Sunday, February 25, 2007

Convicções

As convicções são portentosas. Matreiras em adestrar a experiência aos seus caprichos, em moldá-la contra a razão. Por que então são tão irresistivelmente sedutoras? Minha adesão, por exemplo, ao mundo do trabalho é uma dessas loucuras em que o ser semelha perder o que ganha pelo fato de eximir-se do próprio território, estabelecendo relações ambivalentes e cambiantes com o território dos outros. Meu território é o da infância. Como Lévi-Strauss, tornei-me professor para não sair da escola. Ao final e ao cabo, sou um malandro orgulhoso e pago caríssimo por isso. Ao tentar fugir das humilhações ocasionais lançadas sobre o mundo da vida, desenvolvi a destreza impoluta de navegar na transversalidade do espaço conspurcado das corporações, espaço estrutural, funcional e corrompido pela perversidade do mediano. Meridianos perversos e risadas histriônicas. Ambos negadores do riso. E nessas mixórdias de caráter fragmentado, implodido em mil pedacinhos desencontrados, não me encontro e nem me procuro, pois não sou besta de nascença, só de parecença quando vem ao caso e ao raso do poço de onde almejo emergir. O que busco? Um tipo de economia de guerra às avessas: um tipo de plano auto-organizador onde a abundância orienta a procura, o valor do valor é movimento de conhecimento e o extraordinário é o principal vínculo de orientação para o fim em cuja afirmação enleva-se a gratuidade do devir.

2 comments:

Simone Lima said...

Leo, você sempre surpreende,
adorei o texto que me diz respeito também!

Ariane said...

quem, eu? Ariane
onde, eu? Fortaleza também!
prazer em conhecer sua complexidade...

pra te ler teve que ser dum só gole, quase me falta o ar enquanto as linhas me passavam quase sem fim, até que de súbito me chegou um ponto final.

gostei do modo como escreves,
bastante interessante...