Saturday, October 20, 2012
Uma carta aberta aos servidores públicos de segurança.
Emoções são portadoras de julgamentos movidos por ódio, raiva, medo...Quando forças policiais se tornam emocionais diante da absurda violência dos criminosos, corre-se o risco de elas agirem de modo criminoso. Legalidade democrática, autocontrole e consciência da missão de paz, e não de guerra, precisam sobressair, mesmo nos momentos difíceis de perda, dor e sofrimento. Se policiais se sentirem impotentes, desassistidos e desprezados pela sociedade e pelo Estado, diante da guerra suja que se instaurou entre o crime e a polícia no Brasil, este evento poderá ser catalisador da pior desrealização do Estado Democrático de Direito no nosso país. A expressão de raiva, de ódio, a vontade de vingança, de extravasar o lugar humilhante que a sociedade e o Estado vem reservando para o policial, negando-lhe direitos de cidadania plena, isso tudo é um barril de pólvora que pode resultar numa tragédia ainda mais grave do que já está a ocorrer. Nossa solidariedade diante do assassinato de policiais é decisiva, mas também é decisiva nossa adesão à concepção da missão cidadã da polícia, como um dos instrumentos de controle democrático do crime. Ocorre que sem política de segurança pública, a polícia fica isolada, agindo sob demanda, "enxugando gelo", como já me confidenciaram alguns policiais a respeito de seu sentimento diante do atual quadro de violência.
A violência armada criminal de grupos criminosos contra a sociedade e contra forças policiais é inadmissível e intolerável, mas, o autocontrole precisa ser mantido em nome da Lei, pois o desencadeamento da violência policial extralegal de cunho punitivo e vingativo, alimentando por práticas de tortura e de extermínio, contra criminosos violentos fará da polícia um grupo de criminosos violentos ainda mais perigoso pois detentor da função pública legal de promover a paz social, a missão não é a guerra de todos contra todos, a missão é a paz democrática. Com solidariedade aos policiais que tombaram no cumprimento legal, profissional e democrático da missão de policiamento de uma sociedade absurdamente injusta, desigual e individualista, lançamos o apelo para que policiais parem de nas redes sociais, e entre si, incitar população à violência extra-jurídica, extra-legal, portanto criminosa, de tipo vingativo contra os "inimigos". Não será a lógica da guerra "suja" contra o "inimigo interno" que irá trazer a dignidade esperada por todos nós para a condição de vida dos policiais e das policiais que arriscam suas vidas no dia a dia da sociedade brasileira.
Com respeito e apreço,
De servidor público para servidor público,
Leonardo Sá
Laboratório de Estudos da Violência.
Departamento de Ciências Sociais
Universidade Federal do Ceará
INCT Violência, Democracia e Segurança Cidadã.
Paixão por Monsieur Le Fouchs.
Ontem pela manhã, no curso de Ciências Sociais, iniciamos um debate instigante com o nome de Foucault. No ano passado, comemorei em silêncio os 50 anos de Folie et déraison. Um silêncio preparatório, propiciatório, para a retomada incansável de uma obra que funciona como uma granada de mão que por descuido, inépcia mesmo, deixamos o pino cair, pois não tínhamos a menor intenção de lança-la. Na disciplina Tópico Especial em Sociologia IV, Introdução ao pensamento de Michel Foucault, pusemos Foucault novamente deitado, de peito cortado a navalhadas, no centro da sala de aula. E amamos Foucault, nos deliciamos com seu corpo bruto, agressivo, impertinente, clandestino envergonhado e genial. De 8h às 12h, Foucault emergiu não como fantasma de grupo, mas como um santo, tal qual Saint Genet, de Sartre, e nos pusemos a burilar o pensamento dessa transgressão reversa que fez nascer a História da loucura. Estamos ainda tateando. Esperando as cicatrizes do corpo de fuchs sararem. De 14h às 18h, agora em Teoria Sociológica II, depois da exposição maravilhosa da Andréa Leão sobre Norbert Elias, retomamos em nossas mãos as chagas abertas do santo Foucault, vamos reler História da loucura, fazendo a arqueologia de um texto que é um corpo, que não cabe no próprio texto, um anti-Derrida, certamente. Impregnado das aulas de ontem, escrevi uma notinha rápida aí para alimentar o debate com a galera massa da graduação e da pós-graduação que está ligada no início dessas aulas que são mais queridas pelo bem querer caloroso desses pequenos bandos de anormais que somos nós.
A experiência é palavra solta no vento. A linha tensa, retesada, que suporta o objeto da experiência é um elemento cortante. Não basta sentir a possibilidade de uma quebra, a chance de que o objeto da experiência despenque do alto onde a firmeza é quase um evento incrível. Um certo peso recobre a mão. Uma certa leveza dirigível parece preconizar que tudo não passa de uma brincadeira. As lufadas se lançam contra tudo isso, indiferentes à existência do objeto, movendo-se por si mesmas, cumprindo suas próprias rotações, mas é como se tudo fosse cosmológica e intencionalmente posto para nossa experiência do objeto flutuante. O que esvoaça em nós nesse objeto frágil que paira, por vezes inerte, outrora deitado no abraço, como ferramenta de trabalho, depois de tudo, como ação livre, desprendido das mãos que o manipularam como mãos de artesão, e que, por vezes, da inércia absoluta, com seu peso e sua tensão, explode, joga-se no abismo e mergulha de testa, precipitando a frágil estrutura do objeto da experiência na mais dura dinâmica da coisa em si, na pedra, no asfalto, no chão duro, na terra batida ou simplesmente nas areias das dunas que de tão móveis semelham cortar a estrutura ao meio. E nesse ir e vir do objeto lançado ao vento, tal qual palavra de profecia, quem é ponta e quem é linha? O limite deixa de ser a ligação entre dois pontos. Nem o sujeito da experiência, nem o objeto que teima em lhe negar a precedência podem nos dizer algo sobre a tensão, quase musical, e sempre cortante, da experiência enquanto gesto de auto-posição do próprio limite. E o que desponta no limite, portando em si mesmo, causando a própria potência desse limite? Ou não haveria nada a causar, a causer, talvez, mas sem princípio, sem axioma, o único a priori, portanto, sendo o próprio limite cortante, e o acontecer do limite que se elabora pelo seu gesto. Seja o gesto do limite que explode nossa consciência, ou do gesto do limite que jamais consegue preceder a Lei, mas foge dela, acossado, em desespero de língua, de fuga de código, ou o gesto dos limites da nossa inescapável linguagem. O que faz do riso um elemento do sacrifício do eu, ou do êxtase um elemento de dispersão do sujeito, ou da comunicação um modo de aparência que nada manifesta, que não esconde, que não oculta nenhum conteúdo, mas apenas os mecanismos de ocultamento, enfim, o que seria desse riso quando se nos dirige, como um grito, como uma voz de recusa, um apelo de morte contra o absoluto, contra aquilo que nos precederia desde o sempre? Apenas contestação, sem escândalo, nem subversão? "La transgression est un geste qui concerne la limite; c'est là, en cette minceur de la ligne, que se manifeste l'éclair de son passage, mais peut-être aussi sa trajectoire en sa totalité, son origine même. Le trai qu'elle croise pourrait bien être tout son espace" (Michel Foucault).
Nem escândalo, nem subversão.
A experiência é palavra solta no vento. A linha tensa, retesada, que suporta o objeto da experiência é um elemento cortante. Não basta sentir a possibilidade de uma quebra, a chance de que o objeto da experiência despenque do alto onde a firmeza é quase um evento incrível. Um certo peso recobre a mão. Uma certa leveza dirigível parece preconizar que tudo não passa de uma brincadeira. As lufadas se lançam contra tudo isso, indiferentes à existência do objeto, movendo-se por si mesmas, cumprindo suas próprias rotações, mas é como se tudo fosse cosmológica e intencionalmente posto para nossa experiência do objeto flutuante. O que esvoaça em nós nesse objeto frágil que paira, por vezes inerte, outrora deitado no abraço, como ferramenta de trabalho, depois de tudo, como ação livre, desprendido das mãos que o manipularam como mãos de artesão, e que, por vezes, da inércia absoluta, com seu peso e sua tensão, explode, joga-se no abismo e mergulha de testa, precipitando a frágil estrutura do objeto da experiência na mais dura dinâmica da coisa em si, na pedra, no asfalto, no chão duro, na terra batida ou simplesmente nas areias das dunas que de tão móveis semelham cortar a estrutura ao meio. E nesse ir e vir do objeto lançado ao vento, tal qual palavra de profecia, quem é ponta e quem é linha? O limite deixa de ser a ligação entre dois pontos. Nem o sujeito da experiência, nem o objeto que teima em lhe negar a precedência podem nos dizer algo sobre a tensão, quase musical, e sempre cortante, da experiência enquanto gesto de auto-posição do próprio limite. E o que desponta no limite, portando em si mesmo, causando a própria potência desse limite? Ou não haveria nada a causar, a causer, talvez, mas sem princípio, sem axioma, o único a priori, portanto, sendo o próprio limite cortante, e o acontecer do limite que se elabora pelo seu gesto. Seja o gesto do limite que explode nossa consciência, ou do gesto do limite que jamais consegue preceder a Lei, mas foge dela, acossado, em desespero de língua, de fuga de código, ou o gesto dos limites da nossa inescapável linguagem. O que faz do riso um elemento do sacrifício do eu, ou do êxtase um elemento de dispersão do sujeito, ou da comunicação um modo de aparência que nada manifesta, que não esconde, que não oculta nenhum conteúdo, mas apenas os mecanismos de ocultamento, enfim, o que seria desse riso quando se nos dirige, como um grito, como uma voz de recusa, um apelo de morte contra o absoluto, contra aquilo que nos precederia desde o sempre? Apenas contestação, sem escândalo, nem subversão?
"La transgression est un geste qui concerne la limite; c'est là, en cette minceur de la ligne, que se manifeste l'éclair de son passage, mais peut-être aussi sa trajectoire en sa totalité, son origine même. Le trai qu'elle croise pourrait bien être tout son espace" (Michel Foucault).
Thursday, October 18, 2012
Quando é oportuna a denúncia e quando é oportuna a cumplicidade com os desmandos dos poderosos?
É tão interessante acompanhar a militância petista, fazendo denúncias contra o governo Cid, pois ficam requentando denúncias que as oposições fizeram, exatamente, nos mesmos termos, quando o PT estava aliado com Cid e defendendo com todas as forças, blindando de todas as maneiras, armado até os dentes, para impedir que qualquer crítica atingisse a imagem de "progresso" representada pela aliança PT-PSB. A lealdade de alguns líderes petistas ao Cid foi canina, foi lealdade cega mesmo, foi o PT quem blindou o Arialdo Pinho na Assembléia Legislativa, impedindo a apuração do escândalo dos consignados, aliás, protegendo o ex-Coordenador Geral da Campanha da Dilma no Ceará. Foi o PT quem isolou Heitor Férrer, quando este apresentou diversas críticas e denúncias contra o governador. Foi o PT quem fez a campanha do Cid em Fortaleza, sendo decisiva esta ação para a consolidação da concentração de poder da nova oligarquia. O que Camilo Santana, José Nobre Guimarães, Nelson Martins, e muitos outros tem a dizer sobre a onda de denúncias gravíssimas que a militância petista, antes silenciosa e auto-silenciada, está agora fazendo contra os Ferreira Gomes? Tanto Elmano, quanto Roberto Cláudio são representantes de um mesmo projeto. A briga foi circunstancial e política. Não digo que eles são iguais, que eles sejam farinha do mesmo saco, mas são profundamente aliados pelas ideias, pelos propósitos, pelas ações, pelas concepções de desenvolvimento e tudo o mais. O que muda é a história política, a história de poder, que são muito diversas, diferentes. Elmano e o PT são das bases, apesar de terem alianças com segmentos poderosos, mas são das bases gerenciais dos estratos populares e médios baixos. Roberto Cláudio é pelo topo, decididamente, pelo topo. Olha para os pobres de cima para baixo. Elmano olha no olho, como diz seu lema de campanha.
Fortaleza Insurgente vota nulo para afirmar o desejo por uma nova política. É um voto nulo do sim, um voto nulo para o sim. É um voto 50. 50 vezes três. É um voto 150 mil. E, além do voto, Fortaleza Insurgente, como fórum permanente de coletivos plurais, está refazendo sua própria capilaridade, sua própria heterogeneidade espalhada, que requer fazer a nova política para além das eleições. Essa é a maior vitória que se possa ter, e estamos a comemorá-la. Não somos a favor do quanto pior, melhor. Mas também não somos a favor do menos pior em vez do pior. Essa mediocrização que desqualifica o fazer político é o que combatemos com unhas, dentes e festas, pois agora temos é que festejar, festejar ações de nova política.
Saudações libertárias!
Wednesday, October 17, 2012
Conversa imaginária entre Elmano e Roberto Cláudio.
Elmano: E aí, companheiro, chegamos lá, né?
Roberto Cláudio: Sim, senhor. E agora?
Elmano: Você sabe que eu sou pelo poder popular, né?
Roberto Cláudio: E você sabe que eu sou pelo poder do povo, né?
Elmano: O ideal então seria tu cuidar do "povo" do Clube Ideal até as Dunas. Tu serias o prefeito por ali, na Regional II e eu o prefeito do Minha Casa, Minha Vida. Que achas?
Roberto Cláudio: Seria um sonho, né? Pois aí o poder popular ia ser empurrado para longe das áreas livres de Zeis que as construtoras acordaram com a gente. Se a gente livra de ocupações populares os vazios que estão reservados para os condomínios de luxo que ainda serão construídos, a gente mata dois coelhos com uma cajadada só. Vocês criam um super mercado político com o Minha Casa, Minha Vida, funcionando como um cordão sanitário da segregação socioespacial, para deixar as camadas populares se aglomerando na verticalização das favelas para as bandas da Regional I e II, fechado?
Elmano: Mais ou menos fechado. Com a Regional I ninguém mexe, pois o Minha Casa, Minha Vida no Grande Pirambu, com o Vila do Mar, está sendo um sucesso eleitoral e político para a gente. Depois que as construtoras começaram a ajudar a gente, remunerando lideranças comunitárias, ficou melhor. O limite de remuneração que a gente tinha com cargos comissionados e terceirizados já está no céu. O Renato está pegando no pé. Então, se a remuneração para projetos sociais vem direto da construtora, todo mundo ganha, né? A liderança fica "participativa" que é uma beleza. Então, fica lá com a Regional I, que só tem burguesia lá que não nos interessa, queremos mesmo é isolar uns dos outros. O apartheid pode ser uma conquista do campo democrático popular, sabia?
Roberto Cláudio: Eu não entendo disso que tu estás falando, não, mas para a gente o que importa é que os bairros dos ricos se livres daquela cambada de pobres que atrapalham a vida da gente no Meireles, Aldeota, Dunas e adjacências. Por nós, a gente mandava era plantar batata lá depois do cemitério do Bom Jardim, que a terra está bem fértil, pois como explicou o Capitão Wagner por esses dias os grupos de extermínio da PM do Cid estão botando pra quebrar em cima dos vagabundos, vai faltar é terra para enterrar, mas de arranjar terra e ocupar novas terras, isso aí é com você que é do MST. De qualquer modo, é melhor mesmo que vocês cuidem das pessoas como Lula ensinou, botando lá pros cafundós, vamos remover essas favelas tudo, né, Elmano, essas favelas atrapalhando a vida da gente na Regional I? Combinado?
Elmano: Combinado em parte. A gente remove esse povo todo mas não é para fazer essa política nojenta e fascista de vocês da burguesia não, Robertinho. Nós cuidamos das pessoas, a gente precisa de dôtorado pra isso não, basta o apoio de vocês que tem dôtorado aí a gente vai levar o poder popular para bem longe da Regional II, pode deixar, mas vamos fazer isso por que com o Minha Casa, Minha vida, o PT vai ficar imbatível nas periferias e vocês ficam seguros por aqui, mas precisam continuar a financiar nossas políticas, caso contrário a gente bota o povão pra ocupar geral aí já viu, né? Tá ligado?
Roberto Cláudio: Sim, sim, me liguei. Então vamos lá falar com os chefes, as empresas estão pedindo para a gente resolver logo isso para não atrapalhar demais o andamento dos empreendimentos imobiliários. Eu te amo, Elmano. Só vocês mesmos para conter esse poder popular perigoso e botar o ze povinho pra bem longe da Beira-Mar. Vamos para a vitória!
Tuesday, October 09, 2012
Meu amor proibido pelo PT
Ou, se preferirem, sobre minha vontade de ser mais reformista do que já sou.
Eu tenho tanto amor pelo PT, sem jamais ter sido do PT, é impressionante como os sentimentos são duradouros, não é? Não consigo passar um dia sequer da minha existência sem criticar o PT, não é amor grande não? Desde de 1988 que a gente faz oposição ao PT, não é Liduina Rocha? Oposição calorosa e estridente. Fiz todas as eleições do Lula, voto crítico. A eleição de 1989 foi uma maravilha. Fomos para a construção civil e chegando lá todo mundo já era Lula desde criancinha, não precisamos nem panfletar no dia anterior à votação. Encontrei com o Lula várias vezes. Na UFC, no Cais Bar, nos comícios, chorava de emoção, como todo mundo. A meu ver, o PT nunca se traiu. Continua com a mesma proposta desde 1988. A ruptura foi lá atrás. Nesse ponto concordo com os dirigentes do PSTU que fazem muito bem essa análise. Dizer que o PT mudou com a eleição do Lula, não creio que tenha mudado, já era o PT atual. Agora, a partir do momento, que as militâncias do PT (não todas) começam a confundir avanços do campo democrático popular (que não é propriedade do PT, apesar do PT ter liderado o processo historicamente falando), então, como ia dizendo, quando as militâncias petistas (algumas e que são poderosas dentro do partido) começam a confundir a integração marginal de indivíduos, a integração subalterna de indivíduos, fazendo o elogio das terapêuticas sociais da exclusão, adotando um pensamento economicamente neoliberal e em muitos casos anti-liberalismo político e essa crença absurda no "progresso" a qualquer custo como superação da exclusão e, finalmente, quando começaram a despejar ressentimentos contra tudo ou todos que cheirassem a "intelectual" metido a "revolucionário", desqualificando trajetos de militâncias com a palavra fácil da desqualificação desse tipo: coisa de intelectual...Ora, era no PT onde estavam historicamente as coisas de intelectual, e era uma maravilha que assim fosse. Ir para o Estoril conversar com os artistas e os intelectuais do PT era um prazer e uma aprendizagem enorme. Por que criou-se raiva de artista e intelectual por parte de alumas militâncias petistas (as hegemônicas no partido)? Enfim, já que estou falando desse amor proibido, venho dizer para vocês que vou superar o embate histórico de oposição que tínhamos com a Democracia Socialista e vou me filiar ao PSOL. Já que é um partido tão parecido com o PT, como todos dizem e reconhecem, vamos então começar a bater forte no PSOL, bater forte em nós mesmos, pois no plano nacional as coisas não estão tão legais quanto poderiam ser, quem sabe a gente possa fazer do Ceará uma campo de experimentação mais ousado do que já está sendo nesse novo cenário onde a tendência ao peleguismo é quase atávica. Como reativar as forças anti-capitalistas e anti-fascistas de modo a não cedermos nós mesmos ao caminho fácil das eleições, da democracia representativa liberal, das políticas públicas para as periferias como forma de terapia para os pobres, de inclusão marginal em mercados assalariados precários e subalternos na dinâmica do capital contemporâneo, enfim, como fazer novas revoltas que possam dar continuidade às lutas de um outro mundo possível já que nada é impossível de mudar. Saudações libertárias! E perdoem as sinceridades e brincadeiras. Sem humor e auto-ironia, a gente vai brigar é feio, né? Mas mais feio do que já está, só dois feios juntos, o roto e o mal-falado.
Monday, September 24, 2012
Escondidos de mais ninguém os velhos brincam...
Os velhos, crianças retornadas, redivivas, perdem-se nos lugares secretos onde escondem objetos corriqueiros e inúteis, cujos valores até mesmo afetivos deixaram de ter uma memória própria, uma distância, e assim brincam nos mesmos esconderijos de quando eram meninos e meninas, esconderijos dos quais não se lembram mais a que misteriosos segredos davam vazão, como fantasia pura do sensível, a não ser agora a seus corpos, ao vazio dos seus corpos, ou a parte mais esquecida deles, esse efeito pode ser encenado sem ser propriamente revivido, na frenética perda do recém esconderijo que de embuste serve a essa brincadeira titubeante, esquálida, os velhos ressentem-se de que algo perdido, não apenas a memória, se encontra naquele lugar de pura ausência e aniquilamento do eu que é o patético de estar diante de um canto de espelho a lhes espreitar, o horror da fantasia irremediável que não lhes veste mais sequer a devassidão de um rosto composto de imensos buracos negros.
Monday, September 17, 2012
PT: um mega gerenciador de recursos humanos?
Em sentido amplo, e nos termos das exigências de regulamentação para funcionamento e reprodução da ordem do capitalismo-empresa contemporâneo, o programa do PT é imbatível. Não há melhor. É melhor do que o do PSDB. Este último partido possui uma composição com gerentes de cima que estão desconectados das bases, pois mais próximos dos gerentes de cúpula. No caso do PT, a composição gerencial dos quadros está mais próxima da base da classe trabalhadora, ou seja, o PT é realmente o partido da classe trabalhadora, é um partido de massa, não de classe, todavia. Isso foi uma decisão histórica do próprio PT.
Na campanha do PT em Fortaleza, o deslocamento do tema das cidades para o das pessoas é muito significativo, politicamente e sociologicamente significativo. A cidade é historicamente bastião da resistência anti-estado e anti-capital. Cuidar da pessoa é tema de RH, é um tema que faz convergir o cuidado que a tradição sindical e assistencial do sindicalismo desenvolveu com a noção de cuidado que as empresas contemporâneas desenvolveram para dar conta do novo formato das transações organizacionais voltada para a realização do modelo da empresa (treinamento permanente, auto-responsabilidade do trabalhador diante do seu próprio aperfeiçoamento, etc).
Ocorre que a felicidade das pessoas, como objeto da política na modernidade, passa pelo pertencimento à cidade como busca de autonomia civil contra a violência patronal e a violência estatal. A ideia de comuna passa pela associação entre pessoas e coletivos livres organizados horizontalmente em redes interdependentes de cidades. "Cuidado" é política empresarial-sindical de RH.
Não existe, por conseguinte, nenhum partido mais coerente com sua própria história e com seus discursos do que o PT. Sou adversário político, mas não podemos negar a ordem dos fatos. O PT é fiel a si mesmo e apresenta o que há de mais "atual" e convergente com as forças do capitalismo contemporâneo.
O comércio não é o capitalismo. Nota de leitura mais lembrete.
A produção para o mercado empobrece a riqueza das redes comerciais heterogêneas, pois o comércio não é o capitalismo. As formas do comércio envolvem modos de cálculo, mas tais racionalizações conectadas às exigências das atividades comerciais são processos de troca com deuses estrangeiros entre si, referem-se às formas de uma socialidade politeísta capaz de se dirigir para o fora, criando traduções e organizações ecumênicas de todo tipo que não são apenas econômicas, comerciais, fiscais, mas, imediatamente também, religiosas e artísticas. O comércio é um elemento dos relatos míticos com que operam negociantes e escriturários de empresas corporativas em geral. Todavia, o comércio é um deus da transcodificação. Não suporta a subordinação provocada pelo capitalismo que se realiza, sob os auspícios do Estado moderno, produzindo desigualdades do tipo centro-periferia.
Lembrete: preciso dar uma olhada nuns trechos de Marx, Weber, Braudel, Deleuze/Guattari, Pignarre/Stengers, Samir Amin, Florestan Fernandes.
Entre o paroxismo e o anátema: o fim da linguagem dos negócios.
Uma coisa é o indivíduo ser obrigado a fazer negócios para viver, almeje ou não o lucro infinito, outra completamente diferente é o sujeito viver da apologia aos negócios, extrair ganhos da celebração da linguagem chula dos negócios. Os grandes comerciantes do mundo sempre souberam disso e concentravam, portanto, esforços consideráveis para manter investimentos em linguagens criativas que produzissem algo mais do que lixo negocial. Os melhores negociantes ou foram mecenas ou tímidos artistas, escondidos por detrás de acervos suntuosos, alimentando assim os negócios dos mercados das artes, uma forma de expiação pela mixórdia burlesca de um anti-ethos com que desabitavam o mundo. Entre o anátema e o paroxismo, preferiram, pelo menos os mais sensíveis ao problema, alimentar este último.
Saturday, September 08, 2012
Aos vencedores, as batatas!
"Se você vai escolher suas relações a dedo, com base em princípios morais, é melhor deixar este país, a menos que queira se afastar de toda a sociedade decente" (Crofts, personagem sórdido de George Bernard Shaw, tentando convencer Vivie de que a vida social é mais suja e aliada na sujeira do que ela, em sua ingenuidade, imagina apud H.S.Becker).
Só há uma falha grave na conclusão de Crofts. Ele, enquanto agente canalha de uma rede de vigarices, ligando ilegalismos populares e ilegalismos dominantes, ao fazer crer que TODOS são canalhas produz com esse efeito de crença a maior eficácia simbólica que naturaliza a presença supostamente bem repartida do canalha entre nós. E isso não é verdade, pois há concentração maior de canalhas em um lugar do que em outro, mais de um lado do que de outro, não se trata de uma lógica aritmética como as agonísticas lutas entre petistas de um lado, acusando tucanos de serem os maiores ladrões da história do Brasil e estes, os tucanos, acusando os petistas de serem os maiores ladrões da história do país. Conflito nada edificante para nossas crianças, não é?
Mas, enfim, se segmentos hegemônicos da "boa sociedade" chafurdam na lama, em acusações públicas e recíprocas, com segmentos hegemônicos das bases de "gerentes" do sindicalismo brasileiro e da "classe trabalhadora", é por que algo vai muito mal nessa história toda.
É a supressão da política que almejam. Querem transformar tudo em negociata.
Por isso, precisamos reativar nossas forças e energias em torno de uma nova política, uma política que não seja sua própria desqualificação generalizada que somente aos canalhas e aos bastardos, como dizem os australianos a respeito de seus "homens públicos", interessa.
Nada é impossível de mudar.
O negócio da "política" nos tempos de antigamente.
Antigamente, nas campanhas políticas, as pessoas relatam que havia certos comitês onde um quartinho abarrotado até o teto de dinheiro ia abastecendo o dia a dia das campanhas pelas mãos dos coordenadores. Como a montanha de dinheiro era fluxo de caixa dois, o controle financeiro era muito frouxo, e não havia cobrança sobre a destinação de pagamentos. Ou seja, era possível um coordenador de campanha fazer uma retirada de 120 mil, por exemplo, fazer a redistribuição de 80 mil e embolsar 40 mil, formando um caixa dois do caixa dois. Como as operações iam se repetindo, coordenadores de campanha conseguiam fazer rios de dinheiro em pouquíssimo tempo, e assim compravam apartamentos, carros, terrenos, faziam viagens caríssimas ao exterior e mantinham a posição de "classe média alta", sustentando várias camadas "gerenciais" de suas clientelas políticas com padrões de classe média baixa e média. Esses circuitos movimentavam em pouco tempo milhões, houve investigação da PF que apontou que num dia era possível haver movimentação de 40 a 50 milhões de lavagem, não custa ressaltar que era por dia (documentado pela PF). Os doleiros entravam em ação fazendo operações de compra e venda de dólares via funcionários de empresas estatais que recebiam com cotação oficial, vendiam com ágio seus dólares, num esquema massivo, e assim se lavavam milhões e milhões de dólares em fuga para contas no exterior. Várias concessionárias de carros importados foram adquiridas com esse dinheiro. Novas fortunas constituídas em torno dos negócios da política. E a desigualdade cada vez mais crescente. Os chamados laranjas iam enriquecendo fazendo a grilagem de terrenos públicos ou de espaços vazios na cidade, representando políticos importantes, e esses laranjas, por sua vez, iam construindo sua própria rede de laranjas, dando capilaridade ao processo de distribuição de benefícios pelas redes de clientelismo político. De modo que uma única família podia receber 90 mil reais por mês para assumir papel de laranja, um serviço prestado com valor da base gerencial de baixo, diga-se de passagem. Mas isso era antigamente, muito antigamente...
Tuesday, September 04, 2012
Desafios coletivos para a UFC
Colegas, algumas reflexões para esboçarmos os termos de uma plataforma coletiva de discussão:
Podemos melhorar ainda mais.
Precisamos buscar maneiras de termos mais atenção do que a atualmente dispensada à qualidade do ensino nas graduações e nas pós-graduações.
Professores mais experientes assumindo as disciplinas de introdução, juntamente com professores pedagogicamente mais preparados.
Precisamos também buscar nosso primeiro programa de pós-graduação nota 7 (nota máxima da Capes).
Física (física da matéria condensada) e Farmacologia , com atual nota 6, já estão a caminho.
Sociologia, Química, Matemática, Engenharia Química, Engenharia de Teleinformática, Engenharia Civil (recursos hídricos), Enfermagem e Bioquímica (programas nota 5 que precisamos colocar o desafio da nota 6 como meta coletiva).
Superar o pensamento dicotômico graduação versus pós-graduação. Integração entre graduação e pós-graduação precisa ser estimulada.
A pesquisa como princípio que unifica bacharelado e licenciatura.
Mais produção de artigos acadêmicos de qualidade. Mais recursos para pesquisas de ponta e inovação.
Superação da obsoleta divisão ciência pura e ciência aplicada, nem a favor de uma ou de outra, mas com novos paradigmas de produção de conhecimento.
Vanguarda de inovação frente aos mercados. A inovação diante do mercado, sem que estejamos a reboque de demandas pontuais de mercados, pois a universidade tem de liderar a inovação e os mercados gerarem campos de aplicação, quando possível no curto, médio e longo prazo.
Melhorar o campo das atividades extensionistas, aprofundamento das relações de cooperação com poder público federal, estadual e municipal, com movimentos organizados da sociedade civil, com a população em geral e com empresas, evitando empresariamento no mal sentido, ou seja, quando nos tornarmos fornecedores de parceiros, o investimento tem de ser feito com bases contratuais melhores do que as realizadas pelo modelo Harvard-MIT, fora disso, haverá, no mínimo, sangria de quadros para iniciativa privada e simples transferência de recursos públicos para setor privado.
Autonomia universitária e melhoria do planejamento e da gestão, reativando as formas parlamentares de debate e deliberação da democracia interna da universidade.
Convivência nos campi. Estilo de vida das universidades, como ocorre no mundo todo. O campus é uma territorialidade transnacional e pertence a uma comunidade também transnacional. Intercâmbios de cooperação científica são fundamentais.
Sunday, September 02, 2012
Tesão em mulheres feministas: uma confissão.
Eu morro de tesão em mulheres feministas. Mulheres cujas escritas de si rimam com uma política de existência livre. Trocar de condição com as mulheres feministas ao londo da vida fez de mim e continua fazendo algo mais do que um idiota, que é aquilo que o registro de poder hegemônico nos reserva, infelizmente, para que nós, os meninos, os rapazes e os homens, com tais investimentos de morte nos tornemos e para que sejamos uns idiotas inseguros bobos, desperdiçando destarte um campo surpreendente de possibilidades e exuberâncias estéticas, intelectuais, eróticas e políticas.
Os machismos que habitam em mim, contra minha vontade, contra meu tesão, só puderam ser debelados, enfraquecidos, combatidos e questionados desde o meu inteiro devir-feminista na troca com lindas e sedutoras figuras subjetivas que atravessaram de ponta a ponta minha curta, mas intensa vida, e que seja longa essa travessia, pois, desde que, aos 19 anos, pude perceber a tolice que seria continuar a ser "homem" de acordo com os padrões embrutecedores e estúpidos ensinados nas escolas, nas famílias e na caretice generalizada de um monte de pessoas estúpidas e embotadas que ainda nos ensinam o desejo de morte e o desejo de estado. Oxalá, encontremos sempre pessoas que nos convidam a celebrar o desejo da liberdade, em suas minoritárias e deslumbrantes virtualidades, pessoas que nos incitam e nos excitam a viver à flor da pele nossas próprias zonas de autonomia enquanto devires desejantes de uma campo social aberto.
Wednesday, August 29, 2012
Universidade Federal do Ceará rasgada ao meio.
A VIOLÊNCIA SIMBÓLICA DA DIRETORIA DA ADUFC, TENTANDO CRIMINALIZAR O MOVIMENTO DE OPOSIÇÃO, CHEGOU A UM LIMITE INIMAGINÁVEL DE DESONESTIDADE PARA COM OS PARES.
Se o adiamento do plebiscito é grave, mais grave ainda é a justificativa apresentada. Quer dizer que nós ameaçamos a incolumidade física e moral de colegas por querer fazer uma assembléia e um plebiscito? Ao fazer um plebiscito sobre uma questão de suma importância para nosso destino a diretoria da ADUFC cancela o evento alegando que nós, colegas, vamos ameaçar a integridade física de outros colegas?
Essa acusação é gravíssima, estão querendo nos criminalizar e nos desqualificar como se fôssemos "bárbaros" que "gritam" e ameaçam de agressão física. O que é isso, pessoal?
No desespero da falta de legitimidade e esvaziamento da conduta ética da diretoria da ADUFC, a minoria encastelada no poder está querendo transformar nossa mobilização em uma caso de polícia, é isso? As divergências políticas vão ser tratadas na delegacia policial? Que absurdo essa nota da ADUFC e os pressupostos preconceituosos e desonestos em que ela se baseia.
Quando em períodos ditatoriais no Brasil, segmentos conservadores de direita fizeram isso, estes foram acusados de fascistas por todos que fazem parte do amplo espectro do campo "progressista". Isso é grave demais! Estou consternado com essa alegação de que ameaçamos integridade física de colegas. Inadmissível "argumento" esse. Isso mostra total despreparo emocional e desrespeito para com o conjunto dos professores e professoras da Universidade Federal do Ceará.
A Universidade Federal do Ceará está sendo rasgada ao meio. Diretoria da ADUFC afirma ter recebido abaixo-assinado de colegas que temem ser agredidos fisicamente por outros colegas, usando isso como justificativa para cancelar plebiscito que foi democraticamente encaminhado dentro da legalidade institucional. Uma manobra arriscada que irá aprofundar a tensão e a crise já estampada nas manchetes dos jornais. Lamentável isso! Usar do expediente de criminalizar o movimento de oposição, criminalizar colegas, alegando que nós somos um risco para incolumidade física e moral de colegas é de uma irresponsabilidade sem tamanhos. Estamos todos/as consternados/as com essa falta de civilidade, respeito e espírito democrático cometida pela diretoria da ADUFC e os colegas que assinaram essa "acusação" contra outros colegas, acusação de barbárie, procedimento fascista de desqualificação do adversário político. Profundamente lamentável!
Deixo aqui meu veemente protesto contra o teor desta nota.
Tuesday, August 28, 2012
Greve na UFC e o esfacelamento da democracia interna: uma breve análise das desrazões.
A expansão dos campi da UFC produziu um nova realidade, uma nova composição do perfil dos quadros de professores da instituição. As mudanças no processo de recrutamento de quadros, na própria lógica social própria ao seu modo de inserção, nos trazem bons elementos críticos para refletirmos coletivamente sobre nossas relações internas.
Ninguém precisa ensinar missa ao vigário, todos/as sabemos que reflexões públicas sobre o funcionamento das relações de poder do campo acadêmico na universidade ainda são em larga medida um tabu. Falar entre nós sobre as novas hierarquizações que estão sendo produzidas com a entrada de novos quadros, entre os quais me incluo, soa como se referir às práticas de proibição e aos rituais negativos relacionados a elas, afinal é tabu tudo aquilo em que não se pode tocar, pois sancionado por forças divinas, e cuja quebra de protocolo precipita o risco do opróbrio ou até mesmo da perda da própria vida num sentido simbólico, que é o que determina o sentido da morte social.
Venho de uma geração recente cujas expectativas de realização foram duramente barradas pelas políticas de desrealização da carreira de docente em universidades públicas pelos governos de FHC. O desinvestimento na educação superior pública foi um impulsionador para o avanço de faculdades e centros universitários, para a formação desse mercado em novos moldes. Uma vez que instituições privadas de ensino superior, como PUC, baseavam-se no modelo de funcionamento da universidade pública e por isso entraram em crise conjuntamente com esta. As instituições privadas de ensino que surgem impulsionadas pelas mudanças na LDB promovida pelo senador Antonio Carlos Magalhães contra o texto de Darcy Ribeiro e com as desobrigações de investimento em pesquisa e extensão que impuseram formaram um grande mercado sob a égide dos governos federais, tanto de FHC, quando de Lula.
Aliás, os governos de Lula, que nos deram alentos em termos de recuperação da autoestima e da confiança para a retomada da universidade pública como carro chefe, tão baixas eram nossas expectativas que haviam sido vilipendiadas pelo governo FHC que passamos a dar carta branca ao governo Lula, como se tudo fosse permitido, uma vez que há uma prato de comida sobre a mesa. Enfim, independente das críticas que possamos apontar sobre as fragilidades desse processo político, Lula também atuou como agente governamental de consolidação do mercado das particulares e é muito mais querido pelas mantenedoras destas empresas do que FHC o foi.
Durante nove anos, pude acompanhar esse movimento de supervalorização de ações para consolidar o mercado das particulares, pois estive como mão de obra precarizada nesse processo, juntamente com milhares de colegas que foram lançados nos braços desse mercado como mão de obra ávida por empregos devido ao fechamento imposto às universidades públicas pela quase suspensão total de concursos públicos. Somos os deserdados de FHC, como discuti em uma conversa memorável com a colega Dani Nylin, há mais de uma década, quando éramos ainda doutorandos. Somos jovens, mas experientes nos travejamentos de trabalho acirrados e desgastantes próprios ao mercado privado, onde sofremos os mais diversos constrangimentos sociais e aprendemos a resistir para não ceder à lógica despudorada de funcionamento da empresa privada desregulamentada, fazendo todo tipo de manobra para baixar custos e o valor de nossa hora-aula, principalmente.
Há um detalhe que não podemos perder de vista. As faculdades particulares e centros universitários não produzem para o mercado, são arranjos que produzem seu próprio mercado. Grande parte do impulso que tiveram foi devido às demandas reprimidas por titulação superior na sociedade brasileira, demandas que vinham sendo barradas pela falta de investimentos na expansão da universidade pública. Neste sentido, expandir universidade pública é uma importante meta nacional, mas não podemos expandir com precarização, como foi feito no universo privado, e com a conivência do MEC, que deveria fiscalizar para garantir qualidade no processo.
Não somos contra a expansão das universidades públicas, somos a favor da expansão da universidade pública gratuita e com qualidade, sem precarização de condições de trabalho, de estudo e de pesquisa.
Nas privadas, fomos “dadores” de aulas em situação precária, durante anos não recebíamos nem mesmo férias, nem décimo terceiro, nos tempos das "cooperativas", era tudo muito instável e extremamente volúvel, garantindo o "sucesso" político do Prouni a nossas expensas. Como todos estão acompanhando, o valor da hora-aula nas particulares vem despencando vertiginosamente nos últimos anos.
Nesse sentido, quando governo Lula, com Reuni, que deu fôlego ao expansionismo, muitos colegas que estavámos nas privadas são empurrados de volta para o ninho de onde tínhamos sido escorraçados por políticas deliberadas de exclusão pelo governo FHC. Ocorre que, ao voltarmos, encontramos uma expansão realizada a qualquer custo, o que para bom entendedor, significa ao nosso custo, ao custo de nós que estamos entrando, da nossa força de trabalho e de salários que pagam a metade ou menos do que ganhávamos nas já precarizadas empresas privadas. Ocorre que já vínhamos fazendo exatamente isso nas privadas, sustentando nas costas o Prouni. Já entramos vindo da luta. Fomos demitidos de faculdades particulares por querermos iniciar novas formas de associativismo sindical.
O fosso entre colegas que estão entrando e colegas estabelecidos há mais tempo na universidade tornou-se enorme, portanto, uma vez que estamos lidando com choque entre expectativas sociais, há um componente intergeracional, pois alguns colegas titulares e associados na universidade estavam acostumados a nos ver pelas lentes cômodas de ex-alunos recém doutorados acostumados a viver de bolsas e, portanto, com baixas expectativas que favorecem a precarização que reina para os recém-ingressos. Cometeram um grave erro de leitura. Pois não perceberam que vínhamos de realidades de luta e de superexploração da nossa força de trabalho, um novo precariado, portanto.
Quando falo das divisões, não falo apenas da questão salarial que divide o professor associado do restante, mas das relações de poder e é sobre elas que gostaria de concentrar minha atenção.
A própria ideia de que a universidade deve formar para o mercado, por exemplo. Essa é uma das controvérsias mais mal formuladas e que mascara uma série de questões. A divisão entre segmentos que defendem a universidade de formação em oposição aos que defendem universidade de treinamento para o mercado é falsa e esconde outras questões. A principal questão escondida, escamoteada aí, é a de que a divisão não é entre formar competências para o mercado ou não, pois numa sociedade de mercado a formação de competência está em função das injunções dos mercados de trabalho. Trata-se muito mais de uma luta pelo poder em que se pretende definir a natureza política e a qualidade crítica dos egressos da universidade. Para o mercado ou para a vida são duas posições antagônicas, grosso modo, que revelam que para além das discussões sobre competências e habilidades há uma luta política pela definição do perfil do egresso, em termos de produção de subjetividade do egresso e de nós mesmos. Estaríamos formando egressos que desejam o mercado e o estado, que desejam serem vencedores de sucesso, se inserindo nas zonas intermediárias de camadas gerenciais do capitalismo contemporâneo, ou estaríamos formando egressos que irão, pela perspectiva crítica, dificultar o travejamento das relações empresariais enquanto paradigma societário?
Ou seja, a real oposição é entre desejar “o sucesso, o dinheiro e o poder”, como dizia Freud, no início do Mal estar na civilização, ou então, desejar autonomia, emancipação, democracia, liberdade e criatividade, como diria Paulo Freire, um autor reverenciado na Universidade, muitas vezes, para ser expurgado tacitamente.
E engana-se redondamente quem associa de modo mecanicista e determinista o egresso que deseja o desejo do Estado e da Empresa e o egresso que deseja a partir de uma recusa ativa desse desejo de Estado e Poder, conectando como se os bem-sucedidos seriam os de adesão fácil aos modelos hegemônicos e os que resistem ao imperativos do capital seriam formados pela massa falida. Existe no mundo contemporâneo uma relação estreita entre “competência” e recusa ativa das escravidões do mundo contemporâneo ligadas ao funcionamento da vida social como empresa de crédito, ou seja, baseada no principal mecanismo da dominação contemporânea que é o da dívida, do endividamento, e sobre isso seria importante realizarmos uma discussão pública sobre a relação entre professores/as e empréstimos consignados descontados na folha. Essa máquina estranha de dominação que afeta nosso ambiente interno de modo quase invisível. A grande maioria de nós que estamos entrando agora já estamos endividados nos consignados, pois precisamos bancar a transição da empresa privada para a Universidade e as defasagens que encontramos em termos salariais entre um ambiente e outro.
Do ponto de vista específico da composição da renda, informalmente, há tendências na universidade que apontam como solução de salários baixos face ao perfil de exigências de qualificação que nos são demandadas de realizar a complementação de renda com consultorias e assessorias para governos e empresas, um modo de gerar aportes financeiros individuais compensatórios, que são também aportes de poder e status capturados no processo de empresariamento da nossa mão de obra e capitalizados para as hierarquias internas, deixando assim o salário recebido na universidade como secundário diante desses aportes e como secundária a própria atividade na universidade.
E não esqueçamos, isso é feito, o empresariamento, usando o enorme capital simbólico e intelectual que esta inserção possibilita ao se acionar recursos da massa crítica universitária pondo-se a serviço dessas consultorias e assessorias públicas e privadas, algumas dentre elas bem escusas e que ferem os princípios republicanos do bem comum.
O pertencimento à UFC é primário, é decisivo, é fundamental para a mobilização de serviços de consultoria e assessoria, bem como outros tipos de empresariamento da nossa mão de obra, mas a função da universidade passa a ser derivada, o que esvazia politicamente o sentido da nossa posição.
Claro que não há aqui uma condenação tout court das consultorias e assessorias, havendo inclusive decisões da administração superior de regulamentação de fato, a partir de algumas diretrizes tomadas desde a década de 1990, disponíveis no site da UFC disciplinando esse tema.
Do ponto de vista da reprodução da força de trabalho na instituição, precisaremos desenvolver pesquisas empíricas capazes de nos devolver dados que problematizem a nova configuração das relações de trabalho na universidade e, em especial, estudos que possam fazer a sociografia do novo perfil do professor e da professora. A pergunta de partida seria "como novas hierarquizações de poder estão sendo produzidas pelas práticas atuais de expansão, de intensificação do trabalho docente e nas relações com mercados de poder e de dinheiro?"
Pelo que podemos depreender de conversas com colegas de outras IFES, os temas que estou apontando de maneira ligeira aqui podem ser pensados como extensivos ao plano nacional.
O campo acadêmico é um dos campos de poder mais refratários a se deixar analisar pelo mesmo tipo de análise com que opera para analisar outros campos de poder, isso todos nós estamos conscientes.
Há uma forma de classificação que opera a partir de conversas cotidianas entre colegas na universidade que é reveladora de uma divisão que gera um princípio de visão sobre o funcionamento do nosso mundo social: trata-se da oposição simbólica entre “alto clero” e “baixo clero”. Lugar e santificação são os procedimentos dessas classificações. Lugares de poder que buscam a santificação de um modo que não se traia ideias caras aos ideais de funcionamento do campo acadêmico, como: democracia interna e pluralismo.
Tenho percebido que nas relações com o campo do poder (governamental e empresarial) colegas estão sendo classificados informalmente pelo termo “amigo da gente" (fala de assessores de governos). Por exemplo, quando um professor da universidade faz críticas públicas a ações de governo, pode receber (e recebe com frequência) telefonemas de assessores de governo perguntando se o professor não é mais “amigo”, se está deixando de ser “amigo da gente".
Ingerências dos governos estaduais no âmbito da universidade federal precisam ser discutidas publicamente. E há vários níveis de ingerência política que podem ser observados. Há, por exemplo, jogo de indicação de cargos semelhante, pelo que tenho lido nos jornais, ao que está acontecendo no BNB, e há indícios de que isso também vem acontecendo na administração superior da UFC. Deputados influenciando na distribuição de cargos, relação de submissão e subserviência política da UFC diante de governos estaduais, entre outras dinâmicas de poder político, que são apenas discutidas em círculos pequenos e a boca miúda nos recantos da instituição. A própria anexação de segmentos docentes a lógica de luta pelo poder dos atores sociais às ansiedades referentes ao comando da administração superior revela o tamanho do problema.
Do ponto de vista das classificações políticas de assessores do campo governamental estadual, por exemplo, pode-se observar que na UFC os professores e professoras são divididos entre quem são “amigos” e quem não são amigos do governo e das empresas. Esses termos não são utilizados na esfera pública, mas certamente em espaços públicos miúdos, de pequenas reuniões e encontros, são termos informais operacionais e operatórios do tipo de divisão que se estabelece no âmbito da universidade. Outra divisão que também opera como princípio de visão e quem vem sendo uma fonte considerável de conflito, de luta, competição, agressão moral e divergências políticas passa pela divisão entre “licenciatura” e “bacharelado”, que é só uma maneira mascarada de outra oposição entre “graduação” e “pós-graduação”. Efeitos de hierarquização fomentados pelo produtivismo acadêmico estimulado, o caso das relações entre Pró-Reitoria de Graduação e Pró-Reitoria de Pós-Graduação evidenciam isso: entre a competição e a cooperação, a administração superior virou lugar de luta encarniçada pelo poder para se haver com o campo do poder de fora, dos governos e das empresas.
Entre os vários temas que poderíamos listar para que pudéssemos fazer um debate sindical mais atento às questões internas, estariam:
a) O Projeto Casa e o estágio probatório. Entre ideais e práticas de poder.
b) Adoecimento docente, insultos morais, assédio moral.
c) Relação desumana com terceirizados das equipes de limpeza, zeladoria e segurança.
d) A loucura cotidiana dos carros e dos estacionamentos. Na contramão da mobilidade urbana. A questão da segurança nos campi. A reprodução de critérios alógenos nos modos de organização da vida acadêmica e universitária.
e) Banheiros trancados exclusivos versus banheiros de livre acesso sujos e abandonados. Papel higiênico nos banheiros e água potável para beber.
f) A vida cotidiana na universidade. O campus enquanto campus de convivência.
g) Participação de professores e professoras em rituais de comensalidade no restaurante universitário (ausência de convivência).
h) Usos das bibliotecas e renovação do acervo. Força tarefa para isso.
i) O departamento como parlamento e a relação de departamentos com faculdades, centros e administração superior. A destituição da dimensão parlamentar dos departamentos nos campi do interior. Os colegas do interior estão sem departamentos constituídos, isso fere a base da nossa autonomia.
j) A despolitização da política acadêmica e a tecnocracia.
l) Consultorias e assessorias para campo governamental e empresas privadas. Relação da Universidade com interesses de mercado induzido pelo campo governamental.
m) Papel de avalista e de legitimação de empreendimentos privados e públicos. Caso do Estaleiro, das Remoções para a Copa, do Aquário, da Segurança Pública.
A nossa derrota sindical diante do governo se tornará em derrota política, uma vez que a vida interna se tornará infernal com tantas distâncias e tamanhas incertezas.
Mas não sou pessimista, precisamos nos solidarizar para pensarmos coletivamente os encaminhamentos menos prejudiciais para nossa unidade interna.
Os colegas mais experientes só não podem continuar pensando que "os meninos", o "baixo clero", como alguns segmentos nos classificam, somos menos colegas do que outros. Afinal, estamos todos e todas trabalhando duro e com afinco para honrar a excelência acadêmica de uma instituição central para a vida democrática do país.
Saudações acadêmicas!
Monday, August 27, 2012
Sobre greves nas Universidades Federais: uma reflexão pessoal.
Queridos/as amigas e amigos,
Quando eu trabalhava no setor privado (faculdades privadas), a maior alegria era o lugar de relação humana que conseguíamos gerar com estudantes em sala de aula. Vivi experiências maravilhosas. Aprendi muito também sobre planejamento e gestão acadêmicos com colegas que estavam em posição de coordenação. Mas como no setor privado não há investimento em produção de conhecimento científico e as atividades extensionistas são sempre boicotadas pelos dirigentes com a finalidade de cortar custos, esses dois pontos faziam da experiência da sala de aula com alunos e alunas o ponto forte da realização profissional. Mas os livros, os artigos, os projetos de pesquisa, a dedicação à excelência acadêmica nas três dimensões que fazem o tripé do conceito de Universidade (pesquisa, ensino, extensão) só pude encontrar quando adentrei no universo das IFES. Apesar de no setor privado ganhar o dobro do que ganho hoje na UFC, e apesar de não cumprir mais apenas 40 horas semanais, uma vez que na UFC, apesar de ser DE com 40 horas, eu trabalho 60 horas, como a maioria de meus colegas, que usamos quase todos os sábados e domingos para produção acadêmica (os nossos currículos lattes são de consulta pública e evidenciam essa produtividade), ou seja, apesar dos pesares (do salário baixo, da carga horária superior, de sistema de avaliação, monitoramento e prestação de contas mais rigoroso, etc), é uma grande alegria poder fazer parte dos quadros de uma Universidade Federal. Forte motivo de orgulho e realização profissional. Orientar teses, dissertações e monografias, realizar pesquisas, publicar livros e artigos, participar de trocas acadêmicas internacionais, conviver com pessoas (estudantes e colegas) apaixonados pelo saber, enfim. Tudo muito interessante. Será que é por isso que estamos sendo punidos? Estamos sendo punidos por sermos altamente produtivos e também realizados no trabalho?
Quando ouço por aí pessoas (e até estudantes nossos) falando que os professores são "preguiçosos", ou que não entendem da realidade real, etc. Fico me perguntando de onde estão tirando essas afirmações equivocadas e errôneas sobre nós, de onde estão sacando esses preconceitos e no interesse de quem.
Sem ciência e tecnologia de ponta, sem formação altamente qualificada de recursos humanos que as graduações e pós-graduações das universidades federais oferecem, haveria como sonharmos com liberdade, desenvolvimento, soberania e um país justo e igualitário?
Saudações acadêmicas!
Post Scriptum:
"O Ipea avaliou a evolução da diferença de produtividade entre esses dois setores entre 1995 e 2006. “Em todos os anos pesquisados, a produtividade da administração pública foi maior do que a registrada no setor privado. E essa diferença foi sempre superior a 35%”, diz o presidente do instituto, Marcio Pochmann (foto). “Há muita ideologia e poucos dados nas argumentações de que o Estado é improdutivo, e os números mostram isso: a produtividade na administração pública cresceu 1,1% a mais do que o crescimento produtivo contabilizado no setor privado, durante todo o período analisado”, acrescenta." Carta Maior - Economia.
Relato de uma briga por causa de greve
RELATO DE UMA BRIGA ENTRE UM ALUNO E UM PROFESSOR POR CAUSA DA GREVE, quase deu em morte e a culpa ia ser da Dilma, se não, vejamos:
Existe um raciocínio alimentado por segmentos do governo e da sociedade que o professor da universidade está reclamando diante de um quadro onde o trabalhador brasileiro em geral está em situação muito pior. Ou seja, tentam deslegitimar nossa greve com esse tipo de argumento. E o pior é que cola, sabe! Um dia desses um aluno me abordou dizendo que não entendi como eu estava de greve se eu ganhava dez vezes mais do que ele. Ele que ganhava 600 reais líquido e eu que ganhava 6 mil reais líquido. Aluno de militância de esquerda, certo? Ou seja, pró-governo de esquerda do PT. Aí nesse caso eu confesso que fiquei com raiva e meu lado educador foi pra cucuia. Disse assim para ele: pois vamos fazer o seguinte, enumera dez tarefas do teu trabalho e eu vou fazer o mesmo, a gente troca durante um mês. Você cumpre as minhas dez tarefas e eu cumpro as suas dez tarefas. Vamos colocar no papel. Pedimos uma cerveja e fomos ao desafio. Cada tarefa minha ia render para ele 600 reais e cada tarefa dele ia render para mim 60 reais. Era essa a base de troca imaginária. Eu assumi todas as tarefas dele e ganhei 600 reais dele. Ele não tinha qualificação, competência, titulação, treinamento, formação, etc. para assumir nenhuma das minhas tarefas, ou seja, perdeu a oportunidade de ganhar 6.000 na moleza, falei para ele, com ironia, misturada com raiva. No final, como vi que ele ficara cabisbaixo, se sentindo humilhado, e era a minha intenção humilhá-lo, para deixar de ser abestado na defesa do governo do PT, resolvi ficar bonzinho de novo, aí falei, colocando a mão no ombro dele e pedindo nova cerveja: -- Meu caro, deixa que eu pago essa, ok! Mas, por favor, avisa lá pro teu governo que abolir a hierarquia trabalho intelectual e trabalho manual só no socialismo, pois no capitalismo, isso vira balela, beleza? Aí citei um trecho do Capital sobre isso e começamos uma aula gratuita, regada a cerveja sobre as condições capitalistas de exploração econômica da classe trabalhadora e como a divisão social do trabalho funcionava como condição histórica disso tudo. Saímos bêbados e felizes pois a Universidade nos aproximou naquele momento de troca humana, enquanto chorávamos nossos leites derramados. Ele, o leite derramado de um proletário fodido de explorado até a alma, e eu, o de um proletário fodido de explorado até a alma.
As pequenas mãos em assistência ao trabalho de dominação
Historicamente, certas frações e segmentos das camadas médias usaram os períodos eleitorais como forma ou de compensar perdas financeiras, patrimoniais e inflacionárias ou de obter ganhos financeiros e patrimoniais. Além da luta por obter prestígio, de um ponto de vista estritamente econômico e financeiro, o "apoio", o "voto", a "militância" foram tratados como mercadorias políticas em troca de favores e de recursos de diversos tipos.
Trocando em miúdos: período eleitoral para esses setores de classe média sobre os quais estou me detendo aqui significou possibilidades de ganhos simbólicos de poder e prestígio e também materiais, que podem ser evidenciados pelo "carro novo", pela quitação ou aquisição de novos imóveis, viagens para o exterior, ou seja, ganhos financeiros e patrimoniais alavancados pelo "trabalho" realizado em troca de alta remuneração para campanhas milionárias, sem falar nos cargos, consultorias, assessorias, projetos e outros mecanismos remuneratórios que são obtidos no pós-eleição pela ocupação da máquina de gestão pública.
Em Fortaleza, por exemplo, "trabalhar" para as campanhas milionárias é um modo muito rápido para a realização de poder aquisitivo e patrimonial imediato. Cálculos tímidos podem ser feitos. Um quadro técnico com alto nível de escolaridade, um quadro de colarinho branco, pode abocanhar de 6 mil até 20 mil por mês, líquido, dependendo do nível de comprometimento. Em três meses de campanha, é possível juntar um patrimônio líquido de 60 mil (um carro novo), se o sujeito for tímido, se não for arrojado, pois sendo arrojado essas somas saltam a patamares inefáveis.
Uma das tarefas destas pequenas mãos de classe média de colarinho branco é o de aliciar outras pequenas mãos da mesma classe para aderir ao trabalho de dominação em prol de campanhas milionárias, envernizadas com discursos ideológicos das velhas e novas esquerdas paradoxalmente "neoliberais do neodesenvolvimentismo", que colegas cientistas políticos me perdoem o arrazoado neste sentido. Em nome do "progresso", todo tipo de negociata, muitas vezes envolvendo atos espúrios, se realiza sob os auspícios da plutocracia que se apoderou da vida política no país, despolitizando-a. Quando colegas começam a comentar no dia a dia o tipo de proposta que estão recebendo para trabalhar nas campanhas milionárias, e como são tentadoras, e como são cínicos na malversação da moral pública os outros colegas aliciadores, vamos percebendo que a tentativa de fazer da política uma máquina de investimentos de dinheiro, de sucesso e de poder tornou-se um estilo de vida para muitos projetos individuais de ascensão social.
Colegas formadores de opinião e eleitores de voto múltiplo, se estiverem se sentindo excluídos, adotam estratégias discursivas de forte oposição às gestões e assim logo começam a aparecer propostas de captura. O famoso cala a boca, que pode vir na forma de cargos, consultorias, assessorias, projetos, etc, como já disse acima. De um dia para a noite, colegas que estavam a vituperar contra os governos passam ao silêncio omisso ou ao elogio bajulador. A transformação é rápida, e todos notam o impacto que dinheiro no bolso, que liquidez na conta corrente, mas, principalmente, a imitação do estilo de vida dos endinheirados traz para os vendilhões do templo que são as pequenas mãos que se engajam no jogo sujo do período eleitoral.
Mas não nos deixemos ficar pessimistas, pois nada é impossível de mudar! Outro mundo é possível. Apenas precisamos estar do lado certo nesse campo de luta que é o lado da democracia real, a vidas social libertária e igualitária que almejamos e desejamos, contra a podridão do que aí está a transformar a cidade em mercadoria, atuando como mercadoria no mercado do trabalho de dominação, que desejam o desejo da morte, através das valorações vazias e neuróticas em torno do dinheiro e de suas fantasias.
As militâncias reais são compostas por nossos desejos de liberdade. E desejos de liberdade produzem o real estado da luta que abraçamos. Somos muitos/as. Sejamos mais, nos multipliquemos. Quem é de bem, quem é de luta, quem é da base, escolhe o lado certo. Vamos que vamos.
Armados até os dentes
Como professor, eu tenho um imenso acervo de "armas" na minha casa. São quase três mil armas. Armas de filosofia, história, pedagogia, de antropologia, de sociologia, de linguística, de literatura...enfim, armas de todos os tipos de calibre, armas de fogo, armas brancas, armas de alta precisão. Afinal, como diz Ani Franco, na epígrafe da arma feita por Michael Hardt e Antonio Negri, "sabendo portá-la, toda ferramenta é uma arma". Vou me armar um pouco com uma "faca" maravilhosa que estou usando no momento, de autoria de Paul Auster, um dos melhores fabricantes de facas militares do mundo, e volto para o FB depois que acabar de usá-la, faltam apenas 90 páginas, a adrenalina está a mil, é uma faca chamada Leviatã, muito empolgante. Abraços colegas de armas.
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