Thursday, October 31, 2013
O vigia do prédio...
O vigia do prédio em frente de onde eu moro que passa a noite armado, com um cachorro aos pés dele, vigiando a entrada e saída de automóveis do condomínio defronte onde moram famílias de alto padrão aquisitivo que escutam suingueira, funk e pagode em festas caríssimas e bregas que incomodam a vizinhança toda, pois bem, o vigia do prédio passa a noite ou escutando jazz ou música clássica no celular dele. Um dia ele estava escutando Carmina Burana, outro dia Mozart e frequentemente ele escuta muito jazz. Ainda não conversei com ele para saber como ele adquiriu tais repertórios e recursos tão contrastantes: refiro-me à arma, ao trabalho como segurança privado, mas também aos patrões que estão cada vez mais endinheirados na mesma proporção em que assumem repertórios que são associados ao gosto popular. É muito interessante esse conjunto de contrastes.
Anatole France
"O único conhecimento exato que existe é o do ano de publicação e o do formato dos livros" (Anatole France apud Benjamin). Muita gente não gosta, mas Le Crime de Sylvestre Bonnard, de Anatole France, me marcou. Talvez por causa do teto de mil livros.
Wednesday, October 30, 2013
Um segredo entre especialistas.
Vou contar um segredo para vocês a respeito do funcionamento da esdrúxula comunidade acadêmica: uma parte considerável de meus colegas pesquisadores acha um verdadeiro absurdo não concentrar a comunicação intelectual entre especialistas. Preferem a confraria de especialistas. A comunicação com não-especialistas é considerada um excesso de mundanidade, algo que não contribui para a "verdadeira" tarefa que é produzir academicamente a partir de relações estritamente acadêmicas com especialistas da sua área de conhecimento. A confraria da qual faço parte também não gosta que contemos esses segredos, é percebido como uma traição. Eu gosto tanto de estar entre especialistas (sociólogos, antropólogos, politólogos), quanto especialistas de outras áreas de saber, incluindo especialistas não-acadêmicos e, principalmente, gosto de conversar muito com pessoas comuns, não-especialistas, ou melhor, sábios do viver. Daí minha paixão pelo trabalho de campo etnográfico: visto por outro ângulo, um modo de fugir ao convívio da comunidade de especialistas da qual se faz parte, pelo menos por interregnos de tempo. Mas que fique em segredo, ok?
Consumidores virtuais
Vocês também estão notando que há uma enxurrada de publicação sugerida no FB, uma intensificação de fluxos de mensagens pagas com finalidade comercial? Está mais comercial o fluxo. Cidadão ou consumidor? Consumidores e cidadãos? Lembrei do Canclini. Querem esmagar esferas, espaços e arenas públicas, não é? O consumidor é alguém a ser satisfeito ou não. Mas a satisfação ou não é algo que não diz respeito ao sentido da vida. Mercados nos anestesiam com mercadorias narcotizantes, estimulantes, é uma economia de desejo muito líquida, temos que fazer a crítica à economia política do desejo. Aí é Débord, é Benjamin, Bauman que não gosto muito, e nós mesmos. Não se contentar em estar satisfeito ou insatisfeito diante do consumo de mercadorias é o núcleo do desafio ético. A eticidade é a invenção de si para além da condição de consumidor. O consumo gera significações, pelos usos, mas, por outro lado, engole a chave de leitura do produto que vem junto à mercadoria, quase sempre embutido em seu design. Questões para pensarmos.
Tuesday, October 29, 2013
E a viatura invertida
Voltei com uma baita crise de sinusite de São Paulo. As ventanias frias castigaram a cidade. Lembro que estava passando na rua, em direção ao hotel, e achei muito simpático da parte dos rapazes que estavam avisando aos transeuntes e aos motoristas que um automóvel do Estado Democrático de Direito tinha sido lançado na rua pela força dos ventos. Ficaram lá acenando com as bandeiras para que a gente tomasse cuidado. Esses meninos são um exemplo de cidadania para o nosso país.
No batente com ódio do telefone que toca.
Ontem, entre 9 horas e 13 horas, estive numa reunião de trabalho. Depois, de 14 horas às 18 horas, revisando um livro para publicação. De 18 horas até duas da manhã reescrevendo a introdução do livro. Overdose de computador. Ao longo do dia, meu celular não parou de tocar, sete pessoas ligaram para mim insistentemente, cada uma com mais de 7 ligações. Depois de ter cumprido todas as minhas obrigações profissionais, realizado as metas de produção do dia (o que não inclui serviço de atendimento de telefonemas), resolvi às duas da manhã, horário livre, horário de recreio, ligar para as pessoas que tinham passado o dia ligando pra mim pra saber o que elas queriam. Fiquei ligando direto. Umas não atenderam, outras desligaram na minha cara, outras atenderam e me trataram mal. Fiquei sem entender nada. Eu nunca ligo para ninguém. Quase nunca, aliás. Detesto me comunicar por telefone. No dia que estou livre, na hora que estou no intervalo entre um dia de trabalho e o início de outro, eu ligo para as pessoas que se acham no direito de me ligaram mil vezes sem parar e não há reciprocidade esperada. O que é isso, dois pesos e duas medidas? Quer ser atendido e não quer atender? O bom disso tudo foi um dia desses um amigo que passou a manhã ligando para mim, quando eu liguei de volta, perguntei o que era, ele tinha ligado 13 vezes, aí ele disse que era só para jogar conversa fora. Eu falei que ia cobrar pela análise, aí ele desistiu.
O tempo
Gente, estou horrorizado. O que está a acontecer? Estou com alunos e alunas na minha sala de aula na graduação que nasceram em 1991, 1992, 1993, 1994 e até de 1995. O que é isso? Como alguém poder ter nascido na década de 1990 e ser meu aluno na universidade? Não estou entendendo.
Adoro ser academicista!
Eu adoro ser academicista. Tenho o maior tesão no academicismo. Habitar uma torre de marfim onde houvesse apenas uma biblioteca e nenhuma ação direta. É tudo o que eu queria. Sou um anarquista que tenho alergia à ação direta. Acho muito chula, pois exige se lançar com os corpos suados no turbilhão físico-químico, um horror, é muito promíscuo ter de se agarrar com a polícia, não? Viva os livros como objetos distantes e inacessíveis, enigmas a serem decifrados. Mas aqui pra nós, ironias à parte, e até para compreender ironia é preciso estudar, mas pessoal que não gosta de estudar inventa todo tipo de desculpa para não sentar a bunda na cadeira e queimar pestanas, até política e militância radical servem como desculpa para a demissão intelectual e adesão à indigência das prateleiras de ideias prontas dos gurus stalinistas-cristãos-budistas e seus livrinhos sínteses de auto-ajuda para o militante entender. Vão estudar, pessoal! (estudar é um direito humano) Ou será que neste momento o pessoal da ação direta está participando de conflito armado lá na favela?
O horror pelo telefone tocando.
Estou desde 8 da matina concentrado aqui num texto de introdução de um livro que a gente do LEV vai lançar, mas o meu telefone não para de tocar. É mais produtivo eu parar de produzir textos acadêmicos e ir atender telefone, né? Pronto, está decidido, pelo bem da República, vou passar o dia atendendo telefonemas, podem ligar. Assim a gente constrói uma Nação. Então, se, por acaso, alguém não estiver cumprindo metas de produção, pode ligar para mim, eu vou suspender as minhas para ficar conversando com pessoas que tenham suspendido suas metas de trabalho. Conversar sobre o quê? Falar mal dos vizinhos? Qualquer assunto "produtivo". Estou aguardando as ligações. Ou seja, parem de me ligar, vão estudar, vão trabalhar, vão fazer amor, mas parem de me telefonar, pelo amor de Deus.
Monday, October 28, 2013
No posto de gasolina, fala-se de casamentos...
Ontem, no posto de gasolina, três cervejas, por favor, o amigo com a cerveja na mão, o outro querendo se livrar e ir embora, ele dizia repetidas vezes, segurando o braço do amigo querendo se ir: "casamento é solidão sem privacidade". O cara estava super infeliz. Fiquei imaginando as pessoas com quem ele vive, devem sofrer tanto com um cara que se sente assim, não é? que falta de imaginação.
Não sou dono da minha cabeça.
Tudo se passa como se uma história muito antiga pudesse ser contada. Uma história imemorial. Mítica. Uma narrativa seria melhor dizer. Narrativa sobre pessoas que viviam nas ondulações, intangíveis, entre forças e impactos, desrevestidas, no máximo delineando em formas inseguras e passageiras que se desfaziam no mesmo momento em que eram acionadas, moviam-se pelos atos de olhar, fascinadas pelo encanto e pela impossibilidade do aprisionamento do corpo difuso do outro. Dar o nome ao nome, regra ao torto, acabamento ao direito. Nesse ponto eram duras quase figuras, essas pessoas narradas. Não se mostravam acanhadas nas matanças nem nas danças ininterruptas que a ela se interpunham. Iam a se apropriar do real, interagindo no firme propósito de impedir qualquer estabilidade hierárquica entre os viventes. Para elas, a maior riqueza era saber compartilhar as diferenças, distribuindo-as de um modo natural que não era uma reificação da entidade Natureza, mas sim, ao contrário, uma ode aos fluxos. Tudo de origem coletiva era de ficar sob vigilância deles. Passavam-se séculos em instantes, não havia o início, o meio e o fim como modelo de fazer. Pessoas de coração generoso, sorriso largo e capazes de amar o próprio destino. Povos raros, ligado na qualidade das conexões, das alianças, dedicando a maior das atenções para os tratos, os pactos e as imprecações entre viventes e moribundos. Gente de impecabilidade. Fazer o caminho desse povo é uma aproximação que faísca. Com o peito ao chão, deitada a honra, com a cabeça servida na bandeja das mãos, ofertada a inteligência. O nascimento é uma ação livre, prenha de potencialidades livres.
Uma chance para a paz.
Sou a favor da paz, do amor e da evolução espiritual da humanidade! Um dia poderemos todos e todas viver em abraços como irmãos e irmãs, e esse dia é hoje, pois as senhoras e os senhores que andam nos supermercados, nas repartições e no shopping center estão super desejosos de nos abraçar, pois o amor será a universalização dos princípios éticos que as classes sacerdotais, na infinita fé e no total sacrifício da materialidade do ser, serão capazes de nos oferecer, como uma benção, como uma chuva de espiritualidade que nos fará invisíveis. Sempre invisíveis.
No dia do servidor público...
Engraçado, hoje é o dia do servidor público, é feriado na universidade, mas eu passei o dia trabalhando, desde 8 da matina até agora, 20 horas, e ainda não terminei de fazer as coisas que estão por fazer. Ontem, domingo, trabalhei de 9h às 21h. No sábado, de 8h às 20h. Na sexta, preparei aula de 8h às 13h, e dei aula de 14h às 22h, direto, sem parar, sem intervalo. Essa estrutura de sexta, sábado, domingo e segunda nesse ritmo é permanente. E ninguém deu os parabéns pelo dia do servidor público. Acho que vou ter de tomar pelo menos uma cerveja bem gelada pra compensar.
Ódio ao toque do telefone
Eu tenho ódio no coração quando o telefone toca. Para certas profissões, falar ao telefone é algo imprescindível. Para a profissão de professor e pesquisador é totalmente inútil. Falar ao telefone para a gente é parar de revisar trabalhos, é parar de escrever artigos, é parar de dar aula, é parar de fazer o planejamento pedagógico, é parar de estudar, etc. Professor não precisa ter telefone, basta Facebook e e-mail, e olhe que Facebook, quando vira Central de Atendimento ao Consumidor, aí é o ó do boró. Eu detesto telefone mesmo, só falto ter um ataque do coração quando esse bicho estranho toca. Pense numa coisa do meu ódio, ponho a bílis para a fora. De dez telefonemas, 9 são para pedir algo sem dar nada em troca. Para cobrar sem cobrar de si. No meu caso, falar ao telefone é anti-trabalho. Totalmente, anti-produtivo. Os únicos colegas que falam ao telefone sem parar são aqueles que exercem o poder de mando, colegas que estão em cargos de chefia, que mandam na gente. Aí é telefone o dia todo. Mas não é o meu caso. Meu trabalho é dar aula, pesquisar, escrever, ler, orientar, revisar trabalhos (nada inclui falar ao telefone). Morte ao telefone. Eu tinha jogado fora. Chutado, esmagado. Tive que ter de volta, mas é só pra falar com minha filha, minha companheira, minha mãe, meu pai, minha família, e olhe lá. Não passem meu número e nem me liguem, exceto se for para me chamar para tomar uma cerveja e conversar entre amigos. Qualquer outra comunicação que não seja de amigo para amigo, sem exigir nada, sem nada querer em troca, na gratuidade, pra marcar de encontrar para celebrar a vida e jogar conversa fora, e neste caso eu suspendo tudo e vou, o resto que não seja isso, aí é por e-mail.
Conhecimento livre
"Conhecer é fazer, fazer é conhecer" (Maturana e Varela). Não há conhecimento que não esteja embasado em outro conhecimento. Passa-se de um conhecimento a outro conhecimento. De um fazer a outro fazer. A base de produção do conhecimento é coletiva. Uma língua, por exemplo. Uma língua é uma riqueza coletiva. Não há proprietários de uma língua. Há falantes reprodutores e falantes criativos da língua. Em geral, somos as duas coisas. Se não há proprietário da língua, qualquer coisa que se faça com ela, qualquer conhecimento que se utilize dela, precisa pagar tributo à dimensão coletiva da produção da riqueza. Por isso que o problema não é o problema da propriedade privada, o problema mesmo é o problema da riqueza privada. A riqueza privada é uma contradição entre termos, pois a base da sua produção é coletiva, está marcada pela interdependência sistêmica de todxs atores sociais. Do catador de reciclagem ao cientista, todo mundo está produzindo riqueza. Não haveria produção de riqueza de um sem o outro. O modelo da capitalização não esgota a inteligibilidade plural da ação humana. O modelo da capitalização é uma imposição que gera a desrealização coletiva da riqueza. Pensando alto.
Lá na Rússia
Ora, se numa província da Rússia, que está tomada pelas máfias, o filho de um membro da cúpula do governo provincial, braço direito do chefe do executivo, foi preso por tráfico de drogas, com vários quilos de cocaína, balança de precisão e tudo, além de quilos de maconha, numa residência juntamente com um outro traficante, e este outro respondeu sozinho pelo crime, o traficante que era filho do membro do governo foi liberado e saiu da cena do crime no automóvel do secretário de segurança pública dessa província lá da Rússia, o secretário foi deixá-lo em casa, e hoje o rapaz continua saindo nas colunas sociais de lá, como empresário de sucesso e futuro dirigente da província lá na Rússia. Isso acontece, né? Sem falar que tem um delegado da polícia civil lá nessa província da Rússia que mora num apartamento de 2 milhões de dólares na mesma cidade onde o traficante filho do membro da alta cúpula do governo provincial não foi preso ao ser flagrado traficando pesado. O tal delegado também tem uma cobertura lá em Miami. Sabe qual o segredo? Ele vende não-abertura de inquérito para filhos criminosos de camadas médias altas e altas, ele cobra entre 50 a 250 mil dólares para liberar um jovem criminoso de classe alta quando é por acaso preso. Por isso, os advogados das famílias ricas, quando um de seus queridos filhos é preso, já ligam para o dito delegado, pois ele faz o acordo, liberando os meninos. Por exemplo, um filho de um empresário importante da província foi preso por formação de quadrilha e roubo de carros de luxo, ele pagou 200 mil dólares para o delegado e foi morar nos EUA, onde está fazendo MBA em negócios. A Rússia tem dessas coisas. O único crime que as elites dessa província lá da Rússia não admitem que ocorra liberação é o crime de sequestro. Isto já foi motivo para cúpula de segurança cair. Há um acordo entre as famílias mais ricas da província em não admitir em hipótese nenhuma isso. Outro exemplo, quando um filho de um grande empresário foi sequestrado, havia participação de policiais como sequestradores, aí a cúpula da segurança caiu no dia seguinte. Governador da província lá da Rússia levou puxão de orelha em jantar com o PIB peso pesado da província. Há grupos de matadores da polícia prontos a agir no caso de sequestro de algum membro do andar de cima. É a única coisa que funciona na polícia lá da província da Rússia. Tenho lido ótimos trabalhos que pesquisadores lá da Rússia têm escrito sobre o mundo do crime de lá. Quem quiser depois a referência de onde eu tirei esse relato é só me enviar uma solicitação por e-mail que eu envio o PDF da etnografia do crime dos ricos lá na Rússia.
Amizade como modo de vida
Um dia desses, eu escrevi que não estava aqui para fazer amigos, que estava a escrever para não morrer. Hoje mudei um pouco de ideia. Estou sim aqui para fazer amigos, conquanto que não sejam assessores de governo. Estou muito incomodado com o fato dos indivíduos que compõem o campo governamental do poder se referirem a todos e a todas como amigos e amigas. Uma vez me perguntaram se eu ia deixar de ser "amigo" (era uma ameaça). Desde então fiquei cabreiro com essa história de "amigos". Mas para dizer realmente o que penso, estou aqui porque a política da amizade é a base de uma moral possível, é uma ética, fazer amizade é tornar o mundo mais ético. Instrumentalizar relações interpessoais para exercer o poder e chamar isso de amizade é intolerável. Amizade é este acolhimento mútuo que fazemos sorrindo, sem pedir tantas explicações, e, sobretudo, primando pela simetria das posições. As nossas situações de poder ficam em suspenso quando fazemos relações de amizade. Saudações aos amigos e às amigas.
Tuesday, October 15, 2013
Uma pergunta perdida
Alguém saberia me indicar um livro ou um site que nos ensine a identificar os sintomas de uma pessoa que está morrendo?
Sobre a polêmica das biografias
Como é que um país que não consegue lidar com a liberdade de escrita por meio do conhecimento da verdade das biografias de quem quer que seja que tenha ou tenha tido um lugar público negativado ou positivado quer lidar com uma Comissão da Verdade sobre graves violências cometidas contra seus cidadãos que resultaram em tortura e morte? Se não se aceita uma biografia escrita sobre alguém, por que o país haverá de aceitar que criminosos sejam punidos a partir de uma Comissão da Verdade? Uma coisa tem que ver com a outra, não? Muito sintomático este imbróglio a propósito de biografias no momento em que se estava a propor Comissões da Verdade para biografia do país.
ser inadequado
Quando a gente desconfia que os convites para parcerias não passam de mise en scène, que não há nenhum interesse em metas de produção de conhecimento ou de sua difusão, mas querem apenas fazer coisas para inglês ver ou eu recuso o convite ou então me faço inadequado. Tipo: esperam de mim que eu esteja me vestindo como assessores de governo, aí eu vou de all star preto, calça suja de pneu e óleo de motocicleta e camiseta de surfe Out Burst. Pelo olhar que dão dos pés à cabeça, noto que se arrependeram profundamente de ter me convidado e que nunca mais me chamarão. O olhar diz assim: "mas esse aí que é o professor da universidade?" Em geral, as pessoas estão usando roupas que imitam trajes que elas acham serem usuais para pessoas da alta sociedade, ou seja, usam imitações de imitações de imitações de roupas feias, caras e cafonas. Esse lance de subalterno, de desejo de subalterno pelo Maître, é o que mantém o sistema de dominação em pleno funcionamento, não é a polícia, sinto muito, mas não é. A polícia é o subalterno, é o olhar de decepção do subalterno, quando seus ícones fantasiosos de desejo do dominante são frustrados. Agora eu já sei, sempre me vestir de tênis e falar gíria ao telefone. Preciso afastar convites absurdos. Tipo convite do governo, entende? Como é que um vândalo como eu ainda recebe convite de governo para alguma coisa que o valha! Não tenho decência chapa-branca, meu povo! Assessores de governo, me esqueçam, pela amor de Deus! Vocês que são pessoas de bem, não convidem os baderneiros pra nada, ok?
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