Monday, August 27, 2012

2 de maio pelo FB

Amigos e Amigas, Eu estava dormindo um sonho leve. Fui me deitar a uma da matina, depois de escutar Psycho Killer pela enésima vez na vida, Byrne batendo o pé, como um punk caipira, marcando a estaca para um novo som, para uma nova mobilidade vital, um novo compasso, e isso lá pelos idos de 1984. Eu era apenas um garoto prestes a completar meus 12 anos que estava aprendendo a ouvir música boa com um primo que trabalhava na rádio universitária da UFC e morava na minha casa, o querido Pedro, de saudosa memória. E também estava começando a desconfiar que as imagens da população brasileira que pelas tantas estava se organizando pelas Diretas Já iam ter um impacto subjetivo muito mais duradouro na minha existência do que aquelas outras, midiáticas, que o Fantástico vinculava ao mostrar a semana do presidente, quase sempre veiculando um presidente militar andando a cavalo, um sujeito duro e medíocre chamado Figueiredo, que dizia ter mais sentimento pelo animal de montaria no Exército do que pela sua Senhora, a primeira dama do Brasil, e isso ainda estávamos sob o cerco do terrível pesadelo que foi o regime militar para a vida da nação. Éramos obrigados a ter medo. O chicote do último dos ditadores militares brandinho contra o cavalo dava medo. Medo de levar chicotadas. Medo de apanhar. Medo de ser preso e torturado. Medo de fazer oposição ao militares. Mas, voltando ao presente, deixando essa história de sentir medo para trás, posso-lhes dizer que, como o sono estava leve, e o pensamento a mil, eu acordei e cá estou insone, sentindo-me impelido a lhes escrever algo sobre o que eu vi enquanto sonhava meio mergulhado na escala do onírico, meio agitado por uma vigília enfraquecida que guarda e embala o sono dos inquietos. Vou logo lhes adiantando que não tive nenhuma visão mística, nem muito menos tenho a lhes comunicar algo que pudesse ser considerado um elemento perturbador para a vida de vocês e de ninguém. Não tive pesadelos. Não acordei sobressaltado. Nada de terrível andou povoando minha imaginação. Portanto, não estou me levantando para lhes escrever como o indivíduo perturbado que sem ar precisa puxar fumaça para os pulmões para se sentir de algum modo ainda vivo. Parei de fumar faz anos. Então, não se preocupem que não venho lhes admoestar com maluquices de um insone insano em busca de nicotina. Muito pelo contrário. Estava tão lúcido na minha vigília de meia-tigela, pouco acomodado no meu debulhado e combalido sono que não ousaria lhes contar, mas já contando, que o que fiz na verdade foi acordar mais cedo do que o habitual, algo que acontece quando estou ansioso para começar logo a trabalhar, a ler, a escrever e a burilar as ideias para algum benfazejo uso que delas se possa fazer na vida de professor e pesquisador, ou seja, o que eu poderia chamar de ganha pão. O fato é que estou acordado e bem acordado. Abri os olhos, consultei com leveza o mostrador do despertador e pensei: são 4 horas da manhã, o primeiro de maio foi ontem e eu não escrevi nada sobre o primeiro de maio. Preciso escrever algo sobre isso. Estava dormindo, envolto naquele estranho, mas profícuo estado mental em que a névoa onírica parece se dissipar a favor da clareza das ideias, e assim, por um segundo, achamos que descobrimos a pólvora, mas após tomar consciência do que realmente se passa, descobrimos que ainda está tudo por ser feito, que o pensamento é uma tarefa árdua, é uma labuta, e não uma fatalidade generosa do psiquismo do sonhador de sonhos. O pensamento que martelava meu sono era o seguinte: na cidade de Fortaleza, no Estado do Ceará, no Brasil, no mundo, se é que não soa grandiloquente se expressar assim, o desafio que se nos coloca é o desafio da dissidência. Nesses tempos sombrios, onde o campo do poder investe contra quaisquer práticas de liberdade, não para apenas oprimi-las, mas, sobretudo, para comê-las, capturá-las, colocá-las sob o jugo de uma dívida infinita para com o poder do Estado, precisamos aprender a ousar mais no modo como nos desviamos, fugimos e enfrentamos esses agenciamentos de poder que nos querem de joelhos, mesmo que em alguns casos, estejamos bem nutridos, bem vestidos, o que, certamente, não é a condição da maioria. Mas a necessidade da maioria não seria suficiente para sustentarmos nosso argumento em defesa de nossas liberdades, uma vez que o campo do poder pode gerar taxas de crescimento daqueles a quem nos referimos como desnutridos e descamisados. O progresso material da maioria, mesmo que tímido, ilusório, e realizado à custa do dispêndio da riqueza coletiva, tem se mostrado um dos recursos de poder mais potentes da atualidade. Neste sentido, desconfio de que seja preciso centrar nossas reflexões, nossas práticas de liberdade, em torno da própria questão da liberdade e qual a relação dela com nosso fazer político. Cá estamos, em tempos sombrios, sendo instados a nos defender da vigilância, do controle e das ameaças impingidas por milhares de pequenas mãos que fazem o trabalho de enquadramento da dominação social. As práticas de controle incidem, fundamentalmente, sobre nossas formas de desejar, de falar, atuam sobre e com nossas práticas de expressividade, então, questionar o valor e solapar a confiança em tudo aquilo que reforça essas práticas de controle sobre nós é um desafio político que temos em comum. Ou seja, não podemos aceitar o pensamento único, que é uma forma de narcotização do pensamento, consequentemente de negação do pensamento, e muito menos, devemos aceitar a inglória e autodepreciativa posição do sujeito acabrunhado, silenciado, do sujeito omisso, do sujeito assujeitado pelo campo do poder, seja pelo outro, seja por si próprio. Ontem, eu fui à inauguração do Plebeu Gabinete de Leitura, na rua Floriano Peixoto, nos altos do edifício que sedia a Associação Cearense de Imprensa, perto da Praça do Ferreira. Professora Adelaide e Vandinha recebendo a todos/as com carinho e atenção, pessoas circulando entre livros, entre amigos e amigas, mas, principalmente, entre camaradas. Lembrei que o Alexandre Barbalho, enquanto eu falava de desunião como tarefa política, na recente aula pública da qual participei na Praia de Iracema, a convite do movimento Quem dera ser um peixe, com Peixuxa Acquario e muitos amigos/as, cantou a pedra de longe, baixinho, no meu pé do ouvido: o desentendimento, da Jacques Rancière. Adorei o sopro, pois, afinal, na política o que se faz é o que se diz, então, propagar a desunião, o desentendimento, é lutar contra quaisquer processos de unificação que, em nome de centros de poder, matam a criatividade e a liberdade de laços de resistência contra os centros de poder. Algo que o professor Ricardo Salmito vem insistindo, quando nos alerta para o tipo de desqualificação que militâncias remuneradas fazem de quem quer que seja que use do humor e da ironia, essas figuras irretocáveis do pensamento crítico. Julio Lira, quando estivemos conversando nas ciências sociais, por ocasião de debate sobre o movimento Quem dera ser um peixe, com Andréa Saraiva, problematizou, enquanto fazíamos uma boquinha, após o evento, essa questão do medo, de como estava percebendo pessoas dizerem de um modo ou de outro, mas, principalmente, dizerem com medo que estão com medo de criticar o governo, que não podem aparecer publicamente criticando o governo, que podem até ajudar por trás, mas não em público. E isso estamos falando de pessoas de camadas médias, intelectuais, pessoas cuja principal competência é falar em público. Julio Lira e eu ficamos nos perguntando sobre o que se passa nesse contexto. E qual não foi minha surpresa, quando ontem, conversando lá no Plebeu com Renato Roseno, a conversa acabou também resvalando sobre essa questão da relação entre o medo e a cidade. Seria algo que precisaríamos problematizar, afinal, o medo é uma poderosa ferramenta de despolitização da política, e o medo de perder o emprego, o medo de desagradar pessoas consideradas poderosas, o medo de dizer e se dizer, posicionando-se diante do destino político de pensar e transformar nossa vida comum, de imprimir novos rumos à vida na cidade, entre outras práticas de transformação necessárias para o bem viver, num sentido profundamente histórico e coletivo, sobre o que precisamos pensar juntos. As retaliações para quem ousa questionar estão sempre sendo acionada pelas já referidas pequenas mãos do trabalho de enquadramento, para usar a expressão de Isabelle Stengers. O movimento Quem dera ser um peixe é um caso recente onde essa vigilância misturada com desqualificação de minorias opositores se manifesta num grau de agressividade que nos inquieta, Andrea Saraiva que nos diga, afina, ela está, ao mesmo tempo, militando e refletindo sobre esse processo, como boa intelectual orgânica que é. Aliás, não é de hoje que Enrico Rocha vem provocando na cidade a discussão sobre o lugar das práticas artísticas, estéticas, políticas e nos propondo mergulhar de ponta cabeça nessa problemática da "participação" de intelectuais e artistas na vida da cidade. Ele e Andréa Bardawil estão levantando pela prática formativa uma problematização que nos revela quão grave foi o desinvestimento promovido pelos governos nos processos de formação, e pasmem, no mesmo momento em que se passa a falar de turismo como sendo vocação econômica única para Ceará e, em especial, para Fortaleza. O silêncio da atual gestão municipal sobre isso é um incômodo maior do que a fala desabusada dos secretarios do campo do poder que estão fazendo do governo um balcão de negócios. E para potencializar os negócios e o "progresso" a qualquer custo adotam atitudes para lá de agressivas e violentas contra quaisquer movimentos ecologistas, ambientalistas, e fico pensando o que seria disso tudo se não tivéssemos a experiência de luta de João Alfredo Telles Melo? Em que pé estaríamos? Certamente, sem as ações do mandato do vereador, sem o conhecimento e a capacidade crítica do João para lidar com intricados e obscuros, para não usar termos criminais, segmentos anti-ecológicos, anti-ambientais, que dá direita à esquerda investem ávidos para favorecer especulações variadas e destrutivas, não sei, realmente, o que já não estaria sendo feito. Os segmentos poderosos e destrutivos odeiam o João, João fica na dele, por experiência, e não fica alardeando por aí com que tipo de gente ele tem de se bater como representante político de nossa cidade para tentar barrar a vasta destruição de dunas, mangues, em nome dos negócios e gerando cada vez mais desigualdade. O próprio problema da moradia popular está seguramente imbutido nessa dimensão da luta ecossocialista, mesmo que na prática estejam se comunicando muito pouco politicamente falando. Não sei se Igor Moreira Pinto concordaria com esta minha avaliação, segundo a qual Zeis, moradia popular e outros temas da agenda de luta de atores como o MCP, por exemplo, teriam que passar pela dimensão da cidade enquanto dimensão do ecológico. O próprio MST, o que está nos dizendo sobre essa dimensão ecológica? Outro assunto que me inquieta bastante é essa questão das remoções para a Copa do Mundo. Como é possível que diversos movimentos populares estejam ou em silêncio sobre isso ou então, o que é pior, apoiando abertamente que comunidades consolidadas da história da nossa cidade sejam removidas para a realização de um evento de uma mega-empresa? Este ponto, Manu Kelé, é algo que dói no coração. O conluio de políticos que construiram carreiras nas comunidades, falando em nome das comunidades, e que agora estão abertamente a favor de suas remoções. Isto é uma grave fratura na própria sensibilidade do que já se pôde chamar em algum momento de campo de esquerda. Para finalizar, pelo menos por hora, pois o despertador já vai me avisando de que são seis horas e quinze minutos de quarta-feira e eu preciso começar a revisar uma dissertação para uma banca, gostaria de afirmar a necessidade de que façamos juntos uma reflexão sobre os rumos e os destinos coletivos da nossa cidade. Para quem é de política eleitoreira, e este não é definitivamente o nosso caso, pois se fôssemos eleitoreiros não seríamos o que estamos sendo, pois a fonte de poder, de dinheiro e de "sucesso" passa bem longe de nós, este ano vai ser apenas mais um ano qualquer. E para nós? Esse ano vai ser mais um ano de silêncio, de medo, de letargia? Meu desejo é de que a gente dê uma boa sacudida nisso tudo e que ponhamos nossa imaginação a serviço de nós mesmos, de nossa liberdade, da luta por uma cidade justa, fraterna. Sabemos que muitos optam por colocar sua imaginação (ou falta dela) a serviço do poder, mas não estes que irão nos pautar, nunca foram. Quais são então nossas próprias pautas? Vamos lá continuar esse trabalho de contra-hegemonia? Saudações libertárias!

Baculejo

A foto do repórter fotográfico Kiko Silva, para reportagem do DN sobre ocupação de favela em Fortaleza, chamou-me a atenção na minha leitura crítica dos jornais de hoje (domingo, 29 de abril de 2012) e sobre ela farei uma breve observação. Não farei uma análise glogal da situação da Barra do Ceará, e do Morro São Thiago, não é essa a intenção aqui. Estou pesquisando o material para escrever mais aprofundadamente em outra ocasião. Também não estou querendo fazer uma crítica isolada à ação da PM. Enfim, na análise da imagem fotográfica, o que me surpreende é outra coisa, é, simplesmente, que aqui perto da minha casa, no Meireles, no pólo gastronômico da Varjota, onde há pessoas nos restaurantes e bares das camadas médias, médias altas e altas, portando armas (quase sempre guardadas nos potentes e caros automóveis), por vezes, no cós da calça, ou então em capangas, pequenas bolsas, e também com porte de cocaína, e comércio de pó nos bares dos "ricos", e eu nunca vi ninguém ser alvo de uma abordagem da PM desse jeito aí que está inscrito na foto. Era só isso que eu tinha a dizer hoje. Vocês conseguiriam imaginar os policiais militares fazendo o que estão fazendo na foto ali naqueles restaurantes da Varjota e Meireles? Os "playboys" podem portar armas e cocaína no Meireles e na Varjota, pois não há abordagens desse tipo por lá para apreender armas e drogas. E drogas e armas nas mãos de jovens de classe média e média alta e alta é o fenômeno da vez. O comércio é aquecido e lucrativo. Mas invisível, ninguém quer falar sobre isso. Ninguém quer tematizar que o tráfico de armas e de drogas hoje passa pela mão de traficantes de classe média e alta. Armas também. É super fácil comprar uma pistola zerada nas mesas de bar dos "bairros nobres". Como também é super fácil conseguir qualquer tipo de droga. Já há traficantes de drogas nas favelas que são empregados de traficantes de drogas "empresários" que não moram na favela, do mesmo modo que há "empreendedores" de classe média alta que são "donos" de "barracos" nas favelas, aludando-os a preços caríssimos e recolhendo alguéis a cada mês sob escolta de policiais militares fazendo bico. Não é possível fazer uma sociologia da violência sem fazer uma sociologia das elites, da alta burguesia e das camadas médias. Violência e criminalidade não são atributos da pobreza. Não estou dizendo que não haja lugares de extrema vulnerabilidade civil e socioeconômica, conhecidos como favelas, que não concentrem graves crimes violentos letais. Não estou negando isso. Estou apenas chamando atenção para o fato de que não há tematização nem ação da polícia e isso é de responsabilidade coletiva, não apena da polícia, sobre violência e criminalidade das elites. Não é uma grande novidade, é claro, mas não custa nada lembrar, né? Esse debate será um dia possível ou irá continuar indo para debaixo do tapete?

Sunday, August 26, 2012

Para além da crença

Eu não acredito! Definitivamente, eu não acredito em mim, nem em você, nem no mundo e muito menos na minha crença, pois, além de tudo o mais, arrastando-me como um molusco ao longo da pista de asfalto para a qual nossa crença foi criada e estabelecida, eu não acredito, eu penso! E o pensar não é afirmar um estatuto superior, não é se dizer acima de quem acredito, muito pelo contrário, pois acreditar é a suprema dor jamais sentida, é a vingança contra esta imensa dor, contra tudo aquilo que nos amedronta e ameaça. E se ameaçados e amedrontados nos sentimos, há escumas de ilusão, como escamas de peixe nessa pista diretiva e indecisa que somos. E se eu eu penso, eu não existo, pois eu me desfaço, como lodo escorregadio, como fundo de piscina batendo contra a testa dura, inerte, inesperadamente, jamais imaginada. Penso mal, sempre com verdades parciais, com inexatidão, com pontos cegos, com abundância de dados que nada dizem, que são apenas e sempre improváveis, com impossibilidades de tradução...mas mesmo assim eu não acredito, não tenho fé em nada que não me oriente para o fim da mortalha que abriga o sentimento de vingança, de receio do fraco diante do forte que jamais serei, e, em ninguém, nem em mim mesmo, e nem mesmo na razão geométrica ou cínica do acaso, como se tudo fosse apenas certeza, a certeza me alcançará, uma vez que diante dela nem eu estarei inteiro nem meus detratores poderão me interpelar a sério e a cores, pois de quem não se pode jamais ter certeza e a propósito de nada nem ao menos se ao menos for haverá conveniência, a tergiversação é uma estrada, ou seja, um inferno, e quem gostaria de no inferno viver?, muito menos de soçobrar?, toda a boçalidade do mundo se concentra na única esperança que há, o fim de toda e qualquer esperança, de toda e qualquer mísera comiseração, a esperança não nos leva a lugar nenhum a não ser ao pote de desesperança que caracteriza nossa falta profunda de inverno, a nossa maior inferioridade, explodindo, como se a metáfora pudesse nos salvar do que nos impigem como falta, todavia escorregando na eterna abundância, no preenchimento pleno de tudo o que é no devido lugar do devir, da falta anulada pelo absoluto daquilo que é apenas uma pequena transição entre muitas outras.

Ter vergonha de estudar? Por que estudar se tornou coisa de otário?

Faço parte de uma geração de pessoas que iniciou a vida escolar na década de 1970 (ensino fundamental), passando na década de 1980 pelo ensino médio e no início da década de 1990 pelo nível superior. Com seis, sete anos de idade começávamos a ouvir a ladainha interminável e cotidiana de nossos pais a respeito do lugar decisivo dos estudos na vida, era uma ladainha às vezes insistentemente chata, às vezes dramática com falas maternas sobre perda de futuro para quem não estuda, enfim, havia uma verdadeira obsessão de nossos pais com a tarefa dos estudos. Minha mãe me obrigava com 10 anos de idade a ler dois livros por semana. Depois que ganhei gosto e autonomia, não precisei que ela mandasse mais, apesar de que ela continuava cobrando no mínimo três horas de estudos todo santo dia, além das leituras que eram consideradas "por fora". Na escola, quando fiz parte das minhas primeiras militâncias estudantis, a diretoria do grêmio só tinha "fera", só tinha caxias nos estudos ou então pessoas com paixão pela leitura, no mínimo. Éramos militantes do "quadro de honra". Os melhores filhos da pequena burguesia ou de uma classe média de pequenos funcionários públicos, como eu fui. Entre nós, havia também filhos da classe média alta, também muito estudiosos, e todo mundo muito animado com as possibilidades de construir uma sociedade democrática no Brasil, as divergências ideológicas, partidárias, políticas, não tiram de nós esse pano de fundo unificador. Estudar era o desafio da gente. Estudar muito, bem e com afinco. Era quase uma mística. O modelo da pessoa estudiosa era admirado coletivamente, era respeitado, cultuado até, havia certo elitismo nisso, como não poderia deixar de ser, mas havia também um forte sentimento de que para superar o Brasil do pistolão, nós teríamos que fazer o Brasil do mérito funcionar, com todas as fantasias coletivas que aí se interpõem, isso não deixava de alimentar uma forte corrente de moças e rapazes rebeldes, críticos, reflexivos, alternativos, esquerdistas e, fortemente, dedicados e dedicadas aos estudos. Não me envergonho dessa memória, apesar de não fazer uma apologia cega do que há de pretensioso nisso, mas, por favor, gostaríamos de voltar a não ter vergonha no nosso país de ensinar modelos de vida estudiosa para nossas crianças. Hoje, é como se a gente precisa pedir licença para falar em estudo. Temos que pisar em ovos, pois todas as acusações se voltam contra o valor da educação e do ensino como valores de base. Alguém sabe por quê? O que aconteceu que paramos de almejar ser uma nação que se destaca pela produção de conhecimento, pelo estudo, pela inteligência? Por que tantas pessoas hoje ficam ressentidas com os "intelectuais", tem raiva da "arrogância" de quem estuda? Sem querer afirmar verdades absolutas, compartilho essas inquietações com vocês.

Segredo masculino

Posso contar um segredo para vocês? Os homens, os rapazes e os meninos se dividem em dois tipos: a) aqueles que vão ao banheiro, mijam e depois lavam as mãos e b) aqueles que vão ao banheiro, mijam e depois não lavam as mãos. Estes últimos voltam para a mesa abraçam a namorada ou esposa, cumprimentam apertando a mão dos amigos e amigas, apanham a comida enquanto fazem uma refeição, etc. Não há recorte de classe nisso, consigo observar esse processo social em vários lugares. Pessoalmente, uso como critério para saber com quem estou lidando. Quando o cara mija e se vai sem lavar as mãos, eu marco logo a cara do cara, pois é assim que a gente divisa e se divisa. Mas isso é um segredo, não digam que eu disse, apenas observem. Estou me tornando um novo moralista? Acho que estou lendo Nietzsche demais, não é? Vou também refletir sobre isso.

Texto editado de Três teses sobre a universidade, de Florestan Fernandes.

Redes sociais também é lugar de estudo e leitura, nós fazemos os usos. Amigos e amigas, segue uma leitura obrigatória para entendermos o momento pelo qual estamos passando no que tange às greves nas universidades federais e IFES. Saudações acadêmicas. TRÊS TESES SOBRE A UNIVERSIDADE, texto de Florestan Fernandes. (Adaptado do texto original publicado no Diário do Congresso Nacional, Seção I, de 5 de junho de 1991.) Fiz uma edição, suprimindo longos trechos, editando, a partir do meu entendimento de quais sejas as partes mais importantes. Estou usando como referência o texto tal qual publicado no livro de OLIVEIRA, Marcos Marques de. Florestan Fernandes / Marcos Marques de Oliveira. – Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010. 164 p.: il. – (Coleção Educadores). Reproduzo minha edição do texto abaixo: "Retomo a palavra para dizer que existem três teses equivocadas no debate sobre a universidade, que estão circulando de maneira intensa na imprensa e também nesta Casa. A primeira diz respeito aos custos das universidades. Acham que o governo está gastando demais com as universidades. Somos um país pobre e não devemos investir nas universidades recursos financeiros nem humanos, porquanto há uma devastação, pois o ensino de primeiro grau, o básico, está realmente revelando deficiências estruturais. Aliás, todo o sistema de ensino no Brasil está em crise, que não vem de hoje, é permanente. Sempre tivemos a tradição cultural de considerar a educação como o apanágio das elites, como um privilégio daqueles que podem usar a cultura, a educação para mandar, o que levou Anísio Teixeira a escrever A educação não é privilégio, livro que deve ser lido por todos. De fato, a educação não é privilégio. É preciso considerar, portanto, a totalidade do sistema de ensino. A nossa Constituição, tão malsinada, que todos querem modificar... De 1988 até hoje, passaram-se três anos apenas. Recém-nascida, é quase natimorta: cada deputado tem ou terá uma emenda constitucional a apresentar. Pergunto: por que fizemos tão grande esforço para elaborar uma Constituição que está sendo condenada? No entanto, essa Constituição deu novo realce à educação; criou a possibilidade de os pais de família recorrer à justiça para processar as autoridades que negligenciarem seus deveres no que diz respeito à educação; estabeleceu um prazo para superarmos o analfabetismo. Essa mesma Constituição estabeleceu todo um gradiente, que vai desde o ensino pré-primário até o ensino pós-graduação, abrindo também a perspectiva de que a cada brasileiro fosse dada a oportunidade de frequentar uma escola, aproveitando o seu talento em benefício da sociedade. Ela define a educação como direito do cidadão e dever do Estado. Ela só claudicou ao não eliminar uma herança trágica, que vem de longe, e que confere à iniciativa privada meios para transferir recursos do setor público para o seu setor, de várias formas. Afinal de contas, como a opção democrática da maioria foi esta, temos de salientar que até neste ponto a Constituição respeitou aquilo que vários setores da sociedade desejavam. Se considerarmos o sistema educacional no sentido geral, temos de pôr em relevo que os custos relativos são variáveis e que não se pode pensar nos custos do ensino superior, das universidades que mantêm pesquisas avançadas, estudos voltados para a aplicação e para a tecnologia ao mesmo nível da educação técnica de ensino médio ou da educação fundamental. Por isso a educação ministrada nas universidades é cara. Por isso deve ser privatizada? Por isso deve ser sucateada, condenada? É claro que não. Trata-se de um erro lógico de perspectiva. Temos mantido a tendência de comparar o ensino do Brasil com o de países muito mais desenvolvidos, mesmo os da periferia, inclusive os chamados “tigres asiáticos”, que são capazes de engolir nosso sistema educacional. Não se pode comparar o que é desigual. Não podemos comparar Brasil, Estados Unidos, França, Inglaterra e Alemanha. Mas podemos, sim, aprender um pouco com o que fizeram, por exemplo, a Alemanha e o Japão. A Alemanha, no século passado, era uma nação que pertencia à periferia da Europa, portanto, era subdesenvolvida. (...) O esforço básico do Japão foi realizado em todos os níveis do ensino. É preciso considerar que não se formam cidadãos, não se cria cultura cívica, consciência social crítica de classe, de categorias sociais ou de setores econômicos sem uma base educacional que se inicie no primeiro estágio, aprofunde-se no segundo e atinja o seu clímax no ensino superior. Devemos ver nesses dois exemplos o caminho que temos de seguir e não o drama das estatísticas, a revelarem que nos mantemos como um País de terceira categoria até na América Latina. É, portanto, uma tese equivocada a de dar prioridade a um setor do ensino. Temos de priorizar a educação escolar, a pesquisa pura e aplicada, o ensino fundamental, médio e superior, a formação de cientistas e o aproveitamento dos talentos. O problema, portanto, é global e não permite que se separe um aspecto da educação de outro. É claro que o maior desafio aparece no nível da miséria, da fome, do analfabetismo, do abandono prematuro do ensino elementar. Para vencer essas barreiras, temos de enfrentar simultaneamente outras, a fim de nos tornarmos um país capaz de realizar sua transformação em Nação. Pois ainda não o somos. O que faz com que não sejamos uma nação é o fato de não termos criado um sistema de educação integrada altamente desenvolvido e capaz de nos fazer conquistar uma posição diferente desta que ocupamos na periferia e na América Latina. (...) O segundo equívoco que precisa ser assinalado diz respeito à maneira pela qual utilizamos os recursos com relação à universidade. Os recursos destinados à universidade são decrescentes, dispersivos e não levam em conta a racionalidade que deve imperar nessa esfera, em que o ensino é caro e a pesquisa é mais cara ainda. Não é nada demais termos alguns centros de alta qualidade no ensino e na pesquisa, desenvolvermos universidades de nível médio e, ao menos durante alguns anos, darmos à universidade com alta qualidade a responsabilidade de formar especialistas de maior envergadura. Esta seria a maneira de se aproveitar melhor os recursos. Temos de enfrentar o problema e reverter o processo de sucateamento que se instalou na universidade brasileira: professores e funcionários mal pagos e estudantes negligenciados. Não basta apenas fornecer à escola recursos materiais e dar prioridade aos prédios. (...) Infelizmente, assistimos hoje a um processo pelo qual se pretende a privatização do ensino superior, do ensino público. Pensamos que é mais barato. Estudem os Estados Unidos e aprendam; estudem o Canadá e aprendam; estudem a Inglaterra e aprendam. A coexistência da escola pública e da escola privada não quer dizer prioridade para nenhuma das duas; significa um investimento maior no setor público, que está a serviço de toda a sociedade, dos interesses de todas as classes e que desempenha quatro funções básicas: a do ensino, a da pesquisa, a da divulgação do saber e a chamada função reitora. Essa função não significa dirigir a sociedade, porém comunicar-se com ela, criar uma consciência social crítica, que saia da universidade, de modo que o cidadão não seja passivo e o eleitor pobre, mas com instrução, possa chegar à universidade e se tornar uma pessoa de espírito crítico, capaz de se devotar a qualquer área do saber, de fazer opções ideológicas e políticas de acordo com suas convicções mais íntimas e com as necessidades mais profundas da sociedade em que vive. (...) Peço permissão aos colegas para atacar o terceiro equívoco relativo à universidade, o qual ainda não tive oportunidade de mencionar. Esta era a parte mais complexa da minha exposição e, no entanto, terá que ser apresentada num prazo de tempo muito menor. Sabemos que o Brasil está aceitando uma aventura terrível que nos torna um satélite de segunda categoria dentre os países periféricos. A modernização que o presidente Fernando Collor pretende introduzir, na base de pacotes pedagógicos e neoliberalismo, representa para o país algo regressivo. Nós devemos importar conhecimento tanto científico quanto filosófico, pedagógico e tecnológico. Mas não é por aí que uma Nação se torna autônoma, avançada e capaz de defender a sua soberania. Temos de produzir conhecimento aqui dentro. Na Universidade de São Paulo, temos o exemplo de que é possível desenvolver a pesquisa avançada, é possível defender a pesquisa tecnológica de ponta e é possível criar uma nova mentalidade pedagógica com recursos limitados. Hoje, em centros universitários do país, em alguns órgãos que funcionam em âmbito estadual, como a Fapesp, ou nacional, como o CNPq e o Finep, só para dar três exemplos, podemos ter uma política racional de desenvolvimento da pesquisa científica e tecnológica. Devemos importar seletivamente, mas não podemos incorporar o Brasil às nações hegemônicas e à superpotência que são os Estados Unidos sem uma reflexão cuidadosa. Devemos refletir sobre os exemplos alemão, japonês e norte-americano. Paul Baran, num estudo sobre a política do subdesenvolvimento, mostra que os Estados Unidos e o Japão se libertaram dos grilhões da satelitização e da dependência porque souberam explorar os caminhos da criação própria. Não somos inferiores, como seres humanos, a nenhum povo do mundo. Temos de saber utilizar os nossos recursos internos e criar, aqui, conhecimentos básicos, tanto para expandir a pesquisa como para diferenciar o ensino, ou para fomentar a expansão tecnológica que não seja produto de pacotes tecnológicos. Devemos repudiar o pacote pedagógico, porque somos capazes de resolver os nossos problemas educacionais, mas devemos aproveitar tudo que se puder de outras nações na pedagogia, na ciência, na tecnologia. É um equívoco pensar que conquistaremos um lugar no Primeiro Mundo importando tecnologia e ciência, importando pacotes científicos e pedagógicos. Fizemos essa experiência em matéria de recursos transferidos dos países centrais para cá – e o que resultou disso? Enfrentamos, em seguida, a pior catástrofe que se abateu sobre o Brasil, essa dívida terrível, sanguessuga, que é maior à medida que é paga. E quanto mais é paga, mais ficamos pobres, incapazes de enfrentar nossos problemas, e mais precisamos de recursos externos. Portanto, o problema da pesquisa avançada na ciência, na tecnologia e em qualquer outra esfera, tem esse significado fundamental. Devemos cooperar com todos os países, mas devemos repelir essa forma de dominação neocolonial que vem com o capitalismo oligopolista da era atual, um capitalismo que recria, nos países dependentes, controles que operam a partir de dentro desses países. Sob o capitalismo competitivo não havia esse risco tão grande; sob o capitalismo oligopolista do início do século, também não. Mas, sob o capitalismo oligopolista de hoje, há uma tendência à globalização do espaço econômico, cultural, político, ecológico etc., e, nessa globalização, seremos tragados pelos países mais poderosos. Por isso temos de pensar de uma forma autodefensiva e ofensiva. É necessário, pois, recrutar os talentos que são formados aqui (e que muitas vezes são importados pelos países avançados, compram no mercado mundial), o talento que o Brasil não sabe usar, que a Índia não pode usar e que a Inglaterra forma; um talento de primeira qualidade, preferido pelos Estados Unidos, pela Alemanha e por outros países da Europa, enfim, por todos os outros países do mundo, inclusive Portugal. O Brasil assiste a seus talentos serem drenados para o exterior, e não fazemos nenhum esforço para impedir esse processo destrutivo. A verdade é que não tentamos criar no Brasil as condições para que haja essa interação entre a descoberta original, a aceleração do desenvolvimento econômico, a perseguição de melhor padrão de vida, com outras aspirações sociais, com possibilidades de vincular à democracia a liberdade com a igualdade. Portanto, contra esse equívoco devemos combater. É necessário formar uma perspectiva própria, uma política própria, severa, de expansão da pesquisa e da tecnologia de ponta. (...) Com relação à universidade, é preciso que ela avance até onde é necessário incorporar aquele que foi negado, que foi excluído, que merece tudo e não teve nada. Refiro-me ao estudante operário, pobre, que só tem oportunidade nos bandos de crianças abandonadas, jovens que vivem do crime esporádico ou sistemático. Esse tipo de aprendizagem deve desaparecer e ser substituído por uma educação escolar que permita a revolução educacional como ponto de partida de revolução social a que o Brasil resiste, que o Brasil se recusa a pôr em prática. É na revolução educacional que temos o ponto de partida de qualquer outra revolução, porque ela será a revolução da consciência social crítica e da tentativa do homem comum de criar uma sociedade nova no Brasil, que não deverá mais ser uma repetição do passado. As elites criaram este país e serão os de baixo que irão transformá-lo. Pelo menos é nisso que acredito."

Senhor Professor, o delirante.

Eu tive um pesadelo de ontem para hoje. Vou narrá-lo para vocês. Foi assim: eu caminhava pelos jardins da Reitoria da UFC, indo em direção ao bloco das Ciências Sociais, onde trabalho. Várias pessoas, vindas de todos os lugares ao mesmo tempo, como num passe de mágica, começam a me assediar, fazem mil perguntas, pedem informações, solicitam que lhes indique referências de obras, livros, artigos, fazem perguntas, exigem explicações, há uma barafunda de falas que começam a se transformar em gritos, os rostos se tornam raivosos, olhos esbugalhados, só então percebo, pela primeira vez, que são faces conhecidas, são meus alunos e minhas alunas, pessoas queridas, pessoas que eu respeito profundamente, mas no alto do meu desespero, começo a ficar tonto, zonzo, pois a multidão de vozes dissonantes falam ao mesmo tempo o meu nome "Léo, Léo, Léo...", olhares esgazeados e famintos, na fuga, num ato de desespero, eu também começo a gritar, esbaforido e desfeito da atitude que o decoro exige de um professor da Universidade, e nesse ponto, eu me viro de repente e digo: -- Sr. Professor Dr. Leonardo Sá! Grito em desespero, como fez Antonin Artaud quando estava internado no hospício e o psiquiatra insistia em chamá-lo pelo primeiro nome, o nome de infância, o nome da mãe: Antonin. Em tom de voz duro, eu começava a olhar um por um nos olhos de meus queridos alunos, dizendo-lhes: -- Tratem-me de Sr. Professor! Havia um delírio, um transe paranoico, um esgar que quase travava minha voz. E a partir deste momento eu chamava a todos de Senhor e Senhora. Senhor Estudante, Senhora Estudante, Senhor Colega Professor, e o delírio ia inundando minha mente quase ao ponto de fazê-la explodir. De súbito, acordei resfolegante. Foi apenas um pesadelo de que a Universidade houvesse se tornado um lugar de terror, de medo, de celebração da reprodução das mais arraigadas e violentas hierarquias da vida social. Ainda bem que foi apenas um pesadelo. Logo estarei ouvindo da voz de educandos/as o sonoro "Léo" ou o carinhoso "professor" com que me brindam na vida cotidiana da nossas ricas e profícuas trocas acadêmicas e humanas. E ninguém precisará me chamar de Senhor, nem de Herr Professor, ok? Somos apenas les pauvres enfants de la patrie, um novo e discreto precariado, abandonados a própria sorte, quem sabe...

Drogas ilícitas: uma reflexão sempre provisória sobre a "solução de um problema".

Em primeiro lugar, precisamos pensar e pensar não é reproduzir ideias dadas, preconceitos, opiniões, e, muito menos, descarregar sobre os outros as nossas próprias distorções, principalmente, quando estão ancoradas e protegidas por uma senso de normalidade majoritário que, em vez de nos incitar a pensar, nos faz instrumentos de mascaramento que inibem a criação de novas problematizações. Em segundo lugar, as drogas ilícitas não são sintoma da pobreza, da exclusão, do desemprego e dos males sociais, essa é uma maneira "fácil" de reduzir a questão e desviá-la do principal. As drogas ilícitas não possuem "solução", não são um problema nesse sentido, buscar "solução" para o "problema" das drogas ilícitas é o modo como se produz socialmente o dispositivo de poder por meio do qual se faz o enquadramento daquilo que não se quer discutir publicamente quando o assunto é etiquetado em torno do "problema das drogas". Qual seria então o "grande segredo" que gira em torno do uso de drogas ilícitas que a "sociedade" não ousa e não quer discutir abertamente? O grande segredo é que não há "solução" para o "problema" das drogas ilícitas, uma vez que elas não são um problema para o qual se precisaria de solução. O modo de abordar "problema-solução" é o pior narcótico do pensamento sobre a questão. As experiências das pessoas em torno do uso de drogas ilícitas apontam para questões que estão sendo interditadas pelas agendas políticas hegemônicas. Quais seriam essas questões? Algumas pistas: a) Sofrimento e desrealização subjetiva diante das diversas formas de embrutecimento ligadas ao sistema de busca pelo sucesso, pelo poder, pelo dinheiro. b) Irrelevância das formas de subjetivação constituídas como mercados de bens de consumo que oferecem "satisfação ao cliente" sem jamais serem capazes de tematizar a questão do sentido da existência. c) Bloqueios das formas de erotização da vida pessoal que passam pelas conexões entre diversos devires, prazeres e outras formas de experimentar a constituição de uma corporalidade que possa ser própria. É o isolamento, a segregação do uso da droga ilícita, deslocando-o do contexto transformacional de devires e prazeres nas formas de auto-erotismo e erotismo compartilhado, que são modos de negação da "pornografia", afinal, a pornografia é puritana, envolve a exacerbação da vergonha, da culpa e do ressentimento produzidos pela imposição de modelos de subjetividade heterônomos e negadores da auto-constituição das práticas eróticas, estéticas, artísticas, filosóficas, corporais que fazem da subjetivação um processo de produção desejante como devir-livre. d) Se a questão do uso de drogas ilícitas gira em torno de experimentações inseridas em contexto de realização, a questão da desrealização que está ligada também ao uso abusivo de drogas ilícitas passa pela discussão da produção social de indivíduos sob o signo da infelicidade. A felicidade, como principal objeto da política, é neste ponto o elemento catalisador para se pensar o uso da droga ilícita não como um "problema", mas como uma problematização da natureza da vida social com a qual estamos nos conectando enquanto pessoas e coletivos. e) No caso específico do uso abusivo de crack, parece haver uma desrealização que produz a prática abusiva pela dissociação entre formas subjetivas de desterritorialização e formas subjetivas de reterritorialização que exigem composições estéticas com repertórios e recursos múltiplos. O uso abusivo de crack aponta para uma desrealização dos meios imaginários de constituição da auto-erotização e erotização compartilhada. A produção social das formas de sofrimento, de dor, de envelhecimento, de suicídio, de isolamento, morte em vida, de esvaziamento do sentido da existência, de medo diante da morte, de medo diante da exigência de "felicidade", de "sucesso", etc. A arena pública poderia deslocar a agenda de discussão para aquilo que a fórmula "solução para o problema das drogas" tenta esconder e a guardar a sete chaves no fundo de um baú para o qual uma simples abertura resultaria numa nova caixa de Pandora. E as formas majoritárias de opinião que buscam mascarar a tematização do que há de cruel no funcionamento "normal" da vida contemporânea estão hiper alertas, talvez sob efeito de remédios de incitação de impotências, dirigindo veículos em alta velocidade sem visualizar o precipício que nos cerca e circunda e também nos cega uma vez que narcotizados vamos nos reproduzindo sob as formas de uma insularidade imaginária, paranoica, delirante, perversa e suicida diante do destino individual e coletivo de nós mesmos.

Saturday, August 25, 2012

A escrita lancinante de Capote

Hoje ocorreu-me algo inusitado. Enquanto folheava um livro de contos, já quase ao final da narrativa, a folha cortou-me a pele do anelar da mão direita. Foi um corte muito leve, nada demais. A pelinha fininha de cima ficou meio abertinha, apenas. Não é obviamente a primeira vez que eu me corto com papel. Papel sempre foi algo cortante em minha vida. Quase sempre se tratava de uma folha de ofício, manipulada de modo desastrado, fazendo-se de faca para cima do meu corpo...mas jamais a página de um livro havia provocado esse lance momentoso. O livro de contos era de Capote. Não foi um corte profundo, mas provocou algum leve incômodo.

Monday, August 06, 2012

Uma reflexão sobre a segurança pública no Ceará.

Amigos e amigas, precisamos falar sobre o descalabro na segurança pública, se não, vejamos: Até quando nós iremos enquanto sociedade civil silenciar diante da terra de ninguém que toma conta das terras alencarinas quando o assunto é segurança pública, segurança cidadã, segurança humana? Ou não seria melhor fazermos o tema da segurança ser precedido pelos temas da liberdade, da justiça e da igualdade? As evidências apontam para a falência do campo governamental cearense diante dos desafios do controle social democrático da segurança pública, da criminalidade e da violência no Estado do Ceará: tempo presente, tempos sombrios, tempos para pensarmos juntos sobre nosso destino social histórico enquanto coletividade de direitos e deveres. O Ceará voltará a funcionar apenas como faroeste, sem contraponto do esforço coletivo da administração democrática dos conflitos gerados por tantas desigualdades de poder, de oportunidades e de capital que estão sendo reinscritas pelas políticas de governo sob a retórica vazia do "progresso"? Tempos de pistolagem, de jagunços, de "bandidos de farda", como dizem os muitos policiais honestos, a maioria trabalhadora da segurança pública, que também sofre com esse descalabro de direção, com condições de vida e trabalho embrutecedoras, irão grassar novamente entre nós, saindo das sombras produzidas por discursos falaciosos? E, infelizmente, o Estado do Ceará parece estar mergulhando, ainda mais, na militarização da segurança pública, na falência de projetos de governo para a área de segurança cidadã, rompendo com desejos coletivos por democracia e respeito aos direitos humanos. As bases de trabalhadores e trabalhadoras da segurança pública no Ceará detêm hoje os recursos de inteligência humana e social, uma vez que alertaram para toda a sociedade sobre a necessidade de uma só polícia, eminentemente civil, fardada, mas civil, com profissionais bem pagos e, principalmente, bem formados para o exercício do policiamento a favor da sociedade, superando os antigos e obsoletos parâmetros de policiamento repressivo, militarizado, em defesa do Estado, das razões de Estado que as mentes e os corações da sociedade civil e da paz civil desconhecem. A tecnocracia policialesca da abordagem gerencial autoritária, centrada em resultados ilusórios, em pirotecnias, com baixíssima confiabilidade na informação produzida e divulgada pelo governo, ao se tornar eixo de definição de "política pública" lança qualquer discurso sobre o "processo civilizatório" num fundo e obscuro abismo. Como legar às novas gerações um espaço social pacífico que seja resultado não da repressão total, da paz sem voz, que é a falsa paz das soluções autoritárias do Estado policial? Práticas de extermínio, de aniquilamento do outro, de tortura e de muita violência institucional, baseando no sistema do medo, da delação e da vigilância total e irrestrita de toda e qualquer prática considera "suspeita", direitos e liberdades individuais suprimidos na prática, explosão da criminalidade violenta, acúmulo de homicídios não investigados e não resolvidos, impunidade, atuação de grupos de extermínio, pistolagem com participação de agentes do Estado, beneficiando grupos empresariais legais e ilegais, enfim, a história da violência cearense, com a elevação de taxas de criminalidade de todos os tipos, com o mascaramento dessas mesmas estatísticas pelos interesses "reservados", "secretos", de governo, a tomada do poder policial pelo poder militar, sim, infelizmente, são tempos sombrios, tempos onde todos e todas precisamos aprender a nos proteger. A sociedade cearense precisa, em momento delicado de sua história, tentar mais uma vez construir políticas afirmativas de paz sem desigualdade, de segurança humana com liberdade, de construção de um espaço social democrático, justo e livre. Valores e ideais que não são fáceis de serem concretizados, mas sem os quais, sem as interpelações e desafios por eles gerados, não nos tornaremos dignos historicamente com a transformação da nossa própria história. A imensidão do desafio não é capaz de amedrontar o espírito sertanejo que orienta a busca por paz, civilidade, honestidade, democracia, legalidade, direitos humanos, igualdade, bem viver e respeito mútuo do povo cearense. Ceará Terra da Luz. Terra abolicionista diante da qual nenhuma escravidão perdurará. Saudações libertárias!

A palavra de um velha camponesa

A coisa mais sensata que eu ouvi nos últimos vinte anos da minha vida foi dita pela boca da minha avó Josefa: - Meu filho, mantenha a capacidade de trabalho! O importante para o homem é manter a capacidade de trabalho.

Monday, July 16, 2012

Produção estatal do crime de pistolagem

O funcionamento do sistema da justiça criminal no Ceará, o sistema da pistolagem e a produção socioestatal do crime. Bom para pensar.

Sunday, July 15, 2012

Releitura de Émily

Em 2006, puxando pela memória, refiz a imagem de uma linda menina de 12 anos, que era minha paquera na escola (eu tinha 13 anos). É uma forma ficcional, portanto, cheia de inverdades, os eventos foram bem mais simples e singelos, depois, no futuro, quem sabe, encontrarei palavras mais sábias para em vez de narração do mundo adentrar nas justaposições, para usar de empréstimo uma reflexão de Houellebecq sobre a qual ainda desconheço o sentido. Mas Émily foi uma doce menina, o coração batia forte ao vê-la, isso lá pelos idos de 1986, quando estudávamos juntos na mesma sala. Punk sou eu, escrevendo em 2006. À época dos eventos que inspiraram a história era tudo singelo e inocente, como deve ser nessa flor da idade. (o texto ao qual estou me referindo está nos arquivos de 2006).

Nota a partir de nota no meu diário de campo de 2001.

A conversão de agentes policiais em agentes profissionais da política implica em um processo de redefinição das propriedades sociais distintas dos agentes que se deslocam de um campo a outro. Compreender, a partir da análise de formas concretas de inserção de policiais no campo da política, sob a perspectiva de um corpo de agentes profissionais que vivem da e para a política (Weber) implica igualmente em conhecer as posições sociais dos agentes policiais no campo de disputa interior ao espaço institucional de suas corporações, bem como apreender as lutas classificatórias nesse campo quanto à definição legítima do grupo na sociedade, e, em especial, de suas posições e perspectivas diante do campo da política. O desafio maior é fazer com que a descrição etnográfica faça aparecer, faça ver os limites, as teses gerais, ou hipóteses de campo, umas em confronto com as outras, envolvendo os mecanismos de conversão. Não se trata de explicar in vitro as condições mais gerais da conversão, mas, ao contrário, de elaborar a partir da observação detalhada e intensiva dos casos concretos de conversão e fazer ver a lógica do processo, seus problemas e dilemas, e aí remetê-la às suas condições sociais específicas. Fazer a sociologia da conversão a partir dos limites específicos do universo etnográfico onde estamos acompanhando a inserção de policiais no campo político local, no sertão do Ceará, é pensar a prioridade de um descrição informada pela circunscrição dos elementos diferenciais, pelos detalhes, pelo microscópico das relações sociais em jogo. Fazer, por conseguinte, uma descrição bem informada teoricamente não é fazer a descrição se subordinar ao poder de teorização, mas sim fabricar um modelo descritivo pelo qual o poder de conceituar e teorizar se exerça a partir do campo, de modo detalhado. A construção de uma leitura dos conflitos sociais que estão investidos em torno dos limites reconhecidos entre os dois campos, o da ação policial e o da ação política, passa pela elaboração de modelo de compreensão acerca do modo como trajetórias de policiais na política estão em função de lutas classificatórias mais amplas onde o ser policial se liga ao contexto de transição para a democracia no país.

Trabalho de campo: novos eventos para a pesquisa.

Meu atual projeto de pesquisa, intitulado As vítimas e seus matadores: análise etnográfica de relações de poder e práticas de extermínio, já vinha se deparando com o tipo de situação descrita por essa reportagem do jornal O Povo de hoje (domingo, 15 de julho de 2012). Teremos que buscar problematizar estratégia de inserção para acompanhar este caso. As questões principais que me interessam estão aí postas: 1. sistema de crueldade. 2. Incorporação do inimigo. 3. Matadores como vítimas de matadores. 4. Concepções do humano e do não-humano. 5. Economia da alteridade e violência. Vila Velha fica no lado oposto da costa de Fortaleza onde realizo meu trabalho de campo. Moradores da fronteira do Cristo Redentor com Pirambu me relataram que muitas famílias foram obrigadas a sair da beira de praia no Pirambu, por conta das remoções e também por causa do aumento dos aluguéis, e se deslocaram para Vila Velha. Foi no Vila Velha que a viatura do Ronda do Quarteirão foi assaltada, na pracinha, e os policiais militares tiveram suas pistolas roubadas. O que está se passando na Vila Velha? Favelas à beira-mar e lutas armadas faccionais: campo.

Os sentidos da política

O que nos oferece a política? Talvez, uma tentativa de mitigação das penas de um sistema de dominação, ou seja, um modo de amortizar a dívida histórica da dor e do sofrimento produzidos pelo Estado de medo em que foram lançados os dominados, medo da violência atávica, fundante, que se inscreve, com marcas de crueldade, na corporalidade daqueles segmentos, coletivos, categorias, classes e pessoas que foram subalternizados. Uma tentativa de inviabilizar o risco da assunção de espaços de simetrização e, portanto, de problematização das distâncias relativas estabelecidas entre corpos superiores de chefes e corpos inferiorizados de subalternos, e nesse sentido os agentes interessados, pois o interesse é se colocar no entre das coisas, exerce o papel da mediação política segundo a qual os dominados abrem mão da vingança mortal contra a violência fundante da opressão, fazendo com que os critérios de autoridade e de poder do sistema de dominação possam ser lidos como o sistema de delimitação legítimo de um debate acerca do sentido das condições de existência da própria dominação social. Com a política, abre-se a negociação em torno do sentido da vida social questionando o fato histórico da desigualdade, reivindicando-se igualdade na ordem desigual, a fim de desnaturalizá-la. Todavia, novas hierarquizações reagem às demandas por igualdade, de modo que uma guerra política entre dois princípios passa a ser uma operação de confronto e de acomodações entre hierarquias e igualdades em cada situação particular onde este dilema se apresente como organizador das atividades políticas. Num sentido bem diverso do espírito que estou imprimindo na reflexão acima, não podemos esquecer, para fins de debate, a caracterização de Bourdieu para a ação política no seguinte trecho: "A ação propriamente política é possível porque os agentes, por fazerem parte do mundo social, têm um conhecimento (mais ou menos adequado) desse mundo, podendo-se então agir sobre o mundo social agindo-se sobre o conhecimento que os agentes têm dele. Esta ação tem como objetivo produzir e impor representações (mentais, verbais, gráficas ou teatrais) do mundo social capazes de agir sobre esse mundo, agindo sobre as representações dos agentes a seu respeito. Ou melhor, tal ação visa fazer ou desfazer os grupos - e ao mesmo tempo, as ações coletivas que esses grupos podem encetar para transformar o mundo social conforme seus interesses - produzindo, reproduzindo ou destruindo as representações que tornam visíveis esses grupos perante eles mesmos e perante os demais" (Bourdieu, linguagem e poder simbólico, parte dois de Ce que parler veut dire, p.117, 1996).

Ainda sobre a noção de centro

As categorizações simbólicas que operam com oposições complementares de tipo segmentar linear e não apenas de tipo concêntrico, representado este último graficamente pelo modelo durkheimiano de círculo concêntrico para indicar o sentido nucleado do processo de socialização (primária, secundária, terciária, etc) passam pela dissemia centro e periferia que pode ser observada articulando a produção de espacialidade em variados contextos socioculturais. Ocorre que metodologicamente a ideia de centro não pode ser reduzida à ideia de Estado, tudo se passa como se processos de unificação e processos de centralização não pudessem ser ditos sociologicamente como coincidentes, apesar de adotarem entre si conexões de sentido e de causalidade circular em planos empíricos concretos da vida social. Mas não reduzir a ideia de centro à ideia de Estado parece ser uma recomendação metodológica que possa gerar algum interesse no encaminhamento do debate teórico sobre o tema. Unificação ou centralização? Como poderemos categorizar analiticamente essas problemáticas a partir do nosso campo de pesquisa? Voltarei sobre este ponto em breve. Processos de centralização são objetos de lutas, assim como os fluxos e os refluxos desses processos não são unidimensionais nem lineares, apesar de compostos por linhas em fuga para todos os lados, se é que há lados nesse objeto. Talvez teríamos que superar a perspectiva do geometral, como fala Veyne.

Os sonhos do Estado são os nossos piores pesadelos

O que iria acontecer se, de repente, nós, pessoas e coletivos, que nos definimos como insurgentes, a partir de práticas de resistência, oposição e de luta por democracia real, simplesmente, respondendo ao "sonho" neoconservador de vários segmentos do poder, parássemos de protestar, de denunciar, de questionar, de fazer oposição? Qual seria o efeito disso para a vida social? Vocês conseguem imaginar uma greve geral invertida? Seria mais ou menos assim: ninguém diria uma palavra sequer de contraposição a nenhuma ordem do sistema de dominação, ninguém faria nenhum questionamento, nenhuma problematização, sempre que houvesse alguma dúvida, perguntaríamos ao chefe e ao chefe do chefe e assim por diante sobre como fazer e como encaminhar, anularíamos completamente o campo de autonomia das pessoas e dos coletivos, faríamos adesão total a qualquer ordem recebida da polícia, da justiça, dos governos, se nos dissessem para calar, calaríamos, se nos dissessem para andar, andaríamos, se nos dissessem para morrer, morreríamos, não questionaríamos nada, nenhuma ordem, faríamos a obediência total e irrestrita aos preceitos emanados das autoridades, qualquer instância que se apresentasse como instância de autoridade seria imediatamente reconhecida e geraria nossa obediência cega, independente de avaliações de conteúdos e méritos, avaliar seria um atributo exclusivo da instância de autoridade social, iríamos assim todos colaborar com a polícia denunciando toda e qualquer pessoa e coletivo que estivesse realizando algo que parecesse fugir ou colocar em xeque a manutenção da ordem social, não permitiríamos no cotidiano qualquer fala ou qualquer gesto que não correspondesse aos tutoriais divulgados amplamente pelas autoridades sociais sobre como se comportar, se vestir, caminhar e buscaríamos cumprir nos detalhes mais ínfimos a adesão total aos tutoriais disponibilizados pelo Estado e seus representantes sociais, faríamos um silêncio total em relação a qualquer tema de contestação, aboliríamos os vocabulários de contestação, apagaríamos da memória social qualquer elemento que veiculasse alguma lembrança em torno de formas de contestação da ordem, faríamos a hierarquização das posições sociais de acordo com os ditames, sem nenhum questionamento quanto aos critérios e à fonte da legitimidade destes critérios. Pergunto então a vocês: como seria viver assim? quais seriam os efeitos para a nossa existência se realizássemos com rigor absoluto o ideal de "paz total" da ordem social, excluindo qualquer possibilidade de desordem? Vocês conseguem imaginar que tipo de vida teríamos, se assim agíssemos?

Friday, July 13, 2012

Centros de poder

Espaços sociais são recortados por diversas formas e múltiplos processos de investimento sociocultural. As hierarquias, ou melhor, os processos de hierarquização produzem espaços sociais cujo sistema de delimitação instaura divisões, distinções, distanciamentos e operações de separação de toda natureza. Para isso, os pontos de referência que são mobilizados num verdadeiro processo de construção de referenciação giram em torno de um trabalho de enquadramento da memória social (Pollak) pelos centros, os lugares de fala enquanto lugares de instauração de domínio (Barthes) e os lugares de poder, enquanto lugares de posicionamento do sujeito da fala autorizada (Bourdieu), o lugar do sujeito, enfim, que pelo tudo indica na leitura que Deleuze faz dessa questão em Foucault trata-se de uma função derivada. A expansão e a difusão de modelos de centros realiza no espaço social interno, no meio interno, no dentro, um tipo de colonização para dentro do espaço social (Virilio). O centro de poder enquanto centro de poder irradiador opera com seus agentes sociais concretos, com seus complexos institucionais, com a fluidificação do sistema de valor concorrente e a coisificação de escalas hegemônicas de valor e tudo aquilo que afeta a questão do exercício do poder simbólico, para usar essa expressão um tanto já gasta, mas que se retomada em sentido não puramente teórico, mas como ferramenta, ainda nos serve na pesquisa, para observar como que o centro não existe antes de ser reconhecido, daí os signos de autoridade, os signos de poder, os signos de centralização, por que não dizermos assim, que vão apontando para o olhar heteróclito a heteronomia do centro e a perda da autonomia de si enquanto centro das relações sociais. São as questões da dominação, da autoridade e da construção do território que parecem se sobrepor umas às outras nesse jogo de verdade e nesse jogo de linguagem que busca obter pela unificação de uma comunidade de valores "artificial" a lógica de funcionamento do centro, que é uma lógica paraestatal e, portanto, contra a socialidade.

Thursday, July 12, 2012

Jogos de verdade

Como escreveu Lévi-Bruhl em algum lugar: "L'ignorance s'ignore elle-même". Ademais: "A vida...é como um festival, assim como alguns vêm ao festival para competir, e alguns para exercer os seus negócios, mas os melhores vêm como espectadores [theatai]; assim também na vida os homens servis saem à caça de fama [doxa] ou do lucro, e os filósofos à caça da verdade" (Atribuída por Diógenes Laércio esta parábola a Pitágoras apud Arendt). No mesma direção: "é preciso escolher pagar pela verdade um preço mais elevado, em troca de um lucro menor de distinção" (Bourdieu). Quantos jogos de verdade nos são compossíveis para sairmos dessa invisibilidade absoluta em que nos colocaram?

Análise de concepções rivais no espaço social

Concepções rivais, em situação de rivalidade, convidam a usos estratégicos da linguagem. A própria opinião pública é um exemplo claro de como a fonte de legitimidade está literalmente em jogo, devido ao caráter disjuntivo que há no ato de jogar, diferentemente dos rituais, onde atos conjuntivos parecem se sobressair. Com quais vocabulários, léxicos, essas rivalidades se realizam? O uso da palavra, lembrando que a palavra está imersa na situação da disputa, nos permite falar de uma significação disputada. Espaços públicos emergem nesses processos de espacialização da disputa pela opinião, ou em torno da opinião, o que faz do público não um atributo de um sujeito, mas um atributo de relação que gera a própria noção de que o espaço social é um espaço entre outros. Ainda não estamos a falar da esfera pública, e eu, pessoalmente, não tenho muito interesse nessa tematização. Prefiro concentrar meus esforços na elaboração de modelizações das micro-constituições de espaços públicos. Até mesmo dando também preferência para os micro-espaços, onde a relação entre dimensão concreta e dimensão abstrata das conexões e relações sociais podem ser observadas detalhadamente. Claro que é possível situar o estudo de um mundo social específico, bem localizável, em um processo mais amplo de formação de espaços sociais, como os espaços nacionais e transnacionais. Este esforço de contextualização está em função da força de contexto como instrumento analítico, a fim de situar os marcos do sistema de delimitação, diante da profusão infinita do real, que irá por sua vez atuar heuristicamente como mapa ordenador do próprio esforço realizado pela força de contexto da pesquisa.

Simbolismos de poder

Quais são as modalidades de exercício ordinário do poder com as quais se conectam as formas ostentatórias (ostentação, ritualização, cerimonialismo, etc) de certo excesso de sentido que se produz pelo trabalho da forma? Como as modalidades ordinárias podem nos fazer pensar (a ver algo como algo) a respeito da natureza desse simbolismo ostentatório e vice-versa? Estou lembrando de um texto pouco debatido até de Clifford Geertz: Centros, reis e carisma, além de Negara, é claro. Vou dar uma olhada de novo.

Álcool e drogas

Muito interessante este trecho de reflexão de Gregory Bateson a respeito das distorções provocadas em nós pelo uso de álcool ou drogas: "Intoxication by alcohol or drugs may help us to see a distorted world, and these distortions may be fascinating in that we recognize the distortions as ours".

Anotações sobre anotações na aula do Diatahy em 3 de abril de 2008.

No dia 3 de abril de 2008, Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes começou a aula com uma preleção fílmica, lembrando-nos das relações entre o Farenheit 345, 1984, Admirável mundo novo e Colossus 90. Revendo minhas notas de aula, me veio à lembrança que eu fiquei curiosíssimo para saber o que diabo seria Colossus 90, mas não queria interromper a fala do meu professor e deixei passar adiante com dúvida mesmo. Aliás, eu ainda não tinha assistido Farenheit 345 na íntegra, o que o fiz com grande prazer na semana seguinte a da aula. Enquanto Diatahy desenrolava indícios para nós para aquilo que gostaria de nos fazer ver, fiquei remoendo a seguinte questão: "Diante do excesso de códigos, como reconhecer a verdade da experiência humana?". Essa anotação revelava várias coisas. Primeiro, que eu tinha acabado de ler Michel Serres, Os cinco sentidos, e os meus estavam justamente enebriado por essa inquietante experiência. Segundo, que eu já estava na lida com essa questão do conceito de experiência. Muito por influência do Marcio Goldman, com quem eu tinha feito Teoria Antropológica I e vinha deslindando vários textos sobre a relação entre experiência e alteridade. Enquanto eu pensava na questão, Diatahy começou a falar de Merleau-Ponty e de Baudrillard. Discorrer sobre sistemas de objetos. Então, pimba! escrevi outra pergunta: "Onde está a experiência?". Foi quando o professor começou a contar de uma experiência que o filho do Portinari, que é físico e matemático, tinha feito na PUC. Ele havia escaneado um quadro do pai, gerando uma massa de informação digitalizada considerável. Parece que isso está em um documentário sobre Portinari que o Diatahy indicou em sala de aula. A relação estava portanto posta, ou melhor, explicitada: fluxos sensíveis, experiências e linguagens/traduções. A semiótica, a retórica e a filosofia da linguagem. E foi daí que comecei a me questionar mais a fundo sobre a relação entre o conceito de discurso e o conceito de experiência. 1960 - Althusser, Gramsci, Lévi-Strauss e o retorno de Bachelard. Máquinas e palavras. 1) AFETOS - nosso material. o que torna esse material narrável? Arte/Literatura/Psicologia Social/Psicanálise Mobilização das energias criativas da comunidade [catedrais góticas] Modelo do texto Linguagem e construção social da realidade social. Diferenças entre: Inteligência operatória e Horizonte mental. Ver o Pensamento selvagem. Linguagem como instrumento e linguagem como construção do real. a] função da estrutura (arquitetura). b] execução da estrutura (engenharia). c] investimento da estrutura (economia). d] ambiente de experiências (pedagogia). e] reprodução social (sociologia). [ESCOLA] Lógica medieval (objeto material e objeto formal). Ponto de vista, ângulo e mudanças de linguagens. Final da aula

Wednesday, July 11, 2012

Imagine ela

Imagina ela. Imagem nela. Imaginou? Opus barra ponto três, exercício nº 357/1949 [fortuitamente]. Para quem vai fazer tese: a prancha noventa e três, na prateleira 87, irá ajudar no processo de identificação, uma vez que sem o reconhecimento dos signos, não há signos. Isso não quer dizer que tudo se trata no propósito do reconhecimento e da negação, ok? Nem mesmo a fenomenologia do espírito poderia nos desorientar neste ponto, pois a tradução em português do alemão... [...} Alemão, o quê?...Sim, no sentido euroasiático, querido! N'est-ce pas? Chucrutizinho de deus, de meus deus todo poderoso, depois da coisa, a gente conversa, tá?;;; Voltando entonces ao ponto a partir do qual havia narrativa no nosso amor, no nosso lindo e caloroso encontro, poderíamos, na tragada mortal dessa malícia que não nos quer largar a mão como a maresia não larga a areia na parafina de uma prancha no Titan, se liga?, então...é como si, como se, como si..la viande aurait mentit. sem nem se isso é possível, mas as vírgula,s , essas jamais ficarei a devê-las, a espargilas, espargir, c'est comme ça?, espargir, epargaint lamour detre voté a la fois com si...pardon. Enquanto digitava essa parte, estava a me servir de uma dose de cachaça. [pense num bicho mentiroso! ele está a beber black label com água de coco e fica com essa história da cachaça apenas para impressionar não sei quem}, mas passemos adiante levantando a seguinte estória, se é que há história nessa semântica subalternamente americanizada na qual tento me esconder. enfim... Falar dele, sem que ele pudesse falar, por métier, causa-me profunda vontade de auto-anulação. Nem quereria me imaginar sem ele? Não!...Deixe de mentira! Não se trata de entregar todos os pontos assim de antemão. A barafúndia é perfeita. Como uma onda. Como um tubo no Titanzinho. De pé? Jamais! Jamé. Não sereis já mais como o rapaz que fede enquanto espanta por um segundo sua pobreza demente? Havia poetas realmente, na real, na mente, a viver de achocalatado? Sem nenhuma cachaça a corroer seus cérebros? Miríades possíveis quando se foge de casa, nem que seja para cagar, carregando com a mão direita o saquinho indefectível...sabe, o saquinho?...a fim de fazer o serviço completo funcionar. {...} pena pode ser de galinha, pode ser de fourcuzão! Pena de quem? Do pó? Do Poe? Os delitos e as penas! - pay per view2. Isso mesmo! dois, o um foi suprimido por falta de pagagmento (valha) ia dizer pa-gamento, afe! parece que estou andando no padre cícero da zé de alencar, no becão longo e comprimido, sem nenhuma ramificação que nos valha, mas isso é outra história, do tempo que morei lá naquele prédio vizinho ao teatro, e olhe lá que eu morava com uma atriz. louca! lôcôna. loucãozona! bicha doida que só se virava no pó de mármore, corroendo as pilastras do teatro latrino americano. Repetindo, para que vocês, os desavisados, os que beberam demais da conta, possam acompanhar. Havia poetas, ok? Havia cachaça, ok? Havia miríades possíveis, ok? Quando se fugia para cagar, carregando com a mão o saquinho indefectível, a fim de fazer o serviço completo funcionar...Qual serviço? O das luzes da ribalta, se liga? Ela o havia alcançado. Ela o havia realizado num sentido completo. Se o dormir não fosse tão inseguro e impróprio, esse dormir nos braços dela, num quarto alugado por hora nas vias de fato do zé de alencar, bem pertinho, subindo do primeiro para o segundo andar pela escadaria de pedra fria, acompanhando o chão, e nós, o homi e a muié, nós dois subindo como se não houvesse álcool em Alagoas, em Pernambuco, na Bahia, e em todo o resto, pois apenas em Teresina do Piauí havia de estar nessa parada, mesmo depois dos comerciantes terem sido produndamente lesados pelos vagabundos locais com quem fazia, inadvertidamente, negócios em torno da embriaguez alheia. Mas ela havia alcançado o segundo andar. Havia sim. Gração aos céus. Nem saberia imaginar como o sexo iria se realizar naquelas circunstâncias esdrúxulas, inaparentes, e inviáveis. Teria sido muito melhor ir prum cabaré na beira da praça para dormir em cima da mesa aos cuidados de Dona Maria, ou então pegar um táxi para o aeroporto indo encontrar em Botafogo, cidade do Rio de Janeiro, minha última herança, minha última memória. E assim se foi...Ela havia finalmente me alcançado.

Tuesday, July 10, 2012

O retorno inaugura o sujeito? Que balela, Butler!

passei horrores antes de voltar a escrever neste espaço vazio. tempos interessantes, como dizem os chineses, são tempos de guerra. nem por isso tive minha sanidade transida. a insânia permanece, qualquer coisa de indefectível nesse avatar de louco varrido. mas já é chegada a hora. um milenarismo de antanho tomou conta de mim, agora que sou criador de pássaros silvestres, um tanto incompetente, uma vez que não me obedecem os desgraçados. aninham-se no conforto do meu jardim para me abandonar em seguida sem nenhuma comiseração. uns pulhas, esses passarinhos da rua.

Sunday, October 02, 2011

Pérolas a cinco reais

Encontrei um lugar onde estou a adquirir pérolas a cinco reais, uma cada. Entretanto, não consigo guardar na memória os caminhos que me levam até lá - por mais que me esforce, termino desperdiçando mais do que disponho nessa labuta contra o esquecimento do caminho já trilhado. É como se houvesse em algum lugar um rio do esquecimento ou algo parecido. Sobre isso já devem ter escrito. Ocorre que, a voltar, sempre trago em mim um colar inteiro levemente repousado entre meus braços. Nem mesmo as sacudidelas da lotação fazem-me largá-lo.

Sunday, May 15, 2011

Drácia e Esther

Morava no décimo terceiro andar. Na cidade baixa. Uma esquina entre duas estreitas ruas do que outrora fora o centro de intensa movimentação de pessoas, carros e firmas. Nas últimas duas décadas, o manancial havia secado e a praça pública que o continha tinha se tornado um esgoto a céu aberto, como nas três favelas do entorno. Ao lado da portaria, um açougue semi-clandestino, impregnava a aproximação pela faixa de calçada da entrada do prédio com um odor duvidoso de carne e sangue misturado ao detergente com naftalina com que os funcionários da loja lavavam a calçada para disfarçar a sujeira do estabelecimento e amenizar a noitada de mijo das gentes que passam. O porteiro não me cumprimentava mais. Franzia o cenho, lançava um olhar furtivo para o espelho do corredor que o permitia enxergar além do portão de entrada sem precisar fazer nenhum esforço com as pernas. O elevador semelhava ao de um hospital. Um guarda roupa entrava fácil. A fumaça de cigarro nele era inescapável. A plaqueta de plástico duro com o aviso de não fumar estava quebrada ao meio. Nos cinco primeiros andares, com exceção de um velho pescador pedófilo, com quem quase ninguém travava relações, moravam travestis velhas e novas, misturadas e formando, na medida das suas forças de autodefesa, uma comunidade de ataque muito acolhedora para seus amigos. Duas ou três vezes, eu parava no terceiro andar para compartilhar da comensalidade de uma mais velha, quase líder, quase avó, que fazia uma deliciosa sopa, dispota em uma mesa estreita de maderia no meio do corredor. Nessas ocasiões, as portas dos pequenos apartamentos permaneciam todas abertas. Ao me apromixar da porta do quarto e sala que eu alugara com metade de uma bolsa de iniciação científica que não passava de 240 reais há tempos, percebi a porta entreaberta. Uma injeção de adrenalina deixou-me com o corpo menos trôpego por um instante. Empurrei a porta com o pé esquerdo para não perder a base de apoio. A sala estava vazia. Apenas o colchão descoberto sobre o chão. As mesmas garrafas de sempre. Os cinzeiros. Os discos. Os livros. Restava o quarto, o banheiro e a pequena cozinha para averiguação. Na cozinha, a geladeira velha disparou-me um pequeno susto, mas estava ok. O quarto, nada. A porta do banheiro estava fechada. Nenhuma luz. Abri-a com cuidado. Sentada no vaso sanitário, eu a encontrei semi-despida com um rosto já talhado de sangue, quando acendi a luz.

Ela era uma romena doida. Perdida na cidade. Não queria dar para mim. Bastava-lhe ser minha amiga. Virei anjo da guarda da gringa. Um amigo cuidador. Não tinha perdido a esperança de ir um pouco mais além, mas só lembrava disso de tempos em tempos. Ela respirava. Dieu merci! O corte aberto na testa tinha beiços largos, a carne rasgada como guelras de peixe fresco, vermelha e brilhante. Consegui acordá-la da semi-consciência. Dei-lhe um banho e tratei do corte provisoriamente com esparadrapo, fazendo pontos falsos. Ela ainda não tinha condição de andar e carregá-la nos braços para o hospital mais próximo estava fora de questão, assim como a falta de dinheiro para um táxi. Eram quatro da manhã. A preguiça de quem ingeriu álcool além da conta deixou-me inamovível de atitude. Mas dizia para mim mesmo que iria dar um jeito, mais cedou ou mais tarde. Ela então pôs-se a balbuciar alguns trocados de palavras, enganando-se de quando em vez de língua. Tentava me explicar o que tinha acontecido, mas sua memória não bastava. Foi quando percebi um vulto movendo-se por minhas costas. Virei-me rapidamente e me deparei com a face lívida de uma boneca amiguinha. Era a namorada brasileira de Dácia. Ela estava muda. De um mutismo histérico. O corpo enroscava-se em si mesmo como uma trepadeira que perdesse sua base de sustentação. Nada pude adivinhar de sua falta de gestos. "Preciso fazer xixi", quebrou o silêncio de modo estúpido com dois passos ligeiros entrou no banheiro, batendo a porta com força atrás de si. O circo estava montado, pensei com meus botões. Vamos ver aonde a palhaçada nos leva, resmunguei, acendendo um cigarro, enquanto procurava uma garrafa para um trago. Mas, desta feita, tranquei a porta do apartamento como precaução contra mais intrusos em minha vida de enclausurado. Adoraria estar só em minha cela. O dia já raiava.

Esther saiu do banheiro. Sorriso histérico refeito, como maquiagem velha que emerge das rugas das minhas amigas travestis, já aposentadas, do quinto andar. Não pude adivinhar-lhe qualquer intenção pelo seu olhar. Esgazeada, parecia como um jabuti, buscando encurtar o pescoço para dentro da carapaça.

Wednesday, April 21, 2010

saber escrever para mulheres

naquele dia, havia caminhado durante quarteirões a fio. a cada passo, a amarradura do tênis ameaçava se soltar novamente. os dedos estavam doendo horrores. quando já havia desistido de volver os olhos para o entorno de mim, deparei-me com os volumosos cabelos dela, vencendo a barreira do vento quente. era um final de tarde. nos entreolhamos e de lá podemos passar de um ao outro como na busca desejosa, era um enleio pelo olhar que se apresentava, um afã nascido de uma rotina frouxa, ao ponto de escapulir de todo e qualquer prazo. era um instante apenas. meu passo diminuiu como se as pernas carregassem nuvens, em seus movimentos de quadril, a aproximação era leve, muito leve. seria ela séria ao ponto de me negar um canto de olho que fosse? pensei em respirar como os corredores de longas maratonas e expulsar dos cantos internos do diafragma os restinhos de ar comprimido que me roubavam a voz. ela olhou para o chão. deu para sentir que não era o que ela queria, foi um lampejo de busca por proteção. um olhar tosco de arrependimento. parecia dizer "Putz, que vacilo!". mas nada me desviou da total imprecisão que a expressão dela remetia nesse movimento de recontro. a calçada ficou curta e estreita. um sorriso escapuliu. não sabia se era meu ou dela. tudo estava tão próximo.

Wednesday, April 07, 2010

não remunerar a perturbação

estou pensando em fazer escolhas produtivas sem produtivismo barato. quem perturba o juízo da gente não merece ser remunerado com nossa audiência. ouvindo jazz sempre.

esse é o meu não objetivo do dia a dia.

Perfis do orkut que vão e vem

Educador freiriano e pesquisador, não tenho interesse em me adaptar às exigências do mercado "livre".

O mercado é reativo, reacionário, está em função da ordem social mais absurda, desigual e injusta. Quem planta mercados liberais em sua vida, colhe tempestades subjetivas de autodestruição e destruição do Outrem.

Não tenho interesse no Estado e nos seus esquemas de filiação e antagonismo, nem nos micro-fascismos que lhe dão sustentação e base social velada.

Anarco-comunista da gema. Campo democrático popular na veia. Espartaquista na alma.

Frátria, Autogestão, Autonomia e Arte.

Projeto Popular campo-cidade em torno do direito à segurança alimentar.

Diferenças sem desigualdades.
Diferenças sem distinções.
Diferenças sem purismos.
Diferenças sem planificação.

O que me interessa são pessoas em coletivos e coletivos em pessoas de modo democrático, livre e igual. Multiplicidades de redistribuição de riqueza, conhecimento e afetividades.

A desconstrução não é uma questão teórica, mas prática. A desconstrução é uma tese contra Feuerbach em versão libertária.

O princípio redistributivo é o que interessa a todos e a todas.

As ações capitalizáveis estão com nada. São mesquinhas, medíocres e cafonas. Esteticamente estéreis.

Arte, cultura e criatividade estão onde nenhum lugar se encontra. Estão fora dos centros de poder, sejam amplos ou restritos.

zona autônoma temporária
socialização dos meios de desconstrução
regulamentação dos processos aquisitivos
desregulamentação dos processos criativos
autoposição da perspectiva diante de quaisquer contextos reducionistas.

as relações sociais são relações de transformação social

Leitura do dia

Etnografia como cenografia? Esse George Marcus se sai com cada uma. Gostei.

Saturday, April 03, 2010

Titanzinho lá vou eu

Estou me arrumando para encontrar com prof. Bebeto. Alongamento, caminhada e relaxamento no Titanzinho.

A condição humana

Ontem, fomos a um evento muito importante para um de nossos amigos. Há 9 anos que ele não usa uma gota de álcool, nenhuma sequer. Acumula fichas por isso. Fichas que tem uma valor simbólico imenso no grupo do qual faz parte. Merecia uma celebração. Agendamos com antecedência. Não pretendíamos faltar em hipótese alguma.

A esposa dele estava exultante. Colocou um vestido de gala. Vermelho. O contraste com a cor da pele indígena estava marcante. Fomos buscá-la numa das muitas fronteiras da zona oeste. Da última vez que tínhamos ido lá, para a ceia de natal, o rabo da cobra de uma guerra infinita mostrou-se de modo exuberante, pois até mesmo na violência o povo ameríndio é exuberante. Apesar da miséria do crack e da falta generalizada de dinheiro.

Thursday, April 01, 2010

comensalidade revisitada

Os rituais de comensalidade são do tempo do mármore. Imprimem sobre as pessoas moldes duradouros a partir do calor das mãos sobre a mesa - e das palavras do tempo em que não se via obstáculo entre elas. E da singularidade nasce a troca sem obrigação, a gratuidade a que se pode chamar de paz sob os auspícios do brinde e da aguardente a que hão de se abandonar sem risco e ao riso solto ao menos de uma vez.

de tempos misturados

azeite, cebola, alho, pimenta e manteiga. cervejas. cachaças. filet bleu au poivre. batatas. salada. filet de badejo na manteiga ao molho de alcaparras. Strogonoff de filet mignon ao vinho. Peixe pargo frito inteiro com baião, tomate e farofa. Tagliatele ao molho de vodka com camarão. Salmão grelhado. Moules marinières avec frites. Ostras. Ova de peixe. vinhos cabernet sauvignon, carmenère e merlot. brancos maduros misturados com champanhe. pudim de leite. sorvete de sapoti e doce de leite. café forte e amargo com cognac. água mineral.

a regra e a corrida

Duas crianças estavam brincando de apostar corrida no pátio da escola. Eram dois meninos. Um deles era deficiente físico, usava um suporte na perna direita para caminhar; mas sua vontade de correr era tão forte que ele de fato corria e com muito afinco. O outro menino não a mesma deficiência física, suas deficiências eram menos visíveis. Quando os dois se alinham lado a lado para começar a apostar a corrida, um deles propõe: eu vou correr como você, tá? Um, dois, três e já! Eles começaram a correr, uma disputa acirrada, e lá ia o menino sem deficiência física na perna, fazendo um esforço fenomenal para correr como se fosse o seu amigo. Houve uma verdadeira competição e eu pude aprender muito em observar esses dois garotos, aprendendo a ser gente.

das antigas

Entre o melodrama e a dimensão trágica, ocorre-me o escorrego na cova rasa da vida; mas sou ligeiro, escapo com granada na mão sem pino. E não largo a granada até atingir o alvo com o meu próprio corpo. Vi isso num filme, ou terá sido num game? De qualquer modo, pulo de modulação e saio do eu estúpido da guerra e abraço o amor da vida boa e da petite joie!

"a vida só se organiza se desmentindo, o que é bom para uns é muitas vezes a morte para outros, sendo que só os tolos, entre os que foram atirados com displicência ao fundo, tomam de empréstimo aos que estão por cima a régua que estes usam pra medir o mundo; como vítimas da ordem, insisto em que não temos outra escolha, se quisermos escapar ao fogo deste conflito: forjarmos tranqüilamente nossas máscaras, desenhando uma ponta de escárnio na borra rubra que faz a boca; e, como resposta à divisão em anverso e reverso, apelemos inclusive para o deboche, passando o dedo untado na brecha do universo; se as flores vicejam nos charcos, dispensemos nós também o assentimento dos que não alcançam a geometria barroca do destino; não podemos nos permitir a pureza dos espíritos exigentes que, em nome do rigor, trocam uma situação precária por uma situação inexistente" (Raduan Nassar).

Fui

Vida de boa-aventurança!

sei nem se é repetição

um dos meus maiores prazeres é trocar o grafite da lapiseira. saciá-la, abastecê-la, mimá-la. nutro um amor profundo pela minha leal e histriônica lapiseira amarela zero ponto nove.

eau-de-vie

gosto das relações humanas quando são cálidas como o efeito de um trago de cognac.

eau-de-vie.

modo de acordar

espírito livre, acordei noturno para violino e piano de Chopin.

não faço a menor idéia de por que escrevi isso

no momento deciso em que esperava ser outro,
o julgamento ultrapassou a leveza do fluxo,
o destempero do porvir
e o espaço de ação
- antes desprezados -
fizeram-se nomes de todas as coisas.
E o espaço de ação - antes aviltado - fez-se qualidade do pensamento, e do improviso da razão!

em primícias de desventura,
criei o despropósito de morredouro,
a lipoaspiração do ente
disparatado, no prato de camarão.

antes dele - alvo do arco verde.
antes dele - marcado de carvão.
antes dele - tutoria do agora.
antes dela - incúria.

mais uma citação antiga

"Mediocribus esse poetis non di, non homines, non concessere columnae", diz Horácio em sua Ars Poetica ('A mediocridade dos poetas não é permitida, nem pelos deuses, nem pelos homens, nem pelos pilares que sustentam as lojas dos livreiros')." (CASSIRER, E. Ensaio sobre o homem. São Paulo: Martins Fontes, 2005: 368-69).

uma anotação antiga que encontrei por esses dias

Valentina me explicou que as escadas estão de cabeça para baixo. Enquanto nós subimos, pisamos primeiro na cabeça da escada e depois no corpo até chegar aos pés. E quando nós descemos? Vou perguntar para ela. Pronto, ela me disse que quando nós descemos as escadas sobem. É o contrário, é simples!

outra da mesma cepa

"Tudo o que ele conseguira refrear por meio da sua responsabilidade fora ele mesmo" (Roth sobre Seymour Levov).

citação que encontrei no hd de 40

"Sim, estamos sós, profundamente sós, e para sempre, uma reserva guardada para nós, uma camada de solidão cada vez mais espessa. Não há nada que possamos fazer para nos livrar disso. Não, a solidão não devia nos surpreender, por mais espantosa que seja essa experiência. A gente pode tentar se virar pelo avesso, mas tudo o que a gente consegue então é ficar do lado avesso e solitário, em vez de do lado direito e solitário" (Roth).

Inventando as coisas

Houve tempo para briga. Agora é só relaxar, distender e começar a elaborar os próximos passos de uma nova e intrigante trajetória.

Sunday, March 14, 2010

Idéias

Não tenho interesse em me adaptar às exigências do mercado. O mercado é reativo, reacionário, está em função da ordem social mais absurda e injusta. Quem planta mercados em sua vida, colhe tempestades subjetivas de autodestruição. Os ressentidos e mal-amados são os chefes das lógicas de mercado. E cada chefe expressa a forma mortuária de ser das empresas falidas do capitalismo contemporâneo.

Sou proletário da educação superior (privatizada) faz dez anos. 16 horas de trampo por dia. Não me chame de intelectual como se eu fosse avoado que te mando às favas. Nesse ponto parto para o emocional mesmo. Tenho orgulho de ser educador para a prática da liberdade, seja nas faculdades, seja nas comunidades.

Nem Pátria, nem Patrão. Nem Família, nem Religião.

Anarco-comunista da gema.

Frátria, Autogestão, Autonomia e Arte.

O que me interessa são pessoas em coletivos e coletivos em pessoas de modo democrático, livre e igual. Multiplicidades de redistribuição de riqueza, conhecimento e afetividades.

A desconstrução não é uma questão teórica, mas prática. A desconstrução é uma tese contra Feuerbach em versão libertária.

O princípio redistributivo é o que interessa a todos e a todas.

As ações capitalizáveis estão com nada. São mesquinhas, medíocres e cafonas. Esteticamente estéreis.

Arte, cultura e criatividade estão onde nenhum lugar se encontra. Estão fora dos centros de poder, sejam amplos ou restritos.

zona autônoma temporária
socialização dos meios de desconstrução
regulamentação dos processos aquisitivos
desregulamentação dos processos criativos
autoposição da perspectiva diante de quaisquer contextos reducionistas.

as relações sociais são relações de transformação social.

Sunday, March 07, 2010

letras ou garranchos?

Estou com um problema terrível. Desaprendi a escrever a mão. Minha letra cursiva nunca prestou, mas agora parece um destroço garranchal. Horrível. Ainda existe esse negócio de caligrafia ou isso é coisa do passado?

Contra a publicidade infantil

Sou contrário ao uso de apelo direto às crianças feito pela publicidade infantil para qualquer tipo de promoção comercial, principalmente, as vinculadas a alimentos a base de açucar, gordura e outros produtos que afetam a vida saudável. Mas também usar o público infantil para forçar vendas junto aos seus pais. A sociedade precisa regulamentar esse problema. Consumo consciente, ecosustentável, socialmente responsável e moderado já!!!!

Malditas escolhas

Estive deitado a tarde inteira. Postado sob a sombra abrasiva de uma mangueira estava corrosivo como seu entorno. Nada germinava sem aviso prévio. Os pensamentos estagnavam como ostras mal digeridas. Cada idéia era uma bolha de um verão interminável. A digestão modelava a experiência como uma espécie de gaseoduto obstruído. O congestionamento era a fatalidade daquela modorra. E ainda por cima, teria que desbulhar contradições, conflitos e integrações entre as teorias de um século já enterrado, apenas revirado pelos escombros dos tremores que afligiam a cidade por aqueles dias. Da sacada, podia observar duas mulheres seminuas tomando banho de sol com óleos que da pele refulgiam como espelhos d'água. Era um golpe de vista desagradável como mirar a pele escamosa de algum réptil repugnante mas cuja carne é uma delícia depois de assada. Sem pândega, voltei para o fundo da rede. Só uma água de coco podia me salvar. O resto servia à bancarrota devido às ostras com cerveja no café da manhã do dia anterior. A lavagem não me fez bem.

Loteria perversa

Depois de meses, percebi que recebo religiosamente o e-mail da Caixa Econômica Federal com o resultado da loteria. Eu mesmo me inscrevi no site da Caixa tempos atrás. O problema é que eu não jogo na loteria. Que bobeira maluca essa, então? Talvez fosse o esculacho de receber um resultado que não me interessa ou a má-fé da minha inconsciência bestial, querendo sair do apartamentozinho de esquina de padaria para uma ampla vista para o mar? Acho que eu estava era bêbado quando fiz essa maldita inscrição no site da Caixa. O pior é que não estou conseguindo descadastrar o recebimento do e-mail. Terei que conviver com o fato. Amore fati. E voilà!

Thursday, February 18, 2010

Paganismo e vida saudável

A calmaria de um desjejum a base de água natural, aos goles, seria uma retidão de caráter, não fosse pelo vinho que corre pelas minhas veias como um elemento de anti-estoicismo.

Wednesday, February 17, 2010

novo ciclo

Quem, eu? Quem, você? Nestas paragens, os sítios são cultivados pelo prazer das práticas. E os textos são ou dilações sobre si mesmos ou anotações de estudos. Gosto da mistura de gêneros: antropologia com gastronomia, etnografia com literatura, filosofia com ciências cognitivas e cinema com narrativas expressionistas. Se pudermos trocar idéias, é um bom ponto de partida! Onde, eu? Onde, você?

Tuesday, October 20, 2009

anti-urgências total

pobres dos incautos que se comunicam e, aí daqueles, que se comunicam etiquetando suas mensagens como urgentes. o que sabem eles sobre a urgência? Mensagens urgentes, eu as relanço aos deus dará empacotadas como chegaram. O desprezo pelo que é travestido de urgente é um arroubo, é um gozo. Urgente, quem? Urgente, eu? Urgente, você? De anti-urgência em anti-urgência, a vida vai seguindo, sem que a ansiedade do adoradores de urgência se aplaque. Portanto, urgente só amanhã, vai indo que eu já fui.

Thursday, July 30, 2009

atropelamentos

primeiramente faríamos a avaliação de todas aquelas aves de rapina que nos querem fazer muito bem ao sangue de dois centímetros de espessura coalhados no asfalto mentiroso das minhas manhãs.

poder de quem?

e quem poderia dizer que o ler o mundo é uma tarefa objetiva?

a margem escorrega

e eu nem poderia imaginar que se um dia eu pudesse ter razão, a margem deixaria de estremecer sobre mim. quase como se o sujeito fosse nem dois nem três de si mesmo. uma espécie de tragédia com múltiplos divisores em comum traria de mim aquilo que eu gostaria de ter quando dançasse um música lenta contigo.

sinais

e se a fruta é para ser repartida entre os vários saleiros que a salgam, pereceria minha estranheza em não buscar na fonte de ouro do meu estrabismo o labirinto que medeia a estrela de absinto? e quem poderia assim me satisfazer o olfato e os outros tantos sentidos de procurar a ação que se propõe em signo estabelecer a pauta do teu marcador corporal?

jogando videogame eu me encontro

e quereria a pulga que me deixou te falar como seria se você fosse inconveniente e me propusesse algo mais do aquilo menos que posso te dizer quando insisto em minha palavra solta feito maestro de querer abrir o fôlego para aquele senhor histrião que me bipartia a vida para abraça-lo em duas partes diferidas pelo público fiel mas nem tanto do meu azar.

fugindo pelo beco errado?

e mesmo sem entender a desventura de exuberância que a ela eu proporcionava na minha possível aptidão de a ver inteira através do véu malogrado que faz da transparência um quase furto da alma, queria fazer disso a instância dessa incumbência de tratar o malogro como se altivo fosse. e além disso, apenas o terraço frio, deserto, das pessoas em vão a trazer a caminhada fatal, o trejeito dissoluto de uma partida menos eufórica do que a chegada pelo beco da praia.

sei mais não

e a caminhada seria ao menos esdrúxula se ao finito pudesse reportar minha trajetória em mixórdias celestiais. a quem desses caberia decidir sobre meus pesadelos? sobre minha vontade de não precisar meus passos pelo jardim alheio? e talvez assim pudéssemos atravessar o noturno em riste que há em nós quando volvemos feito loucos banidos pelo ministério de molar preciso e salvo como estridente entre nós.

lodaçal em blues

saudades de ver a mala cheia de festejos, embebida no dígito misturado do jardim anfíbio do coração. esverdeados conseguimos vencer o bosque dos riachos preteridos.

os capazes de quê?

capazes são aqueles que nos ouvem quando batemos à porta do estabelecimento achando que em vão poderemos entrar, ser ouvidos, e dormir numa cama aconchegante, mesmo que com doze pessoas perdidas ao derredor.

Sunday, July 19, 2009

pedintes como eu

Adoraria ter um dia na vida podido degustar de pelo menos um desses instantes de que falam os felizes convictos. Por vezes, uso toda minha força de imaginação para criar uma ambiência plausível para isso, elaborar um cenário onde pudesse ao menos simular a sensação dos relatos dos recalcitrantes felizes. Ah, quem me dera poder saborear da brisa de um vento cálido e marinho, como a respiração fumegante das narinas da sereia, quem me dera abraçar a amante apaixonada que soubesse brindar com o vinho trácio de seus olhos a origem da diáspora de algumas pontas de metal em bronze que amalgamam os meus sentimentos tristes. E colocados aos lábios dela, os meus se fundiriam no mais amargo dos chocolates, beijos entre fendas entreabertas e resfolegantes. Apenas John Coltrane por testemunha estaria presente nesse idílio dos corpos misturados. E em extremos ancorados pela angústia de jamais possuir o melhor dos desejos, nem a melhor das vidas em fúria, quem me daria a mais intensa alegria seria aquela que me faria abandonar essa noite deprimente que me faz viver apenas pelo saque marmóreo do alheio. Um saqueador do outro imaginado, mergulhado na soturna devassidão, com as mãos nuas de seio.

venezuela

ela me fitava com olhar de lástima. parecia que tudo tinha deixado de nos obsequiar. o derrisório tornava-se fastidioso. e as penas pesavam mais do que o vento salobre do final da tarde. quase tropecei no batente quebrado de mármore italiano. a casa em ruínas me convidava a mergulhar fundo no avesso da memória e esquecer que as curvas do meu corpo tinham sido delineadas por suas mãos. o último sorriso que ela me salvaguardara, como se o carinho soprasse um vento da manhã ainda fresco, foi meio desenxabido e saltou com um muxoxo, era uma fina ironia que se desgraçava em mim.

Friday, July 17, 2009

bula de remédio

qual solução era possível? aquelas com teores fraudulentos de álcool estavam há muito descartadas. pelo menos por enquanto, eu havia conseguido me livrar delas. resolvi então seguir o conselho de um amigo que me adicionara no twitter com uma rapidez de gavião leopardo. mal pudera estabelecer a conexão, um monte de mensagens se dispunham ao meu alcance de modo milagroso. dá pra entender? pois, então, bem estive quando descobri a solução tópica de meus problemas, ou seria um só? agora nem tanta esperteza tenho para mirar essa questão. o que me vem a mente, de certo, é que, não se deve usar esse tipo de formulação. um lance que meu professor de redação me ensinou faz é tempo. Mas sem querer tergiversar demais, vou contar logo minha história. é sobre algo como uma bula de remédio que as pessoas por vezes têm pesadelos? dá para entender? de qualquer modo, encontrei a solução tópica dos meus problemas. foi algo sugerido. fiquei super feliz. imagina. além do frio desmesurado que sofri, da sede absurda que me impuseram durante tempos a fio, precisaria eu encontrar a solução mais específica de todas? pois era a ela com quem eu me avistava. fazia de conta que era daquelas caipirinhas que a gente mente de tanto fingir que tomou? se liga? pois então era isso próprio. a menina chega estava com cabelos frígidos de tanto pensar nessa aproximação que quase eu falava como sendo um passagem pelo arpoador do nosso sangue. mas estou começando a tentar ser obscuro, não é? pois não! pois intentarei reverter essa sanguínea força de distúrbios brandos que me fazem quase um ganha pão de mim mesmo. um esfrega cu de judas. mas aí já seria partir para a ignorância. de fato, foram o cloridato de lidocaína com cloreto de benzetônio quem me salvaram a vida. parecia coisa de tomar chope com amigo a tarde toda! se liga? pois bem, fui adentrando o âmago da questão, pois o filho da puta do meu professor de português que eu quis esquecer o nome do desgraçado vivia a falar assim sobre sentir algo no âmago, o frustrado se virava para conseguir alguma vida, não levava nada, nada além de vírgulas e travessões. eu levei um zero do amigo do tal que ensinava matemática. mas isso foi um caso a parte que merecia texto mais elaborado do que este que eu falo. uso adulto ou pediátrico? sei lá! estou mais para operações intravenosas de colocação no mercado de trabalho. tomara que estejam menos repelentes aos que enganam algo além de que podem ser.

Tuesday, May 26, 2009

a flor da pele

ser a flor da pele sempre foi ao mesmo tempo minha glória e minha perdição. mas ela preferia a idéia da glória e assim eu me fiz carne para atendê-la. não havia como fazer isso de modo imediato. tinha de fato horror à imediaticidade das relações. se é para ser imediato, eu fujo. torno-me assim o imediato mais autêntico. todavia, não poderia negar. quando ela me conheceu, eu estava em ruínas. era um eu arruinado, atribulado, quase malfeitor. duas décadas foram perdidas em 20 dias de aflição pelos quais os ofendidos se feriam, e os humilhados se retiravam. o meu melhor seria você, mas as bandeiras ainda estavam desfraldadas e a atenção moída pelo corropio do desejo cortado pela pedrada do orgulho. quem poderia imaginar-se em situação tão deplorável? a imaginação sofria de arritimia e o coração batia certo, sem falhas, portanto de modo artificial. eu era quase como o andróide do filme. você apaixonada por mim, inflava-se de seu próprio desejo, e assim tornava-me um competidor descartado, atrasado, incapaz de levar a frente a possibilidade da conquista. apenas quando você parava de se lamber, de escrevinhar tuas próprias falas em teu corpo, eu me via com a chance de crescer e arrebatar-te para toda a vida. Enquanto eu me virava para melhor fitá-la sem derramamento de lágrimas, ela retrucou: "seria ainda capaz de saltar e fazer as curvas com os toques de um sabio olho verde que curva-se ao desejo e curva da melhor maneira as palmas do desejo imaginativo acossado", então, eu me calei e a abracei profundamente.

Wednesday, May 13, 2009

é mesmo?

pelas beiradas, vamos escrevendo o real.

Ilhas Cayman

o que é perigoso na vida? as ilhas cayman com certeza o são. nem sei se é assim que se escreve. eu apenas identifiquei, enquanto escutava Francisco Buarque, que existem pessoas que assim se identificam. fiquei curioso de não saber se a distância é pequena a esse entorno. as escolhas são as melhores, pois são nossas. não há necessidade de dúvida nesse processo. Sacas?

Saturday, May 02, 2009

escrevendo tese

o céu desabou em fortaleza, lavou das esquinas os olhares circunspectos, pilhou das casas a desfaçatez com que se guarda banha em pó, limpou o olhar de quem vê de trás para frente. em comemoração ao torrencial a que não me opus por mérito de ser sensível aos limites do organismo humano diante das vontades de uma senhora e sua filha irascível, causei em minha pele um quê de memória escorregadia do tempo em que morava no barracão de meu pai, sem telhado, nem fissura que me aquecesse os ossos. foi assim, conquanto, que tive coragem, levantei-me e assolei duas torradas desengasgadas com suco de maracujá. escutando algo In a Landscape, livrei-me de Cage, em fuga e no café da manhã comi desejo como devir com manteiga e pimenta vermelha. quem poderia me sustentar nesse afã de escrita? nem idéia faço de mais não querer adiar a tarefa. passo a ela o turbilhão. deixo aos meus, o aviso.

Wednesday, April 29, 2009

copyleft for night

os melhores textos são os xerocados. o prazer de fotocopiar Platão e encadernar é único. A Metafísica de Aristóteles, por exemplo, chegou até mim pela xerox encadernada de um amigo. Nunca a li, mas os diálogos, eu os li todos. mesmo que a organização mundial da saúde proíba o uso indeterminado de suas informações, ainda me proponho a me assustar com a gripe aviária. Esse gripe aviária está mostrando que a China continua despreocupada com suas ervas daninhas. em seis dígitos ainda será possível captar recursos para a contrapartida dessa pandemia planetária provocada pelas galinhas do livro vermelho na mão. portanto, eis que usuário meritório dos marcadores da enunciação, gostaria de propor um x-tudo ali na esquina. bem ali embaixo, pertinho do solo onde se perde a noção das hierarquias e divergências absolutas. quereria ser carlos, quereria ser gauche para enunciar essa mixórdia de vamos lá e vamos cá que fazem de linhas, corações. e enquanto me aproprio do possível, vou enganando esse pessoal esdrúxulo que me aporrinha sem nem saber voltar para casa.

Saturday, March 14, 2009

noites insones

mais uma noite de insônia. seria a insônia uma qualidade da noite? será possível eu ter me enganado durante tanto tempo sobre isso? há dez anos, eu estaria dançando em algum lugar. então é isso? estou ficando velho. por isso que esse sentimento de acúmulo de vivências impregnou-se em mim. eu deitado na rede, na sala de casa, e as luzes do prédio alheio invadindo minha sala, projetando-se sem minha permissão sobre as paredes que, agora percebo, nunca me pertenceram por uma razão muito simples, a casa é minha mas as paredes não são minhas, são alugadas. por esses dias, precisarei ir ao dentista. meus dentes pela manhã balançam na boca e, à tarde, quando já os sinto suficentemente endurecidos para uma refeição mais ousada de picanha com salada de batata, eles se ressentem de não terem sido avisados. estou com saudade do meu dentista. ele é um cara muito legal. engraçado e prestativo, faz da situação imobilizante da cadeira de dentista uma cena de filme antigo, desses em que as imagens giram na nossa cabeça, como se o mundo fosse delirante. de qualquer modo, é melhor do que ficar acompanhando a intromissão de mãos e ferramentas, brocando dentro da boca aberta, escancarada, atemporal.

houve tempos em que minha subjetividade se percebia meio mandona, dona do mundo, no centro de tudo. nem sei mais se perdi alguma coisa em perder essa experiência para todo o sempre. algum leitor pode me objetar. mas esse cara não está escrevendo em primeira pessoa? mas é aí que está. é a facilidade do escrever em primeira pessoa que hoje me denega. é o que sinto. meu eu não está mais aqui. está em outro lugar. e não faço mais a menor idéia de onde seja esse outro lugar. talvez tenhamos que pedir ao poder público e aos estabelecimentos privados com responsabilidade social para criarem departamentos de eus achados e perdidos. pelo menos seria divertido correr o risco de entrar no shopping para comprar uma camiseta e sair com um eu completamente estranho e sinistro, falando por nossa boca como se fôssemos um títere de sujeito. o eu lá, todo intromisso, macaqueando em nosso corpo pelas ruas da cidade. íamos dar trabalho à polícia, aos médicos e todos os senhores de anéis que se esmeram em cuidar de nós.

eu não devia ter comido tanta picanha. o bolo de carne está parado dentro de mim, espreitando pela chance de se movimentar. as menininas adotaram o procedimento medicalizante da anorexia. um dia desses uma equipe de alunos e alunas fizeram um trabalho sobre isso para uma de minhas aulas. foi horripilante saber que os menininhos também cederam a isso. a anorexia agora é andrógina. não que eu seja um desses moralistas débeis mentais que ficam alardeando pelos quatro cantos o fim de deus por causa da androginia. tenho lá minhas babaquices, não muitas, é claro, ainda me resta um sentido próprio de amor ao outro, mas o que me assusta é onde a androginia está sendo aplicada. talvez fosse mais interessante termos mais arte andrógina com menos bulimia. mas acho que estou precisando ir pegar uma coca-cola zero, antes de continuar, para não descambar para um texto chulo de jornaleco, tipo desses que saem na folha lá do povo que acredita mandar na gente.

pronto, estou de volta, peguei o copão de plástico amarelo e enxi de pedras de gelo com coca cola zero. será que eles pagam algum bônus, se a gente cita o produto num texto assim da blogsfera? sei lá, está tudo tão mudado que é bem capaz de eu receber um telefonema amanhã da mega-empresa sobre isso. vixe, outro problema, esse hífen aí atrás ainda existe? não, não vou me preocupar com isso agora. são três horas da manhã e meu sono está passeando longe lá fora. mas pensando bem vou verificar ali de novo se eu desliguei mesmo o celular. não só por causa da coca cola. estou de saco cheio de celular. virou uma espécie de consultório ambulante. e como eu tenho apenas um ouvido bom, o outro é bichado, ninguém consegue falar direito comigo ao vivo se eu estiver falando ao celular. é uma coisa ou outra, sou mono. ainda bem que eu não digitei mona, pois aí o povo podia maldar. pesquisei aqui no google, mona is a free operating system com code free. legal, olha aí eu fazendo outro merchandizing pra galera do capital. enfim, o capital se subjetivou, como dizem os professores de hoje em dia lá nos estados unidos. o capital por lá se subjetivou de tal modo que perdeu inclusive a morada. foi expulso de casa. antes, a figura por excelência do capital subjetivado, era o desemprego, agora é o desemprego homeless. só falta o capital subjetivar o desejo da falta, pois o desejo da culpa já virou moeda corrente da fluidez das novas relações capitalistas.

pense numa insônia braba, fui nos estados unidos e voltei ainda com ela nos braços. mas venhamos e convenhamos, não se fazem mais churros como antigamente. apesar de que no google temos mais de 1.900.000 referências para as receitas de churros. enfim, estamos comendo os códigos. esse lance dos churros foi mais uma lembrança reprimida da infância. ou seja, outra vez me lembrando que estou ficando velho. acho que preciso ligar amanhã para minha mãe. conversar com ela sobre a velhice. mas terei de ser bem sorrateiro para ela não ficar com raiva e passar duas semanas se escondendo de mim. principalmente agora que ela praticamente virou budista tibetana, eu ir falar de velhice, não ia pegar bem. mas se eu falar da minha avó, a conversa rende 93 anos. já estou me sentindo mais novo, só de pensar. mas assim também já é manipulação demais das idéias.

acho que vou parar por aqui compartilhando a notícia boa de que o barulho das teclas acabou acordando minha mulher. ela perguntou o que havia, eu disse que estava com insônia. ela então me chamou para conversar. a voz era macia e acolhedora. vou nesssa, meu tempo de vida é promissor por esses instantes e amanhã não sei se vou caminhar na praia ou tomar uma cerveja comendo um pargo frito. que vida distante essa nossa.