Saturday, February 11, 2017
De Antonio Elias para LS 1
Leonardo Sá. Querido amigo Antônio Elias, nesta segunda mais uma vez, apenas lembro do vaticínio do poeta: "E já não enfrentamos a morte, de tanto trazê-la conosco". Adoraria que ao longo da semana o amigo abrisse uma exceção para que pudéssemos tomar uma meiota juntos lá para as bandas do clube Santa Cruz. Conceda-me um território mínimo acuado, por favor. Abraço e mais esquecimento de tudo aquilo que circula e nos exige negociar.
Antonio Elias. Meu caro Leonardo Sá, a despeito da eterna distância que parece jamais nos dar uma trégua, fazendo em nós permanecer uma força de um quase irresistível dilaceramento, tenho-lhe na mais alta das contas, como velho camarada que guarda os restos e os restos esquecidos de minha mais conspícua inutilidade, de minha irrisória dor, há muito abandonada até de mim mesmo. Isso de que não mais sabemos, se acaso tivéssemos, um dia, outrora já sabido. Podes perceber que até minha escrita atualmente cheira a creolina, prisioneiro que estou da imutabilidade desse presídio sem paredes, pois meus olhos já os arranquei, desprovendo-me da fortaleza do recinto que cremos habitar, como se estivéssemos em sua solidez, de toda, inexistente, um nada a nos proteger. Meu maior medo, sim, ainda me acometem certos pudores, certas afecções empáticas, uma lembrança de minha ex-humanidade, um grito, é que o amigo, ao encontrar-me, como lhe apetece, com seu jeito acolhedor de manter amigos à distância, que tão bem conheço, é, simplesmente, o meu maior medo, como dizia, que você se depare apenas com minha "máscara mortuária cheia de cicatrizes", e que seja tremendo o seu asco. Privo-me de sua companhia para não feri-lo com meu bem-querer, essa bela lembrança, incapaz que estou de estar simplesmente agradável como presença, fantasma que estou.
Leonardo Sá. Segunda-feira não está sendo nada fácil. Estou em casa, fazendo uma revisão de um texto de 200 páginas para duas bancas amanhã, tendo que acompanhar a situação política sem parar de trabalhar. E o pacote da internet via celular que estou usando está acabando, vou ficar sem internet aqui no meu interior. E as ansiedades alheias trepidam e exigem respostas. Já sei, vou tomar uma cerveja para ficar pensando melhor, antes do almoço, que é muito bom; a a saúde mental do cidadão brasileiro agradece.
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