Sunday, August 26, 2012

Para além da crença

Eu não acredito! Definitivamente, eu não acredito em mim, nem em você, nem no mundo e muito menos na minha crença, pois, além de tudo o mais, arrastando-me como um molusco ao longo da pista de asfalto para a qual nossa crença foi criada e estabelecida, eu não acredito, eu penso! E o pensar não é afirmar um estatuto superior, não é se dizer acima de quem acredito, muito pelo contrário, pois acreditar é a suprema dor jamais sentida, é a vingança contra esta imensa dor, contra tudo aquilo que nos amedronta e ameaça. E se ameaçados e amedrontados nos sentimos, há escumas de ilusão, como escamas de peixe nessa pista diretiva e indecisa que somos. E se eu eu penso, eu não existo, pois eu me desfaço, como lodo escorregadio, como fundo de piscina batendo contra a testa dura, inerte, inesperadamente, jamais imaginada. Penso mal, sempre com verdades parciais, com inexatidão, com pontos cegos, com abundância de dados que nada dizem, que são apenas e sempre improváveis, com impossibilidades de tradução...mas mesmo assim eu não acredito, não tenho fé em nada que não me oriente para o fim da mortalha que abriga o sentimento de vingança, de receio do fraco diante do forte que jamais serei, e, em ninguém, nem em mim mesmo, e nem mesmo na razão geométrica ou cínica do acaso, como se tudo fosse apenas certeza, a certeza me alcançará, uma vez que diante dela nem eu estarei inteiro nem meus detratores poderão me interpelar a sério e a cores, pois de quem não se pode jamais ter certeza e a propósito de nada nem ao menos se ao menos for haverá conveniência, a tergiversação é uma estrada, ou seja, um inferno, e quem gostaria de no inferno viver?, muito menos de soçobrar?, toda a boçalidade do mundo se concentra na única esperança que há, o fim de toda e qualquer esperança, de toda e qualquer mísera comiseração, a esperança não nos leva a lugar nenhum a não ser ao pote de desesperança que caracteriza nossa falta profunda de inverno, a nossa maior inferioridade, explodindo, como se a metáfora pudesse nos salvar do que nos impigem como falta, todavia escorregando na eterna abundância, no preenchimento pleno de tudo o que é no devido lugar do devir, da falta anulada pelo absoluto daquilo que é apenas uma pequena transição entre muitas outras.

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