Friday, December 29, 2017

Pelos idos de maio de 2015

Um grande desafio, talvez o maior de todos em termos políticos, seja o de promover estratégias solidárias para uma ação coletiva em prol de democracia real num contexto onde a maioria das pessoas está mergulhada no mais profundo quadro de isolamento e individualismo possessivo, que gera sentimentos negativos de "cada um por si" e de impotência frente à perspectiva da transformação social, que é necessária para nos levar a caminhar no sentido de um mundo mais justo, fraterno, livre e igualitário. Editar

Entre o Meireles e o Pirambu

Em média, um indivíduo que mora no bairro Meireles em Fortaleza ganha quase 12 vezes mais que um indivíduo que mora no bairro Pirambu. Neste bairro, que é da raiz popular histórica da cidade de Fortaleza, um indivíduo ganha 285 reais em média. No Meireles, mais de 3 mil reais. Como o cálculo é per capita, isso inclui toda a população, não apenas a economicamente ativa. Uma criança no Pirambu dispõe de 285 por mês em média. No Meireles, 3 mil reais por mês. A soma da renda mensal nominal dos domicílios particulares do Meireles é de mais de 120 milhões por mês, do Pirambu, 5 milhões. Mais de 900 mil pessoas vivem em situação de favelamento em Fortaleza, um terço da população do município. É uma das cidades mais desiguais do mundo. Trata-se de uma situação insustentável. Todavia, a desigualdade não pode ser reduzida apenas à renda como indicador, há outras dimensões, até mais graves, como as exclusões de acessos à saúde, educação e segurança cidadã.

Thursday, November 30, 2017

Crianças e idosos massacrados

Mas o que é ter problema na vida diante das pessoas que perderam entes queridos de modo violento? Mas o que é ter problema diante de quem está com entes queridos muito doentes? Morte e doença são avassaladoras. Nada mais complexo do que isso. As crianças e as pessoas idosas sendo massacradas. Isso é insustentável. A solidariedade está muito escassa. Essa é a crise principal.

Sobre a economia de guerra

De 2008 para 2012, quando a ostentação atingia o limite do céu, aqui em casa fizemos uma reunião de família para discutir a crise que se avizinhava, quando ninguém falava de crise. É esse o segredo. Não entrar no jogo. Ficar sóbrio. Não se embebedar de fantasias. A gente entrou no bunker quando estava todo mundo viajando. Aprendi isso com meus pais na década de 1980.

Tuesday, November 28, 2017

Condição de dominado: um círculo vicioso

Tentam imitar os dominantes, legitimando os critérios dominantes de avaliação, e quando são avaliados por tais critérios se sentem humilhados. A condição de dominado é um círculo vicioso entre vergonha e humilhação. Romper isso é sentido como uma tarefa quase impossível.

Detalhes invisíveis

Acordar todo dia às 5 da matina para filho chegar na escola às 7 horas em ponto. Empiricamente falando, neste ano de 2017, falhei um dia apenas. Exatamente, um dia. Chegamos às 7h10. Um vacilo meu. O nome disso é ascetismo secular. Não é brinquedo. É o lado invisível das coisas.

A reclamação paralisante

Não faz sentido você acompanhar jovens com doutorado alegando que estão desempregados por falta de oportunidade. Não faz sentido mesmo, principalmente, quando as oportunidades vão surgindo e os reclamantes nunca se inscrevem, nunca buscam as oportunidades, e continuam reclamando. Fico observando isso. Vamos reclamar e agir ao mesmo tempo. Reclamar e ficar paralisado é um problema sério.

Distâncias intergeracionais

Percebo que a distância entre minha experiência pessoal na vida social brasileira e de minhas e meus alunxs hoje é enorme. Há muitos pontos de contato que possibilitam a comunicação, mas há alguns pontos que são um fosso. Para quem foi adolescente e jovem na década de 1980 e já adulto em 1990, as coisas são muito diferentes. Eram tempos muito duros. Esse pessoal que hoje nos assusta (extrema-direita) ocupava todas as posições e em todo lugar. Vivíamos acuados. Eles estão apenas querendo voltar a ser como era naquela época. Vivíamos sendo massacrados por toda parte. Éramos os "vagabundos", os "baderneiros", os "maconheiros" etc. Era pancadão. Não digo que hoje seja mais fácil, mas houve mudanças para melhor por causa das lutas coletivas por direitos. O ambiente ficou menos irrespirável. Sei lá se estou certo. Posso estar alimentando aquelas coisas intergeracionais.

Fazer amigo não é fácil

Não gosto de tratar todo mundo como se fosse amigo. Amigo é algo tão raro e precioso, não merece banalização. O que não quer dizer que esteja fechado para novos amigos. Mas, em geral, não estão ligados aos circuitos de sucesso, dinheiro e poder. Onde há exaltação disso, não vejo chances de fazer amigos. Amizade nasce naquela situação onde a igualdade, o olho no olho, o lado a lado, é a base de tudo. Confundir amizade com "aliados", "rede de trabalho" e distribuição de simpatia para acúmulo de capital político ou outras formas de prestígio social é sem futuro. Um erro crasso.

Racismo atinge primeiro as crianças

Quando um homem e uma mulher brancos, ricos, poderosos, com muitos recursos para se defender, adotam uma menina negra, uma criança linda e adorável, fico pensando o que deve se passar de terrível com uma menina ou menino negros que vivem em situação de favelamento com suas mães negras solteiras superexploradas em atividades que reforçam posições de subalternidade, humilhação e exclusão de direitos. Se a linda Titi está sofrendo ataques estúpidos dos racistas, imaginem o que sofrem as outras crianças invisíveis ou invisibilizadas pelo racismo de Estado no BR.

Monday, November 20, 2017

Sobre a urgência

Me dá um cansaço tão grande trabalhar com pessoal compulsivo para quem TUDO É URGENTE. Um saco. Na vida, apenas a vida é urgente. O resto, a gente desenrola. Cada urgência com seu vazio. Quando alguém diz que algo é urgente, inicialmente, me dá uma raiva daquelas. Vem na minha cabeça os filhos doentes, as pessoas próximas morrendo, a falta de sentido da existência, coisas assim. Aí, vou ver que a merda da urgência do outro não passa disso, de uma urgência de merda. Uma urgenciazinha fajuta, melodramática, baseada em carência, sem solo real. Pois, urgência real é o filho na UTI ou sendo morto pela PM. Urgência para coisas que não são urgentes é uma filha da putice. Demandar urgência deveria ser um recurso de socorro extremo. Mas o urgente virou uma coisa banalizada. Qualquer ansiedadezinha de merda vira demanda de urgência. Urgente é a morte, pessoal. Urgente é a vida sendo ceifada, destruída. O resto é o resto. Urgente é evitar as condições de morte do desejo humano, da liberdade, da igualdade, e nada mais. Não vamos etiquetar de urgente as banalidades da vida vazia. Urgente é o amor, a solidariedade, o bem-viver para todas as pessoas sem exceção. Urgente é o reino da abundância de alegria e do júbilo no excesso de sentido.

Desabafos da vida

E quando aproveitam que você está com filho pequeno para lhe acusar de baixa produtividade e tomar suas posições? Se isso acontece com homens pais, imaginem com as mulheres que são mães, que a cobrança é elevada à enésima potência. Cansado também de supermachos, que são pais ausentes e vivem de desejo de poder. E, muitas vezes, nem sempre são tão produtivos quanto se pintam. Vivem de inflacionar a própria imagem. Organizações dominadas pela hipercompeticao de supermachos são uma merda.

Wednesday, November 08, 2017

Tudo ou nada?

O mergulho total em qualquer coisa é uma besteira enorme. Nada é total. Tudo é nada. Esse lance de querer totalizar a experiência é tão problemático quanto querer fragmentá-la. Entre paranoia e esquizofrenia, prefiro o caminho que se inscreve diretamente no real quando se foge das antinomias e das alternativas infernais. Tudo ou nada? Essa questão precisa ser superada, mas não por uma forma de meio-termo fajuto, que aposta as fichas numa postura de docilidade adaptativa ao que aí está. O mais difícil é lidar com o vazio sem por isso se basear num desejo do vazio. É como lidar com o pleno, sem desejar o absoluto. O problema não é o vazio, é cair nele ou desejá-lo. No primeiro caso, é perder a relação com a loucura. No segundo, é neutralizar quaisquer potências da existência. Outro problema é lidar com o tudo. Se confundir com o tudo é um ato de pura arrogância. Manter uma relação com o tudo pode ser uma proteção, mas beira o desejo de onipotência desse tudo. Certa inveja da onipotência do tudo, de sua suposta onipotência se faz uma onipotência delirante de quem sente medo mas não quer mais.

Wednesday, October 18, 2017

Urgência é pânico.

Entro em pânico quando me dizem que algo é urgente sem ser. O crime, a loucura e a morte. E um cafezinho com bolacha. A única janela do conjugado dava para uma parede.

Os barões do crime

Os barões do crime não assinam como "o crime". A ralé que venceu no crime deixa de lado tal assinatura. Assina com doutor, como senador, como deputado. Muda a assinatura. Quem usa arma de fogo e assina como "o crime" é a ralé subalterna. É o crime que não pode se chamar de outro nome. É o crime que não dispõe de capital político. Tanto é que quando crescem no crime, param de assinar como "o crime" e passam a mimetizar o andar de cima, com seus votos, advogados e empresas, lavando as assinaturas do passado criminal, e iniciando trajetórias superiores no mundo do crime, ou seja, do Estado, pois não há crime organizado, por definição, que não seja de cunho estatal, envolvendo o sistema de corrupção inerente ao funcionamento do Estado moderno. Isto é uma opinião. Não é uma análise. Apenas minha opinião. Não falo em nome da Ciência. Nem em nome da Verdade.

Thursday, September 21, 2017

Reclamões de plantão.

Tem gente altamente qualificada (doutores) que passa o dia reclamando no FB que não tem oportunidade de trampo. Que tá tudo fechado, etc. Enquanto isso, uns quatro ou cinco quadros, formados, cronologicamente, depois da pessoa reclamona, já assumiram vagas de trabalho que o sujeito que reclama sequer se dignou a concorrer. Assim, é foda, né? Desonestidade tem limite.

Tuesday, September 19, 2017

éticas

Buscar gozar de modo ilimitado sem uma ética do sacrifício em relação com uma ética do desejo é uma furada. Nesse ponto, sou 1950. Era uma década com reflexões mais avançadas do que a atual. Aprender a lidar com a repetição dos trabalhos e os dias, com a restrição tremenda que essa repetição traz aos nossos anseios, é levar a sério que o desejo é uma forma de trabalho. E que muitas vezes as ocupações que temos não têm nada a ver com o trabalho do nosso desejo. Lidar com o horror, com o vazio. Com as escolhas erradas. Com o sentimento de falta de escolha.

Thursday, September 14, 2017

Frases da semana

A ansiedade de absoluto é o sintoma mais drástico da falência dos órgãos do pensar. A deterioração da memória é um modo bem específico de envelhecimento do corpo. A literatura não é apenas uma distração. É uma poética. Também uma terapêutica.Prefiro a terapêutica à poética. A poética é coisa de macho. Não curto. As coisas simples da vida me dão alergia de morte.

Tuesday, September 12, 2017

Pensamentos? Esparsos?

Cada família gira em torno do seu destrambelho. Somos escravos da linguagem. Lutar contra a linguagem é o ponto de partida. Gente de igreja carece de deus no coração. Olho para a biblioteca. Não terei tanto tempo assim. Entorno um café. Volto a ler. Sonata para piano, n. 28, opus 101, em lá maior. Segurança, ordem e felicidade. Um mercado de crenças. Quem for capaz de ofertar estabilidade, irá ser a bola da vez no mercado das crenças. Não há felicidade além da morte. A realidade é a presença infatigável da dor. É inclemente. Obtusa. Nem mesmo o silêncio são capazes de atentar. Não há mundo aterrador que o suporte.Estar meramente vivo, uma agonia sem fim. Uma desdita sem tamanho. Confrontar o espaço vazio. Uma relação com a loucura enternece. O vazio só é brutal. Distante da morte, não há potência no amor. Pessoas expressando ódio não estão demandando esclarecimentos. Há uma ansiedade generalizada diante da erosão das fontes de certezas. Todo amor tem preço. O preço do seu sofrimento. Afinal, qual o melhor lugar para morrer, na terra ou na água? E nada mais do que sua inclemência, um salto no irrespirável, pura fome. A cada dois reais, engolia uma vela acesa; que se lhe derretesse sem vestígio. O real disposto em camadas. A mais suave escondia a que lhe cortava submersa. A linguiça reaquecida, esturricada, crocante, lhe lembrava de suas perdas. Nem a porra de um promontório mais havia para lhe avivar o acre como fantasia. Uma cidade repleta de miseráveis, mesmo com os apetrechados. Abundante no vazio. Escondiam o segredo de que bem poderiam não amar ninguém. Um horror. Tinham perdido a capacidade de sentir esperanças. Não atinavam mais com nada. O fracasso oferecia a mais promissora ocasião para a emergência de alguma virtude. Seu maior objetivo na vida era poder renunciar à realidade. Já não sentia o desespero de seus rendimentos normais decrescentes. Pudera torrar a última nota de 20 reais em cerveja, assim, desgraçado, o faria. Uma pessoa que quase nunca atropela a agenda dos outros está a enviar recados, não? Nova versão da "tolerância": "respeito muito você, mas você não deveria existir". Agressivos apontam a agressividade do outro. Take a look at yourself, bro! Confessar e denunciar. Confessar e denunciar. O mantra moral contemporâneo.

Friday, September 01, 2017

Na profunda escuridão...

As pessoas que mais sofrem de ansiedade de status são aquelas que menos exigem de si mesmas. As pessoas que mais querem surfar no gozo ilimitado, esse imperativo do supereu, são as que menos fazem bem-feito o trabalho do desejo. Continuo achando que uma ética do desejo não funciona muito bem sem uma ética do sacrifício. O desejo não é uma abdicação, um abandonar-se, mas é o núcleo forte de um desejo que trabalha para desejar o desejo, fazendo do sacrifício uma história do corpo. A individuação e o deslocamento daquilo que ela enquadra exigem compromisso ético com a alegria e com a dor. Mas me percebo cada vez mais antiquado. Mesmo assim não desisto de mim. É na luta contra mim que algo faz sentido. Um luta que passa pela muito trabalho que merece o deleite de nosso desejo, da lei do nosso desejo, na forma de conquista de liberdade e prazer, enquanto o corpo erode, mergulhando na profunda escuridão de onde não há de sair.