Monday, August 27, 2012
Carta aberta às lutadoras e aos lutadores
Uma nova política não é algo que brota de um plano mirabolante daqueles e daquelas que tudo sabem, que tudo compreenderam e que, por conseguinte, se arvorariam em porta-vozes de um futuro que não está aí, que não nos implica ainda, um futuro a se realizar como um estado de coisas que haveria lugar após a derrocada do atual e deplorável estado de coisas.
Uma nova política não é propriamente falando um estado de coisas a se instaurar no futuro redentor que expiaria o que há de maligno no estado presente das coisas desse mundo que aí está.
Uma nova política não é nada mais do que uma espiritualidade política, uma multiplicidade de políticas de existência contra-hegemônicas correndo lado a lado em um processo aberto à aprendizagem daquilo que é a terceira margem dos nossos devires que envolve tudo o que nos alimenta em nossas lutas, mas igualmente tudo aquilo que nos fazer avançar em nossas experimentações de campos possíveis, compossíveis, no aqui e agora de nossas lutas por liberdade e pelas condições políticas, sociais, históricas e coletivas de nossas práticas de liberdade.
Uma nova política é o movimento de sensibilidades estéticas, políticas, éticas cuja força de experimentação, no desejo do desejo de processos abertos, de uma luta que se aprende, em que se aprende e na qual nos produzimos coletivamente enquanto sujeitos de aprendizagem.
Um movimento de incitar nossas próprias capacidades de pensar, sentir e viver de outro modo, não em outro mundo, pois outro mundo, classificado como não-real, irreal ou fantasioso, só pode ser assim classificado por um mundo de negatividade e dominação, ou seja, as acusações raivosas e medrosas daqueles e daquelas que se encontram no triste estado de adoradores da Morte, essas imprecações que segmentos enquadrados e enquadrantes fazem de que nossos desejos são fora da realidade, tirante suas paranoias, delírios e perversidades, que fazem de seus estados de fantasia, a literalidade da realidade na qual não desejamos estar, tem alguma plausibilidade.
Nós, enquanto nos movimentamos na experimentação de nossas capacidades de pensar e sentir o mundo diferente, fugimos com todas as nossas forças de criação dos mundos e das realidades que nos oprimem, o que dizer que estamos a nos lançar no mais profundo real, o real enquanto fluxos de desejos, o real como imaginação criativa e afirmativa de que nada é impossível mudar, pois outros mundos são possíveis.
Nossos desejos são mais reais do que os estados de fantasia nos quais os seres assujeitados desejam o desejo do assujeitamento do outro, pelo contágio da forma de morte que deles se apoderou, roubando-lhes a alma, o espírito e a força de criação.
Uma nova política é um mergulho profundo no real. Quem não aprender a nadar de novo, com novas modalidades de navegação, continuará à deriva, agarrado em certezas que não são nada mais do que a literalidade como realidade das fantasias de poder dos adoradores da morte.
Nossa força é nossa vulnerabilidade diante dos ataques raivosos e impiedosos de quem está a serviço da opressão, pois somos sensíveis a essa autodepreciação a qual se lançaram nossos contemporâneos que se julgam estabelecidos pelo dinheiro, pelo sucesso e pelo poder. Todavia, nossa vulnerabilidade é nossa força em direção a um humor brincante, brincalhão, de crianças, de nosso devir-criança, uma vez que é nosso humor que nos permite habitar de um outro modo, de um modo diferente, tudo aquilo que nós amamos não em nós mesmos, mas num outro que de nós se avizinha nos interpelando por suas criações poéticas, que é onde reside o sentido profundo da nossa forma de habitar a política.
Saudações libertárias!
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