Saturday, December 29, 2012
Não sou dono da minha cabeça, apenas do juízo. (reescrita).
Tudo se passa como se uma história muito antiga pudesse ser contada. Uma história imemorial. Mítica. Uma narrativa seria melhor dizer. Narrativa sobre pessoas que viviam nas ondulações, intangíveis, entre forças e impactos, desrevestidas, no máximo delineando em formas inseguras e passageiras que se desfaziam no mesmo momento em que eram acionadas, moviam-se pelos atos de olhar, fascinadas pelo encanto e pela impossibilidade do aprisionamento do corpo difuso do outro. Dar o nome ao nome, regra ao torto, acabamento ao direito. Nesse ponto eram duras quase figuras, essas pessoas narradas. Não se mostravam acanhadas nas matanças nem nas danças ininterruptas que a ela se interpunham. Iam a se apropriar do real, interagindo no firme propósito de impedir qualquer estabilidade hierárquica entre os viventes. Para elas, a maior riqueza era saber compartilhar as diferenças, distribuindo-as de um modo natural que não era uma reificação da entidade Natureza, mas sim, ao contrário, uma ode aos fluxos. Tudo de origem coletiva era de ficar sob vigilância deles. Passavam-se séculos em instantes, não havia o início, o meio e o fim como modelo de fazer. Pessoas de coração generoso, sorriso largo e capazes de amar o próprio destino. Povos raros, ligado na qualidade das conexões, das alianças, dedicando a maior das atenções para os tratos, os pactos e as imprecações entre viventes e moribundos. Gente de impecabilidade. Fazer o caminho desse povo é uma aproximação que faísca. Com o peito ao chão, deitada a honra, com a cabeça servida na bandeja das mãos, ofertada a inteligência. O nascimento é uma ação livre, prenha de potencialidades livres.
O tempo e o vício. (reescritos).
Com o tempo, os vícios de caráter, os principais, se cristalizam. É o que se chama amadurecer, como em algum lugar escreveu Proust. Quando li essa ideia pela primeira vez, no tempo em que ainda se acentuava a palavra ideia, eu não parei mais de recorrer a ela nos mais diversos contextos de reflexão, de usá-la em várias ocasiões e situações de conversa, não apenas para parecer sabido ou melhor ou fatalista ou qualquer outra atribuição negativa de valor que os que me antipatizam como uma alma gêmea do cão, enfim, a força dessa ideia não remete ao querer viver uma vida alcunhada, vida nomeada, vivida presumidamente como significativa, mas isso seria outra história. Depois de anos, percebi que a ironia da história: o tempo decorrido é uma baita de desculpa esfarrapada para quem quer justificar algo pelos vícios cristalizados que possui. Não antes dos meu próprios vícios, nem após tê-los emoldurados, dei-me conta de que o tempo não corre. Que maluquice é essa de por o tempo para correr? De qualquer modo, não se pode depor contra a eficácia simbólica da motivação da própria malvadez, falta de esperança, ruindade, mesmo, naquilo que seria um simples fato abstrato da vida universal e etcetara. O tempo é um fato? Desde quando? Em que tempo ele assim se fez? Fazer o tempo correr, porque o tempo corre é o motivo de um quase parricídio, não fosse o Tempo apenas filho da Terra; trata-se da cristalização da própria personalidade. Era uma vez o tempo cristalizando os vícios numa personalidade cristã ou numa personalidade rapace. E lá vou eu de novo em busca do tempo perdido. O tempo corre ou o tempo escorre? Cristalizam-se os vícios e Deus se faz mundo. E chega, porquanto, o tempo de empunhar as ferramentas próprias para inventar o tempo, arborizar o Nome Dele, chamar para si todos os artifícios da nomeação. Modo de não esgotar o que se guarda em segredo. Manejo de vitalidade. Queria saber inventar mundos como minha amiga que há anos o tempo levou pela brutalidade e ignorância de um tiro desferido contra o corpo dela, corpo que tecia o mundo, desfazendo-o dos vícios que o paralisam.
Thursday, December 27, 2012
Passeios ao léu (uma etnografia transfigurada).
As cabeças recostadas na parede. Um ao lado do outro. Sem divisórias, as cabeças na gamela, desfazendo-se como bichos, liquefeitos, não é como no aeroporto internacional do Ceará, onde ninguém pode olhar para o pau do outro nem que queira pois é tudo bem dividido, um pau para cada divisória, os mecanismos ocultos do desejo superados, diferente do boteco que dominado pela vitrola nas alturas convidava a moçada para voltar ao salão onde as meninas esperavam. As caixas de som eram meio estouradas, certamente, mas no banheiro reinava a paz de Deus, não havia discórdia, cada repartição tinha sua representação, o mármore, a cruz e o infinito, nem mesmo no balcão de bebidas as coisas funcionavam assim tremendamente fora da ordem. O banheiro, ao lado da mesa de sinuca, não tinha desse tipo de prerrogativa, de privilégio, que costuma separar a vida dos senhores da dos servos, o banheiro era uma metafísica da ordem social, os bairros nobres separados dos bairros pobres, cada qual no seu cada qual, e, nem por isso, os homens perdiam a concentração no ato de urinar, mãos ao alto, pensativos, amortecidos pelas bebidas fortes, embriagados de chá mate. A cabine, reservada para outras necessidades, estava devidamente trancafiada, cadeado e corrente bem passados, e apenas sob demanda solícita ao dono barbudo se poderia acessá-la, um senhor desconfiado, olhar esperto, tentando adivinhar a posição de cada cabra que circulava no entorno do balcão, girando em vários graus sobre as lentes da armação os olhinhos especialistas, enquanto tomava café com leite, feito na hora, despreocupadamente, calmamente, e, em cima dele, escondida nos caibros do telhado, embainhada, uma peixeira enorme, quase uma espada, amolada só de ver por fora. Era uma maneira de delimitar quem era de dentro e quem era de fora, a peixeira no Ceará é um sistema cosmológico de delimitação do real, tanto do ponto de vista da noitada e dos negócios, como das relações laterais. No balcão, uma longa e envernizada tora de madeira, artesanalmente trabalhada, sobre a qual as cervejas, os drinques e os petiscos estavam dispostos em proximidade aos respectivos fregueses que falavam italiano, inglês, francês, espanhol e romeno. As meninas rareavam, escassas e fugidias, as poucas que por lá cruzavam estavam meio depressivas ou muito eufóricas querendo ir embora. Muito raras, brandiam olhares perpétuos de um segundo, sabidos em átimos, de quem cheira a ponta do metal e direciona o rumo a ser tomado. O esquema da noite era uma falha só. Prejuízo estava estampado na cara de todos. De todos e de todas. Todos (dono do bar, garçons, cozinheiros e seus assistentes, mototaxistas, traficantes e policiais) e todas (putas, namoradas das putas, parentes vendedores ambulantes das putas e amigos e amigas em geral que tinham ido para aproveitar alguma boquinha e fazer um programa sem se comprometer com a condição), todos tinham um cara de tacho, de frustração, de noves fora que somente uma noitada de sereno, de chuva no nordeste seco, podia oferecer. Lá para as bandas dos cabarés as coisas deviam estar mais animadas, era o pensamento geral que flutuava sobre a cabeça das pessoas, afinal, salão é salão e a Jukebox é atemporal, não tem hora ruim. O motociclista ao lado do bar queria de qualquer maneira um boquete da menina. Ele também estava trabalhando. Ela, profissionalmente, hesitava sem nenhum pudor, apenas por valorização do seu modo de estar de pé e para evitar transtornos com as autoridades, os colegas, uma vez que estava trabalhando também. Um das poucas que fora trabalhar naquele horário soturno e lamentável de vazio e falta de circulação de dinheiro. Tinha ido hoje por precisão pura, talvez estivesse bodada, pois puta bodada toma um remedinho pra disfarçar e engabelar os otários. A luz do poste, expondo o evento vexatório, facilitou uma negociação mais favorável para ela, saiu na garupa do motoqueiro que desistiu de insistir que a puta o chupasse ali mesmo no meio da rua e no claro. O italiano, de Roma, tomando uma cerveja no balcão de bebidas, olhão aberto para a puta em questão, estava em desespero, parecia que tinha acabado de chegar na cidade. Não era aquilo que tinham prometido da Fortaleza proibida. Era mais festiva, não? parecia expressar sobranceiro. Bateu em desespero atrás de uma travesti, toc toc toc rápidos na calçada, que passou ligeira para as bandas do calçadão perto da igreja de Nossa Senhora do Mar, caminhava para negócios ,certamente, ou certamente fugindo dos mal negócios. O italiano ia ter que correr e ele foi atrás. Pagou a conta com um nota de 50 reais, o dono do bar verificou sob as barbas a autenticidade do papel antes de lhe passar o troco. Os italianos agora que estão sem primeiro ministro, às turras com a austeridade fiscal, parecem ter perdido algum valor de face no mercado local da cidade, mas não de todo, as meninas são apaixonadas por eles, pagam até as contas, se preciso for. Na esquina, bem próximo do bar, os rapazes do beco, olhares mais acesos do que as ventas, de boné-bermuda-laço-bobo, caras de bandido, ofereciam o caminho das pedras para os clientes. Tinha do branco, do preto e da pedra. O caminho do beco era proustiano em sua avidez por luz e sombra e flores.
Tuesday, December 25, 2012
Urgências! (reescritas).
Tinha pavor de quem rotulava as coisas de urgente, mas naqueles tempos, obsessivo, ele precisava de uma mulher urgente. Mas a urgência na mulher não fazia nenhum sentido. Não era uma atributo provável. A urgência dele não era de tipo sexual, não estava a fim de descarregar seus infortúnios no corpo copo de alguém. Um pouco de honestidade ainda havia no deserto por que passava há anos, desde tempos perdidos na memória, não havia nem imagem da origem nem da natureza da desgraça em que se metera, ou que se tornara ele próprio, um filho da puta desgraçado. A precisão era da ordem da fantasia. Uma fantasia de alienado. Remetia ao mundo do desmundo, onde essa dor da desrealização quase total não era mais capaz de inquietá-lo como quando se tornou uma figura soturna, mas ainda com alguma alegria pré-estimulantes. Imaginar uma mulher urgente era a maior precisão. Fazia-o com afinco, uma atitude de doidivanas, desenhando perfis nos guardanapos de papel, enquanto se afogava no décimo segundo uísque da noite. Sentava sempre nos balcões. Quando entrava em qualquer bar sentia que o corpo dele já estava grudado desde sempre na ponta de um balcão, o drinque já servido e a noite em aberto com mais uma conta impossível de pagar. Os colegas de balcão por vezes querendo puxar assunto, uma tremenda chateação ter de se livrar dos caras. Quando os insistentes, já para lá de Bagdá, se viravam um segundo para pedir algo ao barman, ele voava para o banheiro e voltava depois de uns minutos fazendo expressão de nove horas como se tivesse acabado de chegar, não tivesse reconhecendo o ex-colega de balcão de agorinha a pouco, se fazendo de desentendido e surpreso na maior cara de madeira. Isso gerava uma brutal desconfiança do colega de copo. Dava para medir a descarga da adrenalina aliviando o efeito do álcool e, nesse momento, alguma consciência fazia-se presente, o que tornava possível uma comunicação rápida, do tipo: "vá para casa, camarada!". Quase sempre dava certo. Houve uma vez que ele resolveu virar as costas, no tempo em que o companheiro de balcão foi e voltou do banheiro. Mirou uma mesa com dois belos par de pernas e se fez de rogado. O sujeito não gostou da traição. Agiu de modo explosivo, aplicando-lhe um soco de punho fechado nas costas, na altura do rim direito. Uma dor aguda fez-lhe o corpo retesar e depois se curvar sobre si. O sujeito saiu rapidamente do bar, trôpego, batendo aqui e acolá nas quinas das mesas, os garçons e os fregueses atônitos. Ele seguiu o sujeito e numa rua escura travaram uma luta corporal que não parecia mais ter fim. Por isso ele tinha certo receio em sentar no balcão quando os sujeitos já estavam truviscados. Era arriscado. A peia podia comer em algum momento. Ele pensava nisso, sobre esses casos de outrora, enquanto conseguia se livrar de mais um colega indesejado, atrapalhando seu exercício de escrita no guardanapo, o que fez obtendo sucesso e assim pode retornar ao profundo devaneio sobre o perfil da mulher urgente. Dedicação de mausoléu de mármore para vencer a hora avançada e fria, ele foi se segurando no uísque e na pouca imaginação bêbada que lhe restava. Ferramenta do contexto em punho, a caneta que fora afiada nas melhores escolas (as mais fajutas), a escrita era o único hábito que o salvava em meio ao torpor e ao barulho que atordoava a mente naquele local e àquela hora confusa de noite-claro, mesmo nos mais dedicados regimes de exceção, em bares para lá de sujos, musicalmente sujos e humanamente podres, essa escrita ainda o salvava, escrita em papéis de guardanapo, ele os colecionava aos montes desde décadas. Ou seriam guardanapos de papéis? Para pensá-la, não mais na própria escrita, mas na mulher urgente dos sonhos, ele havia madrugado anos a fio, era algo que requeria um caráter persistente, invariavelmente duro. Para querê-la, o intervalo bastava, mas os intervalos infindos eram tão numerosos quanto as baganas transbordando cinzeiros em situação de penúria. Essa mulher urgente, ele a concebera mil vezes no desenho do guardanapo e no redesenho do redemoinho em que se encontrava sua vida. No afogueamento da água de briga, as possibilidades iam ficando cada vez mais limitadas. Imaginava-a linda e recorrendo a contornos generosos. Quereria-a sempre e jamais, estava ficando confuso de novo. Nem murmúrio de um cio lhe faria desistir e se desapegar da tarefa imaginativa. Aliás, as gatas de balcão há muito tinham abandonado qualquer cio no sentido carnal, entupiam os narizes de mármore, enquanto iam retocar (borrar) a maquiagem, mulher pó de rato, era como ele as chamava, as queridas companheiras de balcão, e depois afundavam mais ainda no uísque e na depressão feminina que é um poço profundo duro de encarar. Mulher de balcão de bar, mulher bomba relógio. Em geral, é claro, ele não era um sujeito preconceituoso. Há prazerosas exceções nos caminhos da vida. O dia já estava a amanhecer, ele estava mais sério que o habitual. Exausto. Era ele mesmo que via caminhando trôpego pela calçada, ele se projetava e se antevia na imagem móvel do último colega de balcão que se antecipara e saíra, ele ainda restava imóvel, grudado na ponta do balcão. Lá pelas tantas, quando despregou, dirigia o carro em chamas, sem rumo certo. Carro explosivo. Direção muito menos perigosa do que o estado em que a mente dele turvada se encontrava. À beira-mar, caminhavam rostos convidativos de impecáveis mulheres, lindas nos saltos para o alvorecer, mas muito pouco precisas e absolutamente disponíveis, mediante a prata, mas sem nenhuma urgência, salvo o dinheiro do táxi ou uma carona para fechar o caixa com uma margem ligeiramente melhor do que a habitual. Elas não o interessavam. Ele teimava em desejar a mulher urgente do guardanapo de papel.
Qual puta velha! (reescrita)
Houve tempo em que me considerava alguém sem compaixão. Detestava, nas minhas primeiras e frágeis leituras de Nietzsche, qualquer sensibilidade que se dispusesse nesse termo. Eu fazia um joguinho de cena em torno disso, um charme. Girava nos próprios calcanhares e lançava um olha de esguelha, um teatro, uma péssima encenação, coisa de bêbado, era uma afetação só, e o único e besta intuito dessa manobra era mostrar-me incapaz de aderir ao fácil e falso sentido humano da comiseração. A quem ousasse abrir um pouquinho que fosse de seu espaço desconhecido, e carente, baixasse a guarda, clamando por piedade, era este o momento triunfal do ato de sacrifício e perda do outro. Não havia vez para os fracos. Éramos todos boçais. Eu me sentia quase implacável, distribuía moralidade pérfida de um modo tão exemplar que os amigos titubeavam em me pedir para ficar ou sair da mesa de bar onde estávamos abancados a fios de horas sem contas nos banhando desbragadamente de todo tipo de bebericagem. Alguém pedir minha conta era um motivo de quase ruptura da amizade, virava um trovão. "Quer ir embora, poeta? Vá em boa hora, desgraçado! Vai perturbar o cão! Faça o favor!", eu defendia minha cerveja gelada até a alvorada sem nenhuma peia de aflição, era todo interjeições. Quem se interpusesse entre mim e o mar, no Cais Bar, no Gets da Sandra Gentil, no Estoril, na G2 ou na Cabumba, na Cafua, corria sério risco de morte, de perder pelo menos um dedo ou a ponta de uma orelha mordida. Afinal, uma traição só poderia ser punida com a morte ou desterro. A pena capital era a invisibilidade. Ostracismo para os chatos. Eu queria ser cruel, quando tinha 19 anos. Como eu era tolo! Hoje, depois de ter me esmerado no ato de cuidar de quem precisa de tudo, cuidar de quem vive nas zonas do abandono, eu próprio, faltam-me forças para manter-me indiscernível nessas intermediárias da vida onde as garças dançam. Prefiro passar a bola e assumir um sentido mais senil da existência, mais derrotado, mais alheio, acompanhando um ou outro passarinho pousar na janela do escritório onde escrevo o dia inteiro, tomando sucos especialmente preparados para adocicar sem açúcar artificial os meus dias, apenas o açúcar das frutas (destilado). Expectativas tenho muitas, é claro, venho a ser pós-estrutural após tamanha desfaçatez e embriaguez juvenil, procuro ainda uma casa, procuro ainda uma família, procuro ainda um amor, afinal, quem para de procurar se torna desinteressante para a casa, a família e o amor que lhe sustém os vícios de caráter e lhe traz algum pejo de superar a desesperança. Adoro aquele livrinho do Steinbeck, chamado O inverno da nossa desesperança, e, como preconizava Heinrich Heine, citado numa magnífica nota de rodapé por Freud, a nota de número 17 de Mal-estar na civilização: "Tenho a mais pacífica disposição. Meus desejos são: uma modesta cabana com teto de palha, mas uma boa cama, boa comida, leite e manteiga bem frescos, flores diante da janela, em frente à porta algumas belas árvores e, se o bom Deus quiser me tornar inteiramente feliz, me concederá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos serem enforcados nessas árvores. De coração tocado eu lhes perdoarei, em sua morte, todo o mal que na vida me fizeram — pois devemos perdoar nossos inimigos, mas não antes de serem executados". Quem são meus inimigos? Ninguém mais do que eu mesmo, o destruidor de meus próprios sonhos, pisando na própria capacidade de sonhar como se estivesse pisando na cabeça de uma barata que não tenha morrido da primeira lapada. Sequer me importo que me atrapalhem a cerveja gelada, como fazem muitas vezes me enviando para o pijama. Estou que nem puta velha. Vendo cafezinho para os antigos clientes, talvez em troca de uma palavra amiga, de uma saudação calorosa, um aceno, talvez, mesmo que distante. Acreditem! Como é bom sentir o peso da idade e não sentir saudade nenhuma de quem se foi. A proximidade com a morte faz bem aos sentidos, deixa-nos mais alertas e atentos. E quem precisa de outra coisa na vida, como dizia Goethe, do que estar alerta e atento contra os hábitos? Os móveis cruéis de outrora não me alegram mais. A vitalidade é um péssimo princípio de existência. Existir é um péssimo negócio, aliás.
Iminências (reescritas).
Era quase redondo o peso do sentimento. Uma coluna extraída do campo das coisas graves parecia ter sido recortada exclusivamente para mim, meu talhe encurtado. O ato de nomeá-la como exclusiva, como sendo a coluna talhada para o meu corpo, sob medida, deixava-a mais pesada do que de costume, uma vez que eu intui naquele instante que lá ela sempre esteve, invisível. A dispersividade das forças em vez de me ameaçar operava a meu favor, era esse o meu credo. Essa coluna era o fim do início de algo que eu não saberia precisar nem com mil palavras. Uma espécie de sofrimento avizinhava-se de mim, rodeando-me, salteando em torno de mim com um sorriso de canto de boca acintosamente maldoso, mirando o meu íntimo, imiscuindo-se no meu mais íntimo que era o pouco de alegria que o meu corpo de pilha de rádio estourada não deixava entrever. Irônica coluna, pensei e não tive força para amaldiçoá-la. Das uma às duas da tarde, quedei-me enquanto minha querida e antiga dispersividade esvaía-se de mim, jorrava como um jato involuntário de uma substância vital que é expulsa do lugar onde, por nascimento, tivera seu pouso certo e funcional e correto. Nem cansativo, nem apelativo. A vida àquela altura me parecia uma mixórdia escarlate de percepções distorcidas, e minhas distorções pareciam não mais quererem ser minhas companheiras, havia um ar de revolta contra mim mesmo, uma revolta de si que não levava em consideração minha alteza e dignidade reais como centro do poder e da sedução que dantes eu buscava com convicção descrever para quem estivesse no meu entorno, com palavras e gestos soberanos, arrogantes. Eu ia e voltava naquele redondo da coluna como se volteasse com as mexicanas, minhas inimigas que eram as únicas a romper o invólucro e me atingir, picantes, a pele do rosto, entrando furiosas pelos buracos da minha cabeça, uma delas deixou-me surdo para sempre do ouvido do lado esquerdo. Senti-me como Prometeu acorrentado. Um Prometeu distante, fajuto, do terceiro mundo, colonizado, um abestado. Deixei-me abater pelo sono, acho que fui picado pelas mexicanas, e esqueci-me da ressonância odiosa daquela ociosa vida, vida que me fazia abandonar involuntariamente o campo de minhas mais queridas possibilidades, até aquele momento, pelo menos. A coluna se apoderou de mim em plena quinta-feira! Tornei-me um estúpido e bem-comportado trabalhador. Acreditei que havia algo do amor universal naquilo tudo, um trapézio sem rede embaixo tinha sido para mim preparado, eu embelezava com crenças idiotas a minha própria queda no vazio, os ossos chocando-se contra o mais duro mármore, som de osso batendo no chão foi a única memória que meu corpo guardou antes de ser esmagado, destroçado e feito em picadinhos que foram lançados como pérolas aos porcos.
Monday, December 24, 2012
A morte dos inocentes.
A morte dos inocentes. Meninos e meninas do povo morrendo, sendo mortos, e algumas vezes matando por já estarem mortos, fugindo da morte. E aqueles e aquelas que, por vezes, se dizem cristãos e cristãs, simplesmente por frequentarem templos, clamam por mais morte de inocentes, dizendo com ódio no coração que os meninos e as meninas não são inocentes. Que não há inocentes! Mentira! Digo enfaticamente que é mentira. Não são as crianças e os adolescentes os culpados. Somos nós os adultos. Acusam os inocentes de não os serem para ocultar os próprios pecados, maldades e incompetências, enquanto cidadãos, pois sobre a culpa dos poderosos, esses que destilam ódio contra crianças e adolescentes do povo, nada falam, pois aos poderosos são subservientes, capachos. E esses destruidores da fé, soldados de Herodes, tentam dizimar a menina Jesuana e o menino Jesus. Tentaram impedir que ele e ela nascessem e tentam impedir que ele e ela cresçam fortes, felizes, bem nutridos, criativos e livres. Tentam dizimá-los por serem do povo de Deus, por nascerem sem teto, na manjedoura, sem educação, sem saúde, sem direito a ser feliz, por viverem em condições deploráveis e desumanas que foram impostas pelo reino mundano dos poderosos, poderosos de quem esses falsos cristãos adoradores de tempos, como fariseus bajuladores, lambem as botas. Porque sobrevivem do reino mundano que os que nutre de ódio pelos seus, pelos irmãozinhos e pelas irmãzinhas que eles e elas são, pois nascem na mesma condição de abandono, suprema covardia desses que se viram como leões contra os pequenos e limpam o chão dos grandes, encobrindo-lhes os crimes, principalmente, pela omissão, pois jamais pedem penas rigorosas e jamais dirigem ódio aos grandes corruptos da vida social, sempre buscando punir mais e mais os mais fracos, a ponta mais vulnerável. Esses lobos vestidos em pele de cordeiro que ainda ousam se autonomearem cidadão de bem, detratando assim a categoria silente de quem assim age, odeiam no coração os inocentes e amam os donos do poder, esses hipócritas que também frequentam igrejas de ricos, enquanto os capachos frequentam igrejas que querem se parecer com as dos ricos, querendo se confundir com os bons e os justos, que estão entre aqueles e aquelas que Jesus e Jesuana lavaram os pés, ajoelhados e humildes, pois esses fariseus do ódio que querem prender e matar as crianças de Deus amam o Poder, os Senhores, os Grandes, o Dinheiro, a Dominação e seu ódio, acima de tudo, e desprezam os pequenos e as pequenas, são falsos cristãos esses matadores de cristãos que semeiam o ódio e a indiferença, e que pedem mais morte e mais punição para os meninos e as meninas do povo. Que Paulo, o ex-soldado furioso, matador de cristãos, lhes toque a cabeça. São falsos e irão queimar no inferno de seus próprios pecados e omissões aqueles que permanecerem nas igrejas, disfarçados de filhos de Deus, mas adoradores do Diabo, do Dinheiro e do Poder, e defendendo a morte dos inocentes e fazendo sucesso na comunidade por estarem sendo ridículos, mas sabemos que ridículos são quando diante dos poderosos apenas se calam, apenas dizem sim, submissos, subalternos e covardes. "Então, Herodes, vendo que tinha sido enganado pelos magos, irou-se em extremo, e mandou matar todos os meninos, que havia em Belém e em todos os seus arredores, da idade de dois anos para baixo, segundo a data que tinha averiguado dos magos." O pranto e a lamentação pela morte dos meninos e das meninas fazem o dia de hoje e é a todo e a cada dia dos meninos e das meninas vivos que restam ainda a quem devemos nos remeter com a força de nossa fé. Esse pranto brota do coração e da boca de quem? Os que destilam ódio contra meninos e meninas do povo, e que exigem que eles e elas sejam presos, punidos, torturados, aniquilados e mortos - por que querem esconder que nós, enquanto coletividade não garantimos o nosso dever, a nossa obrigação, que é oferecer as condições para que os direitos desses meninos e dessas meninas sejam realizados de modo integral e pleno -, esses que agem com a língua ferina e cortada do demônio, pregando morte e não nascimentos para a vida, esses são os que mais merecem nosso acolhimento e nossas preces para que, por Deus, sejam perdoados de suas próprias maldições. Para eles e elas, os pecadores que se dizem cristãos e defendem a morte de meninos e meninas do povo, nós dedicamos nossa oração. Perdoai-lhes, Senhora, Senhor, eles e elas não sabem o que fazem.
Nota de estudo sobre o campo do poder.
Existe uma distância enorme entre conhecer algo como algo, ver algo como algo e reconhecer algo em que se acredita. Conhecer algo como algo é da ordem do incognoscível (Kant). Ver algo como algo é da ordem do inominável (Wittgenstein). Reconhecer algo em que se acredita é da ordem do poder (Weber). Neste último caso, a imagem mutável das figuras da autoridade que alimentam a crença nelas próprias, como se elas se formassem com imagens imutáveis (o efeito propriamente da autoridade), faz do delírio do referente a condição mesma das figuras de autoridade, de modo que não há como se decidir entre ver e acreditar ver (Kafka).
Devir-mulher e busca pela liberdade.
"Quem só conhece as mulheres através do homem as conhece mal" (Henry Adams). Por conseguinte, sugiro às pessoas interessadas em serem interessantes que desejam conhecer as mulheres a partir do tornar-se mulher que se afastem dos padres, dos pastores, dos sacerdotes em geral, dos professores, dos pais, dos tios, dos amigos e de todo e qualquer círculo de homens seja ele qual for (existe algo mais boboca, imbecil e desinteligente do que um círculo de homens?), principalmente, daqueles círculos de homens que se esmeram em celebrar a dominação masculina de homens sobre as mulheres, apressem-se em se distanciar destes e dos demais trogloditas que com suas ignorâncias machistas e astúcias de poder querem reduzir as relações humanas a relações de dominância em torno de machos gorilas dominantes. "Écrasez l'infâme" (Voltaire) e tenhamos cuidado com as mulheres que trabalham para os homens desses círculos fazendo crer que machos dominantes são necessários, enfim, a libertação é uma tarefa do múltiplo. Sejamos todos e todas feministas pois sem devir-mulher não há busca pela liberdade.
Natais surrealistas.
"Ai, meu Deus!", ela suspirou resignada. Queria de algum modo constrangê-lo, pois ela achava um absurdo que ele falasse tanto de Deus, mal ou bem, "você não tem outra coisa na vida para atentar, não, cara?", fez uma última tentativa, quase chorosa, em desespero. Ele e ela estavam tentando evitar o sinal vermelho, cruzamento perigoso, lugar de assaltos, o caminhão lento enorme tomava toda a pista, na traseira dele, esses caminhões de caçamba usados na construção civil, havia escrito: "Sem Deus, nem tente". Foi o sinal derradeiro para desencadear uma crise nervosa nela, um disrupção completa. Quando ele parou o carro no meio da rua, do lado de fora do prédio onde moravam, pois não havia estacionamento possível, a gorda louca da vizinha tinha posto o carro novo dela no meio do pilotis, atrapalhando todo mundo, sinal de que estava dopada, enfim, eles foram subindo, cansados, sem energia para estarem sequer irritados, mas ela estava com uma faca de cozinha na mão, ele se surpreendeu, essas de serrinha de mesa de cortar pão, ele não a havia notado, foi apenas na subida das escadas, quando ele e ela subindo, ao se depararem com um vizinho, descendo as escadas, que se assustou com a cena da mulher com a faca na mão o que o obrigou a um esclarecimento educado, diante da face horrorizada do vizinho, lívido, fitando com indecisão a faquinha na mão dela, e ele dizia que ele, o vizinho, não se preocupasse, porque estava tudo sob controle e desejou feliz natal, ele pensou consigo mesmo depois que o vizinho desceu as escadas pressuroso que ela havia, afinal, tomado o remédio do dia, mas isso ele não disse para ela, podia desencadear o corte do efeito do remédio, a raiva e o ódio são danados para tornarem as coisas um simples placebo, então, ele apenas sinalizou, tomando-lhe a faquinha da mão, enquanto ela, trôpega, avançando passo a passo pelos degraus, subindo como se houvesse sido empurrada por alguém ia tropeçando em si mesma. E o pior era que ela continuava a imprecar contra o jeito dele que foi desde sempre o tipo do esconjurado de durante o natal ficar falando mal de Deus. Ocorre que ele também não estava num dos melhores dias. Natais sempre despertavam nele sentimentos agonísticos. Era uma luta permanente contra si mesmo. Ficava lembrando da primeira comunhão, da decepção que fora encontrar um padre burocrático que não quisera escutar as angústias existenciais de um garoto de 11 anos. Ele havia se tornado ateu naquele dia, diante da indiferença, da recusa e da incompetência do padre. Chegaram ao corredor do apartamento onde moravam, e ela, a boca mole, dopada de tanta tarja preta que a irmã da amiga que é médica tinha passado para toda a turma, continuava murmurando, a língua enrolada, "se você escrever mal sobre Deus nesse Natal, você vai ver...". Era uma ameaça. Ele não a levou muito a sério. Não era a primeira vez que ela o ameaçava e de outras vezes os motivos tinham sido muito piores. A confusão girava em torno da lista que ele tinha prometido publicar no Facebook, publicizar seria melhor dizer. Um lista que dizia mais ou menos assim: 1. O Absoluto é uma moela. Deus é uma moela. 2. O papa é um tremendo papacu. O papacu não é uma lenda pedófila. 3. A rapsódia não é de agosto. O sertão vai virar mar. 4. O executivo da sadia tinha uma linha torta no fundo da calça. Era empreendedor. 5. A Penélope Charmosa não é a Wanderléa. 6. Ele é o instrumento do meu Saber e da minha Paz. Ele, o inominável. 7. A fortuna é o acaso. Não há dialética possível. Enfim, era esse tipo de coisa que ele vociferava quando estava desconfigurado, transtornado, e era esse tipo de coisa que ela detestava. Ele prometeu que nada iria dizer, que iria respeitar a família, a tradição e os bons costumes das pessoas de bem. Ela não conseguia acreditar nisso. Sentia que ele estava prestes a embolar o meio de campo e fazer um novo escândalo, semelhante ao que tinha feito no outro Natal, quando, assolado pela melancolia e pela desrazão, tivera dois dentes quebrados numa briga com um morador de rua que entoava cânticos religiosos enquanto fazia discursos condenatórios de todo e qualquer cristão que não se compadecesse de tanto sofrimento. A comiseração lhe afetou de tal modo que resolveu peitar o morador de rua, pura compaixão, os dois embolaram-se no asfalto aos tapas e aos gritos, cada qual mais esbaforido do que o outro. Quebravam garrafas bêbadas um contra o outro depois que se apartaram. Alguém da janela, gritou em alto e bom som: "Seus merdas, vão brigar na casa do caralho!". E as rolhas, e os assados de peru, e a farofa, e as árvores decepadas, imprecisas, de plástico, com luzinhas ambivalentes, iam se fechando e se abrindo, gerando paz e harmonia para todos e assim nasceu o menino Jesus, ele sentiu no profundo do seu ser. Sujo, no meio da rua, compartilhando com a comunidade o conhecimento sobre as pedras, sobre o caminho das pedras, o caminho da sabedoria, o menino Jesus estava bem ali, jogado na penumbra da calçada, assustado, faminto, esperando os porteiros dos prédios descerem com as sobras dos banquetes. Ele passou pelo menino e disse "Amém". O menino sorriu.
Tuesday, December 18, 2012
Solidariedade à luta dos profissionais da segurança pública no Ceará.
PRESTO MINHA SOLIDARIEDADE AO CAPITÃO WAGNER SOUSA E REPUDIO ESSAS AFIRMAÇÕES DIFAMATÓRIAS QUE BUSCAM DESQUALIFICAR A PESSOA DELE.
EXISTE UMA DISTÂNCIA ENORME ENTRE QUEM É LIDERANÇA E CONQUISTA O EXERCÍCIO DA AUTORIDADE PELO RESPEITO E QUEM, COMO CHEFE, AMPLIFICA A CRISE DA AUTORIDADE PELA FALTA DE EXERCÍCIO DE LIDERANÇA.
Secretário de Segurança Pública do Ceará afirma que liderança política das tropas da PM, Capitão Wagner Sousa, "nunca trabalhou na Corporação e, muitas vezes, convidado para ocupar uma função, sempre pedia licença". Dizer que um oficial da PM "nunca trabalhou na Corporação" é dizer que é possível ser da PM e não trabalhar? Num caso hipotético, seria possível, por exemplo, ser oficial da PM e trabalhar como segurança particular de uma família durante anos, prestando serviço particular para poderosos sendo servidor público? Isso é possível? Creio que não, né? Nunca ouvi falar de nenhum caso desse tipo. Penso que todos que estão na PM são valorosos trabalhadores. Seria possível admitir que há membros da PM que não trabalham de fato na Corporação? E dizer que o capitão pedia licença para não assumir funções é dizer que o capitão estava agindo de modo ilícito. Ou seja, trocando em miúdos, fiquei me perguntando se o coronel da PM, secretário de segurança do Estado, chamou quase que explicitamente o líder inconteste dos movimentos reivindicatórios das polícias e vereador eleito de Fortaleza com maior votação do pleito de "vagabundo" (quem foge do trabalho e de suas funções) e "marginal" (que usa recursos ilícitos para driblar a lei e as regras, fugindo de suas funções). Será que chamou de covarde, também? Muito arriscado da parte do governo, durante uma negociação onde o governo finge que não está entendendo a pauta de reivindicação, e diz para a sociedade que a pauta está sendo cumprida, e diz também na reunião com lideranças que não tem possibilidade de cumprir a pauta, e tenta jogar a população contra as bases que compõem a segurança pública, e começa a promover uma espécie de ação de guerra em plena vigência da democracia no país. A sociedade está muito atenta a essa orquestração. Não estamos dispostos a sustentar incompetências do campo governamental, apesar delas se repetirem em ritmo cada vez mais frenético. Sabemos que os talentos, as competências e a vontade de mudar a realidade da segurança pública no Ceará não estão tendo vez de atuar e isso nos decepciona a todos, cada vez mais. Saudações ao Wagner Sousa e ao conjunto de "guerreiros" da sociedade cearense. Qualidade de vida, cidadania e condições de trabalho dignas é tudo aquilo que nós que somos muito críticos da atuação tradicional das polícias, como eu, podemos desejar coletivamente para não compactuarmos com a hipocrisia que exige dos policiais atitudes de polícia democrática e cidadã e os trata como escravos na chibata. Queremos policiais e professores bem pagos, de bem com a vida, e buscando juntos a democracia real para o país. Saudações libertárias!
Sunday, December 16, 2012
Inauguração do Centro de Eventos do Ceará (postagem do FB em 16 de agosto de 2012).
Cidadãos e cidadãs cearenses, caríssimos contribuintes, após o show de Plácido Domingos para a "sociedade cearense", também foi servido um belo jantar com direito a peixes e frutos do mar, espumante rosé, vinho tinto, uísque 12 anos, sucos variados, refrigerantes, foram oito bufês fartamente montados para todos e todas comemorarmos os avanços do progresso sob a batuta do governador Cid Gomes e de seu candidato à prefeitura de Fortaleza, o Sr. Roberto Cláudio. Sinceramente, ironias à parte, estou me sentindo muito mal. Para um educador como eu que acompanha a vida cotidiana de algumas das 900 mil pessoas que habitam em favelas na cidade de Fortaleza, ficar sabendo de tamanha fartura de comida, oferecida para evento fechado, para convidados poderosos, financiado com dinheiro público. Isso me deixa com vontade de ficar em silêncio, tamanha é a vergonha que sinto de nós mesmos, os cearenses. Estou com muita vergonha mesmo! Perdão, mas vou dar um tempo para me recuperar. Isso é demais. É uma humilhação coletiva intolerável essa que estamos sofrendo.
Saturday, December 15, 2012
Enquanto o governo se refestela, o povo se estatela.
Os discursos do governo do Ceará, nos últimos anos, têm girado em torno da afirmação cega de que o "progresso" dos empreendimentos econômicos é capaz de gerar "felicidade", "melhoria de vida", etc. Gerar empregos precários, instáveis, temporários com um dos salários médios mais baixos do Brasil só pode ser comemorado pelo governo, quando há ou má-fé ou inanição de pensamento político (ou as duas coisas juntas). Servidores públicos estaduais civis e militares à beira de uma greve, pois o governo de cunho tecnocrata e autoritário não admite negociar, ou seja, exercer a própria finalidade precípua do governo que é ser instância de negociação. Há segmentos populares que comemoram festas de arromba com o governador do Ceará? Sim, com certeza, os há, e se revertem em votos. Mas não devemos jamais esquecer que baixíssimas expectativas acabam gerando inflacionamento da avaliação positiva do governo. As condições de vida no Ceará vão de mal a pior. A desigualdade é uma das mais graves do mundo todo. As melhorias? As melhorias deixemos para os retóricos profissionais do governo transformarem em publicidade massivamente fantasiosa. A pior seca do Ceará é a seca de lideranças políticas compromissadas com a democracia real. Festança para os ricos e festanças para os de baixo, elas vão fazer do atual governo algo que oscila entre Nero e a Babilônia. O desmantelo está no poder.
Tuesday, December 11, 2012
Turn on, Tune in, Drop out
As instâncias de controle pretendem mediar na totalidade as experiências das pessoas na relação com o fora, com o exterior, com os mundos possíveis que se atualizam nos mundos dos outros. O exercício livre da inteligência e do pensamento crítico e reflexivo exige das pessoas uma atitude de recusa ativa dessas instâncias mediadoras absorventes, totalizantes e anestesiantes, pois tais agências de poder (o Partido, a Igreja, a Família, a Universidade, a Escola, a Mídia, a Droga etc.) são agências de controle da dispersão, ou seja, das ações livres das pessoas enquanto criadora de relações relativamente autônomas com os outros sem a mediação de uma política da identidade. É na recusa ativa do Estado onde reside a base histórica concreta e local de constituição da liberdade. E o modus operandi das agências reguladoras estatais é sempre incitar as pessoas a se expressarem "livremente" no interior delas, a fim de produzir contexto de observação controlada do que há de livre nas pessoas, tendo em vista a imposição de um padrão de comportamento que restringe o potencial criativo real e põe sob tutela o exercício das capacidades agentivas dos sujeitos, por isso é sempre bom lembrar que expressar a liberdade sob a demanda das ditas agências reguladoras estatais é favorecer o próprio processo de destituição e captura que estas pretendem realizar, não necessariamente anulando a liberdade das pessoas, mas fazendo dessa liberdade apenas um sentimento fugidio da liberdade potencial, uma dose de veneno para mortificar o corpo e fustigá-lo de tal maneira que o abandono das supostas veleidades daquelas pessoas que agem livremente será promovido ao cargo de censor de si mesmo e estabelecerá as condições do assujeitamento de seu próprio descenso pelo flagelo de si, de uma adesão feliz às razões do Estado e das agências de poder que lhes são concorrentes e convergentes, portanto, solidárias no crime que inaugura sua pretensão ao monopólio, viabilizado pelas linguagens heterônomas que impõem a todos os adeptos da morte.
Monday, December 10, 2012
Ela e Ele
Ela na sonolência da manhã de descanso, distendida, uma alegoria de si mesma, o friozinho do ar e o calorzinho do colchão, incrementando a sensação de abandono de si, levanta a cabeça, levemente e num ângulo quase colado ao do travesseiro e pergunta: "Amor, como está o mundo?". Ao passo que o marido dela, desde horas com a xícara de café na mão, lendo os sete jornais de continentes espalhados, retruca: "Medíocre!". Então, ela volta a dormir, tranquila e apaziguada com os próprios sonhos.
Saturday, December 08, 2012
Drogas? De quem?
A mãe e o pai ficaram horrorizados quando descobriram que o filho estava usando drogas. O psiquiatra, conversando com os três, descobre que o pai é acoolista, fazendo uso diário de uísque ao voltar do trabalho até a hora de dormir, e que a mãe usa remédios tarja preta, psicotrópicos, para dormir, fazendo automedicação, com receitas que conseguiu com um amigo médico. O pai e a mãe ficaram horrorizados em descobrir o filho usando drogas. Ele e ela não se viam como usuários de drogas. A família toda em terapia. (Já ouviram falar numa história assim?) Eu inventei uma geral a partir da escuta de muitas parecidas. Uso abusivo de drogas não é uma questão de polícia, é uma questão de saúde mental.
A Grécia virou a cara do mundo.
A Grécia virou a cara do mundo. Sistema de dominação está sendo mantido pela força bruta. Governos abdicaram de governar e entregaram tudo nas mãos da polícia. Polícia versus população nas ruas e governantes encastelados em posições de conforto, poder e segurança cerrada.
Um toque para amigos e amigas.
Aqui em casa faz um ano que a gente começou a se preparar para a crise que se avizinha. Não há possibilidade do Brasil passar imune. Modelo do desenvolvimento pelo consumo está se exaurindo. Não há receita de bolo, cada família, cada pessoa, percebe de seu jeito. As medidas relativas são.
Vamos entregar o apartamento alugado e vamos morar num terreno perdido lá dentro dos matos. Sistema fossa, sistema cacimba. Muitas fruteiras para fazer suco diário. Comprar arroz de saca lá de Maranguape, direto da mão do produtor e feijão de corda, mulatinho ou verde direto do produtor. Juntar com outra família ou outras famílias para fazer as compras. Descartar produtos industrializados das compras. Fazer uma reserva de dinheiro para emergências médicas. Os planos já estão todos quebrados. Os hospitais dos planos já não funcionam mais, viraram lugares de morte. Se for usar automóvel, fazer isso como um utilitário. Abrir mão de expressar poder com posse de automóvel. No nosso caso, só vamos ficar como estamos com um utilitário com caçamba para transportar material de trabalho. Vamos montar uma escola comunitária no bairro distante onde vamos morar. Abandonar totalmente qualquer veleidade ligada à noção de classe média. Fazer estoque de livros, bibliotecas atualizadas de livros, músicas, filmes, conexão em rede, sem TV (isso a gente já faz). Andar de ônibus para ir e voltar do trabalho (isso já faço). Comer arroz integral, feijão e jerimum, com saladas plantadas na nossa própria roça orgânica. Cortar a carne vermelha do cardápio. Como sou doente por carne vermelha (só pode ser uma doença), uma vez ou outro faço uma filé au poivre para matar a saudade desse absurdo. Comer peixe comprado da mão do pescador (isso a gente já faz com economia de mais de 100%). Zerar dívidas. Usar cartões de crédito sem parcelar despesas do dia a dia. Parcelar somente compras de maior valor para facilitar aquisição de algum produto importante.
Preparem-se também. Podem achar que estamos loucos. Mas será por pouco tempo que alguns de vocês acharão isso. A crise está chegando e é braba. Se tiverem dicas para compartilhar, estamos aceitando.
saudações libertárias!
Onde há seres humanos há violência e submissão?
Onde há processos de submissão e de violência há produção social de violência e submissão. A violência e a submissão não são atributos de uma suposta natureza humana que promove violência e submissão. Dizer isso seria uma metafísica da violência e da submissão. Uma coisa é falar de natureza humana, outra muito diferente de condições humanas ou condições do humano. Por outro lado, a constatação empírica de que há violência e submissão onde há humanos só se torna possível se há uma positividade da violência e da submissão, se há a produção, pelas práticas de violência e de submissão, de entidades, que são efeitos de processos de objetivação histórica, de modo que são reificações, são substancializações e essencializações que mascaram o caráter histórico e, portanto, constituinte das relações de violência e de submissão, e que gera um efeito de teoria, que passa a também reificar o que já está reificado, a constatar o que já está naturalizado pelo processo de dominação histórico. Ou seja: onde há devires-humanos há práticas de sentido que escapam a qualquer possibilidade de se instaurar invariantes estruturais de uma suposta natureza humana.
A ironia das desigualdades efetivas (26 de novembro pelo FB).
Ontem, domingo, surgiu um pequeno vazamento de água, emergindo a partir do asfalto na esquina da Av. Virgílio Távora com R. Ana Bilhar, no Meireles. Hoje, bem cedo, uma aparato de três carros e mais de dez trabalhadores da CAGECE começou a trabalhar com determinação para resolver o problema. Já foi resolvido. O vazamento foi corrigido antes que provocasse o afundamento do asfalto.
Os moradores e as moradoras do Meireles dão um show de mobilização e organização comunitária do bairro. Pressionam o poder público com uma eficiência política impressionante. O bairro, além de possuir o IDH-Municipal mais elevado da cidade, padrão primeiro mundo, e de ocorrer muito raramente, mas muito raramente mesmo, algum homicídio no bairro, ele possui o melhor Posto de Saúde da cidade, mantido pela Prefeitura de Fortaleza, e o pronto atendimento da CAGECE que ocorre de um domingo para uma segunda com velocidade, eficiência e pontualidade, o que demonstra a alta atenção do poder público estadual para com o bairro. Ademais, os aparatos de segurança pública estão bem articulados, com policiamento constante e ininterrupto, e a coleta de lixo é feita regularmente, de modo pontual e eficiente. Sem falar nos equipamentos culturais, de lazer, que abundam.
Eu tinha pensado em fundar a Associação de Moradores e Moradoras do Meireles para lutar por políticas públicas e garantia de direitos para cá, mas os poderes públicos municipais e estaduais já são tão eficientes em nos atender prontamente que vou desistir da ideia.
Esse lembrete é só para a gente não começar a segunda-feira, achando que o poder público não pode trabalhar bem e com eficiência, se não trabalha para todos, aí é que a porca torce o rabo. Será que nos estão faltando governos "socialistas" no Ceará? Deve ser isso! Se tivesse havido uma aliança política dos socialistas para governar Fortaleza e o Ceará juntos e unidos, não seria apenas o Meireles que estaria se banhando nas ondas da qualidade de vida social-democrata. De qualquer modo, que os "socialistas" perdurem no poder, vibram grande parte dos moradores do Meireles, pois eles fazem um bem danado para os bem nascidos.
P.S.: Para os desinformados, não faço parte dos segmentos bem nascidos e endinheirados, moro numa das várias favelinhas que ainda há nos interstícios. Mas já estarei me retirando em breve.
Boa semana e saudações libertárias!
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