Monday, May 23, 2016
Onde habito?
Moro numa casa onde os muros são parciais. Há um trecho imenso sem muros e alguns muros antigos e outros mais recentes construídos na tentativa de minimizar a situação porosa de uma habitação sem muros. Mas na minha casa há portas e janelas. E elas não ficam sempre abertas. São abertas e fechadas várias vezes ao dia, num jogo infinito de uma casa quase sem muros. Subo no telhado, espio os arredores da casa. A casa vazia é um perigo. As armas da casa são meus olhos. E posso até furá-los nos espinhos que abundam na mata que rodeia a minha casa. Mas pela mata passo como flecha; nem que fure meus olhos. E assim vamos passando desta para uma melhor, ou não. Onde eu moro se chama sertão, meu corpo. Corpo aberto, corpo fechado. Sujeito marcado no limite de sua impossibilidade.
Thursday, March 10, 2016
1950: a década que mudou o Brasil.
Meus pais passaram 20 anos (1960-1980) para ascender a posições de classe média urbana assalariada sem patrimônio, nem ativos financeiros. 20 anos de investimento em capital educacional. Meu pai vindo de uma família de pequenos agricultores. Minha mãe de uma família proletária urbana. Minha avó paterna era dona de casa e agricultora sem estudos. Minha avó materna foi empregada doméstica, era dona de casa e agricultora sem estudos. Meu avô paterno era capataz, trabalhando para grandes proprietários rurais e no tempo vago na própria roça. Meu avô materno era técnico de contabilidade, proletário urbano. Confesso que considero falacioso demais dizer que se pode virar classe média num passe de mágica pelo acesso direto e simples a bens de consumo descartáveis. Essa é a maior mentira contada pelos governos da Nova República, principalmente, da Dilma, que insistiu demais no marketing da "nova classe média". Não é à toa que a depressão está avançando no país em larga escala. Sonhos alimentados e despedaçados por todo os lados, infelizmente. Os governos vendem fantasias de grupo e agora colhem tempestades. Essa é a base sociológica da ascensão do que chamam de "nova direita". Desta, estou bem longe, contrariando as estatísticas. Apenas uma hipótese de leitura que compartilho com vocês.
Wednesday, January 13, 2016
Mentalidade no crime
Algo que me assombra e que estou tentando transformar em objeto de conhecimento: as mentalidades nos mundos do crime são incrivelmente conservadoras e convergentes com os quadros mentais dominantes, só que em negativo, uma negação que não nega, uma negação que afirma o dominante. Descoberta terrível. O Estado é o crime e ao produzir o crime, produz a mentalidade criminosa com seu corolário. Há uma oposição complementar entre a mentalidade dominante que possui eficácia em neutralizar-se como categoria do crime e a mentalidade dominada que se faz dominante pela projeção imaginária, à margem da lei neutralizadora, à margem da mediação que neutraliza o potencial ofensivo da ação criminosa desconhecida como tal, que, por estar à margem, ocupa o centro da engrenagem toda.
Tuesday, January 12, 2016
A realidade do trabalho
Para certos tipos de trabalho, trabalhar menos de 12 horas por dia é uma merda. Não dá certo. Limita. E também não dá para enquadrar com esquemas quadrados de bater ponto, faz é limitar a produtividade. Por exemplo, segunda e terça, ontem e hoje, trabalhei no campus de 8 da matina às 8 da noite. Quando estava de saída, agorinha, ainda não saí, chega pelo correio um livro fascinante que esperava há dois meses. Resultado? Estou saindo correndo daqui do trampo para chegar em casa e virar a noite lendo, né? É claro! Significa que vou dormir amanhã de manhã e só venho trabalhar à tarde e à noite. Aí alguém passa na minha sala amanhã de manhã e comenta: nem veio trabalhar! Estupidez, né? Cada trabalho possui seu estilo, seu modo de ser. O nosso é assim. Menos de 60 horas por semana é raro. Muito raro. Nos últimos 15 anos não lembro de ter trabalhado menos do que isso por semana.
Saturday, January 02, 2016
Já muito velho
E um dos narradores é um homem já muito velho. Corpo corrompido. Vida truncada, o que não o impede de adoçar com mel a ponta de uma chupeta que o mantém entretido. Mas é apenas um dos muitos narradores.
No início, era o crime, a loucura e a morte. Tudo começava na prisão. Tudo terminava na profunda cova. Não sem antes atravessar o mar Cáspio do desejo. Não havia sequer podido estabelecer a distinção entre o sufocante e o refrescante. A prisão era o que lhe antecedia. Ela o fundava como se riscasse um piso de mármore depositado em estado quase bruto na profundeza de uma enseada. Ele podia entrar e sair dela sem pedir autorização a ninguém. Tudo começava nessa prisão. Havia baratas por todo lado. Algumas reputadas à morte. Outras, nem tanto. O comércio era farto. Sem limites morais, o mercado das megeras. Não se nasce livre, teria escrito o filósofo na sua agonia contra o próprio filósofo. Não estava destinado a escrever. Era-lhe vedado. Sobrava-lhe a atitude esnobe do bom leitor.
Em seus primeiros dias, a duração da pequena pessoa resvalava de uma fratura óssea. Era a mão que apalpava o osso quebrado, a dor continuada de um parto infinito, transmudado numa dívida impagável. Apenas o sacrifício aplacava tamanho sofrimento.
Sunday, December 13, 2015
Escrever e escrever sempre
Não escrevo porque gosto de escrever. Escrevo pelo mesmo motivo que as pessoas vão à igreja, para fazer de conta que a morte não nos espreita. Não há novidade nisso, apenas reverberando a ideia segundo a qual a escrita é uma forma de relação com a morte, o crime e a loucura. O que não significa aderir à morte, ao crime e à loucura, mas, ao contrário, ganhar distância disso.
Monday, December 07, 2015
Sentimentos aos 42
Sinto que as linguagens que aprendi para lidar com as relações humanas não me servem mais, são insuficientes e até medíocres. Aliás, as próprias formas de experiência a que tais linguagens aprendidas se relacionavam também não me parecem mais me fornecer sentidos e valores orientadores do que está por vir. Preciso aprender novas sensibilidades, criar novas perspectivas, novas experimentações. Afinal, ainda estou vivo, e a vida é excessiva. Recuso depreciar a vida. Não sei mais onde estou. A sensação de que meu corpo está atravessado de ponta a ponta por traços que me aprisionam, tornando obsidiante a topologia de meu desejo, rateando-o, cristalizando-o no espaço fechado do Eu. Essa prisão da memória e da metafísica da dor, contra o que resta-me por vezes apenas o estupor da narcose, não pode vencer o fundamento do Ser do devir, o amor.
Tuesday, September 22, 2015
dificuldade em normatizar
Tenho um defeito horrível, costumo responder ao que não me foi perguntado. Cala-te boca! Que coisa mais descontrolada é o sujeito se por a falar algo para alguém quando não foi sequer interpelado. Preciso me emendar, espelho, espelho meu. Estou precisando de um estágio em algum monastério onde se faça votos de silêncio. Serve na universidade, será? Estou aqui sentado, bem comportadinho, desde 8 da manhã, é quase 8 da noite, finalizando um artigo para publicação. Se não pudesse falar nenhuma merdinha no FB, aí seria Regime Disciplinar Diferenciado, uma desumanidade, né? Mas vamos normatizar, vamos normatizar o texto acadêmico, pense que acho mais fácil escrever o artigo do que normatizá-lo. Cada doido com sua dificuldade.
Saturday, September 12, 2015
Lembranças do dia 11
No dia 11 de setembro de 2001, estava às 7 horas da matina, caminhando pela Voluntários da Pátria, no Rio, em direção ao metrô. Morava ali na rua da Passagem. E ao passar pelo boteco onde à noite, na volta do trabalho, costumava tomar uma gelada, vejo uma pequena multidão amontoada defronte ao aparelho de TV. Espichei o pescoço e depois do que vi, aquelas infinitas imagens dos aviões atingindo em cheio o WTC, perplexo, fui trabalhar assim mesmo, mas chegando lá, ninguém estava trabalhando, todo mundo estava paralisado e de boca aberta, olhando uns para os outros em busca de algum lampejo de compreensão, talvez, em busca do aval de que a percepção coletiva do delírio real era algo verossímil, algo digno de atenção. O mais esdrúxulo foi que em meio a tudo isso, um colega norte-americano, que trabalhava com a gente, teve um ataque de histeria e começou a pular e a gritar ao mesmo tempo, misturando inglês com palavrões em português, dizendo: "yankees, tomaram no cu, fuck the yankees!". Ele era um radical de esquerda, exilado, perseguido pela CIA. Comemorava o ataque contra seu próprio país. Foi tão estranho. Mas tornou o quadro geral de perplexidade e silêncio numa cena surrealista. Tomara que ele não fique com raiva de mim ao ler esta postagem. É só um relato. Enfim, o mundo nunca mais foi o mesmo. Mas, afinal, nunca tinha sido o mesmo mesmo, né? Tant pire!
Beber muito faz bem para a saúde.
Pessoal, não consigo parar de beber, bebo de 2 a 3 litros, todo santo dia. E foi minha mãe quem me colocou nesse caminho. Foi um dos melhores conselhos de mãe para eu levar uma vida saudável.
Sobre a ironia
Quando minha filha tinha de 7 para 10 anos, eu ficava fazendo, de surpresa, várias ironias. No início, ela ficava com uma cara atônita, de quem não tinha entendido nada ou tentando entender de modo literal algo que não foi feito para ser literal. Depois desses exercícios, eu lhe dizia: isso é uma ironia! Um dia ela me pregou uma peça, fez uma ironia muito fina e eu não entendi, então, ela me disse: pai, isso é uma ironia! Fiquei aliviado. Minha filha tinha aprendido a ironizar. Hoje ela ironiza muito melhor do que eu. Graças a Deus, se Ele existisse!
Friday, September 11, 2015
Um tema delicado
Quando eu era estudante de ciências sociais, meu orientador convidada a gente para ir atuar no trabalho de campo dele, como assistentes de pesquisa. Eu aceitava na hora, sem titubear. Foi assim que aprendi com alguém muito experiente como fazer uso, na prática, de técnicas de investigação, adquirindo habilidades e competências que garantiram as bases da minha formação profissional até hoje. Ele me ensinou a fazer grupos focais e grupos de discussão. Ao longo da minha trajetória profissional, já recebi vários convites para consultorias de pesquisa onde o uso dessas habilidades foi decisivo para ser convidado para um trabalho remunerado. Se meu orientador não estivesse numa universidade pública, ele teria que ter cobrado 2.500 de mim, no mínimo, para me ensinar com exclusividade e em tempo real de uso a técnica citada. Moral da história: você, estudante, quando convidado para participar de uma ação de pesquisa no ambiente de aprendizagem da universidade, poderia pensar menos como se fosse um "profissional já formado com alta cotação de mercado" e entender que há remuneração que não seja pelo uso do dinheiro, por favor. Quem não perceber que há remuneração na transmissão de capital humano nessas trocas, é melhor ir participar do Big Brother. Na universidade pública, somos remunerados para obter uma formação e isso demanda um alto investimento público. Nada é de graça. Bora parar com essa história de achar que acompanhar o professor numa atividade de pesquisa dele é ser explorado pelo professor. Nem sempre se trata de exploração, trata-se de formação, de transmissão de capital científico.
Thursday, September 10, 2015
Procrastinador
Rapaz, não existe um sujeito mais procrastinador do que eu, mas não existe é de jeito nenhum. Estou para encontrar. Estou aqui finalizando a revisão de um artigo que eu escrevi em 2001, há 14 anos, que esqueci de enviar para publicação à época. Felizmente, o artigo não envelheceu, é um ensaio teórico, usando referências que vão sempre ser úteis, tive apenas que revisar suplementando com literatura dos últimos anos. Tem doido pra tudo. O que uma greve não faz no juízo de alguém!
Pelas ruas, andanças.
Estava com fome, aqui no Bairro, e fiquei querendo ir lá no bar. Peguei o ônibus, desci na Escola, fui pela praça da Gentilândia e desci pela rua. Só que na hora que se desce, a gente começa a ser filmado. A galera vem atrás mesmo. Aí, é acelerar o passo pra chegar logo. Ao chegar no bar, o dono me diz que está fechando pois está tendo uma onda de assalto naquele momento, que está fora do controle, e que deram o toque pra fechar, peço para ele pedir um táxi para mim e volto. A resistência é a resistência.
Fazer sentido.
Sem TV, há dez anos, sem automóvel particular, há 5 anos, sem celular, há 1 ano, estarei em breve, sem internet. A vida começa a fazer sentido.
Entre estoicismo e hedonismo.
Existem duas alternativas. A estoica que diz: ao final do dia, lembre-se que poderia ser o último e então isso suscita a avaliação, o exame de consciência. A hedonista que diz: ao final do dia, lembre-se do que foi o mais intensivo e melhor para iluminar o dia seguinte. Façam suas escolhas!
A relação com a imprensa
Tem se tornado cada vez mais comum a produção de agências de notícias e comunicação telefonar, dizendo: Nas últimas duas semanas, já tentei falar com 6 profissionais antes de você, nenhum poderá vir no evento que começa daqui a 27 minutos, o senhor é nosso convidado especial, chega em quanto tempo? Legal, né? Fico me sentindo super valorizado como profissional. rsrs Pessoal, vcs precisam aprender a explorar economicamente nossa vaidade! Os vaidosos ficamos bestas e facinhos. Fica a dica, produção. (o fato é real, o texto é uma brincadeira).
Sunday, September 06, 2015
Da recusa
Acho engraçado notar que para muitas pessoas recusar a autoridade é algo que envolve um tremendo sentimento de culpa. Pois, de minha parte, eu me divirto na recusa da autoridade, é uma atividade de riso, a recusa. Do mesmo jeito que não sinto nenhuma culpa em recusar a autoridade, não sinto nenhuma necessidade de vida eterna, fico é feliz com a certeza de que a vida possui um final, que a morte é um alívio ao sofrimento de um corpo que envelhece. Não tenho necessidade de Deus. Apenas de arte, ciência e amor. Tudo entre mortais. O desejo de imortalidade, projetado em Deus, é uma arrogância humana. Adoro a finitude! É o que possibilita um desejo secular.
Devir-criança com as crianças
Quando vejo meus amigos e minhas amigas com suas crianças, no seu devir-criança com suas crianças, ao vivo e em fotografias por aqui, eu me ponho todo sentimental, de verdade, fico emocionado, pois sei que a mensagem invisível que nos liga é: se há crianças, há esperança, pois há transformação. Por isso, desejamos as crianças do mundo inteiro vivas, sorridentes, brincalhonas, sabidas, serelepes, para que o mundo se transforme para melhor, para ter sabor, saber e alegria. As crianças são a salvação. Esqueçam suas igrejas, seus cargos, seus partidos, seus estados, seus bens de capital, esqueçam tudo e escutem as crianças, vamos aprender com as crianças qual o caminho, nós, adultos, temos que voltar a ser crianças, se quisermos desfazer esse nó cego que demos no mundo.
Um dia de sábado!
Sábado de boas! Lendo, escrevendo, ouvindo Belchior, Ednardo e Fagner. Feliz com as conquistas dos amigos, alunos, orientandos, virando colegas, existe alegria maior que acompanhar um orientando seu se tornar um colega seu? É uma maravilha! Oxalá, meu pai. Essas novas gerações estão vindo com tudo, isso me deixa muito otimista. Todo educador é otimista, né? Seria uma contradição performativa ser um educador pessimista. Quem quiser ser pessimista, seja um bode velho, um professor, um hierarquizador, mas vai indo que eu não vou. O bom é surfar na transversalidade dos espaços, né, Pablo? Sigamos nos multiplicando, pois conhecer é multiplicar, como fala o prof. Eduardo.
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