Monday, November 20, 2017
Desabafos da vida
E quando aproveitam que você está com filho pequeno para lhe acusar de baixa produtividade e tomar suas posições? Se isso acontece com homens pais, imaginem com as mulheres que são mães, que a cobrança é elevada à enésima potência. Cansado também de supermachos, que são pais ausentes e vivem de desejo de poder. E, muitas vezes, nem sempre são tão produtivos quanto se pintam. Vivem de inflacionar a própria imagem. Organizações dominadas pela hipercompeticao de supermachos são uma merda.
Wednesday, November 08, 2017
Tudo ou nada?
O mergulho total em qualquer coisa é uma besteira enorme. Nada é total. Tudo é nada. Esse lance de querer totalizar a experiência é tão problemático quanto querer fragmentá-la. Entre paranoia e esquizofrenia, prefiro o caminho que se inscreve diretamente no real quando se foge das antinomias e das alternativas infernais. Tudo ou nada? Essa questão precisa ser superada, mas não por uma forma de meio-termo fajuto, que aposta as fichas numa postura de docilidade adaptativa ao que aí está. O mais difícil é lidar com o vazio sem por isso se basear num desejo do vazio. É como lidar com o pleno, sem desejar o absoluto. O problema não é o vazio, é cair nele ou desejá-lo. No primeiro caso, é perder a relação com a loucura. No segundo, é neutralizar quaisquer potências da existência. Outro problema é lidar com o tudo. Se confundir com o tudo é um ato de pura arrogância. Manter uma relação com o tudo pode ser uma proteção, mas beira o desejo de onipotência desse tudo. Certa inveja da onipotência do tudo, de sua suposta onipotência se faz uma onipotência delirante de quem sente medo mas não quer mais.
Wednesday, October 18, 2017
Urgência é pânico.
Entro em pânico quando me dizem que algo é urgente sem ser. O crime, a loucura e a morte. E um cafezinho com bolacha. A única janela do conjugado dava para uma parede.
Os barões do crime
Os barões do crime não assinam como "o crime". A ralé que venceu no crime deixa de lado tal assinatura. Assina com doutor, como senador, como deputado. Muda a assinatura. Quem usa arma de fogo e assina como "o crime" é a ralé subalterna. É o crime que não pode se chamar de outro nome. É o crime que não dispõe de capital político. Tanto é que quando crescem no crime, param de assinar como "o crime" e passam a mimetizar o andar de cima, com seus votos, advogados e empresas, lavando as assinaturas do passado criminal, e iniciando trajetórias superiores no mundo do crime, ou seja, do Estado, pois não há crime organizado, por definição, que não seja de cunho estatal, envolvendo o sistema de corrupção inerente ao funcionamento do Estado moderno. Isto é uma opinião. Não é uma análise. Apenas minha opinião. Não falo em nome da Ciência. Nem em nome da Verdade.
Thursday, September 21, 2017
Reclamões de plantão.
Tem gente altamente qualificada (doutores) que passa o dia reclamando no FB que não tem oportunidade de trampo. Que tá tudo fechado, etc. Enquanto isso, uns quatro ou cinco quadros, formados, cronologicamente, depois da pessoa reclamona, já assumiram vagas de trabalho que o sujeito que reclama sequer se dignou a concorrer. Assim, é foda, né? Desonestidade tem limite.
Tuesday, September 19, 2017
éticas
Buscar gozar de modo ilimitado sem uma ética do sacrifício em relação com uma ética do desejo é uma furada. Nesse ponto, sou 1950. Era uma década com reflexões mais avançadas do que a atual. Aprender a lidar com a repetição dos trabalhos e os dias, com a restrição tremenda que essa repetição traz aos nossos anseios, é levar a sério que o desejo é uma forma de trabalho. E que muitas vezes as ocupações que temos não têm nada a ver com o trabalho do nosso desejo. Lidar com o horror, com o vazio. Com as escolhas erradas. Com o sentimento de falta de escolha.
Thursday, September 14, 2017
Frases da semana
A ansiedade de absoluto é o sintoma mais drástico da falência dos órgãos do pensar. A deterioração da memória é um modo bem específico de envelhecimento do corpo. A literatura não é apenas uma distração. É uma poética. Também uma terapêutica.Prefiro a terapêutica à poética. A poética é coisa de macho. Não curto. As coisas simples da vida me dão alergia de morte.
Tuesday, September 12, 2017
Pensamentos? Esparsos?
Cada família gira em torno do seu destrambelho. Somos escravos da linguagem. Lutar contra a linguagem é o ponto de partida. Gente de igreja carece de deus no coração. Olho para a biblioteca. Não terei tanto tempo assim. Entorno um café. Volto a ler. Sonata para piano, n. 28, opus 101, em lá maior. Segurança, ordem e felicidade. Um mercado de crenças. Quem for capaz de ofertar estabilidade, irá ser a bola da vez no mercado das crenças. Não há felicidade além da morte. A realidade é a presença infatigável da dor. É inclemente. Obtusa. Nem mesmo o silêncio são capazes de atentar. Não há mundo aterrador que o suporte.Estar meramente vivo, uma agonia sem fim. Uma desdita sem tamanho. Confrontar o espaço vazio. Uma relação com a loucura enternece. O vazio só é brutal. Distante da morte, não há potência no amor. Pessoas expressando ódio não estão demandando esclarecimentos. Há uma ansiedade generalizada diante da erosão das fontes de certezas. Todo amor tem preço. O preço do seu sofrimento. Afinal, qual o melhor lugar para morrer, na terra ou na água? E nada mais do que sua inclemência, um salto no irrespirável, pura fome. A cada dois reais, engolia uma vela acesa; que se lhe derretesse sem vestígio. O real disposto em camadas. A mais suave escondia a que lhe cortava submersa. A linguiça reaquecida, esturricada, crocante, lhe lembrava de suas perdas. Nem a porra de um promontório mais havia para lhe avivar o acre como fantasia. Uma cidade repleta de miseráveis, mesmo com os apetrechados. Abundante no vazio. Escondiam o segredo de que bem poderiam não amar ninguém. Um horror. Tinham perdido a capacidade de sentir esperanças. Não atinavam mais com nada. O fracasso oferecia a mais promissora ocasião para a emergência de alguma virtude. Seu maior objetivo na vida era poder renunciar à realidade. Já não sentia o desespero de seus rendimentos normais decrescentes. Pudera torrar a última nota de 20 reais em cerveja, assim, desgraçado, o faria. Uma pessoa que quase nunca atropela a agenda dos outros está a enviar recados, não? Nova versão da "tolerância": "respeito muito você, mas você não deveria existir". Agressivos apontam a agressividade do outro. Take a look at yourself, bro! Confessar e denunciar. Confessar e denunciar. O mantra moral contemporâneo.
Friday, September 01, 2017
Na profunda escuridão...
As pessoas que mais sofrem de ansiedade de status são aquelas que menos exigem de si mesmas. As pessoas que mais querem surfar no gozo ilimitado, esse imperativo do supereu, são as que menos fazem bem-feito o trabalho do desejo. Continuo achando que uma ética do desejo não funciona muito bem sem uma ética do sacrifício. O desejo não é uma abdicação, um abandonar-se, mas é o núcleo forte de um desejo que trabalha para desejar o desejo, fazendo do sacrifício uma história do corpo. A individuação e o deslocamento daquilo que ela enquadra exigem compromisso ético com a alegria e com a dor. Mas me percebo cada vez mais antiquado. Mesmo assim não desisto de mim. É na luta contra mim que algo faz sentido. Um luta que passa pela muito trabalho que merece o deleite de nosso desejo, da lei do nosso desejo, na forma de conquista de liberdade e prazer, enquanto o corpo erode, mergulhando na profunda escuridão de onde não há de sair.
Friday, August 25, 2017
Lugares públicos.
As pessoas jovens costumam expressar alegria forçada quando estão em público com suas patotas. Principalmente, quando se sabem observadas.
Tuesday, August 15, 2017
Contra o lugar do Pai eterno
Assumir o lugar do pai . E se fazer um pai contra tal lugar. Não creio no pai. Meu delicioso tormento nasce da negação de que para ele tudo é possível. Na ignorância de estar perante o pai, ponho-me fora da condição de pecador. Sou apenas leviano, um pagão leviano, que somente leva em consideração as medidas estritamente humanas. Os pais são simplesmente humanos. Animais humanos mergulhados na universal precariedade. Nada de pai eterno. Nada de eu eterno. Apenas, pais. Nada além d'Isso.
Friday, August 11, 2017
Na medida do meu desespero
O único lugar onde me sinto instado a morrer para o mundo é em um pé-sujo, na companhia de absolutos estranhos. Todos irmanados na miséria de tentar em vão matar a palava de Deus, afogando-a numa dose de qualquer beberagem vagabunda. Fora disso, não há encontro possível com a iluminação. Minha fé não é apenas cega, é também mouca e crivada de balas. Um eu que vale por uma peneira.
Porra nenhuma!
Entre 2008 e 2012, minha vida financeira era uma merda. De 2009 para 2010, perdi 50% de renda, por exemplo. Quando entrei para o serviço público. Hoje, também. De mal a pior. O que não entendo é como tanta gente ostentava no período anterior. Eram ricos e ficaram pobres? Pra mim, mudou porra nenhuma. A mesma coisa sempre. Aliás, empobreci um pouco mais. Um pouquito. Mas estou mais lido. Sem grana no bolso, a gente lê mais. O segredo para compor um país de leitores seria então pouco churrasco e viagem, liseira, e muito livro em bibliotecas públicas? Será? A ostentação parou um pouco. Era demais da conta. Acho que a crise é uma punição de Deus por causa da muita ostentação que houve. Mas mesmo assim ainda tem alguns poucos ostentando sem parar. Tenho é medo. Aliás, meda. Me torno uma pessoa pior a cada dia. Só tenho a agradecer a Deus por isso. Querer ser melhor é contra a vontade de Deus.
Friday, August 04, 2017
Um jogo de despedidas
É um estultice continuar a alimentar esse narcisismo de terceira categoria. O que me acomete é menos uma doença, é mais uma despedida. Jogo despojado de poder.
Livros extraviados
Será que gostaria de realmente saber aonde foram parar os livros que não mais me pertencem? Ou será que ainda me pertencem e estão apenas extraviados, como que sequestrados permanentemente? Mas, de qualquer modo, não há mais frestas vazias nas prateleiras, se bem que poderiam ficar derramados, tranquilamente, deitados ao chão. Quem sabe um xícara de café virada pelo pé torto os destruísse, ou, pelo menos, dessem esse pretexto que me obrigasse a lhes conceder um saco de lixo preto como destino.
Devir-lixeiro
Ler, estudar, pesquisar, de modo sistemático e ao longo da vida inteira. Qual o desejo inconsciente dessa criatura? Ser lixeiro. Por meio da análise do lixo, pode-se fazer uma interpretação profunda, histórica e sociológica, sobre a configuração sociocultural de algum coletivo. Queria ser lixeiro e acabei virando analista do lixo sociocultural e histórico. Um tipo de arqueologia.
O fim do corpo
O corpo. Essa carcaça. Um sentimento de precariedade absoluta. A morte como alegria. Estalidos, batidas - tormento. Não pertenciam ao fora, estouravam de dentro. Como um cadáver de bicho quase a espocar o bucho sob o sol do sertão. Estreitava, a cada passo, a picada. Braço doído. Clarão no olho. Céu sem nuvens. A retina recusava a forma normal dos objetos. Havia-se qual máquina. Um cipó quase o degola. Era uma armadilha. De chofre. Inútil. Sem fim. O corte no calcanhar abria e fechava, refazendo o macio da lâmina. Latejava.
Wednesday, August 02, 2017
Sobre a decência
De um sistema de dominação e espoliação, pode-se esperar alguma decência? Quem é o portador da decência quando o reclame generalizado de pessoas de bem alimenta o mais vil e torpe sistema de tortura?
Nem a mim mesmo
Não me sinto em condições de salvar ninguém, nem a mim mesmo. No máximo, consigo proteger com alguns golpes de força bruta aqueles a quem amo. Mas o que ocorrerá após a fadiga? De onde partirá a palavra de ordem que condenará meu corpo ao absoluto silêncio?
Wednesday, July 26, 2017
O corpo abolido.
Do corpo abolido, restava apenas uma réstia do que lhe fora intensa fuga. Manter uma relação prática com o espaço vazio ao longo de toda uma vida sem virar cliente de igreja não é pouca coisa. É um balde cheio. Cheio da coisa. E o fundamento da coisa toda é um atitude não prática com essa relação prática que garante porra nenhuma. Mas garante a certeza de garantir quase nada sem pagar dízimo. O que há de pior sobre as perdas é que quase sempre se pode perder ainda mais. A consciência do nada não lhe trazia benefício, senão o de não cair no vazio. Uma vida sem credulidades exige certa coragem com um tanto de tontice, mas se pode dizer que a tolice é consciente de sua tolice, pelo menos.
Tuesday, July 25, 2017
Não há mais interesse...
De cada 10 crianças e adolescentes (até 14 anos) nordestinos, 6 estão em situação de pobreza. Somente no Estado do Ceará, há 1 milhão e 200 mil crianças e adolescentes na pobreza. Uma sociedade que abandona sua infância, relegando-a às zonas de abandono social, excluindo-a do acesso a uma vida boa e digna, é uma sociedade composta por sentimentos de crueldade dirigidos contra os mais fracos, ou seja, sentimentos impregnados de covardia e ódio de si. Uma sociedade violenta que não reconhece sua violência, apenas se pensa como vítima da violência. Um misto de sentimento de culpa com cinismo. Uma mistura de autodestruição com indiferença. É um crime tremendo que quase 30% das crianças cearenses vivam na miséria (extrema pobreza). E 60%, no geral, vivam na pobreza. O Estado é o crime. Maranhão e Ceará "lideram" o crime contra a infância no Brasil.
Friday, July 21, 2017
Clima de guerra em Fortaleza
O clima de guerra nas ruas de Fortaleza é permanente. Ir e voltar de casa para o trabalho virou uma aventura. Quase todo dia me deparo com homens armados perambulando por aí em plena luz do dia. Dia desses, vi uma cena de cinema. Uns trinta homens, vários deles com armas em punho, atravessando ao meio-dia de um dia da semana uma importante rodovia, a CE-040. Saiam de um comunidade local em fuga. Não sei se tinham invadido para atacar ou se eram de lá e estavam fugindo de algo. Pode-se morrer facilmente em Fortaleza, basta olhar para o lado errado ou ser confundindo com o que não se é. Muita morte. Muito tiroteio. Muito medo.
Friday, July 14, 2017
Compartimentalização moderna
Pessoas que tendem a querer transformar o ambiente de trabalho em um lugar de afetos, amigos, como se colegas fossem uma família são um pé no saco. Trabalho é trabalho. Colega é colega. Sou a favor das compartimentalizações modernas. Família num canto. Amigos em outro. Trabalho bem longe.
Sunday, June 25, 2017
Um exercício de colagem
"E ei-lo que partia agora com a cabeça grisalha, um rosto sombrio e triste de velho" (...) "Um ser que se habitua a tudo é, segundo creio, a melhor definição que se possa dar do homem" (...). "...não poderia conceber nunca o tormento espantoso de não poder ficar só" (...)."Dado indivíduo, que durante anos placidamente suportou os castigos mais atrozes, se enfurece de repente por uma ninharia, por uma bagatela, por um nada" (...)."...realiza uma tarefa que lhe é imposta, absolutamente improdutiva para si" (...)."...todo mundo ficava mais ou menos alerta, todo o mundo vivia num estado de expectativa perpétua, numa espécie de inquietação latente." (...)."Aqueles desgraçados tinham desejado tanto divertir-se, passar alegremente a grande festa e - meu Deus! - que peso, que esmagamento para quase todos! Cada um quisera, naquele grande dia, embalar-se com uma esperança; mas a esperança não se realizara" (...)."...ir para qualquer parte, conquanto não seja para a mesma intolerável cadeia de onde escapou" (...)."...na realidade todos se sentiam tão fatigados como eu, todos se sentiam enojados daquele companheirismo debaixo do açoite, daquela promiscuidade obrigatória; todos sentiam aversão uns pelos outros e não procuravam senão isolar-se." (Dostoiévski).
Estórias de rapazola
Minhas histórias de rapazola e rapaz na década de 1980 tornaram-se inacreditáveis. Nem eu mesmo acredito mais no que narro sobre isso. Nos inícios de 1990, quando o Nirvana estourou, não entendi foi nada. Juro! Para mim, as pessoas são pós-Nirvana e antes do Nirvana. Mudou tudo. Em 1989, com a que do muro de Berlim, fizemos debates homéricos, regados a cachaça, na Beira-mar, foi quando li o livro Perestroika, do Gorbachev, livro ruim da porra, perdi foi tempo. Por falar em Perestroika, havia um bar que virava boate a partir de tal hora, na Praia do Futuro, em Fortaleza, que se chamava Perestroika. A gente ia para lá depois da Biruta. Era pertinho. Dava para ir andando. Até hoje como um PF ali do lado, na entrada do Luxou, um PF na PF. As pessoas só querem falar sobre temas universais e abstratos, é? Pois, confesso, sou local, do localismo mais provinciano que há. Tenho mil pequenas histórias para contar a partir de conexões locais. Meio quilo delas na PI. Poxa, às vezes, voltando a pé da 13 de maio, da pracinha, depois da praça Portugal, havia o Soft Drinks. Mas lá era legal ir para ver o céu. Poxa, fui para o show do Titãs lá na Hipopótamos, uma boate que era na BR, debaixo de um viaduto, num lugar que hoje seria inimaginável de acreditar que houvesse uma boate. Tipo no meio do canteiro da BR. O show foi massa. Era o lançamento de cabeça dinossauro. O Raul Seixas estava lá no Pirata. No balcão, bebendo todas, garrafas e mais garrafas de uísque, e a galera da organização o levou carregado para fazer o show no Paulo Sarasate, chegando lá, ele tocou duas músicas e despencou, foi o maior quebra-quebra que presenciei, ainda moleque. Fui para o show dos Rolling Stones e aí, de repente, sem ninguém saber, sem nenhuma divulgação prévia, o Bob Dylan entra no palco e abre o show. Fiquei bom e fui comprar uma cerva. Lá na PI havia o bar From the Sea to the Moon. Era num casarão que tinha sido ocupado pelos hippies vindos de toda parte do mundo, eram várias línguas que lá falavam. O casarão caindo aos pedaços. Era o bicho. Havia o Maestra na Abolição. Era muito bom ir para o Maestra. Na época, diziam na cidade que era bar de entendido. Ainda falam assim? Era uma loucura. Como também Periferia, Navy, Duques e Barões e a casa da Leila na Maraponga. Tinha um casarão, ali perto da Dom Manuel, por trás, perto do Doroteias, que foi uma loucura a primeira vez que fui lá. Quando entrei, havia uma festa lotada de travestis, trans e indefiníveis em geral, morri de tesão e de medo ao mesmo tempo. Fiquei querendo ir pro colo da mamãe. Tinha só 16, não sabia ainda o que era boa festa. Os shows no América, no Casinha e no São José eram ótimos. A gente ia dormir lá na praça do Ferreira, depois. Quem nunca dormiu na praça do Ferreira, hein? Cara, a gente ia para Canoa no sábado à noite e voltava no domingo de manhã, brincando. A primeira vez que fui em Canoa foi em 1982, mas aí era mais demorado pra chegar.
25 de junho de 2017.
Desde que me entendo por gente, estudar aos sábados e domingos é a coisa mais normal do mundo. Foram muitos os eventos sociais deixados de lado para ficar o final de semana estudando. E todo mundo que conheço que se dedicou aos estudos fez a mesma coisa. Hoje é domingo, estou estudando desde 6 da manhã. Ontem, foi sábado e estudei de 7 às 17 horas. O que se ganha é o que se perde. Mas não troco um bom livro por um churrasco nem que a vaca tussa enquanto está sendo chamuscada. São escolhas? Não apenas. Mas também há escolha. Só não consigo entender como é que pessoas que vivem em estado permanente de eventos sociais conseguem ficar tão ranzinzas depois, quando vem o choro. Aí é um choro livre. Mas todo mundo é livre para sonhar e para chorar. Na real! Bom domingo ensolarado e muita diversão para todos e todas. Divirtam-se! Estou cá me divertindo bastante com letras e livros.
Saturday, June 24, 2017
Notícias de Caxambu
O indivíduo é um efeito numa rede de poder. E a percepção segunda a qual o eu do ator social ocupa o centro das relações sociais é uma experiência frequente e ilusória. Um centro de poder precisa ser conhecido a partir de suas fragilidades e existem circunstâncias privilegiadas para que se possa realizar essa observação. Quando indivíduos marcados por uma sólida reputação profissional se aposentam, isso gera um problema intergeracional de transmissão de posições de prestígio, como signos das heranças disponibilizadas. Os que passam a ocupar suas posições veem-se subitamente alçados ao nada, quando o sistema é aberto, de modo que expressam a crise de posição pela ansiedade e pelo medo, mantendo, porém, esquemas fortes de trabalho para evitar a queda no ostracismo individual e a lembrança coletiva negativa de que são avatares mal-postos. Ficam por vezes silenciosos numa grandeza pesada demais. Há também os barulhentos e espalhafatosos recém-chegados que tentam oportunizar de modo agressivo o aparente vácuo. Mas não há vácuo, há apenas intermezzo. Eles erram por isso. Esses recém-chegados tornam-se arrogantes e se associam aos que demonstram grandeza porque ocupam posições dominadas no campo do poder.
Mortificação e autoflagelação
Confio no cristão que mortifica o seu próprio desejo a tal ponto que exclui até mesmo prazeres lícitos de seu cardápio de sensações. O cristão de hoje, que vive na concupiscência, que não se aplica quinze chibatadas nas costas, como forma de autoflagelo, é um impostor. Um ser diabólico, a maioria cristã vive no pecado aberto e usando o julgamento divino para atribuir aos outros a fonte do pecado. Igrejas que mais parecem cabarés. Prefiro a santidade dos verdadeiros cabarés. Obviamente sem os cafetões que exploram o corpo dos outros comandando o mercado do sexo a partir de suas igrejas. Acordei hoje lembrando da minha primeira comunhão. Que saudade da Igreja!
O prazer
A busca pelo prazer é uma forma de dependência. É atrelar de modo ignominioso o prazer ao desejo. O prazer é algo bom em si mesmo, não há por que fundamentá-lo sobre uma falta, sobre uma carência. O prazer é um bem. Não se trata de agir para alcançar prazer, mas sim de agir puramente por prazer.
A modernidade pira!
Interessante como o velho Platão tornou-se um amante e apreciador dos prazeres estéticos, entre outros prazeres sensíveis e se negou a fazer uma condenação peremptória do prazer como algo a ser expurgado do campo do Bem. Ele passou a pensar em termos de misturas, de vida misturada. A modernidade pira diante disso!
Não aprendi a comemorar resultados
Cada família segue lá seus costumes. Não aprendi a comemorar resultados, apenas novas entradas, novos começos. Nunca fiz festa para um resultado, só para novos desafios. Cada doido com sua mania, né? Tem gente que gasta horrores de energia, investimento libidinal, dinheiro para comemorar aquilo que já alcançou. Pra mim é perda de tempo, dinheiro e desejo. Afirmar novas diferenças é mais importante do que buscar o reconhecimento pelo que já foi e não é mais, deixou de ser, portanto, o centro do turbilhão desejante. O desejo de prestígio é um tipo de desejo de Absoluto, ou sei lá, mas me parece bastante infrutífero.
Noite de Natal
O que é doméstico, confortável, amistoso, agradável, seguro, tranquilo, natural e familiar não me interessa, ao contrário, me apavora, sinto terror diante do que é íntimo, a intimidade do lar é o horror. Como estranho, busco os estranhos. Desde 13 anos de idade, passo a festa de Natal entre estranhos. Estranhos que vivemos no segredo, no oculto, que desperta o sentimento do amor, de incompreensão, de devassidão, abandono e errância! Avoé, espíritos livres! Um brinde às memórias de nossa desordem produtiva! Somos muitos, quando poucos. Sei o nome de todas as pessoas estranhas com quem ao longo de tantos anos compartilhei a comida, a bebida e o riso nas noites desgarradas do Natal.
Wednesday, June 21, 2017
Nem absolutismo, nem relativismo
Os que criticam o relativismo (e eu também o critico) tendem a esquecer que o contrário do relativismo é o absolutismo. Essa observação é de Latour e concordo inteiramente com ela. Vamos criticar o perspectivismo relativista da modernidade sem bradar fetiches de absoluto, como diria Bourdieu. Olha aí, usando Latour e Bourdieu num mesmo racicionício! Enfim, o perspectivismo radical é o melhor crítico do relativismo, e não a retomada de quaisquer absolutismos nos tempos atuais.
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Monday, June 12, 2017
Sunday, April 30, 2017
Sociologia no ensino médio
Enquanto querem retirar a sociologia do ensino médio, a grande mídia (Folha, O Globo, El País etc.) publica praticamente todos os dias textos de sociólogos sobre o que se passa mundo afora, solicitando dicas analíticas e interpretativas para os seus públicos leitores. Há algo de muito errado com esse tal de Escola Sem Partido e esses projetos que tiram a obrigatoriedade da sociologia no ensino médio, não? Até a grande mídia não descarta a sociologia como parte de seu mainstream. Estranho e em dois sentidos.
Saturday, April 29, 2017
Capacidade de pensar
A cada dia, sinto que minha capacidade de pensar está ameaçada. A recusa de adotar os clichês como uma economia do pensamento não garante que se esteja a salvaguardo de se cair no espaço vazio, no espaço incapacitante da loucura. Para isso não acontecer, é preciso manter a relação com a loucura como prioridade no processo de manutenção da capacidade agentiva de exercer o pensamento, pois pensar é atuar contra a ordem, é negar a força inercial da classificação, é atuar contra a crença e contra o desejo, pensar é arriscado demais. Pensar gera esvaziamento, gera um embrutecimento dos sentidos, talvez seja por isso que se torne cada vez mais importante pensar no regime do sensível. Mas tenho lá minhas dúvidas, pois os regimes do sensível estão de tal modo capturados pela atitude de não-pensamento que as coisas parecem esvanecer, refiro-me às coisas do pensamento, as coisas do real nos interpelam, mas apenas como coisas do pensamento podemos com elas pelejar. Onde estarei quando não mais conseguir pensar? Isto me amedronta, pois desconfio que já estou lá, que não é em aqui nenhum. Mas lá nos confins da experiência lúcida.
Thursday, April 20, 2017
Crime de quem?
Acham que podem apoiar um Estado fora da lei e não colher tempestades? Quem produz o crime é o Estado, principalmente, quando atua contra a Lei. Quando agentes da lei são estimulados a agir fora da lei, isso gera mais crime. Se três quartos da classe dirigente estão no crime, como o crime será controlado? Um Estado fora da lei não é capaz de controlar o que está fora da lei. O embrutecimento das condições já embrutecidas geram mais guerra.
Dos tempos antigos
Em tempos de paixão consumptiva, quando o consumo de sensações se esgota no próprio ato de desejar, morre com a expectativa, confesso que tenho uma alergia pessoal a esse mundo de eventos com palestras de gente sabida e estudiosa, falando para públicos que são sabidos mas não estudam quase nada, os sabidos de ouvir falar. Ir para palestras como um ato de fantasia social tem sido algo muito comum na universidade. Quatro anos sem ler um livro e 50 palestras na cachola. E de enganação em enganação, o gozo ilimitado como imperativo do supereu vai fazendo a festa, esse ato de crueldade. Menos palestras e fotografias em eventos, mais leitura na biblioteca em silêncio sem ninguém ver para aplaudir, por favor. Sou do tempo antigo. Do tempo arcaico. Do tempo em que a ética do desejo precisava ser pensada na relação com a ética do sacrifício. Pois, abrir mão do sacrifício é minar as possibilidades de um trabalho do desejo. O desejo como trabalho é fundamental para evitar ser refém do gozo ilimitado como imperativo do supereu. Os tempos arcaicos são os que atuam investindo em relações sociais. Que pensam a base das relações como sendo assumir obrigações recíprocas. Por que, afinal, deveríamos nos tornar todos ao mesmo tempo e agora aquilo que os tempos do curto prazo e do desejo à deriva sem relação com o espaço vazio, que é o que garante a sobrevivência contra a subalternidade, querem nos impor?
Os inocentes na luta pelo poder.
Tenho percebido ao longo do tempo que pessoas que lutam ferrenhamente para exercer o poder de mando costumam usar justificativas que mascaram sua sede imensa de poder, dizendo que estão se sacrificando em nome da coletividade, que estão buscando contribuir para o bem de todos, que estão naquele lugar de exercício do mando não por que ali desejam ao máximo estar, mas por terem sido destinadas a esse sacrifício em nome do todo. É recorrente esse tipo de figuração subjetiva. Lutam pelo poder e falam em nome da justiça. São compulsivamente atados ao poder pelo poder, mas falam a língua dos anjos, os inocentes.
Sunday, April 16, 2017
Os sobrequalificados
A desqualificação do trabalho bem-feito está sendo realizada, entre outros fatores, pela pressão do capital impaciente, sob controle dos acionistas. A pressão pelo lucro de curto prazo faz com que as dinâmicas do mercado do trabalho assalariado estejam marcadas pela presença maciça de trabalhadores muito mais qualificados do que as vagas disponíveis exigem em sua maioria. Isso não é novidade. A primeira revolução industrial produziu esse efeito, o que resultou na revolta dos trabalhadores artesanais e dos artífices. A pauperização do trabalhador com melhor qualificação que compete por vagas para as quais está sobrequalificado vai empurrar o trabalhador com baixa qualificação para baixo.Vejam o caso da Colômbia, relatado pelo jornal El País.
Os eleitores de Trump
Baixos níveis de escolaridade, baixos rendimentos, desemprego e uma vida de incertezas, associadas a álcool, drogas, obesidade, doenças cardíacas, entre outras, estão relacionadas ao fato de que homens brancos de meia-idade nos EUA tenham se tornado um problema público, pois estão super representados nas estatísticas de mortes no país, incluindo suicídios. Em geral, pessoas brancas sem nível universitário tendem a viver situações de desrealização e pauperização. O nível universitário não garante o paraíso, pois não o há em parte alguma, contudo, garante qualidade mínima de vida. O acesso à universidade muda a condição social da existência. 60% desses homens brancos subalternos se tornaram eleitores do Trump.
Saturday, April 15, 2017
Geração Y
Num cenário de laços frouxos no mundo do trabalho, transformaram flexibilidade num lema, num estilo, contudo, agora, desejam cada vez mais estabilidade em meio à crise. Resultado de um pesquisa sobre a geração Y, publicada na Folha hoje. Flexibilidade e estabilidade. Querem flexibilidade para fazer seus horários e estabilidade na carreira, na família e nas finanças, com promoções e previsibilidade. Estão cansados de tantas mudanças no curto prazo, tantos "projetos", tantas alterações dos conjuntos de habilidades. O fim do longo prazo, a noção de "não há longo prazo", gerou a quebra das expectativas de compromisso, lealdade e obrigações mútuas. A geração Y chega à exaustão. Está cansada de pular de galho em galho, expressando ser o melhor jogador da equipe.
Friday, April 14, 2017
Sexta-feira, 6 da matina, do meu monastério.
A relação com o espaço vazio é o modo como a subjetividade moderna se constituiu. Perder o sentido dessa relação é cair no abismo do espaço vazio. Na loucura, na morte. Uma relação com a loucura e a morte é a fonte com que se torna possível atribuir sentido à experiência nos fluxos do real. A música e a literatura são as formas dessa relação para mim. Com o cinema e o teatro, não consigo tocar a relação. O teatro me desperta a curiosidade, o cinema me empolga. As artes visuais viraram um alfabeto. Estão de tal modo domesticadas pelo mundo da paixão consumptiva que raramente atingem a reflexão com o nada. O temor em estar só, essa condição da liberdade, é um sinal dos tempos. As pessoas se acovardam e, por isso, precisam estar juntas, a amizade não é apenas a política de existência e de liberdade, a amizade pode ser também uma forma social de covardia. Mas, realmente, não se trata de afirmar autonomia, esse modo exclusivo de ser cruel. Reinventar as relações de dependência mútua, para cavar a possibilidade de uma interpelação sem sujeição, é um desafio que faz da política uma questão de eticidade, de espiritualidade. O paradoxo disso é que essas demandas de desejo que passam pela modelação do self consumidor de sensações caem no mais das vezes na indiferença e na passividade como formas contemporâneas da demissão coletiva.
Thursday, April 13, 2017
Isto não é um cachimbo
Sou contra as pessoas irem para palestras sem serem leitoras. Isso é um mentira neoliberal. O consumidor neoliberal está em busca de sensações, em busca daquilo que não realiza. É a paixão consumptiva. Deveríamos criar um portaria que proibisse pessoas que não leem de entrar nas palestras (isto não é um cachimbo). Ia esvaziar total. Algumas pessoas me dizem que a palestra por si só contribui, discordo. A palestra pela palestra é o jogo da burguesia, é a aceitação da condição de subalternidade. É amar ser subalterno. A biblioteca que está lá e é pública também pode ser desejada, lá na universidade quero dizer. O aluno que diz não poder ler pois é pobre, lá na universidade, matriculado, é um babaca mentiroso. Conheço muitos alunos fudidos que são leitores de peso.
Friday, March 17, 2017
Neca, nequinha.
Quem gosta de classe dirigente bandida é quem gosta de classe dirigente. Hoje, estou lembrando dos amigos que já morreram. Do sorriso deles. Os amigos que se mataram também merecem ser lembrados. A pouca loucura deles. Quem pranteia os que pularam da ponte? Suas idiotas pernas quebradas... Espatifou as ideias com um tiro na boca, aprendi muito com ele. Sobre música. Ela pulou de cara no chão, nenhum dente, nenhum nariz, nenhum amor. Pensava que apareceriam para segurá-la. Quebrou os dois joelhos e não levantou. A conversa com o vazio é a fonte da existência. Um nada de vida, neca, nequinha.
Sunday, March 05, 2017
Força leve
Quem defende respostas duras a qualquer problema, ou seja, uso da força bruta para resolver problemas, assina atestado de baixa perícia ou nenhuma perícia. Peritos usam o princípio inteligente da força mínima. Isso vale para qualquer área de atuação.
Faca de dois gumes
Sentir orgulho de si é uma faca de dois gumes. Pode ser instrumento de poder na luta por supremacia ou fonte de satisfação pela realização do trabalho bem-feito. Ocorre que esta satisfação também pode gerar hierarquias, reforçando políticas do Estado. Contudo, o contrário do orgulho de si é a vergonha, o oposto complementar que reforça esquemas autocráticos. Talvez seja por isso que o orgulho é percebido em várias tradições religiosas como uma fonte de pecado.
Sunday, February 26, 2017
Sem Jesus no coração, de boa!
No domingo de chuva pela manhã, ouvindo música e brincando com o menino, na maior paz de espírito, e sem Jesus no coração. Há muito tempo buscando construir uma boa vida, com arte, ciência, ética, honestidade, trabalho, alegria e sem Jesus no coração. Meu coração esvaziado de Deus realiza-se na boa vida secular e sem Jesus no coração vai seguindo de boa sem religião. Na paz. Queria deixar meu testemunho. Há 31 anos, vivo uma vida significativa sem Deus.
Wednesday, February 22, 2017
procrastinar
Entre cuidar das crianças e cuidar da carreira, dediquei muito mais empenho, tempo e dedicação, é claro, às minhas crianças. Por isso, procrastino no Lattes. O artigo só sai amanhã! (E o meu Lattes não é ruim não, viu?!) Foi a decisão mais acertada que tomei em toda minha vida, não colocar a carreira para a frente e a meninada de lado, para trás ou para baixo, o que é pior. Minha meninada vai sempre à frente e para cima, me ensinando o que é mais importante na vida. Não me comparo às mulheres, não há comparação possível. Não é essa minha intenção. Sei que amigos meus, homens, que optaram pela carreira a qualquer custo, e esse a qualquer custo foi abandonar os filhos à própria sorte, vivem tristes e deprimidos, levando uma vida culpada e fodida, não são reconhecidos como pais pelos próprios filhos. Vivem de muita droga e solidão. Sobre homens, eu posso falar. Fica meu testemunho.
Com procrastinação e sem perfeccionismo.
Minha demora em terminar os textos que estou a escrever não se deve ao perfeccionismo. Graças a Deus, não sofro dessa desgraça. Sou morto de preguiça, na verdade. Só consigo empregar energia obsessiva na leitura. Quando se trata da escrita, o desejo de fazer bem-feito não é uma obsessão, tanto é que um texto para mim não precisa estar perfeito para ser publicado, muito pelo contrário. Quando uma ou duas ideias legais se desenham, costumo abandonar o texto à própria sorte, sem querer exaustivamente fazer um texto excelente do começo ao fim. Esse tipo de narcisismo, eu não tenho. Também não sinto medo de ser julgado pelo colega, sentimento que trava muita gente. Simplesmente, deixo as coisas frouxas, para que a vida não fique unidimensional. Mas, aos poucos, os textos vêm vindo à tona. Mas continuo preferindo ler os textos dos outros a escrever os meus próprios textos. Não sou vaidoso? Sim, sou, mas minha vaidade está apenas na biblioteca lida, o que reverbera bem em sala de aula. Gosto muito de sala de aula. Os textos vêm depois. O ensino oral esotérico ou exotérico é mais desafiador. Devo isso a Platão.
Sem Jesus no coração...
Vocês sabem o que significa acordar sem Jesus no coração? Acordar sem Jesus no coração significa você levantar 5 da manhã, cuidar para que os filhos estudem bem, sejam amados, tenham bons acessos a arte, cultura e ciência, não estar devendo nada para a justiça, estudar e trabalhar, respeitar as leis que são justas e criticar as que não são, trabalhar 14 horas por dia com afinco e dedicação. Respeitar as diferenças, buscar dialogar e não julgar com arrogância. Enfim, ser um cidadão respeitador dos direitos, da vida cooperativa, do bem comum. Ou pelo menos tentar ser honesto quanto a isso tudo. Não ter Jesus no coração e viver uma vida eticamente orientada prova que Jesus não é universal. Que é possível se virar bem sem "Ele". É possível sim, concretamente, ter um estilo de existência eticamente e esteticamente orientado de modo secular, ser relativamente infeliz, sem ter Jesus no coração. Um salve à vida secular, que é muito significativa e interessante. Com arte, beijo na boca e cerveja belga, quando sobrar grana. A arte e o beijo na boca são gratuitos. Mas não são fáceis de se conquistar.
Saturday, February 11, 2017
An-arché.
Durkheim falava de pessoas irregulares, dizia que entre todas as pessoas irregulares as piores são as anarquistas. Dizia que a anarquista era muito pior do que o pior dos criminosos. Afinal, os criminosos são funções da ordem, são produzidos pela sociedade. Foi essa raiva do Durkheim a respeito dos anarquistas que me fez entender o que é uma "ciência social do Estado". Uma "ciência real". Sou amante das irregularidades. Tudo o que é irregular me atrai. Por isso, o roubo, a crueldade, o homicídio, a formação de quadrilha, ou seja, tudo isso que é normal, que faz parte da vida das pessoas regulares, são objetos de ojeriza para libertárixs. Por ser contra o crime, tornei-me irregular. Apenas o crime é regular. O irregular é a salvação da humanidade. Sejamos irregulares, lutemos contra as igrejas e o Estado, ou seja, contra essas facções criminosas do sistema partidário que em nome da Moral, da Família, da Propriedade, e demais excrescências, cometem as maiores barbáries. A civilização é a anarquia. An-arché.
Delfos
Acerco-me da racionalidade no plano da fantasia e do meu desejo no âmbito do trabalho. Onde estou? Em Delfos.
A busca indefinida
A busca indefinida do outro absoluto da razão é um mergulho profundo na dor da privação. De onde se pode emergir apoiado na força expressiva do pensamento.
Dizer não.
Ser capaz de dizer não às ofertas que os outros nos fazem é uma dimensão fundamental de negatividade das formas de dependência. Contudo, a autonomia e a dependência são vivenciadas simultaneamente. Isso torna tudo mais complexo.
Perdas e perdas
A tarefa política passa pela superação ou supressão das ambivalências dilacerantes que nos acantonam em dois polos de perda de experiência. De um lado, o isolamento. Do outro, a massificação.
Espíritos de merda, segundo AC
Os que estão mais abertos ao acolhimento, ao abraço, à festa, ao estar junto da comunhão de espíritos, ao dar colo para a carência alheia, fazem muito mais sucesso. Afinal, sentar a bunda na biblioteca e passar o dia todo lendo dificilmente vai ser uma experiência de apelo fácil, ainda bem.
De Antonio Elias para LS 1
Leonardo Sá. Querido amigo Antônio Elias, nesta segunda mais uma vez, apenas lembro do vaticínio do poeta: "E já não enfrentamos a morte, de tanto trazê-la conosco". Adoraria que ao longo da semana o amigo abrisse uma exceção para que pudéssemos tomar uma meiota juntos lá para as bandas do clube Santa Cruz. Conceda-me um território mínimo acuado, por favor. Abraço e mais esquecimento de tudo aquilo que circula e nos exige negociar.
Antonio Elias. Meu caro Leonardo Sá, a despeito da eterna distância que parece jamais nos dar uma trégua, fazendo em nós permanecer uma força de um quase irresistível dilaceramento, tenho-lhe na mais alta das contas, como velho camarada que guarda os restos e os restos esquecidos de minha mais conspícua inutilidade, de minha irrisória dor, há muito abandonada até de mim mesmo. Isso de que não mais sabemos, se acaso tivéssemos, um dia, outrora já sabido. Podes perceber que até minha escrita atualmente cheira a creolina, prisioneiro que estou da imutabilidade desse presídio sem paredes, pois meus olhos já os arranquei, desprovendo-me da fortaleza do recinto que cremos habitar, como se estivéssemos em sua solidez, de toda, inexistente, um nada a nos proteger. Meu maior medo, sim, ainda me acometem certos pudores, certas afecções empáticas, uma lembrança de minha ex-humanidade, um grito, é que o amigo, ao encontrar-me, como lhe apetece, com seu jeito acolhedor de manter amigos à distância, que tão bem conheço, é, simplesmente, o meu maior medo, como dizia, que você se depare apenas com minha "máscara mortuária cheia de cicatrizes", e que seja tremendo o seu asco. Privo-me de sua companhia para não feri-lo com meu bem-querer, essa bela lembrança, incapaz que estou de estar simplesmente agradável como presença, fantasma que estou.
Leonardo Sá. Segunda-feira não está sendo nada fácil. Estou em casa, fazendo uma revisão de um texto de 200 páginas para duas bancas amanhã, tendo que acompanhar a situação política sem parar de trabalhar. E o pacote da internet via celular que estou usando está acabando, vou ficar sem internet aqui no meu interior. E as ansiedades alheias trepidam e exigem respostas. Já sei, vou tomar uma cerveja para ficar pensando melhor, antes do almoço, que é muito bom; a a saúde mental do cidadão brasileiro agradece.
As circunstâncias
Nas atuais circunstâncias, estou pensando em deixar de ser eu. Permitir que as potências da dissolução façam seu belo trabalho. Mas nunca nos cabe tomar tais decisões, é sempre outro quem fala ou deixa de falar.
Friday, September 30, 2016
Nossa carência
"Por vezes, a carência que habita {noss}o sentimento de pobreza cultural periférica é o componente básico decisivo para que outras periferias possam performar o lugar do centro, essa fantasia de grupo. Centro e periferia não existem; portanto, são armas letais contra a atividade do pensamento." (SÁ, 2016).
Economia da pena
Talvez se possa afirmar que a imposição lúdica da educação como prestação de serviço é fortemente legitimada, pois gera uma estranha convergência. De um lado, permite reduzir custos, poupando aos públicos beneficiários uma economia de "penosas mediações dos processos cognitivos" (Sônia Salzstein). De outro, os públicos que vivem em condições de permanente precariedade são remunerados com novos acessos que compensam a impossibilidade de papeis de produtores tais como pensados na perspectiva da modernidade. Une-se o útil ao agradável. Põe-se o educador a serviço dos bons negócios em tempos de neoliberalismo.
Thursday, September 29, 2016
Uma aula que irá se repetir
Hoje, a aula de Estratégias discursivas de poder, para mestrado e doutorado em Sociologia, vai ser para discutir o impacto de Wittgenstein e Austin nos modos de pensar da Sociologia e da Antropologia. Reler Investigações filosóficas, How to do things with words e descobrir que não haveria Foucault, nem Bourdieu, sem essas referências. Aliás, Foucault é praticamente austiniano, pois Austin é nietzschiano também.
Fazedores de chuva
Há na aldeia os fazedores de chuva e os fazedores de texto. Faço parte deste último segmento de linhagem. Prefiro ler textos a escrevê-los. Fazer o texto é um sacrifício. É mesmo que tirar leite de pedra. Como invejo os que escrevem como Rachel de Queiroz, os que de uma sentada escrevem um texto perfeito e sem erros como fazia a prima de Pedro Nava. Graciliano era seu antípoda.
O sentido do Brasil
Gente, o álbum Depoimento do Poeta, de Nelson Cavaquinho, lançado em 1970, resolve o sentido do Brasil.
Durante Anpocs 2015
Em eventos apenas de antropologia, há muita mais representatividade das diversas regiões do país na composição de mesas, grupos de trabalho, seminários e outras atividades. Isso pode ser empiricamente constatado. Qual o sentido disso? Aí são outros quinhentos. Mas na Anpocs deste ano, enquanto escutava colegas, fui fazendo uma pequena matematicamente das mesas. Os resultados eram tipicamente: SP, RJ, BA; ou SP, RJ, Porto Alegre; ou SP, Rio, Brasília; ou SP, RJ, MG. Tudo fechado. Tudo endógeno demais. As lutas faccionais infinitesimais de Rio e Sampa parecem engolir cada vez mais para dentro, engolir o seu próprio corpo esfacelado para dentro. O lance está muito autofágico. Alguém mais pessimista pode me responder dizendo que sempre foi assim. Não creio. Há uma fragmentação muito forte das pós no Rio e Sampa, fragmentação interna, o que resulta em competição muito mais acirrada. UnB, UFRGS, UFMG, entre outras, são aliados estratégicos para remar nessa imensidão de competidores desesperados para pontuar na roda viva do campo acadêmico das ciências sociais em um momento onde as grandes referências (nomes nacionalmente agregadores) estão saindo de cena sem garantir o sucesso dos herdeiros, pois apenas a sucessão não garante o sucesso. E nem a sucessão tem ocorrido em alguns casos. E o contexto de escassez de recursos é o mecanismo sociológico que acirra a economia do autor. Trabalhando duro aqui em Minas. Ô terrinha boa!
Mundo do trabalho II
Sou a favor de manter a dedicação a ações profissionais que recebem baixíssimo reconhecimento institucional, geram pouco valor percebido do ponto de vista da política de status, contudo, produzem alto valor educacional para educandos. Dito de outro modo, gosto de "perder tempo". Por exemplo? Escutar as pessoas.
Uma noite perdida
Já, hoje, na aula da noite, Subjetividade e sociedade, para a graduação, vamos discutir a apropriação lacaniana da sociologia de Durkheim, fazendo uma comparação com o modo de apropriação da psicanálise pelas ciências sociais a partir de um texto instigante de Erich Fromm sobre o assunto. A pergunta que não que calar é a seguinte: seria possível produzir conhecimento socioantropológico desconsiderando as dimensões inconscientes da ação social? Bourdieu e Giddens, como bons freudianos que são, respondem claramente que não. Sem Freud, não se faz socioanálise.
Mundo do trabalho
É muito desagradável quando estamos cumprindo uma agenda de trabalho que é a nossa com parceiros e parceiras, buscando com afinco garantir o resultado de qualidade esperado e surgem pessoas do nada, querendo impor suas agendas de trabalho, onde não fomos feitos sequer parceiros, para tentar suspender nosso trabalho e nos instrumentalizar para algo que vão obter ganhos, e a gente vai ser usada apenas como joguete para isso. Por isso, minha decisão profissional é só trabalhar onde há pactuação e parceria do início ao fim. Interromper a nossa missão, para ser usado unilateralmente pelos outros em suas políticas de lucro próprio, jamais! Concentração naquilo que importa é o bem mais precioso nos tempos atuais. Já ouviram falar em alianças laterais? Lado a lado? Ajuda mútua? Cooperação? São termos de uma política de trabalho que não admite capitalizar em cima dos outros, instrumentalizando-os e nem deseja também atropelar os outros. Não atropelar e exigir não ser atropelado. O mundo pode ser melhor.
Revisar uma tese
Estilos variados de revisar uma tese. Um deles é o seguinte: baixo três artigos que ainda não li conectados diretamente à tese, vou revisando e lendo os artigos, de modo que poderei já instigar novas leituras para o orientando. Vou fazendo anotações página a página. Fico mudando de perspectiva. Ora me ponho no lugar de quem está escrevendo a tese, ora no lugar de um membro avaliador da banca, ora no lugar do orientador, ora no lugar de um colega criticando outro e por aí vai. É tão divertido revisar uma tese! Aprende-se muito. Oriento para me orientar. Autoformação.
Sertões
Horas e horas a percorrer os sertões e os sertões não saem de mim. Léguas e léguas a palmilhar meu vazio e o vazio não me descabe.
O sentido
O sentido da existência é a falta de sentido. Pode-se diante disso fazer a naturalização dos valores de uma ordem social existente, apresentando seus princípios como universais, fora do tempo, e, portanto, negando imaginariamente o espaço vazio, que é o espaço da loucura, da morte e do crime, ou então, criar novos valores, pensar de outro modo, na busca de uma nova sensibilidade que supere o niilismo.
Um branquela
Não é a primeira vez na minha vida que chego em algum lugar do Brasil e sou o único branco no lugar. Aí a galera se pergunta: o que aquele branquela está fazendo aqui? Vão me perguntar e eu respondo que estou ali pois sou filho de Oxalá, Iansã e Yemanjá, e aí as pessoas me chamam para conversar. As ruas são escuras, posso passar de otário, mas vou lá para dizer que não sou otário, pois otário é o guarda.
Sentado num bar
Sentado num bar, conversando com um morador de rua, numas ruas estreitas perto da praça da República, três travestis saindo de uma mesa, passam por mim e uma delas faz uma brincadeira, pegando no meu cabelo amarrado sobre a cabeça, dizendo: olha como é lindo o pitó dele! A gargalhada foi geral. Depois fui trocar umas ideias com uns operários da construção civil, quatro rapazes, todos do Ceará, e, como sempre, longas conversas com os garçons cearenses. E ainda troquei uma ideia com uns policiais militares. Uns vendedores ambulantes. E com um motoboy entregador de pizza. Já posso voltar para Fortaleza, diário de campo de Sampa completo por hora.
Schopenhauer e Nietzsche
Aconteceu comigo de ter lido Nietzsche antes de ter lido Schopenhauer. Fui então negligenciando este último, baseando-me nas críticas de seu ex-discípulo. Mas eis que me deparo com textos de Thomas Mann, tratando justamente disso e propondo uma retomada de Schopenhauer à luz do que o próprio Nietzsche escreveu nos seus últimos dias de lucidez sobre o mestre de sua juventude. Agora que entendi por que Bourdieu parece obcecado por Schopenhauer. O mundo como vontade e representação é um livro para lá de instigante. E também serve como arma.
Citar amigos
O uso de referências e de citações nos artigos está colado em demasia à situação de dependência relacionada às redes de poder em disputa no campo universitário e acadêmico. Precisamos tentar evitar a força dessa homologia entre estrutura das citações e referências e estrutura do mando e de gestão de recursos. Vamos ameaçar o sistema com a aleatoriedade, de um lado, buscando artigos mundo afora sem situá-los previamente, sem filtrá-los por critérios extra-acadêmicos e, de outro, ousando embaralhar as produções dos grupos rivais, que fazem esforço enorme para apagar a existência da produção alheia. Não vamos capitular. Não vamos ceder ao jogo fácil de usar citação e referência como moeda nos jogos de poder. Distraídos, venceremos, como dizia o poeta.
Sonho estranho
Tive um sonho estranho. Sonhei que uma pessoa me contava que tinha presenciado há alguns anos outra pessoa denunciar para autoridades públicas de cúpula que alguns agentes de Estado, o sonho se passava na China, de vez em quando sobrevoava a muralha da China num tapete vermelho de Aladim, vindo da Síria, onde nasceram meus antepassados, e aí a pessoa contava pra mim que o outro tinha dito numa reunião informal os nomes de agentes do Estado que vendiam armas de fogo para brigas entre gangues nos bairros de Hong Kong e que as autoridades resolveram não levar adiante a denúncia e muito tempo depois, quando as armas vendidas geraram mortes, ninguém sabia o porquê, e então matadores do Estado foram exterminar os clientes dos outros agentes do Estado que tinham vendido armas para as guerras entre as gangues. Muita gente inocente morria, pois na China, os chineses são muitos parecidos como reza a lenda. Acordei de um pulo, desse pesadelo, olhei para a natureza e vi que a minha vida era pura harmonia, rodeada de coisas boas, aí comprei uma passagem e fui para Paris, mas aí acordei de novo de um sobressalto, pois percebi que ainda não tinha acordado, que o pesadelo continuava. Preciso relatar esses meus sonhos para meu psicanalista. A gente delira demais quando está sonhando. É o trabalho do desejo.
Friday, September 16, 2016
Seguir experimentando...
Nos bastidores e nos abismos, o desassossego faz parte da condição errática dos que experimentam; e apenas seguem experimentando.
Tuesday, September 06, 2016
Sala de aula
Voltar para sala de aula é uma grande alegria! A gente passa as férias sentindo falta. Sala de aula é uma zona de autonomia temporária. Um lugar de fala livre, solta, onde se questiona até a ilusão da fala livre e solta.
Desamparados
Desamparados e permanentemente aguilhoados pelas formas de desrespeito que nos afligem intimamente, porque nos insultam, nos humilham, não cessamos de lançar apelos melodramáticos, o mais das vezes, para capturar a dedicação emotiva dos outros. E essa tentativa de captura do desejo do outro é o que há de mais arriscado para si e para o outro. É o sem fundo, a um passo do vazio, do puro espaço vazio.
Amor e amizade
O amor como uma forma de desilusão mútua e a amizade como uma forma de estar só e não na solidão da presença inelutável do outro.
Monday, September 05, 2016
Meritocracia
O sistema da meritocracia é uma forma de estimular a competição entre os perdedores, a fim de fazê-los cooperar com a produção e reprodução das desigualdades de oportunidades. Apenas as vítimas deixam-se seduzir pelo mérito de ser uma vítima diferenciada, que merece alguma consideração excepcional por parte dos dominantes, porque colabora com eles de boa vontade.
Friday, August 12, 2016
Piano noturno
Tinha um piano no Compasso, bar ao lado do Cais Bar, e dia de domingo à noite, lá pela meia-noite, alguns amigos que tocavam piano maravilhosamente bem iam saindo das mesas para dar uma canja, enquanto a gente discutia filosofia, literatura, artes e o sentido dos belos olhos das pessoas. Houve um tempo, sim, houve um tempo em que se tocava piano às segundas de madrugada de frente para o mar, e esse tempo é o tempo do meu corpo.
Da cerveja à pedra
A cerveja já não presta, é a maior mentira, e ainda a bicha está no preço de uma refeição, uma única unidade no preço de uma refeição, aí é de lascar, é por isso que a galera da pedra é vanguarda, a vanguarda do fim.
Tuesday, July 19, 2016
Rato de sebo
Como rato de sebos e livrarias, virtuais ou presenciais, frequentemente compro aquele livro de 250 reais por 30 reais ou aquele de 80 reais por 5 reais. Quando o desejo é ardente, não há crise que segure o bibliófilo.
Deep Purple 1976
E o Deep Purple tocando Georgia on My Mind, num show ao vivo, em 1976, como música incidental dentro de uma versão poderosa de Smoke on the Water! E eu escutando isso pela primeira vez. Pense no arrepio!
O desejo dos cultos
O que fazer quando membros altamente escolarizados, doutores e doutoras, das elites sociais, políticas, culturais e econômicas, passam a defender que a tarefa do Estado é exterminar, é fazer a vingança contra quem eles e elas consideram indesejáveis? O que fazer quando a noção de direito, de lei, de justiça, é abandonada pela classe dominante a favor de um Estado de morte? O que fazer?
O crime do estado
O problema não é o Crime agindo contra o Estado. Isso é um mito do Estado, esse mito segundo o qual o Crime é algo fora do Estado. Não existe crime fora do Estado, é o Estado que produz o crime. O problema maior é agentes do Estado tocando o Crime, tocando o terror contra o Direito, a Lei, a Justiça e a Democracia. Isso sim é o problema. É importante lembrar que não existe crime organizado fora do Estado, por definição, crime organizado só se faz com Estado.
Fortaleza, cidade proibida.
A gente mora num faroeste. Fortaleza mergulhada no caos. Sertões do Ceará viraram terra de ninguém. Mortes matadas por todos os lados. Assassinatos em cada esquina da cidade. Guerra de rua entre policiais e bandidos. Torturas, espancamentos. Prisões quebradas, arrombadas. Fugas em massa. Situação fora do controle dos nossos sonhos. Muitos sonhos de angústia a se espalhar. E o Crime do Ceará já anunciou que vai fazer mais prefeitos e vereadores nas próximas eleições. Os estabelecidos nesse ramo, com carreira criminal mais longa e consolidada, estão se batendo de frente num encarniçada luta pelo poder contra a voracidade dos recém-chegados. Muito sangue, muita morte, muita corrupção. Salve-se quem puder. O barco está afundando. Acredite no que quiser. Não há âncora, nem luz no fim do túnel. Crime do alto e crime de baixo em momento de ajuste violento. E a gente no meio disso tudo, vivendo em situações de altíssimo risco. Vir trabalhar e voltar do trabalho é risco de morte. Faixa de Gaza. Iraque. África do Sul. Colômbia. Venezuela. Seja bem-vindo a Fortaleza.
Monday, July 18, 2016
Temas de estudo
Os temas centrais da minha aurora de estudos são a loucura, o crime, a doença e a morte. Sinto que passarei mais do que uma vida inteira a pesquisar sobre tais temas. Talvez seja um sinal de pós-compulsão quanto a eles.
Algum orgulho de si
Um grande desafio é sentir orgulho de si sem alimentar formas de autoindulgência.
Vetar autores é o fim da picada
Acho uma coisa inacreditável, quando alguém simplesmente veta a leitura de um autor. Diz que o autor tal não deve ou merece ser lido. Tenho descoberto tanto autor massa ao desobedecer a esse tipo de veto.
Aprendendo a lidar
E essa busca compulsiva por figuras imaginárias protetoras? Muita atenção é pouca. O desejo de dependência pode ser muito danoso à liberdade já tão frágil e combalida do próprio desejo desejante no seu trabalho de conquista de autonomia relativa. E esses indivíduos que fazem demandas amorosas excessivas aos outros, mas não se dispõem a nada oferecer, que são exigentes com seus próprios direitos de ser amado e para lá de relapsos com a condição desejante dos outros, negando amor ostensivamente a esses de quem tudo cobram?
Monday, July 11, 2016
A espera
A respiração parecia jamais querer voltar, a tosse era seca, sem fumaça, mas seca. Os dedos estavam trêmulos. O mais sacal era esperar à beira da piscina que cheirava fortemente a cloro. Nada para beber.
Passagem
Catava latas e tinha o cuidado de separá-las entre as de ferro e as de alumínio, pois assim corria o tempo. E havia, no ponto de ônibus, uma kombi velha, vendiam podrão a dois reais e cerva em lata a um real.
Pavor em ser invisível
As pessoas estavam apavoradas. Era o medo de desaparecer. O infinito pavor de serem esquecidas.
Arredio
Tinha adquirido o costume de boicotar todo e qualquer tipo de festa, era um tipo solitário e arredio. O que o esperava era própolis e um copo de água natural para ser tomada aos goles. Não depois do própolis.As unhas mal-feitas, roídas, cortavam partes da cartilagem quando as mãos se movimentavam entre as orelhas.
Detalhe biográfico da tese
Quando era um menino de 10 anos, a roda de meninos imbecis se reunia no pátio da escola para questionar quem ia ser Ney Matogrosso, reproduzindo falas de homens adultos escutadas nas famílias, usando Ney como ponto de referência para decidir quem ia continuar sendo um tremendo babaca. Ney sempre foi muito poderoso! 9 anos depois quando descobri Secos e Molhados, isso mudou minha vida. Mudou minha relação com as experiências de gênero. Sem Ney Matogrosso, não teria havido essa mudança; que não foi lá essas coisas, mas foi. Fiquei um pouco menos babaca. I guess.
Monday, June 13, 2016
Precariado
Tenho um dúvida. As chances objetivas de pessoas jovens oriundas das classes dominadas de ocupar posições sociais que não sejam precárias, incertas e instáveis diminuíram? O problema é que metodologicamente não há como checar isso sem levar em consideração a relação entre as expectativas e as chances objetivas de realização dessas expectativas. A crise, para ser sentida como crise, funciona como crise da crença, crise de confiança, como rebaixamento de expectativas elevadas, inflacionadas, em relação a suas condições reais. Ocorre que as expectativas fazem parte dessas condições reais, então, não há como investigar as condições objetivas, desconsiderando os processos de objetivação da objetividade.
Habitar
Moro numa casa onde os muros são parciais. Há um trecho imenso sem muros e alguns muros antigos e outros mais recentes construídos na tentativa de minimizar a situação porosa de uma habitação sem muros. Mas na minha casa há portas e janelas. E elas não ficam sempre abertas. São abertas e fechadas várias vezes ao dia, num jogo infinito de uma casa quase sem muros. Subo no telhado, espio os arredores da casa. A casa vazia é um perigo. As armas da casa são meus olhos. E posso até furá-los nos espinhos que abundam na mata que rodeia a minha casa. Mas pela mata passo como flecha; nem que fure meus olhos. E assim vamos passando desta para uma melhor, ou não. Onde eu moro se chama sertão, meu corpo. Corpo aberto, corpo fechado. Sujeito marcado no limite de sua impossibilidade.
Monday, May 23, 2016
Onde habito?
Moro numa casa onde os muros são parciais. Há um trecho imenso sem muros e alguns muros antigos e outros mais recentes construídos na tentativa de minimizar a situação porosa de uma habitação sem muros. Mas na minha casa há portas e janelas. E elas não ficam sempre abertas. São abertas e fechadas várias vezes ao dia, num jogo infinito de uma casa quase sem muros. Subo no telhado, espio os arredores da casa. A casa vazia é um perigo. As armas da casa são meus olhos. E posso até furá-los nos espinhos que abundam na mata que rodeia a minha casa. Mas pela mata passo como flecha; nem que fure meus olhos. E assim vamos passando desta para uma melhor, ou não. Onde eu moro se chama sertão, meu corpo. Corpo aberto, corpo fechado. Sujeito marcado no limite de sua impossibilidade.
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