Sunday, March 04, 2018
Reflexão de um domingo pela manhã na ausência da família
Devo ter vergonha ou orgulho de estar preenchendo o Lattes num domingo pela manhã? Devo ter vergonha ou orgulho de ouvir música erudita ao passo que meu corpo degenera, envelhecendo no empobrecimento da vida atual? Devo ter vergonha ou orgulho de não mais ter o sonho de viver num crescendo, mas de me curvar em direção ao sono? As fontes de vergonha social são muitas, variadas e atravessam toda a estrutura dos mercados de baixo acúmulo de capital. Já as fontes de orgulho, elas se tornam cada vez mais raras, pois a falta de compromisso e o lugar ausente se tornaram a regra daqueles que ocupam as posições de alto acúmulo de capital. Vergonha de todos. Orgulho de ninguém. Quem não vive atolado num universo de ansiedades e medos? Quem anda por aí na certeza de si? Os incautos, talvez. Os engajados, certamente. Não prestar atenção na geleia geral e se engajar por conta disso naquilo que há é a atitude básica do desejo de nada. O desejo do consumidor em tempos de dissolução geral da renda e do patrimônio da maioria. Desejos de autonomia relativa, liberdade de escolha, de construção da individualidade, de assumir a responsabilidade pelas consequências da própria ação, de rejeitar a intervenção das instâncias de controle social e suas formas autocráticas e totalitárias de dominação. Desejo de emancipação humana. Enfim. Viramos todos uns dinossauros. O castelo de cartas caiu . Estamos fodidos e mal-pagos. A chuva de meteoros está aí, batendo à porta.
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