Wednesday, February 04, 2015
Sobre as ideias
"A ficção por mais nobre que seja não passa de um fetiche; o mais sublime modo de pensar, se for fictício, é um vício" (Martin Buber).
Sunday, October 26, 2014
O que não se pode pensar
Você conhece uma criança, uma menina. Ela é inteligente, curiosa, com sensibilidade artística, científica e cultural aguçada, com talento para teatro, música e ciência. Depois de uns tempos sem vê-la, a menina aparece falando espontaneamente temas fundamentalistas cristãos, carregando uma bíblia infantil que ganhou dos adultos, falando coisas estapafúrdias do preconceito religioso, típicas de fanáticos religiosos, também falando temas ultraconservadores da política brasileira, enfim, uma menina completamente podada nas suas capacidades intelectuais, artísticas, científicas, culturais e intelectuais. Me deu vontade de chorar. Até o português que a menina falava antes era melhor articulado, tomando-se como referência a norma culta que é exigida pelo sistema de dominação para se ocupar posições de maior acúmulo de capital simbólico. Ou seja, até a fala do português da menina já está ficando diferenciada da fala que se exige do menino treinado para ser adulto competente e bem posicionado, enquanto a menina é treinada para ser doméstica, sem profissão, sem estudo, sem posição pública, sem liderança. Fico muito triste de ver adultos conservadores, machistas, fanáticos religiosos, podando o futuro de meninas, impedindo-as que se tornem cientistas, artistas, independentes, mulheres adultas livres, pensantes, reflexivas e que possam, se assim desejarem e decidirem, criar coletivamente novas meninas para serem livres, pensantes, reflexivas, cientistas, artistas, independentes como mulheres adultas. A família tradicional brasileira é um lugar de produção da desigualdade de gênero, de dominação masculina, de heteronormatividade, de exclusão das mulheres da vida pública e criativa. Fico muito triste quando presencio uma criança, principalmente, uma menina, sendo massacrada pela burrice e perversidade conservadora sem que a menina possa ter consciência disso, é uma covardia muito grande. Por isso, a política no Brasil é uma disputa que passa sim pelo modelo de família. O modelo de família conservador, tradicional, é uma armadilha onde a beleza e a liberdade do humano e a vida igualitária são cassadas. Não permitamos que nossas crianças sejam oprimidas e massacradas, isso é de nossa inteira responsabilidade.
Saturday, August 16, 2014
Lembrança dos 11 anos
Ela me ligou, ao meio-dia, dizendo: "estou indo para a liberdade, encontrar meu namorado". É isso.
Friday, August 08, 2014
Presente de verdade
Uma pessoa quando fosse dar um presente para outra deveria dar um presente de qualidade, esse lance de dizer que a intenção é que vale é a maior mentira.
Estudar na universidade? Como assim?
Está cada vez mais difícil estudar na universidade, a universidade está sendo usada de muitas maneiras, mas os estudos andam perdendo é feio. Super difícil encontrar pessoas estudando. Mas, afinal, estudo não tem nada a ver com universidade, né? Quem quer estudar que vá para as sedes dos partidos políticos, para o shopping center ou então para as igrejas, esses locais destinados especialmente aos estudos.
E não tem amor
Tem gente que tem aliança, cama, talheres, taças, toalhas, dispêndio, mas não tem amor.
Produtividade do saber
Nelson Cavaquinho, uma das maiores produtividades do saber no Brasil, validado pelo Cnpq e pela Capes. Morreu rico.
Thursday, August 07, 2014
A história do nosso corpo
Existem detalhes que dizem muito sobre nossa origem social. Houve um tempo não muito distante em que eu ainda apertava a descarga e ficava segurando até o fim, até que me explicaram que não era mais assim o mecanismo, bastava apertar uma vez e soltar. Até um dia desses, eu usava água da torneira fervida para fazer o café, até que me explicaram que era melhor usar água mineral, pois o café fica mais leve e saboroso. Mas continuo firmemente desde criança comendo sem deixar um caroço de arroz ou de feijão no prato. Na economia de guerra da minha infância, isso era o maior crime que se podia cometer: estragar comida, e também desperdiçar água potável. Quando termina uma banca, eu saio recolhendo as garrafinhas d'água mineral que o pessoal deixa pela metade, ponho tudo na mochila, e fico com estoque de água potável para beber. Esses anos 70 e 80 que não saem dos meus couros, que fazem o meu corpo.
Monday, July 28, 2014
Duchamp e Cage jogam xadrez eletrônico
A problematização da arte não pode voltar a ser pré-Duchamp. O lugar de poder que se escolhe para colocar o objeto "de arte" é mais decisivo do que a obra. Se a gente quisesse ou pudesse prestar um pouco mais de atenção a algo que não seja o campo do poder das oligarquias governamentais, teríamos problematizado a problematização que Marcel Duchamp e John Cage fizeram quando estavam jogando o xadrez eletrônico, né? Mas a gente quer mesmo é ir para onde o campo do poder consagra, infelizmente. E, felizmente, nem todos. Mas os bicos continuam calados, exceto quando vão se divertir com os assessores de governo. Não há nada pior do que o elogio protocolar. Em vez de se fazer crítica política, se faz o sentido fantasmático da autoridade. Hegemonia é fazer com que os opositores falem a linguagem do espaço institucional de modo espontâneo e natural. Eu prefiro ficar no Facebook do que habitar o templo dos assessores do governo. Eu prefiro ficar nesta merda do Facebook do que ir para qualquer merda governamentalizada, que faz a merda cheirar mais mal do que normalmente cheiraria, principalmente, em tempos de eleições, onde qualquer evento nos templos dos assessores do governo é pior do que a Igreja Universal do Reino de Deus. Mas desta, pode-se falar mal à vontade, né? Não é cosmopolita nem astral.
Thursday, July 24, 2014
Shopping center e vida coletiva
No dia 2 de abril de 1982, todos (socialmente poucos) corremos entusiasmados e excitados para a inauguração do primeiro grande shopping center do Ceará, na cidade de Fortaleza. As roupas novas que tínhamos ganhado em janeiro, após as vendas de natal, quando os preços caiam, foram decisivas para termos um acesso relativamente decente ao shopping. As crianças e os adolescentes, quase todos não negros e não negras, das escolas particulares, lotaram o shopping. As atrações eram muitas e nos causavam um verdadeiro frisson. O cinema e o fliperama, principalmente. Entre 1982 e 1988, ir para o shopping center comer pizza, paquerar, namorar no estacionamento ou simplesmente ficar correndo de um lado para o outro naquela efusão de luzes e cores maravilhosas com montes de mercadorias que faziam do seu simples vislumbre um acesso ao fora, havia nisso algo que remetia imaginariamente ao fora, ao Rio de Janeiro, à São Paulo, nem falávamos de Nova York ou de Miami, não cabia essa imagem no espaço do possível, exceto para um ou dois coleguinhas muito ricos de uma turma de 40, que iam passar férias no exterior, e nós, a maioria, não tínhamos nem ideia do que isso significava, nosso sonho era o Rio, era São Paulo. O shopping center nos deslumbrava. Foi uma experiência marcante. Só depois de seis anos de uso intensivo desse espaço de socialidade e lazer é que, com a idade da crítica e da contestação, abandonei em parte esse deslumbre, mas precisei me apropriar de novos vocabulários políticos e culturais para fazer a crítica do templo das mercadorias, como o chamava um amigo meu.
Wednesday, July 23, 2014
Eu desconfio
A diferença é que hoje eu desconfio de quando eu sonhava acordado sem saber de nada que me afligisse desconfiando acordado de não dormir jamais sem saber o que é rememoração ou invenção pura. E a diferença é uma coisa de pobre, né? Como somos pobres, apenas nos restou a lan house como se fosse uma fun house, é muito triste, fico feliz pelas maravilhas que as pessoas são capazes de fazer para elas próprias, como se tivessem nascido com merda na cachola, uma coisa linda.
Sobre a autoridade
Eu me desautorizo a falar em nome de mim mesmo. No desterro da palavra dita eu enfermo dissoluto, em fuga, lá aonde a desdita me livra da herança. Contra os detentores da autoridade, repouso minha confusão no achado de uma ordem inaudita, impossível, irrefreável como um soluço, e sigo só, desamparado, sem Deus.
Sunday, July 13, 2014
Sobre o amor
A mais terrível das privações é a privação de amor. Ser privado de amar e de ser amado, não há condição mais tenebrosa e destruidora de vida do que esta. Não é o dinheiro, nem a falta dele, o que está no fundamento da guerra, mas sim o medo do abandono, a queda no desespero de um abismo sem fim, onde o ser deixa de ser o que é, desvanece no esquecimento implacável do mais inopinável desamparo. Mata-se e morre-se por amor; em geral, por falta dele. O amor, uma palavra substituta para o vazio. Apenas o sujeito esvaziado é capaz de amar. Não é recomendável amar sem antes ter ido ao banheiro. Afinal, entre choros e lágrimas, a vida é antes de tudo tubular. E das lágrimas nasce o choro de um riso histriônico, e do riso brota o que há de diabólico no ato de amar, a destruição do objeto, a fim de reencontrá-lo no sempre perdido de sua topologia, o lugar da ausência é a origem do desejo, a origem do mal.
Friday, July 11, 2014
Nos hospitais públicos da vida
Estava sem plano de saúde. Ter arrancado com os dentes a pelinha do indicador da mão esquerda não foi uma boa ideia. A ponta do dedo virou uma bola enorme e latejante. Uma dor de dias, daquelas de nos fazer lembrar bem ou mal de uma alma em nós, como quando a agulha do tatuador corta a pele numa camada um pouco mais além da conta. Viver no Rio de Janeiro sem plano de saúde era o fim da picada. Acreditava ainda na imortalidade, certamente. Coisa de jovem ainda marcado pelo destemor. Chegou o dia em que a dor cessou, uma bola enorme de pus tomou o lugar do meu dedo. No dia seguinte, às seis da matina, tomei banho, escovei os dentes, fumei um cigarro, aliás, dois, um copo d'água, e fui para a fila de um hospital público municipal. Foi o início do pesadelo. A fila para o atendimento ambulatorial estava dobrando o quarteirão. Eu com meu dedo tomei lugar em pé entre uma e outra dor. A senhora olhou para mim perplexa e me perguntou na cara o que eu estava fazendo ali. Eu era o único branco na fila. Não precisou que eu lhe respondesse, apenas mostrei o dedo. Fiquei de sete da manhã até quase uma hora da tarde na fila dos desvalidos. Não tinha tomado café da manhã, nem nada. Não tinha sido uma boa ideia. Quando chegou minha vez, entrei pela porta do consultório ao chamado da enfermeira. Era uma salinha exígua, do tamanho de um banheiro generoso. O médico, um velho de barba branca de uns cento e cinquenta quilos, escrevia algo numa receita para alguém ainda em atendimento. Ele fumava horrores na salinha fechada com ar-condicionado quase a pifar. O consultório médico estava afundado numa frigideira de olho quente. O médico não olhava para ninguém. Ante o relato que a enfermeira fez sobre meu dedo, que ela já havia examinado com a atenção necessária de quem já sabe do que se trata e do que se é preciso fazer, ela mesma indicou ao médico que era necessário sarjar. O médico deu um resmungo à guisa de um vá em frente. Não havia onde sentar, a enfermeira teve de sarjar meu dedo em pé, ela e eu, um de frente para o outro, enquanto eu segurava o aparador que ia acolhendo a porcaria saindo do dedo. Uma tontura fez minha cabeça girar. Despenquei de frente com o rosto contra o chão. Um pouco antes de retornar a si, a inconsciência ainda restante, enquanto abria os olhos, me deu uma das sensações de paz interior mais significativas da minha existência, como se tivesse tomado morfina na veia. Mas durou pouco, tive que ser levantado por um segurança de dois metros de altura, que me pegou como se eu fosse um saco de batata e me jogou numa cadeira de rodas. O médico continuava olhando para o bloco de receitas, era uma estátua de pedra, sequer lançou um olhar para o estrondo do meu corpo caindo no colchão de cimento. A enfermeira que ordenou ao segurança que me levasse para a emergência. Tinha que cuidar de um supercílio com beiços e de várias escoriações, pequenos cortes de quem foi atropelado e caiu no asfalto quente. Com o rosto ensanguentado, sendo empurrado numa cadeira de rodas, fui um espetáculo de horror para algumas faces ainda na fila, dirigindo-se para o abatedouro. Era uma entrada que não admitia saída sem autorização médica. Duas horas da tarde e eu ainda sem ter tomado café da manhã, sem ter pego uma merenda, nem água e nem cigarro. O segurança avisou que precisava da cadeira de rodas, ordenou que eu levantasse e sentasse em algum canto. Mas não havia nenhum canto para sentar, emergência lotada, o jeito foi ficar escorado numa parede. Ocorre que quando senti uma nova tontura pensei comigo mesmo que levar uma nova queda de cara no chão não ia ser nada agradável. Já tinha um supercílio aberto, sangrando, eu precisava me deitar em algum lugar. No chão do corredor não podia ser, pois as macas passavam por ali a todo instante. Havia uma porta dupla que quando foi entreaberta deixou-me num lance entrever a ponta de uma maca. Com minhas últimas forças avancei sobre a sala e adentrei no recinto. A maca realmente estava lá, desocupada, e despenquei sobre ela aliviado. Dormi profundamente. Abro os olhos e o teto do hospital era o único lugar onde manchas escuras não besuntavam a pintura das paredes, como a que eu estava escorado antes de me deitar naquela maca salvadora. Quando olho para um lado, há um cadáver estraçalhado, olhos vidrados e braços rijos lançados ao ar. Do outro lado, outro cadáver, um corpo sujo e muito machucado. Levantei-me da maca de supetão, e me dirigi para fora da sala que tinha sido minha miragem salvadora. Só então me dei conta de que a maca onde eu me deitara estava completamente encharcada de sangue, por isso ela estava desocupada. Ao aparecer no corredor da emergência, com um dedo para cima, o que tinha sido sarjado, com o supercílio direito aberto, escoriações no rosto por causa da queda de cara no chão e agora com a roupa, calça jeans e camiseta banhadas em sangue, pude perceber pelo olhar dos presentes que a cena não era agradável. Um residente então olhou para mim, perplexo, e me perguntou o que tinha acontecido comigo. Expliquei rapidamente o percurso que fizera até chegar àquela situação. Ele me perguntou o que eu fazia no Rio, eu disse que estava fazendo doutorado na UFRJ. O espanto dele aumentou. Ele me disse a mesma coisa que a senhora negra havia me dito às sete horas da manhã na fila de espera, o que você está fazendo aqui, por que você não foi lá no hospital da universidade e outras dicas tardias. Ele colou meu supercílio com um tipo de adesivo, não deu pontos, disse para eu sair dali, ir para casa tomar um banho e me dirigir para o hospital da UFRJ, que ele ia telefonar avisando que eu estava a caminho. Ainda tive que caminhar para casa, uns dez quarteirões, vagando ensanguentado aos olhares assustados das pessoas nas ruas, que desviavam com cuidado para não esbarrarem comigo. Desde então tenho uma outra percepção sobre os humanos que caminham em situação monstruosa pelas ruas da cidade. Além de que pude perceber na pele como os pobres, as pessoas negras, são tratados como um nada, como absolutamente nada, com o investimento dos governos que nós elegemos. Isso foi em 2001.
Friday, May 02, 2014
Pelo amor à luz elétrica!
Existem pessoas que precisam de Deus. Indivíduos cujas vidas seriam esmagadas, trucidadas, repentinamente, esvaziadas, ficariam como um pneu murcho, sem para nada servir, caso não tivesse Deus obrando, operando, monitorando suas mentes. Não sei se tenho pena ou admiração de pessoas dependentes de Deus, o vício em Deus pode nascer de uma tentativa desesperada de negação de vícios inomináveis, que despertam culpas terríveis, que fazem sofrer, vícios sujos, e então é preciso se lavar com Deus, se limpar com Deus, como se Deus fosse um tipo de detergente super eficiente, que pudesse manter as coisas limpas na mente. Pessoas que não conseguem negociar com dois ou três vícios, que estão fadados a nos acompanhar, afirmando nosso campo de decisão, fazem de Deus um vício de Absoluto, uma forma enviesada de habitar secretamente todos os vícios, daí a eterna vigilância e auto flagelação dos crentes, o que também é punição do outro, flagelação do outro que habita em si, do outro que desperta o desejo de suas próprias perversões, do seu próprio vínculo com o demoníaco. É o medo da própria mente em ação, de uma mente assaz misturada, impura, experimental, que faz de certas buscas pelo espírito divino em si mesmo uma maneira de curar uma doença: doenças do espírito, quem sabe. Pois, ao contrário, das pessoas que precisam de Deus como do ar que se respira, prefiro pessoas que mergulham nas sombras, agruras e delícias da própria mente, deliciando-se com o fato de ela ser uma peneira fluída, flexível, que deixa tudo vazar e por todos os lados. Pegar a mente, colocá-la sobre uma mesa para analisá-la, como se fosse um troço qualquer, um objeto desprovido de desígnio, encarar nesse jogo de verdade o espaço vazio que é o ponto nevrálgico de toda a criação artística. O criador é o caos operando na forma de uma mente em dissolução: o princípio criador, o que não pode ser alienado a outrem, muito menos a Outrem. É na relação com a morte que reside o desafio de uma literatura que examina o cadáver da própria mente, a necrose de qualquer vontade de transcendência, o mergulho no vazio absoluto da mente, no abismo sem fim e sem sentido da existência. Como Antonin Artaud, citado lá em riba, na capa deste meu livro de face, na capa desta minha fachada irresoluta, infiel de mim mesmo, escorregadio, fragmentado, esquizóide, paranoico da noite sem chão, neurótico da falta de civilidade, perverso na minha guerra contra o que é confortável para os de mente fraca, viciados em Absoluto, estou aqui sempre para tentar acabar com o juízo de Deus. Em nome de quê? Pelo amor à luz elétrica! Um salve de oxalá, nesta sexta-feira de maio, para os espíritos livres!
Tuesday, March 18, 2014
sim, morrem...
As pessoas morrem. Eu conversei com uma pessoa, mas ela morreu, aí eu não conversei nunca mais. Eu não vou para meu próprio enterro. Vou faltá-lo. Pregar uma peça no agente funerário. Eu não conheço nenhum agente funerário, do mesmo modo que não conheço nenhum agente literário. O único agente que eu conhecia, mas morreu, era o agente de polícia.
Sunday, March 09, 2014
Em 24 de agosto de 2012, eu descrevi que tive um pesadelo.
Eu tive um pesadelo de ontem para hoje. Vou narrá-lo para vocês. Foi assim: eu caminhava pelos jardins da Reitoria da UFC, indo em direção ao bloco das Ciências Sociais, onde trabalho. Várias pessoas, vindas de todos os lugares ao mesmo tempo, como num passe de mágica, começam a me assediar, fazem mil perguntas, pedem informações, solicitam que lhes indique referências de obras, livros, artigos, fazem perguntas, exigem explicações, há uma barafunda de falas que começam a se transformar em gritos, os rostos se tornam raivosos, olhos esbugalhados, só então percebo, pela primeira vez, que são faces conhecidas, são meus alunos e minhas alunas, pessoas queridas, pessoas que eu respeito profundamente, mas no alto do meu desespero, começo a ficar tonto, zonzo, pois a multidão de vozes dissonantes falam ao mesmo tempo o meu nome "Léo, Léo, Léo...", olhares esgazeados e famintos, na fuga, num ato de desespero, eu também começo a gritar, esbaforido e desfeito da atitude que o decoro exige de um professor da Universidade, e nesse ponto, eu me viro de repente e digo: -- Sr. Professor Dr. Leonardo Sá! Grito em desespero, como fez Antonin Artaud quando estava internado no hospício e o psiquiatra insistia em chamá-lo pelo primeiro nome, o nome de infância, o nome da mãe: Antonin. Em tom de voz duro, eu começava a olhar um por um nos olhos de meus queridos alunos, dizendo-lhes: -- Tratem-me de Sr. Professor! Havia um delírio, um transe paranoico, um esgar que quase travava minha voz. E a partir deste momento eu chamava a todos de Senhor e Senhora. Senhor Estudante, Senhora Estudante, Senhor Colega Professor, e o delírio ia inundando minha mente quase ao ponto de fazê-la explodir. De súbito, acordei resfolegante. Foi apenas um pesadelo de que a Universidade houvesse se tornado um lugar de terror, de medo, de celebração da reprodução das mais arraigadas e violentas hierarquias da vida social. Ainda bem que foi apenas um pesadelo. Logo estarei ouvindo da voz de educandos/as o sonoro "Léo" ou o carinhoso "professor" com que me brindam na vida cotidiana da nossas ricas e profícuas trocas acadêmicas e humanas. E ninguém precisará me chamar de Senhor, nem de Herr Professor, ok? Somos apenas les pauvres enfants de la patrie, um novo e discreto precariado, abandonados a própria sorte, quem sabe... Saudações libertárias
Beijar na boca de fantasmas
Vocês já beijaram na boca de uma pessoa que já morreu? Ou melhor dizendo, para que não se confunda com necrofilia: vocês já beijaram na boca de uma pessoa e essa pessoa morreu de modo que vocês lembram de ter beijado na boca de uma pessoa, mas a pessoa já não existe mais, virou cadáver, explodiu depois de alguns dias dentro do caixão lá no cemitério, a sete palmos? O beijo dado não é mais recebido na imaginação de um ser vivo, mas apenas de um fantasma. É isso o que podemos chamar de um fantasma? Um beijo que perdeu o seu suporte vital na memória de um ente vivo? Então, o beijo não é mais compartilhado pela memória secreta do beijo, uma vez que apenas um dos beijantes está vivo para contar a história, não haveria ninguém para confirmá-la, não haveria nenhum vestígio de memória do beijo dado no suporte corporal da outra alma. O beijo então realmente existiu? A imagem do beijo dado ao ter perdido seu objeto é uma imagem válida da existência do beijo dado ou a evidência de que existem fantasmas?
Ele morreu.
Eu tinha um amigo que me dava carona. A gente bebia cerveja junto e ria das besteiras da selva social. Ele morreu. Nunca mais peguei carona com ele. Aliás, o desinfeliz morreu num acidente de automóvel, poderia ter me levado junto o desgraçado. Será que os mortos podem ainda rir das brincadeiras que fazemos com eles depois de mortos? Um morto é capaz de rir?
Como um filme de minha vida
Quando eu era menino, me ensinaram a matar passarinhos com a baladeira, principalmente, rolinhas, a depená-las, assá-las e comê-las. Os meninos dos sertões matavam a fome assim. Até hoje eu sei matar uma rolinha de baladeira para comer. Conhecimento útil. E as rolinhas são tão bonitinhas, não são? São fofas. E deliciosas. Quando eu era menino, um tio avô meu me ensinou como matar um bode, eu tinha 12 anos, foi o primeiro bode que eu matei, sangrei, aparei o sangue na bacia. Ele revirou os olhos enquanto estrebuchava-se diante da morte e de seu matador: o matador era eu. Depois me ensinaram a tratar, tirar o couro na ponta da faca, eu tirei bem direitinho, botar o couro para secar, esticado com uns pedaços de pau, limpar o bicho, salgar e fazer o churrasco. Quando eu servi o churrasco, os homens da minha família estavam orgulhosos de mim. Eu tinha aprendido o que todo homem da minha família sabia fazer. Isso foi nos sertões. Eu sou do sertão. Quando eu era menino, eu só podia caçar usando baladeira, matava as rolinhas para comer. Mas um dia, com 13 anos, depois que tinha aprendido a usar a faca amolada para matar um bode, os meus tios paternos e meus primos mais velhos me chamaram para a primeira caçada com os homens. Passamos três dias nas matas dos sertões. Eles me ensinaram a atirar de revólver, de espingarda doze, de socadeira eu já sabia, e me ensinaram a fazer uma tocaia, a se esconder na mata, a se comunicar sem usar palavras, a sentir o cheiro vindo com os animais, a procurar água salobra, e quais frutas selvagens podem ser comidas e quais não podem. Me ensinaram também que as cobras tem medo de gente, por isso fogem, elas só atacam quando a gente pisa nelas, a culpa da picada da cobra é do humano e não da cobra, aprendi também que os cavalos sentem as tocaias de bicho bicho ou de bicho gente. Aprendi a atirar correndo a cavalo, antes eu tinha aprendido a correr a cavalo sem nada, só no osso, usando as crinas como rédeas, é preciso falar na orelha do bicho, é preciso ter relação cognitiva com o animal para dar certo. Aprendi também a arrear os animais e como negociar a compra e a venda de armas de procedência para evitar armas ilegais, armas que já tiraram a vida de homens justos. Era assim no meu tempo de menino, virando rapaz, nos sertões. Pois eu sou do sertão. Eu ganhei de presente do meu pai minha primeira peixeira estilizada com cabo de madrepérola e capa de couro com 13 anos. Com 14 eu ganhei minha primeira espingarda. Ela ficava guardada debaixo da minha cama. Sim, eu sou dos sertões. Não é ficção. Nunca vou esquecer a primeira vez que tentaram me matar. Eu estava no clube com a moça. Fomos para o estacionamento do clube para namorar. Um homem chegou vindo das sombras e começou a gritar. Era o irmão mais velho da moça. A moça disse para eu sair dali. Ela e o irmão ficaram brigando aos gritos. Voltei para o clube. Estava lotado. O homem veio vindo na minha direção. Armado. Um dos meus primos mais velhos notou e se atracou com o homem no meio do salão, numa luta corporal, sem deixá-lo sacar a arma. Meu primo estava desarmado mas sabia lutar com um homem armado para não deixar o homem sacar a arma. Outra vez não deu certo e ele levou um tiro, mas isso foi outra história. Outro primo meu falou no meu ouvido para eu ir embora e rápido. Quando eu estava saindo do clube, o homem que tinha conseguido se desvencilhar da briga com meu primo, gritou pelo meu nome, eu parei e olhei para trás. Ele puxou uma pistola e apontou para mim. Saí correndo pelas ruas. Ele começou a atirar, as balas passaram zunindo pelo meu corpo, nenhuma pegou, foram vários tiros, fiquei sabendo que ele estava bêbado e tinha cheirado muita cocaína, não estava com a pontaria cem por cento, dizem que foi minha sorte. Pulei num canavial, fiquei a noite toda sendo caçado pelo homem, eu estava desarmado. Um amigo da minha família foi quem me salvou, depois eu conto como foi. Lá no sertão, o meu pai é conhecido como galego. E eu como o filho do galego. Quando eu tinha 12, 13 e 14 anos, meus escritores prediletos eram Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado, mas o meu xodó era José Lins do Rego. O obra do José Lins é a que mais proximidade tem com o tipo de vida que aprendi junto a família do meu pai. Regionalismo na veia. Modernismo regionalista na veia.
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