Saturday, December 29, 2012
O tempo e o vício. (reescritos).
Com o tempo, os vícios de caráter, os principais, se cristalizam. É o que se chama amadurecer, como em algum lugar escreveu Proust. Quando li essa ideia pela primeira vez, no tempo em que ainda se acentuava a palavra ideia, eu não parei mais de recorrer a ela nos mais diversos contextos de reflexão, de usá-la em várias ocasiões e situações de conversa, não apenas para parecer sabido ou melhor ou fatalista ou qualquer outra atribuição negativa de valor que os que me antipatizam como uma alma gêmea do cão, enfim, a força dessa ideia não remete ao querer viver uma vida alcunhada, vida nomeada, vivida presumidamente como significativa, mas isso seria outra história. Depois de anos, percebi que a ironia da história: o tempo decorrido é uma baita de desculpa esfarrapada para quem quer justificar algo pelos vícios cristalizados que possui. Não antes dos meu próprios vícios, nem após tê-los emoldurados, dei-me conta de que o tempo não corre. Que maluquice é essa de por o tempo para correr? De qualquer modo, não se pode depor contra a eficácia simbólica da motivação da própria malvadez, falta de esperança, ruindade, mesmo, naquilo que seria um simples fato abstrato da vida universal e etcetara. O tempo é um fato? Desde quando? Em que tempo ele assim se fez? Fazer o tempo correr, porque o tempo corre é o motivo de um quase parricídio, não fosse o Tempo apenas filho da Terra; trata-se da cristalização da própria personalidade. Era uma vez o tempo cristalizando os vícios numa personalidade cristã ou numa personalidade rapace. E lá vou eu de novo em busca do tempo perdido. O tempo corre ou o tempo escorre? Cristalizam-se os vícios e Deus se faz mundo. E chega, porquanto, o tempo de empunhar as ferramentas próprias para inventar o tempo, arborizar o Nome Dele, chamar para si todos os artifícios da nomeação. Modo de não esgotar o que se guarda em segredo. Manejo de vitalidade. Queria saber inventar mundos como minha amiga que há anos o tempo levou pela brutalidade e ignorância de um tiro desferido contra o corpo dela, corpo que tecia o mundo, desfazendo-o dos vícios que o paralisam.
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