Thursday, April 01, 2010

Fui

Vida de boa-aventurança!

sei nem se é repetição

um dos meus maiores prazeres é trocar o grafite da lapiseira. saciá-la, abastecê-la, mimá-la. nutro um amor profundo pela minha leal e histriônica lapiseira amarela zero ponto nove.

eau-de-vie

gosto das relações humanas quando são cálidas como o efeito de um trago de cognac.

eau-de-vie.

modo de acordar

espírito livre, acordei noturno para violino e piano de Chopin.

não faço a menor idéia de por que escrevi isso

no momento deciso em que esperava ser outro,
o julgamento ultrapassou a leveza do fluxo,
o destempero do porvir
e o espaço de ação
- antes desprezados -
fizeram-se nomes de todas as coisas.
E o espaço de ação - antes aviltado - fez-se qualidade do pensamento, e do improviso da razão!

em primícias de desventura,
criei o despropósito de morredouro,
a lipoaspiração do ente
disparatado, no prato de camarão.

antes dele - alvo do arco verde.
antes dele - marcado de carvão.
antes dele - tutoria do agora.
antes dela - incúria.

mais uma citação antiga

"Mediocribus esse poetis non di, non homines, non concessere columnae", diz Horácio em sua Ars Poetica ('A mediocridade dos poetas não é permitida, nem pelos deuses, nem pelos homens, nem pelos pilares que sustentam as lojas dos livreiros')." (CASSIRER, E. Ensaio sobre o homem. São Paulo: Martins Fontes, 2005: 368-69).

uma anotação antiga que encontrei por esses dias

Valentina me explicou que as escadas estão de cabeça para baixo. Enquanto nós subimos, pisamos primeiro na cabeça da escada e depois no corpo até chegar aos pés. E quando nós descemos? Vou perguntar para ela. Pronto, ela me disse que quando nós descemos as escadas sobem. É o contrário, é simples!

outra da mesma cepa

"Tudo o que ele conseguira refrear por meio da sua responsabilidade fora ele mesmo" (Roth sobre Seymour Levov).

citação que encontrei no hd de 40

"Sim, estamos sós, profundamente sós, e para sempre, uma reserva guardada para nós, uma camada de solidão cada vez mais espessa. Não há nada que possamos fazer para nos livrar disso. Não, a solidão não devia nos surpreender, por mais espantosa que seja essa experiência. A gente pode tentar se virar pelo avesso, mas tudo o que a gente consegue então é ficar do lado avesso e solitário, em vez de do lado direito e solitário" (Roth).

Inventando as coisas

Houve tempo para briga. Agora é só relaxar, distender e começar a elaborar os próximos passos de uma nova e intrigante trajetória.

Sunday, March 14, 2010

Idéias

Não tenho interesse em me adaptar às exigências do mercado. O mercado é reativo, reacionário, está em função da ordem social mais absurda e injusta. Quem planta mercados em sua vida, colhe tempestades subjetivas de autodestruição. Os ressentidos e mal-amados são os chefes das lógicas de mercado. E cada chefe expressa a forma mortuária de ser das empresas falidas do capitalismo contemporâneo.

Sou proletário da educação superior (privatizada) faz dez anos. 16 horas de trampo por dia. Não me chame de intelectual como se eu fosse avoado que te mando às favas. Nesse ponto parto para o emocional mesmo. Tenho orgulho de ser educador para a prática da liberdade, seja nas faculdades, seja nas comunidades.

Nem Pátria, nem Patrão. Nem Família, nem Religião.

Anarco-comunista da gema.

Frátria, Autogestão, Autonomia e Arte.

O que me interessa são pessoas em coletivos e coletivos em pessoas de modo democrático, livre e igual. Multiplicidades de redistribuição de riqueza, conhecimento e afetividades.

A desconstrução não é uma questão teórica, mas prática. A desconstrução é uma tese contra Feuerbach em versão libertária.

O princípio redistributivo é o que interessa a todos e a todas.

As ações capitalizáveis estão com nada. São mesquinhas, medíocres e cafonas. Esteticamente estéreis.

Arte, cultura e criatividade estão onde nenhum lugar se encontra. Estão fora dos centros de poder, sejam amplos ou restritos.

zona autônoma temporária
socialização dos meios de desconstrução
regulamentação dos processos aquisitivos
desregulamentação dos processos criativos
autoposição da perspectiva diante de quaisquer contextos reducionistas.

as relações sociais são relações de transformação social.

Sunday, March 07, 2010

letras ou garranchos?

Estou com um problema terrível. Desaprendi a escrever a mão. Minha letra cursiva nunca prestou, mas agora parece um destroço garranchal. Horrível. Ainda existe esse negócio de caligrafia ou isso é coisa do passado?

Contra a publicidade infantil

Sou contrário ao uso de apelo direto às crianças feito pela publicidade infantil para qualquer tipo de promoção comercial, principalmente, as vinculadas a alimentos a base de açucar, gordura e outros produtos que afetam a vida saudável. Mas também usar o público infantil para forçar vendas junto aos seus pais. A sociedade precisa regulamentar esse problema. Consumo consciente, ecosustentável, socialmente responsável e moderado já!!!!

Malditas escolhas

Estive deitado a tarde inteira. Postado sob a sombra abrasiva de uma mangueira estava corrosivo como seu entorno. Nada germinava sem aviso prévio. Os pensamentos estagnavam como ostras mal digeridas. Cada idéia era uma bolha de um verão interminável. A digestão modelava a experiência como uma espécie de gaseoduto obstruído. O congestionamento era a fatalidade daquela modorra. E ainda por cima, teria que desbulhar contradições, conflitos e integrações entre as teorias de um século já enterrado, apenas revirado pelos escombros dos tremores que afligiam a cidade por aqueles dias. Da sacada, podia observar duas mulheres seminuas tomando banho de sol com óleos que da pele refulgiam como espelhos d'água. Era um golpe de vista desagradável como mirar a pele escamosa de algum réptil repugnante mas cuja carne é uma delícia depois de assada. Sem pândega, voltei para o fundo da rede. Só uma água de coco podia me salvar. O resto servia à bancarrota devido às ostras com cerveja no café da manhã do dia anterior. A lavagem não me fez bem.

Loteria perversa

Depois de meses, percebi que recebo religiosamente o e-mail da Caixa Econômica Federal com o resultado da loteria. Eu mesmo me inscrevi no site da Caixa tempos atrás. O problema é que eu não jogo na loteria. Que bobeira maluca essa, então? Talvez fosse o esculacho de receber um resultado que não me interessa ou a má-fé da minha inconsciência bestial, querendo sair do apartamentozinho de esquina de padaria para uma ampla vista para o mar? Acho que eu estava era bêbado quando fiz essa maldita inscrição no site da Caixa. O pior é que não estou conseguindo descadastrar o recebimento do e-mail. Terei que conviver com o fato. Amore fati. E voilà!

Thursday, February 18, 2010

Paganismo e vida saudável

A calmaria de um desjejum a base de água natural, aos goles, seria uma retidão de caráter, não fosse pelo vinho que corre pelas minhas veias como um elemento de anti-estoicismo.

Wednesday, February 17, 2010

novo ciclo

Quem, eu? Quem, você? Nestas paragens, os sítios são cultivados pelo prazer das práticas. E os textos são ou dilações sobre si mesmos ou anotações de estudos. Gosto da mistura de gêneros: antropologia com gastronomia, etnografia com literatura, filosofia com ciências cognitivas e cinema com narrativas expressionistas. Se pudermos trocar idéias, é um bom ponto de partida! Onde, eu? Onde, você?

Tuesday, October 20, 2009

anti-urgências total

pobres dos incautos que se comunicam e, aí daqueles, que se comunicam etiquetando suas mensagens como urgentes. o que sabem eles sobre a urgência? Mensagens urgentes, eu as relanço aos deus dará empacotadas como chegaram. O desprezo pelo que é travestido de urgente é um arroubo, é um gozo. Urgente, quem? Urgente, eu? Urgente, você? De anti-urgência em anti-urgência, a vida vai seguindo, sem que a ansiedade do adoradores de urgência se aplaque. Portanto, urgente só amanhã, vai indo que eu já fui.

Thursday, July 30, 2009

atropelamentos

primeiramente faríamos a avaliação de todas aquelas aves de rapina que nos querem fazer muito bem ao sangue de dois centímetros de espessura coalhados no asfalto mentiroso das minhas manhãs.

poder de quem?

e quem poderia dizer que o ler o mundo é uma tarefa objetiva?

a margem escorrega

e eu nem poderia imaginar que se um dia eu pudesse ter razão, a margem deixaria de estremecer sobre mim. quase como se o sujeito fosse nem dois nem três de si mesmo. uma espécie de tragédia com múltiplos divisores em comum traria de mim aquilo que eu gostaria de ter quando dançasse um música lenta contigo.

sinais

e se a fruta é para ser repartida entre os vários saleiros que a salgam, pereceria minha estranheza em não buscar na fonte de ouro do meu estrabismo o labirinto que medeia a estrela de absinto? e quem poderia assim me satisfazer o olfato e os outros tantos sentidos de procurar a ação que se propõe em signo estabelecer a pauta do teu marcador corporal?

jogando videogame eu me encontro

e quereria a pulga que me deixou te falar como seria se você fosse inconveniente e me propusesse algo mais do aquilo menos que posso te dizer quando insisto em minha palavra solta feito maestro de querer abrir o fôlego para aquele senhor histrião que me bipartia a vida para abraça-lo em duas partes diferidas pelo público fiel mas nem tanto do meu azar.

fugindo pelo beco errado?

e mesmo sem entender a desventura de exuberância que a ela eu proporcionava na minha possível aptidão de a ver inteira através do véu malogrado que faz da transparência um quase furto da alma, queria fazer disso a instância dessa incumbência de tratar o malogro como se altivo fosse. e além disso, apenas o terraço frio, deserto, das pessoas em vão a trazer a caminhada fatal, o trejeito dissoluto de uma partida menos eufórica do que a chegada pelo beco da praia.

sei mais não

e a caminhada seria ao menos esdrúxula se ao finito pudesse reportar minha trajetória em mixórdias celestiais. a quem desses caberia decidir sobre meus pesadelos? sobre minha vontade de não precisar meus passos pelo jardim alheio? e talvez assim pudéssemos atravessar o noturno em riste que há em nós quando volvemos feito loucos banidos pelo ministério de molar preciso e salvo como estridente entre nós.

lodaçal em blues

saudades de ver a mala cheia de festejos, embebida no dígito misturado do jardim anfíbio do coração. esverdeados conseguimos vencer o bosque dos riachos preteridos.

os capazes de quê?

capazes são aqueles que nos ouvem quando batemos à porta do estabelecimento achando que em vão poderemos entrar, ser ouvidos, e dormir numa cama aconchegante, mesmo que com doze pessoas perdidas ao derredor.

Sunday, July 19, 2009

pedintes como eu

Adoraria ter um dia na vida podido degustar de pelo menos um desses instantes de que falam os felizes convictos. Por vezes, uso toda minha força de imaginação para criar uma ambiência plausível para isso, elaborar um cenário onde pudesse ao menos simular a sensação dos relatos dos recalcitrantes felizes. Ah, quem me dera poder saborear da brisa de um vento cálido e marinho, como a respiração fumegante das narinas da sereia, quem me dera abraçar a amante apaixonada que soubesse brindar com o vinho trácio de seus olhos a origem da diáspora de algumas pontas de metal em bronze que amalgamam os meus sentimentos tristes. E colocados aos lábios dela, os meus se fundiriam no mais amargo dos chocolates, beijos entre fendas entreabertas e resfolegantes. Apenas John Coltrane por testemunha estaria presente nesse idílio dos corpos misturados. E em extremos ancorados pela angústia de jamais possuir o melhor dos desejos, nem a melhor das vidas em fúria, quem me daria a mais intensa alegria seria aquela que me faria abandonar essa noite deprimente que me faz viver apenas pelo saque marmóreo do alheio. Um saqueador do outro imaginado, mergulhado na soturna devassidão, com as mãos nuas de seio.

venezuela

ela me fitava com olhar de lástima. parecia que tudo tinha deixado de nos obsequiar. o derrisório tornava-se fastidioso. e as penas pesavam mais do que o vento salobre do final da tarde. quase tropecei no batente quebrado de mármore italiano. a casa em ruínas me convidava a mergulhar fundo no avesso da memória e esquecer que as curvas do meu corpo tinham sido delineadas por suas mãos. o último sorriso que ela me salvaguardara, como se o carinho soprasse um vento da manhã ainda fresco, foi meio desenxabido e saltou com um muxoxo, era uma fina ironia que se desgraçava em mim.

Friday, July 17, 2009

bula de remédio

qual solução era possível? aquelas com teores fraudulentos de álcool estavam há muito descartadas. pelo menos por enquanto, eu havia conseguido me livrar delas. resolvi então seguir o conselho de um amigo que me adicionara no twitter com uma rapidez de gavião leopardo. mal pudera estabelecer a conexão, um monte de mensagens se dispunham ao meu alcance de modo milagroso. dá pra entender? pois, então, bem estive quando descobri a solução tópica de meus problemas, ou seria um só? agora nem tanta esperteza tenho para mirar essa questão. o que me vem a mente, de certo, é que, não se deve usar esse tipo de formulação. um lance que meu professor de redação me ensinou faz é tempo. Mas sem querer tergiversar demais, vou contar logo minha história. é sobre algo como uma bula de remédio que as pessoas por vezes têm pesadelos? dá para entender? de qualquer modo, encontrei a solução tópica dos meus problemas. foi algo sugerido. fiquei super feliz. imagina. além do frio desmesurado que sofri, da sede absurda que me impuseram durante tempos a fio, precisaria eu encontrar a solução mais específica de todas? pois era a ela com quem eu me avistava. fazia de conta que era daquelas caipirinhas que a gente mente de tanto fingir que tomou? se liga? pois então era isso próprio. a menina chega estava com cabelos frígidos de tanto pensar nessa aproximação que quase eu falava como sendo um passagem pelo arpoador do nosso sangue. mas estou começando a tentar ser obscuro, não é? pois não! pois intentarei reverter essa sanguínea força de distúrbios brandos que me fazem quase um ganha pão de mim mesmo. um esfrega cu de judas. mas aí já seria partir para a ignorância. de fato, foram o cloridato de lidocaína com cloreto de benzetônio quem me salvaram a vida. parecia coisa de tomar chope com amigo a tarde toda! se liga? pois bem, fui adentrando o âmago da questão, pois o filho da puta do meu professor de português que eu quis esquecer o nome do desgraçado vivia a falar assim sobre sentir algo no âmago, o frustrado se virava para conseguir alguma vida, não levava nada, nada além de vírgulas e travessões. eu levei um zero do amigo do tal que ensinava matemática. mas isso foi um caso a parte que merecia texto mais elaborado do que este que eu falo. uso adulto ou pediátrico? sei lá! estou mais para operações intravenosas de colocação no mercado de trabalho. tomara que estejam menos repelentes aos que enganam algo além de que podem ser.

Tuesday, May 26, 2009

a flor da pele

ser a flor da pele sempre foi ao mesmo tempo minha glória e minha perdição. mas ela preferia a idéia da glória e assim eu me fiz carne para atendê-la. não havia como fazer isso de modo imediato. tinha de fato horror à imediaticidade das relações. se é para ser imediato, eu fujo. torno-me assim o imediato mais autêntico. todavia, não poderia negar. quando ela me conheceu, eu estava em ruínas. era um eu arruinado, atribulado, quase malfeitor. duas décadas foram perdidas em 20 dias de aflição pelos quais os ofendidos se feriam, e os humilhados se retiravam. o meu melhor seria você, mas as bandeiras ainda estavam desfraldadas e a atenção moída pelo corropio do desejo cortado pela pedrada do orgulho. quem poderia imaginar-se em situação tão deplorável? a imaginação sofria de arritimia e o coração batia certo, sem falhas, portanto de modo artificial. eu era quase como o andróide do filme. você apaixonada por mim, inflava-se de seu próprio desejo, e assim tornava-me um competidor descartado, atrasado, incapaz de levar a frente a possibilidade da conquista. apenas quando você parava de se lamber, de escrevinhar tuas próprias falas em teu corpo, eu me via com a chance de crescer e arrebatar-te para toda a vida. Enquanto eu me virava para melhor fitá-la sem derramamento de lágrimas, ela retrucou: "seria ainda capaz de saltar e fazer as curvas com os toques de um sabio olho verde que curva-se ao desejo e curva da melhor maneira as palmas do desejo imaginativo acossado", então, eu me calei e a abracei profundamente.

Wednesday, May 13, 2009

é mesmo?

pelas beiradas, vamos escrevendo o real.

Ilhas Cayman

o que é perigoso na vida? as ilhas cayman com certeza o são. nem sei se é assim que se escreve. eu apenas identifiquei, enquanto escutava Francisco Buarque, que existem pessoas que assim se identificam. fiquei curioso de não saber se a distância é pequena a esse entorno. as escolhas são as melhores, pois são nossas. não há necessidade de dúvida nesse processo. Sacas?

Saturday, May 02, 2009

escrevendo tese

o céu desabou em fortaleza, lavou das esquinas os olhares circunspectos, pilhou das casas a desfaçatez com que se guarda banha em pó, limpou o olhar de quem vê de trás para frente. em comemoração ao torrencial a que não me opus por mérito de ser sensível aos limites do organismo humano diante das vontades de uma senhora e sua filha irascível, causei em minha pele um quê de memória escorregadia do tempo em que morava no barracão de meu pai, sem telhado, nem fissura que me aquecesse os ossos. foi assim, conquanto, que tive coragem, levantei-me e assolei duas torradas desengasgadas com suco de maracujá. escutando algo In a Landscape, livrei-me de Cage, em fuga e no café da manhã comi desejo como devir com manteiga e pimenta vermelha. quem poderia me sustentar nesse afã de escrita? nem idéia faço de mais não querer adiar a tarefa. passo a ela o turbilhão. deixo aos meus, o aviso.

Wednesday, April 29, 2009

copyleft for night

os melhores textos são os xerocados. o prazer de fotocopiar Platão e encadernar é único. A Metafísica de Aristóteles, por exemplo, chegou até mim pela xerox encadernada de um amigo. Nunca a li, mas os diálogos, eu os li todos. mesmo que a organização mundial da saúde proíba o uso indeterminado de suas informações, ainda me proponho a me assustar com a gripe aviária. Esse gripe aviária está mostrando que a China continua despreocupada com suas ervas daninhas. em seis dígitos ainda será possível captar recursos para a contrapartida dessa pandemia planetária provocada pelas galinhas do livro vermelho na mão. portanto, eis que usuário meritório dos marcadores da enunciação, gostaria de propor um x-tudo ali na esquina. bem ali embaixo, pertinho do solo onde se perde a noção das hierarquias e divergências absolutas. quereria ser carlos, quereria ser gauche para enunciar essa mixórdia de vamos lá e vamos cá que fazem de linhas, corações. e enquanto me aproprio do possível, vou enganando esse pessoal esdrúxulo que me aporrinha sem nem saber voltar para casa.

Saturday, March 14, 2009

noites insones

mais uma noite de insônia. seria a insônia uma qualidade da noite? será possível eu ter me enganado durante tanto tempo sobre isso? há dez anos, eu estaria dançando em algum lugar. então é isso? estou ficando velho. por isso que esse sentimento de acúmulo de vivências impregnou-se em mim. eu deitado na rede, na sala de casa, e as luzes do prédio alheio invadindo minha sala, projetando-se sem minha permissão sobre as paredes que, agora percebo, nunca me pertenceram por uma razão muito simples, a casa é minha mas as paredes não são minhas, são alugadas. por esses dias, precisarei ir ao dentista. meus dentes pela manhã balançam na boca e, à tarde, quando já os sinto suficentemente endurecidos para uma refeição mais ousada de picanha com salada de batata, eles se ressentem de não terem sido avisados. estou com saudade do meu dentista. ele é um cara muito legal. engraçado e prestativo, faz da situação imobilizante da cadeira de dentista uma cena de filme antigo, desses em que as imagens giram na nossa cabeça, como se o mundo fosse delirante. de qualquer modo, é melhor do que ficar acompanhando a intromissão de mãos e ferramentas, brocando dentro da boca aberta, escancarada, atemporal.

houve tempos em que minha subjetividade se percebia meio mandona, dona do mundo, no centro de tudo. nem sei mais se perdi alguma coisa em perder essa experiência para todo o sempre. algum leitor pode me objetar. mas esse cara não está escrevendo em primeira pessoa? mas é aí que está. é a facilidade do escrever em primeira pessoa que hoje me denega. é o que sinto. meu eu não está mais aqui. está em outro lugar. e não faço mais a menor idéia de onde seja esse outro lugar. talvez tenhamos que pedir ao poder público e aos estabelecimentos privados com responsabilidade social para criarem departamentos de eus achados e perdidos. pelo menos seria divertido correr o risco de entrar no shopping para comprar uma camiseta e sair com um eu completamente estranho e sinistro, falando por nossa boca como se fôssemos um títere de sujeito. o eu lá, todo intromisso, macaqueando em nosso corpo pelas ruas da cidade. íamos dar trabalho à polícia, aos médicos e todos os senhores de anéis que se esmeram em cuidar de nós.

eu não devia ter comido tanta picanha. o bolo de carne está parado dentro de mim, espreitando pela chance de se movimentar. as menininas adotaram o procedimento medicalizante da anorexia. um dia desses uma equipe de alunos e alunas fizeram um trabalho sobre isso para uma de minhas aulas. foi horripilante saber que os menininhos também cederam a isso. a anorexia agora é andrógina. não que eu seja um desses moralistas débeis mentais que ficam alardeando pelos quatro cantos o fim de deus por causa da androginia. tenho lá minhas babaquices, não muitas, é claro, ainda me resta um sentido próprio de amor ao outro, mas o que me assusta é onde a androginia está sendo aplicada. talvez fosse mais interessante termos mais arte andrógina com menos bulimia. mas acho que estou precisando ir pegar uma coca-cola zero, antes de continuar, para não descambar para um texto chulo de jornaleco, tipo desses que saem na folha lá do povo que acredita mandar na gente.

pronto, estou de volta, peguei o copão de plástico amarelo e enxi de pedras de gelo com coca cola zero. será que eles pagam algum bônus, se a gente cita o produto num texto assim da blogsfera? sei lá, está tudo tão mudado que é bem capaz de eu receber um telefonema amanhã da mega-empresa sobre isso. vixe, outro problema, esse hífen aí atrás ainda existe? não, não vou me preocupar com isso agora. são três horas da manhã e meu sono está passeando longe lá fora. mas pensando bem vou verificar ali de novo se eu desliguei mesmo o celular. não só por causa da coca cola. estou de saco cheio de celular. virou uma espécie de consultório ambulante. e como eu tenho apenas um ouvido bom, o outro é bichado, ninguém consegue falar direito comigo ao vivo se eu estiver falando ao celular. é uma coisa ou outra, sou mono. ainda bem que eu não digitei mona, pois aí o povo podia maldar. pesquisei aqui no google, mona is a free operating system com code free. legal, olha aí eu fazendo outro merchandizing pra galera do capital. enfim, o capital se subjetivou, como dizem os professores de hoje em dia lá nos estados unidos. o capital por lá se subjetivou de tal modo que perdeu inclusive a morada. foi expulso de casa. antes, a figura por excelência do capital subjetivado, era o desemprego, agora é o desemprego homeless. só falta o capital subjetivar o desejo da falta, pois o desejo da culpa já virou moeda corrente da fluidez das novas relações capitalistas.

pense numa insônia braba, fui nos estados unidos e voltei ainda com ela nos braços. mas venhamos e convenhamos, não se fazem mais churros como antigamente. apesar de que no google temos mais de 1.900.000 referências para as receitas de churros. enfim, estamos comendo os códigos. esse lance dos churros foi mais uma lembrança reprimida da infância. ou seja, outra vez me lembrando que estou ficando velho. acho que preciso ligar amanhã para minha mãe. conversar com ela sobre a velhice. mas terei de ser bem sorrateiro para ela não ficar com raiva e passar duas semanas se escondendo de mim. principalmente agora que ela praticamente virou budista tibetana, eu ir falar de velhice, não ia pegar bem. mas se eu falar da minha avó, a conversa rende 93 anos. já estou me sentindo mais novo, só de pensar. mas assim também já é manipulação demais das idéias.

acho que vou parar por aqui compartilhando a notícia boa de que o barulho das teclas acabou acordando minha mulher. ela perguntou o que havia, eu disse que estava com insônia. ela então me chamou para conversar. a voz era macia e acolhedora. vou nesssa, meu tempo de vida é promissor por esses instantes e amanhã não sei se vou caminhar na praia ou tomar uma cerveja comendo um pargo frito. que vida distante essa nossa.

Friday, November 07, 2008

1988

esses bostinhas, infelizmente, eu os conheço faz tempos. desde os tempos de escola. os babacas ficavam lá irritados por não aprenderem nada, naquela porra, que era a escola da gente, que não se tocavam, de jeito nenhum, que aquela porra do colégio da gente, era só para aprender como funciona a sociedade brasileira e como um todo fraturado e rasgado contra a parede que é o peito de ter assinado a constituição federal de 1988 e exigir que ela seja efetivamente cumprida, pois eu assinei e quero minha vontade respeitada, e os babacas do colégio que só pensavam em dinheiro, sucesso e poder, viraram esses gerentes restritos que temos que engolir por aí.

Monday, October 06, 2008

A favor de Fortaleza de tod@s!!!!

A cidade é nossa!!!!!!!! A cidade não pertence aos carros importados dessa elite estúpida e sua arrogância histórica. A cidade é nossa!!!!!!!! Não aceitamos mais que esses segmentos elitistas que só pensam em dinheiro, sucesso e poder continuem destruindo o meio-ambiente, avançando na especulação imobiliária, oprimindo os jovens da periferia e instaurando uma situação de desequiíbrio social e cultural insustentável. Queremos reverter a riqueza das pessoas dessa cidade em elemento cultural, político, social e econômico que amplifique e potencialize um processo de desenvolvimento sustentável, orientado para justiça social, igualdade de direito e de fato, qualidade de vida, respeito aos direitos humanos, à diversidade sexual, enfim, uma cidade para tod@s. Uma cidade de tod@s. Que as elites fiquem nos seus shoppings centers, empaturrando-se de gordura. E que os seus filhos venham jogar capoeira, dançar quadrilha, surfar e mudar de mentalidade nas comunidades criativas do nosso povo.

Thursday, May 22, 2008

Corpo e pessoa

1. Como a pessoa se torna uma pessoa?
2. Qual o modo de pensamento da pessoa como pessoa?
3. Quais as formas de organizacao das pessoas?
4. Como funcionam as modalidades de interacao das pessoas?
5. Como o corpo faz a pessoa?

Tuesday, April 08, 2008

vital

só uma forma de vida muito forte conseguiria ser tão ambiciosa quanta a planta. já girara o mundo em múltiplas direções, avizinhando-se sempre das companhias incautas dos seus homens de terra perdida. foram necessárias duas ou três gerações para difusão geral entre os coletivos livres. o entre sustentando o próprio edifício da vida. na negociação permanente sobre o sentido da vida social ou nos tornarmos como essa forma de vida que diferencia nos seu fazimentos ou viraríamos presas escapatórias dos homens sem pele em miríades em cujas trocas a moeda corrente era uma moeda falsa. e os falsos moedeiros perdidos estariam se não houvesse a dita distorção de percepção. dar dobras no sensível, partilhá-lo com quem se ama. então essa força de diferenciação intensiva em que se desloca a carruagem do tempo nos faria em algum momento titubear só para perceber a conexão que conecta algum tipo de relação que possamos presumir dos universos múltiplos onde vivemos. Onde é a questão central. Onde? nossa forma de nos localizarmos no planeta é específica, volátil e misturada, como se um estudo filosófico do ser não pudesse mas contar, em sua regionalidade, com a ausência de perspectiva sobre o fundamento de zeus. o corpo marinheiro. a vida passageira. e a aterradora vontade de viver, de iludir qual viver, de fazer rapsódias do viver, enquanto pedregulhos acinzentados de manhãs adjetivadas ao extremo poderiam obstar a caminhada nua sobre os próprios trilhos e carnes. Carrapatos não morderiam nossas belas lapelas se apaziguados estivéssemos com a sorte, ou qualquer outra destinação que não fosse a melhor de todas. quereríamos então sofrer a fim de não isalar toda a sensatez de uma base mínima de compartilhamento, se os meios disso são falsamente profusos, e até mesmo, escassos. e é nessa escassez, nessa fome, alimentada pelos textos que nos moldam o caráter agonístico de toda e qualquer relação em cujo núcleo se produz a própria possibilidade do social, esperneia-se a três por quarto para manter estável alguma característica do social, esse lugar de fabricação perpétua. e assim começam os dias...

Monday, March 24, 2008

Heinrich Füssli

o homem gordo, em marcha a ré, perdeu o equilíbrio ao bater o calcanhar contra a dobra de tapete e despencou de si mesmo. provocou seu próprio mergulho depois dos três passos hesitantes que antecederam o vexame. de costas, os calcanhares entrechocaram-se ao se despedir do solo. a dobra de tapete tinha força vulcânica, não parecia mero obstáculo. sem falar que aquele tapete, ele comprara de presente, um presente caríssimo, para suas anfitriãs, que acompanhavam com viva surpresa, quase aclamando o desfiladeiro que se abriu sob suas costas. estrondoso e obsceno, ele despencou, felizmente, na cadeira de vime preferida do marido de Kézia. acompanhada do riso aberto de Clara, sua amiga íntima e confidente, ninguém, nem mesmo Kézia, parecia reprovar a cena. aliás, o sorriso sem quase sons, de ruídos abafados de Kézia, soava mais aterrador do que a gargalhada desbragada da outra. se visto a partir do seu reflexo no espelho, a gargalhada pura e simples de Clara era brincadeira de criança diante do escancarado desse sorriso refletido que, como tudo que ousa refletir, ganha parecença com a desmesura, com o excesso e o o espírito malsão da ironia pura.

a queda para o homem gordo era uma espécie de mergulho em si mesmo. não chegava a ser um de seus piores vexames, mas os simbolizava a todos como numa telemaquia às avessas.

Thursday, March 20, 2008

O intervalo

passei o dia limando pensamentos.

Sunday, March 09, 2008

9 march, 2008.

eu me vestia mal e lia Thomas Mann com devoção. estraguei duas obturações mastigando páginas de madeira sob a sombra de laranjeiras devoradas pela peste, carcomidas de doenças arrojadas pela concorrência californiana. que saudades de Berkeley eu não sentia ao escorregar pela minha camisa puída os dedos que viravam pálpebras. desde então não me visto tão mal, pois perdi o parâmetro, mas continuo à procura de José e seus irmãos, sem achá-los em lugar algum dessa terra queimada, e assim sobram-me ao menos as vontades da montanha mágica que quando criança parecia uma cena de filme onde o carro voava pelo penhasco de montanhas rochosas quase-canadenses, creio eu. se não fosse tudo fantasia, já estaria com saudades de mim num tempo em que nada desmerecia esse afeto.

Wednesday, February 06, 2008

Rubino, o forte.

Ele lia Freud como um código penal. Apegava-se, como prisioneiro, à letra da lei, em busca de refúgio e proteção contra as intempéries dos processos nos quais estava irremediavelmente enredado, e com espírito assolado e fustigado de criminoso, reclamava mitigação como quem foge dos rigores da pena inescapável.

Monday, January 14, 2008

14 de janeiro de 2008.

"Minha disposição é a mais pacífica. Os meus desejos são: uma humilde cabana com um teto de palha, mas boa cama, boa comida, o leite e a manteiga mais frescos, flores em minha janela e algumas belas árvores em frente de minha porta; e, se Deus quiser tornar completa a minha felicidade, me concederá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos enforcados nessas árvores. Antes da morte deles, tocado em meu coração, lhes perdoarei todo o mal que em vida me fizeram. Deve-se, é verdade, perdoar os inimigos - mas não antes de terem sido enforcados" (Heine).

"O que chamamos de felicidade no sentido mais restrito provém da satisfação (de preferência, repentina) de necessidades represadas em alto grau, sendo, por sua natureza, possível apenas como uma manifestação episódica" (Freud).

"Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?" (Drummond).

e quem nos impede de escrever? o mar agitado, quebrando em caixões desde minha infância? certamente que não. seria a areia da praia em que com meus camaradas tantas vezes pisei em troca do afago, da poesia e da imprecisão da manhã? certamente que não. conversar com os amigos até perder os limites da injunção entre cores pintalgadas de cemitério? certamente que não. angariar fundos para uma partida de ping-pong e uma garrafa de cachaça? certamente que não. uma crise de estabelecer o transitório na vida como se fosse regra? certamente que não. incríveis impropérios sobre o viver, instruídos pela falta de acalanto? certamente que não. martini seco e cubos de gelo, derretidos pela manhã no copo impróprio do beijo de quem mal se sabe amar? certamente que não. singapura no café da manhã? certamente que não. libido de sexo de areia sob a mira do mergulo de olho trôpego, inquisto, do outro? certamente que não. mar de informações, credores pregueados de efetividade e arrogantes pela necessidade do beijo, jasmin? certamente que não. anarco-punk indissoluto, laboriante da vida e na teia do desequilíbrio? certamente...

espírito livre

allegro
andante
presto
allegro assai

acordei noturno para piano e violino de Chopin...e dormi sonatas para piano de Mozart.

Ou muito distante das aparências do mundo;
ou no centro simbólico delas.

Thursday, January 03, 2008

Rastros de estalactite

Há dias em que aproveito a vida como um prisioneiro. As pontas de cigarro no cinzeiro são como salva-vidas da esperança. Será que acordei sentimental demais? Em que parte do trajeto teria perdido a sensatez e espoliado minhas próprias possibilidades de consolo? De qualquer modo, dias revirados como se fossem latas de lixo não me aprazem menos do que o volume de boa literatura com o qual ainda posso me narcotizar. Esperei trezentos anos pela fúria do mar, enredado em meras palavras, resolvi não mais discursar nos seminários, palestras e fóruns a que eu me achegava com certo rubor de felicidade, parecia um néscio, caminhando de quatro patas, obtuso como o lago do monstro Ness. Criaturas nefandas como amigos, saltei do quarto, emendei dois pontos na cartela, e pus-me a rir da triste memória dos dias em que de tanto estupor não conseguia deixar de passar as velas quebradas sobre a cabeça. Macaqueei mil faces de estanho, antes de perder a Voz múltipla do vale de sombras douradas. Vida esfuziante, sem temor, sem impróbrio? Nada de doce perpetua essa rigidez ao se debater contra as fronhas do amanhã. Petrificado por quem? Talvez pela incúria dos dias flácidos. Da barriga desmesurada de cerveja ruim ao estilo dessa vida americana do passar sem amor pelas bisnagas quentes de pão. Pão de centeio, pão da vida!

Monday, December 31, 2007

31 de dezembro de 2007.

Seria ainda capaz de fechar o livro sem esquecer da página onde abandonara a leitura? Conseguiria mover-me no exercício da exatidão a que tinha me habituado em tempos de escola, retomar a aptidão de ler alguns livros ao mesmo tempo sem perder o fio condutor de cada seqüência narrativa? Haveria de encontrar as modulações do meu eu nessa multiplicidade cambiante do não-linear? Em quais caminhos desvairados a literatura me enredou? Qual o peso desse palácio, além da pálida função de me fazer competente para vender miolos de pão para as empresas de bens de perdição?

Levantei-me aos trovejos. O banheiro estava sendo limpo. Não pude deixar de pensar, e nisso afetei certo contetamento, quão indigno seria interromper o trabalho de quem limpa meu banheiro. Salvo pela réstia desse lampejo, acometi em direção ao outro banheiro. Nele o papel de ursinhos serviria como ótimo marcador. Decidi, ao contrário, pelo exercício de memória. Decorei a página 261 do livro para que a pudesse retomar no frescor da leitura que desde a manhã chuvosa fazia pendurado pelas paredes da minha sala. Um prédio de muitas escadas era minha paisagem corriqueira. Ele brandia sua novidade em minhas ventas. O mar entrecortado era o que me salvava a visão. Da janela, em cujo parapeito minha adorada havia mandado fazer um jardim japonês, eu via muito pouco. Levantei de novo, desta feita a fim de colocar minhas lentes de contato.

E a página do livro? Antes eu reconhecia a seqüência da leitura interropida pelos trechos frescos que pairavam na zona incorpórea aonde lançava dadejos de idéias, impressões e visões em cacos de telha.

Sunday, December 23, 2007

Congé

o corpo busca esquecer das suas modelagens habituais. dirige-se ao encontro da melíflua pele do outono que se foi. Busca o poder da palavra escrita. Refúgio secreto e intermitente de amantes subaquáticos.

Sunday, October 28, 2007

Alice é morta?

ruas soturnas
na sombra fria
enleado em desejo
fremia febril, com fome
em desespero.

alardeados os viventes
da minha face infeliz
saltavam prementes
nas trilhas encrespadas
das noites imberbes.

caloroso me estirava
nos teus aposentos,
queima-me o teu seio,
incutia-lhe tento.

inquebrantável miríade
de mais planetas longes
enlevados

rugia triste em rostos mornos
pintalgados.

Thursday, October 18, 2007

a menina

"Pai, está fazendo muito frio!", diz a menina fugindo mais uma vez do cinto de segurança do carro. O pai apenas olha pelo retrovisor, procura fazer as curvas da melhor maneira. A menina em alvoroço repete: "Pai, estou gelada como uma Bohemia". O pai quase bateu o carro de não acreditar. A menina sabia já como chamar a atenção. Está começando a entender de algumas coisas ou a ensinar? Nem ela sabe, a bichinha!!!! coitada!!! Qual referência tem do pai? Ou será que o significado não tem mais nada a ver com referência?

Monday, October 08, 2007

que não!

e quem nos impede de escrever? o mar agitado, quebrando em caixões desde minha infância? certamente que não. seria a areia da praia em que com meus camaradas tantas vezes pisei em troca do afago, da poesia e da imprecisão da manhã? certamente que não. conversar com os amigos até perder os limites da injunção entre cores pintalgadas de cemitério? certamente que não. angariar fundos para uma partida de ping-pong e uma garrafa de cachaça? certamente que não. uma crise de estabelecer o transitório na vida como se fosse regra? certamente que não. incríveis impropérios sobre o viver, instruídos pela falta de acalanto? certamente que não. martini seco e cubos de gelo, derretidos pela manhã no copo impróprio do beijo de quem mal se sabe amar? certamente que não. singapura no café da manhã? certamente que não. libido de sexo de areia sob a mira do mergulo de olho trôpego, inquisto, do outro? certamente que não. mar de informações, credores pregueados de efetividade e arrogantes pela necessidade do beijo, jasmin? certamente que não. anarco-punk indissoluto, laboriante da vida e na teia do desequilíbrio? certamente...

Saturday, September 15, 2007

livros-objetos

foram os livros que viraram outros objetos ou nós que perdemos a condição de lê-los?

No plenário

“Imagina um guerreiro. Ele não quer sobreviver, ele quer viver. Ele não quer piedade, ele quer a vitória. Ele quer o vinho depois da batalha. Ele não quer a lágrima de suas mulheres na platéia. Ele tem a espada. E a arena tem a multidão gritando pela luta. Agora imagina a arena. O gueto, o tráfico nos becos, as armas e sirenes da polícia. Prostituição. Violência. Tudo bem próximo aos arranha-céus milionários, pontos turísticos, boates e night clubs da classe A. Entre o mar e a favela, onde se encontram os extremos do apartheid social, entre a compra e a venda de sexo, drogas e diversão. Imagina que o guerreiro é poeta. Ou cronista. Ele precisa trabalhar no limite, precisa alcançar a poesia sem perder o realismo da crônica. Ele precisa converter as decepções e injustiças em energia e força pra seguir lutando.

Precisa transformar o negativo em positivo. Então imagina um marginal com o porte de um rei. Ou melhor, imagina um rei que foi transformado num escravo, que se transformou num marginal, pra voltar a se transformar num rei um dia. Imagina a trilha sonora de guerreiros e guerreiras. Um som capaz de tirar eles do poço pra voltarem a ser o que são na verdade: reis e rainhas. Esse é o som do Costa a Costa”.

http://www.costaacostaonline.com/site.php

  1. “É impossível fugir à impressão de que as pessoas comumente empregam falsos padrões de avaliação – isto é, de que buscam poder, sucesso e riqueza para elas mesmas e os admiram nos outros, subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida” (Freud).
  2. A população de Fortaleza é de aproximadamente duas milhões de pessoas. Existem 636.435 jovens com idade de 15 a 29 anos.
  3. 67% desses jovens vivem em famílias cuja renda não alcança mais que dois salários mínimos.
  4. 71,4% desses jovens percebem-se como não brancos, ou seja, reconhecem-se como mestiços, afro descendentes e indígenas. 14,4% desses jovens declaram que sua ascendência etnica ou cor pode ser definida como “só branca”.
  5. Esses jovens, em sua esmagadora maioria (91%), acreditam que podem mudar o mundo. E que a solidariedade, o temor a Deus, a igualdade de oportunidades, o respeito às diferenças, a dedicação ao trabalho e o respeito ao meio ambiente, são os valores mais importantes para uma sociedade ideal.
  6. 81,3% desses jovens consideram como muito importante o desenvolvimento de políticas de cultura, esporte e lazer em áreas públicas.
  7. Quando se trata de cultura e lazer,50,9% nunca foram ao teatro, seguidos de 22,4% que foram apenas uma vez. Isto significa que 73,3% dos jovens fortalezenses estão culturalmente excluídos da prática cultural ligada à linguagem teatral.
  8. 43,9% desses jovens nunca foram a um museu de arte, seguidos de 33% que foram apenas uma vez. Isto significa que 76,9% dos jovens fortalezenses estão excluídos da prática cultural ligada à linguagem das exposições de arte.
  9. 40,6% desses jovens nunca foram a uma biblioteca pública, seguidos de 28,6% que foram apenas uma vez. Isto significa que 69,2% dos jovens fortalezenses estão excluídos da prática cultural ligada ao uso de bibliotecas públicas.

  1. 24,8% desses jovens nunca foram ao cinema, seguidos de 15,8% que foram apenas uma vez. Isto significa que 40,6% dos jovens fortalezenses estão excluídos da prática cultural ligada ao circuito das salas de exibição cinematográficas.
  2. 57,6% desses jovens já perderam pessoas próximas em mortes violentas. Sendo que 59,3% desse universo a causa mote dessas pessoas próximas foi assassinato.
  3. 26,7% desses jovens declaram ter sofrido violência policial.
  4. 48,3% já tiveram contato com arma de fogo.
  5. Apenas 12,4% dos jovens fortalezenses estão cursando nível superior, completaram nível superior ou pós graduação.

Fonte: Pesquisa retratos da Fortaleza jovem. http://www.fortaleza.ce.gov.br/default.asp

Reflexões

  1. Violência é produzida pela falta de reconhecimento público.
  2. Violência é produzida pela invisibilidade e falta de oportunidades de expressão e comunicação.
  3. Violência é produzida pela negação de canais de constituição dos sujeitos sociais e culturais.
  4. Violência é sintoma de uma crise de projetos coletivos envolvendo democracia e participação.
  5. Violência é sintoma da falência de projetos políticos centrados em arte, ciência e cultura.
  6. Violência é sintoma da impossibilidade de se encontrar oportunidades de viver uma vida que possa ser considerada digna e significativa do ponto de vista dos sujeitos sociais e culturais.
  7. Violência é a ausência de geração de emprego e renda em conexão com os valores da sociedade da informação, do conhecimento e das novas tecnologias.
  8. Violência é a negação do outro como sujeito de desejos, de direitos e de deveres para com a coletividade.
  9. Violência é a frustração derivada das negações sistemáticas de realização pessoal, familiar e da cidadania pelo reforço perverso das práticas de autoritarismo que restringem de modo criminoso as liberdades e a criatividade das pessoas.
  10. A violência não é inevitável, não é uma fatalidade, não é algo inescapável, pois a solução do problema está em nossas mãos, depende da nossa decisão em envidar esforços para a circulação livre e democrática da riqueza socialmente produzida. E as fontes da riqueza hoje são conhecimento, informação e participação democrática em decisões que afetam o macrocosmo e o microcosmo das nossas relações interpessoais.

Leonardo Damasceno de Sá

Fortaleza, 15 de setembro de 2007.

entre-lugares

naquele tempo, nós respondíamos com a palavra absurdo como contraponto a qualquer tentativa chula de nos ludibriarem. era o corolário da dúvida com a qual nos instávamos a viver, em que nos misturávamos e assim abrangíamos o campo do possível. descobríamos suas conexões mais íntimas e descapadas; em alta dosagem. tudo girava em torno daquilo que possibilitava algo. Exauríamos como atletas infatigáveis os diversos percursos do pensamento de si, e nem sequer nos dávamos conta da mixórdia fantástica em que nos metíamos para prover de força o natural da nossa resistência. não era atitude chã, mas megalomania . mas era puro exercício. o modo como podia ter ocasião para afiar o pensamento e destilar meus pêsames aos exauridos de espírito. não queríamos a ninguém parabenizar, como de fato não o queremos até hoje.

Saturday, September 01, 2007

Um homem com um glossário

Sempre gostei de formular glossários. Fazer o mapeamento semântico da faticidade do viver em função da transfiguração das realidades adquiridas. É uma brincadeira da minha infância. Aprendi a fazer isso no Canarinho, onde estudei. Os mapas não são os territórios, mas sem mapas autônomos de orientação a vida perde a graça, o arrojamento e a espiritualidade. Minha vanguarda é da ficção conceitual que apenas descreve os processos de conhecimento, sem reivindicar a virtude dos justos no ato do saber. Justeza, apenas no campo dos valores. Nesse ponto, não há tergiversação, só afirmação do campo de luta que nos favorece o aflorar do desejo de si. A mim, e aos meus. A todos, enfim, impregnados pelos sentidos imaginários da civilidade e da humanidade. Fora disso, não há ideias, só entre-lugares e fugas. Dinamismo fátuo e impreciso. Palavras que voam como o livro dos ventos, como diz o poeta francês a respeito das bíblias que são de humanos a humanos lançadas, provocando tempestades e calmarias, alternadamente.

Violência

Violência não é nem termo. Violência é o fim do uso dos termos. Acontecimento de suspensão da contextualização de práticas de sentido, práticas humanas por excelência, suspensão do conhecer, da arte, da ciência, da filosofia e da religião. Violência é a brutal instrumentalização do outro, de modo a torná-lo coisa, indefinível, apagado da memória cultural, violência é o extermínio da inteligência coletiva que guia o universo das relações de sentido. As sociedades e as culturas humanas não são precisas quanto ao seu uso, mas o campo da violência seria um quase-campo se não fosse o fato de que as experiências de violência não são narráveis, ou melhor, são inenarráveis, ou não-narráveis, e isso gera trauma, medo, amargura e frustração, que são sentimentos sociais com os quais se orientam os códigos culturais e sociais quando estão depreciados, humilhados e afundados em seu rancor. O problema do termo violência é que ele esconde o ódio, o ódio social, coletivo, de um modelo de funcionamento de sociedade que faliu na possibilidade de alçar o humano a um projeto de significado que possa agraciar a sua própria diferença e seu modo singular de tornar-se humano, sujeito, sujeito de direitos, de multiplicidades de práticas e segmentação das posições nas conjunturas onde se pisa no território dos outros sem lá ser bem-vindo. A violência é um ato de ingratidão nas relações sociais de parentesco que embasam o mundo do humano.

Subjetividade

A subjetividade, não é termo, é sempre meio-termo. Pois quando se trata de subjetividade, o que nos resta é torcer pela vitória do nosso time. Subjetivo é o inapreensível com o qual se faz possibilidade de comunicação se houver narrativas sobre e outro, do outro sobre nós mesmos e de nós sobre alguém. E esse alguém é um sujeito que vaga nas várias modulações do eu. A subjetividade é um conceito com o qual se designa a instância de formação do sujeito, daquilo que se busca ser de si mesmo, a busca de si, a superação que isso exige, e as frustrações inúmeras que alimentam medo e violência nas metrópoles contemporâneas. O problema da violência é um problema de falência dos modos de subjetivação humana e cultural. Sujeito é o que está em devir. Constituindo-se. Perfazendo-se. É a fuga dos processos de identificação e classificação dos sujeitos para produzi-los indivíduos, pessoas, cidadãos, quiçá, um dia, e atores. Mas a questão da subjetividade vai além, pensa-se nessas conexões que conectam várias outras, acaba articulando-se com a própria necessidade dos seres vivos se diferenciarem. Pois a diferença amplia o campo da comunicação intersubjetiva.

Cultura

O termo cultura é tão multifacetado que existem centenas de definições para ele. Pelo que temos escutado, ultimamente, houve uma quebra na correspondência que antes se fazia entre cultura, povo e território. Como se a cultura obedecesse aos limites territoriais estabelecidos por outras instâncias do saber humano, como aquelas que compõem as formas de poder, ou seja, de constante ação sobre ações, de modo que no teatro das ações humanas interpõem-se várias perguntas a respeito da legitimidade das coisas. E como em toda troca os signos se interpõem para alcançar o real, gera-se uma configuração de valores e sentimentos que, ao serem compartilhados, e acionados em contextos de interação prática, são os signos que se trocam. Com os quais fazemos aliados e derrocamos os inimigos. A cultura é um dinâmico modo de se localizar. Imprecisos como os labirintos da vida. Processo em metáfora. Moldura em transição. Mapas que orientam o sentido da existência. A cultura é o mapa, mas o mapa não é o território.

Monday, August 20, 2007

o desejo e os dias

quarta-feira
fingi nove horas
novas horas
com aurora
de viração.

desci a ladeira
perdi a caneta
as palavras errantes
sós na imaginação.

saí do cinema depois de seis cervas
meti pela testa copo e meio de maçadas

no devaneio da batida,
escrevi empolgado
na lembrança da filosofia
nos guardanapos de papel.

espreitei o terreiro
limpei a garganta
e desatei a cantar na minha quadrilha


fora da minha cosmogonia
os desejos e os dias
só me fazem chorar.

E, de promessa em promessa,
eu me perco a fantasiar
o que seria de mim?

Saturday, August 18, 2007

Valentina

quando você nasceu para a vida, eu me fiz fluxos. Desapareceu do meu campo semântico qualquer suporte de imprecação. Vesti-me orgulho e altaneiro para exprimir a permanência como condição do olhar e da compreensão. Era em plena difusão a consistência das relações sobre as formas e conteúdos. Nos meus braços te recebi como tesouro arcaico! Ria-me sem fim da ousadia, pois quão ousados são aqueles, quando se lançam em fazer conhecimento do possível.

em tal momento!

o manejo do texto sofrível é minha especialidade. duas ou três vezes, começo! Sem mesuras, o arrebatamento do velocímetro fragmenta a intenção. Especialidade ou antecipação? Ainda preciso descortinar o véu da mixórdia de jogos com os quais me comprometo na feitura do pensamento. O espírito de sistema enraizou-se como matriz das práticas de sentido, todavia nem todo efeito é recursivo. O não-linear faz-se nas modulações do eu. Na escrita proustiana da verdade, eu me refestelo. Seria lamentável abandonar a perseverança, o tirocínio e o gosto pela invenção. O que sobra? O que me sobra? Não entendo nada de sobras, nem de sobejo, vivo exclusivamente da degustação do porvir.

Wednesday, August 01, 2007

veja o filme Amor à flor da pele, de Wong Kar-Wai

eu já vou ler para ti, meu amor! vou ler a história do presente. estou aqui, com esta brochura na mão que eu ganhei do meu melhor amigo, quando eu tinha dezesseis anos de idade. só o tempo, o tanto de bebida, bebida, e o tanto de cigarro, fumado, dá notícia como essa que quero te passar e da qual me aprazo em te contar, como se conta a fuligem dos edifícios em construção.

as ruínas são o desespero da morte. morte desprovida de conforto. essas ruínas, tão velhas, perderam até mesmo a amargura que lhes era incrustada como um diamante na pele ruim, desgastada de tanta má alimentação. as ruínas são a desembocadura da morte. e só de quem provou da seiva grudada nas rochas, ela testemunha, só esses podem localizar-se em relação a elas e apesar delas.

nunca fui um sujeito muito compassivo...talvez...eu tenha até agora conseguido ser educado. polido e educado no sentido próprio ao da civilidade. motivos não faltam jamais com a imprecisão toda de suas certezas. sempre iremos à Bagdá, mas prefiro Praga, pelo menos no momento...Bagdá me faz lembrar do luxo e da pecaminosa desgraça impingida aos incautos. e de precauções estou tão cheio que sou capaz de montar um plano de expansão baseado em pequenas variâncias da vida cotidiana, inimigas das rotinas.

...tudo se passa como se a vida não refulgisse sem ti. contar-te-ei todas as minhas práticas e nisso te darei essência, ou nada poderia valer se estivesse apenas à altura de minhas memórias.

Thursday, July 26, 2007

Pasquim

houve tempo em que a inteligência expandia-se como em ondas, hoje é explosão de partículas. eu estava lendo o site do Millor e fiquei tão entusiasmado com as tiradas da figura que resolvi perguntar para minha filha o que ela achava. De certo modo, é como se eu passasse um legado para ela, resultado de todos os domingos em que, no centro cultural banco do brasil, eu li o arquivo completo do Pasquim desde o primeiro número. Para minha surpresa, ela me disse que eu colocassa a estante dela na biblioteca da nossa casa bem no alto, pois ela não gostava de ler, mas de interpretar os signos da ação, enquanto eram produzidos pelos diversos jogos de linguagem da desalmada modernidade. Tomei um susto de deixar cair o cigarro do beiço. Afinal, que conversa estranha era essa, minha filha é só um pequeno bebê humano, e já quer discutir a incomensurabilidade das taxonomias humanas? Fiquei pasmo. Andei a noite toda sem dormir, de um lado para outro, cigarro após outro, cerveja inteirando a outra, e nada de resposta para o enigma. Finalmente, lá pelas três da matina, deitei movido pelo cansaço, pela embriaguez e pela certeza de que ela estava dormindo, linda e maravilhosa, na casa da mãe dela. Não se fazem mais filhos como antigamente, eu, ao menos, era leitor assíduo do Pasquim. Aliás, sou!

Sunday, July 22, 2007

as tragédias não são em vão!

nada melhor do que a sombra ilhada do guarda-sol, um pedaço do mundo parece abrir-se a partir da terra, da areia molhada e fria, sob o calor escaldante da praia, do verão inventado na solidão do ciclo natural. os corpos atentos, direcionados, acesos. Outras pessoas passavam. Dirigiam-se aos círculos, propensas à embriaguez, dilatadas pela devassidão do caminho interrompido, malhado de tão estrito. Ao mesmo tempo circunscrito e aberto. Escalado para o nada, para o brilho da mente natural, das algas-marinhas, filhas da imensidão, e do alimento disperso. Cambiam os corpos deitados com o caminho possível. O picolé derretia na praia-balneário da Itália de Calvino. Amores ternos, fluidos, capazes de se amalgamarem aos cacos de tijolo pisados sob a maré baixa das pequenas vagas. Os olhares entrecruzam-se aflitos, ou melhor, sôfregos, em busca do adorno perfeito, do puro valor estético que faz a coisa ser mais funcional na sua apreciação e consistência. Ao sairem do mundo das vagas, encontram em si os fluxos de um trânsito de praia sul-africana na década de sessenta. Poucos carros, muitas vidas perdidas fora das estradas. Os apartamentos que margeiam as vias de acesso à praia estão bloqueados por quadros baratos comprados no supermercado mais original da cidade. Mesmo assim, os corpos antes deitados seguem firmes, e sentados. Guiados pela potência mortífera do automóvel. Dobram seitas, rejeitam esquinas, embrulham-se como pão feito na hora. Quentes e macios. Voltam do ninho à rua. Incrementam as mesas dos bares, e fazem a calefação dos olhares alheios e inquietos. Capazes de tudo, menos da ousadia de abraçar fios de alta tensão descapados escorrendo e serpenteando nos corredores das mesas como cobras. as letras fazem-se em guardanapos de papel. não ambicionam ir além disso, da pele tatuada e da alma estriada. São as estrias da alma que fazem o real ter espessura e sensatez. a querela maior é robusta, se comparada com as ninharias que os prisioneiros são obrigados a amamentar na rotina da selva de pedra, no mergulho no vazio dos átomos, sem comunicação, sem diferença. o que se há de evitar, espelha-se e reluz como medéia em apuros. o que se há de abraçar, dormita breve e quente na palma inteira da mão.

Friday, June 08, 2007

imago

ele escorregava em si mesmo. parecia feito de cera. não era fogo a escada que o engolia. era um deslize. invocava a si mesmo no ato de fazer o gelo derreter na cratera disforme da cidade. Qual cidade? Não seria melhor perguntar: quem cidade? quem nada o qual o valha. ele simples estava lá. mente sobre a deposição a que foi obrigado curvar-se. mesmo vergado pela toniturante medida do pneu queimado, imperceptível, escondido do olhar do morticínio. da embriaguez, ele se desfaz pela fantasia técnica que é a magia da imagem.

Saturday, June 02, 2007

aprendizagem

quando vejo teus olhos de topeira a me procurar na saída do colégio, meu coração se enternece e, não por uma questão de crença, mas de pura sensibilidade em relação à capacidade que o ser humano tem de agir; e isso implica em nascimento e invenção constantes. Improvável seria não ter meus olhos grudados e embaçados como os teus diante da confusão do mundo. do teu abraço provém sentidos em multiplicidade, inclusive com enorme detalhamento dos sentidos do múltiplo. aí é uma torrente permanente. não pára e eu adoro. te amo desde o sempre. talvez, continue aprendendo com você nos momentos em que mais preciso.

Carta para um amigo

nos primeiros tempos, era tórrida a paixão. Por causa de alguma lei besta do destino, quer-se vê-la diminuída em prol da coletividade. A maioria obedece prontamente. Nem resquício de volatilidade, são tão clássicos e elegantes os mecanismos que roubam a carência do seu estado bruto. bem, mas de qualquer modo, meu caro, restou muita amizade durante alguns bons anos. De quem se trata? Te digo já, mas antes me arranja um cigarro aí, por favor! Na paz, valeu, vou te contar tudo! O problema era de mapa astral, não havia conexões suficientes para sustentar um pleito de pura felicidade. Quebrou-se feito faca, faca enterrada no peito, como na canção, você a conhece? Da Fátima Guedes? Saca, não? "O seu nome é uma faca me dilacerando, o segredo é uma faca de dois gumes" e tal. É um som muito massa! Foi uma grande amiga quem me apresentou. Mandou pelo MSN. Pelo menos para isso, esse troço basta! Mas, na paz, vou só te avisando, a vida fervilha trás aos montes, e o mundo arrefece suas injunções mais baratas, recusando praticamente todos os contratos extorsivos de fornecedores. Tudo passa a ser condição de existência, tudo o que toca o humano vira condição de existência. Sacou? Vou ficando por aqui, quem sabe amanhão não tem novamente um samba lá em casa. Estou nessa preferência para todos nós, camarada! Vai em frente, estropia teu joelho mas não ceda mais do que dois passos àqueles que querem ver o igual virar monótono; e não o vulcão de mil faces de diferenças que é.

Muitos beijos para a galera aí,
e um forte abraço pra você.

o gerente endoidou e o preço baixou!

O cara aparecia num cenário cor de verde-limão. Cambaleava todo troncho até um primeiro plano e um close-up. Dançava freneticamente, jogando perna pra todo lado. O locutor então começava a falar desse pobre homem em tom histriônico "o gerente endoidou e o preço baixou". Triste fim, pode-se alcançar com tão pouco.

Saturday, May 19, 2007

dogtown é aqui

eram duas da manhã. eles subiam a ladeira onde tinham escondido o bagulho. o momento era de tensão. em número de seis, as coisas pareciam não querer se escamotear. o fio da calçada acompanhava todas as sombras. e como, afinal, não se fala para os outros abertamente a respeito de lugares secretos, os passos calados pareciam jogar basquete numa quadra coberta vazia. a noite era imprecisa, lunar, escorregando os pés de rainha.

e aqueles segredos expressavam a fé que depositavam na vida, precisavam ser resguardados dos olhares da lua e de seus adversários. tinham chegado na praia à tarde, tinham surfado e nadado horas a fio. as pedras percorriam os pés na saída, mas não antes da mordida das tartarugas. imprimiam impertinência e vivacidade com essas pequenas e possíveis querelas. era tudo uma imensa diversão.

Wednesday, May 09, 2007

o corpo escorrega da alma?

não poderia te interpretar e agir sobre ti ao mesmo tempo. o tempo resvala. escorre lentamente. e a imprecisão não é uma medida negada, não é disjunção. é como a batida do coração. trivial seria incorporar o antigo piso da morada. piso de demolição. por mais lindo que seja, ele é subjetivo em demasia. deixa-me em perigo. tão longe de mim mesmo que deixo de aparecer. e sem aparição, sem aparência, não há sentido, não há rouquidão que valha a pena, nem faringite, nem nada que impeça o nariz de farejar, o ouvido de escutar o marulho na praia e a garganta de ser comovente na despedida. são duas? são mais? quereria não ter sido tão néscio desde o ponto de amanhã. tão comoventes são as narrativas da subjetividade quando destroçadas pelo peso do martelo na avelã. quão matreiras e imberbes são as subjetivades que acreditam poder se expressar sem as modalidades que as alimentam no espaço crítico do pensamento. mas aí já são outros quinhentos e cinquenta e dois movimentos.

o que me importa é que, na madrugada de dentes frágeis, já não serei mascate de meus olhares. nem ímpio, nem fraco serei, se e somente se tu, a quem não posso interpretar ao pretender agir, minar o sentido da fraqueza de caráter. dois ou três? ou vários? qual PIB americano me desprendo da base de mercúrio, onde acaricio o vidro e desejo o caco de vidro da minha febre gentil, da minha cordialidade de mendicante. banho de sais, querido, banho de sais e taça de champanha vietnamita irão te salvar do caos e da aposentadoria aos cinquenta e cinco anos com plano privado e teto máximo da pública e estúpida distribuição. elogios? nada de elogios é distribuído nessa miríade de palavras sem correspondência. lá vão os cinco reais! lá se vão minha estratégia de não seguir as regras de um território aonde não me dirijo, e a quem não me pertence em magia e pranto.

na estrada escura da cidade, eu não caminho. não busco revelar e preencher nenhum sentido. não espirro sem permissão de quem não liga para prisioneiros e suas categorias de plantão. quer pular a muralha? aprende a ser hirto, firme e empaludo como os samurais da arte na timidez de sua própria bilheteria. ardente no desejo de se fazer ampliada e marcante. mas não basta o carbono, nem a fita de máquina de datilografar para deixar-se agenciar pelo conceito macrobiótico e absolutamente descentrado do meu samurai. lançador de chamas pelo peito de fogo diante da extinção do estamento dos guerreiros sem comiseração. foram eles todos derrotados pela Nike do Nilo Verde, onde matanças não se fazem sentir antes do meio-dia.

Thursday, March 29, 2007

Notas de pesquisa (tese)

Os sentimentos, as emoções e os pensamentos das pessoas nos são inacessíveis? Talvez, não! E se eles são constitutivos dos atos de linguagem e não da mente? Estou ultimamente interessado na questão da intimidade, na relação entre intimidade cultural e os processos de constituição dos sujeitos. A própria noção clássica de pessoa precisar girar nessa perspectiva. Não há como traduzir os outros sem o sentido dos outros, sem vibrar em torno do que os outros dizem, mostram, fazem, enfim, sem um questionamento sobre as fronteiras mágicas que instauram o território do eu, com seus limites sobre o dizível e o visível. Não estou interessado no comportamento dos indivíduos - esse objeto de conhecimento das ciências sociais - quero vislumbrar, para além também de uma sociologia da ação, o espectral do universo narrativo. A matriz narrativa das práticas segmentares?

Como as coisas são dadas a ver? Como as coisas são dadas a dizer? Como o ver, o dizer, o fazer e o agir dão-se a si mesmos o mundo a "quem" se dão como mundo? A noção de mundanidade guarda relação importante com a de intimidade. Em que passos largos, pode-se guardar o mundo da intimidade? Trata-se de uma mudança de projeto intelectual. Antes, até minha dissertação de mestrado, o que me preocupava era o espaço da ação. Mantinha um resguardo desconfiado em tomar nesse espaço a ação simbólica como medida de constituição do objeto de conhecimento em sua autonomia relativa frente ao funcionamento do mundo social. Aliás, essa dubiedade levou-me a adotar a velha solução do simbolismo, apenas trasmudada de uma versão substancialista para outra funcional. O símbolo está em função de...de si mesmo? de outro si? Estas são considerações para a retomada de um novo projeto de pesquisa, talvez centrado na idéia de uma hermenêutica do sujeito, quem sabe, para que eu possa voltar ao ponto de partida, Michel Foucault, acompanhado do pessoal da antropologia a quem me afeiçoei decisivamente.

Monday, March 26, 2007

Mudo

O mundo dividido estrangula com júbilo infantil e profeciência perversa as forças do mundo vivido. Em que idéia de mundo, salva-se a vida? Em que experiência de mundo, inaugura-se o tempo e o espaço da redenção? Do meu vale de lágrimas, insisto na absolvição celeste pela arte, pela ciência e pela amizade, a melhor dizer, pela ordem superior das coisas, pela maestria da arte do pensar. Acordei noturno para a vida. E na sucessão dos dias, hão de escapar-me as forças recônditas da renovação, da recolta da alegria e do adágio maravilhoso? Escape ou apropriação? Adonde? Na feitura do porvir? No tecido das brilhantes formas? Em quem me escapo dos signos formais e vazios em que afogam-se alma e coração? Por mais lancinante que sejam as decisões, elas nos aproximam do abandono do eu pessoal, imprimindo-lhe o sabor solvente do mágico ardor em que se opõem o céu e a terra, a lida e a leitura amorosa dos astros e, finalmente, o trágico enlace entre sofrimento e alegria. Quem nos ensinam sobre a morte? A quem pagaremos por essa aprendizagem inconclusa? Quais são nossos rituais fúnebres? E o nosso incenso queima alhures? Londe de estar petrificado, encontro-me na mais ampla vertigem do signo que gira, gira e gira mais uma vez a fim de parar o mundo pela despedida do próprio signo. Signo capturado pelo código dual do mundo dividido.

Sunday, February 25, 2007

Convicções

As convicções são portentosas. Matreiras em adestrar a experiência aos seus caprichos, em moldá-la contra a razão. Por que então são tão irresistivelmente sedutoras? Minha adesão, por exemplo, ao mundo do trabalho é uma dessas loucuras em que o ser semelha perder o que ganha pelo fato de eximir-se do próprio território, estabelecendo relações ambivalentes e cambiantes com o território dos outros. Meu território é o da infância. Como Lévi-Strauss, tornei-me professor para não sair da escola. Ao final e ao cabo, sou um malandro orgulhoso e pago caríssimo por isso. Ao tentar fugir das humilhações ocasionais lançadas sobre o mundo da vida, desenvolvi a destreza impoluta de navegar na transversalidade do espaço conspurcado das corporações, espaço estrutural, funcional e corrompido pela perversidade do mediano. Meridianos perversos e risadas histriônicas. Ambos negadores do riso. E nessas mixórdias de caráter fragmentado, implodido em mil pedacinhos desencontrados, não me encontro e nem me procuro, pois não sou besta de nascença, só de parecença quando vem ao caso e ao raso do poço de onde almejo emergir. O que busco? Um tipo de economia de guerra às avessas: um tipo de plano auto-organizador onde a abundância orienta a procura, o valor do valor é movimento de conhecimento e o extraordinário é o principal vínculo de orientação para o fim em cuja afirmação enleva-se a gratuidade do devir.

Saturday, February 17, 2007

Manhã de sábado de carnaval

Naquela tarde de outubro, ao debruçar-me sobre o parapeito da trincheira, arma em punho, o espírito a atraiçoar-me, pude vislumbrar o deserto e nele não havia cor vivaz que o valesse. Faltava-lhe nitidez, era tudo verde-musgo de um escuro que feria a intenção de olhá-lo. Ato contínuo, apregueava meus olhos a não mais poder a fim de evitá-lo, recusá-lo e dissuadi-lo, não o queria em mim, não o permitia ser em mim a mais completa condição de abandono. Ao contrário, buscava acender para meu uso pessoal essas chamas de heroísmo e idiotice a que me aferrava por sobreviência da alma, buscava permanecer no desespero, aceso à ironia da situação, atento à vida mínima ao meu redor. Desesperado, a calmaria dos sentidos tornava-se minha única guarida contra a depressão e o desmembramente dos órgãos. Meu estratagem contra a exaustão. Olhos cerrados protegiam seu brilho, ou o que dele restava. Apenas o odor de pólvora naquele campo de ossadas e corpos insepultos guiava-me nesse direcionamento como os passarinhos que na praia saltitam de uma sombra a outra projetadas pelos guarda-sóis.

Para escapar da náusea dos corpos chamuscados, forçava-me à lembrança olfativa dos tempos de criança quando costumava em absoluto sigilo e segredo deliciar-me com a baforada quente dos boeiros da minha cidade natal. Todavia, lá estava eu, naquele espaço sem lugares, e ele era o ponto mais baixo, era o páramo afundado em tristeza e desesperança.

Nem percebi, quando Hen me passou o copo amassado. Praticamente, bochechei o café ralo, servia-me para lavar os fragmentos de atum enlatado já duplamente incrustado em meus dentes. Meu rosto estaria tão encruado quanto o de Hen? Ao fitá-lo não pude divisar reconhecimento, era um rosto de piscadelas involuntárias, inerme e virginizado de espírito, não percebi que Hen, sem palavras, instava-me a ter com ele no canto mais sujo daquele buraco de lama, não era bem um chamado, mas palavra-de-ordem rota e muda. Cansado como se o cansaço não mais me abandonasse, encolhi os ombros e dirigi-me com cuidado até ele. A um palmo dele e não o sentia, Hen tinha deixado de ser uma composição, o vivente o abandonava, estava frio, sem vitalidade, emplastrado de rejeição a si mesmo. Não sei ao certo como compreendi que ele necessitava de uma massagem nas mãos. Elas estavam obviamente petrificadas. Cada dedo precisava ser tocado com leveza para não ser despedaçado. Hen tinha perdido a habilidade do gatilho. Tinha-se tornado meu protegido e, ao mesmo tempo, meu escudo. Essa situação era-lhe a própria presença da consciência. Era o único farrapo que lhe restava dela. Uma trojevada de artilharia nos jogou de lado e anunciou o avanço da infantaria esquálida e faminta do exército inimigo. Estavam todos muito perigosos, enfim. Nós e eles. Os desaparecidos do mundo. Hen não esboçou nem mesmo olhos vidrados antes de morrer. Foi engolido pela terra, lançado para a cratera sob nossos pés, um buraco do tamanho da nossa importância. E eu? Fragmentei-me em minhas modulações, pois só a escrita imprecisa afungenta a mesmice desse teto de convalescença. Teto estrelado, radiante e lúdico, modulado pelo efeito da morfina. Uma dose diária.

Tuesday, February 13, 2007

em sonho

era madrugada de quarta-feira. qualquer tentativa de permanecer acordada, parecia-lhe fadada à rabugice. sua maior dúvida era um ato de convencimento, mas ninguém convence ninguém, muito menos a si mesma, principalmente quando as idéias parecem despropositadas, sem trama; e a manhã era madrugada pernoitada, ora se sentia por isso uma pecadora, outra vez, impossibilitada, pois falhar com a trama é terrivelmente inconsistente, quase proibitivo. dizer para si mesma tudo o que sentia naquele momento seria o maior e melhor engodo; infeliz, constatava, não haver tempo para isso, a verdade urgia.

Saturday, February 10, 2007

O mundo está preenchido no pleno?

Eu intento, para além do tipo, pensar em viver o desejo abstraindo-lhe a definição de quem busca faltas próprias e inelutáveis. Estruturas inenarráveis simplesmente me impingem desconfiança, porque, palavra plena de pulmões e arteiro, ignoro quem não se torna carne, sangue e proeminência sem sair do solado dos pés. Pragmático, no mundo de aruanda, estou na peleja do pensar e viver o desejo privando-o daquilo que lhe falta.

Mais forte do que meu eu?

Se duas pessoas se comunicam, encontram-se enredadas no mais frágil dos fenômenos humanos. A comunicação quase sempre ressoa tão dispensável ao ponto de ter-se criado, ao longo do tempo, a ferramenta débil da consciência individual para servir-lhe de suporte. Desse modo, acontece comigo - a não mais poder-, ser reputado reservado e inconclusivo, e falsamente tomado pela referência da distância justamente no instante em que mais embaçado estão minhas lentes. Por que então quando estou mais próximo de quem me fura o olho com o punhal da desesperança, de quem pressurosamente me enaltece a fim de me matar de morte matada e para quem reservo meu destempero verbal como um modo de fazer reverberar o eco do eu te amo às avessas, é o como em que se eu estivesse mais longe?

Monday, February 05, 2007

Implosão

Ouvir o silêncio da coluna atmosférica em meio aquático.

Em que oriente, posso te encontrar, minha querida?

"Ela estava ali o tempo todo, você não viu.
Que diferença faria a cor da roupa ou dos olhos? Que importa se chorassem sangue ou lágrimas de tolo, como o ouro sem o fosco valioso, não polido, não extraído, tão puro e ignorante?
Ela estava lá toda noite, você não sentiu.
Que importam as mentiras e equívocos, a paixão e o amor de poesia, jornal na padaria. E quanto àquele dia? Alguma alegoria do não, já perdida e nenhuma alegria.
Ela estava ali o tempo todo e só por hoje não quer estar em lugar algum.
Ela não está mais aqui, nem está aí. Ela não quer mais estar.
Aonde terá ido alguém tão perdida em si? Isso importa?
E ela estava o tempo todo ali...
O que importa é que ela esteve o tempo todo ali
só que ninguém viu" (Papoula da Índia).

Minha querida amiga e poeta de desfiladeiro, nosso tempo é indelével. Só em sonho busco a tua mão, muito obrigado pelo texto, eu o adorei. Estás em Nova York? Compra um livrinho básico para seu amigo? Estou correndo atrás de uma pérola, mando-te mais detalhes por e-mail, por enquanto vou me virando pela terrinha, mas em breve vou chegar para conversar contigo e com Loïc. Ele aceitou ser meu padrinho no departamento de antropologia. Sem ele, seria muito difícil a inserção. Meus beijos almejam teu perfume ainda uma vez nessa vida!!! Tomei a liberdade de publicar teu texto aqui, como um pingente precioso. Paz e bem, abraço nas crianças!

Sunday, February 04, 2007

badulaques

sem estrépito, recolhi meus badulaques, fui à roça, e descobri que eu estava dois anos mais novo. a oferenda à mãe de todos renovara minhas atitudes a não mais poder. mas quem vai trabalhar no meu lugar na segunda-feira? estou livre, meus dias livram-se a si mesmos, abandona-me a ilusão, preciso de vinho e do beijo. os sentidos estão em festança! o bolso vai começar a se ressentir em contrapartida. mas é o preço que o valha.

O que me move?

"Ce n'est point un livre d'histoire. Le choix qu'on y trouvera n'a pas eu de règle plus importante que mon goût, mon plaisir, une émotion, le rire, la surprise, un certain effroi ou quelque autre sentiment, dont j'aurais du mal peut-être à justifier l'intensité maintenant qu'est passé le premier moment de la découverte" (Foucault, la vie des hommes infâmes, 237, v.III).

Rocambole

talvez, eu devesse buscar na mixórdia de textos literários, semi-literários, burocráticos, policiais e registros da justiça criminal as fontes da discussão sobre as narrativas dos homens infâmes (Foucault). Haveria de me perder na escritura inapreensível e na atitude simiesca das rotinas policiais, judiciárias e criminais? quem sabe possa achar literatura a partir de documentos tão medianos de apreciação e feitura? assim vou virar um pesquisador rocambolesco. Salve-me se puderes Monsieur du Terrail!

"Nos tomos mofados de toda grande biblioteca encontram-se sepultados artigos escritos por indivíduos obscuros ou desconhecidos sobre temas aparentemente sem importância, mas saturados de dados, idéias, caprichos, inclinações, portentos de tal calibre que só podem ser comparados, por seu efeito, a certas drogas raras" (Henry Miller, Plexus, 67).

Humanos

"De fato, as únicas questões realmente sérias são aquelas que até uma criança pode formular. Apenas as questões mais inocentes são realmente sérias. Elas são as questões sem resposta. Uma questão sem resposta é uma barreira intransponível. Em outras palavras, são as as questões sem resposta que definem as limitações das possibilidades humanas, que descrevem as fronteiras da existência humana" (Milan Kundera).

Wednesday, January 31, 2007

possível?

como eu estava sem fazer nada nesses últimos meses - desempregado, impossibilitado de andar, e pouco receptivo aos recursos de dar apoio à superação do revés - inventei de levantar a hipótese - apenas uma hipótese movida pelo deslocamento - segundo a qual não há falta no desejo. Infelizmente, ninguém concordou comigo! Aí acabei muito mais curioso. fiquei com vontade de te perguntar se tu achas viável pensar um ponto de partida de criação que não seja faltoso, um ponto de partida sem reclamantes!

Sunday, January 28, 2007

quem?

Quem disso usa, disso cuida!

Era um ditado que meu avô usava, quando estava diante de alguém que dizia que todo mundo era ladrão, canalha e anti-ético.

ella faz música com letras

"a palavra tem a qualidade da calma" (Michel Serres). fiquei a imaginar volumes que negam as coletividades ruidosas. mas eu não entendi se é o ruído ou o volume que nasce dans l'au-delà, talvez seja a ocasião de fugir mesmo ao entedimento. De qualquer modo, vezes sem conta os volumes e suas heresias fazem-nos viver a composição em vez de suprimi-la do campo do possível.

Saturday, January 27, 2007

Em que sentido?

Histórias de amor podem ser pensadas como uma filosofia natural.

desdobramento do eu

espírito livre, acordei noturno para violino e piano de Chopin.

Objetividade

a objetividade organiza processos produtivos.
anti-trágica, eu escapo dela,
e enlevo-me na suspensão do espaço estrutural.
o sim e o não-sim, os vazios e os preenchimentos e seu campo de usabilidade não me servem, porque não me sinto precário, nem muito menos ausente ou excluído.
Vezes sem conta, somos chamados a envergá-la como luvas e dedos entrelaçados...melhor infligir-lhe derrotas pelo riso toráxico, pela força da vontade que faz normas ganharem sentido.
minhas funções são usos, meus usos não estão em função de sistemas e processualidades.
não estou fora,
nem minha mente está dentro da cabeça.
a mente não é minha,
compartilhada se apodera de mim.
existo calmo, cálido e orgânico
como plantas
metabolismo de orquídea.

a questão da externalidade

o mecanismo da externalidade seria próprio do projeto moderno, na medida em que produz imagens englobantes das multiplicidades vivas?

anotação sobre o caderno

às vezes te vejo para além dos teus olhos. através da carta. e da tua pele fujo ligeiro a fim de evitar maiores implicações. nos identificamos na torrente que estourou limites e expectativas de ouro? eu me vejo em ti, onde em plena morte me esvaio com meu chamariz ultra-violeta de aranha-voadora. meus olhos turvos são apenas lentes sujas. estarei enganado em pensar na tragédia partilhada feito praga de mãe para filho ruim abatendo-se sobre nós? quando minhas pernas se fizeram chão pela primeira vez, se fizeram nada, cortadas pelo coração sem fluxo, impreciso, e foram tuas pernas destroçadas que caíram e me deixaram cair. Tombei finalizado, sem palavra de ajuda, nem de adeus, nunca antes havia girado em falso na chamada da comiseração, numa troca de pé impossível. a tua boca não faltava mais. minhas pernas ausentes fizeram-na desaparecer. e o gosto mentolado do teu hálito nada escondia do teu sexo. mitiguei dores inauditas na cesariana da vida e do tempo esgotados, brilho suspenso, mirada intragável. Somos improváveis, talvez...não estejamos mais em nós mesmos, são átimos que se fazem no esgar do gozo prometido, mas sem prazer igual, o igual não mais nos quer, nem nós mais o queremos. bastaria um beijo de lábios leporinos e nos acabaríamos, fundidos no ser molhado e quente de um conforto perdido. quem engoliria quem, tragados num quarto de hotel, exaustos de tanto amar, de tanto foder até amar? eu te foderia e tu me foderias, quem mais poderíamos ser? quem mais poderíamos foder além de nós mesmos? eivados de prazer imenso, escancarados e explícitos, e ainda assim perdidos num amanhecer de querer voltar direitos para a casa tímida, os olhos marejados e esmaecidos pela embriaguez, pensamento em fuga, voltaríamos para casa, sim! quietos, cor de estanho, calados...a qual casa retornaríamos?

Fui

Trocas humanas são interessantes pelos jogos de descontinuidade. Pelos intervalos. Tentativas de sacar a raridade das coisas; se elas existissem.

Escrever sobre a certeza, num sentido lógico e existencial, passa pelo ato de injuriar o ser das coisas; ato de fazer desfalecer o real; imprimir pontos de contato entre as conexões que conectam o real a fim de implodir o estado das coisas, na medida em que os termos das relações não preexistem às relações propriamente ditas, no sentido forte de rapport. Um debique.

Saturday, January 20, 2007

coitados dos militares!!!!

o cara avançou a preferencial. entrou na contramão e bateu de frente comigo. estava sem carteira de habilitação. não quis fazer acordo. e ainda me chamou de encrenqueiro. era um rábula. desses que nos chamavam de baderneiros, quando estávamos lutando por democracia e liberdade. lixo dos militares. sempre o mesmo lixo.

Tuesday, January 16, 2007

Blue Nile

os santos reverberam nas modulações do eu. promovem as conexões dos padrões que conectam. eles nos pegam pelos pés, pelos solados dos pés. não há escotilha que reparta o corpo ao meio sem brecha, sem ponto de fuga. sem deixar sinal de refluxo ou de impulsividade, enfim. nada malsão. são as palavras de vento, fora dos códigos, imprecisas, que se oferecem ao reconhecimento, reconhecimento instável, sem hierarquias, sem assimetria, apenas o outro quem de alguém, o rir sem se explicar. a informação cifrada não é o dado. é a preponderância dos termos sobre as relações. quem, fragmentos? quem, você? Universo raro? Universo profuso? O volume foge do ruído? Blue Nile.

Monday, January 15, 2007

entre o doce e o amargo

o doce e o amargo, quando se realizam sob o princípio da harmonização, criam a qualidade própria do que é superior. é uma questão metafísica e gastronômica, ao mesmo tempo.

Currículo Lattes

Graduado em Ciências Sociais (1996) e Mestre em Sociologia (2000) pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV-UFC). Diretor financeiro da Agência de Audiovisual "Aldeia". Coordenador do núcleo de pesquisa "Cultura e Memória" do Memorial da Cultura Cearense (MCC), do Instituto de Arte e Cultura Dragão do Mar (CE). Professor de Sociologia e Antropologia da Faculdade Católica do Ceará. Professor do curso de especialização em Cidadania, Direitos Humanos e Segurança Pública (Cetrede-UFC).

http://lattes.cnpq.br/0430275226558223

Thursday, January 11, 2007

Quem é Laura?

Segundo Valentina, os humanos, os animais, como a Laura, e os monstros precisam tomar vacina.

Wednesday, January 10, 2007

dadaísmo musical

a man aint nothing
where could I go
me, myself and I

happiness is to win a big prize in cash. On it.
i'm only dancing
this is not a love song

is it because i'm black
love me or leave me
it is a sin to tell a lie

it is now or never
memories can't wait
glad to be unhappy
free your mind
i'm a fool to want you
only love can break your heart
how to disappear completely

someone like you

i will wait and pray
wolf like me

Saturday, January 06, 2007

reitero o pedido

Rosário de esperança (Lupicínio Rodrigues); Nervos de aço (Lupicínio Rodrigues); Juramento falso (Orlando Silva); e Nós dois (Cartola).

Tuesday, January 02, 2007

Postei na comunidade Fortaleza das antigas (orkut)

minha lista afetiva.
Cafua e Biruta.
El Paredon: from the sea to the moon (no antigo casarão onde hoje é o bar do Micharia na PI).
Get's (da Sandra Gentil, na PI).
Pertinho do céu (na avenida da universidade) Ou seria Cantinho do céu? fiquei em dúvida.
Caisbar e o sem nome que era ao lado do caisbar que depois virou Compasso.
Periferia e o boteco para lá de underground que tinha ao lado da boate.
Boate 66, onde é o Oasis (trabalhei na bilheteria lá).
Subindo ao céu (no primeiro endereço e no segundo também).
Coração materno, na PI.
Inverno e verão.
Badauê.
Domínio Público.
Feirinha da 13 de maio (o lado dos headbangers era massa).
Meat com no Gaúcho.
Ravena (rodízio de massas).
Baile funk do Ideal club.
Casinha club.
América club.
Marcílio Dias, baile funk.
Esquina da Silva.
London, London. New York, New York, Quixadá-Quixadá.
Flórida bar, ainda no centro da cidade.
Belas artes, no centro, e depois onde funciona o Rotisserie.
Trapiche e Lanxis (na beira-mar) para ocasiões especiais.
Leila (na maraponga).
Casa do Português.
Divaldi.
Casa Kaiada.
e por aí vai...