Monday, August 27, 2012

Baculejo

A foto do repórter fotográfico Kiko Silva, para reportagem do DN sobre ocupação de favela em Fortaleza, chamou-me a atenção na minha leitura crítica dos jornais de hoje (domingo, 29 de abril de 2012) e sobre ela farei uma breve observação. Não farei uma análise glogal da situação da Barra do Ceará, e do Morro São Thiago, não é essa a intenção aqui. Estou pesquisando o material para escrever mais aprofundadamente em outra ocasião. Também não estou querendo fazer uma crítica isolada à ação da PM. Enfim, na análise da imagem fotográfica, o que me surpreende é outra coisa, é, simplesmente, que aqui perto da minha casa, no Meireles, no pólo gastronômico da Varjota, onde há pessoas nos restaurantes e bares das camadas médias, médias altas e altas, portando armas (quase sempre guardadas nos potentes e caros automóveis), por vezes, no cós da calça, ou então em capangas, pequenas bolsas, e também com porte de cocaína, e comércio de pó nos bares dos "ricos", e eu nunca vi ninguém ser alvo de uma abordagem da PM desse jeito aí que está inscrito na foto. Era só isso que eu tinha a dizer hoje. Vocês conseguiriam imaginar os policiais militares fazendo o que estão fazendo na foto ali naqueles restaurantes da Varjota e Meireles? Os "playboys" podem portar armas e cocaína no Meireles e na Varjota, pois não há abordagens desse tipo por lá para apreender armas e drogas. E drogas e armas nas mãos de jovens de classe média e média alta e alta é o fenômeno da vez. O comércio é aquecido e lucrativo. Mas invisível, ninguém quer falar sobre isso. Ninguém quer tematizar que o tráfico de armas e de drogas hoje passa pela mão de traficantes de classe média e alta. Armas também. É super fácil comprar uma pistola zerada nas mesas de bar dos "bairros nobres". Como também é super fácil conseguir qualquer tipo de droga. Já há traficantes de drogas nas favelas que são empregados de traficantes de drogas "empresários" que não moram na favela, do mesmo modo que há "empreendedores" de classe média alta que são "donos" de "barracos" nas favelas, aludando-os a preços caríssimos e recolhendo alguéis a cada mês sob escolta de policiais militares fazendo bico. Não é possível fazer uma sociologia da violência sem fazer uma sociologia das elites, da alta burguesia e das camadas médias. Violência e criminalidade não são atributos da pobreza. Não estou dizendo que não haja lugares de extrema vulnerabilidade civil e socioeconômica, conhecidos como favelas, que não concentrem graves crimes violentos letais. Não estou negando isso. Estou apenas chamando atenção para o fato de que não há tematização nem ação da polícia e isso é de responsabilidade coletiva, não apena da polícia, sobre violência e criminalidade das elites. Não é uma grande novidade, é claro, mas não custa nada lembrar, né? Esse debate será um dia possível ou irá continuar indo para debaixo do tapete?

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