Sunday, September 17, 2006
De graça é bonito e gratuito!
A pimenta arde na boca misturada à carne vermelha mal passada bleu. Ela chama. Arde e chama pelo vinho. A cerveja na carne. A cachaça na carne. São. Presenças e o corpo. Os dados se oferecem recursivamente aos sentidos. Os sentidos dão nada aos dados. Total gratuidade.
A pimenta chama
livre de tralhas,
despojado de livros ruins,
estacionados, inenarráveis,
corroídos pelos cupins,
livre de bolsas de memória,
de coágulos roxos de pedra-sangue,
livre da linguagem,
mergulhado nos sentidos
nos dados imediatos
no torpor bemfazejo do esquecimento
a mortalha virou trapo. Pano de chão.
despojado de livros ruins,
estacionados, inenarráveis,
corroídos pelos cupins,
livre de bolsas de memória,
de coágulos roxos de pedra-sangue,
livre da linguagem,
mergulhado nos sentidos
nos dados imediatos
no torpor bemfazejo do esquecimento
a mortalha virou trapo. Pano de chão.
Não era do poder da palavra...
Nascimento da filha e desobstrução de caminhos. Os rebentos são expansões de sentido. Horizontes de sentido reconfigurados com novas potências. E assim depois de descobrir o tempo da urgência, o que provaca redefinições profundas nas opções, na natureza da opção, e no campo das escolhas, na caça da autonomia, tento aprender uma nova forma de me situar em relação ao espaço das relações, ao espaço dos pontos de vista, enfim, ao jogo das trajetórias de linguagem. Estou cansado da linguagem. Do nominalismo e do exercício de poder. Quereria cair fora da linguagem, mas o século XX não deixa. Quem me dera saborear não mais a escassez ou a raridade, quem me dera poder ascender a um novo empirismo, do saber e do sabor. (Estou todo os cinco sentidos. Apesar da leitura ser demasiado proustiana sem marcel, mas michel não fica tanto a dever na sua busca, na sua sabedoria de alto mar). Voltei, portando, a faire de la cuisine. Depois de dois anos parado. Novamente: noz moscada, azeite, pimentas, cachaças, vinhos, cebola e alho. Saudade dos tempos antigos. Da pré-história. Dos moinhos de vento. Enfim, devir azeite de oliva extravirgem com manteiga, cebola, alho, noz moscada, filet bleu com spaguetti gratinado ao molho de alcaparras, com vinho cabernet sauvignon e papaya com cassis como dessert. Meu devir, meu viver. Quero o corpo antes do verbo. Minha cura não era pela palavra. Estou out da linguagem, no banquete dos deuses, na fluorescência de aruanda.
Thursday, September 14, 2006
Chico Gomes
Em tempos tão codificados como o nosso, onde a imagem vale pela informação, as fotos de Chico Gomes nos enlevam na fecundidade do processo de pesquisa e na diginidade dos contextos humanos estudados. A função do recorte não é apenas celebrada, mas trabalhada com profundidade sociológica e antropológica. Não há tergiversação, o apelo universal da visão local do fotógrafo recria o universo das relações humanas na profunidade ética da cultura do encontro respeitoso e generoso com o outro.
Friday, September 08, 2006
do espólio ao esfólio
em face aos observáveis
subtraio-me à linguagem
pereço na floresta febril
onde o signo, em diáspora,
bate a alma sem comiseração,
impondo-lhe a materialidade
em sua velocidade de amora
no dente estraçalhada
índice punk um na muralha desfeita
e o frêmito inaugura a pele
esgarçada pelo riso de amanhecer
simples, macia e acariciada
esfoliada com sais minerais
mas jamais espoliada.
e a vida funciona sem espólios?
subtraio-me à linguagem
pereço na floresta febril
onde o signo, em diáspora,
bate a alma sem comiseração,
impondo-lhe a materialidade
em sua velocidade de amora
no dente estraçalhada
índice punk um na muralha desfeita
e o frêmito inaugura a pele
esgarçada pelo riso de amanhecer
simples, macia e acariciada
esfoliada com sais minerais
mas jamais espoliada.
e a vida funciona sem espólios?
Wednesday, August 30, 2006
Redobras
Sempre Jean Genet
Saint Genet
Sans mourrir
La mort à nouveau
Sens parti
de ma jeunesse parmi
n'importe qui
parmi les plumes
ni façon, ni aube
au but et du bout
Saint Genet
Sans mourrir
La mort à nouveau
Sens parti
de ma jeunesse parmi
n'importe qui
parmi les plumes
ni façon, ni aube
au but et du bout
Tuesday, August 29, 2006
Telefone
"vem, eu queria legar-te coisas sensíveis perdidas, o conciliábulo do mundo múltiplo e do corpo nu, legar-te-ei a finura, gostos e perfumes, a sapiência e a sagacidade, vem, e quando tivermos construído a pele com panos, como um hábito, dir-te-ei, depois, as velhas ruínas de minha língua, minha bela linguagem que vai morrer, saída diretamente da água que se enruga como uma seda, dos álamos de folha que freme quase séssil, doce voz das coisas, vem nos restos abandonados de dois jardins devastados, esquecidos, o jardim dos sentidos destruído pela linguagem, o jardim de minha língua destruído pelos códigos, vem enquanto é tempo ainda, eu me saí mal, vamos recomeçar" (Michel Serres).
Sexus, Nexus, Plexus
Duas línguas. Duas velocidades. Na manilha do tempo, minhas pernas naturais seguiam a via da cerveja e do crime. Tudo se passava num ponto de ônibus. Doze graus. Pernas cruzadas. Todos as linhas passavam. Nem procura, nem aval, tudo era fluido. Sem planos, sem rugas. O liso do asfalto desenxabido se impunha a não sem quem. Não a mim! Não a nós! Sem alegria? O cinema agigantado pela poltrona do sofá, regado de pelo incrustado na pele é sem alegria? Sem consignação talvez! Os aplicativos estavam todos destronados. Sem comiseração. Não havia modéstia. Qual frêmito se entremeava entre nós? Qual massa de lasanha bolonhesa se voluntariava a nos servir? Nada via sem antes procurar as ofertas. Ofertas precedidas de carne de sol acebolada. Não havia alegria? Faze-me rir, odiar-te-ei, por isso. Da minha risada histriônica, chorarei do canto a casa fantasmagórica, irascível de expulsão. Cavalgada sem lugar, sem espaço e sem palavra? Nem poderia, pois tudo se passa como se tudo fosse fugaz. Há alegria nessa fuga? É claro que sim, meu amor, toda a alegria do mundo, o entorno da coisas se faz presente. Quem sou eu para ser alegre. Do triste me fiz alma, no momento de decidir, de imprecar contra a própria morte, estabeleci destino de bigorna. Não sei mais filosofar. Abandonei minha casa, minha sensação doce e perfumada. Busco no que se oferece a menor linsonja, simples conexão. Nem coisa, nem relação. Só, sempre, e só, conexão de conexões.
Presentes
"Poesia
Nuvens, céu azul, estrelas.
Noite fria.
O dia já vem,
Canários bem-ti-vi, graúna,
flores na capela.
Quando ela passa sob o sol fresquinho,
a natureza toda fica sorrindo."
Manu Kelé
Nuvens, céu azul, estrelas.
Noite fria.
O dia já vem,
Canários bem-ti-vi, graúna,
flores na capela.
Quando ela passa sob o sol fresquinho,
a natureza toda fica sorrindo."
Manu Kelé
Monday, August 28, 2006
imprecações
um tropeço de alma o levou à lona. luz de ribalta ofusca se não for bem tratada. nem os vitrais de notre dame poderiam salvá-lo do ruído sem voz do seu dia. nenhum fragor, nenhuma emissão de partículas, somente vacuidade gratuita. tudo sem volume. sem música. a leitura não caminhava. a impaciência dominava ao ponto de querer a violência como vizinhança, capaz de fazer ao adversário a imprecação de um força de vínculo. mas tudo se passava na frieza calma de uma central de ar condicionado. o barulho infinito chamava-o ao grupo. estar só era o remédio. não ouvir os órgãos, nem o mundo e, muito menos, a si mesmo. a linguagem lhe fazia querer privar-se da capacidade de dizer o dito, de matar o sentido e ferir o sensível. sem salvação, mergulhou no possível dos aplicativos. atualizou as cinzas.
Monday, August 14, 2006
alguns filmes
Les quatre cents coups. Domicílio conjugal. La noche. E la nave va! Amarcord. Arizona dream. Poucas e boas. A batalha real. Jules et Jim. L'homme a la camera. Os sete samurais.
alguma leitura
Economia e sociedade (Max Weber). O capital (Karl Marx). As formas elementares da vida religiosa (Durkheim). Sociologia e antropologia (Marcel Mauss). A grande transformação (Karl Polany). Os argonautas do pacífico ocidental (Malinowski). Os nuer (Evans-Pritchard). A ética protestante e o espírito do capitalismo (Max Weber). A história da loucura (Foucault). A verdade e as formas jurídicas (Foucault). Vigiar e punir (Foucault). As palavras e as coisas (Foucault). História da sexualidade (Foucault). Investigações filosóficas (Wittgenstein). Naven (Gregory Bateson). Steps to an Ecology of Mind (Gregory Bateson). Esquisse d'une théorie de la pratique (Bourdieu). As etapas do pensamento sociológico (Raymond Aron). O que é filosofia (Deleuze e Guattari). Diário de um ladrão (Jean Genet). Querelle (Jean Genet). Morangos mofados (Caio Fernando Abreu). A trilogia de Nova York (Paul Auster). A peste (Camus). O estrangeiro (Camus). A náusea (Sartre). Memorial do convento (José Saramago). O processo (Kafka). A metamorfose (Kafka). Colônia penal (Kafka). O castelo (Kafka). Memórias do cárcere (Graciliano Ramos). O amor nos tempos do cólera (Gabriel García Marques). O general em seu labirinto (Gabriel García Marques). Ilíada e Odisséia (Homero). Diálogos (Platão). A divina comédia (Dante).
Dom Quixote (Cervantes). Crime e castigo (Dostoiévski). Recordações da casa dos mortos (Dostoiévski). A comédia humana (Balzac). A gaia ciência (Nietzsche). A genealogia da moral (Nietzsche). Além do bem e do mal (Nietzsche). Assim falou Zaratrusta (Nietzsche). Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis). Esaú e Jacó (Machado de Assis). Memorial de Aires (Machado de Assis). Papéis avulsos (Machado de Assis). Em busca do tempo perdido (Marcel Proust). O homem sem qualidades (Robert Müsil). A montanha mágica (Thomas Mann). Dr. Fausto (Thomas Mann). Grande sertão: veredas (João Rosa). Sagarana (João Rosa). Noites do sertão (João Rosa).
A paixão segundo G.H. (Clarice Lispector). Laços de família (Clarice Lispector). A hora da estrela (Clarice Lispector). Amores difíceis (Italo Calvino). Pastoral Americana (Philip Roth). Desonra (John Coetzee). A vida dos animais (John Coetzee). O livro das ilusões (Paul Auster). Aqueles cães malditos de Arquelau (Isaías Pessoti).
Dom Quixote (Cervantes). Crime e castigo (Dostoiévski). Recordações da casa dos mortos (Dostoiévski). A comédia humana (Balzac). A gaia ciência (Nietzsche). A genealogia da moral (Nietzsche). Além do bem e do mal (Nietzsche). Assim falou Zaratrusta (Nietzsche). Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis). Esaú e Jacó (Machado de Assis). Memorial de Aires (Machado de Assis). Papéis avulsos (Machado de Assis). Em busca do tempo perdido (Marcel Proust). O homem sem qualidades (Robert Müsil). A montanha mágica (Thomas Mann). Dr. Fausto (Thomas Mann). Grande sertão: veredas (João Rosa). Sagarana (João Rosa). Noites do sertão (João Rosa).
A paixão segundo G.H. (Clarice Lispector). Laços de família (Clarice Lispector). A hora da estrela (Clarice Lispector). Amores difíceis (Italo Calvino). Pastoral Americana (Philip Roth). Desonra (John Coetzee). A vida dos animais (John Coetzee). O livro das ilusões (Paul Auster). Aqueles cães malditos de Arquelau (Isaías Pessoti).
Signos refletidos
"O que era ele, despido de todos os sinais que refletia com tanto brilho? Em toda parte, as pessoas se punham de pé e gritavam: 'eu sou isto! Eu sou isto!'. Toda vez que a gente olhava para as pessoas, elas se colocavam de pé e diziam para a gente quem elas eram, e a verdade disso tudo é que as pessoas, no fundo, não sabiam quem ou o que eram...Elas também acreditavam nos sinais que refletiam. Elas deveriam se levantar e dizer: 'Eu não sou isto! Eu não sou isto!'. Então a gente talvez soubesse como agir diante dessa palhaçada de tantos sinais refletidos pelo mundo afora" (Philip Roth).
Notas
necessidade de ficar longe das coisas.
Substrato de caráter ou subjetividade?
O que seria um inventário de uma pessoa? Inventariar com mapas cognitivos? Mas como fincar pé nessa descontinuidade de real? the map is not the territory.
Substrato de caráter ou subjetividade?
O que seria um inventário de uma pessoa? Inventariar com mapas cognitivos? Mas como fincar pé nessa descontinuidade de real? the map is not the territory.
Recortes
Doce saudade da tua impetuosidade, rapaz! Em duas ou três palavras, torcia e distorcia o que quer que fosse. Não perdeste a habilidade, é claro, todavia a danada da impetuosidade não combina mais com teus sapatos. Então, troca! Deixa o esquecimento tomar conta da tua vida, vira a boca um pouco, e se faz de rogado, até meio torto, como nos sinais, tu podes tentar andar. Chega de tempestade e ímpeto. Toma um gole d'água e vai correr uns dez quilômetros, ouvindo secret.
Pela terceira vez, dirigia-lhe a palavra a fim de improvisar o eco de voz em quase silêncio. Nada se pareceria com suas hordas de palavra de encher os olhos. Tudo nele estava tímido, arredio às imprecações de quem quer que fosse, havia, no fundo, sido jubilado, jubilado de um seu eu que não lhe parecera, enfim, promissor. Não sabia o que era o fatalismo. Pauvre enfant!
O vento só não cortara pior do que da outra vez. O rosto na janela necrotérico. Não se sabia doente. Aí que foram elas! Tudo parecia com uma tremenda despedida e acabou gerando outra festa. Signos, lógico! Daí se dirigiu em passo reto ao bar. Não era a primeira vez que repetia a façanha. Escapava ao léu. Ao seu modo. Interessado em suprassumir. Palavra que aprendera com as aulas de alemão do padre da filosofia. Sorria ao encontrar o que não entendia. Quase um sentimento basco de enternecimento pelas questões, e aja questões para inventar conceitualmente.
Pela terceira vez, dirigia-lhe a palavra a fim de improvisar o eco de voz em quase silêncio. Nada se pareceria com suas hordas de palavra de encher os olhos. Tudo nele estava tímido, arredio às imprecações de quem quer que fosse, havia, no fundo, sido jubilado, jubilado de um seu eu que não lhe parecera, enfim, promissor. Não sabia o que era o fatalismo. Pauvre enfant!
O vento só não cortara pior do que da outra vez. O rosto na janela necrotérico. Não se sabia doente. Aí que foram elas! Tudo parecia com uma tremenda despedida e acabou gerando outra festa. Signos, lógico! Daí se dirigiu em passo reto ao bar. Não era a primeira vez que repetia a façanha. Escapava ao léu. Ao seu modo. Interessado em suprassumir. Palavra que aprendera com as aulas de alemão do padre da filosofia. Sorria ao encontrar o que não entendia. Quase um sentimento basco de enternecimento pelas questões, e aja questões para inventar conceitualmente.
Tatuagem
"Eis a tatuagem: minha alma constantemente presente, branca, cintila e difunde-se nos vermelhos que se permutam, instáveis, com os outros vermelhos, os desertos são escuros por falta de alma; verdes os prados onde a alma, raramente, contudo, às vezes, se instala, ocre, malva, azul frio, alaranjada, turquesa...Assim, complexa e um tanto assustadora, surge nossa carta de identidade. Cada um tem a sua, original, como a impressão de seu polegar ou a marca de seus maxilares. Nenhuma carta é igual a nenhuma outra, todas mudam com o tempo; fiz tanto progresso desde minha juventude triste e trago na pele o traço e os caminhos abertos por aquelas que me ajudaram a procurar minha alma difusa.
Os que têm necessidade de ver para saber ou crer desenham ou pintam e fixam o lago de pele inconstante e ocelado, tornam visível, com cores e formas, o puro tátil. Mas, para cada epiderme, seria preciso uma tatuagem diferente, seria preciso que ela evoluísse com o tempo: cada rosto pede uma máscara tátil original. A pele historiada traz e mostra a própria história; ou visível: desgastes, cicatrizes de feridas, placas endurecidas pelo trabalho, rugas e sulcos de velhas esperanças, manchas, espinhas, eczemas, psoríases, desejos, aí se imprime a memória; por que procurá-la em outro lugar; ou invisível: traços imprecisos de carícias, lembranças de seda, de lã, veludos, pelúcias, grãos de rocha, cascas rugosas, superfícies ásperas, cristais de gelo, chamas, timidez do tato sutil, audácias do contato pugnaz. A um desenho ou colorido abstrato, corresponderia uma tatuagem fiel e sincera, onde se exprimiria o sensível. A pele vira porta-bandeira, quando porta impressões.
Nascimento do desenho cambiante nas carícias: nua, estirada, enroscada a meu redor, tigre, puma, tatu, procuras adivinhar minha pele historiada, líquida e cambiante. Nossa alma se difunde de tal forma que não estamos unidos" (Michel Serres).
Os que têm necessidade de ver para saber ou crer desenham ou pintam e fixam o lago de pele inconstante e ocelado, tornam visível, com cores e formas, o puro tátil. Mas, para cada epiderme, seria preciso uma tatuagem diferente, seria preciso que ela evoluísse com o tempo: cada rosto pede uma máscara tátil original. A pele historiada traz e mostra a própria história; ou visível: desgastes, cicatrizes de feridas, placas endurecidas pelo trabalho, rugas e sulcos de velhas esperanças, manchas, espinhas, eczemas, psoríases, desejos, aí se imprime a memória; por que procurá-la em outro lugar; ou invisível: traços imprecisos de carícias, lembranças de seda, de lã, veludos, pelúcias, grãos de rocha, cascas rugosas, superfícies ásperas, cristais de gelo, chamas, timidez do tato sutil, audácias do contato pugnaz. A um desenho ou colorido abstrato, corresponderia uma tatuagem fiel e sincera, onde se exprimiria o sensível. A pele vira porta-bandeira, quando porta impressões.
Nascimento do desenho cambiante nas carícias: nua, estirada, enroscada a meu redor, tigre, puma, tatu, procuras adivinhar minha pele historiada, líquida e cambiante. Nossa alma se difunde de tal forma que não estamos unidos" (Michel Serres).
Tuesday, June 06, 2006
Lotta Blanche
Era sábado. Onze horas da manhã. Não pensava em si mesma desde ontem à noite. Ainda bem tinha lavado a louça e recolhido as pontas antes de adormecer na velha poltrona de veludo, infestada de ácaros e festa. As baganas fediam à cerveja. "Minha nossa!", balbuciou as primeiras palavras do dia, a cabeça parecia querer saltar-lhe dois metros adiante. Fernandez não estava mais lá. Ninguém, aliás, "ainda bem", mirava a própria mão trêmula, sem sangue, enquanto estalava a língua. Lembrou-se de que era sempre bom se certificar com segurança, vasculhando os quatro cantos do pequeno apartamento de 68 metros quadrados. A memória ia pulando...dois quartos, um para os livros e a escrivaninha, o outro para o colchão no chão e os penduricalhos. "Ainda bem não ficou ninguém perdido!" Quantas vezes iria repetir "ainda bem" naquele dia? Tascou um mordida no próprio lábio, não foi um ato consciente, era o estalo da alma a fim de acordar mais rápido do que sua dona. "Que louca!", exclamou num gritinho, fingindo afetação, e a escova já fazendo seu serviço, e ela pensando em voltar a se reconhecer, já era tempo. Quando ia começar a filosofar, reparou que a língua estava simplesmente horrível. Ela estava um lixo como uma língua de duas carteiras de Malboro vermelho com cachaça. Ela a escovou até sangrar. Sem pena, sem dó, com praticidade.
Não foi de propósito que ela se mordera, afinal. O olho, reparando bem, estava meio torto, meio banguela, como certa vez apontara Liza com seu jeito covarde...Artur a mataria se ela repetisse de novo que vivia em um pequeno apartamento. O dele era minúsculo e blá, blá, blá. Ouviu a voz dele como se estivesse a menos de um palmo dela e não naquela terra de ninguém onde ele foi morar há exatos sete anos, justamente com a doida da Liza. Sentia falta dele, talvez, mas por que estava a pensar no desgraçado do Artur. "Só por que ele é lindo, intelilgente e trepa bem?" A essa altura, já podia ouvir a voz com menos sofreguidão do que nos tempos em que vivera apinhada nas coisas dele. Um monte de livro e... "Merda!", de súbito reparou no canto ao lado do vaso sanitário, alguém tinha "esquecido", tido a brilhante idéia, desfaçatez mesmo, de mijar no chão, imaginou o filho da puta doido e burro do Herandez fazendo isso, nunca mais o chamaria, isso era certo, não o suportava mais! Enfim, estava revoltada e era melhor volver-se para a ironia, se é que queria superar aquela fase de pasta na boca e começar a conversar consigo.
Sozinha e mestruada, Lotta Blanche passou a balbuciar repetidas vezes diante do espelho "5 de julho de 1998, 5 de julho de 1998, 5 de julho de 1998...", um modo de asseguar-se das notícias da sua existência - sua voz ainda rouca, muito cigarro na madrugada de santo, repetia uma quarta, quinta e décima vez, enquanto, aos goles, bebia um copo de água natural. Passou perto da janela. O sol estava lindo. E "pense na bagunça", olhava ao redor, "a casa estava totalmente blow up". Retomaria imediatamente sua vida de quartel, afinal hoje era sábado. Com um movimento de cabeça, um meneio daqueles de sacudir a massa encefálica obtusa e inflamada pelo álcool de ontem, dirigiu-se a cozinha. Uma cozinha americana muito brega, herança de Artur.
Estava toda ritual já. Os cascos de cerveja sobre a pia eram testemunha da ressaca. Sem falar na ressaca moral. "Não!", lançou feito um grunhido como se reprovasse a si mesma por estar se reprovando. Não estava entendendo mais nada. Era melhor começar o ritual logo. Assim, esquecia do principal, ou seja, da trama da noite passada. E qual era ela? "Boa pergunta!", repousando o braço no canto da pia do banheiro. Era hora de número dois, banho e ganhar o mundo para um missô de desjejum na padaria da esquina. Era sempre a mesma coisa. Daí a pouco já estaria desejando novamente uma cerveja estupidamente gelada, pensava nisso com uma sensação de alívio. As veias das têmporas pareciam gostar da lembrança da cerveja gelada. "Pronto", disse dando descarga, dirigindo-se à ducha fria, a mais fria de todas, "já sei onde vou almoçar hoje!". A decisão contrariava a condição do corpo. Nada correspondia ao que era. Estava um caco. Será que era incapaz de conjugar pensamento e sentimento? Além de alcoólatra, só faltava descobrir-se esquizofrênica. "Aí era o fim, deus me livre!", rodando a chave na porta e trancando-se para o seu mundo no lado de fora do apartamento. Era hora de caminhar, de andar, desvairada e amalucada. Bater perna depois do missô, é claro! Acabou tomando uma cerveja gelada também. Estalou a língua e disse "bye, bye" para o moço do balcão da padaria. O nome dele era Raimundo e ela não sabia absolutamente nada sobre ele. Nem lhe fora apresentado, era tudo apenas pelo crachá. Raimundo. Era o cara atrás do balcão. "Vixe! Já estava viajando!", só podia ser o efeito retardado da cerveja, desencadeado pela geladíssima do momento. "Pronto!", agora ia mesmo esticar canela. Lépida, dobrou à esquerda sem nenhuma marca de remorso. Apesar do olho torto, "estava indo", pensou pela última vez antes de mergulhar no mais completo abandono de si. Subtraída até mesmo do próprio caráter.
Acordar segunda-feira para trabalhar era para Lotta Blanche um motivo de alegria - tomar uma ducha fria, quase gelada, vestir-se ao som dos movimentos de pernas e braços, dar bom dia para seu Nathan, o porteiro, tomar um suco de laranja, comer um misto-quente na chapa, na mesma padaria do missô, tendo um outro crachá pela frente, tudo isso num ritmo sóbrio e decidido -, era verdadeiramente para ela um motivo de alegria. Sua respiração parava a um minuto de entrar na cabine, onde passaria sua manhã inteira coletando sangue para análise clínica. O laboratório de coleta era o máximo, apaixonante. Organizar as agulhas descartáveis. Empilhar o material de trabalho e dar uma rápida olhadinha, de esgueira, para a fila de espera, até aparecer o primeiro braço. Era nada mais nada menos do que um acontencimento e, ainda melhor, um acontecimento a intervalos de cinco em cinco minutos, que era o tempo de um braço substituir um outro para a agulha.
Não foi de propósito que ela se mordera, afinal. O olho, reparando bem, estava meio torto, meio banguela, como certa vez apontara Liza com seu jeito covarde...Artur a mataria se ela repetisse de novo que vivia em um pequeno apartamento. O dele era minúsculo e blá, blá, blá. Ouviu a voz dele como se estivesse a menos de um palmo dela e não naquela terra de ninguém onde ele foi morar há exatos sete anos, justamente com a doida da Liza. Sentia falta dele, talvez, mas por que estava a pensar no desgraçado do Artur. "Só por que ele é lindo, intelilgente e trepa bem?" A essa altura, já podia ouvir a voz com menos sofreguidão do que nos tempos em que vivera apinhada nas coisas dele. Um monte de livro e... "Merda!", de súbito reparou no canto ao lado do vaso sanitário, alguém tinha "esquecido", tido a brilhante idéia, desfaçatez mesmo, de mijar no chão, imaginou o filho da puta doido e burro do Herandez fazendo isso, nunca mais o chamaria, isso era certo, não o suportava mais! Enfim, estava revoltada e era melhor volver-se para a ironia, se é que queria superar aquela fase de pasta na boca e começar a conversar consigo.
Sozinha e mestruada, Lotta Blanche passou a balbuciar repetidas vezes diante do espelho "5 de julho de 1998, 5 de julho de 1998, 5 de julho de 1998...", um modo de asseguar-se das notícias da sua existência - sua voz ainda rouca, muito cigarro na madrugada de santo, repetia uma quarta, quinta e décima vez, enquanto, aos goles, bebia um copo de água natural. Passou perto da janela. O sol estava lindo. E "pense na bagunça", olhava ao redor, "a casa estava totalmente blow up". Retomaria imediatamente sua vida de quartel, afinal hoje era sábado. Com um movimento de cabeça, um meneio daqueles de sacudir a massa encefálica obtusa e inflamada pelo álcool de ontem, dirigiu-se a cozinha. Uma cozinha americana muito brega, herança de Artur.
Estava toda ritual já. Os cascos de cerveja sobre a pia eram testemunha da ressaca. Sem falar na ressaca moral. "Não!", lançou feito um grunhido como se reprovasse a si mesma por estar se reprovando. Não estava entendendo mais nada. Era melhor começar o ritual logo. Assim, esquecia do principal, ou seja, da trama da noite passada. E qual era ela? "Boa pergunta!", repousando o braço no canto da pia do banheiro. Era hora de número dois, banho e ganhar o mundo para um missô de desjejum na padaria da esquina. Era sempre a mesma coisa. Daí a pouco já estaria desejando novamente uma cerveja estupidamente gelada, pensava nisso com uma sensação de alívio. As veias das têmporas pareciam gostar da lembrança da cerveja gelada. "Pronto", disse dando descarga, dirigindo-se à ducha fria, a mais fria de todas, "já sei onde vou almoçar hoje!". A decisão contrariava a condição do corpo. Nada correspondia ao que era. Estava um caco. Será que era incapaz de conjugar pensamento e sentimento? Além de alcoólatra, só faltava descobrir-se esquizofrênica. "Aí era o fim, deus me livre!", rodando a chave na porta e trancando-se para o seu mundo no lado de fora do apartamento. Era hora de caminhar, de andar, desvairada e amalucada. Bater perna depois do missô, é claro! Acabou tomando uma cerveja gelada também. Estalou a língua e disse "bye, bye" para o moço do balcão da padaria. O nome dele era Raimundo e ela não sabia absolutamente nada sobre ele. Nem lhe fora apresentado, era tudo apenas pelo crachá. Raimundo. Era o cara atrás do balcão. "Vixe! Já estava viajando!", só podia ser o efeito retardado da cerveja, desencadeado pela geladíssima do momento. "Pronto!", agora ia mesmo esticar canela. Lépida, dobrou à esquerda sem nenhuma marca de remorso. Apesar do olho torto, "estava indo", pensou pela última vez antes de mergulhar no mais completo abandono de si. Subtraída até mesmo do próprio caráter.
Acordar segunda-feira para trabalhar era para Lotta Blanche um motivo de alegria - tomar uma ducha fria, quase gelada, vestir-se ao som dos movimentos de pernas e braços, dar bom dia para seu Nathan, o porteiro, tomar um suco de laranja, comer um misto-quente na chapa, na mesma padaria do missô, tendo um outro crachá pela frente, tudo isso num ritmo sóbrio e decidido -, era verdadeiramente para ela um motivo de alegria. Sua respiração parava a um minuto de entrar na cabine, onde passaria sua manhã inteira coletando sangue para análise clínica. O laboratório de coleta era o máximo, apaixonante. Organizar as agulhas descartáveis. Empilhar o material de trabalho e dar uma rápida olhadinha, de esgueira, para a fila de espera, até aparecer o primeiro braço. Era nada mais nada menos do que um acontencimento e, ainda melhor, um acontecimento a intervalos de cinco em cinco minutos, que era o tempo de um braço substituir um outro para a agulha.
Monday, May 29, 2006
Saudades de minarete
Como traçar divisões entre o que é externo a uma pessoa e aquilo que lhe parece mais íntimo, mais inviolável, sua interioridade mesma? Seria possível pensar a dignidade da pessoa nessa incúria do pensamento? Onde estaria o desmazelo da sentença? Talvez, a chave não seja psicológica. Muito menos ainda ligada à boçalidade de termos como heteronomia, entropia e sinergia. A questão é menos própria do que de certo se imagina. A perspectiva de um dentro em oposição, diria em quase contenda litigiosa, com um fora parece ser o princípio de ação das forças do estatismo. Ações de recorte das multiplicidades. Superposição de códigos. A externalidade e a internalidade super-representam e nada mais? Que saudade da minarete!
Marajoara?
Não era a primeira vez. Caminhava como se fosse mestre de si. Atravessou o corredor em segundos. Quase não sobressaía nenhum intervalo, não fossem duas ou três palavras de reconhecimento com Brink. Desatados os nós, havia alguns desde o último encontro, devido a uma tentativa de erro que, posteriormente, confirmou-se apenas algo fortuito, acidental. A marca ainda estava lá a incomodar, como mancha a provar o mal-entendido. Mas, enfim, de mal-entendido nada se podia esperar a mais da condição, n'est-ce pas? - perguntou a Brink a fim de desfazer qualquer mal-estar. Era um olhar propiciatório que lhe lançava. Não podia ser diferente, eles estavam como o barbeiro e K. na aldeia do castelo. Afinal, não era a primeira vez que Brink lhe tocaria a alma.
Friday, May 26, 2006
so I walk a little too fast
Ela era a estética! Um artigo singular, definido e, devidamente, aspeado de mulher lhe acompanhava. Só não ousei aspear realmente para minimizar o risco de continuar sendo deselegante. Portanto, antes de me acusarem de vadiagem, repito, até para esconder a falta de fôlego, ela não era o artigo. Só se eu estivesse completamente louco e no pior sentido de desbaratado, tresloucado, ou alinenado para acabar em confundir o universo das relações com as pontuações vulgares do texto que foge, escorre, esconde-se e, ligeiro, parece recolher-se a lugar nenhum. Tudo o mais continuaria pura injúria. Se o autor fosse menos tímido, bastaria-lhe tascar o que precisava ser escrito: sua estética move-se ao frêmito do seu corpo! Inescrutável e sombreada apenas aos olhos da noite!
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