Sunday, June 25, 2017
Estórias de rapazola
Minhas histórias de rapazola e rapaz na década de 1980 tornaram-se inacreditáveis. Nem eu mesmo acredito mais no que narro sobre isso. Nos inícios de 1990, quando o Nirvana estourou, não entendi foi nada. Juro! Para mim, as pessoas são pós-Nirvana e antes do Nirvana. Mudou tudo. Em 1989, com a que do muro de Berlim, fizemos debates homéricos, regados a cachaça, na Beira-mar, foi quando li o livro Perestroika, do Gorbachev, livro ruim da porra, perdi foi tempo. Por falar em Perestroika, havia um bar que virava boate a partir de tal hora, na Praia do Futuro, em Fortaleza, que se chamava Perestroika. A gente ia para lá depois da Biruta. Era pertinho. Dava para ir andando. Até hoje como um PF ali do lado, na entrada do Luxou, um PF na PF. As pessoas só querem falar sobre temas universais e abstratos, é? Pois, confesso, sou local, do localismo mais provinciano que há. Tenho mil pequenas histórias para contar a partir de conexões locais. Meio quilo delas na PI. Poxa, às vezes, voltando a pé da 13 de maio, da pracinha, depois da praça Portugal, havia o Soft Drinks. Mas lá era legal ir para ver o céu. Poxa, fui para o show do Titãs lá na Hipopótamos, uma boate que era na BR, debaixo de um viaduto, num lugar que hoje seria inimaginável de acreditar que houvesse uma boate. Tipo no meio do canteiro da BR. O show foi massa. Era o lançamento de cabeça dinossauro. O Raul Seixas estava lá no Pirata. No balcão, bebendo todas, garrafas e mais garrafas de uísque, e a galera da organização o levou carregado para fazer o show no Paulo Sarasate, chegando lá, ele tocou duas músicas e despencou, foi o maior quebra-quebra que presenciei, ainda moleque. Fui para o show dos Rolling Stones e aí, de repente, sem ninguém saber, sem nenhuma divulgação prévia, o Bob Dylan entra no palco e abre o show. Fiquei bom e fui comprar uma cerva. Lá na PI havia o bar From the Sea to the Moon. Era num casarão que tinha sido ocupado pelos hippies vindos de toda parte do mundo, eram várias línguas que lá falavam. O casarão caindo aos pedaços. Era o bicho. Havia o Maestra na Abolição. Era muito bom ir para o Maestra. Na época, diziam na cidade que era bar de entendido. Ainda falam assim? Era uma loucura. Como também Periferia, Navy, Duques e Barões e a casa da Leila na Maraponga. Tinha um casarão, ali perto da Dom Manuel, por trás, perto do Doroteias, que foi uma loucura a primeira vez que fui lá. Quando entrei, havia uma festa lotada de travestis, trans e indefiníveis em geral, morri de tesão e de medo ao mesmo tempo. Fiquei querendo ir pro colo da mamãe. Tinha só 16, não sabia ainda o que era boa festa. Os shows no América, no Casinha e no São José eram ótimos. A gente ia dormir lá na praça do Ferreira, depois. Quem nunca dormiu na praça do Ferreira, hein? Cara, a gente ia para Canoa no sábado à noite e voltava no domingo de manhã, brincando. A primeira vez que fui em Canoa foi em 1982, mas aí era mais demorado pra chegar.
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