que se chama felicidade. A felicidade não pode ser jamais um estado de coisas. E, enquanto meta, entre nós, amigos e amigas, a felicidade é uma meta que não existe, pois, no processo cultural, ou essa meta é esmagada pela força da unidade ou relegada a um segundo plano, a uma quase existência residual, na perspectiva do desenvolvimento do indivíduo (cf. Freud). Portanto, como vaticinaram os filósofos brasileiros Nelson Antônio da Silva e Guilherme de Brito "Tire o seu sorriso do caminho Que eu quero passar com a minha dor". A individuação é o caminho de sofrimento e daí extraio toda a fonte da alegria do meu viver. A cada suspiro, a respiração me faz voltar ao nascimento da tragédia. E la nave va... Ninguém pode ser feliz na comunidade humana. Livremo-nos do verbo ser e abracemos as miríades de devires-felizes do viver em perigo. Alegria, alegria! Leonardo Sá

A Copa do Mundo é nossa? Revista Radis, julho de 2011.

A Copa do Mundo é nossa? Na cidade de Fortaleza, os segmentos endinheirados já se comportam como seus pares de Bogotá, na Colômbia, pois também dirigem carros blindados importados, caríssimos, sob escolta de batedores armados em motocicletas possantes. Os seguranças são policiais militares, fora de serviço, fazendo bicos, a fim de ganhar um extra diante de salários baixíssimos. Aliás, o Ceará dispõe do pior salário médio do país e possui mais do que o dobro da média nacional de população em situação de pobreza extrema. Os poucos que vivem de modo suntuoso e exercem em restaurantes e lojas um padrão de consumo perdulário típico de camadas médias altas e altas globalizadas surpreendem até seus pares do Sudeste. As famílias ricas moram em bairros que se autonomeiam nobres, estão rodeadas por um terço da população que vive em favelas, onde o IDH-M não passa de 0,4 — quando muito —, em oposição ao de 0,97 da minoria nobre. Há décadas, a produção social do espaço urbano é conduzida pela lógica da segregação socioespacial, da higienização com segregação racial, que gera hierarquizações entre os segmentos populares, afro-ameríndios descendentes, e os segmentos brancos e morenos dominantes. O lugar de moradia é decisivo para a experiência social de um indivíduo, principalmente, no que tange ao acesso aos equipamentos urbanos de arte, cultura, lazer e àqueles que respondem pelos direitos básicos do cidadão, como escolas, hospitais, postos de saúde etc. O termo nativo dos ricos para classificar as distinções entre esses lugares, os nobres e os pobres, é revelador. Atribuir ao lugar o qualificativo de misturado, na perspectiva do discurso dominante, isso atualiza um simbolismo segundo o qual o lugar misturado é algo que deve ser evitado pelos membros da elite, como se autonomeiam os ricos e os poderosos cearenses, como forma de agrado a sua autoimagem, baseados em sentimentos de grandeza e práticas cotidianas autoritárias, com baixíssimo grau de civilidade burguesa. A burguesia cearense é composta por machos e suas mulheres em situação de subalternidade intensiva. Bons modos da civilidade burguesa típica ideal são rejeitados como coisa de baitola (termo homofóbico corrente). Nesse contexto cultural, evitar a mistura, não se misturar, não andar em ambientes misturados, desprezar e tornar invisível quem mora em periferia, favela, bairro pobre, lugares de mundiça (corruptela de imundície cujo uso nativo produz uma referenciação ao povão), são recomendações que as redes familiares da elite fazem aos seus rebentos para que aprendam a navegar na cidade como senhores, doutores, empresários, donos da situação, entre outros signos de distinção e poder agenciados nesse processo de subjetivação dos ricos em busca de mais sucesso, poder e dinheiro. Não é então que segmentos das camadas populares recebem de supetão o aviso, em tom de ameaça, de que serão removidos mais uma vez, entre as tantas remoções que marcam a memória social e histórica de suas redes familiares, a fim de que a feiura de suas vidas de pobres não prejudique a maquiagem da cidade para a Copa do Mundo? Estarrecidos, os segmentos populares tentam mobilizar suas bases de resistência e luta políticas. As vinhas da ira sem as vinhas movimentam os sentimentos de milhares. Mas os governos socialistas de Fortaleza e do Ceará reproduzem uma das mais lancinantes ironias da história do capitalismo contemporâneo. Conduzem, como um balcão de negócios, um processo que deveria estar pautado pelo direito democrático à cidade, para dizer o mínimo. Isto lhes valeu até uma repreensão da ONU, recentemente. Todavia, a ironia sem graça, já mundializada, está se repetindo no Ceará, governos autonomeados socialistas são os agentes de realização do caráter excludente da Copa do Mundo, como na África do Sul e alhures. Os discursos requentados, do século 19, sobre progresso a qualquer custo com o devido verniz ideológico da geração de empregos e renda, sempre para o bem da população, tornaram-se apanágios das “preparações” para que a Fortaleza “nobre” e “bela” possa se preparar para receber, com hospitalidade decantada, os representantes comerciais das firmas estrangeiras e nacionais, antes dos turistas, enquanto os segmentos hegemônicos destilam um velho ódio de classe àqueles que resistem contra as remoções cosméticas que reforçam injustiças e desigualdades há quase três séculos praticadas em nossa cidade. A articulação política de socialistas no poder em conluio com os megaempresários que os financiam para garantir a paz sem voz e o medo que quebra a resistência das camadas populares para os investidores dessa grande empresa chamada Copa do Mundo, qual gerentes corporativos, funciona como um sintoma de como a política está sendo esvaziada pelas bandas do Nordeste, como no restante do país, nesses tempos de salve-se quem puder e de dinheiro a qualquer preço. A Copa do Mundo é nossa? Nossa, de quem? Autor: Leonardo Sá* * Sociólogo, pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência e professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará.

Drogas levam ao crime?

Um amigo, para me provar que havia ligação causal direta entre uso de drogas e cometimento de crimes (o que não concordo) quis me provar dizendo que estava numa roda de colegas (empresários, médicos, advogados, contabilistas, executivos, publicitários, professores universitários, etc, todos eleitores de partidos "socialistas" no Ceará) e enquanto bebiam fartamente uísque de primeira qualidade (700 reais a garrafa), ele perguntou quem sonegava impostos, todos levantaram a mão ao mesmo tempo. Realmente, as drogas levam aos crimes, quis ele me convencer com essa evidência empírica. Tenho cada amigo, viu! Desse jeito, os programas policiais vão começar a botar os criminosos de colarinho branco na TV, dizendo: filhos diletos da burguesia e da pequena burguesia, por causa das drogas, viraram vagabundos perigosos e irrecuperáveis? Cadeia neles!!!???

Uso de drogas e ações criminosas

Se até para alguém ser punido por um crime hediondo foi preciso de autorização (pois somos todos consignatários da carta magna e é isso que nos torna possíveis alvos da imputabilidade penal), imagine para fazer coisas que não são crime, como uso recreativo de drogas. Quem praticar crimes, envolvendo ou não uso abusivo de drogas, terá que responder pelos crimes perpetrados perante a justiça. Simples. Essa associação necessária que se faz entre droga e crime numa relação causal é um grande engodo. Não há relação necessária. Há casos empíricos onde a relação é observável, o que mesmo assim passa longe de permitir afirmar alguma relação causal. De modo que pressupor uma relação causal universal (obrigatória e necessária) entre uso de drogas e crimes é uma grande fantasia coletiva, uma crença. Tudo, menos ciência. Viva David Hume! P.S: Antes de comentar: mas todo dia a gente está vendo crimes sendo cometido por causa da drogas! Por favor, antes de comentar isso, leia de novo o que escrevi. Leia com calma. Não aja com o impulso das emoções, mas com a faculdade da razão.

Empresas e trabalhadores, matéria de O Povo (comentário).

Empresas privadas consideram investimento público dos governos "socialistas" para o Pecém insuficiente. A sociedade cearense, de sua parte, considera os investimentos públicos dos governos "socialistas" para a melhoria da qualidade de vida das 900 mil pessoas que vivem em favelas apenas em Fortaleza insuficientes. A prioridade serão a empresa ou a favela? Governo tem pronta resposta e sociedade vem concordando: a empresa, ora, pois gera empregos. Ah tá! Ah tá! Exímios e espertos economistas nos tornamos, não é? Que saudade do bom pensamento econômico crítico! A miopia social do economicismo "socialista" não é apenas neoliberal, é também imoral. Discurso do "progresso" pela geração de empregos é considerado, na Europa e nos EUA, uma piada de mau gosto do século XIX.

Por que hoje é sábado

Aproveite que hoje é sábado e faça amor com quem você deseja. E como há um pouco de domingo nos dias, viva ao sábado e às feiras de desejo.

Charles Bukowski

Não sei por que eu gosto desse loucão do Charles Bukowski. Talvez por que tenhamos uma coisa em comum. Gostamos de Misto-quente.

Allen Ginsberg

Não sei por que eu gosto desse loucão do Allen Ginsberg. Acho que por que temos algo em comum. Gostamos de cumprir religiosamente o ritual da aula ou da leitura pública da palavra escrita.

Freddie Freeloader

Essa música é o bicho! Plena de sentido por todos os lados. Para quem ainda não a escutou, recomendo muitíssimo e para quem já estou duas centenas de vezes, como eu, nos últimos 20 anos, quando fui apresentado a Kind of Blue, também recomendo escutar de novo. Profunda, forte e elevada.

8 de dezembro de 2012.

8 de dezembro de 1980, há 32 anos, eu, criança de 7 anos, chorei horrores, assistindo ao Fantástico, noticiando o assassinato dele. Eu ouvia John Lennon desde o berço. Todos nós ouvíamos. O mundo inteiro. Ainda causa dor essa perda. Já passei o legado de pensamento dele e os repertórios musicais para minha filha. Ela já sabe quem foi John Lennon e poderá passar para novas gerações. Nós temos lado!

A guerra é aqui

Alguém me explica por que, de um lado, o bairro Meireles em Fortaleza tem um IDH de 0,916 (melhor do que o IDH de Holanda, Canadá, Alemanha, Suécia, Suíca, Japão, EUA, Dinamarca, Bélgica, França, etc) e, de outro lado, bem pertinho Serviluz tem um IDH de 0,386 (pior do que o IDH de Afeganistão, Ruanda, Haiti, Timor-Leste, Bangladesh, Iraque, Síria e Palestina, entre outros). Alguém me explica por que depois de 8 anos de governos "socialistas" aliados, da Luizianne com o Cid, os respectivos IDH-M permanecem no mesmo patamar de desigualdade. Ou estou delirando novamente?

Internação compulsória é direito ou é direita?

Sou a favor da internação compulsória por uso de drogas só se for a minha e com minha autorização. Nos outros casos, sou totalmente contra.

Uso de drogas e violência.

Sobre a relação entre uso de drogas e práticas de violência proponho uma leitura diferente da usual ou pelo menos me esforço para fugir da interpretação usual segunda a qual as drogas levam à violência e ao crime. O uso recreativo de substâncias psicoativas potencializam várias coisas. Por exemplo, na esfera social do erotismo, quando as pessoas buscam umas às outras para namorar, elas podem usar vários componentes para potencializar a atração e a mútua sedução. Ler poemas, usar perfumes, ver filmes no cinema, jantar num restaurante pratos com especiarias que causam sensações diferentes na experiência do paladar, ou seja, as atitudes amorosas podem recorrer a vários elementos de potencialização da experiência amorosa e erótica. Ouvir música e também, para algumas pessoas, usar substâncias psicoativas que alteram o estado de consciência podem ser formas, práticas de potencialização do prazer a dois. O "pico" de uma droga (vinho, maconha, etc.) cujo uso é recreativo e para fins eróticos pode convergir com o "pico" de um outro tipo de atividade orgástica, fazendo a potencialização de tudo isso e gerando experiências inesquecíveis para seus praticantes (os amantes). A mesma coisa acontece com as atitudes agressivas que foram socializadas segundo padrões de violência física e simbólica contra os outros. O uso não apenas recreativo, mas abusivo de drogas já é algo que é estimulado pelo padrão masculino em geral de socialização violenta. A droga ilícita ou lícita (álcool e crack, por exemplo) pode se tornar um importante elemento de potencialização da prática de violência induzida pelos padrões de comportamento social inculcados para a violência. O uso abusivo da droga numa experiência sexual, erótica, pode resultar numa overdose e numa tragédia. E o uso abusivo da droga numa experiência agressiva, violenta, pode resultar numa explosão de violência contra si e contra os outros. O problema é o tipo e a natureza da experiência sociocultural que está na base do uso social. O experimentalismo cria mecanismos de auto-controle também. Ou seja, não há nada comprovado que álcool e drogas ilícitas favorecem ações violentas de modo abstrato e em qualquer contexto e condição de socialização. Só há comprovação desse favorecimento em condições sociais específicas bem circunscritas onde padrões de socialização para o uso da violência física e simbólica se fazem presentes como condições de inteligibilidade da relação existente em cada caso concreto. Os países que são os maiores consumidores de drogas ilícitas do mundo não são necessariamente os mais violentos se os padrões de sociabilidade e o grau de intensidade de conflitualidades ocultas não-mediadas por mecanismos sociológicos não-violentos não acompanharem os padrões de consumo tendencialmente abusivo devido a potencialização que o padrão social realiza sobre a droga, sobre o uso da droga, e não o inverso.