Tuesday, October 31, 2006

Émily

Émily era um tanto vesga. Linda de morrer em seus olhos azuis. Olhos rotundos, cravados em órbitas de traços fortes e definidos, destacados pelo contraste com a finura e delicadeza do rosto. O olhar inexpressivo, de fuga, me abatia. Os olhos calavam sobre tudo, menos sobre o desespero. Tinham tudo para não ser opacos e vazios, mas era justamente esse o mistério. Um menina graciosa, com tudo para ser esbelta, todavia entranhada naquela atmosfera de chumbo. Ademais, Émily dispunha de pernas de pernilongo. Era magricela, cabelos lisos, corridos de nascença, uma pernalta de primeira divisão.

Exatamente um palmo de distância entre uma coxa e outra, ela era toda regaço, parada ou em movimento, o que lhe promovia à categoria mais do que obscena das meninas em flor. Sua boceta de promontório mexia com meus quinze anos de hipermetropia. Era pura nitroglicerina, sem mediações, sem afagos, pois, de meu lado, não havia aprendido ainda o sentido da palavra arrebatamento, não tinha noção do que fosse um arroubo, ou o que o valha - certamente, Émily também não.

Eu me tremia a sua aproximação, trespassado de aflição, o corpo todo em seu lugar, sem espaços, trajetórias e vislumbres de caráter. Eu era todo eu, e apenas. Émily usava as calças da farda azul-marinho tão apertadas que eu tinha era vontade de bater em alguém. Dar um cascudo ou sabacu em algum lesado durante o recreio. E aquelas pernas entreabertas, naturalmente pausadas, eram a própria noção da oportunidade, da vida entumescente...de dez em dez vezes, meus olhos pousavam em algum ponto mágico entre suas virilhas. O destaque era explícito ou o meu olhar? Alguns meninos despeitados, outros doentes de provincianismo - Émily era docemente paulista, uma novidade na escola - e todos amendrontados, alcunhavam-na de termos torpes, diziam-na galinha, por exemplo, o que me parecia completamente despropositado e ridículo. Émily era punk, e ninguém o sabia.

Sunday, October 29, 2006

epifanias

Quem nesse mundo fala a nosso favor? Disparates melódicos? Seria muito bem-vindo, numa demão de humanidade, emanar o fátuo, irradiar as horas, distorcê-las. Conquanto, no estrépito dos garfos e facas, o renitente fremir do nada, da filha da putice alheia, como estimulativo, delonga o parque de emoções de queimar o estômago. De deixar o bicho cego. Imprestável e nato. Nada de ouvintes inaugurais, somente o seco do agastamento das primeiras e últimas piedades, um marfar-se à toa. Nada se exprime melhor do que a crueldade de uma coletividade estéril e inculta, bailando na mascarada da insatisfação; impregnada do bocejo melodramático de ser outro, a quem não se pode querer ou pedir comiseração sem podar o que se tartamudeia em espécie barata, de saco de pipoca de isopor; prata barata de partir com bala de sereno, na imaterialidade, no taticumã da alma. E a clientela de vigarices improvisadas ri debalde. Quem chama o mata-barata? Mata-cobra? Mata-cavalo que o valha? Quem escrutina o sabichão de plantão no último empréstimo? Virado nos olhos de áuspice, quebranto não me deixa mover pernas, nem braços, balbuciando com os sentidos torpes, melhorados pela miopia, pela desfaçatez de fornecer comida aos aleijados psíquicos como eu, meus semelhantes, improváveis, doces e bêbados, e assim expulsar de si os vigorosos males da coragem, do orgulho e da benevolência. Tudo se passa como se o momento fosse lúdico, e, na verdade, os incompreendidos são felizes, sem alegria nenhuma, devastados pela narcotização do nada, filhos da puta blasés, onde pararam suas máquinas de produzir decências entremeadas, metamorfoseadas no canto, na sinuca de bico? Melhor seria pintar os cabelos de outra cor, renovar os fios da acrimônia, impingi-lhes nova adversidade, campo de desafios sem colaboração com seus algozes. Sem ceder à medíocre malevolência de quem vive de limite em fuga.

Saturday, October 28, 2006

Brasil, um país de todos!

As elites deste país passaram os últimos quatrocentos anos, concebendo, planejando, organizando e executando um processo perverso de exclusão da grande maioria da população brasileira. Criaram um Estado racista, autoritário e extremamente corrupto a fim de evitar a ascensão de demandas populares por justiça, igualdade e liberdade. Estas mesmas elites - que mobilizam todas as suas forças, todos os seus preconceitos e ideologias de ódio e negação da vida - estão em polvorosa, porque nos últimos anos, de modo ainda tímido, limitado, mas historicamente decisivo, a sociedade civil e a esfera pública popular estão tentando promover transformações de caráter universal nas estruturas viciadas da sociedade brasileira tradicional.

Pela primeira vez em nossa história, o funcionamento pleno das instituições democráticas está na base de um amplo e ainda lento processo de democratização dos recursos culturais, econômicos e sociais. Pela primeira vez, observamos as elites preocupadas com as punições de sua carga histórica e cotidiana de crimes contra a sociedade: sonegação de impostos, transferência de recursos públicos para o setor privado, improbidade administrativa, violência contra os trabalhadores, sem terra, contra as minorias políticas desse país que constituem sua maioria numérica. Sua massa crítica; sua força criativa e produtora de riqueza. Paz, democracia, liberdade, educação, cultura e vida significativa para todos. Brasil, um país de todos!

Tuesday, October 24, 2006

hiatos

gauche, gauchiste
falso passista

Saturday, October 21, 2006

notas de aula

um copo
de
[ ]
iogurte
integral
com mel

vazio
carvalheira
germana
miríades
trás os dias
valência zero
argúcia
sofá
cendres
rapsódia
a medida do bon fim
implosão é um fenômeno aquático
distração é para os covardes
como a amizade
coleciono suas mentiras e me emociono com elas
agora

falta
refulgências
ça que me plange
n'importe quoi
plonge avec moi
mar rocos
la mer de blanche
a blanchir
afogado de núpcias e folguedos incandescentes

Wednesday, October 11, 2006

menu do teatrro mágico

viver sem planos, au jour le jour, expectativas beirando o rés do chão, sem verticalidade, sem espírito ou transcendência que o valha, tipo sexus, nexus, plexus? o que eu faço do meu ascendente? O que eu faço da minha inconseqüência? movimentos da alma a partir do solado dos pés? miríades de sensações, pele com pele, sem personalidade, sem fortaleza, só na praia? e quando a doença se fizer ingrata presença? amaldiçoá-la? e o prazer do céu e do sol? Não, nada de imprecações! é proibido fazê-las. sejamos alegres. pessoas alegres e libertinas. viva a memória de peixe! um dia é um dia de gratuidade, de sol e gratuidade. de graça, sempre de graça, o sorriso e a praça, a escuridão e o penacho de pavão na orelha débil, imprecisa, intransigente a todo ruído, na perigosa veia de antão, antes da vaga morredoura, nascedoura, no pranto brumoso, prateado, da manhã, qual delas? de todas as manhãs. todas, sem hierarquia, sem exceção, na dissolução aniquiladora. tudo assim, simples e sem alicerces. nada de reboco e alvenaria. tudo na palha fumegante do sopro de dentro para fora, do vento vindouro, mártir, do nadinha de vaidade, orgulho e poder. só preguiça, sono e falta de dinheiro. nem tudo pode ser. é possível aceitar? fazer o possível se alargar sem atualizações? sem aplicativos? foda-se o arranjo, eu sei. os arranjos matam mais do que as idéias são capazes de queimar os outros. a alteridade que me faz transigir, querer ser bom, outro bom, outro bem, um querer bem de um instante de fragrância. como baunilha na infância. o mundo gira, corre léguas, sem sair dos dois pés juntos à anágua de madame viagem do corte separado.

questões

Quando se trata de um amor, chega um tempo em que não se faz muito promissor o rumor das perguntas. Por que ser incoveniente e inoportuno, se os odores são presenteados pela vida? Mais vale um espelho na mão do que dois voando, costumava dizer Sr. Pablo, simples assim como a música de saxofone? Continue tocando seu foxtrote, pois há de convir.

Saturday, October 07, 2006

sem qualidades

o homem frito
ousado em triturar a unidade
desgraçado pela desventura
do abandono do eu

Sunday, September 17, 2006

De graça é bonito e gratuito!

A pimenta arde na boca misturada à carne vermelha mal passada bleu. Ela chama. Arde e chama pelo vinho. A cerveja na carne. A cachaça na carne. São. Presenças e o corpo. Os dados se oferecem recursivamente aos sentidos. Os sentidos dão nada aos dados. Total gratuidade.

A pimenta chama

livre de tralhas,
despojado de livros ruins,
estacionados, inenarráveis,
corroídos pelos cupins,
livre de bolsas de memória,
de coágulos roxos de pedra-sangue,
livre da linguagem,
mergulhado nos sentidos
nos dados imediatos
no torpor bemfazejo do esquecimento
a mortalha virou trapo. Pano de chão.

Não era do poder da palavra...

Nascimento da filha e desobstrução de caminhos. Os rebentos são expansões de sentido. Horizontes de sentido reconfigurados com novas potências. E assim depois de descobrir o tempo da urgência, o que provaca redefinições profundas nas opções, na natureza da opção, e no campo das escolhas, na caça da autonomia, tento aprender uma nova forma de me situar em relação ao espaço das relações, ao espaço dos pontos de vista, enfim, ao jogo das trajetórias de linguagem. Estou cansado da linguagem. Do nominalismo e do exercício de poder. Quereria cair fora da linguagem, mas o século XX não deixa. Quem me dera saborear não mais a escassez ou a raridade, quem me dera poder ascender a um novo empirismo, do saber e do sabor. (Estou todo os cinco sentidos. Apesar da leitura ser demasiado proustiana sem marcel, mas michel não fica tanto a dever na sua busca, na sua sabedoria de alto mar). Voltei, portando, a faire de la cuisine. Depois de dois anos parado. Novamente: noz moscada, azeite, pimentas, cachaças, vinhos, cebola e alho. Saudade dos tempos antigos. Da pré-história. Dos moinhos de vento. Enfim, devir azeite de oliva extravirgem com manteiga, cebola, alho, noz moscada, filet bleu com spaguetti gratinado ao molho de alcaparras, com vinho cabernet sauvignon e papaya com cassis como dessert. Meu devir, meu viver. Quero o corpo antes do verbo. Minha cura não era pela palavra. Estou out da linguagem, no banquete dos deuses, na fluorescência de aruanda.

Thursday, September 14, 2006

Chico Gomes

Em tempos tão codificados como o nosso, onde a imagem vale pela informação, as fotos de Chico Gomes nos enlevam na fecundidade do processo de pesquisa e na diginidade dos contextos humanos estudados. A função do recorte não é apenas celebrada, mas trabalhada com profundidade sociológica e antropológica. Não há tergiversação, o apelo universal da visão local do fotógrafo recria o universo das relações humanas na profunidade ética da cultura do encontro respeitoso e generoso com o outro.

Friday, September 08, 2006

do espólio ao esfólio

em face aos observáveis
subtraio-me à linguagem
pereço na floresta febril
onde o signo, em diáspora,
bate a alma sem comiseração,
impondo-lhe a materialidade
em sua velocidade de amora
no dente estraçalhada
índice punk um na muralha desfeita
e o frêmito inaugura a pele
esgarçada pelo riso de amanhecer
simples, macia e acariciada
esfoliada com sais minerais
mas jamais espoliada.
e a vida funciona sem espólios?

Wednesday, August 30, 2006

Redobras

Sempre Jean Genet
Saint Genet
Sans mourrir
La mort à nouveau
Sens parti
de ma jeunesse parmi
n'importe qui
parmi les plumes
ni façon, ni aube
au but et du bout

Tuesday, August 29, 2006

Telefone

"vem, eu queria legar-te coisas sensíveis perdidas, o conciliábulo do mundo múltiplo e do corpo nu, legar-te-ei a finura, gostos e perfumes, a sapiência e a sagacidade, vem, e quando tivermos construído a pele com panos, como um hábito, dir-te-ei, depois, as velhas ruínas de minha língua, minha bela linguagem que vai morrer, saída diretamente da água que se enruga como uma seda, dos álamos de folha que freme quase séssil, doce voz das coisas, vem nos restos abandonados de dois jardins devastados, esquecidos, o jardim dos sentidos destruído pela linguagem, o jardim de minha língua destruído pelos códigos, vem enquanto é tempo ainda, eu me saí mal, vamos recomeçar" (Michel Serres).

Sexus, Nexus, Plexus

Duas línguas. Duas velocidades. Na manilha do tempo, minhas pernas naturais seguiam a via da cerveja e do crime. Tudo se passava num ponto de ônibus. Doze graus. Pernas cruzadas. Todos as linhas passavam. Nem procura, nem aval, tudo era fluido. Sem planos, sem rugas. O liso do asfalto desenxabido se impunha a não sem quem. Não a mim! Não a nós! Sem alegria? O cinema agigantado pela poltrona do sofá, regado de pelo incrustado na pele é sem alegria? Sem consignação talvez! Os aplicativos estavam todos destronados. Sem comiseração. Não havia modéstia. Qual frêmito se entremeava entre nós? Qual massa de lasanha bolonhesa se voluntariava a nos servir? Nada via sem antes procurar as ofertas. Ofertas precedidas de carne de sol acebolada. Não havia alegria? Faze-me rir, odiar-te-ei, por isso. Da minha risada histriônica, chorarei do canto a casa fantasmagórica, irascível de expulsão. Cavalgada sem lugar, sem espaço e sem palavra? Nem poderia, pois tudo se passa como se tudo fosse fugaz. Há alegria nessa fuga? É claro que sim, meu amor, toda a alegria do mundo, o entorno da coisas se faz presente. Quem sou eu para ser alegre. Do triste me fiz alma, no momento de decidir, de imprecar contra a própria morte, estabeleci destino de bigorna. Não sei mais filosofar. Abandonei minha casa, minha sensação doce e perfumada. Busco no que se oferece a menor linsonja, simples conexão. Nem coisa, nem relação. Só, sempre, e só, conexão de conexões.

Presentes

"Poesia
Nuvens, céu azul, estrelas.
Noite fria.
O dia já vem,
Canários bem-ti-vi, graúna,
flores na capela.
Quando ela passa sob o sol fresquinho,
a natureza toda fica sorrindo."

Manu Kelé

Monday, August 28, 2006

imprecações

um tropeço de alma o levou à lona. luz de ribalta ofusca se não for bem tratada. nem os vitrais de notre dame poderiam salvá-lo do ruído sem voz do seu dia. nenhum fragor, nenhuma emissão de partículas, somente vacuidade gratuita. tudo sem volume. sem música. a leitura não caminhava. a impaciência dominava ao ponto de querer a violência como vizinhança, capaz de fazer ao adversário a imprecação de um força de vínculo. mas tudo se passava na frieza calma de uma central de ar condicionado. o barulho infinito chamava-o ao grupo. estar só era o remédio. não ouvir os órgãos, nem o mundo e, muito menos, a si mesmo. a linguagem lhe fazia querer privar-se da capacidade de dizer o dito, de matar o sentido e ferir o sensível. sem salvação, mergulhou no possível dos aplicativos. atualizou as cinzas.

Monday, August 14, 2006

alguns filmes

Les quatre cents coups. Domicílio conjugal. La noche. E la nave va! Amarcord. Arizona dream. Poucas e boas. A batalha real. Jules et Jim. L'homme a la camera. Os sete samurais.

alguma leitura

Economia e sociedade (Max Weber). O capital (Karl Marx). As formas elementares da vida religiosa (Durkheim). Sociologia e antropologia (Marcel Mauss). A grande transformação (Karl Polany). Os argonautas do pacífico ocidental (Malinowski). Os nuer (Evans-Pritchard). A ética protestante e o espírito do capitalismo (Max Weber). A história da loucura (Foucault). A verdade e as formas jurídicas (Foucault). Vigiar e punir (Foucault). As palavras e as coisas (Foucault). História da sexualidade (Foucault). Investigações filosóficas (Wittgenstein). Naven (Gregory Bateson). Steps to an Ecology of Mind (Gregory Bateson). Esquisse d'une théorie de la pratique (Bourdieu). As etapas do pensamento sociológico (Raymond Aron). O que é filosofia (Deleuze e Guattari). Diário de um ladrão (Jean Genet). Querelle (Jean Genet). Morangos mofados (Caio Fernando Abreu). A trilogia de Nova York (Paul Auster). A peste (Camus). O estrangeiro (Camus). A náusea (Sartre). Memorial do convento (José Saramago). O processo (Kafka). A metamorfose (Kafka). Colônia penal (Kafka). O castelo (Kafka). Memórias do cárcere (Graciliano Ramos). O amor nos tempos do cólera (Gabriel García Marques). O general em seu labirinto (Gabriel García Marques). Ilíada e Odisséia (Homero). Diálogos (Platão). A divina comédia (Dante).
Dom Quixote (Cervantes). Crime e castigo (Dostoiévski). Recordações da casa dos mortos (Dostoiévski). A comédia humana (Balzac). A gaia ciência (Nietzsche). A genealogia da moral (Nietzsche). Além do bem e do mal (Nietzsche). Assim falou Zaratrusta (Nietzsche). Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis). Esaú e Jacó (Machado de Assis). Memorial de Aires (Machado de Assis). Papéis avulsos (Machado de Assis). Em busca do tempo perdido (Marcel Proust). O homem sem qualidades (Robert Müsil). A montanha mágica (Thomas Mann). Dr. Fausto (Thomas Mann). Grande sertão: veredas (João Rosa). Sagarana (João Rosa). Noites do sertão (João Rosa).
A paixão segundo G.H. (Clarice Lispector). Laços de família (Clarice Lispector). A hora da estrela (Clarice Lispector). Amores difíceis (Italo Calvino). Pastoral Americana (Philip Roth). Desonra (John Coetzee). A vida dos animais (John Coetzee). O livro das ilusões (Paul Auster). Aqueles cães malditos de Arquelau (Isaías Pessoti).