quarta-feira
fingi nove horas
novas horas
com aurora
de viração.
desci a ladeira
perdi a caneta
as palavras errantes
sós na imaginação.
saí do cinema depois de seis cervas
meti pela testa copo e meio de maçadas
no devaneio da batida,
escrevi empolgado
na lembrança da filosofia
nos guardanapos de papel.
espreitei o terreiro
limpei a garganta
e desatei a cantar na minha quadrilha
fora da minha cosmogonia
os desejos e os dias
só me fazem chorar.
E, de promessa em promessa,
eu me perco a fantasiar
o que seria de mim?
Monday, August 20, 2007
Saturday, August 18, 2007
Valentina
quando você nasceu para a vida, eu me fiz fluxos. Desapareceu do meu campo semântico qualquer suporte de imprecação. Vesti-me orgulho e altaneiro para exprimir a permanência como condição do olhar e da compreensão. Era em plena difusão a consistência das relações sobre as formas e conteúdos. Nos meus braços te recebi como tesouro arcaico! Ria-me sem fim da ousadia, pois quão ousados são aqueles, quando se lançam em fazer conhecimento do possível.
em tal momento!
o manejo do texto sofrível é minha especialidade. duas ou três vezes, começo! Sem mesuras, o arrebatamento do velocímetro fragmenta a intenção. Especialidade ou antecipação? Ainda preciso descortinar o véu da mixórdia de jogos com os quais me comprometo na feitura do pensamento. O espírito de sistema enraizou-se como matriz das práticas de sentido, todavia nem todo efeito é recursivo. O não-linear faz-se nas modulações do eu. Na escrita proustiana da verdade, eu me refestelo. Seria lamentável abandonar a perseverança, o tirocínio e o gosto pela invenção. O que sobra? O que me sobra? Não entendo nada de sobras, nem de sobejo, vivo exclusivamente da degustação do porvir.
Wednesday, August 01, 2007
veja o filme Amor à flor da pele, de Wong Kar-Wai
eu já vou ler para ti, meu amor! vou ler a história do presente. estou aqui, com esta brochura na mão que eu ganhei do meu melhor amigo, quando eu tinha dezesseis anos de idade. só o tempo, o tanto de bebida, bebida, e o tanto de cigarro, fumado, dá notícia como essa que quero te passar e da qual me aprazo em te contar, como se conta a fuligem dos edifícios em construção.
as ruínas são o desespero da morte. morte desprovida de conforto. essas ruínas, tão velhas, perderam até mesmo a amargura que lhes era incrustada como um diamante na pele ruim, desgastada de tanta má alimentação. as ruínas são a desembocadura da morte. e só de quem provou da seiva grudada nas rochas, ela testemunha, só esses podem localizar-se em relação a elas e apesar delas.
nunca fui um sujeito muito compassivo...talvez...eu tenha até agora conseguido ser educado. polido e educado no sentido próprio ao da civilidade. motivos não faltam jamais com a imprecisão toda de suas certezas. sempre iremos à Bagdá, mas prefiro Praga, pelo menos no momento...Bagdá me faz lembrar do luxo e da pecaminosa desgraça impingida aos incautos. e de precauções estou tão cheio que sou capaz de montar um plano de expansão baseado em pequenas variâncias da vida cotidiana, inimigas das rotinas.
...tudo se passa como se a vida não refulgisse sem ti. contar-te-ei todas as minhas práticas e nisso te darei essência, ou nada poderia valer se estivesse apenas à altura de minhas memórias.
as ruínas são o desespero da morte. morte desprovida de conforto. essas ruínas, tão velhas, perderam até mesmo a amargura que lhes era incrustada como um diamante na pele ruim, desgastada de tanta má alimentação. as ruínas são a desembocadura da morte. e só de quem provou da seiva grudada nas rochas, ela testemunha, só esses podem localizar-se em relação a elas e apesar delas.
nunca fui um sujeito muito compassivo...talvez...eu tenha até agora conseguido ser educado. polido e educado no sentido próprio ao da civilidade. motivos não faltam jamais com a imprecisão toda de suas certezas. sempre iremos à Bagdá, mas prefiro Praga, pelo menos no momento...Bagdá me faz lembrar do luxo e da pecaminosa desgraça impingida aos incautos. e de precauções estou tão cheio que sou capaz de montar um plano de expansão baseado em pequenas variâncias da vida cotidiana, inimigas das rotinas.
...tudo se passa como se a vida não refulgisse sem ti. contar-te-ei todas as minhas práticas e nisso te darei essência, ou nada poderia valer se estivesse apenas à altura de minhas memórias.
Thursday, July 26, 2007
Pasquim
houve tempo em que a inteligência expandia-se como em ondas, hoje é explosão de partículas. eu estava lendo o site do Millor e fiquei tão entusiasmado com as tiradas da figura que resolvi perguntar para minha filha o que ela achava. De certo modo, é como se eu passasse um legado para ela, resultado de todos os domingos em que, no centro cultural banco do brasil, eu li o arquivo completo do Pasquim desde o primeiro número. Para minha surpresa, ela me disse que eu colocassa a estante dela na biblioteca da nossa casa bem no alto, pois ela não gostava de ler, mas de interpretar os signos da ação, enquanto eram produzidos pelos diversos jogos de linguagem da desalmada modernidade. Tomei um susto de deixar cair o cigarro do beiço. Afinal, que conversa estranha era essa, minha filha é só um pequeno bebê humano, e já quer discutir a incomensurabilidade das taxonomias humanas? Fiquei pasmo. Andei a noite toda sem dormir, de um lado para outro, cigarro após outro, cerveja inteirando a outra, e nada de resposta para o enigma. Finalmente, lá pelas três da matina, deitei movido pelo cansaço, pela embriaguez e pela certeza de que ela estava dormindo, linda e maravilhosa, na casa da mãe dela. Não se fazem mais filhos como antigamente, eu, ao menos, era leitor assíduo do Pasquim. Aliás, sou!
Sunday, July 22, 2007
as tragédias não são em vão!
nada melhor do que a sombra ilhada do guarda-sol, um pedaço do mundo parece abrir-se a partir da terra, da areia molhada e fria, sob o calor escaldante da praia, do verão inventado na solidão do ciclo natural. os corpos atentos, direcionados, acesos. Outras pessoas passavam. Dirigiam-se aos círculos, propensas à embriaguez, dilatadas pela devassidão do caminho interrompido, malhado de tão estrito. Ao mesmo tempo circunscrito e aberto. Escalado para o nada, para o brilho da mente natural, das algas-marinhas, filhas da imensidão, e do alimento disperso. Cambiam os corpos deitados com o caminho possível. O picolé derretia na praia-balneário da Itália de Calvino. Amores ternos, fluidos, capazes de se amalgamarem aos cacos de tijolo pisados sob a maré baixa das pequenas vagas. Os olhares entrecruzam-se aflitos, ou melhor, sôfregos, em busca do adorno perfeito, do puro valor estético que faz a coisa ser mais funcional na sua apreciação e consistência. Ao sairem do mundo das vagas, encontram em si os fluxos de um trânsito de praia sul-africana na década de sessenta. Poucos carros, muitas vidas perdidas fora das estradas. Os apartamentos que margeiam as vias de acesso à praia estão bloqueados por quadros baratos comprados no supermercado mais original da cidade. Mesmo assim, os corpos antes deitados seguem firmes, e sentados. Guiados pela potência mortífera do automóvel. Dobram seitas, rejeitam esquinas, embrulham-se como pão feito na hora. Quentes e macios. Voltam do ninho à rua. Incrementam as mesas dos bares, e fazem a calefação dos olhares alheios e inquietos. Capazes de tudo, menos da ousadia de abraçar fios de alta tensão descapados escorrendo e serpenteando nos corredores das mesas como cobras. as letras fazem-se em guardanapos de papel. não ambicionam ir além disso, da pele tatuada e da alma estriada. São as estrias da alma que fazem o real ter espessura e sensatez. a querela maior é robusta, se comparada com as ninharias que os prisioneiros são obrigados a amamentar na rotina da selva de pedra, no mergulho no vazio dos átomos, sem comunicação, sem diferença. o que se há de evitar, espelha-se e reluz como medéia em apuros. o que se há de abraçar, dormita breve e quente na palma inteira da mão.
Friday, June 08, 2007
imago
ele escorregava em si mesmo. parecia feito de cera. não era fogo a escada que o engolia. era um deslize. invocava a si mesmo no ato de fazer o gelo derreter na cratera disforme da cidade. Qual cidade? Não seria melhor perguntar: quem cidade? quem nada o qual o valha. ele simples estava lá. mente sobre a deposição a que foi obrigado curvar-se. mesmo vergado pela toniturante medida do pneu queimado, imperceptível, escondido do olhar do morticínio. da embriaguez, ele se desfaz pela fantasia técnica que é a magia da imagem.
Saturday, June 02, 2007
aprendizagem
quando vejo teus olhos de topeira a me procurar na saída do colégio, meu coração se enternece e, não por uma questão de crença, mas de pura sensibilidade em relação à capacidade que o ser humano tem de agir; e isso implica em nascimento e invenção constantes. Improvável seria não ter meus olhos grudados e embaçados como os teus diante da confusão do mundo. do teu abraço provém sentidos em multiplicidade, inclusive com enorme detalhamento dos sentidos do múltiplo. aí é uma torrente permanente. não pára e eu adoro. te amo desde o sempre. talvez, continue aprendendo com você nos momentos em que mais preciso.
Carta para um amigo
nos primeiros tempos, era tórrida a paixão. Por causa de alguma lei besta do destino, quer-se vê-la diminuída em prol da coletividade. A maioria obedece prontamente. Nem resquício de volatilidade, são tão clássicos e elegantes os mecanismos que roubam a carência do seu estado bruto. bem, mas de qualquer modo, meu caro, restou muita amizade durante alguns bons anos. De quem se trata? Te digo já, mas antes me arranja um cigarro aí, por favor! Na paz, valeu, vou te contar tudo! O problema era de mapa astral, não havia conexões suficientes para sustentar um pleito de pura felicidade. Quebrou-se feito faca, faca enterrada no peito, como na canção, você a conhece? Da Fátima Guedes? Saca, não? "O seu nome é uma faca me dilacerando, o segredo é uma faca de dois gumes" e tal. É um som muito massa! Foi uma grande amiga quem me apresentou. Mandou pelo MSN. Pelo menos para isso, esse troço basta! Mas, na paz, vou só te avisando, a vida fervilha trás aos montes, e o mundo arrefece suas injunções mais baratas, recusando praticamente todos os contratos extorsivos de fornecedores. Tudo passa a ser condição de existência, tudo o que toca o humano vira condição de existência. Sacou? Vou ficando por aqui, quem sabe amanhão não tem novamente um samba lá em casa. Estou nessa preferência para todos nós, camarada! Vai em frente, estropia teu joelho mas não ceda mais do que dois passos àqueles que querem ver o igual virar monótono; e não o vulcão de mil faces de diferenças que é.
Muitos beijos para a galera aí,
e um forte abraço pra você.
Muitos beijos para a galera aí,
e um forte abraço pra você.
o gerente endoidou e o preço baixou!
O cara aparecia num cenário cor de verde-limão. Cambaleava todo troncho até um primeiro plano e um close-up. Dançava freneticamente, jogando perna pra todo lado. O locutor então começava a falar desse pobre homem em tom histriônico "o gerente endoidou e o preço baixou". Triste fim, pode-se alcançar com tão pouco.
Saturday, May 19, 2007
dogtown é aqui
eram duas da manhã. eles subiam a ladeira onde tinham escondido o bagulho. o momento era de tensão. em número de seis, as coisas pareciam não querer se escamotear. o fio da calçada acompanhava todas as sombras. e como, afinal, não se fala para os outros abertamente a respeito de lugares secretos, os passos calados pareciam jogar basquete numa quadra coberta vazia. a noite era imprecisa, lunar, escorregando os pés de rainha.
e aqueles segredos expressavam a fé que depositavam na vida, precisavam ser resguardados dos olhares da lua e de seus adversários. tinham chegado na praia à tarde, tinham surfado e nadado horas a fio. as pedras percorriam os pés na saída, mas não antes da mordida das tartarugas. imprimiam impertinência e vivacidade com essas pequenas e possíveis querelas. era tudo uma imensa diversão.
e aqueles segredos expressavam a fé que depositavam na vida, precisavam ser resguardados dos olhares da lua e de seus adversários. tinham chegado na praia à tarde, tinham surfado e nadado horas a fio. as pedras percorriam os pés na saída, mas não antes da mordida das tartarugas. imprimiam impertinência e vivacidade com essas pequenas e possíveis querelas. era tudo uma imensa diversão.
Wednesday, May 09, 2007
o corpo escorrega da alma?
não poderia te interpretar e agir sobre ti ao mesmo tempo. o tempo resvala. escorre lentamente. e a imprecisão não é uma medida negada, não é disjunção. é como a batida do coração. trivial seria incorporar o antigo piso da morada. piso de demolição. por mais lindo que seja, ele é subjetivo em demasia. deixa-me em perigo. tão longe de mim mesmo que deixo de aparecer. e sem aparição, sem aparência, não há sentido, não há rouquidão que valha a pena, nem faringite, nem nada que impeça o nariz de farejar, o ouvido de escutar o marulho na praia e a garganta de ser comovente na despedida. são duas? são mais? quereria não ter sido tão néscio desde o ponto de amanhã. tão comoventes são as narrativas da subjetividade quando destroçadas pelo peso do martelo na avelã. quão matreiras e imberbes são as subjetivades que acreditam poder se expressar sem as modalidades que as alimentam no espaço crítico do pensamento. mas aí já são outros quinhentos e cinquenta e dois movimentos.
o que me importa é que, na madrugada de dentes frágeis, já não serei mascate de meus olhares. nem ímpio, nem fraco serei, se e somente se tu, a quem não posso interpretar ao pretender agir, minar o sentido da fraqueza de caráter. dois ou três? ou vários? qual PIB americano me desprendo da base de mercúrio, onde acaricio o vidro e desejo o caco de vidro da minha febre gentil, da minha cordialidade de mendicante. banho de sais, querido, banho de sais e taça de champanha vietnamita irão te salvar do caos e da aposentadoria aos cinquenta e cinco anos com plano privado e teto máximo da pública e estúpida distribuição. elogios? nada de elogios é distribuído nessa miríade de palavras sem correspondência. lá vão os cinco reais! lá se vão minha estratégia de não seguir as regras de um território aonde não me dirijo, e a quem não me pertence em magia e pranto.
na estrada escura da cidade, eu não caminho. não busco revelar e preencher nenhum sentido. não espirro sem permissão de quem não liga para prisioneiros e suas categorias de plantão. quer pular a muralha? aprende a ser hirto, firme e empaludo como os samurais da arte na timidez de sua própria bilheteria. ardente no desejo de se fazer ampliada e marcante. mas não basta o carbono, nem a fita de máquina de datilografar para deixar-se agenciar pelo conceito macrobiótico e absolutamente descentrado do meu samurai. lançador de chamas pelo peito de fogo diante da extinção do estamento dos guerreiros sem comiseração. foram eles todos derrotados pela Nike do Nilo Verde, onde matanças não se fazem sentir antes do meio-dia.
o que me importa é que, na madrugada de dentes frágeis, já não serei mascate de meus olhares. nem ímpio, nem fraco serei, se e somente se tu, a quem não posso interpretar ao pretender agir, minar o sentido da fraqueza de caráter. dois ou três? ou vários? qual PIB americano me desprendo da base de mercúrio, onde acaricio o vidro e desejo o caco de vidro da minha febre gentil, da minha cordialidade de mendicante. banho de sais, querido, banho de sais e taça de champanha vietnamita irão te salvar do caos e da aposentadoria aos cinquenta e cinco anos com plano privado e teto máximo da pública e estúpida distribuição. elogios? nada de elogios é distribuído nessa miríade de palavras sem correspondência. lá vão os cinco reais! lá se vão minha estratégia de não seguir as regras de um território aonde não me dirijo, e a quem não me pertence em magia e pranto.
na estrada escura da cidade, eu não caminho. não busco revelar e preencher nenhum sentido. não espirro sem permissão de quem não liga para prisioneiros e suas categorias de plantão. quer pular a muralha? aprende a ser hirto, firme e empaludo como os samurais da arte na timidez de sua própria bilheteria. ardente no desejo de se fazer ampliada e marcante. mas não basta o carbono, nem a fita de máquina de datilografar para deixar-se agenciar pelo conceito macrobiótico e absolutamente descentrado do meu samurai. lançador de chamas pelo peito de fogo diante da extinção do estamento dos guerreiros sem comiseração. foram eles todos derrotados pela Nike do Nilo Verde, onde matanças não se fazem sentir antes do meio-dia.
Thursday, March 29, 2007
Notas de pesquisa (tese)
Os sentimentos, as emoções e os pensamentos das pessoas nos são inacessíveis? Talvez, não! E se eles são constitutivos dos atos de linguagem e não da mente? Estou ultimamente interessado na questão da intimidade, na relação entre intimidade cultural e os processos de constituição dos sujeitos. A própria noção clássica de pessoa precisar girar nessa perspectiva. Não há como traduzir os outros sem o sentido dos outros, sem vibrar em torno do que os outros dizem, mostram, fazem, enfim, sem um questionamento sobre as fronteiras mágicas que instauram o território do eu, com seus limites sobre o dizível e o visível. Não estou interessado no comportamento dos indivíduos - esse objeto de conhecimento das ciências sociais - quero vislumbrar, para além também de uma sociologia da ação, o espectral do universo narrativo. A matriz narrativa das práticas segmentares?
Como as coisas são dadas a ver? Como as coisas são dadas a dizer? Como o ver, o dizer, o fazer e o agir dão-se a si mesmos o mundo a "quem" se dão como mundo? A noção de mundanidade guarda relação importante com a de intimidade. Em que passos largos, pode-se guardar o mundo da intimidade? Trata-se de uma mudança de projeto intelectual. Antes, até minha dissertação de mestrado, o que me preocupava era o espaço da ação. Mantinha um resguardo desconfiado em tomar nesse espaço a ação simbólica como medida de constituição do objeto de conhecimento em sua autonomia relativa frente ao funcionamento do mundo social. Aliás, essa dubiedade levou-me a adotar a velha solução do simbolismo, apenas trasmudada de uma versão substancialista para outra funcional. O símbolo está em função de...de si mesmo? de outro si? Estas são considerações para a retomada de um novo projeto de pesquisa, talvez centrado na idéia de uma hermenêutica do sujeito, quem sabe, para que eu possa voltar ao ponto de partida, Michel Foucault, acompanhado do pessoal da antropologia a quem me afeiçoei decisivamente.
Como as coisas são dadas a ver? Como as coisas são dadas a dizer? Como o ver, o dizer, o fazer e o agir dão-se a si mesmos o mundo a "quem" se dão como mundo? A noção de mundanidade guarda relação importante com a de intimidade. Em que passos largos, pode-se guardar o mundo da intimidade? Trata-se de uma mudança de projeto intelectual. Antes, até minha dissertação de mestrado, o que me preocupava era o espaço da ação. Mantinha um resguardo desconfiado em tomar nesse espaço a ação simbólica como medida de constituição do objeto de conhecimento em sua autonomia relativa frente ao funcionamento do mundo social. Aliás, essa dubiedade levou-me a adotar a velha solução do simbolismo, apenas trasmudada de uma versão substancialista para outra funcional. O símbolo está em função de...de si mesmo? de outro si? Estas são considerações para a retomada de um novo projeto de pesquisa, talvez centrado na idéia de uma hermenêutica do sujeito, quem sabe, para que eu possa voltar ao ponto de partida, Michel Foucault, acompanhado do pessoal da antropologia a quem me afeiçoei decisivamente.
Monday, March 26, 2007
Mudo
O mundo dividido estrangula com júbilo infantil e profeciência perversa as forças do mundo vivido. Em que idéia de mundo, salva-se a vida? Em que experiência de mundo, inaugura-se o tempo e o espaço da redenção? Do meu vale de lágrimas, insisto na absolvição celeste pela arte, pela ciência e pela amizade, a melhor dizer, pela ordem superior das coisas, pela maestria da arte do pensar. Acordei noturno para a vida. E na sucessão dos dias, hão de escapar-me as forças recônditas da renovação, da recolta da alegria e do adágio maravilhoso? Escape ou apropriação? Adonde? Na feitura do porvir? No tecido das brilhantes formas? Em quem me escapo dos signos formais e vazios em que afogam-se alma e coração? Por mais lancinante que sejam as decisões, elas nos aproximam do abandono do eu pessoal, imprimindo-lhe o sabor solvente do mágico ardor em que se opõem o céu e a terra, a lida e a leitura amorosa dos astros e, finalmente, o trágico enlace entre sofrimento e alegria. Quem nos ensinam sobre a morte? A quem pagaremos por essa aprendizagem inconclusa? Quais são nossos rituais fúnebres? E o nosso incenso queima alhures? Londe de estar petrificado, encontro-me na mais ampla vertigem do signo que gira, gira e gira mais uma vez a fim de parar o mundo pela despedida do próprio signo. Signo capturado pelo código dual do mundo dividido.
Sunday, February 25, 2007
Convicções
As convicções são portentosas. Matreiras em adestrar a experiência aos seus caprichos, em moldá-la contra a razão. Por que então são tão irresistivelmente sedutoras? Minha adesão, por exemplo, ao mundo do trabalho é uma dessas loucuras em que o ser semelha perder o que ganha pelo fato de eximir-se do próprio território, estabelecendo relações ambivalentes e cambiantes com o território dos outros. Meu território é o da infância. Como Lévi-Strauss, tornei-me professor para não sair da escola. Ao final e ao cabo, sou um malandro orgulhoso e pago caríssimo por isso. Ao tentar fugir das humilhações ocasionais lançadas sobre o mundo da vida, desenvolvi a destreza impoluta de navegar na transversalidade do espaço conspurcado das corporações, espaço estrutural, funcional e corrompido pela perversidade do mediano. Meridianos perversos e risadas histriônicas. Ambos negadores do riso. E nessas mixórdias de caráter fragmentado, implodido em mil pedacinhos desencontrados, não me encontro e nem me procuro, pois não sou besta de nascença, só de parecença quando vem ao caso e ao raso do poço de onde almejo emergir. O que busco? Um tipo de economia de guerra às avessas: um tipo de plano auto-organizador onde a abundância orienta a procura, o valor do valor é movimento de conhecimento e o extraordinário é o principal vínculo de orientação para o fim em cuja afirmação enleva-se a gratuidade do devir.
Saturday, February 17, 2007
Manhã de sábado de carnaval
Naquela tarde de outubro, ao debruçar-me sobre o parapeito da trincheira, arma em punho, o espírito a atraiçoar-me, pude vislumbrar o deserto e nele não havia cor vivaz que o valesse. Faltava-lhe nitidez, era tudo verde-musgo de um escuro que feria a intenção de olhá-lo. Ato contínuo, apregueava meus olhos a não mais poder a fim de evitá-lo, recusá-lo e dissuadi-lo, não o queria em mim, não o permitia ser em mim a mais completa condição de abandono. Ao contrário, buscava acender para meu uso pessoal essas chamas de heroísmo e idiotice a que me aferrava por sobreviência da alma, buscava permanecer no desespero, aceso à ironia da situação, atento à vida mínima ao meu redor. Desesperado, a calmaria dos sentidos tornava-se minha única guarida contra a depressão e o desmembramente dos órgãos. Meu estratagem contra a exaustão. Olhos cerrados protegiam seu brilho, ou o que dele restava. Apenas o odor de pólvora naquele campo de ossadas e corpos insepultos guiava-me nesse direcionamento como os passarinhos que na praia saltitam de uma sombra a outra projetadas pelos guarda-sóis.
Para escapar da náusea dos corpos chamuscados, forçava-me à lembrança olfativa dos tempos de criança quando costumava em absoluto sigilo e segredo deliciar-me com a baforada quente dos boeiros da minha cidade natal. Todavia, lá estava eu, naquele espaço sem lugares, e ele era o ponto mais baixo, era o páramo afundado em tristeza e desesperança.
Nem percebi, quando Hen me passou o copo amassado. Praticamente, bochechei o café ralo, servia-me para lavar os fragmentos de atum enlatado já duplamente incrustado em meus dentes. Meu rosto estaria tão encruado quanto o de Hen? Ao fitá-lo não pude divisar reconhecimento, era um rosto de piscadelas involuntárias, inerme e virginizado de espírito, não percebi que Hen, sem palavras, instava-me a ter com ele no canto mais sujo daquele buraco de lama, não era bem um chamado, mas palavra-de-ordem rota e muda. Cansado como se o cansaço não mais me abandonasse, encolhi os ombros e dirigi-me com cuidado até ele. A um palmo dele e não o sentia, Hen tinha deixado de ser uma composição, o vivente o abandonava, estava frio, sem vitalidade, emplastrado de rejeição a si mesmo. Não sei ao certo como compreendi que ele necessitava de uma massagem nas mãos. Elas estavam obviamente petrificadas. Cada dedo precisava ser tocado com leveza para não ser despedaçado. Hen tinha perdido a habilidade do gatilho. Tinha-se tornado meu protegido e, ao mesmo tempo, meu escudo. Essa situação era-lhe a própria presença da consciência. Era o único farrapo que lhe restava dela. Uma trojevada de artilharia nos jogou de lado e anunciou o avanço da infantaria esquálida e faminta do exército inimigo. Estavam todos muito perigosos, enfim. Nós e eles. Os desaparecidos do mundo. Hen não esboçou nem mesmo olhos vidrados antes de morrer. Foi engolido pela terra, lançado para a cratera sob nossos pés, um buraco do tamanho da nossa importância. E eu? Fragmentei-me em minhas modulações, pois só a escrita imprecisa afungenta a mesmice desse teto de convalescença. Teto estrelado, radiante e lúdico, modulado pelo efeito da morfina. Uma dose diária.
Para escapar da náusea dos corpos chamuscados, forçava-me à lembrança olfativa dos tempos de criança quando costumava em absoluto sigilo e segredo deliciar-me com a baforada quente dos boeiros da minha cidade natal. Todavia, lá estava eu, naquele espaço sem lugares, e ele era o ponto mais baixo, era o páramo afundado em tristeza e desesperança.
Nem percebi, quando Hen me passou o copo amassado. Praticamente, bochechei o café ralo, servia-me para lavar os fragmentos de atum enlatado já duplamente incrustado em meus dentes. Meu rosto estaria tão encruado quanto o de Hen? Ao fitá-lo não pude divisar reconhecimento, era um rosto de piscadelas involuntárias, inerme e virginizado de espírito, não percebi que Hen, sem palavras, instava-me a ter com ele no canto mais sujo daquele buraco de lama, não era bem um chamado, mas palavra-de-ordem rota e muda. Cansado como se o cansaço não mais me abandonasse, encolhi os ombros e dirigi-me com cuidado até ele. A um palmo dele e não o sentia, Hen tinha deixado de ser uma composição, o vivente o abandonava, estava frio, sem vitalidade, emplastrado de rejeição a si mesmo. Não sei ao certo como compreendi que ele necessitava de uma massagem nas mãos. Elas estavam obviamente petrificadas. Cada dedo precisava ser tocado com leveza para não ser despedaçado. Hen tinha perdido a habilidade do gatilho. Tinha-se tornado meu protegido e, ao mesmo tempo, meu escudo. Essa situação era-lhe a própria presença da consciência. Era o único farrapo que lhe restava dela. Uma trojevada de artilharia nos jogou de lado e anunciou o avanço da infantaria esquálida e faminta do exército inimigo. Estavam todos muito perigosos, enfim. Nós e eles. Os desaparecidos do mundo. Hen não esboçou nem mesmo olhos vidrados antes de morrer. Foi engolido pela terra, lançado para a cratera sob nossos pés, um buraco do tamanho da nossa importância. E eu? Fragmentei-me em minhas modulações, pois só a escrita imprecisa afungenta a mesmice desse teto de convalescença. Teto estrelado, radiante e lúdico, modulado pelo efeito da morfina. Uma dose diária.
Tuesday, February 13, 2007
em sonho
era madrugada de quarta-feira. qualquer tentativa de permanecer acordada, parecia-lhe fadada à rabugice. sua maior dúvida era um ato de convencimento, mas ninguém convence ninguém, muito menos a si mesma, principalmente quando as idéias parecem despropositadas, sem trama; e a manhã era madrugada pernoitada, ora se sentia por isso uma pecadora, outra vez, impossibilitada, pois falhar com a trama é terrivelmente inconsistente, quase proibitivo. dizer para si mesma tudo o que sentia naquele momento seria o maior e melhor engodo; infeliz, constatava, não haver tempo para isso, a verdade urgia.
Saturday, February 10, 2007
O mundo está preenchido no pleno?
Eu intento, para além do tipo, pensar em viver o desejo abstraindo-lhe a definição de quem busca faltas próprias e inelutáveis. Estruturas inenarráveis simplesmente me impingem desconfiança, porque, palavra plena de pulmões e arteiro, ignoro quem não se torna carne, sangue e proeminência sem sair do solado dos pés. Pragmático, no mundo de aruanda, estou na peleja do pensar e viver o desejo privando-o daquilo que lhe falta.
Mais forte do que meu eu?
Se duas pessoas se comunicam, encontram-se enredadas no mais frágil dos fenômenos humanos. A comunicação quase sempre ressoa tão dispensável ao ponto de ter-se criado, ao longo do tempo, a ferramenta débil da consciência individual para servir-lhe de suporte. Desse modo, acontece comigo - a não mais poder-, ser reputado reservado e inconclusivo, e falsamente tomado pela referência da distância justamente no instante em que mais embaçado estão minhas lentes. Por que então quando estou mais próximo de quem me fura o olho com o punhal da desesperança, de quem pressurosamente me enaltece a fim de me matar de morte matada e para quem reservo meu destempero verbal como um modo de fazer reverberar o eco do eu te amo às avessas, é o como em que se eu estivesse mais longe?
Monday, February 05, 2007
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