Thursday, April 27, 2006

Não sou dono de minha cabeça, só do juízo!

Tudo se passa como se uma história antiga pudesse ser contada. Uma narrativa sobre pessoas que viviam nas ondulações, intangíveis, moviam-se pelos atos de olhar, fascinadas pelo encanto do apoderamento. Dar o nome ao nome, regra ao torto, acabamento ao direito. Nesse ponto eram duras. Não se mostravam acanhadas nas matanças. Iam a se apropriar do real, interagindo no firme propósito de impedir qualquer estabilidade hierárquica entre os viventes. A maior riqueza era saber compartilhar as diferenças. Tudo de origem coletiva é de ficar. Passavam-se séculos em instantes. Pessoas de coração generoso, sorriso largo e capazes de amar o próprio destino. Povo raro, ligado na qualidade das conexões, alianças, tratos, pactos e imprecações. Gente de impecabilidade. Fazer caminho desse povo. Com o peito ao chão, deitada a honra, com a cabeça servida na bandeja das mãos, ofertada a inteligência.

Wednesday, April 26, 2006

Para Andréa

Tempo corre e cristaliza os vícios! Quando li essa idéia pela primeria vez, não parei de usá-la em várias ocasiões para parecer sabido, ou melhor, para querer viver uma vida alcunhada, vida nomeada, portanto vivida como significativa. Depois, percebi a ironia da história. Não antes dos vícios, nem após tê-los emoldurados, dei-me conta de que o tempo corrido é desculpa esfarrapada. Tempo corre? Que maluquice é essa? De qualquer modo, não se pode depor contra a eficiência simbólica da motivação em se correr, porque o tempo corre; trata-se da cristalização da própria personalidade. Era uma vez o tempo cristalizando os vícios numa personalidade. E lá vou eu de novo em busca do tempo perdido. Enfim, o tempo corre. Cristaliza vícios. Gera matriz generativa. E chega o tempo de empunhar as ferramentas próprias para inventar o tempo, arborizar o Nome Dele, chamar para si todos os artifícios da nomeação. Modo de não esgotar o que se guarda em segredo. Manejo de vitalidade. Queria saber inventar mundos como Andréa.

Monday, April 24, 2006

Urgências!

Precisava a mulher urgente! Fazia-o com afinco de doidivanas no guardanapo de papel. Dedicação de mausoléu de mármore para vencer a hora avançada. Ferramenta do contexto em punho, afiada nas melhores escolas, e nos mais dedicados regimes. Para pensá-la, havia madrugado anos a fio, para querê-la, o intervalo bastava. Concebera-a mil vezes no desenho e redesenho do redemoinho. No afogueamento da água de briga. Imaginava-a linda e em contornos generosos. Quereria-a sempre. Nem murmúrio de gata em cio me fazia desapregar da tarefa. Mais sério do que ler A Gaia Ciência com meu cumpadre Marcelo de anos sem ver, tendo como companheira a delicada e liberal Germana. Era eu sim trôpego pela calçada. Dirigia o carro das chamas tortuantes. Carro explosivo de meu pai, o único disponível à época, estacionado a minha espera. À beira-mar, caminhavam em sentido oposto as impecáveis mulheres. Muito pouco precisas.

Saturday, April 22, 2006

Qual puta velha!

Houve tempo em que me considerava alguém sem comiseração. Quase implacável, distribuía moralidade pérfida de tão exemplar. Uma traição só podia ser punida com a morte. Com a pena capital da invisibilidade. Como eu era tolo! Hoje, depois de ter me esmerado no ato de cuidar de quem precisa de tudo, faltam-me forças para manter-me cruel e indiscernível. Expectativas tenho muitas, venho a ser estrutural depois de tanta embriaguez juvenil, procuro uma casa, uma família e, como preconizava Heine como sendo graça maior de Deus, sete árvores para enforcar sete de meus piores inimigos. Para que eu possa vê-los dependurados, enquanto tomo café da manhã. Quem são meus inimigos? Ninguém mais. Estou que nem puta velha. Vendo cafezinho para os antigos clientes, talvez em troca de uma palavra amiga. Acreditem se quiserem!

Sunday, April 16, 2006

Iminências

Era um quase redondo. Das uma às duas da tarde. Nem cansativo, nem apelativo. Eu ia e voltava nele como se volteasse com as mexicanas. Deixei-me abater pelo sono e esqueci-me da ressonância daquela ociosa vida. Ela se apoderou de mim em plena quinta-feira!