Thursday, December 27, 2018

Coisas que não se diz

Quando a gente cria os próprios filhos, a gente os obriga a se esforçar, cobra muito dos filhos que façam seus exercícios da melhor maneira. Um cuidado para que a transmissão de capital educacional seja eficiente, eficaz e resulte em impactos positivos para a reprodução dos quadros familiares como agentes empoderados. Isto é uma violência. Fundamentado numa violência simbólica. Mas quando recebo um educando que não vem da pequena burguesia, lá na universidade, que vem de um contexto que não funciona desse modo neoliberal, cobrar vira uma dupla violência simbólica e não cobrar, apesar de virar amigo, vira uma tripla violência simbólica. O sorriso, o abraço, o acolhimento, isso tudo vira uma grande violência escondida. A violência da exclusão simbólica. Acho que cobrar é mais honesto. É ainda violento, mas tratar com condescendência é mais violento ainda. Cobrar de quem não teve condição de estar no processo de reprodução da pequena burguesia é impor um modelo violento, mas não cobrar, deixar rolar, viver feliz na irmandade, é mais violento ainda. Aprendi isso com Florestan Fernandes e Pierre Bourdieu.

Tuesday, December 25, 2018

Sem vestir a fantasia, não dá!

Descobri que você pode fazer as coisas da vida de acordo com a "normalidade" mais aceita, mas se você não reconhece a ordem dominante no plano público, ideológico, simbólico, você é banido mesmo assim. Você não é aceito pela normalidade aceita, mesmo seguindo-a, se você não a reconhece como digna de ser aceita sem contestação. A normalidade, portanto, é uma fantasia de ordem, só é respeitado quem veste a fantasia da ordem, mesmo que, na prática, alguém esteja muito mais distante das regularidades da ordem do que você, quem veste a fantasia é mais respeitado do que quem mantém regularidades no funcionamento concreto da ordem dominante. A efetividade de uma conduta em conformidade com a lei não garante um reconhecimento social de acordo com a Lei. A força do simbólico na estruturação dos grupos é tamanha que parecer em conformidade é mais importante do que estar em conformidade real, pois, sem reconhecer o padrão como universal, o real dessa conformidade não tem eficácia. Os que são reconhecidos como dominantes podem estar bem longe do padrão efetivo que apregoam, se não vier a público esse desnivelamento, essa defasagem, do que quem mantem maior nivelamento na prática efetiva mas em público contesta o padrão simbólico dominante, negando-lhe eficácia simbólica.

Paz de espírito

Como ter paz de espírito se a decisão da maioria é pelo reforço das desigualdades? Como ter paz de espírito se as forças políticas de esquerda e de direita "lutam" pela manutenção do separado? Não há paz de espírito no separado. Lutar contra o poder de separação é condição para uma existência na qual se possa tentar alguma experiência que se aproxime da paz de espírito. Mas com desigualdade, exploração, brutalidade e milhões na miséria e na pobreza, não há como ter paz de espírito. Há como ter má-fé em se afirmar como alguém com paz de espírito. A paz de espírito é a força do comum contra o separado.

Os endinheirados sofrem de outro modo

Indivíduos com chances objetivas de viver a figura do consumidor bem-sucedido vivem de celebrar suas pequenas felicidades, apoiados num processo de farmaceuticalização de sua dor. Os bem-sucedidos consumidores são antes de tudo consumidores das estratégicas de medicalização do humor e psiquiatrização bioquiímica das ansiedades, da "depressão", ou seja, de toda a estrutura bioquímica para fazer o indivíduo de sucesso funcionar sem o desafio de se pensar na impossibilidade do sujeito, essa atividade inervante que é a de trabalhar o seu próprio desejo. Mas é claro que o sofrimento desta privação de trabalho de desejo, quando endinheirado, se suicida afogado no mundo das compras e do consumo de mercadorias que pouco importam, pois o que importa é aquilo que escapa rapidamente, a sensação de consumir a mercadoria gozada precocemente apenas ao se pensar na possibilidade de consumir a mercadoria desejada. E sofrem muito dispendendo rios de dinheiro com sensações fugazes que geram um aprofundamento do desamparo e do vazio.

Thursday, December 13, 2018

Nem abraços, nem afetos!

Não gosto de tentar transformar universos organizacionais de trabalho em lugares de abraços e afetos. Acho inadequado. Organizações são lugares de disciplina, produtividade e construção de redes de poder e conhecimento. O abraço e o afeto se tornam coisas espúrias nesse ambiente. Não penso que o abraço e o afeto possam ser libertários, na verdade, se tornam elementos de controle da personalidade para fins de capitalização de posições de poder. Prefiro seriedade, formalidade e distanciamentos calculados. Não é o abraço e o afeto como performance de personalidade que irá superar o separado. A performance dos afetos é mais cruel e excludente do que os padrões de trabalho no sentido mais clássico. Os abraços e os afetos na organização são elementos de dispositivos neoliberais. Se pensar na organização como uma família, como um lugar de amigos, isso tudo me cheira a heteronomia e alienação. Prefiro minha inadequação permanente como sujeito não conformado a essas novas tendências de controle.

Wednesday, December 05, 2018

Autoritarismo na instituição é naturalizado

A instituição, e suas práticas oficiais, é tão autoritária que quando você adota práticas menos autoritárias, quando, pelo menos, tenta questioná-las de algum modo, o efeito é bastante dúbio. Gera um efeito pedagógico construtivo de longo ou médio prazo para alguns, mas no contexto imediato resulta em não ser levado a sério. O tempo, e o investimento das pessoas, irá priorizar dar resposta àquela instância institucional, e seus agentes, que está agindo de modo esperado, ou seja, autoritário. Ficam de prontidão para responder à interpelação autoritária e desinvestem aqueles projetos que tentaram fugir do padrão autoritário. Não é fácil ser educador no contexto que se pede "o professor" como figura de mando, como patrão, que ameaça e pune.

Coisas que tenho percebido

Tenho percebido uma dificuldade generalizada das pessoas sustentarem com regularidade seus projetos individuais num contexto de incerteza sobre o futuro. A regularidade, que é a disposição mais visível da integração à ordem, se tornou um traço raro. Quase ninguém consegue se manter na regularidade dos padrões de trabalho e estudo. A irregularidade passou a ser o traço definidor da situação de crise. As pessoas começam as coisas e não terminam. Desistem no meio do processo. Inflacionam aspirações e denegam realizações, que são tidas como fonte insuportável de sofrimento psíquico. Enfim, manter a ordem no sistema das desigualdades, gera muito adoecimento e também muita morte social e simbólica. As exclusões se tornam cada vez mais autoexclusões. Outra coisa que tenho percebido. Pessoas que provêm de famílias com altíssimo capital econômico e social que não conseguem adquirir o capital cultural e escolar requerido pela origem. Uma crise de transmissão do capital educacional em famílias de classe média alta. E como a herança deixou de ser a principal forma de garantia de pertencimento ao campo do poder, exceto em alguns casos, os dos muito ricos, o pessoal de classe média alta não está conseguindo se reproduzir socialmente a contento, pois o investimento escolar é financeiramente alto com baixo resultado em muitos casos. Filhos da classe média alta que vivem de mesada e atividades fora dos padrões institucionais ("alternativos", por exemplo, com dinheiro para consumo cultural constante mas que são inconstantes na aquisição do capital cultural oficial) estão onerando os pais e pondo em risco a reprodução dominante da família. Recorrem então à política e ao mercado matrimonial para resolver o problema.

Wednesday, November 21, 2018

Cerveja ruim

Falta de realismo é você acompanhar a busca pelo preço baixo forçado pela queda da renda, mas protestando contra a queda da qualidade de vida que isso acarreta. O não realista é um consumidor inconformado. É um pragmatista crítico. O realismo ingênuo é você adequar o seu gosto à queda da renda refletida nessa busca do preço baixo daquilo que é imitação da imitação e de baixa qualidade, mas que você elogia para se sentir validado na sua opção de mercado, pelo simples fato de ainda ter alguma opção, estou falando da cerveja, é claro. A gente bebe mijo à força. Não vou ficar inventando gosto por esse mijo que nos empurram com preço "baixo", de fato, elevadíssimo, se pesado na balança das qualidades. Ter de tomar droga ruim, de baixa qualidade, é uma tremenda opressão. Vamos pelo menos aderir ao realismo crítico.

10%

Os economistas do sistema preconizam que as organizações em geral tenham apenas 10% de quadros de especialistas no sentido moderno (alta performance, alta qualificação, altos salários - estes últimos não tão altos assim, se comparados com o passado). Essa tendência anti-intelectualista propagada por intelectuais neoconservadores cai como uma luva, quando vira uma força de crença generalizada de que realmente o estudo não vale a pena. Que a maioria pare de almejar o que vai ficar raro é uma medida de proteção de mercado para quem almeja ficar entre os 10%. Que a maioria das famílias pare de desejar o universo do especialista, que os jovens parem dessa "mania" de ensino superior. Quais jovens? Não há opinião inocente. Muita atenção é pouca. O pior é que muitos dos que propagam a corrente anti-intelectualista são os que se quer excluir. A concordância do indivíduo não desejável com sua própria exclusão é a razão de ser da política atual e da aliança entre família, governo e igreja. Fechar as portas, reserva de mercado, proteção dos nichos. E o ataque à universidade pública passa por aí, pois, virtualmente, ela democratiza acessos, e, efetivamente, desvaloriza diplomas de especialistas no mercado dos diplomas. Os liberais ricos e brancos são protecionistas, quando se trata de política de cotas raciais para seus filhos (pelo racismo de Estado disfarçado de espírito de competição ou por este alimentado). Garantir os 10% com relativa exclusividade. Plausível, não, essa hipótese? Quaisquer erros informacionais aí, me deem o toque. Desconfio que não seja tão simples assim.

16 anos

Hoje, é o aniversário do meu filho mais velho: 16 anos. Daqui a 17 dias será do meu caçula: 2 anos. Minhas rotinas na função pai são precisas. Envolvem muita disciplina. Autodisciplina de minha parte. Pessoal que me acha loucão por causa de postagens de FB, não sabe quase nada de mim, exceto que sou o loucão do FB. Na real, sou paizão desses meus amores que são esses filhotes que me fazem rir do sacrifício que é criar filho do jeito que deve ser, com presença e muito diálogo de 5 da matina até sempre, a vida toda. Alegria de ser reconhecido como pai é fora de série.

Wednesday, October 31, 2018

Orgulho ou vergonha? O problema de ser professor em tempos de ódio ao professor

Fiquei com vergonha de ser professor. Me sentindo acuado, culpado. É como se eu tivesse feito a escolha errada. Tivesse escolhido ser educador. O professor está sendo tratado como um criminoso. Até quem antes dizia ter admiração pela gente, deixou de expressar isso. Onde erramos? Por que querem que fiquemos cabisbaixos? Que punição é essa? O professor gasta parte do salário com livros. É uma alegria imensa quando o livro chega. A gente sabe que vai estudar e isso vai ser transformador na sala de aula. Hoje, chegou um livro que comprei. Fiquei triste. Indiferente. Me deu vontade de chorar. O livro parecia não ter mais lugar. Parecia uma coisa errada. Está difícil.

Monday, October 29, 2018

Cuidar das crianças

Cuidar, sistematicamente, todos os dias, sempre, prioritariamente, das crianças. Manter a regularidade desse cuidado. Buscar também fazer isso com qualidade. Sem stress. Sem transferência de sentimentos e atitudes negativos para as crianças. Tentar, pelo menos. Escutar muito a criança. Aprender a escutá-la. Ensinar as crianças no dia a dia a cuidarem de si mesmas. A ter noção de si e do outro. Fazer isso de domingo a domingo, sempre, a vida toda, sem faltas. Desafio de ser pai. Desafio de ser mãe. Uma trilha de obrigações para com as crianças. Tornar-se criança com a criança. Não ser impositivo em demasia. Dizer mais "cuidado" e menos "não". Dizer o "não" na hora certa, para demarcar o poder do "não" em certas circunstâncias (enfiar o dedo na tomada, por exemplo). Dialogar muito, conversar muito. Não bater. Nunca bater. Nem palmada. Não há necessidade, quando se é um pai-educador ou mãe-educadora, a força do amor, dos afetos, da palavra, do abraço, do acolhimento, da autoridade também, enfim, isso tudo basta e ainda não é suficiente para dar conta da aventura do humano. A violência física é sinal de falência da educação. Alimenta o medo e a desinteligência. Dedicação total. Não é fácil, mas é muito gratificante. Mas exige vários sacrifícios dos desejos individuais. Estar a serviço do cuidado do outro não é brinquedo. Mas ensina algo sobre ética, porque de amor já se trata.

Thursday, August 16, 2018

A vida acadêmica

Quando fazia graduação, assistia aula de 7h às 12h, almoçava de 12h às 12h30, entrava na biblioteca às 13h e ficava até 19h, ia para as casas de cultura estudar inglês, francês, grego, latim, tudo gratuito, terminava às 21 horas, aí o bar estava lotado, ia para lá beber cerveja e bater papo com a galera. Chegava em casa às 24h. Ia digitar trabalhos e transcrever fitas até às 2h, para ganhar uma parte do aluguel de uma quitinete que dividia com um amigo no centro da cidade. Tinha a bolsa e essa grana dos bicos. Era estudante profissional. Conhecia um monte de amigos e amigas que faziam isso também. E não vinham de família rica, nenhum de nós. Sábado era o dia todo lendo, a gente fazia era grupo de estudo no sábado lá na UFC, domingo, depois da ressaca recuperada, pois sábado à noite era balada na certa, lá pelas 15h de domingo, começava leitura e finalizava no Cais Bar, dando uma esticadinha até a manhã de segunda, indo direto para a aula, sem se atrasar. A aula começava às 7. Isso lá pelos idos de 1993. Universidade era puro tesão. Estudar muito, na liseira, namorar e dançar e deixar o corpo transcender o mundinho de merda dos arredores. Contracultura. Universidade para mim não é mercado "livre". É corpo livre. É um estilo de vida de recusa ativa do adoecimento. Universidade adoece quem? Para mim, é fonte de saúde. Por isso, quis continuar nela como professor. Pelo tesão.

Adoecimento acadêmico

Se as exigências hoje estão bem baixas, por que se fala tanto em adoecimento acadêmico? Ninguém mais é obrigado a ler mil páginas por semana. Esses tempos estão fora da regra do jogo atual. A universidade virou mercado "livre". Todo mundo é "livre" para não aceitar ser exigido por uma instância de assujeitamento, que está na base da formação do sujeito acadêmico. A atividade cobradora é percebida como opressora. Para não ser opressor, a gente cobra da gente mesmo, então. E não sou elitista, não defendo uma universidade elitista, ao contrário, penso que a democratização da universidade é disseminar práticas formativas e de produção de saber orientadas politicamente para a ruptura com as imposições do sistema de mérito, que é uma hierarquização baseada na desigualdade de capital. O deixa-rolar como for, como os indivíduos desejarem, de acordo com as "escolhas" de cada indivíduo que se serve na universidade como se estivesse consultando um "menu", buscando o "combo" que lhe interessa, é aliado do neoliberalismo. A subjetividade neoliberal do atual consumidor de serviços educacionais na universidade é pouca discutida. Discute-se mais o neoliberalismo do produtivismo. Penso que é uma questão a se pensar. Rejeita-se produtividade sob a etiqueta da contraposição da ideologia do produtivismo. E a relação entre Universidade e Democracia vai para o ralo, ou seja, vai para o buraco do mercado "livre". A luta por democracia é árdua. Envolve uma recusa do trabalho alienado.

O problema da leitura na universidade hoje

Do ponto de vista da lei do meu desejo, esse lance de que ter de ler muito na universidade é fonte de adoecimento é papo-furadíssimo. Para mim, para o meu desejo, ler muito é o que me mantém vivo, alegre, com desejo de ser, de persistir, de continuar, de dançar, conversar, namorar, ler muito é minha melhor terapia, depois do namorar. Salva minha vida mais do que qualquer outro bem de salvação que se possa ofertar no mercado. Ler muito não me adoece, me dá tesão. Me deixa querendo ler mais. É o desejo do desejo sendo acionado. O desejo de persistir sendo mobilizado. Estou falando somente de mim. Se existem pessoas que acham que ter de ler muito na universidade é fonte de adoecimento, eu me dou o direito de subjetivamente desconfiar de que isso é uma cortina de fumaça, que esconde outro tipo de problema existencial. Mas sobre o desejo do outros, que falem os outros. Falo sobre o meu.

Wednesday, August 15, 2018

Coisas da vida

Um ano e meio sem dormir? Duas vezes já. Dois filhos. Não é brinquedo. Depois que passa, vira história. Histórias de amor. Mas não é fácil. O corpo é testado no limite. O pior são três ou quatro noites em claro, menino doente, febre 40 graus, vai e vem de hospital. Quero nem lembrar. É compromisso forte. Dá pra vacilar não. Enfim. Ter filhos é uma loucura. Coisa de doido , quando não se é irresponsável, é claro. A responsabilidade efetiva é coisa de doido. Tem de renunciar a muitas coisas. Muitos sacrifícios. Criar gente como deve ser é uma tarefa extenuante. Mais para as mulheres. E para os homens, vai depender. Pra muitos, é só ausência. Não foi o meu caso. Os filhos me chamam de pai, isso é uma conquista emocionante. Quase compensa a loucura.

Férias do professor em 16 de julho de 2018

Dia 16, no meio das férias, e eu tendo que me policiar para não começar a trabalhar logo. Pense num autocontrole difícil. A gente é de tal modo condicionado a ser robô que não sabe tirar férias. Há também colegas que se aposentam e ficam em depressão. No meu caso, fico estudando sem parar, pois estudar é uma forma de trabalhar que não entra nos meandros burocráticos da organização com suas mil e uma demandas a todo vapor durante as férias. As férias do professor é lendo livros e escrevendo artigos acadêmicos. Uma mistura de prazer e sacrifício. Não estou elogiando nada, estou só relatando a loucura que é. Mas não entro nessa de dizer que estou em adoecimento. Não estou. Estou só louco mesmo.

Tuesday, August 14, 2018

Nomadismo?

Quando intelectuais cosmopolitas, sedentários, burgueses, bem integrados e adaptados, pesados de tanto capital que carregam, escrevem textos de elogio do nomadismo, do movimento, da predação e do saque, fico com uma pulga atrás da orelha.

Ameaça de corte de bolsas

Minha análise sobre o corte das bolsas é a seguinte: a Universidade pública está empresariada, seja para o setor público, seja para o privado. A pós-graduação não vai acabar. Vai ficar mais competitiva. Mais elitista. Governos e empresas vão criar bolsas para remunerar mão de obra de alunos de professores consultores de empresas e governos. Essas bolsas vão ser distribuídas apenas para quadros restritos. A Universidade vai enxugar custos, diminuindo a quantidade de matrículas. Os cursinhos vão ficar mais fortes. Critérios de desigualdade de capital informacional serão mais reforçados, bem como o racismo institucional que predomina nesse contexto. O resultado vai ser uma pós-graduação mais enxuta, mais conectada com as corporações e com os governos, mais voltada para o mercado, selecionando de modo extremamente rigoroso (segundo critérios do sistema de hierarquização de capital educacional) os quadros em formação. A Universidade vai seguir sua vocação histórica de ser formadora de elites para a modernização autoritária, só que agora numa versão mais utilitarista, tecnicista e voltada para a integração e adaptação no contexto de arranjos produtivos globais. A maioria silenciosa está comemorando que haverá enxugamento de bolsas, pois assim os mecanismos de seleção e treinamento ficarão mais marcados pela forte competição entre os estudantes e os professores. Quem vai defender a perda das bolsas? Quase ninguém. Apenas os segmentos marginais à própria pós-graduação. O resto é cortina de fumaça, a fim de se mostrar politicamente sensível. O cenário é mais duro do que a gente pensava. (não defendo essa merda, estou apenas relatando).

Dois pesos e duas medidas para os protestos

Quando a Dilma cortou 12 bilhões das federais , houve silêncio quase total, quase ninguém protestou. Foi estarrecedor. Agora, vem os cortes menores, que dão continuidade ao corte maior, e gera um escarcéu. Dois pesos e duas medidas. Quando blindavam Dilma, autorizavam cortes que estavam planejados por ela. Ela falou isso abertamente, que ia fazer, mas o impedimento não permitiu. Temer está cumprindo um cronograma de cortes planejado pela Dilma. Continuidade. Só houve um golpe interno. Um golpe no golpe. Tanto é que PT e PMDB são os melhores aliados de sempre. PT golpista. Em janeiro de 2015, o governo Dilma deu um golpe, cortando 80 bilhões da área social. Do sistema federal de ensino, o corte foi de 12 bilhões. Desfez todo o investimento anterior de 8 bilhões e cortou mais 4 bilhões. Fez a universidade recuar para um padrão FHC. Em tal contexto, estudantes e professores em sua maioria dilmistas fizeram absoluto silêncio. Não houve protestos. Agora, o PT se alia no país inteiro com o PMDB. Quem são os golpistas?