"Eis a tatuagem: minha alma constantemente presente, branca, cintila e difunde-se nos vermelhos que se permutam, instáveis, com os outros vermelhos, os desertos são escuros por falta de alma; verdes os prados onde a alma, raramente, contudo, às vezes, se instala, ocre, malva, azul frio, alaranjada, turquesa...Assim, complexa e um tanto assustadora, surge nossa carta de identidade. Cada um tem a sua, original, como a impressão de seu polegar ou a marca de seus maxilares. Nenhuma carta é igual a nenhuma outra, todas mudam com o tempo; fiz tanto progresso desde minha juventude triste e trago na pele o traço e os caminhos abertos por aquelas que me ajudaram a procurar minha alma difusa.
Os que têm necessidade de ver para saber ou crer desenham ou pintam e fixam o lago de pele inconstante e ocelado, tornam visível, com cores e formas, o puro tátil. Mas, para cada epiderme, seria preciso uma tatuagem diferente, seria preciso que ela evoluísse com o tempo: cada rosto pede uma máscara tátil original. A pele historiada traz e mostra a própria história; ou visível: desgastes, cicatrizes de feridas, placas endurecidas pelo trabalho, rugas e sulcos de velhas esperanças, manchas, espinhas, eczemas, psoríases, desejos, aí se imprime a memória; por que procurá-la em outro lugar; ou invisível: traços imprecisos de carícias, lembranças de seda, de lã, veludos, pelúcias, grãos de rocha, cascas rugosas, superfícies ásperas, cristais de gelo, chamas, timidez do tato sutil, audácias do contato pugnaz. A um desenho ou colorido abstrato, corresponderia uma tatuagem fiel e sincera, onde se exprimiria o sensível. A pele vira porta-bandeira, quando porta impressões.
Nascimento do desenho cambiante nas carícias: nua, estirada, enroscada a meu redor, tigre, puma, tatu, procuras adivinhar minha pele historiada, líquida e cambiante. Nossa alma se difunde de tal forma que não estamos unidos" (Michel Serres).
1 comment:
uma vez disse que tinha medo das tatuagens porque eram definitivas, difíceis de sair se batesse o arrependimento. essa sensação sempre me fascinou. quando redesenhei aquele fragmento do paul klee fiquei imaginando o efeito na pele. vejo novos desenhos e penso, será? lendo esse texto lembrei das suas palavras dizendo que as marcas do que vivemos vão estar sempre lá, quer queiramos ou não. é. algumas ficam grudadas como tentáculos de um polvo, enroscados, e mesmo que tentemos de tudo pra afastá-los eles vão se retorcendo e encontram outros vãos por entre nosso corpo pra se acomodar. as vezes nos esquecemos deles. outras vezes eles apertam até doer o peito e faltar a respiração. minha pele já está mapeada dos desenhos que venho colecionando, das escolhas que venho fazendo. mesmo quando apenas deixo que eles se instalem, sem tomar uma atitude pra isso. talvez eu esteja esperando o desenho certo cair nas minhas mãos. tenho que parar de esperar pelo destino. vou fazer minha escolha e cravá-la na pele. e mesmo que me arrependa ele fará parte do que eu sou.
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