Monday, December 31, 2007

31 de dezembro de 2007.

Seria ainda capaz de fechar o livro sem esquecer da página onde abandonara a leitura? Conseguiria mover-me no exercício da exatidão a que tinha me habituado em tempos de escola, retomar a aptidão de ler alguns livros ao mesmo tempo sem perder o fio condutor de cada seqüência narrativa? Haveria de encontrar as modulações do meu eu nessa multiplicidade cambiante do não-linear? Em quais caminhos desvairados a literatura me enredou? Qual o peso desse palácio, além da pálida função de me fazer competente para vender miolos de pão para as empresas de bens de perdição?

Levantei-me aos trovejos. O banheiro estava sendo limpo. Não pude deixar de pensar, e nisso afetei certo contetamento, quão indigno seria interromper o trabalho de quem limpa meu banheiro. Salvo pela réstia desse lampejo, acometi em direção ao outro banheiro. Nele o papel de ursinhos serviria como ótimo marcador. Decidi, ao contrário, pelo exercício de memória. Decorei a página 261 do livro para que a pudesse retomar no frescor da leitura que desde a manhã chuvosa fazia pendurado pelas paredes da minha sala. Um prédio de muitas escadas era minha paisagem corriqueira. Ele brandia sua novidade em minhas ventas. O mar entrecortado era o que me salvava a visão. Da janela, em cujo parapeito minha adorada havia mandado fazer um jardim japonês, eu via muito pouco. Levantei de novo, desta feita a fim de colocar minhas lentes de contato.

E a página do livro? Antes eu reconhecia a seqüência da leitura interropida pelos trechos frescos que pairavam na zona incorpórea aonde lançava dadejos de idéias, impressões e visões em cacos de telha.

Sunday, December 23, 2007

Congé

o corpo busca esquecer das suas modelagens habituais. dirige-se ao encontro da melíflua pele do outono que se foi. Busca o poder da palavra escrita. Refúgio secreto e intermitente de amantes subaquáticos.

Sunday, October 28, 2007

Alice é morta?

ruas soturnas
na sombra fria
enleado em desejo
fremia febril, com fome
em desespero.

alardeados os viventes
da minha face infeliz
saltavam prementes
nas trilhas encrespadas
das noites imberbes.

caloroso me estirava
nos teus aposentos,
queima-me o teu seio,
incutia-lhe tento.

inquebrantável miríade
de mais planetas longes
enlevados

rugia triste em rostos mornos
pintalgados.

Thursday, October 18, 2007

a menina

"Pai, está fazendo muito frio!", diz a menina fugindo mais uma vez do cinto de segurança do carro. O pai apenas olha pelo retrovisor, procura fazer as curvas da melhor maneira. A menina em alvoroço repete: "Pai, estou gelada como uma Bohemia". O pai quase bateu o carro de não acreditar. A menina sabia já como chamar a atenção. Está começando a entender de algumas coisas ou a ensinar? Nem ela sabe, a bichinha!!!! coitada!!! Qual referência tem do pai? Ou será que o significado não tem mais nada a ver com referência?

Monday, October 08, 2007

que não!

e quem nos impede de escrever? o mar agitado, quebrando em caixões desde minha infância? certamente que não. seria a areia da praia em que com meus camaradas tantas vezes pisei em troca do afago, da poesia e da imprecisão da manhã? certamente que não. conversar com os amigos até perder os limites da injunção entre cores pintalgadas de cemitério? certamente que não. angariar fundos para uma partida de ping-pong e uma garrafa de cachaça? certamente que não. uma crise de estabelecer o transitório na vida como se fosse regra? certamente que não. incríveis impropérios sobre o viver, instruídos pela falta de acalanto? certamente que não. martini seco e cubos de gelo, derretidos pela manhã no copo impróprio do beijo de quem mal se sabe amar? certamente que não. singapura no café da manhã? certamente que não. libido de sexo de areia sob a mira do mergulo de olho trôpego, inquisto, do outro? certamente que não. mar de informações, credores pregueados de efetividade e arrogantes pela necessidade do beijo, jasmin? certamente que não. anarco-punk indissoluto, laboriante da vida e na teia do desequilíbrio? certamente...

Saturday, September 15, 2007

livros-objetos

foram os livros que viraram outros objetos ou nós que perdemos a condição de lê-los?

No plenário

“Imagina um guerreiro. Ele não quer sobreviver, ele quer viver. Ele não quer piedade, ele quer a vitória. Ele quer o vinho depois da batalha. Ele não quer a lágrima de suas mulheres na platéia. Ele tem a espada. E a arena tem a multidão gritando pela luta. Agora imagina a arena. O gueto, o tráfico nos becos, as armas e sirenes da polícia. Prostituição. Violência. Tudo bem próximo aos arranha-céus milionários, pontos turísticos, boates e night clubs da classe A. Entre o mar e a favela, onde se encontram os extremos do apartheid social, entre a compra e a venda de sexo, drogas e diversão. Imagina que o guerreiro é poeta. Ou cronista. Ele precisa trabalhar no limite, precisa alcançar a poesia sem perder o realismo da crônica. Ele precisa converter as decepções e injustiças em energia e força pra seguir lutando.

Precisa transformar o negativo em positivo. Então imagina um marginal com o porte de um rei. Ou melhor, imagina um rei que foi transformado num escravo, que se transformou num marginal, pra voltar a se transformar num rei um dia. Imagina a trilha sonora de guerreiros e guerreiras. Um som capaz de tirar eles do poço pra voltarem a ser o que são na verdade: reis e rainhas. Esse é o som do Costa a Costa”.

http://www.costaacostaonline.com/site.php

  1. “É impossível fugir à impressão de que as pessoas comumente empregam falsos padrões de avaliação – isto é, de que buscam poder, sucesso e riqueza para elas mesmas e os admiram nos outros, subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida” (Freud).
  2. A população de Fortaleza é de aproximadamente duas milhões de pessoas. Existem 636.435 jovens com idade de 15 a 29 anos.
  3. 67% desses jovens vivem em famílias cuja renda não alcança mais que dois salários mínimos.
  4. 71,4% desses jovens percebem-se como não brancos, ou seja, reconhecem-se como mestiços, afro descendentes e indígenas. 14,4% desses jovens declaram que sua ascendência etnica ou cor pode ser definida como “só branca”.
  5. Esses jovens, em sua esmagadora maioria (91%), acreditam que podem mudar o mundo. E que a solidariedade, o temor a Deus, a igualdade de oportunidades, o respeito às diferenças, a dedicação ao trabalho e o respeito ao meio ambiente, são os valores mais importantes para uma sociedade ideal.
  6. 81,3% desses jovens consideram como muito importante o desenvolvimento de políticas de cultura, esporte e lazer em áreas públicas.
  7. Quando se trata de cultura e lazer,50,9% nunca foram ao teatro, seguidos de 22,4% que foram apenas uma vez. Isto significa que 73,3% dos jovens fortalezenses estão culturalmente excluídos da prática cultural ligada à linguagem teatral.
  8. 43,9% desses jovens nunca foram a um museu de arte, seguidos de 33% que foram apenas uma vez. Isto significa que 76,9% dos jovens fortalezenses estão excluídos da prática cultural ligada à linguagem das exposições de arte.
  9. 40,6% desses jovens nunca foram a uma biblioteca pública, seguidos de 28,6% que foram apenas uma vez. Isto significa que 69,2% dos jovens fortalezenses estão excluídos da prática cultural ligada ao uso de bibliotecas públicas.

  1. 24,8% desses jovens nunca foram ao cinema, seguidos de 15,8% que foram apenas uma vez. Isto significa que 40,6% dos jovens fortalezenses estão excluídos da prática cultural ligada ao circuito das salas de exibição cinematográficas.
  2. 57,6% desses jovens já perderam pessoas próximas em mortes violentas. Sendo que 59,3% desse universo a causa mote dessas pessoas próximas foi assassinato.
  3. 26,7% desses jovens declaram ter sofrido violência policial.
  4. 48,3% já tiveram contato com arma de fogo.
  5. Apenas 12,4% dos jovens fortalezenses estão cursando nível superior, completaram nível superior ou pós graduação.

Fonte: Pesquisa retratos da Fortaleza jovem. http://www.fortaleza.ce.gov.br/default.asp

Reflexões

  1. Violência é produzida pela falta de reconhecimento público.
  2. Violência é produzida pela invisibilidade e falta de oportunidades de expressão e comunicação.
  3. Violência é produzida pela negação de canais de constituição dos sujeitos sociais e culturais.
  4. Violência é sintoma de uma crise de projetos coletivos envolvendo democracia e participação.
  5. Violência é sintoma da falência de projetos políticos centrados em arte, ciência e cultura.
  6. Violência é sintoma da impossibilidade de se encontrar oportunidades de viver uma vida que possa ser considerada digna e significativa do ponto de vista dos sujeitos sociais e culturais.
  7. Violência é a ausência de geração de emprego e renda em conexão com os valores da sociedade da informação, do conhecimento e das novas tecnologias.
  8. Violência é a negação do outro como sujeito de desejos, de direitos e de deveres para com a coletividade.
  9. Violência é a frustração derivada das negações sistemáticas de realização pessoal, familiar e da cidadania pelo reforço perverso das práticas de autoritarismo que restringem de modo criminoso as liberdades e a criatividade das pessoas.
  10. A violência não é inevitável, não é uma fatalidade, não é algo inescapável, pois a solução do problema está em nossas mãos, depende da nossa decisão em envidar esforços para a circulação livre e democrática da riqueza socialmente produzida. E as fontes da riqueza hoje são conhecimento, informação e participação democrática em decisões que afetam o macrocosmo e o microcosmo das nossas relações interpessoais.

Leonardo Damasceno de Sá

Fortaleza, 15 de setembro de 2007.

entre-lugares

naquele tempo, nós respondíamos com a palavra absurdo como contraponto a qualquer tentativa chula de nos ludibriarem. era o corolário da dúvida com a qual nos instávamos a viver, em que nos misturávamos e assim abrangíamos o campo do possível. descobríamos suas conexões mais íntimas e descapadas; em alta dosagem. tudo girava em torno daquilo que possibilitava algo. Exauríamos como atletas infatigáveis os diversos percursos do pensamento de si, e nem sequer nos dávamos conta da mixórdia fantástica em que nos metíamos para prover de força o natural da nossa resistência. não era atitude chã, mas megalomania . mas era puro exercício. o modo como podia ter ocasião para afiar o pensamento e destilar meus pêsames aos exauridos de espírito. não queríamos a ninguém parabenizar, como de fato não o queremos até hoje.

Saturday, September 01, 2007

Um homem com um glossário

Sempre gostei de formular glossários. Fazer o mapeamento semântico da faticidade do viver em função da transfiguração das realidades adquiridas. É uma brincadeira da minha infância. Aprendi a fazer isso no Canarinho, onde estudei. Os mapas não são os territórios, mas sem mapas autônomos de orientação a vida perde a graça, o arrojamento e a espiritualidade. Minha vanguarda é da ficção conceitual que apenas descreve os processos de conhecimento, sem reivindicar a virtude dos justos no ato do saber. Justeza, apenas no campo dos valores. Nesse ponto, não há tergiversação, só afirmação do campo de luta que nos favorece o aflorar do desejo de si. A mim, e aos meus. A todos, enfim, impregnados pelos sentidos imaginários da civilidade e da humanidade. Fora disso, não há ideias, só entre-lugares e fugas. Dinamismo fátuo e impreciso. Palavras que voam como o livro dos ventos, como diz o poeta francês a respeito das bíblias que são de humanos a humanos lançadas, provocando tempestades e calmarias, alternadamente.

Violência

Violência não é nem termo. Violência é o fim do uso dos termos. Acontecimento de suspensão da contextualização de práticas de sentido, práticas humanas por excelência, suspensão do conhecer, da arte, da ciência, da filosofia e da religião. Violência é a brutal instrumentalização do outro, de modo a torná-lo coisa, indefinível, apagado da memória cultural, violência é o extermínio da inteligência coletiva que guia o universo das relações de sentido. As sociedades e as culturas humanas não são precisas quanto ao seu uso, mas o campo da violência seria um quase-campo se não fosse o fato de que as experiências de violência não são narráveis, ou melhor, são inenarráveis, ou não-narráveis, e isso gera trauma, medo, amargura e frustração, que são sentimentos sociais com os quais se orientam os códigos culturais e sociais quando estão depreciados, humilhados e afundados em seu rancor. O problema do termo violência é que ele esconde o ódio, o ódio social, coletivo, de um modelo de funcionamento de sociedade que faliu na possibilidade de alçar o humano a um projeto de significado que possa agraciar a sua própria diferença e seu modo singular de tornar-se humano, sujeito, sujeito de direitos, de multiplicidades de práticas e segmentação das posições nas conjunturas onde se pisa no território dos outros sem lá ser bem-vindo. A violência é um ato de ingratidão nas relações sociais de parentesco que embasam o mundo do humano.

Subjetividade

A subjetividade, não é termo, é sempre meio-termo. Pois quando se trata de subjetividade, o que nos resta é torcer pela vitória do nosso time. Subjetivo é o inapreensível com o qual se faz possibilidade de comunicação se houver narrativas sobre e outro, do outro sobre nós mesmos e de nós sobre alguém. E esse alguém é um sujeito que vaga nas várias modulações do eu. A subjetividade é um conceito com o qual se designa a instância de formação do sujeito, daquilo que se busca ser de si mesmo, a busca de si, a superação que isso exige, e as frustrações inúmeras que alimentam medo e violência nas metrópoles contemporâneas. O problema da violência é um problema de falência dos modos de subjetivação humana e cultural. Sujeito é o que está em devir. Constituindo-se. Perfazendo-se. É a fuga dos processos de identificação e classificação dos sujeitos para produzi-los indivíduos, pessoas, cidadãos, quiçá, um dia, e atores. Mas a questão da subjetividade vai além, pensa-se nessas conexões que conectam várias outras, acaba articulando-se com a própria necessidade dos seres vivos se diferenciarem. Pois a diferença amplia o campo da comunicação intersubjetiva.

Cultura

O termo cultura é tão multifacetado que existem centenas de definições para ele. Pelo que temos escutado, ultimamente, houve uma quebra na correspondência que antes se fazia entre cultura, povo e território. Como se a cultura obedecesse aos limites territoriais estabelecidos por outras instâncias do saber humano, como aquelas que compõem as formas de poder, ou seja, de constante ação sobre ações, de modo que no teatro das ações humanas interpõem-se várias perguntas a respeito da legitimidade das coisas. E como em toda troca os signos se interpõem para alcançar o real, gera-se uma configuração de valores e sentimentos que, ao serem compartilhados, e acionados em contextos de interação prática, são os signos que se trocam. Com os quais fazemos aliados e derrocamos os inimigos. A cultura é um dinâmico modo de se localizar. Imprecisos como os labirintos da vida. Processo em metáfora. Moldura em transição. Mapas que orientam o sentido da existência. A cultura é o mapa, mas o mapa não é o território.

Monday, August 20, 2007

o desejo e os dias

quarta-feira
fingi nove horas
novas horas
com aurora
de viração.

desci a ladeira
perdi a caneta
as palavras errantes
sós na imaginação.

saí do cinema depois de seis cervas
meti pela testa copo e meio de maçadas

no devaneio da batida,
escrevi empolgado
na lembrança da filosofia
nos guardanapos de papel.

espreitei o terreiro
limpei a garganta
e desatei a cantar na minha quadrilha


fora da minha cosmogonia
os desejos e os dias
só me fazem chorar.

E, de promessa em promessa,
eu me perco a fantasiar
o que seria de mim?

Saturday, August 18, 2007

Valentina

quando você nasceu para a vida, eu me fiz fluxos. Desapareceu do meu campo semântico qualquer suporte de imprecação. Vesti-me orgulho e altaneiro para exprimir a permanência como condição do olhar e da compreensão. Era em plena difusão a consistência das relações sobre as formas e conteúdos. Nos meus braços te recebi como tesouro arcaico! Ria-me sem fim da ousadia, pois quão ousados são aqueles, quando se lançam em fazer conhecimento do possível.

em tal momento!

o manejo do texto sofrível é minha especialidade. duas ou três vezes, começo! Sem mesuras, o arrebatamento do velocímetro fragmenta a intenção. Especialidade ou antecipação? Ainda preciso descortinar o véu da mixórdia de jogos com os quais me comprometo na feitura do pensamento. O espírito de sistema enraizou-se como matriz das práticas de sentido, todavia nem todo efeito é recursivo. O não-linear faz-se nas modulações do eu. Na escrita proustiana da verdade, eu me refestelo. Seria lamentável abandonar a perseverança, o tirocínio e o gosto pela invenção. O que sobra? O que me sobra? Não entendo nada de sobras, nem de sobejo, vivo exclusivamente da degustação do porvir.

Wednesday, August 01, 2007

veja o filme Amor à flor da pele, de Wong Kar-Wai

eu já vou ler para ti, meu amor! vou ler a história do presente. estou aqui, com esta brochura na mão que eu ganhei do meu melhor amigo, quando eu tinha dezesseis anos de idade. só o tempo, o tanto de bebida, bebida, e o tanto de cigarro, fumado, dá notícia como essa que quero te passar e da qual me aprazo em te contar, como se conta a fuligem dos edifícios em construção.

as ruínas são o desespero da morte. morte desprovida de conforto. essas ruínas, tão velhas, perderam até mesmo a amargura que lhes era incrustada como um diamante na pele ruim, desgastada de tanta má alimentação. as ruínas são a desembocadura da morte. e só de quem provou da seiva grudada nas rochas, ela testemunha, só esses podem localizar-se em relação a elas e apesar delas.

nunca fui um sujeito muito compassivo...talvez...eu tenha até agora conseguido ser educado. polido e educado no sentido próprio ao da civilidade. motivos não faltam jamais com a imprecisão toda de suas certezas. sempre iremos à Bagdá, mas prefiro Praga, pelo menos no momento...Bagdá me faz lembrar do luxo e da pecaminosa desgraça impingida aos incautos. e de precauções estou tão cheio que sou capaz de montar um plano de expansão baseado em pequenas variâncias da vida cotidiana, inimigas das rotinas.

...tudo se passa como se a vida não refulgisse sem ti. contar-te-ei todas as minhas práticas e nisso te darei essência, ou nada poderia valer se estivesse apenas à altura de minhas memórias.

Thursday, July 26, 2007

Pasquim

houve tempo em que a inteligência expandia-se como em ondas, hoje é explosão de partículas. eu estava lendo o site do Millor e fiquei tão entusiasmado com as tiradas da figura que resolvi perguntar para minha filha o que ela achava. De certo modo, é como se eu passasse um legado para ela, resultado de todos os domingos em que, no centro cultural banco do brasil, eu li o arquivo completo do Pasquim desde o primeiro número. Para minha surpresa, ela me disse que eu colocassa a estante dela na biblioteca da nossa casa bem no alto, pois ela não gostava de ler, mas de interpretar os signos da ação, enquanto eram produzidos pelos diversos jogos de linguagem da desalmada modernidade. Tomei um susto de deixar cair o cigarro do beiço. Afinal, que conversa estranha era essa, minha filha é só um pequeno bebê humano, e já quer discutir a incomensurabilidade das taxonomias humanas? Fiquei pasmo. Andei a noite toda sem dormir, de um lado para outro, cigarro após outro, cerveja inteirando a outra, e nada de resposta para o enigma. Finalmente, lá pelas três da matina, deitei movido pelo cansaço, pela embriaguez e pela certeza de que ela estava dormindo, linda e maravilhosa, na casa da mãe dela. Não se fazem mais filhos como antigamente, eu, ao menos, era leitor assíduo do Pasquim. Aliás, sou!

Sunday, July 22, 2007

as tragédias não são em vão!

nada melhor do que a sombra ilhada do guarda-sol, um pedaço do mundo parece abrir-se a partir da terra, da areia molhada e fria, sob o calor escaldante da praia, do verão inventado na solidão do ciclo natural. os corpos atentos, direcionados, acesos. Outras pessoas passavam. Dirigiam-se aos círculos, propensas à embriaguez, dilatadas pela devassidão do caminho interrompido, malhado de tão estrito. Ao mesmo tempo circunscrito e aberto. Escalado para o nada, para o brilho da mente natural, das algas-marinhas, filhas da imensidão, e do alimento disperso. Cambiam os corpos deitados com o caminho possível. O picolé derretia na praia-balneário da Itália de Calvino. Amores ternos, fluidos, capazes de se amalgamarem aos cacos de tijolo pisados sob a maré baixa das pequenas vagas. Os olhares entrecruzam-se aflitos, ou melhor, sôfregos, em busca do adorno perfeito, do puro valor estético que faz a coisa ser mais funcional na sua apreciação e consistência. Ao sairem do mundo das vagas, encontram em si os fluxos de um trânsito de praia sul-africana na década de sessenta. Poucos carros, muitas vidas perdidas fora das estradas. Os apartamentos que margeiam as vias de acesso à praia estão bloqueados por quadros baratos comprados no supermercado mais original da cidade. Mesmo assim, os corpos antes deitados seguem firmes, e sentados. Guiados pela potência mortífera do automóvel. Dobram seitas, rejeitam esquinas, embrulham-se como pão feito na hora. Quentes e macios. Voltam do ninho à rua. Incrementam as mesas dos bares, e fazem a calefação dos olhares alheios e inquietos. Capazes de tudo, menos da ousadia de abraçar fios de alta tensão descapados escorrendo e serpenteando nos corredores das mesas como cobras. as letras fazem-se em guardanapos de papel. não ambicionam ir além disso, da pele tatuada e da alma estriada. São as estrias da alma que fazem o real ter espessura e sensatez. a querela maior é robusta, se comparada com as ninharias que os prisioneiros são obrigados a amamentar na rotina da selva de pedra, no mergulho no vazio dos átomos, sem comunicação, sem diferença. o que se há de evitar, espelha-se e reluz como medéia em apuros. o que se há de abraçar, dormita breve e quente na palma inteira da mão.

Friday, June 08, 2007

imago

ele escorregava em si mesmo. parecia feito de cera. não era fogo a escada que o engolia. era um deslize. invocava a si mesmo no ato de fazer o gelo derreter na cratera disforme da cidade. Qual cidade? Não seria melhor perguntar: quem cidade? quem nada o qual o valha. ele simples estava lá. mente sobre a deposição a que foi obrigado curvar-se. mesmo vergado pela toniturante medida do pneu queimado, imperceptível, escondido do olhar do morticínio. da embriaguez, ele se desfaz pela fantasia técnica que é a magia da imagem.

Saturday, June 02, 2007

aprendizagem

quando vejo teus olhos de topeira a me procurar na saída do colégio, meu coração se enternece e, não por uma questão de crença, mas de pura sensibilidade em relação à capacidade que o ser humano tem de agir; e isso implica em nascimento e invenção constantes. Improvável seria não ter meus olhos grudados e embaçados como os teus diante da confusão do mundo. do teu abraço provém sentidos em multiplicidade, inclusive com enorme detalhamento dos sentidos do múltiplo. aí é uma torrente permanente. não pára e eu adoro. te amo desde o sempre. talvez, continue aprendendo com você nos momentos em que mais preciso.