Tuesday, August 28, 2012

Greve na UFC e o esfacelamento da democracia interna: uma breve análise das desrazões.

A expansão dos campi da UFC produziu um nova realidade, uma nova composição do perfil dos quadros de professores da instituição. As mudanças no processo de recrutamento de quadros, na própria lógica social própria ao seu modo de inserção, nos trazem bons elementos críticos para refletirmos coletivamente sobre nossas relações internas. Ninguém precisa ensinar missa ao vigário, todos/as sabemos que reflexões públicas sobre o funcionamento das relações de poder do campo acadêmico na universidade ainda são em larga medida um tabu. Falar entre nós sobre as novas hierarquizações que estão sendo produzidas com a entrada de novos quadros, entre os quais me incluo, soa como se referir às práticas de proibição e aos rituais negativos relacionados a elas, afinal é tabu tudo aquilo em que não se pode tocar, pois sancionado por forças divinas, e cuja quebra de protocolo precipita o risco do opróbrio ou até mesmo da perda da própria vida num sentido simbólico, que é o que determina o sentido da morte social. Venho de uma geração recente cujas expectativas de realização foram duramente barradas pelas políticas de desrealização da carreira de docente em universidades públicas pelos governos de FHC. O desinvestimento na educação superior pública foi um impulsionador para o avanço de faculdades e centros universitários, para a formação desse mercado em novos moldes. Uma vez que instituições privadas de ensino superior, como PUC, baseavam-se no modelo de funcionamento da universidade pública e por isso entraram em crise conjuntamente com esta. As instituições privadas de ensino que surgem impulsionadas pelas mudanças na LDB promovida pelo senador Antonio Carlos Magalhães contra o texto de Darcy Ribeiro e com as desobrigações de investimento em pesquisa e extensão que impuseram formaram um grande mercado sob a égide dos governos federais, tanto de FHC, quando de Lula. Aliás, os governos de Lula, que nos deram alentos em termos de recuperação da autoestima e da confiança para a retomada da universidade pública como carro chefe, tão baixas eram nossas expectativas que haviam sido vilipendiadas pelo governo FHC que passamos a dar carta branca ao governo Lula, como se tudo fosse permitido, uma vez que há uma prato de comida sobre a mesa. Enfim, independente das críticas que possamos apontar sobre as fragilidades desse processo político, Lula também atuou como agente governamental de consolidação do mercado das particulares e é muito mais querido pelas mantenedoras destas empresas do que FHC o foi. Durante nove anos, pude acompanhar esse movimento de supervalorização de ações para consolidar o mercado das particulares, pois estive como mão de obra precarizada nesse processo, juntamente com milhares de colegas que foram lançados nos braços desse mercado como mão de obra ávida por empregos devido ao fechamento imposto às universidades públicas pela quase suspensão total de concursos públicos. Somos os deserdados de FHC, como discuti em uma conversa memorável com a colega Dani Nylin, há mais de uma década, quando éramos ainda doutorandos. Somos jovens, mas experientes nos travejamentos de trabalho acirrados e desgastantes próprios ao mercado privado, onde sofremos os mais diversos constrangimentos sociais e aprendemos a resistir para não ceder à lógica despudorada de funcionamento da empresa privada desregulamentada, fazendo todo tipo de manobra para baixar custos e o valor de nossa hora-aula, principalmente. Há um detalhe que não podemos perder de vista. As faculdades particulares e centros universitários não produzem para o mercado, são arranjos que produzem seu próprio mercado. Grande parte do impulso que tiveram foi devido às demandas reprimidas por titulação superior na sociedade brasileira, demandas que vinham sendo barradas pela falta de investimentos na expansão da universidade pública. Neste sentido, expandir universidade pública é uma importante meta nacional, mas não podemos expandir com precarização, como foi feito no universo privado, e com a conivência do MEC, que deveria fiscalizar para garantir qualidade no processo. Não somos contra a expansão das universidades públicas, somos a favor da expansão da universidade pública gratuita e com qualidade, sem precarização de condições de trabalho, de estudo e de pesquisa. Nas privadas, fomos “dadores” de aulas em situação precária, durante anos não recebíamos nem mesmo férias, nem décimo terceiro, nos tempos das "cooperativas", era tudo muito instável e extremamente volúvel, garantindo o "sucesso" político do Prouni a nossas expensas. Como todos estão acompanhando, o valor da hora-aula nas particulares vem despencando vertiginosamente nos últimos anos. Nesse sentido, quando governo Lula, com Reuni, que deu fôlego ao expansionismo, muitos colegas que estavámos nas privadas são empurrados de volta para o ninho de onde tínhamos sido escorraçados por políticas deliberadas de exclusão pelo governo FHC. Ocorre que, ao voltarmos, encontramos uma expansão realizada a qualquer custo, o que para bom entendedor, significa ao nosso custo, ao custo de nós que estamos entrando, da nossa força de trabalho e de salários que pagam a metade ou menos do que ganhávamos nas já precarizadas empresas privadas. Ocorre que já vínhamos fazendo exatamente isso nas privadas, sustentando nas costas o Prouni. Já entramos vindo da luta. Fomos demitidos de faculdades particulares por querermos iniciar novas formas de associativismo sindical. O fosso entre colegas que estão entrando e colegas estabelecidos há mais tempo na universidade tornou-se enorme, portanto, uma vez que estamos lidando com choque entre expectativas sociais, há um componente intergeracional, pois alguns colegas titulares e associados na universidade estavam acostumados a nos ver pelas lentes cômodas de ex-alunos recém doutorados acostumados a viver de bolsas e, portanto, com baixas expectativas que favorecem a precarização que reina para os recém-ingressos. Cometeram um grave erro de leitura. Pois não perceberam que vínhamos de realidades de luta e de superexploração da nossa força de trabalho, um novo precariado, portanto. Quando falo das divisões, não falo apenas da questão salarial que divide o professor associado do restante, mas das relações de poder e é sobre elas que gostaria de concentrar minha atenção. A própria ideia de que a universidade deve formar para o mercado, por exemplo. Essa é uma das controvérsias mais mal formuladas e que mascara uma série de questões. A divisão entre segmentos que defendem a universidade de formação em oposição aos que defendem universidade de treinamento para o mercado é falsa e esconde outras questões. A principal questão escondida, escamoteada aí, é a de que a divisão não é entre formar competências para o mercado ou não, pois numa sociedade de mercado a formação de competência está em função das injunções dos mercados de trabalho. Trata-se muito mais de uma luta pelo poder em que se pretende definir a natureza política e a qualidade crítica dos egressos da universidade. Para o mercado ou para a vida são duas posições antagônicas, grosso modo, que revelam que para além das discussões sobre competências e habilidades há uma luta política pela definição do perfil do egresso, em termos de produção de subjetividade do egresso e de nós mesmos. Estaríamos formando egressos que desejam o mercado e o estado, que desejam serem vencedores de sucesso, se inserindo nas zonas intermediárias de camadas gerenciais do capitalismo contemporâneo, ou estaríamos formando egressos que irão, pela perspectiva crítica, dificultar o travejamento das relações empresariais enquanto paradigma societário? Ou seja, a real oposição é entre desejar “o sucesso, o dinheiro e o poder”, como dizia Freud, no início do Mal estar na civilização, ou então, desejar autonomia, emancipação, democracia, liberdade e criatividade, como diria Paulo Freire, um autor reverenciado na Universidade, muitas vezes, para ser expurgado tacitamente. E engana-se redondamente quem associa de modo mecanicista e determinista o egresso que deseja o desejo do Estado e da Empresa e o egresso que deseja a partir de uma recusa ativa desse desejo de Estado e Poder, conectando como se os bem-sucedidos seriam os de adesão fácil aos modelos hegemônicos e os que resistem ao imperativos do capital seriam formados pela massa falida. Existe no mundo contemporâneo uma relação estreita entre “competência” e recusa ativa das escravidões do mundo contemporâneo ligadas ao funcionamento da vida social como empresa de crédito, ou seja, baseada no principal mecanismo da dominação contemporânea que é o da dívida, do endividamento, e sobre isso seria importante realizarmos uma discussão pública sobre a relação entre professores/as e empréstimos consignados descontados na folha. Essa máquina estranha de dominação que afeta nosso ambiente interno de modo quase invisível. A grande maioria de nós que estamos entrando agora já estamos endividados nos consignados, pois precisamos bancar a transição da empresa privada para a Universidade e as defasagens que encontramos em termos salariais entre um ambiente e outro. Do ponto de vista específico da composição da renda, informalmente, há tendências na universidade que apontam como solução de salários baixos face ao perfil de exigências de qualificação que nos são demandadas de realizar a complementação de renda com consultorias e assessorias para governos e empresas, um modo de gerar aportes financeiros individuais compensatórios, que são também aportes de poder e status capturados no processo de empresariamento da nossa mão de obra e capitalizados para as hierarquias internas, deixando assim o salário recebido na universidade como secundário diante desses aportes e como secundária a própria atividade na universidade. E não esqueçamos, isso é feito, o empresariamento, usando o enorme capital simbólico e intelectual que esta inserção possibilita ao se acionar recursos da massa crítica universitária pondo-se a serviço dessas consultorias e assessorias públicas e privadas, algumas dentre elas bem escusas e que ferem os princípios republicanos do bem comum. O pertencimento à UFC é primário, é decisivo, é fundamental para a mobilização de serviços de consultoria e assessoria, bem como outros tipos de empresariamento da nossa mão de obra, mas a função da universidade passa a ser derivada, o que esvazia politicamente o sentido da nossa posição. Claro que não há aqui uma condenação tout court das consultorias e assessorias, havendo inclusive decisões da administração superior de regulamentação de fato, a partir de algumas diretrizes tomadas desde a década de 1990, disponíveis no site da UFC disciplinando esse tema. Do ponto de vista da reprodução da força de trabalho na instituição, precisaremos desenvolver pesquisas empíricas capazes de nos devolver dados que problematizem a nova configuração das relações de trabalho na universidade e, em especial, estudos que possam fazer a sociografia do novo perfil do professor e da professora. A pergunta de partida seria "como novas hierarquizações de poder estão sendo produzidas pelas práticas atuais de expansão, de intensificação do trabalho docente e nas relações com mercados de poder e de dinheiro?" Pelo que podemos depreender de conversas com colegas de outras IFES, os temas que estou apontando de maneira ligeira aqui podem ser pensados como extensivos ao plano nacional. O campo acadêmico é um dos campos de poder mais refratários a se deixar analisar pelo mesmo tipo de análise com que opera para analisar outros campos de poder, isso todos nós estamos conscientes. Há uma forma de classificação que opera a partir de conversas cotidianas entre colegas na universidade que é reveladora de uma divisão que gera um princípio de visão sobre o funcionamento do nosso mundo social: trata-se da oposição simbólica entre “alto clero” e “baixo clero”. Lugar e santificação são os procedimentos dessas classificações. Lugares de poder que buscam a santificação de um modo que não se traia ideias caras aos ideais de funcionamento do campo acadêmico, como: democracia interna e pluralismo. Tenho percebido que nas relações com o campo do poder (governamental e empresarial) colegas estão sendo classificados informalmente pelo termo “amigo da gente" (fala de assessores de governos). Por exemplo, quando um professor da universidade faz críticas públicas a ações de governo, pode receber (e recebe com frequência) telefonemas de assessores de governo perguntando se o professor não é mais “amigo”, se está deixando de ser “amigo da gente". Ingerências dos governos estaduais no âmbito da universidade federal precisam ser discutidas publicamente. E há vários níveis de ingerência política que podem ser observados. Há, por exemplo, jogo de indicação de cargos semelhante, pelo que tenho lido nos jornais, ao que está acontecendo no BNB, e há indícios de que isso também vem acontecendo na administração superior da UFC. Deputados influenciando na distribuição de cargos, relação de submissão e subserviência política da UFC diante de governos estaduais, entre outras dinâmicas de poder político, que são apenas discutidas em círculos pequenos e a boca miúda nos recantos da instituição. A própria anexação de segmentos docentes a lógica de luta pelo poder dos atores sociais às ansiedades referentes ao comando da administração superior revela o tamanho do problema. Do ponto de vista das classificações políticas de assessores do campo governamental estadual, por exemplo, pode-se observar que na UFC os professores e professoras são divididos entre quem são “amigos” e quem não são amigos do governo e das empresas. Esses termos não são utilizados na esfera pública, mas certamente em espaços públicos miúdos, de pequenas reuniões e encontros, são termos informais operacionais e operatórios do tipo de divisão que se estabelece no âmbito da universidade. Outra divisão que também opera como princípio de visão e quem vem sendo uma fonte considerável de conflito, de luta, competição, agressão moral e divergências políticas passa pela divisão entre “licenciatura” e “bacharelado”, que é só uma maneira mascarada de outra oposição entre “graduação” e “pós-graduação”. Efeitos de hierarquização fomentados pelo produtivismo acadêmico estimulado, o caso das relações entre Pró-Reitoria de Graduação e Pró-Reitoria de Pós-Graduação evidenciam isso: entre a competição e a cooperação, a administração superior virou lugar de luta encarniçada pelo poder para se haver com o campo do poder de fora, dos governos e das empresas. Entre os vários temas que poderíamos listar para que pudéssemos fazer um debate sindical mais atento às questões internas, estariam: a) O Projeto Casa e o estágio probatório. Entre ideais e práticas de poder. b) Adoecimento docente, insultos morais, assédio moral. c) Relação desumana com terceirizados das equipes de limpeza, zeladoria e segurança. d) A loucura cotidiana dos carros e dos estacionamentos. Na contramão da mobilidade urbana. A questão da segurança nos campi. A reprodução de critérios alógenos nos modos de organização da vida acadêmica e universitária. e) Banheiros trancados exclusivos versus banheiros de livre acesso sujos e abandonados. Papel higiênico nos banheiros e água potável para beber. f) A vida cotidiana na universidade. O campus enquanto campus de convivência. g) Participação de professores e professoras em rituais de comensalidade no restaurante universitário (ausência de convivência). h) Usos das bibliotecas e renovação do acervo. Força tarefa para isso. i) O departamento como parlamento e a relação de departamentos com faculdades, centros e administração superior. A destituição da dimensão parlamentar dos departamentos nos campi do interior. Os colegas do interior estão sem departamentos constituídos, isso fere a base da nossa autonomia. j) A despolitização da política acadêmica e a tecnocracia. l) Consultorias e assessorias para campo governamental e empresas privadas. Relação da Universidade com interesses de mercado induzido pelo campo governamental. m) Papel de avalista e de legitimação de empreendimentos privados e públicos. Caso do Estaleiro, das Remoções para a Copa, do Aquário, da Segurança Pública. A nossa derrota sindical diante do governo se tornará em derrota política, uma vez que a vida interna se tornará infernal com tantas distâncias e tamanhas incertezas. Mas não sou pessimista, precisamos nos solidarizar para pensarmos coletivamente os encaminhamentos menos prejudiciais para nossa unidade interna. Os colegas mais experientes só não podem continuar pensando que "os meninos", o "baixo clero", como alguns segmentos nos classificam, somos menos colegas do que outros. Afinal, estamos todos e todas trabalhando duro e com afinco para honrar a excelência acadêmica de uma instituição central para a vida democrática do país. Saudações acadêmicas!

Monday, August 27, 2012

Sobre greves nas Universidades Federais: uma reflexão pessoal.

Queridos/as amigas e amigos, Quando eu trabalhava no setor privado (faculdades privadas), a maior alegria era o lugar de relação humana que conseguíamos gerar com estudantes em sala de aula. Vivi experiências maravilhosas. Aprendi muito também sobre planejamento e gestão acadêmicos com colegas que estavam em posição de coordenação. Mas como no setor privado não há investimento em produção de conhecimento científico e as atividades extensionistas são sempre boicotadas pelos dirigentes com a finalidade de cortar custos, esses dois pontos faziam da experiência da sala de aula com alunos e alunas o ponto forte da realização profissional. Mas os livros, os artigos, os projetos de pesquisa, a dedicação à excelência acadêmica nas três dimensões que fazem o tripé do conceito de Universidade (pesquisa, ensino, extensão) só pude encontrar quando adentrei no universo das IFES. Apesar de no setor privado ganhar o dobro do que ganho hoje na UFC, e apesar de não cumprir mais apenas 40 horas semanais, uma vez que na UFC, apesar de ser DE com 40 horas, eu trabalho 60 horas, como a maioria de meus colegas, que usamos quase todos os sábados e domingos para produção acadêmica (os nossos currículos lattes são de consulta pública e evidenciam essa produtividade), ou seja, apesar dos pesares (do salário baixo, da carga horária superior, de sistema de avaliação, monitoramento e prestação de contas mais rigoroso, etc), é uma grande alegria poder fazer parte dos quadros de uma Universidade Federal. Forte motivo de orgulho e realização profissional. Orientar teses, dissertações e monografias, realizar pesquisas, publicar livros e artigos, participar de trocas acadêmicas internacionais, conviver com pessoas (estudantes e colegas) apaixonados pelo saber, enfim. Tudo muito interessante. Será que é por isso que estamos sendo punidos? Estamos sendo punidos por sermos altamente produtivos e também realizados no trabalho? Quando ouço por aí pessoas (e até estudantes nossos) falando que os professores são "preguiçosos", ou que não entendem da realidade real, etc. Fico me perguntando de onde estão tirando essas afirmações equivocadas e errôneas sobre nós, de onde estão sacando esses preconceitos e no interesse de quem. Sem ciência e tecnologia de ponta, sem formação altamente qualificada de recursos humanos que as graduações e pós-graduações das universidades federais oferecem, haveria como sonharmos com liberdade, desenvolvimento, soberania e um país justo e igualitário? Saudações acadêmicas! Post Scriptum: "O Ipea avaliou a evolução da diferença de produtividade entre esses dois setores entre 1995 e 2006. “Em todos os anos pesquisados, a produtividade da administração pública foi maior do que a registrada no setor privado. E essa diferença foi sempre superior a 35%”, diz o presidente do instituto, Marcio Pochmann (foto). “Há muita ideologia e poucos dados nas argumentações de que o Estado é improdutivo, e os números mostram isso: a produtividade na administração pública cresceu 1,1% a mais do que o crescimento produtivo contabilizado no setor privado, durante todo o período analisado”, acrescenta." Carta Maior - Economia.

Relato de uma briga por causa de greve

RELATO DE UMA BRIGA ENTRE UM ALUNO E UM PROFESSOR POR CAUSA DA GREVE, quase deu em morte e a culpa ia ser da Dilma, se não, vejamos: Existe um raciocínio alimentado por segmentos do governo e da sociedade que o professor da universidade está reclamando diante de um quadro onde o trabalhador brasileiro em geral está em situação muito pior. Ou seja, tentam deslegitimar nossa greve com esse tipo de argumento. E o pior é que cola, sabe! Um dia desses um aluno me abordou dizendo que não entendi como eu estava de greve se eu ganhava dez vezes mais do que ele. Ele que ganhava 600 reais líquido e eu que ganhava 6 mil reais líquido. Aluno de militância de esquerda, certo? Ou seja, pró-governo de esquerda do PT. Aí nesse caso eu confesso que fiquei com raiva e meu lado educador foi pra cucuia. Disse assim para ele: pois vamos fazer o seguinte, enumera dez tarefas do teu trabalho e eu vou fazer o mesmo, a gente troca durante um mês. Você cumpre as minhas dez tarefas e eu cumpro as suas dez tarefas. Vamos colocar no papel. Pedimos uma cerveja e fomos ao desafio. Cada tarefa minha ia render para ele 600 reais e cada tarefa dele ia render para mim 60 reais. Era essa a base de troca imaginária. Eu assumi todas as tarefas dele e ganhei 600 reais dele. Ele não tinha qualificação, competência, titulação, treinamento, formação, etc. para assumir nenhuma das minhas tarefas, ou seja, perdeu a oportunidade de ganhar 6.000 na moleza, falei para ele, com ironia, misturada com raiva. No final, como vi que ele ficara cabisbaixo, se sentindo humilhado, e era a minha intenção humilhá-lo, para deixar de ser abestado na defesa do governo do PT, resolvi ficar bonzinho de novo, aí falei, colocando a mão no ombro dele e pedindo nova cerveja: -- Meu caro, deixa que eu pago essa, ok! Mas, por favor, avisa lá pro teu governo que abolir a hierarquia trabalho intelectual e trabalho manual só no socialismo, pois no capitalismo, isso vira balela, beleza? Aí citei um trecho do Capital sobre isso e começamos uma aula gratuita, regada a cerveja sobre as condições capitalistas de exploração econômica da classe trabalhadora e como a divisão social do trabalho funcionava como condição histórica disso tudo. Saímos bêbados e felizes pois a Universidade nos aproximou naquele momento de troca humana, enquanto chorávamos nossos leites derramados. Ele, o leite derramado de um proletário fodido de explorado até a alma, e eu, o de um proletário fodido de explorado até a alma.

As pequenas mãos em assistência ao trabalho de dominação

Historicamente, certas frações e segmentos das camadas médias usaram os períodos eleitorais como forma ou de compensar perdas financeiras, patrimoniais e inflacionárias ou de obter ganhos financeiros e patrimoniais. Além da luta por obter prestígio, de um ponto de vista estritamente econômico e financeiro, o "apoio", o "voto", a "militância" foram tratados como mercadorias políticas em troca de favores e de recursos de diversos tipos. Trocando em miúdos: período eleitoral para esses setores de classe média sobre os quais estou me detendo aqui significou possibilidades de ganhos simbólicos de poder e prestígio e também materiais, que podem ser evidenciados pelo "carro novo", pela quitação ou aquisição de novos imóveis, viagens para o exterior, ou seja, ganhos financeiros e patrimoniais alavancados pelo "trabalho" realizado em troca de alta remuneração para campanhas milionárias, sem falar nos cargos, consultorias, assessorias, projetos e outros mecanismos remuneratórios que são obtidos no pós-eleição pela ocupação da máquina de gestão pública. Em Fortaleza, por exemplo, "trabalhar" para as campanhas milionárias é um modo muito rápido para a realização de poder aquisitivo e patrimonial imediato. Cálculos tímidos podem ser feitos. Um quadro técnico com alto nível de escolaridade, um quadro de colarinho branco, pode abocanhar de 6 mil até 20 mil por mês, líquido, dependendo do nível de comprometimento. Em três meses de campanha, é possível juntar um patrimônio líquido de 60 mil (um carro novo), se o sujeito for tímido, se não for arrojado, pois sendo arrojado essas somas saltam a patamares inefáveis. Uma das tarefas destas pequenas mãos de classe média de colarinho branco é o de aliciar outras pequenas mãos da mesma classe para aderir ao trabalho de dominação em prol de campanhas milionárias, envernizadas com discursos ideológicos das velhas e novas esquerdas paradoxalmente "neoliberais do neodesenvolvimentismo", que colegas cientistas políticos me perdoem o arrazoado neste sentido. Em nome do "progresso", todo tipo de negociata, muitas vezes envolvendo atos espúrios, se realiza sob os auspícios da plutocracia que se apoderou da vida política no país, despolitizando-a. Quando colegas começam a comentar no dia a dia o tipo de proposta que estão recebendo para trabalhar nas campanhas milionárias, e como são tentadoras, e como são cínicos na malversação da moral pública os outros colegas aliciadores, vamos percebendo que a tentativa de fazer da política uma máquina de investimentos de dinheiro, de sucesso e de poder tornou-se um estilo de vida para muitos projetos individuais de ascensão social. Colegas formadores de opinião e eleitores de voto múltiplo, se estiverem se sentindo excluídos, adotam estratégias discursivas de forte oposição às gestões e assim logo começam a aparecer propostas de captura. O famoso cala a boca, que pode vir na forma de cargos, consultorias, assessorias, projetos, etc, como já disse acima. De um dia para a noite, colegas que estavam a vituperar contra os governos passam ao silêncio omisso ou ao elogio bajulador. A transformação é rápida, e todos notam o impacto que dinheiro no bolso, que liquidez na conta corrente, mas, principalmente, a imitação do estilo de vida dos endinheirados traz para os vendilhões do templo que são as pequenas mãos que se engajam no jogo sujo do período eleitoral. Mas não nos deixemos ficar pessimistas, pois nada é impossível de mudar! Outro mundo é possível. Apenas precisamos estar do lado certo nesse campo de luta que é o lado da democracia real, a vidas social libertária e igualitária que almejamos e desejamos, contra a podridão do que aí está a transformar a cidade em mercadoria, atuando como mercadoria no mercado do trabalho de dominação, que desejam o desejo da morte, através das valorações vazias e neuróticas em torno do dinheiro e de suas fantasias. As militâncias reais são compostas por nossos desejos de liberdade. E desejos de liberdade produzem o real estado da luta que abraçamos. Somos muitos/as. Sejamos mais, nos multipliquemos. Quem é de bem, quem é de luta, quem é da base, escolhe o lado certo. Vamos que vamos.

Armados até os dentes

Como professor, eu tenho um imenso acervo de "armas" na minha casa. São quase três mil armas. Armas de filosofia, história, pedagogia, de antropologia, de sociologia, de linguística, de literatura...enfim, armas de todos os tipos de calibre, armas de fogo, armas brancas, armas de alta precisão. Afinal, como diz Ani Franco, na epígrafe da arma feita por Michael Hardt e Antonio Negri, "sabendo portá-la, toda ferramenta é uma arma". Vou me armar um pouco com uma "faca" maravilhosa que estou usando no momento, de autoria de Paul Auster, um dos melhores fabricantes de facas militares do mundo, e volto para o FB depois que acabar de usá-la, faltam apenas 90 páginas, a adrenalina está a mil, é uma faca chamada Leviatã, muito empolgante. Abraços colegas de armas.

Carta aberta às lutadoras e aos lutadores

Uma nova política não é algo que brota de um plano mirabolante daqueles e daquelas que tudo sabem, que tudo compreenderam e que, por conseguinte, se arvorariam em porta-vozes de um futuro que não está aí, que não nos implica ainda, um futuro a se realizar como um estado de coisas que haveria lugar após a derrocada do atual e deplorável estado de coisas. Uma nova política não é propriamente falando um estado de coisas a se instaurar no futuro redentor que expiaria o que há de maligno no estado presente das coisas desse mundo que aí está. Uma nova política não é nada mais do que uma espiritualidade política, uma multiplicidade de políticas de existência contra-hegemônicas correndo lado a lado em um processo aberto à aprendizagem daquilo que é a terceira margem dos nossos devires que envolve tudo o que nos alimenta em nossas lutas, mas igualmente tudo aquilo que nos fazer avançar em nossas experimentações de campos possíveis, compossíveis, no aqui e agora de nossas lutas por liberdade e pelas condições políticas, sociais, históricas e coletivas de nossas práticas de liberdade. Uma nova política é o movimento de sensibilidades estéticas, políticas, éticas cuja força de experimentação, no desejo do desejo de processos abertos, de uma luta que se aprende, em que se aprende e na qual nos produzimos coletivamente enquanto sujeitos de aprendizagem. Um movimento de incitar nossas próprias capacidades de pensar, sentir e viver de outro modo, não em outro mundo, pois outro mundo, classificado como não-real, irreal ou fantasioso, só pode ser assim classificado por um mundo de negatividade e dominação, ou seja, as acusações raivosas e medrosas daqueles e daquelas que se encontram no triste estado de adoradores da Morte, essas imprecações que segmentos enquadrados e enquadrantes fazem de que nossos desejos são fora da realidade, tirante suas paranoias, delírios e perversidades, que fazem de seus estados de fantasia, a literalidade da realidade na qual não desejamos estar, tem alguma plausibilidade. Nós, enquanto nos movimentamos na experimentação de nossas capacidades de pensar e sentir o mundo diferente, fugimos com todas as nossas forças de criação dos mundos e das realidades que nos oprimem, o que dizer que estamos a nos lançar no mais profundo real, o real enquanto fluxos de desejos, o real como imaginação criativa e afirmativa de que nada é impossível mudar, pois outros mundos são possíveis. Nossos desejos são mais reais do que os estados de fantasia nos quais os seres assujeitados desejam o desejo do assujeitamento do outro, pelo contágio da forma de morte que deles se apoderou, roubando-lhes a alma, o espírito e a força de criação. Uma nova política é um mergulho profundo no real. Quem não aprender a nadar de novo, com novas modalidades de navegação, continuará à deriva, agarrado em certezas que não são nada mais do que a literalidade como realidade das fantasias de poder dos adoradores da morte. Nossa força é nossa vulnerabilidade diante dos ataques raivosos e impiedosos de quem está a serviço da opressão, pois somos sensíveis a essa autodepreciação a qual se lançaram nossos contemporâneos que se julgam estabelecidos pelo dinheiro, pelo sucesso e pelo poder. Todavia, nossa vulnerabilidade é nossa força em direção a um humor brincante, brincalhão, de crianças, de nosso devir-criança, uma vez que é nosso humor que nos permite habitar de um outro modo, de um modo diferente, tudo aquilo que nós amamos não em nós mesmos, mas num outro que de nós se avizinha nos interpelando por suas criações poéticas, que é onde reside o sentido profundo da nossa forma de habitar a política. Saudações libertárias!

Carta aberta para Carly Machado (12 de julho de 2012 pelo FB).

Carly Machado, o que é de Deus é diferente do que é de homens. É preciso passar pelo veneno e falar o que se viveu. Depois das guerras, onde os mais loucos pareciam ser os mais velhos, guerras em torno do ato de considerar, para algumas famílias, como Profetas no Rap e Salmo 23, além de outras famílias, evangelizar através do rap, seja na igreja, seja no projeto, no surf, como a Missão Surfistas de Cristo do Titanzinho, enfim, pegar o Rap e mudar o fato, essa é a atitude, chegar devagar e falar de Deus, falar do pai, falar da mãe, dar um novo passo, dar uma nova esperança para aqueles que viviam frustrados, presos. A busca por ser considerado, por ter fama, leva ao mundão, à babilônia, aí a droga lhe prende, tipo um videogame, um videogame do vício, pois o inimigo é sujo. Não se pode dar brecha para o inimigo, e o homem que é homem é paciente, ele pensa, pensa antes na glória do Senhor, pensa fora da manipulação do sistema que é o lugar onde a força maligna manda na mente, deixando o homem de ser homem, tornando-se um bicho doido, na vida louca. Daí a importância do testemunho, pois o testemunho mostra a pessoa, na experiência com Jesus, e o que define a pessoa é o testemunho precisamente, afinal, as pessoas viviam pelo que faziam por obras. É pela fé, pela misericórdia, e no mundão, eles também as buscam, por aquilo que faz o homem ser humilde e manso, sem estar largado no mundão, na babilônia, como bicho doido, por isso é fundamental fazer o testemunho, vigiai e orai, então. O cristão vigilante não pode dar brecha, senão o inimigo entra, e na nossa língua, no que se diz, no que se fala é que traz a morte ou a vida, nossa língua é como fogo, é preciso ter cuidado ao falar, cuidado ao falar com os demônios, pois os demônios são punidos e organizados. O melhor caminho a se viver é o testemunho da pessoa, o testemunho que faz a pessoa, as dificuldades e provações, as alegrias roubadas, tudo isso decorre do ato de mexer nas feridas do inimigo. Há dois tipos de pessoas nisso, mas a pessoa-exemplo é a pessoa que está para servir a Deus, que exemplo de santidade, pelos testemunhos da pessoa, pelo falar de amor de Deus e se alegrar no que é certo e não se alegrar no que é errado. São pelos corações que as pessoas se tornam espelho, pois o caminho é estreito e todo mundo precisa de ajuda para caminhar, e a ajuda vem pela palavra, a palavra que liberta, apesar de que existem pessoas que se acomodam no testemunho, há um paroxismo do testemunho neste sentido, pois no mundão as pessoas estão se matando, o que se torna muito difícil para os evangelistas envangelizarem nos bairros perigosos, onde as pessoas estão acostumadas a jogar pedras em árvores que dão bons frutos, mas tem de se passar pelo veneno, tem-se que falar o que se viveu, sem jamais esquecer o que é de Deus e o que é dos costumes de homens. Carlos Irlando Oliveira Oliveira, Anailton Sousa e vários irmãos com quem aprendi tudo o que foi escrito acima, reproduzindo em vários momentos palavra por palavra do que eles me ensinaram nos últimos quatro anos de convívio, a gente adoraria receber a visita de você e sua equipe da UFRRJ para trocar uma ideia, comer um peixinho na praia do Titanzinho que é um lugar de pessoas abençoadas, como você pode perceber. Forte abraço e espero que chegue logo por nossas praias. Saudações.

Farofa (6 de junho de 2012 pelo FB).

Sabe que eu percebi que as pessoas gostam de farofa, como eu! Eu adoro farofa, então, fico sempre querendo que a farofa seja uma delícia, uma farofa relevante, expressiva. Será que existe uma farofa nesse sentido amplo em que as prisões de nossos próprios horizontes nos levam a querer escapar de nós mesmos, em nome de uma desdita e não-dita liberdade? Sinceramente, não sei! Não tenho respostas. Tenho inquietações. Então, para vocês que têm respostas, desejo: ciência, arte e reflexão, esses modos inacabados, imperfeitos, aproximativos e necessariamente superáveis de conceber qualquer prática. Seja feliz.

A cachaça (18 de maio de 2012 pelo FB).

Amigos/as, preciso confessar algo para vocês, já que o FB virou essa grande galeria de desnudamento em público. Ontem à noite, depois de ter trabalhado o dia todo, de 7h às 19h, como todo mundo que é da base, que não é de cúpula, que, por sua vez, vivem do nosso trabalho, mas isso é outro assunto, resolvi sentar para pensar um pouco. Acontece que de relance olhei para o lado de uma prateleira e vi uma garrafa de cachaça, isso mesmo, car@s amig@s, de água ardente: a minha mão tremeu! Não sabia se era a cachaça que olhava para mim ou se eu para ela, lembrei da ideia do Bruno Latour de quase-objeto. Ou era a cachaça que era um quase-sujeito? Enfim, coloquei uma dose. Cherei-a várias vezes antes de tragá-la. Depois que eu o fiz, bateu um sentimento no meu coração, e era isso que eu queria piedosamente lhes contar, um sentimento que por assim dizer me deixou estupefato. Foi um espanto, sabe? Algo que não acontece com frequência. Parecia uma comunicação divina, vinda dos altos, para me alertar sobre a catástrofe que se apoderou do mundo, e de mim no mundo. Pois bem, ao sorvê-la, aos goles, molhando a palavra, bateu-me um sentimento de alegria tão intensa que eu nem precisei tomar outra dose. Fui dormir tranquilo, com paz de espírito, e, mesmo sabendo dos males que a cachaça promove, destruindo tantas vidas mundo afora, hoje resolvi fazer o elogio da minha dose de cachaça noturna, que não tem nada a ver com a cachaça soturna das vidas despedaçadas e esvaziadas que se esvaziam em garrafas de cachaça por que não tem mais imginação e liberdade, nem mediação na busca do prazer e da alegria de viver. Que os deuses salvem a nossa cachaça benfazeja de cada dia e nos protejam do esvaziamento existencial que o embrutecimento dessa vida mesquinha e medíocre das maiorias. É uma delícia ser uma minoria e explorar as virtualidades minoritárias do bem-viver! Molhar a palavra é um modo de realizar a ressureição de nós mesmos. Essa é a minha ode à liberdade, a cachaça é só um detalhe delicioso para a degustação da alma e o relaxamento do espírito. Saudações libertáras!

Henry Miller (16 de maio de 2012 pelo FB).

Henry Miller me pediu uns trocados para tomar um trago, uma aguardente barata, dessas que despertam a fé na embriaguez, que levam para o caminho fácil do crime, mas, graças a jesus, nosso protetor, consegui dissuadi-lo de trilhar o caminho dos fracos, ele então começou a praticar um velho costume, como se estivesse querendo esconder seu ressentimento, e começou a embebedar-se com água pura e cristalina, tirada da torneira do banheiro. Na verdade, ele ficou bêbado como um porco, pior do que se tivesse bebido da cachaça de etanol que o cara lá do boteco lhe passara. Tive que levá-lo para casa, arrastando-o pelo braço e ouvindo impropérios absurdos. Só amigo mesmo para aguentar toda aquela merda de bêbado no pé do ouvido. O vídeo é minha vingança, mostra a ressaca do sujeito no dia seguinte, mas mesmo assim, cuidado com ele, pois ficou dando uma de gostoso e inteligente, querendo impressionar, mas isso é pura ilusão, ele tinha perdido até as amígdalas de tanto provocar a noite inteira, é o cara mais queixudo que eu conheço. Se vocês lerem um panfleto que ele escreveu, em três partes, intitulados Sexus, Nexus e Plexus, respectivamente, vocês se darão conta do tamanho do engodo que esse senhor representa na vida americana e honesta que tentamos levar em nosso continente, tanto no norte, no centro, como no sul. Afinal, como dizia Godard, somos todos americanos, n'est-ce pas?

2 de maio pelo FB

Amigos e Amigas, Eu estava dormindo um sonho leve. Fui me deitar a uma da matina, depois de escutar Psycho Killer pela enésima vez na vida, Byrne batendo o pé, como um punk caipira, marcando a estaca para um novo som, para uma nova mobilidade vital, um novo compasso, e isso lá pelos idos de 1984. Eu era apenas um garoto prestes a completar meus 12 anos que estava aprendendo a ouvir música boa com um primo que trabalhava na rádio universitária da UFC e morava na minha casa, o querido Pedro, de saudosa memória. E também estava começando a desconfiar que as imagens da população brasileira que pelas tantas estava se organizando pelas Diretas Já iam ter um impacto subjetivo muito mais duradouro na minha existência do que aquelas outras, midiáticas, que o Fantástico vinculava ao mostrar a semana do presidente, quase sempre veiculando um presidente militar andando a cavalo, um sujeito duro e medíocre chamado Figueiredo, que dizia ter mais sentimento pelo animal de montaria no Exército do que pela sua Senhora, a primeira dama do Brasil, e isso ainda estávamos sob o cerco do terrível pesadelo que foi o regime militar para a vida da nação. Éramos obrigados a ter medo. O chicote do último dos ditadores militares brandinho contra o cavalo dava medo. Medo de levar chicotadas. Medo de apanhar. Medo de ser preso e torturado. Medo de fazer oposição ao militares. Mas, voltando ao presente, deixando essa história de sentir medo para trás, posso-lhes dizer que, como o sono estava leve, e o pensamento a mil, eu acordei e cá estou insone, sentindo-me impelido a lhes escrever algo sobre o que eu vi enquanto sonhava meio mergulhado na escala do onírico, meio agitado por uma vigília enfraquecida que guarda e embala o sono dos inquietos. Vou logo lhes adiantando que não tive nenhuma visão mística, nem muito menos tenho a lhes comunicar algo que pudesse ser considerado um elemento perturbador para a vida de vocês e de ninguém. Não tive pesadelos. Não acordei sobressaltado. Nada de terrível andou povoando minha imaginação. Portanto, não estou me levantando para lhes escrever como o indivíduo perturbado que sem ar precisa puxar fumaça para os pulmões para se sentir de algum modo ainda vivo. Parei de fumar faz anos. Então, não se preocupem que não venho lhes admoestar com maluquices de um insone insano em busca de nicotina. Muito pelo contrário. Estava tão lúcido na minha vigília de meia-tigela, pouco acomodado no meu debulhado e combalido sono que não ousaria lhes contar, mas já contando, que o que fiz na verdade foi acordar mais cedo do que o habitual, algo que acontece quando estou ansioso para começar logo a trabalhar, a ler, a escrever e a burilar as ideias para algum benfazejo uso que delas se possa fazer na vida de professor e pesquisador, ou seja, o que eu poderia chamar de ganha pão. O fato é que estou acordado e bem acordado. Abri os olhos, consultei com leveza o mostrador do despertador e pensei: são 4 horas da manhã, o primeiro de maio foi ontem e eu não escrevi nada sobre o primeiro de maio. Preciso escrever algo sobre isso. Estava dormindo, envolto naquele estranho, mas profícuo estado mental em que a névoa onírica parece se dissipar a favor da clareza das ideias, e assim, por um segundo, achamos que descobrimos a pólvora, mas após tomar consciência do que realmente se passa, descobrimos que ainda está tudo por ser feito, que o pensamento é uma tarefa árdua, é uma labuta, e não uma fatalidade generosa do psiquismo do sonhador de sonhos. O pensamento que martelava meu sono era o seguinte: na cidade de Fortaleza, no Estado do Ceará, no Brasil, no mundo, se é que não soa grandiloquente se expressar assim, o desafio que se nos coloca é o desafio da dissidência. Nesses tempos sombrios, onde o campo do poder investe contra quaisquer práticas de liberdade, não para apenas oprimi-las, mas, sobretudo, para comê-las, capturá-las, colocá-las sob o jugo de uma dívida infinita para com o poder do Estado, precisamos aprender a ousar mais no modo como nos desviamos, fugimos e enfrentamos esses agenciamentos de poder que nos querem de joelhos, mesmo que em alguns casos, estejamos bem nutridos, bem vestidos, o que, certamente, não é a condição da maioria. Mas a necessidade da maioria não seria suficiente para sustentarmos nosso argumento em defesa de nossas liberdades, uma vez que o campo do poder pode gerar taxas de crescimento daqueles a quem nos referimos como desnutridos e descamisados. O progresso material da maioria, mesmo que tímido, ilusório, e realizado à custa do dispêndio da riqueza coletiva, tem se mostrado um dos recursos de poder mais potentes da atualidade. Neste sentido, desconfio de que seja preciso centrar nossas reflexões, nossas práticas de liberdade, em torno da própria questão da liberdade e qual a relação dela com nosso fazer político. Cá estamos, em tempos sombrios, sendo instados a nos defender da vigilância, do controle e das ameaças impingidas por milhares de pequenas mãos que fazem o trabalho de enquadramento da dominação social. As práticas de controle incidem, fundamentalmente, sobre nossas formas de desejar, de falar, atuam sobre e com nossas práticas de expressividade, então, questionar o valor e solapar a confiança em tudo aquilo que reforça essas práticas de controle sobre nós é um desafio político que temos em comum. Ou seja, não podemos aceitar o pensamento único, que é uma forma de narcotização do pensamento, consequentemente de negação do pensamento, e muito menos, devemos aceitar a inglória e autodepreciativa posição do sujeito acabrunhado, silenciado, do sujeito omisso, do sujeito assujeitado pelo campo do poder, seja pelo outro, seja por si próprio. Ontem, eu fui à inauguração do Plebeu Gabinete de Leitura, na rua Floriano Peixoto, nos altos do edifício que sedia a Associação Cearense de Imprensa, perto da Praça do Ferreira. Professora Adelaide e Vandinha recebendo a todos/as com carinho e atenção, pessoas circulando entre livros, entre amigos e amigas, mas, principalmente, entre camaradas. Lembrei que o Alexandre Barbalho, enquanto eu falava de desunião como tarefa política, na recente aula pública da qual participei na Praia de Iracema, a convite do movimento Quem dera ser um peixe, com Peixuxa Acquario e muitos amigos/as, cantou a pedra de longe, baixinho, no meu pé do ouvido: o desentendimento, da Jacques Rancière. Adorei o sopro, pois, afinal, na política o que se faz é o que se diz, então, propagar a desunião, o desentendimento, é lutar contra quaisquer processos de unificação que, em nome de centros de poder, matam a criatividade e a liberdade de laços de resistência contra os centros de poder. Algo que o professor Ricardo Salmito vem insistindo, quando nos alerta para o tipo de desqualificação que militâncias remuneradas fazem de quem quer que seja que use do humor e da ironia, essas figuras irretocáveis do pensamento crítico. Julio Lira, quando estivemos conversando nas ciências sociais, por ocasião de debate sobre o movimento Quem dera ser um peixe, com Andréa Saraiva, problematizou, enquanto fazíamos uma boquinha, após o evento, essa questão do medo, de como estava percebendo pessoas dizerem de um modo ou de outro, mas, principalmente, dizerem com medo que estão com medo de criticar o governo, que não podem aparecer publicamente criticando o governo, que podem até ajudar por trás, mas não em público. E isso estamos falando de pessoas de camadas médias, intelectuais, pessoas cuja principal competência é falar em público. Julio Lira e eu ficamos nos perguntando sobre o que se passa nesse contexto. E qual não foi minha surpresa, quando ontem, conversando lá no Plebeu com Renato Roseno, a conversa acabou também resvalando sobre essa questão da relação entre o medo e a cidade. Seria algo que precisaríamos problematizar, afinal, o medo é uma poderosa ferramenta de despolitização da política, e o medo de perder o emprego, o medo de desagradar pessoas consideradas poderosas, o medo de dizer e se dizer, posicionando-se diante do destino político de pensar e transformar nossa vida comum, de imprimir novos rumos à vida na cidade, entre outras práticas de transformação necessárias para o bem viver, num sentido profundamente histórico e coletivo, sobre o que precisamos pensar juntos. As retaliações para quem ousa questionar estão sempre sendo acionada pelas já referidas pequenas mãos do trabalho de enquadramento, para usar a expressão de Isabelle Stengers. O movimento Quem dera ser um peixe é um caso recente onde essa vigilância misturada com desqualificação de minorias opositores se manifesta num grau de agressividade que nos inquieta, Andrea Saraiva que nos diga, afina, ela está, ao mesmo tempo, militando e refletindo sobre esse processo, como boa intelectual orgânica que é. Aliás, não é de hoje que Enrico Rocha vem provocando na cidade a discussão sobre o lugar das práticas artísticas, estéticas, políticas e nos propondo mergulhar de ponta cabeça nessa problemática da "participação" de intelectuais e artistas na vida da cidade. Ele e Andréa Bardawil estão levantando pela prática formativa uma problematização que nos revela quão grave foi o desinvestimento promovido pelos governos nos processos de formação, e pasmem, no mesmo momento em que se passa a falar de turismo como sendo vocação econômica única para Ceará e, em especial, para Fortaleza. O silêncio da atual gestão municipal sobre isso é um incômodo maior do que a fala desabusada dos secretarios do campo do poder que estão fazendo do governo um balcão de negócios. E para potencializar os negócios e o "progresso" a qualquer custo adotam atitudes para lá de agressivas e violentas contra quaisquer movimentos ecologistas, ambientalistas, e fico pensando o que seria disso tudo se não tivéssemos a experiência de luta de João Alfredo Telles Melo? Em que pé estaríamos? Certamente, sem as ações do mandato do vereador, sem o conhecimento e a capacidade crítica do João para lidar com intricados e obscuros, para não usar termos criminais, segmentos anti-ecológicos, anti-ambientais, que dá direita à esquerda investem ávidos para favorecer especulações variadas e destrutivas, não sei, realmente, o que já não estaria sendo feito. Os segmentos poderosos e destrutivos odeiam o João, João fica na dele, por experiência, e não fica alardeando por aí com que tipo de gente ele tem de se bater como representante político de nossa cidade para tentar barrar a vasta destruição de dunas, mangues, em nome dos negócios e gerando cada vez mais desigualdade. O próprio problema da moradia popular está seguramente imbutido nessa dimensão da luta ecossocialista, mesmo que na prática estejam se comunicando muito pouco politicamente falando. Não sei se Igor Moreira Pinto concordaria com esta minha avaliação, segundo a qual Zeis, moradia popular e outros temas da agenda de luta de atores como o MCP, por exemplo, teriam que passar pela dimensão da cidade enquanto dimensão do ecológico. O próprio MST, o que está nos dizendo sobre essa dimensão ecológica? Outro assunto que me inquieta bastante é essa questão das remoções para a Copa do Mundo. Como é possível que diversos movimentos populares estejam ou em silêncio sobre isso ou então, o que é pior, apoiando abertamente que comunidades consolidadas da história da nossa cidade sejam removidas para a realização de um evento de uma mega-empresa? Este ponto, Manu Kelé, é algo que dói no coração. O conluio de políticos que construiram carreiras nas comunidades, falando em nome das comunidades, e que agora estão abertamente a favor de suas remoções. Isto é uma grave fratura na própria sensibilidade do que já se pôde chamar em algum momento de campo de esquerda. Para finalizar, pelo menos por hora, pois o despertador já vai me avisando de que são seis horas e quinze minutos de quarta-feira e eu preciso começar a revisar uma dissertação para uma banca, gostaria de afirmar a necessidade de que façamos juntos uma reflexão sobre os rumos e os destinos coletivos da nossa cidade. Para quem é de política eleitoreira, e este não é definitivamente o nosso caso, pois se fôssemos eleitoreiros não seríamos o que estamos sendo, pois a fonte de poder, de dinheiro e de "sucesso" passa bem longe de nós, este ano vai ser apenas mais um ano qualquer. E para nós? Esse ano vai ser mais um ano de silêncio, de medo, de letargia? Meu desejo é de que a gente dê uma boa sacudida nisso tudo e que ponhamos nossa imaginação a serviço de nós mesmos, de nossa liberdade, da luta por uma cidade justa, fraterna. Sabemos que muitos optam por colocar sua imaginação (ou falta dela) a serviço do poder, mas não estes que irão nos pautar, nunca foram. Quais são então nossas próprias pautas? Vamos lá continuar esse trabalho de contra-hegemonia? Saudações libertárias!

Baculejo

A foto do repórter fotográfico Kiko Silva, para reportagem do DN sobre ocupação de favela em Fortaleza, chamou-me a atenção na minha leitura crítica dos jornais de hoje (domingo, 29 de abril de 2012) e sobre ela farei uma breve observação. Não farei uma análise glogal da situação da Barra do Ceará, e do Morro São Thiago, não é essa a intenção aqui. Estou pesquisando o material para escrever mais aprofundadamente em outra ocasião. Também não estou querendo fazer uma crítica isolada à ação da PM. Enfim, na análise da imagem fotográfica, o que me surpreende é outra coisa, é, simplesmente, que aqui perto da minha casa, no Meireles, no pólo gastronômico da Varjota, onde há pessoas nos restaurantes e bares das camadas médias, médias altas e altas, portando armas (quase sempre guardadas nos potentes e caros automóveis), por vezes, no cós da calça, ou então em capangas, pequenas bolsas, e também com porte de cocaína, e comércio de pó nos bares dos "ricos", e eu nunca vi ninguém ser alvo de uma abordagem da PM desse jeito aí que está inscrito na foto. Era só isso que eu tinha a dizer hoje. Vocês conseguiriam imaginar os policiais militares fazendo o que estão fazendo na foto ali naqueles restaurantes da Varjota e Meireles? Os "playboys" podem portar armas e cocaína no Meireles e na Varjota, pois não há abordagens desse tipo por lá para apreender armas e drogas. E drogas e armas nas mãos de jovens de classe média e média alta e alta é o fenômeno da vez. O comércio é aquecido e lucrativo. Mas invisível, ninguém quer falar sobre isso. Ninguém quer tematizar que o tráfico de armas e de drogas hoje passa pela mão de traficantes de classe média e alta. Armas também. É super fácil comprar uma pistola zerada nas mesas de bar dos "bairros nobres". Como também é super fácil conseguir qualquer tipo de droga. Já há traficantes de drogas nas favelas que são empregados de traficantes de drogas "empresários" que não moram na favela, do mesmo modo que há "empreendedores" de classe média alta que são "donos" de "barracos" nas favelas, aludando-os a preços caríssimos e recolhendo alguéis a cada mês sob escolta de policiais militares fazendo bico. Não é possível fazer uma sociologia da violência sem fazer uma sociologia das elites, da alta burguesia e das camadas médias. Violência e criminalidade não são atributos da pobreza. Não estou dizendo que não haja lugares de extrema vulnerabilidade civil e socioeconômica, conhecidos como favelas, que não concentrem graves crimes violentos letais. Não estou negando isso. Estou apenas chamando atenção para o fato de que não há tematização nem ação da polícia e isso é de responsabilidade coletiva, não apena da polícia, sobre violência e criminalidade das elites. Não é uma grande novidade, é claro, mas não custa nada lembrar, né? Esse debate será um dia possível ou irá continuar indo para debaixo do tapete?

Sunday, August 26, 2012

Para além da crença

Eu não acredito! Definitivamente, eu não acredito em mim, nem em você, nem no mundo e muito menos na minha crença, pois, além de tudo o mais, arrastando-me como um molusco ao longo da pista de asfalto para a qual nossa crença foi criada e estabelecida, eu não acredito, eu penso! E o pensar não é afirmar um estatuto superior, não é se dizer acima de quem acredito, muito pelo contrário, pois acreditar é a suprema dor jamais sentida, é a vingança contra esta imensa dor, contra tudo aquilo que nos amedronta e ameaça. E se ameaçados e amedrontados nos sentimos, há escumas de ilusão, como escamas de peixe nessa pista diretiva e indecisa que somos. E se eu eu penso, eu não existo, pois eu me desfaço, como lodo escorregadio, como fundo de piscina batendo contra a testa dura, inerte, inesperadamente, jamais imaginada. Penso mal, sempre com verdades parciais, com inexatidão, com pontos cegos, com abundância de dados que nada dizem, que são apenas e sempre improváveis, com impossibilidades de tradução...mas mesmo assim eu não acredito, não tenho fé em nada que não me oriente para o fim da mortalha que abriga o sentimento de vingança, de receio do fraco diante do forte que jamais serei, e, em ninguém, nem em mim mesmo, e nem mesmo na razão geométrica ou cínica do acaso, como se tudo fosse apenas certeza, a certeza me alcançará, uma vez que diante dela nem eu estarei inteiro nem meus detratores poderão me interpelar a sério e a cores, pois de quem não se pode jamais ter certeza e a propósito de nada nem ao menos se ao menos for haverá conveniência, a tergiversação é uma estrada, ou seja, um inferno, e quem gostaria de no inferno viver?, muito menos de soçobrar?, toda a boçalidade do mundo se concentra na única esperança que há, o fim de toda e qualquer esperança, de toda e qualquer mísera comiseração, a esperança não nos leva a lugar nenhum a não ser ao pote de desesperança que caracteriza nossa falta profunda de inverno, a nossa maior inferioridade, explodindo, como se a metáfora pudesse nos salvar do que nos impigem como falta, todavia escorregando na eterna abundância, no preenchimento pleno de tudo o que é no devido lugar do devir, da falta anulada pelo absoluto daquilo que é apenas uma pequena transição entre muitas outras.

Ter vergonha de estudar? Por que estudar se tornou coisa de otário?

Faço parte de uma geração de pessoas que iniciou a vida escolar na década de 1970 (ensino fundamental), passando na década de 1980 pelo ensino médio e no início da década de 1990 pelo nível superior. Com seis, sete anos de idade começávamos a ouvir a ladainha interminável e cotidiana de nossos pais a respeito do lugar decisivo dos estudos na vida, era uma ladainha às vezes insistentemente chata, às vezes dramática com falas maternas sobre perda de futuro para quem não estuda, enfim, havia uma verdadeira obsessão de nossos pais com a tarefa dos estudos. Minha mãe me obrigava com 10 anos de idade a ler dois livros por semana. Depois que ganhei gosto e autonomia, não precisei que ela mandasse mais, apesar de que ela continuava cobrando no mínimo três horas de estudos todo santo dia, além das leituras que eram consideradas "por fora". Na escola, quando fiz parte das minhas primeiras militâncias estudantis, a diretoria do grêmio só tinha "fera", só tinha caxias nos estudos ou então pessoas com paixão pela leitura, no mínimo. Éramos militantes do "quadro de honra". Os melhores filhos da pequena burguesia ou de uma classe média de pequenos funcionários públicos, como eu fui. Entre nós, havia também filhos da classe média alta, também muito estudiosos, e todo mundo muito animado com as possibilidades de construir uma sociedade democrática no Brasil, as divergências ideológicas, partidárias, políticas, não tiram de nós esse pano de fundo unificador. Estudar era o desafio da gente. Estudar muito, bem e com afinco. Era quase uma mística. O modelo da pessoa estudiosa era admirado coletivamente, era respeitado, cultuado até, havia certo elitismo nisso, como não poderia deixar de ser, mas havia também um forte sentimento de que para superar o Brasil do pistolão, nós teríamos que fazer o Brasil do mérito funcionar, com todas as fantasias coletivas que aí se interpõem, isso não deixava de alimentar uma forte corrente de moças e rapazes rebeldes, críticos, reflexivos, alternativos, esquerdistas e, fortemente, dedicados e dedicadas aos estudos. Não me envergonho dessa memória, apesar de não fazer uma apologia cega do que há de pretensioso nisso, mas, por favor, gostaríamos de voltar a não ter vergonha no nosso país de ensinar modelos de vida estudiosa para nossas crianças. Hoje, é como se a gente precisa pedir licença para falar em estudo. Temos que pisar em ovos, pois todas as acusações se voltam contra o valor da educação e do ensino como valores de base. Alguém sabe por quê? O que aconteceu que paramos de almejar ser uma nação que se destaca pela produção de conhecimento, pelo estudo, pela inteligência? Por que tantas pessoas hoje ficam ressentidas com os "intelectuais", tem raiva da "arrogância" de quem estuda? Sem querer afirmar verdades absolutas, compartilho essas inquietações com vocês.

Segredo masculino

Posso contar um segredo para vocês? Os homens, os rapazes e os meninos se dividem em dois tipos: a) aqueles que vão ao banheiro, mijam e depois lavam as mãos e b) aqueles que vão ao banheiro, mijam e depois não lavam as mãos. Estes últimos voltam para a mesa abraçam a namorada ou esposa, cumprimentam apertando a mão dos amigos e amigas, apanham a comida enquanto fazem uma refeição, etc. Não há recorte de classe nisso, consigo observar esse processo social em vários lugares. Pessoalmente, uso como critério para saber com quem estou lidando. Quando o cara mija e se vai sem lavar as mãos, eu marco logo a cara do cara, pois é assim que a gente divisa e se divisa. Mas isso é um segredo, não digam que eu disse, apenas observem. Estou me tornando um novo moralista? Acho que estou lendo Nietzsche demais, não é? Vou também refletir sobre isso.

Texto editado de Três teses sobre a universidade, de Florestan Fernandes.

Redes sociais também é lugar de estudo e leitura, nós fazemos os usos. Amigos e amigas, segue uma leitura obrigatória para entendermos o momento pelo qual estamos passando no que tange às greves nas universidades federais e IFES. Saudações acadêmicas. TRÊS TESES SOBRE A UNIVERSIDADE, texto de Florestan Fernandes. (Adaptado do texto original publicado no Diário do Congresso Nacional, Seção I, de 5 de junho de 1991.) Fiz uma edição, suprimindo longos trechos, editando, a partir do meu entendimento de quais sejas as partes mais importantes. Estou usando como referência o texto tal qual publicado no livro de OLIVEIRA, Marcos Marques de. Florestan Fernandes / Marcos Marques de Oliveira. – Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010. 164 p.: il. – (Coleção Educadores). Reproduzo minha edição do texto abaixo: "Retomo a palavra para dizer que existem três teses equivocadas no debate sobre a universidade, que estão circulando de maneira intensa na imprensa e também nesta Casa. A primeira diz respeito aos custos das universidades. Acham que o governo está gastando demais com as universidades. Somos um país pobre e não devemos investir nas universidades recursos financeiros nem humanos, porquanto há uma devastação, pois o ensino de primeiro grau, o básico, está realmente revelando deficiências estruturais. Aliás, todo o sistema de ensino no Brasil está em crise, que não vem de hoje, é permanente. Sempre tivemos a tradição cultural de considerar a educação como o apanágio das elites, como um privilégio daqueles que podem usar a cultura, a educação para mandar, o que levou Anísio Teixeira a escrever A educação não é privilégio, livro que deve ser lido por todos. De fato, a educação não é privilégio. É preciso considerar, portanto, a totalidade do sistema de ensino. A nossa Constituição, tão malsinada, que todos querem modificar... De 1988 até hoje, passaram-se três anos apenas. Recém-nascida, é quase natimorta: cada deputado tem ou terá uma emenda constitucional a apresentar. Pergunto: por que fizemos tão grande esforço para elaborar uma Constituição que está sendo condenada? No entanto, essa Constituição deu novo realce à educação; criou a possibilidade de os pais de família recorrer à justiça para processar as autoridades que negligenciarem seus deveres no que diz respeito à educação; estabeleceu um prazo para superarmos o analfabetismo. Essa mesma Constituição estabeleceu todo um gradiente, que vai desde o ensino pré-primário até o ensino pós-graduação, abrindo também a perspectiva de que a cada brasileiro fosse dada a oportunidade de frequentar uma escola, aproveitando o seu talento em benefício da sociedade. Ela define a educação como direito do cidadão e dever do Estado. Ela só claudicou ao não eliminar uma herança trágica, que vem de longe, e que confere à iniciativa privada meios para transferir recursos do setor público para o seu setor, de várias formas. Afinal de contas, como a opção democrática da maioria foi esta, temos de salientar que até neste ponto a Constituição respeitou aquilo que vários setores da sociedade desejavam. Se considerarmos o sistema educacional no sentido geral, temos de pôr em relevo que os custos relativos são variáveis e que não se pode pensar nos custos do ensino superior, das universidades que mantêm pesquisas avançadas, estudos voltados para a aplicação e para a tecnologia ao mesmo nível da educação técnica de ensino médio ou da educação fundamental. Por isso a educação ministrada nas universidades é cara. Por isso deve ser privatizada? Por isso deve ser sucateada, condenada? É claro que não. Trata-se de um erro lógico de perspectiva. Temos mantido a tendência de comparar o ensino do Brasil com o de países muito mais desenvolvidos, mesmo os da periferia, inclusive os chamados “tigres asiáticos”, que são capazes de engolir nosso sistema educacional. Não se pode comparar o que é desigual. Não podemos comparar Brasil, Estados Unidos, França, Inglaterra e Alemanha. Mas podemos, sim, aprender um pouco com o que fizeram, por exemplo, a Alemanha e o Japão. A Alemanha, no século passado, era uma nação que pertencia à periferia da Europa, portanto, era subdesenvolvida. (...) O esforço básico do Japão foi realizado em todos os níveis do ensino. É preciso considerar que não se formam cidadãos, não se cria cultura cívica, consciência social crítica de classe, de categorias sociais ou de setores econômicos sem uma base educacional que se inicie no primeiro estágio, aprofunde-se no segundo e atinja o seu clímax no ensino superior. Devemos ver nesses dois exemplos o caminho que temos de seguir e não o drama das estatísticas, a revelarem que nos mantemos como um País de terceira categoria até na América Latina. É, portanto, uma tese equivocada a de dar prioridade a um setor do ensino. Temos de priorizar a educação escolar, a pesquisa pura e aplicada, o ensino fundamental, médio e superior, a formação de cientistas e o aproveitamento dos talentos. O problema, portanto, é global e não permite que se separe um aspecto da educação de outro. É claro que o maior desafio aparece no nível da miséria, da fome, do analfabetismo, do abandono prematuro do ensino elementar. Para vencer essas barreiras, temos de enfrentar simultaneamente outras, a fim de nos tornarmos um país capaz de realizar sua transformação em Nação. Pois ainda não o somos. O que faz com que não sejamos uma nação é o fato de não termos criado um sistema de educação integrada altamente desenvolvido e capaz de nos fazer conquistar uma posição diferente desta que ocupamos na periferia e na América Latina. (...) O segundo equívoco que precisa ser assinalado diz respeito à maneira pela qual utilizamos os recursos com relação à universidade. Os recursos destinados à universidade são decrescentes, dispersivos e não levam em conta a racionalidade que deve imperar nessa esfera, em que o ensino é caro e a pesquisa é mais cara ainda. Não é nada demais termos alguns centros de alta qualidade no ensino e na pesquisa, desenvolvermos universidades de nível médio e, ao menos durante alguns anos, darmos à universidade com alta qualidade a responsabilidade de formar especialistas de maior envergadura. Esta seria a maneira de se aproveitar melhor os recursos. Temos de enfrentar o problema e reverter o processo de sucateamento que se instalou na universidade brasileira: professores e funcionários mal pagos e estudantes negligenciados. Não basta apenas fornecer à escola recursos materiais e dar prioridade aos prédios. (...) Infelizmente, assistimos hoje a um processo pelo qual se pretende a privatização do ensino superior, do ensino público. Pensamos que é mais barato. Estudem os Estados Unidos e aprendam; estudem o Canadá e aprendam; estudem a Inglaterra e aprendam. A coexistência da escola pública e da escola privada não quer dizer prioridade para nenhuma das duas; significa um investimento maior no setor público, que está a serviço de toda a sociedade, dos interesses de todas as classes e que desempenha quatro funções básicas: a do ensino, a da pesquisa, a da divulgação do saber e a chamada função reitora. Essa função não significa dirigir a sociedade, porém comunicar-se com ela, criar uma consciência social crítica, que saia da universidade, de modo que o cidadão não seja passivo e o eleitor pobre, mas com instrução, possa chegar à universidade e se tornar uma pessoa de espírito crítico, capaz de se devotar a qualquer área do saber, de fazer opções ideológicas e políticas de acordo com suas convicções mais íntimas e com as necessidades mais profundas da sociedade em que vive. (...) Peço permissão aos colegas para atacar o terceiro equívoco relativo à universidade, o qual ainda não tive oportunidade de mencionar. Esta era a parte mais complexa da minha exposição e, no entanto, terá que ser apresentada num prazo de tempo muito menor. Sabemos que o Brasil está aceitando uma aventura terrível que nos torna um satélite de segunda categoria dentre os países periféricos. A modernização que o presidente Fernando Collor pretende introduzir, na base de pacotes pedagógicos e neoliberalismo, representa para o país algo regressivo. Nós devemos importar conhecimento tanto científico quanto filosófico, pedagógico e tecnológico. Mas não é por aí que uma Nação se torna autônoma, avançada e capaz de defender a sua soberania. Temos de produzir conhecimento aqui dentro. Na Universidade de São Paulo, temos o exemplo de que é possível desenvolver a pesquisa avançada, é possível defender a pesquisa tecnológica de ponta e é possível criar uma nova mentalidade pedagógica com recursos limitados. Hoje, em centros universitários do país, em alguns órgãos que funcionam em âmbito estadual, como a Fapesp, ou nacional, como o CNPq e o Finep, só para dar três exemplos, podemos ter uma política racional de desenvolvimento da pesquisa científica e tecnológica. Devemos importar seletivamente, mas não podemos incorporar o Brasil às nações hegemônicas e à superpotência que são os Estados Unidos sem uma reflexão cuidadosa. Devemos refletir sobre os exemplos alemão, japonês e norte-americano. Paul Baran, num estudo sobre a política do subdesenvolvimento, mostra que os Estados Unidos e o Japão se libertaram dos grilhões da satelitização e da dependência porque souberam explorar os caminhos da criação própria. Não somos inferiores, como seres humanos, a nenhum povo do mundo. Temos de saber utilizar os nossos recursos internos e criar, aqui, conhecimentos básicos, tanto para expandir a pesquisa como para diferenciar o ensino, ou para fomentar a expansão tecnológica que não seja produto de pacotes tecnológicos. Devemos repudiar o pacote pedagógico, porque somos capazes de resolver os nossos problemas educacionais, mas devemos aproveitar tudo que se puder de outras nações na pedagogia, na ciência, na tecnologia. É um equívoco pensar que conquistaremos um lugar no Primeiro Mundo importando tecnologia e ciência, importando pacotes científicos e pedagógicos. Fizemos essa experiência em matéria de recursos transferidos dos países centrais para cá – e o que resultou disso? Enfrentamos, em seguida, a pior catástrofe que se abateu sobre o Brasil, essa dívida terrível, sanguessuga, que é maior à medida que é paga. E quanto mais é paga, mais ficamos pobres, incapazes de enfrentar nossos problemas, e mais precisamos de recursos externos. Portanto, o problema da pesquisa avançada na ciência, na tecnologia e em qualquer outra esfera, tem esse significado fundamental. Devemos cooperar com todos os países, mas devemos repelir essa forma de dominação neocolonial que vem com o capitalismo oligopolista da era atual, um capitalismo que recria, nos países dependentes, controles que operam a partir de dentro desses países. Sob o capitalismo competitivo não havia esse risco tão grande; sob o capitalismo oligopolista do início do século, também não. Mas, sob o capitalismo oligopolista de hoje, há uma tendência à globalização do espaço econômico, cultural, político, ecológico etc., e, nessa globalização, seremos tragados pelos países mais poderosos. Por isso temos de pensar de uma forma autodefensiva e ofensiva. É necessário, pois, recrutar os talentos que são formados aqui (e que muitas vezes são importados pelos países avançados, compram no mercado mundial), o talento que o Brasil não sabe usar, que a Índia não pode usar e que a Inglaterra forma; um talento de primeira qualidade, preferido pelos Estados Unidos, pela Alemanha e por outros países da Europa, enfim, por todos os outros países do mundo, inclusive Portugal. O Brasil assiste a seus talentos serem drenados para o exterior, e não fazemos nenhum esforço para impedir esse processo destrutivo. A verdade é que não tentamos criar no Brasil as condições para que haja essa interação entre a descoberta original, a aceleração do desenvolvimento econômico, a perseguição de melhor padrão de vida, com outras aspirações sociais, com possibilidades de vincular à democracia a liberdade com a igualdade. Portanto, contra esse equívoco devemos combater. É necessário formar uma perspectiva própria, uma política própria, severa, de expansão da pesquisa e da tecnologia de ponta. (...) Com relação à universidade, é preciso que ela avance até onde é necessário incorporar aquele que foi negado, que foi excluído, que merece tudo e não teve nada. Refiro-me ao estudante operário, pobre, que só tem oportunidade nos bandos de crianças abandonadas, jovens que vivem do crime esporádico ou sistemático. Esse tipo de aprendizagem deve desaparecer e ser substituído por uma educação escolar que permita a revolução educacional como ponto de partida de revolução social a que o Brasil resiste, que o Brasil se recusa a pôr em prática. É na revolução educacional que temos o ponto de partida de qualquer outra revolução, porque ela será a revolução da consciência social crítica e da tentativa do homem comum de criar uma sociedade nova no Brasil, que não deverá mais ser uma repetição do passado. As elites criaram este país e serão os de baixo que irão transformá-lo. Pelo menos é nisso que acredito."

Senhor Professor, o delirante.

Eu tive um pesadelo de ontem para hoje. Vou narrá-lo para vocês. Foi assim: eu caminhava pelos jardins da Reitoria da UFC, indo em direção ao bloco das Ciências Sociais, onde trabalho. Várias pessoas, vindas de todos os lugares ao mesmo tempo, como num passe de mágica, começam a me assediar, fazem mil perguntas, pedem informações, solicitam que lhes indique referências de obras, livros, artigos, fazem perguntas, exigem explicações, há uma barafunda de falas que começam a se transformar em gritos, os rostos se tornam raivosos, olhos esbugalhados, só então percebo, pela primeira vez, que são faces conhecidas, são meus alunos e minhas alunas, pessoas queridas, pessoas que eu respeito profundamente, mas no alto do meu desespero, começo a ficar tonto, zonzo, pois a multidão de vozes dissonantes falam ao mesmo tempo o meu nome "Léo, Léo, Léo...", olhares esgazeados e famintos, na fuga, num ato de desespero, eu também começo a gritar, esbaforido e desfeito da atitude que o decoro exige de um professor da Universidade, e nesse ponto, eu me viro de repente e digo: -- Sr. Professor Dr. Leonardo Sá! Grito em desespero, como fez Antonin Artaud quando estava internado no hospício e o psiquiatra insistia em chamá-lo pelo primeiro nome, o nome de infância, o nome da mãe: Antonin. Em tom de voz duro, eu começava a olhar um por um nos olhos de meus queridos alunos, dizendo-lhes: -- Tratem-me de Sr. Professor! Havia um delírio, um transe paranoico, um esgar que quase travava minha voz. E a partir deste momento eu chamava a todos de Senhor e Senhora. Senhor Estudante, Senhora Estudante, Senhor Colega Professor, e o delírio ia inundando minha mente quase ao ponto de fazê-la explodir. De súbito, acordei resfolegante. Foi apenas um pesadelo de que a Universidade houvesse se tornado um lugar de terror, de medo, de celebração da reprodução das mais arraigadas e violentas hierarquias da vida social. Ainda bem que foi apenas um pesadelo. Logo estarei ouvindo da voz de educandos/as o sonoro "Léo" ou o carinhoso "professor" com que me brindam na vida cotidiana da nossas ricas e profícuas trocas acadêmicas e humanas. E ninguém precisará me chamar de Senhor, nem de Herr Professor, ok? Somos apenas les pauvres enfants de la patrie, um novo e discreto precariado, abandonados a própria sorte, quem sabe...

Drogas ilícitas: uma reflexão sempre provisória sobre a "solução de um problema".

Em primeiro lugar, precisamos pensar e pensar não é reproduzir ideias dadas, preconceitos, opiniões, e, muito menos, descarregar sobre os outros as nossas próprias distorções, principalmente, quando estão ancoradas e protegidas por uma senso de normalidade majoritário que, em vez de nos incitar a pensar, nos faz instrumentos de mascaramento que inibem a criação de novas problematizações. Em segundo lugar, as drogas ilícitas não são sintoma da pobreza, da exclusão, do desemprego e dos males sociais, essa é uma maneira "fácil" de reduzir a questão e desviá-la do principal. As drogas ilícitas não possuem "solução", não são um problema nesse sentido, buscar "solução" para o "problema" das drogas ilícitas é o modo como se produz socialmente o dispositivo de poder por meio do qual se faz o enquadramento daquilo que não se quer discutir publicamente quando o assunto é etiquetado em torno do "problema das drogas". Qual seria então o "grande segredo" que gira em torno do uso de drogas ilícitas que a "sociedade" não ousa e não quer discutir abertamente? O grande segredo é que não há "solução" para o "problema" das drogas ilícitas, uma vez que elas não são um problema para o qual se precisaria de solução. O modo de abordar "problema-solução" é o pior narcótico do pensamento sobre a questão. As experiências das pessoas em torno do uso de drogas ilícitas apontam para questões que estão sendo interditadas pelas agendas políticas hegemônicas. Quais seriam essas questões? Algumas pistas: a) Sofrimento e desrealização subjetiva diante das diversas formas de embrutecimento ligadas ao sistema de busca pelo sucesso, pelo poder, pelo dinheiro. b) Irrelevância das formas de subjetivação constituídas como mercados de bens de consumo que oferecem "satisfação ao cliente" sem jamais serem capazes de tematizar a questão do sentido da existência. c) Bloqueios das formas de erotização da vida pessoal que passam pelas conexões entre diversos devires, prazeres e outras formas de experimentar a constituição de uma corporalidade que possa ser própria. É o isolamento, a segregação do uso da droga ilícita, deslocando-o do contexto transformacional de devires e prazeres nas formas de auto-erotismo e erotismo compartilhado, que são modos de negação da "pornografia", afinal, a pornografia é puritana, envolve a exacerbação da vergonha, da culpa e do ressentimento produzidos pela imposição de modelos de subjetividade heterônomos e negadores da auto-constituição das práticas eróticas, estéticas, artísticas, filosóficas, corporais que fazem da subjetivação um processo de produção desejante como devir-livre. d) Se a questão do uso de drogas ilícitas gira em torno de experimentações inseridas em contexto de realização, a questão da desrealização que está ligada também ao uso abusivo de drogas ilícitas passa pela discussão da produção social de indivíduos sob o signo da infelicidade. A felicidade, como principal objeto da política, é neste ponto o elemento catalisador para se pensar o uso da droga ilícita não como um "problema", mas como uma problematização da natureza da vida social com a qual estamos nos conectando enquanto pessoas e coletivos. e) No caso específico do uso abusivo de crack, parece haver uma desrealização que produz a prática abusiva pela dissociação entre formas subjetivas de desterritorialização e formas subjetivas de reterritorialização que exigem composições estéticas com repertórios e recursos múltiplos. O uso abusivo de crack aponta para uma desrealização dos meios imaginários de constituição da auto-erotização e erotização compartilhada. A produção social das formas de sofrimento, de dor, de envelhecimento, de suicídio, de isolamento, morte em vida, de esvaziamento do sentido da existência, de medo diante da morte, de medo diante da exigência de "felicidade", de "sucesso", etc. A arena pública poderia deslocar a agenda de discussão para aquilo que a fórmula "solução para o problema das drogas" tenta esconder e a guardar a sete chaves no fundo de um baú para o qual uma simples abertura resultaria numa nova caixa de Pandora. E as formas majoritárias de opinião que buscam mascarar a tematização do que há de cruel no funcionamento "normal" da vida contemporânea estão hiper alertas, talvez sob efeito de remédios de incitação de impotências, dirigindo veículos em alta velocidade sem visualizar o precipício que nos cerca e circunda e também nos cega uma vez que narcotizados vamos nos reproduzindo sob as formas de uma insularidade imaginária, paranoica, delirante, perversa e suicida diante do destino individual e coletivo de nós mesmos.

Saturday, August 25, 2012

A escrita lancinante de Capote

Hoje ocorreu-me algo inusitado. Enquanto folheava um livro de contos, já quase ao final da narrativa, a folha cortou-me a pele do anelar da mão direita. Foi um corte muito leve, nada demais. A pelinha fininha de cima ficou meio abertinha, apenas. Não é obviamente a primeira vez que eu me corto com papel. Papel sempre foi algo cortante em minha vida. Quase sempre se tratava de uma folha de ofício, manipulada de modo desastrado, fazendo-se de faca para cima do meu corpo...mas jamais a página de um livro havia provocado esse lance momentoso. O livro de contos era de Capote. Não foi um corte profundo, mas provocou algum leve incômodo.

Monday, August 06, 2012

Uma reflexão sobre a segurança pública no Ceará.

Amigos e amigas, precisamos falar sobre o descalabro na segurança pública, se não, vejamos: Até quando nós iremos enquanto sociedade civil silenciar diante da terra de ninguém que toma conta das terras alencarinas quando o assunto é segurança pública, segurança cidadã, segurança humana? Ou não seria melhor fazermos o tema da segurança ser precedido pelos temas da liberdade, da justiça e da igualdade? As evidências apontam para a falência do campo governamental cearense diante dos desafios do controle social democrático da segurança pública, da criminalidade e da violência no Estado do Ceará: tempo presente, tempos sombrios, tempos para pensarmos juntos sobre nosso destino social histórico enquanto coletividade de direitos e deveres. O Ceará voltará a funcionar apenas como faroeste, sem contraponto do esforço coletivo da administração democrática dos conflitos gerados por tantas desigualdades de poder, de oportunidades e de capital que estão sendo reinscritas pelas políticas de governo sob a retórica vazia do "progresso"? Tempos de pistolagem, de jagunços, de "bandidos de farda", como dizem os muitos policiais honestos, a maioria trabalhadora da segurança pública, que também sofre com esse descalabro de direção, com condições de vida e trabalho embrutecedoras, irão grassar novamente entre nós, saindo das sombras produzidas por discursos falaciosos? E, infelizmente, o Estado do Ceará parece estar mergulhando, ainda mais, na militarização da segurança pública, na falência de projetos de governo para a área de segurança cidadã, rompendo com desejos coletivos por democracia e respeito aos direitos humanos. As bases de trabalhadores e trabalhadoras da segurança pública no Ceará detêm hoje os recursos de inteligência humana e social, uma vez que alertaram para toda a sociedade sobre a necessidade de uma só polícia, eminentemente civil, fardada, mas civil, com profissionais bem pagos e, principalmente, bem formados para o exercício do policiamento a favor da sociedade, superando os antigos e obsoletos parâmetros de policiamento repressivo, militarizado, em defesa do Estado, das razões de Estado que as mentes e os corações da sociedade civil e da paz civil desconhecem. A tecnocracia policialesca da abordagem gerencial autoritária, centrada em resultados ilusórios, em pirotecnias, com baixíssima confiabilidade na informação produzida e divulgada pelo governo, ao se tornar eixo de definição de "política pública" lança qualquer discurso sobre o "processo civilizatório" num fundo e obscuro abismo. Como legar às novas gerações um espaço social pacífico que seja resultado não da repressão total, da paz sem voz, que é a falsa paz das soluções autoritárias do Estado policial? Práticas de extermínio, de aniquilamento do outro, de tortura e de muita violência institucional, baseando no sistema do medo, da delação e da vigilância total e irrestrita de toda e qualquer prática considera "suspeita", direitos e liberdades individuais suprimidos na prática, explosão da criminalidade violenta, acúmulo de homicídios não investigados e não resolvidos, impunidade, atuação de grupos de extermínio, pistolagem com participação de agentes do Estado, beneficiando grupos empresariais legais e ilegais, enfim, a história da violência cearense, com a elevação de taxas de criminalidade de todos os tipos, com o mascaramento dessas mesmas estatísticas pelos interesses "reservados", "secretos", de governo, a tomada do poder policial pelo poder militar, sim, infelizmente, são tempos sombrios, tempos onde todos e todas precisamos aprender a nos proteger. A sociedade cearense precisa, em momento delicado de sua história, tentar mais uma vez construir políticas afirmativas de paz sem desigualdade, de segurança humana com liberdade, de construção de um espaço social democrático, justo e livre. Valores e ideais que não são fáceis de serem concretizados, mas sem os quais, sem as interpelações e desafios por eles gerados, não nos tornaremos dignos historicamente com a transformação da nossa própria história. A imensidão do desafio não é capaz de amedrontar o espírito sertanejo que orienta a busca por paz, civilidade, honestidade, democracia, legalidade, direitos humanos, igualdade, bem viver e respeito mútuo do povo cearense. Ceará Terra da Luz. Terra abolicionista diante da qual nenhuma escravidão perdurará. Saudações libertárias!

A palavra de um velha camponesa

A coisa mais sensata que eu ouvi nos últimos vinte anos da minha vida foi dita pela boca da minha avó Josefa: - Meu filho, mantenha a capacidade de trabalho! O importante para o homem é manter a capacidade de trabalho.

Monday, July 16, 2012

Produção estatal do crime de pistolagem

O funcionamento do sistema da justiça criminal no Ceará, o sistema da pistolagem e a produção socioestatal do crime. Bom para pensar.

Sunday, July 15, 2012

Releitura de Émily

Em 2006, puxando pela memória, refiz a imagem de uma linda menina de 12 anos, que era minha paquera na escola (eu tinha 13 anos). É uma forma ficcional, portanto, cheia de inverdades, os eventos foram bem mais simples e singelos, depois, no futuro, quem sabe, encontrarei palavras mais sábias para em vez de narração do mundo adentrar nas justaposições, para usar de empréstimo uma reflexão de Houellebecq sobre a qual ainda desconheço o sentido. Mas Émily foi uma doce menina, o coração batia forte ao vê-la, isso lá pelos idos de 1986, quando estudávamos juntos na mesma sala. Punk sou eu, escrevendo em 2006. À época dos eventos que inspiraram a história era tudo singelo e inocente, como deve ser nessa flor da idade. (o texto ao qual estou me referindo está nos arquivos de 2006).

Nota a partir de nota no meu diário de campo de 2001.

A conversão de agentes policiais em agentes profissionais da política implica em um processo de redefinição das propriedades sociais distintas dos agentes que se deslocam de um campo a outro. Compreender, a partir da análise de formas concretas de inserção de policiais no campo da política, sob a perspectiva de um corpo de agentes profissionais que vivem da e para a política (Weber) implica igualmente em conhecer as posições sociais dos agentes policiais no campo de disputa interior ao espaço institucional de suas corporações, bem como apreender as lutas classificatórias nesse campo quanto à definição legítima do grupo na sociedade, e, em especial, de suas posições e perspectivas diante do campo da política. O desafio maior é fazer com que a descrição etnográfica faça aparecer, faça ver os limites, as teses gerais, ou hipóteses de campo, umas em confronto com as outras, envolvendo os mecanismos de conversão. Não se trata de explicar in vitro as condições mais gerais da conversão, mas, ao contrário, de elaborar a partir da observação detalhada e intensiva dos casos concretos de conversão e fazer ver a lógica do processo, seus problemas e dilemas, e aí remetê-la às suas condições sociais específicas. Fazer a sociologia da conversão a partir dos limites específicos do universo etnográfico onde estamos acompanhando a inserção de policiais no campo político local, no sertão do Ceará, é pensar a prioridade de um descrição informada pela circunscrição dos elementos diferenciais, pelos detalhes, pelo microscópico das relações sociais em jogo. Fazer, por conseguinte, uma descrição bem informada teoricamente não é fazer a descrição se subordinar ao poder de teorização, mas sim fabricar um modelo descritivo pelo qual o poder de conceituar e teorizar se exerça a partir do campo, de modo detalhado. A construção de uma leitura dos conflitos sociais que estão investidos em torno dos limites reconhecidos entre os dois campos, o da ação policial e o da ação política, passa pela elaboração de modelo de compreensão acerca do modo como trajetórias de policiais na política estão em função de lutas classificatórias mais amplas onde o ser policial se liga ao contexto de transição para a democracia no país.

Trabalho de campo: novos eventos para a pesquisa.

Meu atual projeto de pesquisa, intitulado As vítimas e seus matadores: análise etnográfica de relações de poder e práticas de extermínio, já vinha se deparando com o tipo de situação descrita por essa reportagem do jornal O Povo de hoje (domingo, 15 de julho de 2012). Teremos que buscar problematizar estratégia de inserção para acompanhar este caso. As questões principais que me interessam estão aí postas: 1. sistema de crueldade. 2. Incorporação do inimigo. 3. Matadores como vítimas de matadores. 4. Concepções do humano e do não-humano. 5. Economia da alteridade e violência. Vila Velha fica no lado oposto da costa de Fortaleza onde realizo meu trabalho de campo. Moradores da fronteira do Cristo Redentor com Pirambu me relataram que muitas famílias foram obrigadas a sair da beira de praia no Pirambu, por conta das remoções e também por causa do aumento dos aluguéis, e se deslocaram para Vila Velha. Foi no Vila Velha que a viatura do Ronda do Quarteirão foi assaltada, na pracinha, e os policiais militares tiveram suas pistolas roubadas. O que está se passando na Vila Velha? Favelas à beira-mar e lutas armadas faccionais: campo.

Os sentidos da política

O que nos oferece a política? Talvez, uma tentativa de mitigação das penas de um sistema de dominação, ou seja, um modo de amortizar a dívida histórica da dor e do sofrimento produzidos pelo Estado de medo em que foram lançados os dominados, medo da violência atávica, fundante, que se inscreve, com marcas de crueldade, na corporalidade daqueles segmentos, coletivos, categorias, classes e pessoas que foram subalternizados. Uma tentativa de inviabilizar o risco da assunção de espaços de simetrização e, portanto, de problematização das distâncias relativas estabelecidas entre corpos superiores de chefes e corpos inferiorizados de subalternos, e nesse sentido os agentes interessados, pois o interesse é se colocar no entre das coisas, exerce o papel da mediação política segundo a qual os dominados abrem mão da vingança mortal contra a violência fundante da opressão, fazendo com que os critérios de autoridade e de poder do sistema de dominação possam ser lidos como o sistema de delimitação legítimo de um debate acerca do sentido das condições de existência da própria dominação social. Com a política, abre-se a negociação em torno do sentido da vida social questionando o fato histórico da desigualdade, reivindicando-se igualdade na ordem desigual, a fim de desnaturalizá-la. Todavia, novas hierarquizações reagem às demandas por igualdade, de modo que uma guerra política entre dois princípios passa a ser uma operação de confronto e de acomodações entre hierarquias e igualdades em cada situação particular onde este dilema se apresente como organizador das atividades políticas. Num sentido bem diverso do espírito que estou imprimindo na reflexão acima, não podemos esquecer, para fins de debate, a caracterização de Bourdieu para a ação política no seguinte trecho: "A ação propriamente política é possível porque os agentes, por fazerem parte do mundo social, têm um conhecimento (mais ou menos adequado) desse mundo, podendo-se então agir sobre o mundo social agindo-se sobre o conhecimento que os agentes têm dele. Esta ação tem como objetivo produzir e impor representações (mentais, verbais, gráficas ou teatrais) do mundo social capazes de agir sobre esse mundo, agindo sobre as representações dos agentes a seu respeito. Ou melhor, tal ação visa fazer ou desfazer os grupos - e ao mesmo tempo, as ações coletivas que esses grupos podem encetar para transformar o mundo social conforme seus interesses - produzindo, reproduzindo ou destruindo as representações que tornam visíveis esses grupos perante eles mesmos e perante os demais" (Bourdieu, linguagem e poder simbólico, parte dois de Ce que parler veut dire, p.117, 1996).

Ainda sobre a noção de centro

As categorizações simbólicas que operam com oposições complementares de tipo segmentar linear e não apenas de tipo concêntrico, representado este último graficamente pelo modelo durkheimiano de círculo concêntrico para indicar o sentido nucleado do processo de socialização (primária, secundária, terciária, etc) passam pela dissemia centro e periferia que pode ser observada articulando a produção de espacialidade em variados contextos socioculturais. Ocorre que metodologicamente a ideia de centro não pode ser reduzida à ideia de Estado, tudo se passa como se processos de unificação e processos de centralização não pudessem ser ditos sociologicamente como coincidentes, apesar de adotarem entre si conexões de sentido e de causalidade circular em planos empíricos concretos da vida social. Mas não reduzir a ideia de centro à ideia de Estado parece ser uma recomendação metodológica que possa gerar algum interesse no encaminhamento do debate teórico sobre o tema. Unificação ou centralização? Como poderemos categorizar analiticamente essas problemáticas a partir do nosso campo de pesquisa? Voltarei sobre este ponto em breve. Processos de centralização são objetos de lutas, assim como os fluxos e os refluxos desses processos não são unidimensionais nem lineares, apesar de compostos por linhas em fuga para todos os lados, se é que há lados nesse objeto. Talvez teríamos que superar a perspectiva do geometral, como fala Veyne.

Os sonhos do Estado são os nossos piores pesadelos

O que iria acontecer se, de repente, nós, pessoas e coletivos, que nos definimos como insurgentes, a partir de práticas de resistência, oposição e de luta por democracia real, simplesmente, respondendo ao "sonho" neoconservador de vários segmentos do poder, parássemos de protestar, de denunciar, de questionar, de fazer oposição? Qual seria o efeito disso para a vida social? Vocês conseguem imaginar uma greve geral invertida? Seria mais ou menos assim: ninguém diria uma palavra sequer de contraposição a nenhuma ordem do sistema de dominação, ninguém faria nenhum questionamento, nenhuma problematização, sempre que houvesse alguma dúvida, perguntaríamos ao chefe e ao chefe do chefe e assim por diante sobre como fazer e como encaminhar, anularíamos completamente o campo de autonomia das pessoas e dos coletivos, faríamos adesão total a qualquer ordem recebida da polícia, da justiça, dos governos, se nos dissessem para calar, calaríamos, se nos dissessem para andar, andaríamos, se nos dissessem para morrer, morreríamos, não questionaríamos nada, nenhuma ordem, faríamos a obediência total e irrestrita aos preceitos emanados das autoridades, qualquer instância que se apresentasse como instância de autoridade seria imediatamente reconhecida e geraria nossa obediência cega, independente de avaliações de conteúdos e méritos, avaliar seria um atributo exclusivo da instância de autoridade social, iríamos assim todos colaborar com a polícia denunciando toda e qualquer pessoa e coletivo que estivesse realizando algo que parecesse fugir ou colocar em xeque a manutenção da ordem social, não permitiríamos no cotidiano qualquer fala ou qualquer gesto que não correspondesse aos tutoriais divulgados amplamente pelas autoridades sociais sobre como se comportar, se vestir, caminhar e buscaríamos cumprir nos detalhes mais ínfimos a adesão total aos tutoriais disponibilizados pelo Estado e seus representantes sociais, faríamos um silêncio total em relação a qualquer tema de contestação, aboliríamos os vocabulários de contestação, apagaríamos da memória social qualquer elemento que veiculasse alguma lembrança em torno de formas de contestação da ordem, faríamos a hierarquização das posições sociais de acordo com os ditames, sem nenhum questionamento quanto aos critérios e à fonte da legitimidade destes critérios. Pergunto então a vocês: como seria viver assim? quais seriam os efeitos para a nossa existência se realizássemos com rigor absoluto o ideal de "paz total" da ordem social, excluindo qualquer possibilidade de desordem? Vocês conseguem imaginar que tipo de vida teríamos, se assim agíssemos?

Friday, July 13, 2012

Centros de poder

Espaços sociais são recortados por diversas formas e múltiplos processos de investimento sociocultural. As hierarquias, ou melhor, os processos de hierarquização produzem espaços sociais cujo sistema de delimitação instaura divisões, distinções, distanciamentos e operações de separação de toda natureza. Para isso, os pontos de referência que são mobilizados num verdadeiro processo de construção de referenciação giram em torno de um trabalho de enquadramento da memória social (Pollak) pelos centros, os lugares de fala enquanto lugares de instauração de domínio (Barthes) e os lugares de poder, enquanto lugares de posicionamento do sujeito da fala autorizada (Bourdieu), o lugar do sujeito, enfim, que pelo tudo indica na leitura que Deleuze faz dessa questão em Foucault trata-se de uma função derivada. A expansão e a difusão de modelos de centros realiza no espaço social interno, no meio interno, no dentro, um tipo de colonização para dentro do espaço social (Virilio). O centro de poder enquanto centro de poder irradiador opera com seus agentes sociais concretos, com seus complexos institucionais, com a fluidificação do sistema de valor concorrente e a coisificação de escalas hegemônicas de valor e tudo aquilo que afeta a questão do exercício do poder simbólico, para usar essa expressão um tanto já gasta, mas que se retomada em sentido não puramente teórico, mas como ferramenta, ainda nos serve na pesquisa, para observar como que o centro não existe antes de ser reconhecido, daí os signos de autoridade, os signos de poder, os signos de centralização, por que não dizermos assim, que vão apontando para o olhar heteróclito a heteronomia do centro e a perda da autonomia de si enquanto centro das relações sociais. São as questões da dominação, da autoridade e da construção do território que parecem se sobrepor umas às outras nesse jogo de verdade e nesse jogo de linguagem que busca obter pela unificação de uma comunidade de valores "artificial" a lógica de funcionamento do centro, que é uma lógica paraestatal e, portanto, contra a socialidade.

Thursday, July 12, 2012

Jogos de verdade

Como escreveu Lévi-Bruhl em algum lugar: "L'ignorance s'ignore elle-même". Ademais: "A vida...é como um festival, assim como alguns vêm ao festival para competir, e alguns para exercer os seus negócios, mas os melhores vêm como espectadores [theatai]; assim também na vida os homens servis saem à caça de fama [doxa] ou do lucro, e os filósofos à caça da verdade" (Atribuída por Diógenes Laércio esta parábola a Pitágoras apud Arendt). No mesma direção: "é preciso escolher pagar pela verdade um preço mais elevado, em troca de um lucro menor de distinção" (Bourdieu). Quantos jogos de verdade nos são compossíveis para sairmos dessa invisibilidade absoluta em que nos colocaram?

Análise de concepções rivais no espaço social

Concepções rivais, em situação de rivalidade, convidam a usos estratégicos da linguagem. A própria opinião pública é um exemplo claro de como a fonte de legitimidade está literalmente em jogo, devido ao caráter disjuntivo que há no ato de jogar, diferentemente dos rituais, onde atos conjuntivos parecem se sobressair. Com quais vocabulários, léxicos, essas rivalidades se realizam? O uso da palavra, lembrando que a palavra está imersa na situação da disputa, nos permite falar de uma significação disputada. Espaços públicos emergem nesses processos de espacialização da disputa pela opinião, ou em torno da opinião, o que faz do público não um atributo de um sujeito, mas um atributo de relação que gera a própria noção de que o espaço social é um espaço entre outros. Ainda não estamos a falar da esfera pública, e eu, pessoalmente, não tenho muito interesse nessa tematização. Prefiro concentrar meus esforços na elaboração de modelizações das micro-constituições de espaços públicos. Até mesmo dando também preferência para os micro-espaços, onde a relação entre dimensão concreta e dimensão abstrata das conexões e relações sociais podem ser observadas detalhadamente. Claro que é possível situar o estudo de um mundo social específico, bem localizável, em um processo mais amplo de formação de espaços sociais, como os espaços nacionais e transnacionais. Este esforço de contextualização está em função da força de contexto como instrumento analítico, a fim de situar os marcos do sistema de delimitação, diante da profusão infinita do real, que irá por sua vez atuar heuristicamente como mapa ordenador do próprio esforço realizado pela força de contexto da pesquisa.

Simbolismos de poder

Quais são as modalidades de exercício ordinário do poder com as quais se conectam as formas ostentatórias (ostentação, ritualização, cerimonialismo, etc) de certo excesso de sentido que se produz pelo trabalho da forma? Como as modalidades ordinárias podem nos fazer pensar (a ver algo como algo) a respeito da natureza desse simbolismo ostentatório e vice-versa? Estou lembrando de um texto pouco debatido até de Clifford Geertz: Centros, reis e carisma, além de Negara, é claro. Vou dar uma olhada de novo.

Álcool e drogas

Muito interessante este trecho de reflexão de Gregory Bateson a respeito das distorções provocadas em nós pelo uso de álcool ou drogas: "Intoxication by alcohol or drugs may help us to see a distorted world, and these distortions may be fascinating in that we recognize the distortions as ours".

Anotações sobre anotações na aula do Diatahy em 3 de abril de 2008.

No dia 3 de abril de 2008, Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes começou a aula com uma preleção fílmica, lembrando-nos das relações entre o Farenheit 345, 1984, Admirável mundo novo e Colossus 90. Revendo minhas notas de aula, me veio à lembrança que eu fiquei curiosíssimo para saber o que diabo seria Colossus 90, mas não queria interromper a fala do meu professor e deixei passar adiante com dúvida mesmo. Aliás, eu ainda não tinha assistido Farenheit 345 na íntegra, o que o fiz com grande prazer na semana seguinte a da aula. Enquanto Diatahy desenrolava indícios para nós para aquilo que gostaria de nos fazer ver, fiquei remoendo a seguinte questão: "Diante do excesso de códigos, como reconhecer a verdade da experiência humana?". Essa anotação revelava várias coisas. Primeiro, que eu tinha acabado de ler Michel Serres, Os cinco sentidos, e os meus estavam justamente enebriado por essa inquietante experiência. Segundo, que eu já estava na lida com essa questão do conceito de experiência. Muito por influência do Marcio Goldman, com quem eu tinha feito Teoria Antropológica I e vinha deslindando vários textos sobre a relação entre experiência e alteridade. Enquanto eu pensava na questão, Diatahy começou a falar de Merleau-Ponty e de Baudrillard. Discorrer sobre sistemas de objetos. Então, pimba! escrevi outra pergunta: "Onde está a experiência?". Foi quando o professor começou a contar de uma experiência que o filho do Portinari, que é físico e matemático, tinha feito na PUC. Ele havia escaneado um quadro do pai, gerando uma massa de informação digitalizada considerável. Parece que isso está em um documentário sobre Portinari que o Diatahy indicou em sala de aula. A relação estava portanto posta, ou melhor, explicitada: fluxos sensíveis, experiências e linguagens/traduções. A semiótica, a retórica e a filosofia da linguagem. E foi daí que comecei a me questionar mais a fundo sobre a relação entre o conceito de discurso e o conceito de experiência. 1960 - Althusser, Gramsci, Lévi-Strauss e o retorno de Bachelard. Máquinas e palavras. 1) AFETOS - nosso material. o que torna esse material narrável? Arte/Literatura/Psicologia Social/Psicanálise Mobilização das energias criativas da comunidade [catedrais góticas] Modelo do texto Linguagem e construção social da realidade social. Diferenças entre: Inteligência operatória e Horizonte mental. Ver o Pensamento selvagem. Linguagem como instrumento e linguagem como construção do real. a] função da estrutura (arquitetura). b] execução da estrutura (engenharia). c] investimento da estrutura (economia). d] ambiente de experiências (pedagogia). e] reprodução social (sociologia). [ESCOLA] Lógica medieval (objeto material e objeto formal). Ponto de vista, ângulo e mudanças de linguagens. Final da aula

Wednesday, July 11, 2012

Imagine ela

Imagina ela. Imagem nela. Imaginou? Opus barra ponto três, exercício nº 357/1949 [fortuitamente]. Para quem vai fazer tese: a prancha noventa e três, na prateleira 87, irá ajudar no processo de identificação, uma vez que sem o reconhecimento dos signos, não há signos. Isso não quer dizer que tudo se trata no propósito do reconhecimento e da negação, ok? Nem mesmo a fenomenologia do espírito poderia nos desorientar neste ponto, pois a tradução em português do alemão... [...} Alemão, o quê?...Sim, no sentido euroasiático, querido! N'est-ce pas? Chucrutizinho de deus, de meus deus todo poderoso, depois da coisa, a gente conversa, tá?;;; Voltando entonces ao ponto a partir do qual havia narrativa no nosso amor, no nosso lindo e caloroso encontro, poderíamos, na tragada mortal dessa malícia que não nos quer largar a mão como a maresia não larga a areia na parafina de uma prancha no Titan, se liga?, então...é como si, como se, como si..la viande aurait mentit. sem nem se isso é possível, mas as vírgula,s , essas jamais ficarei a devê-las, a espargilas, espargir, c'est comme ça?, espargir, epargaint lamour detre voté a la fois com si...pardon. Enquanto digitava essa parte, estava a me servir de uma dose de cachaça. [pense num bicho mentiroso! ele está a beber black label com água de coco e fica com essa história da cachaça apenas para impressionar não sei quem}, mas passemos adiante levantando a seguinte estória, se é que há história nessa semântica subalternamente americanizada na qual tento me esconder. enfim... Falar dele, sem que ele pudesse falar, por métier, causa-me profunda vontade de auto-anulação. Nem quereria me imaginar sem ele? Não!...Deixe de mentira! Não se trata de entregar todos os pontos assim de antemão. A barafúndia é perfeita. Como uma onda. Como um tubo no Titanzinho. De pé? Jamais! Jamé. Não sereis já mais como o rapaz que fede enquanto espanta por um segundo sua pobreza demente? Havia poetas realmente, na real, na mente, a viver de achocalatado? Sem nenhuma cachaça a corroer seus cérebros? Miríades possíveis quando se foge de casa, nem que seja para cagar, carregando com a mão direita o saquinho indefectível...sabe, o saquinho?...a fim de fazer o serviço completo funcionar. {...} pena pode ser de galinha, pode ser de fourcuzão! Pena de quem? Do pó? Do Poe? Os delitos e as penas! - pay per view2. Isso mesmo! dois, o um foi suprimido por falta de pagagmento (valha) ia dizer pa-gamento, afe! parece que estou andando no padre cícero da zé de alencar, no becão longo e comprimido, sem nenhuma ramificação que nos valha, mas isso é outra história, do tempo que morei lá naquele prédio vizinho ao teatro, e olhe lá que eu morava com uma atriz. louca! lôcôna. loucãozona! bicha doida que só se virava no pó de mármore, corroendo as pilastras do teatro latrino americano. Repetindo, para que vocês, os desavisados, os que beberam demais da conta, possam acompanhar. Havia poetas, ok? Havia cachaça, ok? Havia miríades possíveis, ok? Quando se fugia para cagar, carregando com a mão o saquinho indefectível, a fim de fazer o serviço completo funcionar...Qual serviço? O das luzes da ribalta, se liga? Ela o havia alcançado. Ela o havia realizado num sentido completo. Se o dormir não fosse tão inseguro e impróprio, esse dormir nos braços dela, num quarto alugado por hora nas vias de fato do zé de alencar, bem pertinho, subindo do primeiro para o segundo andar pela escadaria de pedra fria, acompanhando o chão, e nós, o homi e a muié, nós dois subindo como se não houvesse álcool em Alagoas, em Pernambuco, na Bahia, e em todo o resto, pois apenas em Teresina do Piauí havia de estar nessa parada, mesmo depois dos comerciantes terem sido produndamente lesados pelos vagabundos locais com quem fazia, inadvertidamente, negócios em torno da embriaguez alheia. Mas ela havia alcançado o segundo andar. Havia sim. Gração aos céus. Nem saberia imaginar como o sexo iria se realizar naquelas circunstâncias esdrúxulas, inaparentes, e inviáveis. Teria sido muito melhor ir prum cabaré na beira da praça para dormir em cima da mesa aos cuidados de Dona Maria, ou então pegar um táxi para o aeroporto indo encontrar em Botafogo, cidade do Rio de Janeiro, minha última herança, minha última memória. E assim se foi...Ela havia finalmente me alcançado.

Tuesday, July 10, 2012

O retorno inaugura o sujeito? Que balela, Butler!

passei horrores antes de voltar a escrever neste espaço vazio. tempos interessantes, como dizem os chineses, são tempos de guerra. nem por isso tive minha sanidade transida. a insânia permanece, qualquer coisa de indefectível nesse avatar de louco varrido. mas já é chegada a hora. um milenarismo de antanho tomou conta de mim, agora que sou criador de pássaros silvestres, um tanto incompetente, uma vez que não me obedecem os desgraçados. aninham-se no conforto do meu jardim para me abandonar em seguida sem nenhuma comiseração. uns pulhas, esses passarinhos da rua.

Sunday, October 02, 2011

Pérolas a cinco reais

Encontrei um lugar onde estou a adquirir pérolas a cinco reais, uma cada. Entretanto, não consigo guardar na memória os caminhos que me levam até lá - por mais que me esforce, termino desperdiçando mais do que disponho nessa labuta contra o esquecimento do caminho já trilhado. É como se houvesse em algum lugar um rio do esquecimento ou algo parecido. Sobre isso já devem ter escrito. Ocorre que, a voltar, sempre trago em mim um colar inteiro levemente repousado entre meus braços. Nem mesmo as sacudidelas da lotação fazem-me largá-lo.