Tuesday, August 14, 2018

Dois pesos e duas medidas para os protestos

Quando a Dilma cortou 12 bilhões das federais , houve silêncio quase total, quase ninguém protestou. Foi estarrecedor. Agora, vem os cortes menores, que dão continuidade ao corte maior, e gera um escarcéu. Dois pesos e duas medidas. Quando blindavam Dilma, autorizavam cortes que estavam planejados por ela. Ela falou isso abertamente, que ia fazer, mas o impedimento não permitiu. Temer está cumprindo um cronograma de cortes planejado pela Dilma. Continuidade. Só houve um golpe interno. Um golpe no golpe. Tanto é que PT e PMDB são os melhores aliados de sempre. PT golpista. Em janeiro de 2015, o governo Dilma deu um golpe, cortando 80 bilhões da área social. Do sistema federal de ensino, o corte foi de 12 bilhões. Desfez todo o investimento anterior de 8 bilhões e cortou mais 4 bilhões. Fez a universidade recuar para um padrão FHC. Em tal contexto, estudantes e professores em sua maioria dilmistas fizeram absoluto silêncio. Não houve protestos. Agora, o PT se alia no país inteiro com o PMDB. Quem são os golpistas?

Eleição que alivia?

Pessoal que eu conheço tudo com sensação de alívio, pois PT e PSDB voltaram a polarizar e dominar o cenário eleitoral. Um tipo de normalização emocional para muita gente. Um tranquilizante de que a ordem será mantida, excluindo os outros fascismos. Afinal, o fascismo do outro nos olhos alheios é refresco. Pois há fascismos de direita e de esquerda e por toda a parte, infelizmente.

Tempo perdido

Por que falta amor? Porque é cansativo amar. E desejar ser amado é uma pretensão ridícula. Não é bem o amor que falta, mas sim a própria ausência fútil de um ser amado. O amor acarreta um tempo perdido.

Virou game divertido

Gente, a política virou um game nas redes sociais. Na falta de política transformadora, a gente se contenta em brincar com os signos vazios. Ou seja, fica tudo como está, mas a gente faz ironia e se diverte. Acho super legal. Estou só pontuando. Adoro games. Mas para jogar, é preciso estar relativamente bem postado e respaldado no sofá, tem de ter um sofá relativamente confortável. E ter acesso à internet, é claro. Acesso ao mundo do trabalho e do salário, entre outros acessos que tornam a brincadeira bem legal e inofensiva.

Livros como objetos táteis

Os livros são objetos táteis antes de serem objetos visuais. Colecionar livros é uma forma de lhes arrancar o valor de exibição. É o valor de uso do livro que é afirmado por sua posse pública.

Juventude e universidade no capitalismo

Estudos sobre jovens da classe trabalhadora na Grã-Bretanha mostraram que certas práticas de resistência desenvolvidas nas escolas e universidades podem ser bastante prazerosas e, ao mesmo tempo, conectadas a uma não capacidade de ver que seus interesses podem estar sendo ameaçados no longo prazo. Entre outras coisas, isto mostra que a Universidade como organização é bem menos opressiva do que outras empresas. Por exemplo, jovens que foram muito resistentes na Universidade e depois dela se tornaram fortemente "integrados", "adaptados", "subservientes", em outros contextos organizacionais, isso é bem comum. Tenho percebido isso. A Universidade ainda não atua totalmente como uma empresa. Se assim fosse, não haveria quase nenhum prazer na resistência cotidiana que nela é possível. Ela apenas simula outros ambientes de coercitividades, mas continua um espaço de muita liberdade, se comparado com outros ambientes com que os egressos da Universidade, principalmente, das camadas populares e médias, irão se defrontar, como trabalhadores assalariados ou como desempregados clássicos ou estruturais. Quando encontro ex-alunos/as, em geral, escuto: "que saudade da universidade, professor!". Mas ninguém pode saber disso antes de ter sentido na pele. Ou pode? Já os estudantes das camadas populares e médias baixas que vieram de contextos muito brutais de trabalho, submetidos a condições muito fortes de exploração desde muito jovens, esses costumam dar um grande valor à Universidade. Não param de dizer que estão podendo experimentar algo que antes não tinham tido chance antes, quando estavam escravizados em lugares de altíssima insalubridade e precariedade. A realidade é bem contraditória. Pois o fenômeno envolve indivíduos provindos de uma mesma classe, raça, gênero, etnia, com trajetórias diferentes e sentimentos distintos sobre o estar na Universidade.

Jogo de poder, jogo eleitoral

É possível, no atual contexto, jogar o jogo eleitoral transformando o jogo? Uma política transformadora exige a criação de novas regras. Estamos fazendo isso?

Manter coerência na incoerência crescente

Manter alguma coerência nesses tempos de incoerência crescente virou um lance da mais alta complexidade. Narrativas que deem coerência às coisas estão se tornando quase impossíveis. Então, o sofrimento social também perde muito de sua dimensão social. É como se fossem tempos de sofrimento pós-social.

A iniciação científica como desafio hoje

Existem tarefas no mundo da pesquisa científica que parecem ser extremamente simples e, até mesmo, da ordem do trabalho manual, como, por exemplo, organizar uma lista de artigos acadêmicos em ordem alfabética, segundo o autor, fazendo corresponder de modo físico ou digital os textos com a ordem da lista. São tarefas que fazem parte da aprendizagem de qualquer cientista. Há uma crise séria de percepção na universidade hoje, pois uma parte dos estudantes enxerga como humilhação, opressão, exploração, fazer uma tarefa desse tipo. Como se o professor estivesse se aproveitando deles e delas. Na verdade, nós jamais deixaríamos de fazer essa tarefa. Hoje, eu a faço só, retirei-a do contexto de ensino-aprendizagem, pois a percepção é de que compartilhar tarefas "simples" é humilhante. Só que a tarefa não é simples. Há toda a lógica da descoberta científica, atuando em uma simples lista de referências. Está difícil manter programas de iniciação científica, pois falta o entendimento de que fazer ciência envolve milhões de tarefinhas e rotinas básicas, o que dá muito trabalho, muito mesmo. Exige muita disciplina e autodisciplina. Mas estou aqui fazendo, sozinho, quando o certo era estar ensinando outras pessoas a fazer, mas isso virou tabu. A percepção que domina a cena hoje é de que ensinar as tarefas e rotinas mais básicas significa que o professor está querendo se livrar do trabalho "chato" e "manual". Erro de percepção grave! Pois, na verdade, transferir para educandos, pesquisadores em formação, essas tarefas, dá mais trabalho, pois requer supervisionar e revisar tudo de novo, pois vamos encontrar muitas falhas. Deu para entender o paradoxo? Complexo demais. Todos nós já estivemos na iniciação científica. O professor não deixa de ser um bolsista de iniciação científica. É onde se aprende, é onde se adquire valores profissionais muito significativos. Nenhuma bolsa a menos! A bolsa de iniciação científica é a base de muito trabalho e dedicação à ciência.

Viver como pobre

Com exceção dos miseráveis e dos indivíduos do 1% do topo de muito ricos, o restante da população precisa aprender a viver como pobre. Quem quiser ainda viver como classe média, vai entrar pelo cano. Não estou defendendo que as coisas sejam assim, apenas, fazendo um comentário realista. A pobreza relativa precisa viver como pobre. Estar na pobreza relativa e ter ambição de classe média é um tiro no pé. A real classe média não ostenta. A falsa classe média ostenta e vive escondendo a desgraça em que se meteu. O neoliberalismo é um dispositivo moral. Ou dança, ou roda. É implacável. Esses comentários, volto a repetir, não são válidos para quem é excluído de quase tudo (a grande maioria). É voltado apenas para as camadas médias letradas e suas não tão doces ilusões.

Rotina e liberdade

Todo santo dia, aqui em casa a gente acorda às 4h para as crianças estarem às 7h na escola. A regra é não atrasar. Às 13h, todo mundo almoça. Todo santo dia. Rotina de anos que é para a vida toda. A rotina é condição da liberdade. A falta de rotina leva à pior servidão. Mas não é fácil. Não é fácil mesmo. A liberdade é uma conquista. Quem vive apenas de salário é assim. Vive de sua própria condição, de sua força de trabalho e de combate. E tem de agradecer, pois muita gente não tem direito ao trabalho e ao salário. Há uma desigualdade tremenda quanto a isso. Trabalho vivo contra o trabalho morto. A imposição de uma dívida infinita exige resistência.

Tuesday, June 26, 2018

Aprender com ou sem alguém?

Como toda relação envolve dependência e negociação, é preciso abdicar da autonomia (soberania) para construir algum tipo de interação humana, o que não quer dizer aceitar a submissão com resignação, mas elaborar algo a partir e contra a submissão. Está cada vez mais difícil interagir, pois as pessoas estão atacadas pelo sentimento de soberania e qualquer interação vira uma invasão. Se a universidade continuar do jeito que está, cada educador será seu próprio educando e ponto final. Para que então haver instituições de ensino? A atitude das pessoas já é neoliberal. Quando os governos atacam de modo neoliberal, eles já estão apoiados numa ampla maioria efetiva que já desempenha o papel do neoliberalismo e suas ilusões de cada um se serve à vontade do que está ofertado no mercado "livre" da informação. Onde é que alguém vai aprender algo que não seja com alguém?

Governo das finanças

Detêm o título de propriedade sobre o trabalho futuro e assim nos subjugam. Daqui a cinco anos, BR mais pobre e desigual, infelizmente. Se não houver recusa. A desigualdade é o propósito do governo das finanças.

A crise da crise

Já notei que pessoas mais novas estão passando por crise braba no país pela primeira vez na vida. Percebo a falta de referência para enfrentar uma crise. Houve uma quebra intergeracional, pois ensinar a viver na crise era o que havia de mais importante para quem vivia nos anos 1970-80 no BR. Há um pessoal que aprendeu a vida "liberada", mas não aprendeu a "regrada". É importante saber das duas. Saber viver nos dois regimes dietéticos. A dieta é uma forma de política. Mas o que há de indigno e revoltante nessa conjuntura é a volta da fome. Isso é inaceitável.

Renunciar à renúncia

Toda demanda de identificação está destinada ao fracasso. Mas o fracasso pode ser o lugar por excelência do sujeito. Como pensar alternativas à resignação como desejo de ordem e normalidade? Num contexto incongruente, o desejo de ordem se torna um imperativo de mercado. Obediência, sofrimento e resignação como atual oferta produtora de demanda. A vida de uma pessoa é um rosário de amores perdidos. Toda escolha está ancorada no abandono.Como se tornar um renunciador quando o gozo ilimitado é o imperativo incontornável?

Wednesday, June 20, 2018

8 anos de UFC

Ter voltado para a vida acadêmica foi uma sorte. Fiquei 6 anos de molho, fora do jogo. Conheço muita gente que não voltou. Sei o sofrimento que isso provoca. 6 anos sem estar no jogo é um buraco considerável. Até hoje pago por isso. A literatura produzida entre 2002 e 2008 acumulou. Nos últimos dez anos, tive que rebolar para me atualizar. Mas deu certo. Lá se vão 8 anos de UFC. O trabalho é uma forma de desejo, como dizia Hegel. Envolve sacrifício e prazer . E muitos desafios. Quando alguém me diz: "você estuda tanto", como um elogio, eu respondo: "porque eu preciso, se não ralar, não acompanho, sei dos meus limites, estudo muito para não sair dando coice e relinchando, que é minha tendência de todas as manhãs ".

Sair fora!

O desejo de quase metade dos brasileiros (43%) de deixar o país é a ponta do iceberg. Entre os com diploma superior, salta para mais da metade (56%) e, entre os jovens, dispara (62%). Famílias de alto poder aquisitivo já praticamente moram fora do país, se não os pais, os filhos, certamente. Mas vivem de renda, do patrimônio, são ricos. As empresas continuam no Brasil gerando o excedente apropriado. Ocorre que os EUA (suas classes médias, notadamente) estão empobrecendo. E a Europa virou o Brasil, com raras exceções. Fugir para onde, se a precariedade é global? Sair do mais precário para o menos precário? É um jogo arriscado. Pessoalmente, não fugiria para o exterior, mas para o interior. Voltaria a plantar. Mas para isso, é preciso terra para todos, não é? Por onde anda a reforma agrária? E o direito à soberania alimentar?

Instrumentalizar quem mesmo?

As pessoas acham mesmo que podem instrumentalizar as outras sem ter consequências? Sem ter danos de retorno indesejáveis? Instrumentalizou virou alvo. Alvo de ataque ou de indiferença. O melhor é a gente evitar instrumentalizar o outro. O preço pode sair muito caro. Gentiliza gera gentileza. E ajuda mútua é a base da superação das hierarquias. É preciso saber onde se pisa. O terreno está minado. A qualquer momento, as coisas que parecem sólidas podem se desmanchar. É uma loucura total basear a interação com o outro na instrumentalização para autointeresse. O pau pode quebrar.

Monday, June 11, 2018

Ser livre hoje

O que significa ser livre hoje? Quem é livre? Pode-se vender a liberdade?

Thursday, May 24, 2018

Ser pai e masculinidade

Ser um pai presente, cuidar dos filhos, realizar tarefas domésticas, é incompatível com assumir posições de mando e de brilho de hipermacho acumulador no espaço público político e profissional. Não estou comparando com as mulheres, pois não há comparação. O ser mãe é bem mais complexo e absorvente . Estou falando comparando com o homem que é ausente, e que brilha no mando por isso, por ser ausente e não assumir corresponsabilidades cotidianas na domesticidade. O sucesso público do homem é baseado na estrutura de dominação masculina. Para mim, cuidar dos filhos e da casa é mais importante do que bater com o pau na mesa, para dizer quem é que manda no espaço público. Conheço homens que fazem sucesso e são intimamente devastados, levam uma vida de merda. São "os caras" no trabalho e na política, mas uns fodidos na vida relacional.

Friday, May 04, 2018

Filhos de boa

Quando nossos filhos estão com saúde, estão bem, descobrindo a vida, aprendendo a fazer o trabalho do desejo, o restante a gente desenrola. Não existe sentimento mais agradável do que seus filhos de boa, aprendendo a viver e a apreciar o amor, a amizade, a arte, a ciência, a solidariedade humana. E o mais importante é ampliar a noção de humanidade. Entender que não podemos ser felizes sozinhos, isolados, independentemente do destino dos outros, sejam outros próximos ou distantes. Expandir a solidariedade humana é o grande desafio da humanidade. Solidariedade, espiritualidade, amizade, arte, amor, alegria, vida boa para todos e todas. Nenhuma a menos. Ninguém de fora da vida boa. E a vida boa passa bem longe de sucesso, dinheiro e poder. A vida boa é a abertura para novas experiências de amor e compromisso com a vida livre, igualitária, justa e plural.

Sunday, April 22, 2018

Criar as crianças

Ter e criar os meninos é a missão mais complexa de todas. Educar os filhos é muito absorvente. Exige uma responsabilidade enorme, tempo de dedicação, escuta, muita conversa, aprender junto, rotinas e muitas rotinas, algumas quebras de rotina para celebrar a vida, muito amor na imaginação não basta, tem de ter coragem de sair do papo de um amor que não se efetiva na prática para um amor que está ali no dia a dia, pensando nelas e fazendo primeiro para elas, as crianças. As crianças têm de ter a prioridade na prática. Não adianta papo furado de afetos e amores, quando isso deixa as crianças na mão. Amor é o que protege e educa permanentemente. Dia após dia. Semana após semana. É uma loucura. Exige um espírito de sacrifício sem tamanho por parte do adulto responsável. Muito cansativo. Amor sem assumir as obrigações cuidadoras e educadoras tem meu desprezo. O amor de pai é o amor baseado numa força que não sei de onde vem. Uma força de permanência.

Engole tudo...

O núcleo forte da realidade é a própria confusão. Aquilo que não para quieto, que escapa e vaza por todos os lados. Diante da realidade , as expectativas são frustradas. Tornam-se frágeis e inatingíveis. O real é puro fluxo que tudo engole. Inclusive, crenças e desejos.

Saturday, April 14, 2018

Por ser branco

Por ser branco, é frequente que brancos abertamente e intencionalmente racistas venham espontaneamente fazer confissões no dia a dia para mim, sem nem saberem quem eu sou e que tento não aderir subjetivamente a essas estruturas, que recuso o racismo que me/nos habita, eles me procuram apenas pela preposição preconceitual de que também devo ser um racista como eles, o que de algum modo me implica no racismo deles, pois me reconhecem, apesar de eu não me reconhecer como eles me reconhecem. Ao longo dos anos, como pesquisador, tenho coletado esse material. Já fiz um relato dele para integrantes do movimento negro da Bahia. O material apenas confirmava empiricamente o que elas e eles já sabiam. Mais recentemente, eleitores brancos de Bolsonaro têm dito cada coisa para mim no dia a dia que fiquei estarrecido, está difícil segurar as pontas de pesquisador e ficar apenas na escuta, mas estou fazendo isso, e mantendo o diário de campo sobre o assunto. O racismo de Estado é o problema central que não se quer discutir. Gênero, raça e classe. As leituras americanas (de colegas dos EUA) ajudam, mas as do BR podem ser independentes, dialogar, e serem até mais contundentes. Existe Estado mais racista do que o brasileiro? Sim, deve existir. Mas este não fica atrás de nenhum outro.

Bombardeios ignóbeis

EUA, Inglaterra e França a bombardear a Síria. Depois, ninguém sabe, ninguém viu. Inglaterra e França ficam explodindo bomba na cidade alheia, depois se fazem de vítimas quando a bomba explode na deles. Eu não defendo bomba de um nem de outro. Nem contra um, nem contra outro. Apenas, lembrando a contradição.

Meu corpo beatnik

Existe uma relação íntima que passa pela corporalidade, pela distância expressiva do corpo diante da "normalidade" social. Tenho muito mais proximidade com a geração Beat da década de 1950, por exemplo. É contemporâneo para mim não ceder ao regime de vestuário de de status corporal dominantes em situações que exigem formalidade. E não é fácil fazer isso. Gera consequências várias.

Nova classe média: a armadilha histórica.

Do mesmo modo que os membros da oligarquia protegem os filhos uns dos outros, num sistema de transferência hereditária de altas posições, os membros das classes médias recorrem à proteção das oligarquias, colocando-se em posição de subalternidade perante elas, a fim de reforçar mecanismos que impeçam processos de ascensão de novas classes médias, que, por sua vez, possam entrar em processos de luta concorrencial com os já estabelecidos, rebaixando o preço dos diplomas e credenciais da condição subalterna. O desejo de ampliação da classe média num momento de declínio da classe média no plano global, puxado pelos EUA, disparou processos políticos de restrição às condições de acesso às classes médias, notadamente, o acesso a bens informacionais. De modo cínico, as classes médias estabelecidas há mais tempo, ameaçadas pelo declínio geral, estão usando contra o desejo de classe média dos segmentos da classe trabalhadora o recurso do "prenda-me se for capaz", "siga-me se for capaz". O sistema da meritocracia não é apenas uma ideologia, é também um dispositivo de hierarquização das condições subalternas intermediárias face à estrutura oligárquica do mando. As classes trabalhadoras, pelo menos aqueles segmentos que puderam sonhar com desejos de classe média, caíram numa armadilha. Só descobriram agora que o processo era de integração perversa no sistema de meritocracia. E a maioria ainda nem descobriu, continua pensando como classe média enquanto é massacrado justamente por isso. O choque de ordem do liberalismo do capitalismo de Estado contra o liberalismo social do capitalismo de Estado é a ordem do dia. Quem vai ser empregado de quem? Esta é a questão. Faço parte de uma categoria de famílias que no BR ascendeu para a classe média urbana letrada entre 1960 e 1980 (pai e mãe como estudantes universitários etc); se consolidou como classe média urbana letrada entre 1980 e 1990 (filhos estudantes universitários). Hoje, vivo melhor do que meus avós (que eram camponeses com exceção do meu avô materno que era das classes médias urbanas baixas) e pior do que meus pais. Foram quase 50 anos de processo de inserção para isso. Para estar na precariedade semelhante ao que estava pai e mãe na metade da trajetória (em 1980). Já escrevi várias vezes sobre isso. Foi de uma irresponsabilidade política sem tamanho esse lance de decretar "novas classes médias". Não há como fazer isso por decreto presidencial. São processos históricos altamente instáveis. E com o declínio geral das classes médias globais, puxadas pela perda de qualidade de vida da classe média norte-americana, o mito da classe média dá as mãos com o mito do mercado livre e cria o maior engodo que governos de "esquerda" (da França de 1980 ao Brasil de 2010) puderam promover. Governos que foram máquinas ideológicas do capital. Máquinas de gestão "social" de RH para o processo de flexibilização neoliberal.

Minha baixíssima espiritualidade grita e chafurda no desespero

Estão se tornando mais frequentes as postagens de amigos que seguem a linha "Deus em minha vida". Tenho nada contra Deus, estou apenas percebendo o avanço do sentimento de vazio. Deus é Tudo. Desejar Tudo é uma função da criatura em sua vacuidade. Em sua ânsia de superar o desespero. A crise é política, espiritual e material ao mesmo tempo. Na minha linha, tento me manter numa relação duradoura com o desespero. Não me acho superior nisso. Ao contrário, tenho consciência aguda da minha baixíssima espiritualidade.

Thursday, April 12, 2018

Crise da solidariedade no BR

A situação no BR degringolou. As incertezas que eram muitas se tornaram horríveis. A crise é uma crise da solidariedade. Quando existe, é uma solidariedade parcial.

Pensamentos do dia

Existe nada pior do que alguém querer te dar um presente que você não quer receber. Talvez, apenas, seja pior, querer dar o presente e ser recusado no ato da troca. Um amigo que não faz a menor ideia da complexidade da tua situação de vida é um estranho perfeito. Mas é sempre bom mantê-lo à distância, na ficção da amizade perfeita. Tentar diminuir ao máximo demandas desejantes dirigidas aos outros menos relevantes para concentrar a energia nos outros mais relevantes. Um problema ético seríssimo. Expressar sentimentos no contramovimento do pensamento. O sentimento sem pensamento é uma roubada. Sentimentos, emoções e afetos sem pensamento contra o existente são funções de ordem e dominação. Não os deixem controlar sua agenda e muito menos sua imaginação. Pensamento independente é uma conquista coletiva. Não é um eu sozinho e isolado atuando. A autoajuda sem ajuda mútua é uma balela. É uma manipulação grosseira do individualismo possessivo. Aqueles que buscam poder, dinheiro e sucesso abrem mão de novas experiências.

Embarreirar a vida alheia

Quando duas pessoas se aproximam espontaneamente por razões profissionais ou políticas, há os especialistas em estorvar a aproximação, interferindo com seus preconceitos e interesses, a fim de evitar o enfraquecimento de alguma posição de poder que ficaria ameaçada pela aproximação inusitada entre pessoas que juntas poderiam fazer coisas novas e diferentes.

Os velozes e sem conteúdo

Ceder à velocidade como eixo de atuação profissional é mais fácil, seguir correntes. Vejo como rapidamente muitos indivíduos cederem a isso. Velozes, apenas velozes. Como automóveis possantes em vias de 40km por hora. Zero espírito de artífice. O artífice é aquele que busca fazer o melhor que puder. Exige tempo, dedicação, muito exercício e calma.

Práticas autoritárias do cotidiano na universidade

Receber e-mails da instituição onde se trabalha com caráter abertamente ameaçador do tipo "faça, pois podemos puni-lo assim e assado e complicar sua vida e muito", em vez de e-mails de motivação para adesão subjetiva à tarefa coletiva do trabalhar juntos, é sinal de quê? Sinal de que o desejo de autoritarismo converge com a impaciência daqueles que exercem o desejo de mando face a problemas políticos de coordenação de esforços conjuntos. Se até as universidades cederam no cotidiano ao caminho fácil do "faça ou seja punido", imaginem em outras organizações, que não lidam com "educação" como missão principal. E os indivíduos que enviam e-mails sem corpo de texto, com algo em anexo, subentendendo uma transferência automática de responsabilidade, um e-mail que manda fazer algo sem usar uma palavra escrita para solicitar ou pedir ou justificar ou exortar, seja o que for. Simplesmente, o e-mail vazio, sem palavras, sem pronomes de tratamento, sem nomes, sem texto, só o e-mail com um anexo. É um sintoma grave da loucura nas organizações. Espaço de vazios. De impossibilidade de nomear o processo de transferência da responsabilidade. Sei lá mais o quê. Vazio que multiplica vazio. Nem respondo e-mail desse tipo. Aí param de me enviar por uns tempos. Depois voltam a enviar de novo. São os automatismos, as compulsões, as forças do "produtivismo". É o smartphone com desejo de mando automático, sem negociação de papéis. Sem política, sem aquilo que "atrapalha", sem subjetividade, sem recusa ativa.

Thursday, March 08, 2018

As brechas ainda existem...

Fazer concessões e realizar sacrifícios para construir laços duradouros com outras pessoas viraram atitudes extremamente raras e anacrônicas. Mas até certo ponto isso é verdade. Pode-se dizer que tanto nas classes populares como nas classes dominantes, há estratégias de fazer da família o lugar de construção dessa dimensão duradoura que se tornou quase uma impossibilidade para a maioria de produtores negados e consumidores falhos. Ou seja, há um tendência de aumento das desigualdades. De dez vezes, pulou para mais de 50 vezes, em pouquíssimo tempo. As brechas ainda existem, mas são muito escassas. Antes não eram apenas brechas, eram posições mais sistemáticas, igualmente, raras, mas eram sistemáticas.

Sunday, March 04, 2018

O fim do território e da cidadania

Classes dirigentes e governos não têm nenhum interesse em se responsabilizar sobre espaços das periferias. A lógica da guerra contra a periferia é adotada num modelo similar à lógica da guerra do entrar, destruir e sair. A periferia virou para os agentes públicos do Estado e seus governantes uma zona de guerra. De guerra móvel. De uma guerra que não visa assumir o compromisso pela tomada de um território e nele construir um campo de administração pública. Isso está fora de questão. Então, a guerra tende a piorar, a ficar mais cruel, e, infelizmente, permanente na sua fluidez e falta de compromisso real. A periferia está relegada a ser cronicamente um espaço de abandono social e de guerra rápida cotidiana sem pretensão de obter responsabilidade pública pelo "território". Por isso, as leituras que se centram na questão do território estão defasadas. Não compreendem a nova lógica extraterritorial da guerra movida contra os pobres. Infelizmente, a busca por pressionar governos por políticas públicas tem gerado apenas um aquecimento do mercado de assessores e consultores de governos que não assumem a responsabilidade com essa busca. A demanda pela política pública virou mercado de assessorias e consultorias, mas não ação política coletiva contra as contradições sistêmicas e suas políticas públicas que não passam de terapias da pobreza, quando não o extermínio de pessoas classificadas como indesejáveis do ponto de vista dos próprios vizinhos, que as terapias da pobreza acabam por legitimar.

Reflexão de um domingo pela manhã na ausência da família

Devo ter vergonha ou orgulho de estar preenchendo o Lattes num domingo pela manhã? Devo ter vergonha ou orgulho de ouvir música erudita ao passo que meu corpo degenera, envelhecendo no empobrecimento da vida atual? Devo ter vergonha ou orgulho de não mais ter o sonho de viver num crescendo, mas de me curvar em direção ao sono? As fontes de vergonha social são muitas, variadas e atravessam toda a estrutura dos mercados de baixo acúmulo de capital. Já as fontes de orgulho, elas se tornam cada vez mais raras, pois a falta de compromisso e o lugar ausente se tornaram a regra daqueles que ocupam as posições de alto acúmulo de capital. Vergonha de todos. Orgulho de ninguém. Quem não vive atolado num universo de ansiedades e medos? Quem anda por aí na certeza de si? Os incautos, talvez. Os engajados, certamente. Não prestar atenção na geleia geral e se engajar por conta disso naquilo que há é a atitude básica do desejo de nada. O desejo do consumidor em tempos de dissolução geral da renda e do patrimônio da maioria. Desejos de autonomia relativa, liberdade de escolha, de construção da individualidade, de assumir a responsabilidade pelas consequências da própria ação, de rejeitar a intervenção das instâncias de controle social e suas formas autocráticas e totalitárias de dominação. Desejo de emancipação humana. Enfim. Viramos todos uns dinossauros. O castelo de cartas caiu . Estamos fodidos e mal-pagos. A chuva de meteoros está aí, batendo à porta.

Tuesday, February 20, 2018

Abusado é pouco!

A arrogância dos especialistas em segurança pública é cada vez maior. Transformam "segurança pública" em uma mercadoria, usando lastro acadêmico, fazem contratos sobre os quais há sérias dúvidas expostas por políticos nas tribunas do parlamento, andam de mãos dadas com cúpulas acusadas de "extermínio" para trazer "paz", enfim, pintam e bordam, incrementando seus lucros, e ainda vem com história de dizer que o problema do crime é o bandido com fuzil na mão. Que lance raso e superficial. Estou com um abuso muito grande desses especialistas em segurança pública. Quero é distância.

Solitário na falta da solidão

O cúmulo da solidão é você fazer de conta que não existe o google para achar o telefone ou endereço que você deseja e enviar mensagem pelas redes, demandando atenção para seu pedido (para si). O pior é quando ninguém responde. Sinal de que o lance é gravíssimo. Não estou debochando. Também estou no mesmo barco. Solidão absoluta que fere. No meu caso, fico postando informações que parecem objetivas, sobre as disciplinas que vão começar na universidade, mas é só um despiste para gritar diante de tanto esvaziamento de sentido. Fico querendo convencer a mim mesmo que o que eu faço tem alguma importância. Mas, no fundo, que importa quando o corpo começa a degenerar, a envelhecer, seguindo em direção a uma longa dor, a um longo adeus da vida? Sim, amigo, eu sei que aqui não é mais e há muito tempo o lugar para escrever alguma merda que seja. É só a compulsão. Essa loucura compulsiva que nos faz querer fugir do pior, da insignificância e da indiferença.

Capitalismo desorganizado

A crise da representação política e do capitalismo desorganizado é tão profunda que a classe dirigente não faz a menor ideia do que fazer. Não dirigem mais nada. Só espetáculo e autoritarismo diante do não saber o que fazer. Não há mais modelo. É um salve-se quem puder generalizado. O recuo às formas autoritárias é um sintoma de perda da autoridade e do fim das instituições.

Monday, January 29, 2018

14 pessoas assassinadas

14 pessoas mortas numa festa ontem e houve mais ocorrências de homicídios pela cidade. Fortaleza está um caos? Não, as periferias estão abandonadas ao caos, pois as elites, as classes médias altas, vivem em bairros de primeiro mundo, onde raramente ocorre um assassinato. O apartheid mantido pelo racismo de Estado é que mata. Imaginem se 14 pessoas fossem assassinadas dentro da Livraria Cultura, no coração do lugar mais seguro da cidade, onde se pode andar à pé, como se estivesse em Paris ou Nova York, seria aceitável o secretário de segurança pública dizer que "não há motivo para pânico"? Claro que não seria. Ele teria sido demitido antes mesmo de dar a entrevista. E quem acha que não há criminosos que frequentam a Livraria Cultura é muito inocente, pois há sim, alguns bem perigosos, inclusive alguns traficantes de drogas de alto nível, mas são ricos, brancos, bem relacionados etc.

Tudo sob controle!

O rei está nu "...no interesse da 'segurança pública' , isto é, da segurança da burguesia " (Marx). Se for assim, o rei está no controle, e ele não anda de ônibus nem sai da Dom Luiz com Virgílio Távora. . Dá para andar sem medo entre a Livraria Cultura e a padaria Monte Carlo...Sim, aí há controle! Um controle tão efetivo quanto pode permitir a perda do controle no âmbito geral. Mas como dizia Marcuse, ""A mistura de estupidez, ganância, baixaria e brutalidade que perfaz a política deixa a seriedade sem fala".

O Estado sou eu cearense.

Não é incomum, ao voltar do trabalho para casa, encontrar homens armados nas ruas que não são policiais. O trajeto trabalho-casa é um alto risco. Risco de assalto, risco de passar por dentro de um tiroteio, risco de não ser reconhecido como morador ao entrar no lugar onde se mora, enfim, nada tranquilizante. Considerei uma boçalidade do governador do Ceará afirmar que o ir e vir está garantido por ele, pois ele (de modo egoico) está no controle. Que falácia! Foi de uma arrogância sem tamanho. Ele desrespeitou a gente que vive nessa tensão permanente, nesse pânico permanente, esse medo cotidiano de, ao passar pelos homens armados que sempre estão lá no cotidiano, sobreviver. Não ser o alvo do dia. Fiquei pessoalmente sentido com essa atitude arrogante do governador. Mostra que ele vive numa bolha, na bolha de primeiro mundo que existe na cidade de Fortaleza, nos "bairros nobres". Ele deveria dar um pedido de desculpas à sociedade por falar algo tão distante da realidade da maioria.

Tuesday, January 09, 2018

Roteiro de expedição pelas praias do Ceará

ROTEIRO DA EXPEDIÇÃO (nos arquivos, na literatura, na pintura, na iconografia, na fotografia, no cinema, em vídeo e em trabalho de campo à la etnografia extensiva de Mauss) Bitupitá, Praia Nova, Barra do Remédio, Maceió, Farol do Trapiá, Imburana, Tatajuba, Guriú, Jericoacoara, Preá, Barrinha, Morgado, Aranaú, Coroa Grande, Ponta do Presídio, Arpoeiras, Espraiado, Volta do Rio, Itapajé, Porto dos Barcos, Almofala, Torrões, Moitas, Icaraí, Caetano, Sabiaguaba, Baleia, Mundaú, Flexeira, Lagoinha, Paracuru, Taíba, Pecém, Cumbuco, Tabuba, Icaraí, Iparana, Orla de Fortaleza, Porto das Dunas, Prainha, Praia do Presídio, Iguape, Barro Preto, Batoque, Caponga, Águas Belas, Barra Nova, Tabuba, Morro Branco, Praia das Fontes, Praia do Diogo, Uruaú, Barra da Sucatinga, Ariós, Praia do Canto Verde, Praia do Paraíso, Parajuru, Praia das Agulhas, Maceió, Canoa Quebrada, Porto Canoa, Majorlândia, Quixaba, Retirinho, Retiro Grande, Ponta Grossa, Redonda, Peroba, Barreiras, Mangue Alto, Tremembé, Melancias, Peixe Gordo, Manibu...

Roteiro de expedição pelo sertões do Ceará

ROTEIRO DA EXPEDIÇÃO (nos arquivos, na literatura, na pintura, na iconografia, na fotografia, no cinema, em vídeo e em trabalho de campo à la etnografia extensiva de Mauss) Chapada do Apodi, Serra do Aimoré, Serra São Vicente, Serra do Braga, Serra Verde, Serra do Araripe, Serra dos Haveres, Chapada do Araripe, Serra dos Cariris Novos, Serra São Joaquim de Barra Nova, Serra da Pedra Branca, Serra do Barbatão, Serra das Matas, Serra do Imburana, Serra da Ibiapaba, Serra de São Joaquim, Serra de Ubatuba, Serra da Meruoca, Serra de Uruburetama, Serra do Estevão, Serra de Baturité, Serra de Aratanha, Serra de Maranguape, Serra do Juá...

Um utilidade para Deus

Finalmente, arranjei uma função super útil para Deus em minha vida. Quando alguém pede dinheiro em nome de Deus, respondo super sério e compenetrado que Deus proverá. O retorno da autoridade é inquestionável. Só resta dizer amém e agradecer.

Friday, December 29, 2017

Pelos idos de maio de 2015

Um grande desafio, talvez o maior de todos em termos políticos, seja o de promover estratégias solidárias para uma ação coletiva em prol de democracia real num contexto onde a maioria das pessoas está mergulhada no mais profundo quadro de isolamento e individualismo possessivo, que gera sentimentos negativos de "cada um por si" e de impotência frente à perspectiva da transformação social, que é necessária para nos levar a caminhar no sentido de um mundo mais justo, fraterno, livre e igualitário. Editar

Entre o Meireles e o Pirambu

Em média, um indivíduo que mora no bairro Meireles em Fortaleza ganha quase 12 vezes mais que um indivíduo que mora no bairro Pirambu. Neste bairro, que é da raiz popular histórica da cidade de Fortaleza, um indivíduo ganha 285 reais em média. No Meireles, mais de 3 mil reais. Como o cálculo é per capita, isso inclui toda a população, não apenas a economicamente ativa. Uma criança no Pirambu dispõe de 285 por mês em média. No Meireles, 3 mil reais por mês. A soma da renda mensal nominal dos domicílios particulares do Meireles é de mais de 120 milhões por mês, do Pirambu, 5 milhões. Mais de 900 mil pessoas vivem em situação de favelamento em Fortaleza, um terço da população do município. É uma das cidades mais desiguais do mundo. Trata-se de uma situação insustentável. Todavia, a desigualdade não pode ser reduzida apenas à renda como indicador, há outras dimensões, até mais graves, como as exclusões de acessos à saúde, educação e segurança cidadã.

Thursday, November 30, 2017

Crianças e idosos massacrados

Mas o que é ter problema na vida diante das pessoas que perderam entes queridos de modo violento? Mas o que é ter problema diante de quem está com entes queridos muito doentes? Morte e doença são avassaladoras. Nada mais complexo do que isso. As crianças e as pessoas idosas sendo massacradas. Isso é insustentável. A solidariedade está muito escassa. Essa é a crise principal.

Sobre a economia de guerra

De 2008 para 2012, quando a ostentação atingia o limite do céu, aqui em casa fizemos uma reunião de família para discutir a crise que se avizinhava, quando ninguém falava de crise. É esse o segredo. Não entrar no jogo. Ficar sóbrio. Não se embebedar de fantasias. A gente entrou no bunker quando estava todo mundo viajando. Aprendi isso com meus pais na década de 1980.

Tuesday, November 28, 2017

Condição de dominado: um círculo vicioso

Tentam imitar os dominantes, legitimando os critérios dominantes de avaliação, e quando são avaliados por tais critérios se sentem humilhados. A condição de dominado é um círculo vicioso entre vergonha e humilhação. Romper isso é sentido como uma tarefa quase impossível.

Detalhes invisíveis

Acordar todo dia às 5 da matina para filho chegar na escola às 7 horas em ponto. Empiricamente falando, neste ano de 2017, falhei um dia apenas. Exatamente, um dia. Chegamos às 7h10. Um vacilo meu. O nome disso é ascetismo secular. Não é brinquedo. É o lado invisível das coisas.

A reclamação paralisante

Não faz sentido você acompanhar jovens com doutorado alegando que estão desempregados por falta de oportunidade. Não faz sentido mesmo, principalmente, quando as oportunidades vão surgindo e os reclamantes nunca se inscrevem, nunca buscam as oportunidades, e continuam reclamando. Fico observando isso. Vamos reclamar e agir ao mesmo tempo. Reclamar e ficar paralisado é um problema sério.

Distâncias intergeracionais

Percebo que a distância entre minha experiência pessoal na vida social brasileira e de minhas e meus alunxs hoje é enorme. Há muitos pontos de contato que possibilitam a comunicação, mas há alguns pontos que são um fosso. Para quem foi adolescente e jovem na década de 1980 e já adulto em 1990, as coisas são muito diferentes. Eram tempos muito duros. Esse pessoal que hoje nos assusta (extrema-direita) ocupava todas as posições e em todo lugar. Vivíamos acuados. Eles estão apenas querendo voltar a ser como era naquela época. Vivíamos sendo massacrados por toda parte. Éramos os "vagabundos", os "baderneiros", os "maconheiros" etc. Era pancadão. Não digo que hoje seja mais fácil, mas houve mudanças para melhor por causa das lutas coletivas por direitos. O ambiente ficou menos irrespirável. Sei lá se estou certo. Posso estar alimentando aquelas coisas intergeracionais.

Fazer amigo não é fácil

Não gosto de tratar todo mundo como se fosse amigo. Amigo é algo tão raro e precioso, não merece banalização. O que não quer dizer que esteja fechado para novos amigos. Mas, em geral, não estão ligados aos circuitos de sucesso, dinheiro e poder. Onde há exaltação disso, não vejo chances de fazer amigos. Amizade nasce naquela situação onde a igualdade, o olho no olho, o lado a lado, é a base de tudo. Confundir amizade com "aliados", "rede de trabalho" e distribuição de simpatia para acúmulo de capital político ou outras formas de prestígio social é sem futuro. Um erro crasso.

Racismo atinge primeiro as crianças

Quando um homem e uma mulher brancos, ricos, poderosos, com muitos recursos para se defender, adotam uma menina negra, uma criança linda e adorável, fico pensando o que deve se passar de terrível com uma menina ou menino negros que vivem em situação de favelamento com suas mães negras solteiras superexploradas em atividades que reforçam posições de subalternidade, humilhação e exclusão de direitos. Se a linda Titi está sofrendo ataques estúpidos dos racistas, imaginem o que sofrem as outras crianças invisíveis ou invisibilizadas pelo racismo de Estado no BR.

Monday, November 20, 2017

Sobre a urgência

Me dá um cansaço tão grande trabalhar com pessoal compulsivo para quem TUDO É URGENTE. Um saco. Na vida, apenas a vida é urgente. O resto, a gente desenrola. Cada urgência com seu vazio. Quando alguém diz que algo é urgente, inicialmente, me dá uma raiva daquelas. Vem na minha cabeça os filhos doentes, as pessoas próximas morrendo, a falta de sentido da existência, coisas assim. Aí, vou ver que a merda da urgência do outro não passa disso, de uma urgência de merda. Uma urgenciazinha fajuta, melodramática, baseada em carência, sem solo real. Pois, urgência real é o filho na UTI ou sendo morto pela PM. Urgência para coisas que não são urgentes é uma filha da putice. Demandar urgência deveria ser um recurso de socorro extremo. Mas o urgente virou uma coisa banalizada. Qualquer ansiedadezinha de merda vira demanda de urgência. Urgente é a morte, pessoal. Urgente é a vida sendo ceifada, destruída. O resto é o resto. Urgente é evitar as condições de morte do desejo humano, da liberdade, da igualdade, e nada mais. Não vamos etiquetar de urgente as banalidades da vida vazia. Urgente é o amor, a solidariedade, o bem-viver para todas as pessoas sem exceção. Urgente é o reino da abundância de alegria e do júbilo no excesso de sentido.

Desabafos da vida

E quando aproveitam que você está com filho pequeno para lhe acusar de baixa produtividade e tomar suas posições? Se isso acontece com homens pais, imaginem com as mulheres que são mães, que a cobrança é elevada à enésima potência. Cansado também de supermachos, que são pais ausentes e vivem de desejo de poder. E, muitas vezes, nem sempre são tão produtivos quanto se pintam. Vivem de inflacionar a própria imagem. Organizações dominadas pela hipercompeticao de supermachos são uma merda.

Wednesday, November 08, 2017

Tudo ou nada?

O mergulho total em qualquer coisa é uma besteira enorme. Nada é total. Tudo é nada. Esse lance de querer totalizar a experiência é tão problemático quanto querer fragmentá-la. Entre paranoia e esquizofrenia, prefiro o caminho que se inscreve diretamente no real quando se foge das antinomias e das alternativas infernais. Tudo ou nada? Essa questão precisa ser superada, mas não por uma forma de meio-termo fajuto, que aposta as fichas numa postura de docilidade adaptativa ao que aí está. O mais difícil é lidar com o vazio sem por isso se basear num desejo do vazio. É como lidar com o pleno, sem desejar o absoluto. O problema não é o vazio, é cair nele ou desejá-lo. No primeiro caso, é perder a relação com a loucura. No segundo, é neutralizar quaisquer potências da existência. Outro problema é lidar com o tudo. Se confundir com o tudo é um ato de pura arrogância. Manter uma relação com o tudo pode ser uma proteção, mas beira o desejo de onipotência desse tudo. Certa inveja da onipotência do tudo, de sua suposta onipotência se faz uma onipotência delirante de quem sente medo mas não quer mais.

Wednesday, October 18, 2017

Urgência é pânico.

Entro em pânico quando me dizem que algo é urgente sem ser. O crime, a loucura e a morte. E um cafezinho com bolacha. A única janela do conjugado dava para uma parede.

Os barões do crime

Os barões do crime não assinam como "o crime". A ralé que venceu no crime deixa de lado tal assinatura. Assina com doutor, como senador, como deputado. Muda a assinatura. Quem usa arma de fogo e assina como "o crime" é a ralé subalterna. É o crime que não pode se chamar de outro nome. É o crime que não dispõe de capital político. Tanto é que quando crescem no crime, param de assinar como "o crime" e passam a mimetizar o andar de cima, com seus votos, advogados e empresas, lavando as assinaturas do passado criminal, e iniciando trajetórias superiores no mundo do crime, ou seja, do Estado, pois não há crime organizado, por definição, que não seja de cunho estatal, envolvendo o sistema de corrupção inerente ao funcionamento do Estado moderno. Isto é uma opinião. Não é uma análise. Apenas minha opinião. Não falo em nome da Ciência. Nem em nome da Verdade.

Thursday, September 21, 2017

Reclamões de plantão.

Tem gente altamente qualificada (doutores) que passa o dia reclamando no FB que não tem oportunidade de trampo. Que tá tudo fechado, etc. Enquanto isso, uns quatro ou cinco quadros, formados, cronologicamente, depois da pessoa reclamona, já assumiram vagas de trabalho que o sujeito que reclama sequer se dignou a concorrer. Assim, é foda, né? Desonestidade tem limite.

Tuesday, September 19, 2017

éticas

Buscar gozar de modo ilimitado sem uma ética do sacrifício em relação com uma ética do desejo é uma furada. Nesse ponto, sou 1950. Era uma década com reflexões mais avançadas do que a atual. Aprender a lidar com a repetição dos trabalhos e os dias, com a restrição tremenda que essa repetição traz aos nossos anseios, é levar a sério que o desejo é uma forma de trabalho. E que muitas vezes as ocupações que temos não têm nada a ver com o trabalho do nosso desejo. Lidar com o horror, com o vazio. Com as escolhas erradas. Com o sentimento de falta de escolha.

Thursday, September 14, 2017

Frases da semana

A ansiedade de absoluto é o sintoma mais drástico da falência dos órgãos do pensar. A deterioração da memória é um modo bem específico de envelhecimento do corpo. A literatura não é apenas uma distração. É uma poética. Também uma terapêutica.Prefiro a terapêutica à poética. A poética é coisa de macho. Não curto. As coisas simples da vida me dão alergia de morte.

Tuesday, September 12, 2017

Pensamentos? Esparsos?

Cada família gira em torno do seu destrambelho. Somos escravos da linguagem. Lutar contra a linguagem é o ponto de partida. Gente de igreja carece de deus no coração. Olho para a biblioteca. Não terei tanto tempo assim. Entorno um café. Volto a ler. Sonata para piano, n. 28, opus 101, em lá maior. Segurança, ordem e felicidade. Um mercado de crenças. Quem for capaz de ofertar estabilidade, irá ser a bola da vez no mercado das crenças. Não há felicidade além da morte. A realidade é a presença infatigável da dor. É inclemente. Obtusa. Nem mesmo o silêncio são capazes de atentar. Não há mundo aterrador que o suporte.Estar meramente vivo, uma agonia sem fim. Uma desdita sem tamanho. Confrontar o espaço vazio. Uma relação com a loucura enternece. O vazio só é brutal. Distante da morte, não há potência no amor. Pessoas expressando ódio não estão demandando esclarecimentos. Há uma ansiedade generalizada diante da erosão das fontes de certezas. Todo amor tem preço. O preço do seu sofrimento. Afinal, qual o melhor lugar para morrer, na terra ou na água? E nada mais do que sua inclemência, um salto no irrespirável, pura fome. A cada dois reais, engolia uma vela acesa; que se lhe derretesse sem vestígio. O real disposto em camadas. A mais suave escondia a que lhe cortava submersa. A linguiça reaquecida, esturricada, crocante, lhe lembrava de suas perdas. Nem a porra de um promontório mais havia para lhe avivar o acre como fantasia. Uma cidade repleta de miseráveis, mesmo com os apetrechados. Abundante no vazio. Escondiam o segredo de que bem poderiam não amar ninguém. Um horror. Tinham perdido a capacidade de sentir esperanças. Não atinavam mais com nada. O fracasso oferecia a mais promissora ocasião para a emergência de alguma virtude. Seu maior objetivo na vida era poder renunciar à realidade. Já não sentia o desespero de seus rendimentos normais decrescentes. Pudera torrar a última nota de 20 reais em cerveja, assim, desgraçado, o faria. Uma pessoa que quase nunca atropela a agenda dos outros está a enviar recados, não? Nova versão da "tolerância": "respeito muito você, mas você não deveria existir". Agressivos apontam a agressividade do outro. Take a look at yourself, bro! Confessar e denunciar. Confessar e denunciar. O mantra moral contemporâneo.

Friday, September 01, 2017

Na profunda escuridão...

As pessoas que mais sofrem de ansiedade de status são aquelas que menos exigem de si mesmas. As pessoas que mais querem surfar no gozo ilimitado, esse imperativo do supereu, são as que menos fazem bem-feito o trabalho do desejo. Continuo achando que uma ética do desejo não funciona muito bem sem uma ética do sacrifício. O desejo não é uma abdicação, um abandonar-se, mas é o núcleo forte de um desejo que trabalha para desejar o desejo, fazendo do sacrifício uma história do corpo. A individuação e o deslocamento daquilo que ela enquadra exigem compromisso ético com a alegria e com a dor. Mas me percebo cada vez mais antiquado. Mesmo assim não desisto de mim. É na luta contra mim que algo faz sentido. Um luta que passa pela muito trabalho que merece o deleite de nosso desejo, da lei do nosso desejo, na forma de conquista de liberdade e prazer, enquanto o corpo erode, mergulhando na profunda escuridão de onde não há de sair.

Friday, August 25, 2017

Lugares públicos.

As pessoas jovens costumam expressar alegria forçada quando estão em público com suas patotas. Principalmente, quando se sabem observadas.

Tuesday, August 15, 2017

Contra o lugar do Pai eterno

Assumir o lugar do pai . E se fazer um pai contra tal lugar. Não creio no pai. Meu delicioso tormento nasce da negação de que para ele tudo é possível. Na ignorância de estar perante o pai, ponho-me fora da condição de pecador. Sou apenas leviano, um pagão leviano, que somente leva em consideração as medidas estritamente humanas. Os pais são simplesmente humanos. Animais humanos mergulhados na universal precariedade. Nada de pai eterno. Nada de eu eterno. Apenas, pais. Nada além d'Isso.

Friday, August 11, 2017

Na medida do meu desespero

O único lugar onde me sinto instado a morrer para o mundo é em um pé-sujo, na companhia de absolutos estranhos. Todos irmanados na miséria de tentar em vão matar a palava de Deus, afogando-a numa dose de qualquer beberagem vagabunda. Fora disso, não há encontro possível com a iluminação. Minha fé não é apenas cega, é também mouca e crivada de balas. Um eu que vale por uma peneira.

Porra nenhuma!

Entre 2008 e 2012, minha vida financeira era uma merda. De 2009 para 2010, perdi 50% de renda, por exemplo. Quando entrei para o serviço público. Hoje, também. De mal a pior. O que não entendo é como tanta gente ostentava no período anterior. Eram ricos e ficaram pobres? Pra mim, mudou porra nenhuma. A mesma coisa sempre. Aliás, empobreci um pouco mais. Um pouquito. Mas estou mais lido. Sem grana no bolso, a gente lê mais. O segredo para compor um país de leitores seria então pouco churrasco e viagem, liseira, e muito livro em bibliotecas públicas? Será? A ostentação parou um pouco. Era demais da conta. Acho que a crise é uma punição de Deus por causa da muita ostentação que houve. Mas mesmo assim ainda tem alguns poucos ostentando sem parar. Tenho é medo. Aliás, meda. Me torno uma pessoa pior a cada dia. Só tenho a agradecer a Deus por isso. Querer ser melhor é contra a vontade de Deus.

Friday, August 04, 2017

Um jogo de despedidas

É um estultice continuar a alimentar esse narcisismo de terceira categoria. O que me acomete é menos uma doença, é mais uma despedida. Jogo despojado de poder.

Livros extraviados

Será que gostaria de realmente saber aonde foram parar os livros que não mais me pertencem? Ou será que ainda me pertencem e estão apenas extraviados, como que sequestrados permanentemente? Mas, de qualquer modo, não há mais frestas vazias nas prateleiras, se bem que poderiam ficar derramados, tranquilamente, deitados ao chão. Quem sabe um xícara de café virada pelo pé torto os destruísse, ou, pelo menos, dessem esse pretexto que me obrigasse a lhes conceder um saco de lixo preto como destino.

Devir-lixeiro

Ler, estudar, pesquisar, de modo sistemático e ao longo da vida inteira. Qual o desejo inconsciente dessa criatura? Ser lixeiro. Por meio da análise do lixo, pode-se fazer uma interpretação profunda, histórica e sociológica, sobre a configuração sociocultural de algum coletivo. Queria ser lixeiro e acabei virando analista do lixo sociocultural e histórico. Um tipo de arqueologia.

O fim do corpo

O corpo. Essa carcaça. Um sentimento de precariedade absoluta. A morte como alegria. Estalidos, batidas - tormento. Não pertenciam ao fora, estouravam de dentro. Como um cadáver de bicho quase a espocar o bucho sob o sol do sertão. Estreitava, a cada passo, a picada. Braço doído. Clarão no olho. Céu sem nuvens. A retina recusava a forma normal dos objetos. Havia-se qual máquina. Um cipó quase o degola. Era uma armadilha. De chofre. Inútil. Sem fim. O corte no calcanhar abria e fechava, refazendo o macio da lâmina. Latejava.

Wednesday, August 02, 2017

Sobre a decência

De um sistema de dominação e espoliação, pode-se esperar alguma decência? Quem é o portador da decência quando o reclame generalizado de pessoas de bem alimenta o mais vil e torpe sistema de tortura?

Nem a mim mesmo

Não me sinto em condições de salvar ninguém, nem a mim mesmo. No máximo, consigo proteger com alguns golpes de força bruta aqueles a quem amo. Mas o que ocorrerá após a fadiga? De onde partirá a palavra de ordem que condenará meu corpo ao absoluto silêncio?

Wednesday, July 26, 2017

O corpo abolido.

Do corpo abolido, restava apenas uma réstia do que lhe fora intensa fuga. Manter uma relação prática com o espaço vazio ao longo de toda uma vida sem virar cliente de igreja não é pouca coisa. É um balde cheio. Cheio da coisa. E o fundamento da coisa toda é um atitude não prática com essa relação prática que garante porra nenhuma. Mas garante a certeza de garantir quase nada sem pagar dízimo. O que há de pior sobre as perdas é que quase sempre se pode perder ainda mais. A consciência do nada não lhe trazia benefício, senão o de não cair no vazio. Uma vida sem credulidades exige certa coragem com um tanto de tontice, mas se pode dizer que a tolice é consciente de sua tolice, pelo menos.

Tuesday, July 25, 2017

Não há mais interesse...

De cada 10 crianças e adolescentes (até 14 anos) nordestinos, 6 estão em situação de pobreza. Somente no Estado do Ceará, há 1 milhão e 200 mil crianças e adolescentes na pobreza. Uma sociedade que abandona sua infância, relegando-a às zonas de abandono social, excluindo-a do acesso a uma vida boa e digna, é uma sociedade composta por sentimentos de crueldade dirigidos contra os mais fracos, ou seja, sentimentos impregnados de covardia e ódio de si. Uma sociedade violenta que não reconhece sua violência, apenas se pensa como vítima da violência. Um misto de sentimento de culpa com cinismo. Uma mistura de autodestruição com indiferença. É um crime tremendo que quase 30% das crianças cearenses vivam na miséria (extrema pobreza). E 60%, no geral, vivam na pobreza. O Estado é o crime. Maranhão e Ceará "lideram" o crime contra a infância no Brasil.

Friday, July 21, 2017

Clima de guerra em Fortaleza

O clima de guerra nas ruas de Fortaleza é permanente. Ir e voltar de casa para o trabalho virou uma aventura. Quase todo dia me deparo com homens armados perambulando por aí em plena luz do dia. Dia desses, vi uma cena de cinema. Uns trinta homens, vários deles com armas em punho, atravessando ao meio-dia de um dia da semana uma importante rodovia, a CE-040. Saiam de um comunidade local em fuga. Não sei se tinham invadido para atacar ou se eram de lá e estavam fugindo de algo. Pode-se morrer facilmente em Fortaleza, basta olhar para o lado errado ou ser confundindo com o que não se é. Muita morte. Muito tiroteio. Muito medo.

Friday, July 14, 2017

Compartimentalização moderna

Pessoas que tendem a querer transformar o ambiente de trabalho em um lugar de afetos, amigos, como se colegas fossem uma família são um pé no saco. Trabalho é trabalho. Colega é colega. Sou a favor das compartimentalizações modernas. Família num canto. Amigos em outro. Trabalho bem longe.

Sunday, June 25, 2017

Um exercício de colagem

"E ei-lo que partia agora com a cabeça grisalha, um rosto sombrio e triste de velho" (...) "Um ser que se habitua a tudo é, segundo creio, a melhor definição que se possa dar do homem" (...). "...não poderia conceber nunca o tormento espantoso de não poder ficar só" (...)."Dado indivíduo, que durante anos placidamente suportou os castigos mais atrozes, se enfurece de repente por uma ninharia, por uma bagatela, por um nada" (...)."...realiza uma tarefa que lhe é imposta, absolutamente improdutiva para si" (...)."...todo mundo ficava mais ou menos alerta, todo o mundo vivia num estado de expectativa perpétua, numa espécie de inquietação latente." (...)."Aqueles desgraçados tinham desejado tanto divertir-se, passar alegremente a grande festa e - meu Deus! - que peso, que esmagamento para quase todos! Cada um quisera, naquele grande dia, embalar-se com uma esperança; mas a esperança não se realizara" (...)."...ir para qualquer parte, conquanto não seja para a mesma intolerável cadeia de onde escapou" (...)."...na realidade todos se sentiam tão fatigados como eu, todos se sentiam enojados daquele companheirismo debaixo do açoite, daquela promiscuidade obrigatória; todos sentiam aversão uns pelos outros e não procuravam senão isolar-se." (Dostoiévski).

Estórias de rapazola

Minhas histórias de rapazola e rapaz na década de 1980 tornaram-se inacreditáveis. Nem eu mesmo acredito mais no que narro sobre isso. Nos inícios de 1990, quando o Nirvana estourou, não entendi foi nada. Juro! Para mim, as pessoas são pós-Nirvana e antes do Nirvana. Mudou tudo. Em 1989, com a que do muro de Berlim, fizemos debates homéricos, regados a cachaça, na Beira-mar, foi quando li o livro Perestroika, do Gorbachev, livro ruim da porra, perdi foi tempo. Por falar em Perestroika, havia um bar que virava boate a partir de tal hora, na Praia do Futuro, em Fortaleza, que se chamava Perestroika. A gente ia para lá depois da Biruta. Era pertinho. Dava para ir andando. Até hoje como um PF ali do lado, na entrada do Luxou, um PF na PF. As pessoas só querem falar sobre temas universais e abstratos, é? Pois, confesso, sou local, do localismo mais provinciano que há. Tenho mil pequenas histórias para contar a partir de conexões locais. Meio quilo delas na PI. Poxa, às vezes, voltando a pé da 13 de maio, da pracinha, depois da praça Portugal, havia o Soft Drinks. Mas lá era legal ir para ver o céu. Poxa, fui para o show do Titãs lá na Hipopótamos, uma boate que era na BR, debaixo de um viaduto, num lugar que hoje seria inimaginável de acreditar que houvesse uma boate. Tipo no meio do canteiro da BR. O show foi massa. Era o lançamento de cabeça dinossauro. O Raul Seixas estava lá no Pirata. No balcão, bebendo todas, garrafas e mais garrafas de uísque, e a galera da organização o levou carregado para fazer o show no Paulo Sarasate, chegando lá, ele tocou duas músicas e despencou, foi o maior quebra-quebra que presenciei, ainda moleque. Fui para o show dos Rolling Stones e aí, de repente, sem ninguém saber, sem nenhuma divulgação prévia, o Bob Dylan entra no palco e abre o show. Fiquei bom e fui comprar uma cerva. Lá na PI havia o bar From the Sea to the Moon. Era num casarão que tinha sido ocupado pelos hippies vindos de toda parte do mundo, eram várias línguas que lá falavam. O casarão caindo aos pedaços. Era o bicho. Havia o Maestra na Abolição. Era muito bom ir para o Maestra. Na época, diziam na cidade que era bar de entendido. Ainda falam assim? Era uma loucura. Como também Periferia, Navy, Duques e Barões e a casa da Leila na Maraponga. Tinha um casarão, ali perto da Dom Manuel, por trás, perto do Doroteias, que foi uma loucura a primeira vez que fui lá. Quando entrei, havia uma festa lotada de travestis, trans e indefiníveis em geral, morri de tesão e de medo ao mesmo tempo. Fiquei querendo ir pro colo da mamãe. Tinha só 16, não sabia ainda o que era boa festa. Os shows no América, no Casinha e no São José eram ótimos. A gente ia dormir lá na praça do Ferreira, depois. Quem nunca dormiu na praça do Ferreira, hein? Cara, a gente ia para Canoa no sábado à noite e voltava no domingo de manhã, brincando. A primeira vez que fui em Canoa foi em 1982, mas aí era mais demorado pra chegar.

25 de junho de 2017.

Desde que me entendo por gente, estudar aos sábados e domingos é a coisa mais normal do mundo. Foram muitos os eventos sociais deixados de lado para ficar o final de semana estudando. E todo mundo que conheço que se dedicou aos estudos fez a mesma coisa. Hoje é domingo, estou estudando desde 6 da manhã. Ontem, foi sábado e estudei de 7 às 17 horas. O que se ganha é o que se perde. Mas não troco um bom livro por um churrasco nem que a vaca tussa enquanto está sendo chamuscada. São escolhas? Não apenas. Mas também há escolha. Só não consigo entender como é que pessoas que vivem em estado permanente de eventos sociais conseguem ficar tão ranzinzas depois, quando vem o choro. Aí é um choro livre. Mas todo mundo é livre para sonhar e para chorar. Na real! Bom domingo ensolarado e muita diversão para todos e todas. Divirtam-se! Estou cá me divertindo bastante com letras e livros.

Saturday, June 24, 2017

Notícias de Caxambu

O indivíduo é um efeito numa rede de poder. E a percepção segunda a qual o eu do ator social ocupa o centro das relações sociais é uma experiência frequente e ilusória. Um centro de poder precisa ser conhecido a partir de suas fragilidades e existem circunstâncias privilegiadas para que se possa realizar essa observação. Quando indivíduos marcados por uma sólida reputação profissional se aposentam, isso gera um problema intergeracional de transmissão de posições de prestígio, como signos das heranças disponibilizadas. Os que passam a ocupar suas posições veem-se subitamente alçados ao nada, quando o sistema é aberto, de modo que expressam a crise de posição pela ansiedade e pelo medo, mantendo, porém, esquemas fortes de trabalho para evitar a queda no ostracismo individual e a lembrança coletiva negativa de que são avatares mal-postos. Ficam por vezes silenciosos numa grandeza pesada demais. Há também os barulhentos e espalhafatosos recém-chegados que tentam oportunizar de modo agressivo o aparente vácuo. Mas não há vácuo, há apenas intermezzo. Eles erram por isso. Esses recém-chegados tornam-se arrogantes e se associam aos que demonstram grandeza porque ocupam posições dominadas no campo do poder.

Mortificação e autoflagelação

Confio no cristão que mortifica o seu próprio desejo a tal ponto que exclui até mesmo prazeres lícitos de seu cardápio de sensações. O cristão de hoje, que vive na concupiscência, que não se aplica quinze chibatadas nas costas, como forma de autoflagelo, é um impostor. Um ser diabólico, a maioria cristã vive no pecado aberto e usando o julgamento divino para atribuir aos outros a fonte do pecado. Igrejas que mais parecem cabarés. Prefiro a santidade dos verdadeiros cabarés. Obviamente sem os cafetões que exploram o corpo dos outros comandando o mercado do sexo a partir de suas igrejas. Acordei hoje lembrando da minha primeira comunhão. Que saudade da Igreja!

O prazer

A busca pelo prazer é uma forma de dependência. É atrelar de modo ignominioso o prazer ao desejo. O prazer é algo bom em si mesmo, não há por que fundamentá-lo sobre uma falta, sobre uma carência. O prazer é um bem. Não se trata de agir para alcançar prazer, mas sim de agir puramente por prazer.

A modernidade pira!

Interessante como o velho Platão tornou-se um amante e apreciador dos prazeres estéticos, entre outros prazeres sensíveis e se negou a fazer uma condenação peremptória do prazer como algo a ser expurgado do campo do Bem. Ele passou a pensar em termos de misturas, de vida misturada. A modernidade pira diante disso!

Não aprendi a comemorar resultados

Cada família segue lá seus costumes. Não aprendi a comemorar resultados, apenas novas entradas, novos começos. Nunca fiz festa para um resultado, só para novos desafios. Cada doido com sua mania, né? Tem gente que gasta horrores de energia, investimento libidinal, dinheiro para comemorar aquilo que já alcançou. Pra mim é perda de tempo, dinheiro e desejo. Afirmar novas diferenças é mais importante do que buscar o reconhecimento pelo que já foi e não é mais, deixou de ser, portanto, o centro do turbilhão desejante. O desejo de prestígio é um tipo de desejo de Absoluto, ou sei lá, mas me parece bastante infrutífero.

Noite de Natal

O que é doméstico, confortável, amistoso, agradável, seguro, tranquilo, natural e familiar não me interessa, ao contrário, me apavora, sinto terror diante do que é íntimo, a intimidade do lar é o horror. Como estranho, busco os estranhos. Desde 13 anos de idade, passo a festa de Natal entre estranhos. Estranhos que vivemos no segredo, no oculto, que desperta o sentimento do amor, de incompreensão, de devassidão, abandono e errância! Avoé, espíritos livres! Um brinde às memórias de nossa desordem produtiva! Somos muitos, quando poucos. Sei o nome de todas as pessoas estranhas com quem ao longo de tantos anos compartilhei a comida, a bebida e o riso nas noites desgarradas do Natal.

Wednesday, June 21, 2017

Nem absolutismo, nem relativismo

Os que criticam o relativismo (e eu também o critico) tendem a esquecer que o contrário do relativismo é o absolutismo. Essa observação é de Latour e concordo inteiramente com ela. Vamos criticar o perspectivismo relativista da modernidade sem bradar fetiches de absoluto, como diria Bourdieu. Olha aí, usando Latour e Bourdieu num mesmo racicionício! Enfim, o perspectivismo radical é o melhor crítico do relativismo, e não a retomada de quaisquer absolutismos nos tempos atuais. CurtirComentarCompartilhar

Monday, June 12, 2017

Diz-se por aí

O melhor é ler. Escrever é um sofrimento. Ler é um prazer, escrever é árduo.

Sunday, April 30, 2017

Sociologia no ensino médio

Enquanto querem retirar a sociologia do ensino médio, a grande mídia (Folha, O Globo, El País etc.) publica praticamente todos os dias textos de sociólogos sobre o que se passa mundo afora, solicitando dicas analíticas e interpretativas para os seus públicos leitores. Há algo de muito errado com esse tal de Escola Sem Partido e esses projetos que tiram a obrigatoriedade da sociologia no ensino médio, não? Até a grande mídia não descarta a sociologia como parte de seu mainstream. Estranho e em dois sentidos.

Saturday, April 29, 2017

Capacidade de pensar

A cada dia, sinto que minha capacidade de pensar está ameaçada. A recusa de adotar os clichês como uma economia do pensamento não garante que se esteja a salvaguardo de se cair no espaço vazio, no espaço incapacitante da loucura. Para isso não acontecer, é preciso manter a relação com a loucura como prioridade no processo de manutenção da capacidade agentiva de exercer o pensamento, pois pensar é atuar contra a ordem, é negar a força inercial da classificação, é atuar contra a crença e contra o desejo, pensar é arriscado demais. Pensar gera esvaziamento, gera um embrutecimento dos sentidos, talvez seja por isso que se torne cada vez mais importante pensar no regime do sensível. Mas tenho lá minhas dúvidas, pois os regimes do sensível estão de tal modo capturados pela atitude de não-pensamento que as coisas parecem esvanecer, refiro-me às coisas do pensamento, as coisas do real nos interpelam, mas apenas como coisas do pensamento podemos com elas pelejar. Onde estarei quando não mais conseguir pensar? Isto me amedronta, pois desconfio que já estou lá, que não é em aqui nenhum. Mas lá nos confins da experiência lúcida.

Thursday, April 20, 2017

Crime de quem?

Acham que podem apoiar um Estado fora da lei e não colher tempestades? Quem produz o crime é o Estado, principalmente, quando atua contra a Lei. Quando agentes da lei são estimulados a agir fora da lei, isso gera mais crime. Se três quartos da classe dirigente estão no crime, como o crime será controlado? Um Estado fora da lei não é capaz de controlar o que está fora da lei. O embrutecimento das condições já embrutecidas geram mais guerra.

Dos tempos antigos

Em tempos de paixão consumptiva, quando o consumo de sensações se esgota no próprio ato de desejar, morre com a expectativa, confesso que tenho uma alergia pessoal a esse mundo de eventos com palestras de gente sabida e estudiosa, falando para públicos que são sabidos mas não estudam quase nada, os sabidos de ouvir falar. Ir para palestras como um ato de fantasia social tem sido algo muito comum na universidade. Quatro anos sem ler um livro e 50 palestras na cachola. E de enganação em enganação, o gozo ilimitado como imperativo do supereu vai fazendo a festa, esse ato de crueldade. Menos palestras e fotografias em eventos, mais leitura na biblioteca em silêncio sem ninguém ver para aplaudir, por favor. Sou do tempo antigo. Do tempo arcaico. Do tempo em que a ética do desejo precisava ser pensada na relação com a ética do sacrifício. Pois, abrir mão do sacrifício é minar as possibilidades de um trabalho do desejo. O desejo como trabalho é fundamental para evitar ser refém do gozo ilimitado como imperativo do supereu. Os tempos arcaicos são os que atuam investindo em relações sociais. Que pensam a base das relações como sendo assumir obrigações recíprocas. Por que, afinal, deveríamos nos tornar todos ao mesmo tempo e agora aquilo que os tempos do curto prazo e do desejo à deriva sem relação com o espaço vazio, que é o que garante a sobrevivência contra a subalternidade, querem nos impor?

Os inocentes na luta pelo poder.

Tenho percebido ao longo do tempo que pessoas que lutam ferrenhamente para exercer o poder de mando costumam usar justificativas que mascaram sua sede imensa de poder, dizendo que estão se sacrificando em nome da coletividade, que estão buscando contribuir para o bem de todos, que estão naquele lugar de exercício do mando não por que ali desejam ao máximo estar, mas por terem sido destinadas a esse sacrifício em nome do todo. É recorrente esse tipo de figuração subjetiva. Lutam pelo poder e falam em nome da justiça. São compulsivamente atados ao poder pelo poder, mas falam a língua dos anjos, os inocentes.

Sunday, April 16, 2017

Os sobrequalificados

A desqualificação do trabalho bem-feito está sendo realizada, entre outros fatores, pela pressão do capital impaciente, sob controle dos acionistas. A pressão pelo lucro de curto prazo faz com que as dinâmicas do mercado do trabalho assalariado estejam marcadas pela presença maciça de trabalhadores muito mais qualificados do que as vagas disponíveis exigem em sua maioria. Isso não é novidade. A primeira revolução industrial produziu esse efeito, o que resultou na revolta dos trabalhadores artesanais e dos artífices. A pauperização do trabalhador com melhor qualificação que compete por vagas para as quais está sobrequalificado vai empurrar o trabalhador com baixa qualificação para baixo.Vejam o caso da Colômbia, relatado pelo jornal El País.

Os eleitores de Trump

Baixos níveis de escolaridade, baixos rendimentos, desemprego e uma vida de incertezas, associadas a álcool, drogas, obesidade, doenças cardíacas, entre outras, estão relacionadas ao fato de que homens brancos de meia-idade nos EUA tenham se tornado um problema público, pois estão super representados nas estatísticas de mortes no país, incluindo suicídios. Em geral, pessoas brancas sem nível universitário tendem a viver situações de desrealização e pauperização. O nível universitário não garante o paraíso, pois não o há em parte alguma, contudo, garante qualidade mínima de vida. O acesso à universidade muda a condição social da existência. 60% desses homens brancos subalternos se tornaram eleitores do Trump.

Saturday, April 15, 2017

Geração Y

Num cenário de laços frouxos no mundo do trabalho, transformaram flexibilidade num lema, num estilo, contudo, agora, desejam cada vez mais estabilidade em meio à crise. Resultado de um pesquisa sobre a geração Y, publicada na Folha hoje. Flexibilidade e estabilidade. Querem flexibilidade para fazer seus horários e estabilidade na carreira, na família e nas finanças, com promoções e previsibilidade. Estão cansados de tantas mudanças no curto prazo, tantos "projetos", tantas alterações dos conjuntos de habilidades. O fim do longo prazo, a noção de "não há longo prazo", gerou a quebra das expectativas de compromisso, lealdade e obrigações mútuas. A geração Y chega à exaustão. Está cansada de pular de galho em galho, expressando ser o melhor jogador da equipe.

Friday, April 14, 2017

Sexta-feira, 6 da matina, do meu monastério.

A relação com o espaço vazio é o modo como a subjetividade moderna se constituiu. Perder o sentido dessa relação é cair no abismo do espaço vazio. Na loucura, na morte. Uma relação com a loucura e a morte é a fonte com que se torna possível atribuir sentido à experiência nos fluxos do real. A música e a literatura são as formas dessa relação para mim. Com o cinema e o teatro, não consigo tocar a relação. O teatro me desperta a curiosidade, o cinema me empolga. As artes visuais viraram um alfabeto. Estão de tal modo domesticadas pelo mundo da paixão consumptiva que raramente atingem a reflexão com o nada. O temor em estar só, essa condição da liberdade, é um sinal dos tempos. As pessoas se acovardam e, por isso, precisam estar juntas, a amizade não é apenas a política de existência e de liberdade, a amizade pode ser também uma forma social de covardia. Mas, realmente, não se trata de afirmar autonomia, esse modo exclusivo de ser cruel. Reinventar as relações de dependência mútua, para cavar a possibilidade de uma interpelação sem sujeição, é um desafio que faz da política uma questão de eticidade, de espiritualidade. O paradoxo disso é que essas demandas de desejo que passam pela modelação do self consumidor de sensações caem no mais das vezes na indiferença e na passividade como formas contemporâneas da demissão coletiva.

Thursday, April 13, 2017

Isto não é um cachimbo

Sou contra as pessoas irem para palestras sem serem leitoras. Isso é um mentira neoliberal. O consumidor neoliberal está em busca de sensações, em busca daquilo que não realiza. É a paixão consumptiva. Deveríamos criar um portaria que proibisse pessoas que não leem de entrar nas palestras (isto não é um cachimbo). Ia esvaziar total. Algumas pessoas me dizem que a palestra por si só contribui, discordo. A palestra pela palestra é o jogo da burguesia, é a aceitação da condição de subalternidade. É amar ser subalterno. A biblioteca que está lá e é pública também pode ser desejada, lá na universidade quero dizer. O aluno que diz não poder ler pois é pobre, lá na universidade, matriculado, é um babaca mentiroso. Conheço muitos alunos fudidos que são leitores de peso.