Saturday, February 17, 2007

Manhã de sábado de carnaval

Naquela tarde de outubro, ao debruçar-me sobre o parapeito da trincheira, arma em punho, o espírito a atraiçoar-me, pude vislumbrar o deserto e nele não havia cor vivaz que o valesse. Faltava-lhe nitidez, era tudo verde-musgo de um escuro que feria a intenção de olhá-lo. Ato contínuo, apregueava meus olhos a não mais poder a fim de evitá-lo, recusá-lo e dissuadi-lo, não o queria em mim, não o permitia ser em mim a mais completa condição de abandono. Ao contrário, buscava acender para meu uso pessoal essas chamas de heroísmo e idiotice a que me aferrava por sobreviência da alma, buscava permanecer no desespero, aceso à ironia da situação, atento à vida mínima ao meu redor. Desesperado, a calmaria dos sentidos tornava-se minha única guarida contra a depressão e o desmembramente dos órgãos. Meu estratagem contra a exaustão. Olhos cerrados protegiam seu brilho, ou o que dele restava. Apenas o odor de pólvora naquele campo de ossadas e corpos insepultos guiava-me nesse direcionamento como os passarinhos que na praia saltitam de uma sombra a outra projetadas pelos guarda-sóis.

Para escapar da náusea dos corpos chamuscados, forçava-me à lembrança olfativa dos tempos de criança quando costumava em absoluto sigilo e segredo deliciar-me com a baforada quente dos boeiros da minha cidade natal. Todavia, lá estava eu, naquele espaço sem lugares, e ele era o ponto mais baixo, era o páramo afundado em tristeza e desesperança.

Nem percebi, quando Hen me passou o copo amassado. Praticamente, bochechei o café ralo, servia-me para lavar os fragmentos de atum enlatado já duplamente incrustado em meus dentes. Meu rosto estaria tão encruado quanto o de Hen? Ao fitá-lo não pude divisar reconhecimento, era um rosto de piscadelas involuntárias, inerme e virginizado de espírito, não percebi que Hen, sem palavras, instava-me a ter com ele no canto mais sujo daquele buraco de lama, não era bem um chamado, mas palavra-de-ordem rota e muda. Cansado como se o cansaço não mais me abandonasse, encolhi os ombros e dirigi-me com cuidado até ele. A um palmo dele e não o sentia, Hen tinha deixado de ser uma composição, o vivente o abandonava, estava frio, sem vitalidade, emplastrado de rejeição a si mesmo. Não sei ao certo como compreendi que ele necessitava de uma massagem nas mãos. Elas estavam obviamente petrificadas. Cada dedo precisava ser tocado com leveza para não ser despedaçado. Hen tinha perdido a habilidade do gatilho. Tinha-se tornado meu protegido e, ao mesmo tempo, meu escudo. Essa situação era-lhe a própria presença da consciência. Era o único farrapo que lhe restava dela. Uma trojevada de artilharia nos jogou de lado e anunciou o avanço da infantaria esquálida e faminta do exército inimigo. Estavam todos muito perigosos, enfim. Nós e eles. Os desaparecidos do mundo. Hen não esboçou nem mesmo olhos vidrados antes de morrer. Foi engolido pela terra, lançado para a cratera sob nossos pés, um buraco do tamanho da nossa importância. E eu? Fragmentei-me em minhas modulações, pois só a escrita imprecisa afungenta a mesmice desse teto de convalescença. Teto estrelado, radiante e lúdico, modulado pelo efeito da morfina. Uma dose diária.

1 comment:

Rosana Rodrigues said...

Exatamente como um corpo atropelado deve desafogar o trânsito da cidade que nos atropela devo livrar-me de ti.

Exatamente como a ausência de dinheiro para ser feliz após um drink devo não mais te beber.

Exatamente como o desejo vão da mão que me acaricia devo decepá-la por ti.

Exatamente como a atenção daquele que não me conhece não te alcanço.

Exatamente como a fantasia que não usei te tornei minhas cinzas nesse carnaval.