Wednesday, October 31, 2018

Orgulho ou vergonha? O problema de ser professor em tempos de ódio ao professor

Fiquei com vergonha de ser professor. Me sentindo acuado, culpado. É como se eu tivesse feito a escolha errada. Tivesse escolhido ser educador. O professor está sendo tratado como um criminoso. Até quem antes dizia ter admiração pela gente, deixou de expressar isso. Onde erramos? Por que querem que fiquemos cabisbaixos? Que punição é essa? O professor gasta parte do salário com livros. É uma alegria imensa quando o livro chega. A gente sabe que vai estudar e isso vai ser transformador na sala de aula. Hoje, chegou um livro que comprei. Fiquei triste. Indiferente. Me deu vontade de chorar. O livro parecia não ter mais lugar. Parecia uma coisa errada. Está difícil.

Monday, October 29, 2018

Cuidar das crianças

Cuidar, sistematicamente, todos os dias, sempre, prioritariamente, das crianças. Manter a regularidade desse cuidado. Buscar também fazer isso com qualidade. Sem stress. Sem transferência de sentimentos e atitudes negativos para as crianças. Tentar, pelo menos. Escutar muito a criança. Aprender a escutá-la. Ensinar as crianças no dia a dia a cuidarem de si mesmas. A ter noção de si e do outro. Fazer isso de domingo a domingo, sempre, a vida toda, sem faltas. Desafio de ser pai. Desafio de ser mãe. Uma trilha de obrigações para com as crianças. Tornar-se criança com a criança. Não ser impositivo em demasia. Dizer mais "cuidado" e menos "não". Dizer o "não" na hora certa, para demarcar o poder do "não" em certas circunstâncias (enfiar o dedo na tomada, por exemplo). Dialogar muito, conversar muito. Não bater. Nunca bater. Nem palmada. Não há necessidade, quando se é um pai-educador ou mãe-educadora, a força do amor, dos afetos, da palavra, do abraço, do acolhimento, da autoridade também, enfim, isso tudo basta e ainda não é suficiente para dar conta da aventura do humano. A violência física é sinal de falência da educação. Alimenta o medo e a desinteligência. Dedicação total. Não é fácil, mas é muito gratificante. Mas exige vários sacrifícios dos desejos individuais. Estar a serviço do cuidado do outro não é brinquedo. Mas ensina algo sobre ética, porque de amor já se trata.

Thursday, August 16, 2018

A vida acadêmica

Quando fazia graduação, assistia aula de 7h às 12h, almoçava de 12h às 12h30, entrava na biblioteca às 13h e ficava até 19h, ia para as casas de cultura estudar inglês, francês, grego, latim, tudo gratuito, terminava às 21 horas, aí o bar estava lotado, ia para lá beber cerveja e bater papo com a galera. Chegava em casa às 24h. Ia digitar trabalhos e transcrever fitas até às 2h, para ganhar uma parte do aluguel de uma quitinete que dividia com um amigo no centro da cidade. Tinha a bolsa e essa grana dos bicos. Era estudante profissional. Conhecia um monte de amigos e amigas que faziam isso também. E não vinham de família rica, nenhum de nós. Sábado era o dia todo lendo, a gente fazia era grupo de estudo no sábado lá na UFC, domingo, depois da ressaca recuperada, pois sábado à noite era balada na certa, lá pelas 15h de domingo, começava leitura e finalizava no Cais Bar, dando uma esticadinha até a manhã de segunda, indo direto para a aula, sem se atrasar. A aula começava às 7. Isso lá pelos idos de 1993. Universidade era puro tesão. Estudar muito, na liseira, namorar e dançar e deixar o corpo transcender o mundinho de merda dos arredores. Contracultura. Universidade para mim não é mercado "livre". É corpo livre. É um estilo de vida de recusa ativa do adoecimento. Universidade adoece quem? Para mim, é fonte de saúde. Por isso, quis continuar nela como professor. Pelo tesão.

Adoecimento acadêmico

Se as exigências hoje estão bem baixas, por que se fala tanto em adoecimento acadêmico? Ninguém mais é obrigado a ler mil páginas por semana. Esses tempos estão fora da regra do jogo atual. A universidade virou mercado "livre". Todo mundo é "livre" para não aceitar ser exigido por uma instância de assujeitamento, que está na base da formação do sujeito acadêmico. A atividade cobradora é percebida como opressora. Para não ser opressor, a gente cobra da gente mesmo, então. E não sou elitista, não defendo uma universidade elitista, ao contrário, penso que a democratização da universidade é disseminar práticas formativas e de produção de saber orientadas politicamente para a ruptura com as imposições do sistema de mérito, que é uma hierarquização baseada na desigualdade de capital. O deixa-rolar como for, como os indivíduos desejarem, de acordo com as "escolhas" de cada indivíduo que se serve na universidade como se estivesse consultando um "menu", buscando o "combo" que lhe interessa, é aliado do neoliberalismo. A subjetividade neoliberal do atual consumidor de serviços educacionais na universidade é pouca discutida. Discute-se mais o neoliberalismo do produtivismo. Penso que é uma questão a se pensar. Rejeita-se produtividade sob a etiqueta da contraposição da ideologia do produtivismo. E a relação entre Universidade e Democracia vai para o ralo, ou seja, vai para o buraco do mercado "livre". A luta por democracia é árdua. Envolve uma recusa do trabalho alienado.

O problema da leitura na universidade hoje

Do ponto de vista da lei do meu desejo, esse lance de que ter de ler muito na universidade é fonte de adoecimento é papo-furadíssimo. Para mim, para o meu desejo, ler muito é o que me mantém vivo, alegre, com desejo de ser, de persistir, de continuar, de dançar, conversar, namorar, ler muito é minha melhor terapia, depois do namorar. Salva minha vida mais do que qualquer outro bem de salvação que se possa ofertar no mercado. Ler muito não me adoece, me dá tesão. Me deixa querendo ler mais. É o desejo do desejo sendo acionado. O desejo de persistir sendo mobilizado. Estou falando somente de mim. Se existem pessoas que acham que ter de ler muito na universidade é fonte de adoecimento, eu me dou o direito de subjetivamente desconfiar de que isso é uma cortina de fumaça, que esconde outro tipo de problema existencial. Mas sobre o desejo do outros, que falem os outros. Falo sobre o meu.

Wednesday, August 15, 2018

Coisas da vida

Um ano e meio sem dormir? Duas vezes já. Dois filhos. Não é brinquedo. Depois que passa, vira história. Histórias de amor. Mas não é fácil. O corpo é testado no limite. O pior são três ou quatro noites em claro, menino doente, febre 40 graus, vai e vem de hospital. Quero nem lembrar. É compromisso forte. Dá pra vacilar não. Enfim. Ter filhos é uma loucura. Coisa de doido , quando não se é irresponsável, é claro. A responsabilidade efetiva é coisa de doido. Tem de renunciar a muitas coisas. Muitos sacrifícios. Criar gente como deve ser é uma tarefa extenuante. Mais para as mulheres. E para os homens, vai depender. Pra muitos, é só ausência. Não foi o meu caso. Os filhos me chamam de pai, isso é uma conquista emocionante. Quase compensa a loucura.

Férias do professor em 16 de julho de 2018

Dia 16, no meio das férias, e eu tendo que me policiar para não começar a trabalhar logo. Pense num autocontrole difícil. A gente é de tal modo condicionado a ser robô que não sabe tirar férias. Há também colegas que se aposentam e ficam em depressão. No meu caso, fico estudando sem parar, pois estudar é uma forma de trabalhar que não entra nos meandros burocráticos da organização com suas mil e uma demandas a todo vapor durante as férias. As férias do professor é lendo livros e escrevendo artigos acadêmicos. Uma mistura de prazer e sacrifício. Não estou elogiando nada, estou só relatando a loucura que é. Mas não entro nessa de dizer que estou em adoecimento. Não estou. Estou só louco mesmo.

Tuesday, August 14, 2018

Nomadismo?

Quando intelectuais cosmopolitas, sedentários, burgueses, bem integrados e adaptados, pesados de tanto capital que carregam, escrevem textos de elogio do nomadismo, do movimento, da predação e do saque, fico com uma pulga atrás da orelha.

Ameaça de corte de bolsas

Minha análise sobre o corte das bolsas é a seguinte: a Universidade pública está empresariada, seja para o setor público, seja para o privado. A pós-graduação não vai acabar. Vai ficar mais competitiva. Mais elitista. Governos e empresas vão criar bolsas para remunerar mão de obra de alunos de professores consultores de empresas e governos. Essas bolsas vão ser distribuídas apenas para quadros restritos. A Universidade vai enxugar custos, diminuindo a quantidade de matrículas. Os cursinhos vão ficar mais fortes. Critérios de desigualdade de capital informacional serão mais reforçados, bem como o racismo institucional que predomina nesse contexto. O resultado vai ser uma pós-graduação mais enxuta, mais conectada com as corporações e com os governos, mais voltada para o mercado, selecionando de modo extremamente rigoroso (segundo critérios do sistema de hierarquização de capital educacional) os quadros em formação. A Universidade vai seguir sua vocação histórica de ser formadora de elites para a modernização autoritária, só que agora numa versão mais utilitarista, tecnicista e voltada para a integração e adaptação no contexto de arranjos produtivos globais. A maioria silenciosa está comemorando que haverá enxugamento de bolsas, pois assim os mecanismos de seleção e treinamento ficarão mais marcados pela forte competição entre os estudantes e os professores. Quem vai defender a perda das bolsas? Quase ninguém. Apenas os segmentos marginais à própria pós-graduação. O resto é cortina de fumaça, a fim de se mostrar politicamente sensível. O cenário é mais duro do que a gente pensava. (não defendo essa merda, estou apenas relatando).

Dois pesos e duas medidas para os protestos

Quando a Dilma cortou 12 bilhões das federais , houve silêncio quase total, quase ninguém protestou. Foi estarrecedor. Agora, vem os cortes menores, que dão continuidade ao corte maior, e gera um escarcéu. Dois pesos e duas medidas. Quando blindavam Dilma, autorizavam cortes que estavam planejados por ela. Ela falou isso abertamente, que ia fazer, mas o impedimento não permitiu. Temer está cumprindo um cronograma de cortes planejado pela Dilma. Continuidade. Só houve um golpe interno. Um golpe no golpe. Tanto é que PT e PMDB são os melhores aliados de sempre. PT golpista. Em janeiro de 2015, o governo Dilma deu um golpe, cortando 80 bilhões da área social. Do sistema federal de ensino, o corte foi de 12 bilhões. Desfez todo o investimento anterior de 8 bilhões e cortou mais 4 bilhões. Fez a universidade recuar para um padrão FHC. Em tal contexto, estudantes e professores em sua maioria dilmistas fizeram absoluto silêncio. Não houve protestos. Agora, o PT se alia no país inteiro com o PMDB. Quem são os golpistas?

Eleição que alivia?

Pessoal que eu conheço tudo com sensação de alívio, pois PT e PSDB voltaram a polarizar e dominar o cenário eleitoral. Um tipo de normalização emocional para muita gente. Um tranquilizante de que a ordem será mantida, excluindo os outros fascismos. Afinal, o fascismo do outro nos olhos alheios é refresco. Pois há fascismos de direita e de esquerda e por toda a parte, infelizmente.

Tempo perdido

Por que falta amor? Porque é cansativo amar. E desejar ser amado é uma pretensão ridícula. Não é bem o amor que falta, mas sim a própria ausência fútil de um ser amado. O amor acarreta um tempo perdido.

Virou game divertido

Gente, a política virou um game nas redes sociais. Na falta de política transformadora, a gente se contenta em brincar com os signos vazios. Ou seja, fica tudo como está, mas a gente faz ironia e se diverte. Acho super legal. Estou só pontuando. Adoro games. Mas para jogar, é preciso estar relativamente bem postado e respaldado no sofá, tem de ter um sofá relativamente confortável. E ter acesso à internet, é claro. Acesso ao mundo do trabalho e do salário, entre outros acessos que tornam a brincadeira bem legal e inofensiva.

Livros como objetos táteis

Os livros são objetos táteis antes de serem objetos visuais. Colecionar livros é uma forma de lhes arrancar o valor de exibição. É o valor de uso do livro que é afirmado por sua posse pública.

Juventude e universidade no capitalismo

Estudos sobre jovens da classe trabalhadora na Grã-Bretanha mostraram que certas práticas de resistência desenvolvidas nas escolas e universidades podem ser bastante prazerosas e, ao mesmo tempo, conectadas a uma não capacidade de ver que seus interesses podem estar sendo ameaçados no longo prazo. Entre outras coisas, isto mostra que a Universidade como organização é bem menos opressiva do que outras empresas. Por exemplo, jovens que foram muito resistentes na Universidade e depois dela se tornaram fortemente "integrados", "adaptados", "subservientes", em outros contextos organizacionais, isso é bem comum. Tenho percebido isso. A Universidade ainda não atua totalmente como uma empresa. Se assim fosse, não haveria quase nenhum prazer na resistência cotidiana que nela é possível. Ela apenas simula outros ambientes de coercitividades, mas continua um espaço de muita liberdade, se comparado com outros ambientes com que os egressos da Universidade, principalmente, das camadas populares e médias, irão se defrontar, como trabalhadores assalariados ou como desempregados clássicos ou estruturais. Quando encontro ex-alunos/as, em geral, escuto: "que saudade da universidade, professor!". Mas ninguém pode saber disso antes de ter sentido na pele. Ou pode? Já os estudantes das camadas populares e médias baixas que vieram de contextos muito brutais de trabalho, submetidos a condições muito fortes de exploração desde muito jovens, esses costumam dar um grande valor à Universidade. Não param de dizer que estão podendo experimentar algo que antes não tinham tido chance antes, quando estavam escravizados em lugares de altíssima insalubridade e precariedade. A realidade é bem contraditória. Pois o fenômeno envolve indivíduos provindos de uma mesma classe, raça, gênero, etnia, com trajetórias diferentes e sentimentos distintos sobre o estar na Universidade.

Jogo de poder, jogo eleitoral

É possível, no atual contexto, jogar o jogo eleitoral transformando o jogo? Uma política transformadora exige a criação de novas regras. Estamos fazendo isso?

Manter coerência na incoerência crescente

Manter alguma coerência nesses tempos de incoerência crescente virou um lance da mais alta complexidade. Narrativas que deem coerência às coisas estão se tornando quase impossíveis. Então, o sofrimento social também perde muito de sua dimensão social. É como se fossem tempos de sofrimento pós-social.

A iniciação científica como desafio hoje

Existem tarefas no mundo da pesquisa científica que parecem ser extremamente simples e, até mesmo, da ordem do trabalho manual, como, por exemplo, organizar uma lista de artigos acadêmicos em ordem alfabética, segundo o autor, fazendo corresponder de modo físico ou digital os textos com a ordem da lista. São tarefas que fazem parte da aprendizagem de qualquer cientista. Há uma crise séria de percepção na universidade hoje, pois uma parte dos estudantes enxerga como humilhação, opressão, exploração, fazer uma tarefa desse tipo. Como se o professor estivesse se aproveitando deles e delas. Na verdade, nós jamais deixaríamos de fazer essa tarefa. Hoje, eu a faço só, retirei-a do contexto de ensino-aprendizagem, pois a percepção é de que compartilhar tarefas "simples" é humilhante. Só que a tarefa não é simples. Há toda a lógica da descoberta científica, atuando em uma simples lista de referências. Está difícil manter programas de iniciação científica, pois falta o entendimento de que fazer ciência envolve milhões de tarefinhas e rotinas básicas, o que dá muito trabalho, muito mesmo. Exige muita disciplina e autodisciplina. Mas estou aqui fazendo, sozinho, quando o certo era estar ensinando outras pessoas a fazer, mas isso virou tabu. A percepção que domina a cena hoje é de que ensinar as tarefas e rotinas mais básicas significa que o professor está querendo se livrar do trabalho "chato" e "manual". Erro de percepção grave! Pois, na verdade, transferir para educandos, pesquisadores em formação, essas tarefas, dá mais trabalho, pois requer supervisionar e revisar tudo de novo, pois vamos encontrar muitas falhas. Deu para entender o paradoxo? Complexo demais. Todos nós já estivemos na iniciação científica. O professor não deixa de ser um bolsista de iniciação científica. É onde se aprende, é onde se adquire valores profissionais muito significativos. Nenhuma bolsa a menos! A bolsa de iniciação científica é a base de muito trabalho e dedicação à ciência.

Viver como pobre

Com exceção dos miseráveis e dos indivíduos do 1% do topo de muito ricos, o restante da população precisa aprender a viver como pobre. Quem quiser ainda viver como classe média, vai entrar pelo cano. Não estou defendendo que as coisas sejam assim, apenas, fazendo um comentário realista. A pobreza relativa precisa viver como pobre. Estar na pobreza relativa e ter ambição de classe média é um tiro no pé. A real classe média não ostenta. A falsa classe média ostenta e vive escondendo a desgraça em que se meteu. O neoliberalismo é um dispositivo moral. Ou dança, ou roda. É implacável. Esses comentários, volto a repetir, não são válidos para quem é excluído de quase tudo (a grande maioria). É voltado apenas para as camadas médias letradas e suas não tão doces ilusões.

Rotina e liberdade

Todo santo dia, aqui em casa a gente acorda às 4h para as crianças estarem às 7h na escola. A regra é não atrasar. Às 13h, todo mundo almoça. Todo santo dia. Rotina de anos que é para a vida toda. A rotina é condição da liberdade. A falta de rotina leva à pior servidão. Mas não é fácil. Não é fácil mesmo. A liberdade é uma conquista. Quem vive apenas de salário é assim. Vive de sua própria condição, de sua força de trabalho e de combate. E tem de agradecer, pois muita gente não tem direito ao trabalho e ao salário. Há uma desigualdade tremenda quanto a isso. Trabalho vivo contra o trabalho morto. A imposição de uma dívida infinita exige resistência.