Sunday, April 30, 2017
Sociologia no ensino médio
Enquanto querem retirar a sociologia do ensino médio, a grande mídia (Folha, O Globo, El País etc.) publica praticamente todos os dias textos de sociólogos sobre o que se passa mundo afora, solicitando dicas analíticas e interpretativas para os seus públicos leitores. Há algo de muito errado com esse tal de Escola Sem Partido e esses projetos que tiram a obrigatoriedade da sociologia no ensino médio, não? Até a grande mídia não descarta a sociologia como parte de seu mainstream. Estranho e em dois sentidos.
Saturday, April 29, 2017
Capacidade de pensar
A cada dia, sinto que minha capacidade de pensar está ameaçada. A recusa de adotar os clichês como uma economia do pensamento não garante que se esteja a salvaguardo de se cair no espaço vazio, no espaço incapacitante da loucura. Para isso não acontecer, é preciso manter a relação com a loucura como prioridade no processo de manutenção da capacidade agentiva de exercer o pensamento, pois pensar é atuar contra a ordem, é negar a força inercial da classificação, é atuar contra a crença e contra o desejo, pensar é arriscado demais. Pensar gera esvaziamento, gera um embrutecimento dos sentidos, talvez seja por isso que se torne cada vez mais importante pensar no regime do sensível. Mas tenho lá minhas dúvidas, pois os regimes do sensível estão de tal modo capturados pela atitude de não-pensamento que as coisas parecem esvanecer, refiro-me às coisas do pensamento, as coisas do real nos interpelam, mas apenas como coisas do pensamento podemos com elas pelejar. Onde estarei quando não mais conseguir pensar? Isto me amedronta, pois desconfio que já estou lá, que não é em aqui nenhum. Mas lá nos confins da experiência lúcida.
Thursday, April 20, 2017
Crime de quem?
Acham que podem apoiar um Estado fora da lei e não colher tempestades? Quem produz o crime é o Estado, principalmente, quando atua contra a Lei. Quando agentes da lei são estimulados a agir fora da lei, isso gera mais crime. Se três quartos da classe dirigente estão no crime, como o crime será controlado? Um Estado fora da lei não é capaz de controlar o que está fora da lei. O embrutecimento das condições já embrutecidas geram mais guerra.
Dos tempos antigos
Em tempos de paixão consumptiva, quando o consumo de sensações se esgota no próprio ato de desejar, morre com a expectativa, confesso que tenho uma alergia pessoal a esse mundo de eventos com palestras de gente sabida e estudiosa, falando para públicos que são sabidos mas não estudam quase nada, os sabidos de ouvir falar. Ir para palestras como um ato de fantasia social tem sido algo muito comum na universidade. Quatro anos sem ler um livro e 50 palestras na cachola. E de enganação em enganação, o gozo ilimitado como imperativo do supereu vai fazendo a festa, esse ato de crueldade. Menos palestras e fotografias em eventos, mais leitura na biblioteca em silêncio sem ninguém ver para aplaudir, por favor. Sou do tempo antigo. Do tempo arcaico. Do tempo em que a ética do desejo precisava ser pensada na relação com a ética do sacrifício. Pois, abrir mão do sacrifício é minar as possibilidades de um trabalho do desejo. O desejo como trabalho é fundamental para evitar ser refém do gozo ilimitado como imperativo do supereu. Os tempos arcaicos são os que atuam investindo em relações sociais. Que pensam a base das relações como sendo assumir obrigações recíprocas. Por que, afinal, deveríamos nos tornar todos ao mesmo tempo e agora aquilo que os tempos do curto prazo e do desejo à deriva sem relação com o espaço vazio, que é o que garante a sobrevivência contra a subalternidade, querem nos impor?
Os inocentes na luta pelo poder.
Tenho percebido ao longo do tempo que pessoas que lutam ferrenhamente para exercer o poder de mando costumam usar justificativas que mascaram sua sede imensa de poder, dizendo que estão se sacrificando em nome da coletividade, que estão buscando contribuir para o bem de todos, que estão naquele lugar de exercício do mando não por que ali desejam ao máximo estar, mas por terem sido destinadas a esse sacrifício em nome do todo. É recorrente esse tipo de figuração subjetiva. Lutam pelo poder e falam em nome da justiça. São compulsivamente atados ao poder pelo poder, mas falam a língua dos anjos, os inocentes.
Sunday, April 16, 2017
Os sobrequalificados
A desqualificação do trabalho bem-feito está sendo realizada, entre outros fatores, pela pressão do capital impaciente, sob controle dos acionistas. A pressão pelo lucro de curto prazo faz com que as dinâmicas do mercado do trabalho assalariado estejam marcadas pela presença maciça de trabalhadores muito mais qualificados do que as vagas disponíveis exigem em sua maioria. Isso não é novidade. A primeira revolução industrial produziu esse efeito, o que resultou na revolta dos trabalhadores artesanais e dos artífices. A pauperização do trabalhador com melhor qualificação que compete por vagas para as quais está sobrequalificado vai empurrar o trabalhador com baixa qualificação para baixo.Vejam o caso da Colômbia, relatado pelo jornal El País.
Os eleitores de Trump
Baixos níveis de escolaridade, baixos rendimentos, desemprego e uma vida de incertezas, associadas a álcool, drogas, obesidade, doenças cardíacas, entre outras, estão relacionadas ao fato de que homens brancos de meia-idade nos EUA tenham se tornado um problema público, pois estão super representados nas estatísticas de mortes no país, incluindo suicídios. Em geral, pessoas brancas sem nível universitário tendem a viver situações de desrealização e pauperização. O nível universitário não garante o paraíso, pois não o há em parte alguma, contudo, garante qualidade mínima de vida. O acesso à universidade muda a condição social da existência. 60% desses homens brancos subalternos se tornaram eleitores do Trump.
Saturday, April 15, 2017
Geração Y
Num cenário de laços frouxos no mundo do trabalho, transformaram flexibilidade num lema, num estilo, contudo, agora, desejam cada vez mais estabilidade em meio à crise. Resultado de um pesquisa sobre a geração Y, publicada na Folha hoje. Flexibilidade e estabilidade. Querem flexibilidade para fazer seus horários e estabilidade na carreira, na família e nas finanças, com promoções e previsibilidade. Estão cansados de tantas mudanças no curto prazo, tantos "projetos", tantas alterações dos conjuntos de habilidades. O fim do longo prazo, a noção de "não há longo prazo", gerou a quebra das expectativas de compromisso, lealdade e obrigações mútuas. A geração Y chega à exaustão. Está cansada de pular de galho em galho, expressando ser o melhor jogador da equipe.
Friday, April 14, 2017
Sexta-feira, 6 da matina, do meu monastério.
A relação com o espaço vazio é o modo como a subjetividade moderna se constituiu. Perder o sentido dessa relação é cair no abismo do espaço vazio. Na loucura, na morte. Uma relação com a loucura e a morte é a fonte com que se torna possível atribuir sentido à experiência nos fluxos do real. A música e a literatura são as formas dessa relação para mim. Com o cinema e o teatro, não consigo tocar a relação. O teatro me desperta a curiosidade, o cinema me empolga. As artes visuais viraram um alfabeto. Estão de tal modo domesticadas pelo mundo da paixão consumptiva que raramente atingem a reflexão com o nada. O temor em estar só, essa condição da liberdade, é um sinal dos tempos. As pessoas se acovardam e, por isso, precisam estar juntas, a amizade não é apenas a política de existência e de liberdade, a amizade pode ser também uma forma social de covardia. Mas, realmente, não se trata de afirmar autonomia, esse modo exclusivo de ser cruel. Reinventar as relações de dependência mútua, para cavar a possibilidade de uma interpelação sem sujeição, é um desafio que faz da política uma questão de eticidade, de espiritualidade. O paradoxo disso é que essas demandas de desejo que passam pela modelação do self consumidor de sensações caem no mais das vezes na indiferença e na passividade como formas contemporâneas da demissão coletiva.
Thursday, April 13, 2017
Isto não é um cachimbo
Sou contra as pessoas irem para palestras sem serem leitoras. Isso é um mentira neoliberal. O consumidor neoliberal está em busca de sensações, em busca daquilo que não realiza. É a paixão consumptiva. Deveríamos criar um portaria que proibisse pessoas que não leem de entrar nas palestras (isto não é um cachimbo). Ia esvaziar total. Algumas pessoas me dizem que a palestra por si só contribui, discordo. A palestra pela palestra é o jogo da burguesia, é a aceitação da condição de subalternidade. É amar ser subalterno. A biblioteca que está lá e é pública também pode ser desejada, lá na universidade quero dizer. O aluno que diz não poder ler pois é pobre, lá na universidade, matriculado, é um babaca mentiroso. Conheço muitos alunos fudidos que são leitores de peso.
Friday, March 17, 2017
Neca, nequinha.
Quem gosta de classe dirigente bandida é quem gosta de classe dirigente. Hoje, estou lembrando dos amigos que já morreram. Do sorriso deles. Os amigos que se mataram também merecem ser lembrados. A pouca loucura deles. Quem pranteia os que pularam da ponte? Suas idiotas pernas quebradas... Espatifou as ideias com um tiro na boca, aprendi muito com ele. Sobre música. Ela pulou de cara no chão, nenhum dente, nenhum nariz, nenhum amor. Pensava que apareceriam para segurá-la. Quebrou os dois joelhos e não levantou. A conversa com o vazio é a fonte da existência. Um nada de vida, neca, nequinha.
Sunday, March 05, 2017
Força leve
Quem defende respostas duras a qualquer problema, ou seja, uso da força bruta para resolver problemas, assina atestado de baixa perícia ou nenhuma perícia. Peritos usam o princípio inteligente da força mínima. Isso vale para qualquer área de atuação.
Faca de dois gumes
Sentir orgulho de si é uma faca de dois gumes. Pode ser instrumento de poder na luta por supremacia ou fonte de satisfação pela realização do trabalho bem-feito. Ocorre que esta satisfação também pode gerar hierarquias, reforçando políticas do Estado. Contudo, o contrário do orgulho de si é a vergonha, o oposto complementar que reforça esquemas autocráticos. Talvez seja por isso que o orgulho é percebido em várias tradições religiosas como uma fonte de pecado.
Sunday, February 26, 2017
Sem Jesus no coração, de boa!
No domingo de chuva pela manhã, ouvindo música e brincando com o menino, na maior paz de espírito, e sem Jesus no coração. Há muito tempo buscando construir uma boa vida, com arte, ciência, ética, honestidade, trabalho, alegria e sem Jesus no coração. Meu coração esvaziado de Deus realiza-se na boa vida secular e sem Jesus no coração vai seguindo de boa sem religião. Na paz. Queria deixar meu testemunho. Há 31 anos, vivo uma vida significativa sem Deus.
Wednesday, February 22, 2017
procrastinar
Entre cuidar das crianças e cuidar da carreira, dediquei muito mais empenho, tempo e dedicação, é claro, às minhas crianças. Por isso, procrastino no Lattes. O artigo só sai amanhã! (E o meu Lattes não é ruim não, viu?!) Foi a decisão mais acertada que tomei em toda minha vida, não colocar a carreira para a frente e a meninada de lado, para trás ou para baixo, o que é pior. Minha meninada vai sempre à frente e para cima, me ensinando o que é mais importante na vida. Não me comparo às mulheres, não há comparação possível. Não é essa minha intenção. Sei que amigos meus, homens, que optaram pela carreira a qualquer custo, e esse a qualquer custo foi abandonar os filhos à própria sorte, vivem tristes e deprimidos, levando uma vida culpada e fodida, não são reconhecidos como pais pelos próprios filhos. Vivem de muita droga e solidão. Sobre homens, eu posso falar. Fica meu testemunho.
Com procrastinação e sem perfeccionismo.
Minha demora em terminar os textos que estou a escrever não se deve ao perfeccionismo. Graças a Deus, não sofro dessa desgraça. Sou morto de preguiça, na verdade. Só consigo empregar energia obsessiva na leitura. Quando se trata da escrita, o desejo de fazer bem-feito não é uma obsessão, tanto é que um texto para mim não precisa estar perfeito para ser publicado, muito pelo contrário. Quando uma ou duas ideias legais se desenham, costumo abandonar o texto à própria sorte, sem querer exaustivamente fazer um texto excelente do começo ao fim. Esse tipo de narcisismo, eu não tenho. Também não sinto medo de ser julgado pelo colega, sentimento que trava muita gente. Simplesmente, deixo as coisas frouxas, para que a vida não fique unidimensional. Mas, aos poucos, os textos vêm vindo à tona. Mas continuo preferindo ler os textos dos outros a escrever os meus próprios textos. Não sou vaidoso? Sim, sou, mas minha vaidade está apenas na biblioteca lida, o que reverbera bem em sala de aula. Gosto muito de sala de aula. Os textos vêm depois. O ensino oral esotérico ou exotérico é mais desafiador. Devo isso a Platão.
Sem Jesus no coração...
Vocês sabem o que significa acordar sem Jesus no coração? Acordar sem Jesus no coração significa você levantar 5 da manhã, cuidar para que os filhos estudem bem, sejam amados, tenham bons acessos a arte, cultura e ciência, não estar devendo nada para a justiça, estudar e trabalhar, respeitar as leis que são justas e criticar as que não são, trabalhar 14 horas por dia com afinco e dedicação. Respeitar as diferenças, buscar dialogar e não julgar com arrogância. Enfim, ser um cidadão respeitador dos direitos, da vida cooperativa, do bem comum. Ou pelo menos tentar ser honesto quanto a isso tudo. Não ter Jesus no coração e viver uma vida eticamente orientada prova que Jesus não é universal. Que é possível se virar bem sem "Ele". É possível sim, concretamente, ter um estilo de existência eticamente e esteticamente orientado de modo secular, ser relativamente infeliz, sem ter Jesus no coração. Um salve à vida secular, que é muito significativa e interessante. Com arte, beijo na boca e cerveja belga, quando sobrar grana. A arte e o beijo na boca são gratuitos. Mas não são fáceis de se conquistar.
Saturday, February 11, 2017
An-arché.
Durkheim falava de pessoas irregulares, dizia que entre todas as pessoas irregulares as piores são as anarquistas. Dizia que a anarquista era muito pior do que o pior dos criminosos. Afinal, os criminosos são funções da ordem, são produzidos pela sociedade. Foi essa raiva do Durkheim a respeito dos anarquistas que me fez entender o que é uma "ciência social do Estado". Uma "ciência real". Sou amante das irregularidades. Tudo o que é irregular me atrai. Por isso, o roubo, a crueldade, o homicídio, a formação de quadrilha, ou seja, tudo isso que é normal, que faz parte da vida das pessoas regulares, são objetos de ojeriza para libertárixs. Por ser contra o crime, tornei-me irregular. Apenas o crime é regular. O irregular é a salvação da humanidade. Sejamos irregulares, lutemos contra as igrejas e o Estado, ou seja, contra essas facções criminosas do sistema partidário que em nome da Moral, da Família, da Propriedade, e demais excrescências, cometem as maiores barbáries. A civilização é a anarquia. An-arché.
Delfos
Acerco-me da racionalidade no plano da fantasia e do meu desejo no âmbito do trabalho. Onde estou? Em Delfos.
A busca indefinida
A busca indefinida do outro absoluto da razão é um mergulho profundo na dor da privação. De onde se pode emergir apoiado na força expressiva do pensamento.
Dizer não.
Ser capaz de dizer não às ofertas que os outros nos fazem é uma dimensão fundamental de negatividade das formas de dependência. Contudo, a autonomia e a dependência são vivenciadas simultaneamente. Isso torna tudo mais complexo.
Perdas e perdas
A tarefa política passa pela superação ou supressão das ambivalências dilacerantes que nos acantonam em dois polos de perda de experiência. De um lado, o isolamento. Do outro, a massificação.
Espíritos de merda, segundo AC
Os que estão mais abertos ao acolhimento, ao abraço, à festa, ao estar junto da comunhão de espíritos, ao dar colo para a carência alheia, fazem muito mais sucesso. Afinal, sentar a bunda na biblioteca e passar o dia todo lendo dificilmente vai ser uma experiência de apelo fácil, ainda bem.
De Antonio Elias para LS 1
Leonardo Sá. Querido amigo Antônio Elias, nesta segunda mais uma vez, apenas lembro do vaticínio do poeta: "E já não enfrentamos a morte, de tanto trazê-la conosco". Adoraria que ao longo da semana o amigo abrisse uma exceção para que pudéssemos tomar uma meiota juntos lá para as bandas do clube Santa Cruz. Conceda-me um território mínimo acuado, por favor. Abraço e mais esquecimento de tudo aquilo que circula e nos exige negociar.
Antonio Elias. Meu caro Leonardo Sá, a despeito da eterna distância que parece jamais nos dar uma trégua, fazendo em nós permanecer uma força de um quase irresistível dilaceramento, tenho-lhe na mais alta das contas, como velho camarada que guarda os restos e os restos esquecidos de minha mais conspícua inutilidade, de minha irrisória dor, há muito abandonada até de mim mesmo. Isso de que não mais sabemos, se acaso tivéssemos, um dia, outrora já sabido. Podes perceber que até minha escrita atualmente cheira a creolina, prisioneiro que estou da imutabilidade desse presídio sem paredes, pois meus olhos já os arranquei, desprovendo-me da fortaleza do recinto que cremos habitar, como se estivéssemos em sua solidez, de toda, inexistente, um nada a nos proteger. Meu maior medo, sim, ainda me acometem certos pudores, certas afecções empáticas, uma lembrança de minha ex-humanidade, um grito, é que o amigo, ao encontrar-me, como lhe apetece, com seu jeito acolhedor de manter amigos à distância, que tão bem conheço, é, simplesmente, o meu maior medo, como dizia, que você se depare apenas com minha "máscara mortuária cheia de cicatrizes", e que seja tremendo o seu asco. Privo-me de sua companhia para não feri-lo com meu bem-querer, essa bela lembrança, incapaz que estou de estar simplesmente agradável como presença, fantasma que estou.
Leonardo Sá. Segunda-feira não está sendo nada fácil. Estou em casa, fazendo uma revisão de um texto de 200 páginas para duas bancas amanhã, tendo que acompanhar a situação política sem parar de trabalhar. E o pacote da internet via celular que estou usando está acabando, vou ficar sem internet aqui no meu interior. E as ansiedades alheias trepidam e exigem respostas. Já sei, vou tomar uma cerveja para ficar pensando melhor, antes do almoço, que é muito bom; a a saúde mental do cidadão brasileiro agradece.
As circunstâncias
Nas atuais circunstâncias, estou pensando em deixar de ser eu. Permitir que as potências da dissolução façam seu belo trabalho. Mas nunca nos cabe tomar tais decisões, é sempre outro quem fala ou deixa de falar.
Friday, September 30, 2016
Nossa carência
"Por vezes, a carência que habita {noss}o sentimento de pobreza cultural periférica é o componente básico decisivo para que outras periferias possam performar o lugar do centro, essa fantasia de grupo. Centro e periferia não existem; portanto, são armas letais contra a atividade do pensamento." (SÁ, 2016).
Economia da pena
Talvez se possa afirmar que a imposição lúdica da educação como prestação de serviço é fortemente legitimada, pois gera uma estranha convergência. De um lado, permite reduzir custos, poupando aos públicos beneficiários uma economia de "penosas mediações dos processos cognitivos" (Sônia Salzstein). De outro, os públicos que vivem em condições de permanente precariedade são remunerados com novos acessos que compensam a impossibilidade de papeis de produtores tais como pensados na perspectiva da modernidade. Une-se o útil ao agradável. Põe-se o educador a serviço dos bons negócios em tempos de neoliberalismo.
Thursday, September 29, 2016
Uma aula que irá se repetir
Hoje, a aula de Estratégias discursivas de poder, para mestrado e doutorado em Sociologia, vai ser para discutir o impacto de Wittgenstein e Austin nos modos de pensar da Sociologia e da Antropologia. Reler Investigações filosóficas, How to do things with words e descobrir que não haveria Foucault, nem Bourdieu, sem essas referências. Aliás, Foucault é praticamente austiniano, pois Austin é nietzschiano também.
Fazedores de chuva
Há na aldeia os fazedores de chuva e os fazedores de texto. Faço parte deste último segmento de linhagem. Prefiro ler textos a escrevê-los. Fazer o texto é um sacrifício. É mesmo que tirar leite de pedra. Como invejo os que escrevem como Rachel de Queiroz, os que de uma sentada escrevem um texto perfeito e sem erros como fazia a prima de Pedro Nava. Graciliano era seu antípoda.
O sentido do Brasil
Gente, o álbum Depoimento do Poeta, de Nelson Cavaquinho, lançado em 1970, resolve o sentido do Brasil.
Durante Anpocs 2015
Em eventos apenas de antropologia, há muita mais representatividade das diversas regiões do país na composição de mesas, grupos de trabalho, seminários e outras atividades. Isso pode ser empiricamente constatado. Qual o sentido disso? Aí são outros quinhentos. Mas na Anpocs deste ano, enquanto escutava colegas, fui fazendo uma pequena matematicamente das mesas. Os resultados eram tipicamente: SP, RJ, BA; ou SP, RJ, Porto Alegre; ou SP, Rio, Brasília; ou SP, RJ, MG. Tudo fechado. Tudo endógeno demais. As lutas faccionais infinitesimais de Rio e Sampa parecem engolir cada vez mais para dentro, engolir o seu próprio corpo esfacelado para dentro. O lance está muito autofágico. Alguém mais pessimista pode me responder dizendo que sempre foi assim. Não creio. Há uma fragmentação muito forte das pós no Rio e Sampa, fragmentação interna, o que resulta em competição muito mais acirrada. UnB, UFRGS, UFMG, entre outras, são aliados estratégicos para remar nessa imensidão de competidores desesperados para pontuar na roda viva do campo acadêmico das ciências sociais em um momento onde as grandes referências (nomes nacionalmente agregadores) estão saindo de cena sem garantir o sucesso dos herdeiros, pois apenas a sucessão não garante o sucesso. E nem a sucessão tem ocorrido em alguns casos. E o contexto de escassez de recursos é o mecanismo sociológico que acirra a economia do autor. Trabalhando duro aqui em Minas. Ô terrinha boa!
Mundo do trabalho II
Sou a favor de manter a dedicação a ações profissionais que recebem baixíssimo reconhecimento institucional, geram pouco valor percebido do ponto de vista da política de status, contudo, produzem alto valor educacional para educandos. Dito de outro modo, gosto de "perder tempo". Por exemplo? Escutar as pessoas.
Uma noite perdida
Já, hoje, na aula da noite, Subjetividade e sociedade, para a graduação, vamos discutir a apropriação lacaniana da sociologia de Durkheim, fazendo uma comparação com o modo de apropriação da psicanálise pelas ciências sociais a partir de um texto instigante de Erich Fromm sobre o assunto. A pergunta que não que calar é a seguinte: seria possível produzir conhecimento socioantropológico desconsiderando as dimensões inconscientes da ação social? Bourdieu e Giddens, como bons freudianos que são, respondem claramente que não. Sem Freud, não se faz socioanálise.
Mundo do trabalho
É muito desagradável quando estamos cumprindo uma agenda de trabalho que é a nossa com parceiros e parceiras, buscando com afinco garantir o resultado de qualidade esperado e surgem pessoas do nada, querendo impor suas agendas de trabalho, onde não fomos feitos sequer parceiros, para tentar suspender nosso trabalho e nos instrumentalizar para algo que vão obter ganhos, e a gente vai ser usada apenas como joguete para isso. Por isso, minha decisão profissional é só trabalhar onde há pactuação e parceria do início ao fim. Interromper a nossa missão, para ser usado unilateralmente pelos outros em suas políticas de lucro próprio, jamais! Concentração naquilo que importa é o bem mais precioso nos tempos atuais. Já ouviram falar em alianças laterais? Lado a lado? Ajuda mútua? Cooperação? São termos de uma política de trabalho que não admite capitalizar em cima dos outros, instrumentalizando-os e nem deseja também atropelar os outros. Não atropelar e exigir não ser atropelado. O mundo pode ser melhor.
Revisar uma tese
Estilos variados de revisar uma tese. Um deles é o seguinte: baixo três artigos que ainda não li conectados diretamente à tese, vou revisando e lendo os artigos, de modo que poderei já instigar novas leituras para o orientando. Vou fazendo anotações página a página. Fico mudando de perspectiva. Ora me ponho no lugar de quem está escrevendo a tese, ora no lugar de um membro avaliador da banca, ora no lugar do orientador, ora no lugar de um colega criticando outro e por aí vai. É tão divertido revisar uma tese! Aprende-se muito. Oriento para me orientar. Autoformação.
Sertões
Horas e horas a percorrer os sertões e os sertões não saem de mim. Léguas e léguas a palmilhar meu vazio e o vazio não me descabe.
O sentido
O sentido da existência é a falta de sentido. Pode-se diante disso fazer a naturalização dos valores de uma ordem social existente, apresentando seus princípios como universais, fora do tempo, e, portanto, negando imaginariamente o espaço vazio, que é o espaço da loucura, da morte e do crime, ou então, criar novos valores, pensar de outro modo, na busca de uma nova sensibilidade que supere o niilismo.
Um branquela
Não é a primeira vez na minha vida que chego em algum lugar do Brasil e sou o único branco no lugar. Aí a galera se pergunta: o que aquele branquela está fazendo aqui? Vão me perguntar e eu respondo que estou ali pois sou filho de Oxalá, Iansã e Yemanjá, e aí as pessoas me chamam para conversar. As ruas são escuras, posso passar de otário, mas vou lá para dizer que não sou otário, pois otário é o guarda.
Sentado num bar
Sentado num bar, conversando com um morador de rua, numas ruas estreitas perto da praça da República, três travestis saindo de uma mesa, passam por mim e uma delas faz uma brincadeira, pegando no meu cabelo amarrado sobre a cabeça, dizendo: olha como é lindo o pitó dele! A gargalhada foi geral. Depois fui trocar umas ideias com uns operários da construção civil, quatro rapazes, todos do Ceará, e, como sempre, longas conversas com os garçons cearenses. E ainda troquei uma ideia com uns policiais militares. Uns vendedores ambulantes. E com um motoboy entregador de pizza. Já posso voltar para Fortaleza, diário de campo de Sampa completo por hora.
Schopenhauer e Nietzsche
Aconteceu comigo de ter lido Nietzsche antes de ter lido Schopenhauer. Fui então negligenciando este último, baseando-me nas críticas de seu ex-discípulo. Mas eis que me deparo com textos de Thomas Mann, tratando justamente disso e propondo uma retomada de Schopenhauer à luz do que o próprio Nietzsche escreveu nos seus últimos dias de lucidez sobre o mestre de sua juventude. Agora que entendi por que Bourdieu parece obcecado por Schopenhauer. O mundo como vontade e representação é um livro para lá de instigante. E também serve como arma.
Citar amigos
O uso de referências e de citações nos artigos está colado em demasia à situação de dependência relacionada às redes de poder em disputa no campo universitário e acadêmico. Precisamos tentar evitar a força dessa homologia entre estrutura das citações e referências e estrutura do mando e de gestão de recursos. Vamos ameaçar o sistema com a aleatoriedade, de um lado, buscando artigos mundo afora sem situá-los previamente, sem filtrá-los por critérios extra-acadêmicos e, de outro, ousando embaralhar as produções dos grupos rivais, que fazem esforço enorme para apagar a existência da produção alheia. Não vamos capitular. Não vamos ceder ao jogo fácil de usar citação e referência como moeda nos jogos de poder. Distraídos, venceremos, como dizia o poeta.
Sonho estranho
Tive um sonho estranho. Sonhei que uma pessoa me contava que tinha presenciado há alguns anos outra pessoa denunciar para autoridades públicas de cúpula que alguns agentes de Estado, o sonho se passava na China, de vez em quando sobrevoava a muralha da China num tapete vermelho de Aladim, vindo da Síria, onde nasceram meus antepassados, e aí a pessoa contava pra mim que o outro tinha dito numa reunião informal os nomes de agentes do Estado que vendiam armas de fogo para brigas entre gangues nos bairros de Hong Kong e que as autoridades resolveram não levar adiante a denúncia e muito tempo depois, quando as armas vendidas geraram mortes, ninguém sabia o porquê, e então matadores do Estado foram exterminar os clientes dos outros agentes do Estado que tinham vendido armas para as guerras entre as gangues. Muita gente inocente morria, pois na China, os chineses são muitos parecidos como reza a lenda. Acordei de um pulo, desse pesadelo, olhei para a natureza e vi que a minha vida era pura harmonia, rodeada de coisas boas, aí comprei uma passagem e fui para Paris, mas aí acordei de novo de um sobressalto, pois percebi que ainda não tinha acordado, que o pesadelo continuava. Preciso relatar esses meus sonhos para meu psicanalista. A gente delira demais quando está sonhando. É o trabalho do desejo.
Friday, September 16, 2016
Seguir experimentando...
Nos bastidores e nos abismos, o desassossego faz parte da condição errática dos que experimentam; e apenas seguem experimentando.
Tuesday, September 06, 2016
Sala de aula
Voltar para sala de aula é uma grande alegria! A gente passa as férias sentindo falta. Sala de aula é uma zona de autonomia temporária. Um lugar de fala livre, solta, onde se questiona até a ilusão da fala livre e solta.
Desamparados
Desamparados e permanentemente aguilhoados pelas formas de desrespeito que nos afligem intimamente, porque nos insultam, nos humilham, não cessamos de lançar apelos melodramáticos, o mais das vezes, para capturar a dedicação emotiva dos outros. E essa tentativa de captura do desejo do outro é o que há de mais arriscado para si e para o outro. É o sem fundo, a um passo do vazio, do puro espaço vazio.
Amor e amizade
O amor como uma forma de desilusão mútua e a amizade como uma forma de estar só e não na solidão da presença inelutável do outro.
Monday, September 05, 2016
Meritocracia
O sistema da meritocracia é uma forma de estimular a competição entre os perdedores, a fim de fazê-los cooperar com a produção e reprodução das desigualdades de oportunidades. Apenas as vítimas deixam-se seduzir pelo mérito de ser uma vítima diferenciada, que merece alguma consideração excepcional por parte dos dominantes, porque colabora com eles de boa vontade.
Friday, August 12, 2016
Piano noturno
Tinha um piano no Compasso, bar ao lado do Cais Bar, e dia de domingo à noite, lá pela meia-noite, alguns amigos que tocavam piano maravilhosamente bem iam saindo das mesas para dar uma canja, enquanto a gente discutia filosofia, literatura, artes e o sentido dos belos olhos das pessoas. Houve um tempo, sim, houve um tempo em que se tocava piano às segundas de madrugada de frente para o mar, e esse tempo é o tempo do meu corpo.
Da cerveja à pedra
A cerveja já não presta, é a maior mentira, e ainda a bicha está no preço de uma refeição, uma única unidade no preço de uma refeição, aí é de lascar, é por isso que a galera da pedra é vanguarda, a vanguarda do fim.
Tuesday, July 19, 2016
Rato de sebo
Como rato de sebos e livrarias, virtuais ou presenciais, frequentemente compro aquele livro de 250 reais por 30 reais ou aquele de 80 reais por 5 reais. Quando o desejo é ardente, não há crise que segure o bibliófilo.
Deep Purple 1976
E o Deep Purple tocando Georgia on My Mind, num show ao vivo, em 1976, como música incidental dentro de uma versão poderosa de Smoke on the Water! E eu escutando isso pela primeira vez. Pense no arrepio!
O desejo dos cultos
O que fazer quando membros altamente escolarizados, doutores e doutoras, das elites sociais, políticas, culturais e econômicas, passam a defender que a tarefa do Estado é exterminar, é fazer a vingança contra quem eles e elas consideram indesejáveis? O que fazer quando a noção de direito, de lei, de justiça, é abandonada pela classe dominante a favor de um Estado de morte? O que fazer?
O crime do estado
O problema não é o Crime agindo contra o Estado. Isso é um mito do Estado, esse mito segundo o qual o Crime é algo fora do Estado. Não existe crime fora do Estado, é o Estado que produz o crime. O problema maior é agentes do Estado tocando o Crime, tocando o terror contra o Direito, a Lei, a Justiça e a Democracia. Isso sim é o problema. É importante lembrar que não existe crime organizado fora do Estado, por definição, crime organizado só se faz com Estado.
Fortaleza, cidade proibida.
A gente mora num faroeste. Fortaleza mergulhada no caos. Sertões do Ceará viraram terra de ninguém. Mortes matadas por todos os lados. Assassinatos em cada esquina da cidade. Guerra de rua entre policiais e bandidos. Torturas, espancamentos. Prisões quebradas, arrombadas. Fugas em massa. Situação fora do controle dos nossos sonhos. Muitos sonhos de angústia a se espalhar. E o Crime do Ceará já anunciou que vai fazer mais prefeitos e vereadores nas próximas eleições. Os estabelecidos nesse ramo, com carreira criminal mais longa e consolidada, estão se batendo de frente num encarniçada luta pelo poder contra a voracidade dos recém-chegados. Muito sangue, muita morte, muita corrupção. Salve-se quem puder. O barco está afundando. Acredite no que quiser. Não há âncora, nem luz no fim do túnel. Crime do alto e crime de baixo em momento de ajuste violento. E a gente no meio disso tudo, vivendo em situações de altíssimo risco. Vir trabalhar e voltar do trabalho é risco de morte. Faixa de Gaza. Iraque. África do Sul. Colômbia. Venezuela. Seja bem-vindo a Fortaleza.
Monday, July 18, 2016
Temas de estudo
Os temas centrais da minha aurora de estudos são a loucura, o crime, a doença e a morte. Sinto que passarei mais do que uma vida inteira a pesquisar sobre tais temas. Talvez seja um sinal de pós-compulsão quanto a eles.
Algum orgulho de si
Um grande desafio é sentir orgulho de si sem alimentar formas de autoindulgência.
Vetar autores é o fim da picada
Acho uma coisa inacreditável, quando alguém simplesmente veta a leitura de um autor. Diz que o autor tal não deve ou merece ser lido. Tenho descoberto tanto autor massa ao desobedecer a esse tipo de veto.
Aprendendo a lidar
E essa busca compulsiva por figuras imaginárias protetoras? Muita atenção é pouca. O desejo de dependência pode ser muito danoso à liberdade já tão frágil e combalida do próprio desejo desejante no seu trabalho de conquista de autonomia relativa. E esses indivíduos que fazem demandas amorosas excessivas aos outros, mas não se dispõem a nada oferecer, que são exigentes com seus próprios direitos de ser amado e para lá de relapsos com a condição desejante dos outros, negando amor ostensivamente a esses de quem tudo cobram?
Monday, July 11, 2016
A espera
A respiração parecia jamais querer voltar, a tosse era seca, sem fumaça, mas seca. Os dedos estavam trêmulos. O mais sacal era esperar à beira da piscina que cheirava fortemente a cloro. Nada para beber.
Passagem
Catava latas e tinha o cuidado de separá-las entre as de ferro e as de alumínio, pois assim corria o tempo. E havia, no ponto de ônibus, uma kombi velha, vendiam podrão a dois reais e cerva em lata a um real.
Pavor em ser invisível
As pessoas estavam apavoradas. Era o medo de desaparecer. O infinito pavor de serem esquecidas.
Arredio
Tinha adquirido o costume de boicotar todo e qualquer tipo de festa, era um tipo solitário e arredio. O que o esperava era própolis e um copo de água natural para ser tomada aos goles. Não depois do própolis.As unhas mal-feitas, roídas, cortavam partes da cartilagem quando as mãos se movimentavam entre as orelhas.
Detalhe biográfico da tese
Quando era um menino de 10 anos, a roda de meninos imbecis se reunia no pátio da escola para questionar quem ia ser Ney Matogrosso, reproduzindo falas de homens adultos escutadas nas famílias, usando Ney como ponto de referência para decidir quem ia continuar sendo um tremendo babaca. Ney sempre foi muito poderoso! 9 anos depois quando descobri Secos e Molhados, isso mudou minha vida. Mudou minha relação com as experiências de gênero. Sem Ney Matogrosso, não teria havido essa mudança; que não foi lá essas coisas, mas foi. Fiquei um pouco menos babaca. I guess.
Monday, June 13, 2016
Precariado
Tenho um dúvida. As chances objetivas de pessoas jovens oriundas das classes dominadas de ocupar posições sociais que não sejam precárias, incertas e instáveis diminuíram? O problema é que metodologicamente não há como checar isso sem levar em consideração a relação entre as expectativas e as chances objetivas de realização dessas expectativas. A crise, para ser sentida como crise, funciona como crise da crença, crise de confiança, como rebaixamento de expectativas elevadas, inflacionadas, em relação a suas condições reais. Ocorre que as expectativas fazem parte dessas condições reais, então, não há como investigar as condições objetivas, desconsiderando os processos de objetivação da objetividade.
Habitar
Moro numa casa onde os muros são parciais. Há um trecho imenso sem muros e alguns muros antigos e outros mais recentes construídos na tentativa de minimizar a situação porosa de uma habitação sem muros. Mas na minha casa há portas e janelas. E elas não ficam sempre abertas. São abertas e fechadas várias vezes ao dia, num jogo infinito de uma casa quase sem muros. Subo no telhado, espio os arredores da casa. A casa vazia é um perigo. As armas da casa são meus olhos. E posso até furá-los nos espinhos que abundam na mata que rodeia a minha casa. Mas pela mata passo como flecha; nem que fure meus olhos. E assim vamos passando desta para uma melhor, ou não. Onde eu moro se chama sertão, meu corpo. Corpo aberto, corpo fechado. Sujeito marcado no limite de sua impossibilidade.
Monday, May 23, 2016
Onde habito?
Moro numa casa onde os muros são parciais. Há um trecho imenso sem muros e alguns muros antigos e outros mais recentes construídos na tentativa de minimizar a situação porosa de uma habitação sem muros. Mas na minha casa há portas e janelas. E elas não ficam sempre abertas. São abertas e fechadas várias vezes ao dia, num jogo infinito de uma casa quase sem muros. Subo no telhado, espio os arredores da casa. A casa vazia é um perigo. As armas da casa são meus olhos. E posso até furá-los nos espinhos que abundam na mata que rodeia a minha casa. Mas pela mata passo como flecha; nem que fure meus olhos. E assim vamos passando desta para uma melhor, ou não. Onde eu moro se chama sertão, meu corpo. Corpo aberto, corpo fechado. Sujeito marcado no limite de sua impossibilidade.
Thursday, March 10, 2016
1950: a década que mudou o Brasil.
Meus pais passaram 20 anos (1960-1980) para ascender a posições de classe média urbana assalariada sem patrimônio, nem ativos financeiros. 20 anos de investimento em capital educacional. Meu pai vindo de uma família de pequenos agricultores. Minha mãe de uma família proletária urbana. Minha avó paterna era dona de casa e agricultora sem estudos. Minha avó materna foi empregada doméstica, era dona de casa e agricultora sem estudos. Meu avô paterno era capataz, trabalhando para grandes proprietários rurais e no tempo vago na própria roça. Meu avô materno era técnico de contabilidade, proletário urbano. Confesso que considero falacioso demais dizer que se pode virar classe média num passe de mágica pelo acesso direto e simples a bens de consumo descartáveis. Essa é a maior mentira contada pelos governos da Nova República, principalmente, da Dilma, que insistiu demais no marketing da "nova classe média". Não é à toa que a depressão está avançando no país em larga escala. Sonhos alimentados e despedaçados por todo os lados, infelizmente. Os governos vendem fantasias de grupo e agora colhem tempestades. Essa é a base sociológica da ascensão do que chamam de "nova direita". Desta, estou bem longe, contrariando as estatísticas. Apenas uma hipótese de leitura que compartilho com vocês.
Wednesday, January 13, 2016
Mentalidade no crime
Algo que me assombra e que estou tentando transformar em objeto de conhecimento: as mentalidades nos mundos do crime são incrivelmente conservadoras e convergentes com os quadros mentais dominantes, só que em negativo, uma negação que não nega, uma negação que afirma o dominante. Descoberta terrível. O Estado é o crime e ao produzir o crime, produz a mentalidade criminosa com seu corolário. Há uma oposição complementar entre a mentalidade dominante que possui eficácia em neutralizar-se como categoria do crime e a mentalidade dominada que se faz dominante pela projeção imaginária, à margem da lei neutralizadora, à margem da mediação que neutraliza o potencial ofensivo da ação criminosa desconhecida como tal, que, por estar à margem, ocupa o centro da engrenagem toda.
Tuesday, January 12, 2016
A realidade do trabalho
Para certos tipos de trabalho, trabalhar menos de 12 horas por dia é uma merda. Não dá certo. Limita. E também não dá para enquadrar com esquemas quadrados de bater ponto, faz é limitar a produtividade. Por exemplo, segunda e terça, ontem e hoje, trabalhei no campus de 8 da matina às 8 da noite. Quando estava de saída, agorinha, ainda não saí, chega pelo correio um livro fascinante que esperava há dois meses. Resultado? Estou saindo correndo daqui do trampo para chegar em casa e virar a noite lendo, né? É claro! Significa que vou dormir amanhã de manhã e só venho trabalhar à tarde e à noite. Aí alguém passa na minha sala amanhã de manhã e comenta: nem veio trabalhar! Estupidez, né? Cada trabalho possui seu estilo, seu modo de ser. O nosso é assim. Menos de 60 horas por semana é raro. Muito raro. Nos últimos 15 anos não lembro de ter trabalhado menos do que isso por semana.
Saturday, January 02, 2016
Já muito velho
E um dos narradores é um homem já muito velho. Corpo corrompido. Vida truncada, o que não o impede de adoçar com mel a ponta de uma chupeta que o mantém entretido. Mas é apenas um dos muitos narradores.
No início, era o crime, a loucura e a morte. Tudo começava na prisão. Tudo terminava na profunda cova. Não sem antes atravessar o mar Cáspio do desejo. Não havia sequer podido estabelecer a distinção entre o sufocante e o refrescante. A prisão era o que lhe antecedia. Ela o fundava como se riscasse um piso de mármore depositado em estado quase bruto na profundeza de uma enseada. Ele podia entrar e sair dela sem pedir autorização a ninguém. Tudo começava nessa prisão. Havia baratas por todo lado. Algumas reputadas à morte. Outras, nem tanto. O comércio era farto. Sem limites morais, o mercado das megeras. Não se nasce livre, teria escrito o filósofo na sua agonia contra o próprio filósofo. Não estava destinado a escrever. Era-lhe vedado. Sobrava-lhe a atitude esnobe do bom leitor.
Em seus primeiros dias, a duração da pequena pessoa resvalava de uma fratura óssea. Era a mão que apalpava o osso quebrado, a dor continuada de um parto infinito, transmudado numa dívida impagável. Apenas o sacrifício aplacava tamanho sofrimento.
Sunday, December 13, 2015
Escrever e escrever sempre
Não escrevo porque gosto de escrever. Escrevo pelo mesmo motivo que as pessoas vão à igreja, para fazer de conta que a morte não nos espreita. Não há novidade nisso, apenas reverberando a ideia segundo a qual a escrita é uma forma de relação com a morte, o crime e a loucura. O que não significa aderir à morte, ao crime e à loucura, mas, ao contrário, ganhar distância disso.
Monday, December 07, 2015
Sentimentos aos 42
Sinto que as linguagens que aprendi para lidar com as relações humanas não me servem mais, são insuficientes e até medíocres. Aliás, as próprias formas de experiência a que tais linguagens aprendidas se relacionavam também não me parecem mais me fornecer sentidos e valores orientadores do que está por vir. Preciso aprender novas sensibilidades, criar novas perspectivas, novas experimentações. Afinal, ainda estou vivo, e a vida é excessiva. Recuso depreciar a vida. Não sei mais onde estou. A sensação de que meu corpo está atravessado de ponta a ponta por traços que me aprisionam, tornando obsidiante a topologia de meu desejo, rateando-o, cristalizando-o no espaço fechado do Eu. Essa prisão da memória e da metafísica da dor, contra o que resta-me por vezes apenas o estupor da narcose, não pode vencer o fundamento do Ser do devir, o amor.
Tuesday, September 22, 2015
dificuldade em normatizar
Tenho um defeito horrível, costumo responder ao que não me foi perguntado. Cala-te boca! Que coisa mais descontrolada é o sujeito se por a falar algo para alguém quando não foi sequer interpelado. Preciso me emendar, espelho, espelho meu. Estou precisando de um estágio em algum monastério onde se faça votos de silêncio. Serve na universidade, será? Estou aqui sentado, bem comportadinho, desde 8 da manhã, é quase 8 da noite, finalizando um artigo para publicação. Se não pudesse falar nenhuma merdinha no FB, aí seria Regime Disciplinar Diferenciado, uma desumanidade, né? Mas vamos normatizar, vamos normatizar o texto acadêmico, pense que acho mais fácil escrever o artigo do que normatizá-lo. Cada doido com sua dificuldade.
Saturday, September 12, 2015
Lembranças do dia 11
No dia 11 de setembro de 2001, estava às 7 horas da matina, caminhando pela Voluntários da Pátria, no Rio, em direção ao metrô. Morava ali na rua da Passagem. E ao passar pelo boteco onde à noite, na volta do trabalho, costumava tomar uma gelada, vejo uma pequena multidão amontoada defronte ao aparelho de TV. Espichei o pescoço e depois do que vi, aquelas infinitas imagens dos aviões atingindo em cheio o WTC, perplexo, fui trabalhar assim mesmo, mas chegando lá, ninguém estava trabalhando, todo mundo estava paralisado e de boca aberta, olhando uns para os outros em busca de algum lampejo de compreensão, talvez, em busca do aval de que a percepção coletiva do delírio real era algo verossímil, algo digno de atenção. O mais esdrúxulo foi que em meio a tudo isso, um colega norte-americano, que trabalhava com a gente, teve um ataque de histeria e começou a pular e a gritar ao mesmo tempo, misturando inglês com palavrões em português, dizendo: "yankees, tomaram no cu, fuck the yankees!". Ele era um radical de esquerda, exilado, perseguido pela CIA. Comemorava o ataque contra seu próprio país. Foi tão estranho. Mas tornou o quadro geral de perplexidade e silêncio numa cena surrealista. Tomara que ele não fique com raiva de mim ao ler esta postagem. É só um relato. Enfim, o mundo nunca mais foi o mesmo. Mas, afinal, nunca tinha sido o mesmo mesmo, né? Tant pire!
Beber muito faz bem para a saúde.
Pessoal, não consigo parar de beber, bebo de 2 a 3 litros, todo santo dia. E foi minha mãe quem me colocou nesse caminho. Foi um dos melhores conselhos de mãe para eu levar uma vida saudável.
Sobre a ironia
Quando minha filha tinha de 7 para 10 anos, eu ficava fazendo, de surpresa, várias ironias. No início, ela ficava com uma cara atônita, de quem não tinha entendido nada ou tentando entender de modo literal algo que não foi feito para ser literal. Depois desses exercícios, eu lhe dizia: isso é uma ironia! Um dia ela me pregou uma peça, fez uma ironia muito fina e eu não entendi, então, ela me disse: pai, isso é uma ironia! Fiquei aliviado. Minha filha tinha aprendido a ironizar. Hoje ela ironiza muito melhor do que eu. Graças a Deus, se Ele existisse!
Friday, September 11, 2015
Um tema delicado
Quando eu era estudante de ciências sociais, meu orientador convidada a gente para ir atuar no trabalho de campo dele, como assistentes de pesquisa. Eu aceitava na hora, sem titubear. Foi assim que aprendi com alguém muito experiente como fazer uso, na prática, de técnicas de investigação, adquirindo habilidades e competências que garantiram as bases da minha formação profissional até hoje. Ele me ensinou a fazer grupos focais e grupos de discussão. Ao longo da minha trajetória profissional, já recebi vários convites para consultorias de pesquisa onde o uso dessas habilidades foi decisivo para ser convidado para um trabalho remunerado. Se meu orientador não estivesse numa universidade pública, ele teria que ter cobrado 2.500 de mim, no mínimo, para me ensinar com exclusividade e em tempo real de uso a técnica citada. Moral da história: você, estudante, quando convidado para participar de uma ação de pesquisa no ambiente de aprendizagem da universidade, poderia pensar menos como se fosse um "profissional já formado com alta cotação de mercado" e entender que há remuneração que não seja pelo uso do dinheiro, por favor. Quem não perceber que há remuneração na transmissão de capital humano nessas trocas, é melhor ir participar do Big Brother. Na universidade pública, somos remunerados para obter uma formação e isso demanda um alto investimento público. Nada é de graça. Bora parar com essa história de achar que acompanhar o professor numa atividade de pesquisa dele é ser explorado pelo professor. Nem sempre se trata de exploração, trata-se de formação, de transmissão de capital científico.
Thursday, September 10, 2015
Procrastinador
Rapaz, não existe um sujeito mais procrastinador do que eu, mas não existe é de jeito nenhum. Estou para encontrar. Estou aqui finalizando a revisão de um artigo que eu escrevi em 2001, há 14 anos, que esqueci de enviar para publicação à época. Felizmente, o artigo não envelheceu, é um ensaio teórico, usando referências que vão sempre ser úteis, tive apenas que revisar suplementando com literatura dos últimos anos. Tem doido pra tudo. O que uma greve não faz no juízo de alguém!
Pelas ruas, andanças.
Estava com fome, aqui no Bairro, e fiquei querendo ir lá no bar. Peguei o ônibus, desci na Escola, fui pela praça da Gentilândia e desci pela rua. Só que na hora que se desce, a gente começa a ser filmado. A galera vem atrás mesmo. Aí, é acelerar o passo pra chegar logo. Ao chegar no bar, o dono me diz que está fechando pois está tendo uma onda de assalto naquele momento, que está fora do controle, e que deram o toque pra fechar, peço para ele pedir um táxi para mim e volto. A resistência é a resistência.
Fazer sentido.
Sem TV, há dez anos, sem automóvel particular, há 5 anos, sem celular, há 1 ano, estarei em breve, sem internet. A vida começa a fazer sentido.
Entre estoicismo e hedonismo.
Existem duas alternativas. A estoica que diz: ao final do dia, lembre-se que poderia ser o último e então isso suscita a avaliação, o exame de consciência. A hedonista que diz: ao final do dia, lembre-se do que foi o mais intensivo e melhor para iluminar o dia seguinte. Façam suas escolhas!
A relação com a imprensa
Tem se tornado cada vez mais comum a produção de agências de notícias e comunicação telefonar, dizendo: Nas últimas duas semanas, já tentei falar com 6 profissionais antes de você, nenhum poderá vir no evento que começa daqui a 27 minutos, o senhor é nosso convidado especial, chega em quanto tempo? Legal, né? Fico me sentindo super valorizado como profissional. rsrs Pessoal, vcs precisam aprender a explorar economicamente nossa vaidade! Os vaidosos ficamos bestas e facinhos. Fica a dica, produção. (o fato é real, o texto é uma brincadeira).
Sunday, September 06, 2015
Da recusa
Acho engraçado notar que para muitas pessoas recusar a autoridade é algo que envolve um tremendo sentimento de culpa. Pois, de minha parte, eu me divirto na recusa da autoridade, é uma atividade de riso, a recusa. Do mesmo jeito que não sinto nenhuma culpa em recusar a autoridade, não sinto nenhuma necessidade de vida eterna, fico é feliz com a certeza de que a vida possui um final, que a morte é um alívio ao sofrimento de um corpo que envelhece. Não tenho necessidade de Deus. Apenas de arte, ciência e amor. Tudo entre mortais. O desejo de imortalidade, projetado em Deus, é uma arrogância humana. Adoro a finitude! É o que possibilita um desejo secular.
Devir-criança com as crianças
Quando vejo meus amigos e minhas amigas com suas crianças, no seu devir-criança com suas crianças, ao vivo e em fotografias por aqui, eu me ponho todo sentimental, de verdade, fico emocionado, pois sei que a mensagem invisível que nos liga é: se há crianças, há esperança, pois há transformação. Por isso, desejamos as crianças do mundo inteiro vivas, sorridentes, brincalhonas, sabidas, serelepes, para que o mundo se transforme para melhor, para ter sabor, saber e alegria. As crianças são a salvação. Esqueçam suas igrejas, seus cargos, seus partidos, seus estados, seus bens de capital, esqueçam tudo e escutem as crianças, vamos aprender com as crianças qual o caminho, nós, adultos, temos que voltar a ser crianças, se quisermos desfazer esse nó cego que demos no mundo.
Um dia de sábado!
Sábado de boas! Lendo, escrevendo, ouvindo Belchior, Ednardo e Fagner. Feliz com as conquistas dos amigos, alunos, orientandos, virando colegas, existe alegria maior que acompanhar um orientando seu se tornar um colega seu? É uma maravilha! Oxalá, meu pai. Essas novas gerações estão vindo com tudo, isso me deixa muito otimista. Todo educador é otimista, né? Seria uma contradição performativa ser um educador pessimista. Quem quiser ser pessimista, seja um bode velho, um professor, um hierarquizador, mas vai indo que eu não vou. O bom é surfar na transversalidade dos espaços, né, Pablo? Sigamos nos multiplicando, pois conhecer é multiplicar, como fala o prof. Eduardo.
Manias de sebo
Estou na livraria. Num sebo. O olho bate diretamente sobre a lombada de uma obra muito rara. Disfarço. Sem imediatismo. Mudo a atenção do olhar para outro livro e demonstro muito interesse no livro que não tenho nenhum interesse. Pergunto o preço. Fico decepcionado. É muito caro. Peço desconto no livro que não vou levar. Não fico satisfeito com o desconto. Faço um cara de frustração. Faço que vou embora. Como quem não quer nada, pego um livro bem baratinho e o outro que eu realmente desejo. Levo para o livreiro, como quem diz, vou levar esses aqui para não ficar tão frustrado por não poder comprar o outro. Isso apenas usando comunicação não verbal. Quando ele fala o preço do livro que eu realmente quero, falo: esse também é caro, assim? Estou sem sorte. Aí ele me dá um desconto super generoso, pois quer agradar o cliente para retornar e comprar o livro que olhei antes. Acabo levando o livro que eu muito desejava por um preço super camarada. Manias de sebo.
A morte e os corpos capitalizados
Os corpos estão adicionados ao cansaço desde muito tempo estertorando até mesmo frente à morte! As coisas estão transformando em capitalização até mesmo a morte!
Síria
Meu avô materno contava para minha mãe como o avô dele chegou da Síria para morar nos sertões do Ceará. Era comerciante de quinquilharias nos altos das serras e nos planaltos. Esse sangue sírio me faz tremer nas bases, um tremor que não sei explicar de onde vem e para onde vai. Me deu vontade de voltar para Damasco. Uma coisa estranha. Uma loucura.
Meia-noite
Quando dá meia-noite, eu fico eriçado! Penso muito com o corpo, tateio conexões com o amanhã. E depois de tudo, tomo uma cachaça para desopilar.
Minoritários e em fuga.
Somos poucos mas somos muitos. Uns poucos multiplicados na fragmentação, não dá em nada, mas é o que somos sem estados de ser, nesse devir-minoritário, cuja mensagem é impossível, tal qual o real, e não combina com esses lugares do amanhecer. A condição humana é a fuga, uma fuga insana, pois o insano é o fundamento do humano. E a gente vai seguindo, buscando o excesso de sentido, a negação da falta.
A genealogia do sertão
Meu avô paterno era pernambucano, dos sertões de Pernambuco, entre Floresta e Belém do São Francisco. Ele veio para Jardim, no sul do Ceará, na fronteira, depois desceu para Missão Velha e em Missão Nova, distrito de Missão Velha, nasceu meu pai. Meu avô se chamava Manoel Cassiano de Sá e meu pai se chama Filadelfo de Sá. Eu me chamo Leonardo de Sá. Com eles, eu aprendi: a selar uma montaria, a cortar cana no eito, a fazer uma queimada corretamente, a fazer a roça, limpar, plantar, cuidar, colher, armazenar, que a medida das coisas são em braças e alqueires e em léguas, a correr dentro do mato, a mijar na ferida quando não se tem solução melhor, a cuidar das próprias perebas, a tirar um bicho de pé com uma agulha, a subir em árvores, a passar da copa de um pé de laranjeira para outra copa sem cair, a correr na vaquejada, a dançar forró, a tomar cachaça, a usar corretamente uma peixeira para trabalhar ou se proteger, a usar armas de fogo, a atirar, a caçar, a tratar a caça, a dar bom dia para todo cidadão, a ser gentil com as pessoas amigas e com forasteiros também, a observar se há tocaia nas curvas, a perceber quando a montaria está avisando que há cobra ou algum perigo na estrada escura pelo comportamento do animal, a matar um bode e esfolá-lo, a negociar na feira, a ser honesto, trabalhador, honrar a família e não ser frouxo, não temer nenhum bicho vivente, pois, se é vivente, pode morrer também, pois cada qual tem sua hora e não é preciso temer a hora de morrer. Além de estudar muito, ler, escrever, gostar de poesia, chamar as pessoas amigas de poetas e filosofar. São algumas coisas que aprendi com meu avô Manoel Cassiano de Sá, que Deus o tenha, e meu pai, Filadelfo Sá, que continua me ensinando muitas outras coisas, graças a Deus. (Isto não é um texto ficcional, é um autorretrato etnográfico). Os tempos mudaram muito. Aos 12 anos de idade, lembro que ganhei um punhal com um cabo estilizado, punhal comprado no mercado de Juazeiro do Norte, eu andava com ele no cós da calça, morto de orgulhoso, tinha virado homem, e aí tinha que começar a beber, fumar e transar também, entende? E saber montar besta de vaquejada, pois correr numa besta de vaquejada não é para qualquer um. Desejar ganhar um mangalarga marchador era um sonho! Meu primo, que Deus o tenha, me emprestava o dele para eu cavalgar de vez em quando. É um cavalo altíssimo e forte, uma potência. Um galope incrível. Mas a besta de vaquejada é mais ágil, corre com o vento. A maior emoção de todas é singrar uma estrada vicinal a mais de mil, agarrado na crina do animal. É como voar baixo. Aos 13 ganhei uma espingarda, uma socadeira, super bem feita numa das centenas de fabriquetas de armeiros do sertão, e aos 14 ganhei outra espingarda, uma automática, de repetição. Aprendi a atirar de revólver, de pistola e também de doze. Era assim que os meninos eram socializados nos sertões do Ceará, até pouquíssimo tempo atrás, será que deixaram de sê-lo? Será? Ao mesmo tempo, ensinavam para a gente que tinha que ser doutor. Tinha que estudar muito para ser doutor. Era assim. Não estou julgando, apenas relatando como era, relatando as origens. A gente lia: Jorge Amado, José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, João Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, Machado de Assis, José de Alencar, Antonio Bezerra, Oliveira Paiva, Jáder de Carvalho, Leonardo Mota, Capistrano de Abreu, além de Homero, Hesíodo, Platão, Aristóteles, Plutarco, Virgílio, Petrônio, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Dante, Petrarca e Cervantes, entre outros, era o que se lia nos sertões do Ceará, quando era rapazola. Era o que a gente tinha que ler para virar homem. Sobre cabarés, não vou falar nada! Para se fazer antropologia, é preciso fazer a reflexão sobre qual a concepção de pessoa na qual o antropólogo foi endoculturado. Não me tornei pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência à toa.
A cobra mais humana que a gente
Cobra é mais humana do que gente. A cobra, quando sente a presença da gente, sai fora, para deixar o caminho livre, cobra de boa, ela só dá o bote quando se assusta, quando é pega desprevenida, tipo a gente quase pisando na siesta dela. Cobra é um bicho muito humano. Humano não é que nem cobra, é pior, é muito pior.
Interno contra a internação
Fui interno de uma instituição que exigia que na entrada, a caminho das celas coletivas, a gente levantasse as pernas das calças para atestar que estávamos usando meias brancas, totalmente brancas, sem nenhum detalhe, nem marca. Quem estivesse sem as meias brancas regulamentares, era barrado e direcionado para uma sala de triagem para encaminhamento de uma punição. Na minha revolta solitária, eu ia com uma meia branca de listras, era barrado, mas tinha um par de meias brancas, de tipo regulamentar, na mochila, eu as pegava e as vestia pelo avesso. O bedel dizia: está pelo avesso. Eu respondia: não há nada no regulamento sobre isso. E entrava.
O robô
Muito frequentemente, muito recorrentemente, sou barrado nesses testes para identificar se somos nós mesmos ou um robô. É uma experiência angustiante que implode com minha identidade pessoal. Me deixa frenético, dando looping. De 10 vezes, em 8 tentativas a máquina me reprova, identificando-me como máquina virtual. Por que será?
Briga de faca
Nos bares onde ando, desde rapazote, bares atolados de homens tristonhos, uns mansos, outros de temperamento violento, para, de repente, morrer um, de morte matada, é bem facinho. Já vi muita briga de faca, tenho horror a brigas de faca, saio correndo sem nenhum receio de ser alcunhado de frouxo. Prefiro bala do que faca. Já levei alguns tiros, dei alguns outros, mas, que eu me lembre, ninguém morreu. Esse sertão impossível que me habita e não sai de mim, não sai. Nem sei mais o que fazer com meu desmantelo. A aflição é do vivente, afinal. Há tempos não ando aos galopes, depois que inventaram essas malditas duas rodas motorizadas.
Morrer de sertão
Se ainda fosse capaz de esticar pelo cão da memória, com a habilidade esquecida com que outrora manipulava o cão da arma, da arma que ganhei de meu pai, comprada no mercado de Juazeiro do Norte, parece um tempo não mais de gentes, parece ter virado sonho esse passado tão recente, mas, mesmo assim, se ainda fosse capaz de puxar pelo fio de um dedo de prosa, palavra molhada, no alpendre da casa da vovó, primos e tios batendo nos joelhos uns dos outros, rindo-se à toa da pouca valia dos títulos, falando de bicho vivente para bicho vivente, ainda poderia secar um pranto que não é mais meu, uma dor vazia desde que a enterrei na cova funda que cavamos para colocar uns sobre os outros os cadáveres de uma linhagem sertaneja, mas mataram as bichinhas tudo, as de arribação, pra mói de comer e também por tanta maldade contida no peito. Os desgraçados, nós, nós desgraçados. Hei de morrer de sertão.
Pegando parelha
Há muito tempo, quando a gente ainda andava em armas, um punhal na cinta e um revólver no coldre, caminhando pela cidade, estava numa parelha, meu primo num mangalarga marchador, um animal enorme, o homem sobre o cavalo, ficavam da altura das copas das árvores, era conversar, a partir do chão, olhando para riba, e eu numa égua pé-duro de vaquejada, chocalho na sela, precisava nem de esporas, a bichinha voava ao som do guizo, era o apito, e essa certa vez dessa parelha, a gente pegando parelha, ela desembestou comigo em riba, larguei as mãos dos cabrestos, a égua me chamou para me agarrar nas crinas dela, avisou com uma bufada de lado, com um olhão enorme de assombro, olho no olho, dizendo para eu me preparar, foi a corrida mais maravilhosa que fiz em toda a minha vida, a gente voava, a égua e eu, um corpo colado no outro, nas curvas, me pregava no pescoção dela, surfando, não vi nem sinal de mangalarga marchador por trás da poeira de piçarra; quando então passei com o vento na frente do alpendre da casa da vovó. Quando sonho com a boa morte, sonho nesse galope, fecho os olhos e abro os braços e desapareço nesse galope infinito, desfazendo-me da agonia do bicho vivente, nessa danação sem fim e sem sentido, nessa aporrinhação que é viver domesticado.
Entre armas e livros
Na minha casa, meu pai tinha um revólver para viajar, para pegar a estrada, era o costume, no tempo em que não se usava cinto de segurança, ninguém nem sabia para que servia o cinto, um tempo tosco, rude. Ocorre que minha mãe tinha cinco armas e era uma exímia atiradora. Gostava de ir com ela para o stand de tiro, até de escopeta, ela atirava. Ela não gosta nem de lembrar, vai ralhar comigo por estar escrevendo essa história, virou budista. Era tanta arma. Quanta ignorância era a vida nesse tempo, um tempo passado de tão ontem. Entre os livros e as armas, pois havia muitos livros na minha casa, fiquei com os livros. A vida pacífica é a vida do cidadão de bem. Na minha casa, não temos mais armas. Depusemos as armas, estamos numa nova era, aquilo tudo, aquela guerra toda, deixou de ser, virou faísca de memória, graças a Deus. A gente se desarmou, e a vida ficou mais pressurosa na alegria da conversa, do parlamento na civilidade, os sertões viraram palavras, nomes que não pespegam mais, apenas soletram, cultivam os sons nos corpos, o que há de espraiado no espaço imemorial, desfeito de orgulho besta, enredados na espiritualidade da vida serena, tranquila, sorridente.
Abismos, me abismo.
Uma profundidade infinita. Uma abissal num desfiladeiro de seis mil metros ao sem fim. Uma queda para o alto. Uma escuridão medonha. O corpo se faz abissopelágico no mais obscuro assombro. E mesmo assim, não morre. Contorna o paredão plutônico e escala desde o mais profundo sem ar, pedra e mão, mão e pedra, até atingir a superfície, onde os pulmões se abrem novamente pela primeira vez.
Saturday, September 05, 2015
Morte na Praça da Sé
Gostaria de lamentar, mas também elogiar o morador de rua sem nome, sem nada, que se atracou com o assaltante e morreu no lugar da vítima na Praça da Sé, salvando a menina que estava sob a mira do maluco. Cabra macho! Que descanse em paz. Morreu como homem. Se eu estiver dizendo alguma besteira muito grande, podem dizer, é que fui educado nos sertões. Mas tento não ser dogmático. Estou apenas expressando um sentimento íntimo, não estou defendendo nada. O nome dele era Francisco Erasmo Rodrigues de Lima e ele tinha 61 anos. O melhor é que nada disso tivesse acontecido. Só espero que ele não tenha sido morto por tiros da PM, mas parece que não foi, foi o próprio assaltante quem atirou.
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