Saturday, January 27, 2007

anotação sobre o caderno

às vezes te vejo para além dos teus olhos. através da carta. e da tua pele fujo ligeiro a fim de evitar maiores implicações. nos identificamos na torrente que estourou limites e expectativas de ouro? eu me vejo em ti, onde em plena morte me esvaio com meu chamariz ultra-violeta de aranha-voadora. meus olhos turvos são apenas lentes sujas. estarei enganado em pensar na tragédia partilhada feito praga de mãe para filho ruim abatendo-se sobre nós? quando minhas pernas se fizeram chão pela primeira vez, se fizeram nada, cortadas pelo coração sem fluxo, impreciso, e foram tuas pernas destroçadas que caíram e me deixaram cair. Tombei finalizado, sem palavra de ajuda, nem de adeus, nunca antes havia girado em falso na chamada da comiseração, numa troca de pé impossível. a tua boca não faltava mais. minhas pernas ausentes fizeram-na desaparecer. e o gosto mentolado do teu hálito nada escondia do teu sexo. mitiguei dores inauditas na cesariana da vida e do tempo esgotados, brilho suspenso, mirada intragável. Somos improváveis, talvez...não estejamos mais em nós mesmos, são átimos que se fazem no esgar do gozo prometido, mas sem prazer igual, o igual não mais nos quer, nem nós mais o queremos. bastaria um beijo de lábios leporinos e nos acabaríamos, fundidos no ser molhado e quente de um conforto perdido. quem engoliria quem, tragados num quarto de hotel, exaustos de tanto amar, de tanto foder até amar? eu te foderia e tu me foderias, quem mais poderíamos ser? quem mais poderíamos foder além de nós mesmos? eivados de prazer imenso, escancarados e explícitos, e ainda assim perdidos num amanhecer de querer voltar direitos para a casa tímida, os olhos marejados e esmaecidos pela embriaguez, pensamento em fuga, voltaríamos para casa, sim! quietos, cor de estanho, calados...a qual casa retornaríamos?

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