Sobre o caráter artístico da historiografia, Gélis ataca o rigorismo científico:
"Antes de mais nada, que é a história? A representação escrita dos acontecimentos passados. E que é um acontecimento? É um fato qualquer? Não, dirá o senhor, é um fato notável. Pois bem, como o historiador julgará se um fato é notável ou não é? O julgamento dele será arbitrário. Segundo o seu gosto e o seu capricho, como imagina - enfim: julgamento de artista! Porque os fatos não se dividem pela própria natureza em fatos históricos e em fatos não históricos. Aliás, um fato é um coisa extremamente complexa. O historiador conseguirá ver os fatos na sua complexidade? Não, não lhe é possível. Ele os representará sem a maior parte das particularidades que os constituem; por consequência, truncados, mutilados, diferentes do que foram. Quanto à relação dos fatos entre eles, o melhor é não falar. Se um fato histórico é produzido, o que é possível por um ou diversos fatos não históricos, e, como tais, desconhecidos, o meio para o historiador, desculpe-me perguntar-lhe, é assinalar a relação dos fatos entre eles? E em tudo o que lhe digo, Sr. Bonnard, suponho que o historiador tenha sob os olhos provas certas; em realidade, ele só confia em tal ou tal testemunha por motivos de sentimento. A História não é uma ciência, é uma arte, e só pela imaginação será possível obter qualquer êxito com ela" (Anatole France. O crime de Sylvestre Bonnard. Rio de Janeiro: Delta, 1963. p.221-222).
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