Monday, August 27, 2012

2 de maio pelo FB

Amigos e Amigas, Eu estava dormindo um sonho leve. Fui me deitar a uma da matina, depois de escutar Psycho Killer pela enésima vez na vida, Byrne batendo o pé, como um punk caipira, marcando a estaca para um novo som, para uma nova mobilidade vital, um novo compasso, e isso lá pelos idos de 1984. Eu era apenas um garoto prestes a completar meus 12 anos que estava aprendendo a ouvir música boa com um primo que trabalhava na rádio universitária da UFC e morava na minha casa, o querido Pedro, de saudosa memória. E também estava começando a desconfiar que as imagens da população brasileira que pelas tantas estava se organizando pelas Diretas Já iam ter um impacto subjetivo muito mais duradouro na minha existência do que aquelas outras, midiáticas, que o Fantástico vinculava ao mostrar a semana do presidente, quase sempre veiculando um presidente militar andando a cavalo, um sujeito duro e medíocre chamado Figueiredo, que dizia ter mais sentimento pelo animal de montaria no Exército do que pela sua Senhora, a primeira dama do Brasil, e isso ainda estávamos sob o cerco do terrível pesadelo que foi o regime militar para a vida da nação. Éramos obrigados a ter medo. O chicote do último dos ditadores militares brandinho contra o cavalo dava medo. Medo de levar chicotadas. Medo de apanhar. Medo de ser preso e torturado. Medo de fazer oposição ao militares. Mas, voltando ao presente, deixando essa história de sentir medo para trás, posso-lhes dizer que, como o sono estava leve, e o pensamento a mil, eu acordei e cá estou insone, sentindo-me impelido a lhes escrever algo sobre o que eu vi enquanto sonhava meio mergulhado na escala do onírico, meio agitado por uma vigília enfraquecida que guarda e embala o sono dos inquietos. Vou logo lhes adiantando que não tive nenhuma visão mística, nem muito menos tenho a lhes comunicar algo que pudesse ser considerado um elemento perturbador para a vida de vocês e de ninguém. Não tive pesadelos. Não acordei sobressaltado. Nada de terrível andou povoando minha imaginação. Portanto, não estou me levantando para lhes escrever como o indivíduo perturbado que sem ar precisa puxar fumaça para os pulmões para se sentir de algum modo ainda vivo. Parei de fumar faz anos. Então, não se preocupem que não venho lhes admoestar com maluquices de um insone insano em busca de nicotina. Muito pelo contrário. Estava tão lúcido na minha vigília de meia-tigela, pouco acomodado no meu debulhado e combalido sono que não ousaria lhes contar, mas já contando, que o que fiz na verdade foi acordar mais cedo do que o habitual, algo que acontece quando estou ansioso para começar logo a trabalhar, a ler, a escrever e a burilar as ideias para algum benfazejo uso que delas se possa fazer na vida de professor e pesquisador, ou seja, o que eu poderia chamar de ganha pão. O fato é que estou acordado e bem acordado. Abri os olhos, consultei com leveza o mostrador do despertador e pensei: são 4 horas da manhã, o primeiro de maio foi ontem e eu não escrevi nada sobre o primeiro de maio. Preciso escrever algo sobre isso. Estava dormindo, envolto naquele estranho, mas profícuo estado mental em que a névoa onírica parece se dissipar a favor da clareza das ideias, e assim, por um segundo, achamos que descobrimos a pólvora, mas após tomar consciência do que realmente se passa, descobrimos que ainda está tudo por ser feito, que o pensamento é uma tarefa árdua, é uma labuta, e não uma fatalidade generosa do psiquismo do sonhador de sonhos. O pensamento que martelava meu sono era o seguinte: na cidade de Fortaleza, no Estado do Ceará, no Brasil, no mundo, se é que não soa grandiloquente se expressar assim, o desafio que se nos coloca é o desafio da dissidência. Nesses tempos sombrios, onde o campo do poder investe contra quaisquer práticas de liberdade, não para apenas oprimi-las, mas, sobretudo, para comê-las, capturá-las, colocá-las sob o jugo de uma dívida infinita para com o poder do Estado, precisamos aprender a ousar mais no modo como nos desviamos, fugimos e enfrentamos esses agenciamentos de poder que nos querem de joelhos, mesmo que em alguns casos, estejamos bem nutridos, bem vestidos, o que, certamente, não é a condição da maioria. Mas a necessidade da maioria não seria suficiente para sustentarmos nosso argumento em defesa de nossas liberdades, uma vez que o campo do poder pode gerar taxas de crescimento daqueles a quem nos referimos como desnutridos e descamisados. O progresso material da maioria, mesmo que tímido, ilusório, e realizado à custa do dispêndio da riqueza coletiva, tem se mostrado um dos recursos de poder mais potentes da atualidade. Neste sentido, desconfio de que seja preciso centrar nossas reflexões, nossas práticas de liberdade, em torno da própria questão da liberdade e qual a relação dela com nosso fazer político. Cá estamos, em tempos sombrios, sendo instados a nos defender da vigilância, do controle e das ameaças impingidas por milhares de pequenas mãos que fazem o trabalho de enquadramento da dominação social. As práticas de controle incidem, fundamentalmente, sobre nossas formas de desejar, de falar, atuam sobre e com nossas práticas de expressividade, então, questionar o valor e solapar a confiança em tudo aquilo que reforça essas práticas de controle sobre nós é um desafio político que temos em comum. Ou seja, não podemos aceitar o pensamento único, que é uma forma de narcotização do pensamento, consequentemente de negação do pensamento, e muito menos, devemos aceitar a inglória e autodepreciativa posição do sujeito acabrunhado, silenciado, do sujeito omisso, do sujeito assujeitado pelo campo do poder, seja pelo outro, seja por si próprio. Ontem, eu fui à inauguração do Plebeu Gabinete de Leitura, na rua Floriano Peixoto, nos altos do edifício que sedia a Associação Cearense de Imprensa, perto da Praça do Ferreira. Professora Adelaide e Vandinha recebendo a todos/as com carinho e atenção, pessoas circulando entre livros, entre amigos e amigas, mas, principalmente, entre camaradas. Lembrei que o Alexandre Barbalho, enquanto eu falava de desunião como tarefa política, na recente aula pública da qual participei na Praia de Iracema, a convite do movimento Quem dera ser um peixe, com Peixuxa Acquario e muitos amigos/as, cantou a pedra de longe, baixinho, no meu pé do ouvido: o desentendimento, da Jacques Rancière. Adorei o sopro, pois, afinal, na política o que se faz é o que se diz, então, propagar a desunião, o desentendimento, é lutar contra quaisquer processos de unificação que, em nome de centros de poder, matam a criatividade e a liberdade de laços de resistência contra os centros de poder. Algo que o professor Ricardo Salmito vem insistindo, quando nos alerta para o tipo de desqualificação que militâncias remuneradas fazem de quem quer que seja que use do humor e da ironia, essas figuras irretocáveis do pensamento crítico. Julio Lira, quando estivemos conversando nas ciências sociais, por ocasião de debate sobre o movimento Quem dera ser um peixe, com Andréa Saraiva, problematizou, enquanto fazíamos uma boquinha, após o evento, essa questão do medo, de como estava percebendo pessoas dizerem de um modo ou de outro, mas, principalmente, dizerem com medo que estão com medo de criticar o governo, que não podem aparecer publicamente criticando o governo, que podem até ajudar por trás, mas não em público. E isso estamos falando de pessoas de camadas médias, intelectuais, pessoas cuja principal competência é falar em público. Julio Lira e eu ficamos nos perguntando sobre o que se passa nesse contexto. E qual não foi minha surpresa, quando ontem, conversando lá no Plebeu com Renato Roseno, a conversa acabou também resvalando sobre essa questão da relação entre o medo e a cidade. Seria algo que precisaríamos problematizar, afinal, o medo é uma poderosa ferramenta de despolitização da política, e o medo de perder o emprego, o medo de desagradar pessoas consideradas poderosas, o medo de dizer e se dizer, posicionando-se diante do destino político de pensar e transformar nossa vida comum, de imprimir novos rumos à vida na cidade, entre outras práticas de transformação necessárias para o bem viver, num sentido profundamente histórico e coletivo, sobre o que precisamos pensar juntos. As retaliações para quem ousa questionar estão sempre sendo acionada pelas já referidas pequenas mãos do trabalho de enquadramento, para usar a expressão de Isabelle Stengers. O movimento Quem dera ser um peixe é um caso recente onde essa vigilância misturada com desqualificação de minorias opositores se manifesta num grau de agressividade que nos inquieta, Andrea Saraiva que nos diga, afina, ela está, ao mesmo tempo, militando e refletindo sobre esse processo, como boa intelectual orgânica que é. Aliás, não é de hoje que Enrico Rocha vem provocando na cidade a discussão sobre o lugar das práticas artísticas, estéticas, políticas e nos propondo mergulhar de ponta cabeça nessa problemática da "participação" de intelectuais e artistas na vida da cidade. Ele e Andréa Bardawil estão levantando pela prática formativa uma problematização que nos revela quão grave foi o desinvestimento promovido pelos governos nos processos de formação, e pasmem, no mesmo momento em que se passa a falar de turismo como sendo vocação econômica única para Ceará e, em especial, para Fortaleza. O silêncio da atual gestão municipal sobre isso é um incômodo maior do que a fala desabusada dos secretarios do campo do poder que estão fazendo do governo um balcão de negócios. E para potencializar os negócios e o "progresso" a qualquer custo adotam atitudes para lá de agressivas e violentas contra quaisquer movimentos ecologistas, ambientalistas, e fico pensando o que seria disso tudo se não tivéssemos a experiência de luta de João Alfredo Telles Melo? Em que pé estaríamos? Certamente, sem as ações do mandato do vereador, sem o conhecimento e a capacidade crítica do João para lidar com intricados e obscuros, para não usar termos criminais, segmentos anti-ecológicos, anti-ambientais, que dá direita à esquerda investem ávidos para favorecer especulações variadas e destrutivas, não sei, realmente, o que já não estaria sendo feito. Os segmentos poderosos e destrutivos odeiam o João, João fica na dele, por experiência, e não fica alardeando por aí com que tipo de gente ele tem de se bater como representante político de nossa cidade para tentar barrar a vasta destruição de dunas, mangues, em nome dos negócios e gerando cada vez mais desigualdade. O próprio problema da moradia popular está seguramente imbutido nessa dimensão da luta ecossocialista, mesmo que na prática estejam se comunicando muito pouco politicamente falando. Não sei se Igor Moreira Pinto concordaria com esta minha avaliação, segundo a qual Zeis, moradia popular e outros temas da agenda de luta de atores como o MCP, por exemplo, teriam que passar pela dimensão da cidade enquanto dimensão do ecológico. O próprio MST, o que está nos dizendo sobre essa dimensão ecológica? Outro assunto que me inquieta bastante é essa questão das remoções para a Copa do Mundo. Como é possível que diversos movimentos populares estejam ou em silêncio sobre isso ou então, o que é pior, apoiando abertamente que comunidades consolidadas da história da nossa cidade sejam removidas para a realização de um evento de uma mega-empresa? Este ponto, Manu Kelé, é algo que dói no coração. O conluio de políticos que construiram carreiras nas comunidades, falando em nome das comunidades, e que agora estão abertamente a favor de suas remoções. Isto é uma grave fratura na própria sensibilidade do que já se pôde chamar em algum momento de campo de esquerda. Para finalizar, pelo menos por hora, pois o despertador já vai me avisando de que são seis horas e quinze minutos de quarta-feira e eu preciso começar a revisar uma dissertação para uma banca, gostaria de afirmar a necessidade de que façamos juntos uma reflexão sobre os rumos e os destinos coletivos da nossa cidade. Para quem é de política eleitoreira, e este não é definitivamente o nosso caso, pois se fôssemos eleitoreiros não seríamos o que estamos sendo, pois a fonte de poder, de dinheiro e de "sucesso" passa bem longe de nós, este ano vai ser apenas mais um ano qualquer. E para nós? Esse ano vai ser mais um ano de silêncio, de medo, de letargia? Meu desejo é de que a gente dê uma boa sacudida nisso tudo e que ponhamos nossa imaginação a serviço de nós mesmos, de nossa liberdade, da luta por uma cidade justa, fraterna. Sabemos que muitos optam por colocar sua imaginação (ou falta dela) a serviço do poder, mas não estes que irão nos pautar, nunca foram. Quais são então nossas próprias pautas? Vamos lá continuar esse trabalho de contra-hegemonia? Saudações libertárias!

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